domingo, 29 de setembro de 2013

COMPOSITORES DO PERÍODO BARROCO

 
 

No caso português, a relação entre música e poesia conheceu um momento especial com a publicação do livro Arte de Música (1968). No posfácio que acompanha essa obra em Poesia II (1988), Jorge de Sena (n. 1919 – m. 1978) afirma que «as formas de expressão podem sobrepor-se e até fundir-se em algumas áreas de acção, mas não podem substituir-se em si mesmas, umas às outras». Esta regra aplica-se tanto a esse livro como a outros que, depois desse, procuraram estabelecer associações, por mera evocação ou sugestão, entre a música e a poesia. Livros como Música Antológica & Onze Cidades (1997), de Rui Pires Cabral (n. 1967), ou O Bosque Cintilante (2008), de Amadeu Baptistia (n. 1953), são bons exemplos de uma poesia onde a música aparece como elemento configurador da memória ou como força sugestiva de imagens capturadas pela palavra. Com Compositores do Período Barroco (Deriva, Junho de 2013), José Ricardo Nunes (n. 1964) acrescenta um novo capítulo a esta relação. Se aqui a música é relevante, menos não é o contexto biográfico dos seus criadores. O próprio título do livro distancia-se de uma conjuntura exclusivamente poética, remetendo-nos para um formato enciclopédico que os poemas irão desmentir. Quer pela sua extensão – nada vulgar para um livro de poesia nos tempos que correm -, quer pela própria estrutura dos poemas, este não é um livro fácil. Os inúmeros compositores invocados trazem para os poemas uma imensidão de referências a lugares, épocas, criações, apontamentos biográficos que por vezes se cruzam, outras vezes interpelam uma segunda pessoa à qual se dirigem e que nos parece ser o autor do livro. A referência a um Guia, onde a posteridade de cada um dos compositores ficou fixada a partir de meia dúzia de linhas capazes de resumir toda uma vida, transforma este livro num Guia alternativo. Um Guia poético, que a própria disposição dos títulos reforça. Ora, o que pode ser um Guia poético? É um Guia que sugere uma dinâmica difícil de determinar entre as vidas dos compositores e a do autor do livro, misturando-se este com aqueles num processo de estilhaçamento da identidade que se resolve, afinal, em algumas ideias muito claras sobre o sentido da vida, o problema da morte, as costuras da existência. Esta dinâmica torna-se evidente em alguns momentos especialmente curiosos, momentos onde poemas evocativos de séculos passados se deixam contaminar por elementos actuais. Assim, no poema Bernier, Nicolas (1665-1734) vamos encontrar uma bomba de gasolina, no poema Clérambault, Louis-Nicolas (1676-1749) há uma referência ao youtube, no poema Mondonville, Jean-Joseph Cassanéa de (1711-1772) fala-se de uma BASF, no poema Caldara, Antonio (?1671-1736) aparecem ansiolíticos, no poema Purcell, Henry (1659-1695) evoca-se Klaus Nomi… E depois encontramos poemas esclarecedores como este:
 
BULL, John
(?1562/1563-1628)
 
Penduraram-me na Biblioteca
e daqui assisto à passagem
do tempo. Crês ser comparável,
a minha situação, com a tua viagem diária
pela auto-estrada a caminho de Lisboa,
ainda que a desordem interior
ou a sistemática dificuldade em me dominar
modelem uma pessoa menos afim do que supunhas.
Asseguro-te que só em transgressão
podes inverter a marcha, acompanhar-me.
Orgulhas-te em conduzir uma máquina potente.
Alarga-se o espaço, a paisagem perde
nitidez vencida a distância, elementos
indistintos na vastidão. Sim, concedo
que o teu futuro se assemelhe ao meu
passado. Todavia, devo avisar-te
que a cada ano chegam novos estudantes,
sempre com a mesma idade e o receio
de serem subitamente ultrapassados.
Talvez mais adiante te depares com um
deles, desfeito numa curva ou reduzindo,
como tu, para pagar portagem.
 
O que este poema, como muitos outros do mesmo livro, senão todo o livro, torna evidente é uma espécie de monocórdia existencial que a arte, com suas exuberâncias, nuances, guerras, procura disfarçar. Mais do que as preocupações com a posteridade, mais do que um lugar a ocupar na história, o índice “interminável” de compositores do período barroco revela uma agonia permanente do homem no regaço do tempo. Há 600, 500, 300 anos, outros homens sentiam o que nós sentimos, tinham as mesmas frustrações, o mesmo desassossego, nutriam a mesma ambição, tornando muito provável que daqui a 300, 500, 600 anos outros homens venham a sentir exactamente o mesmo. Porque é de universalidade que estamos a falar, uma universalidade humana que a transformação da paisagem pode camuflar mas a história desvela.  O destino eventual que alguns versos sugerem, desde logo os reproduzidos na contracapa - «Depois até parece fácil, / que não podia ser / doutra maneira, já estava / escrito» -, não é necessariamente um fatalismo. É antes a guerra do criador contra o tempo, a guerra do compositor, seja ele do período barroco ou um simples compositor de poemas na medíocre actualidade portuguesa, uma guerra que o compositor sabe à partida perdida mas, por um qualquer impulso absurdo difícil de explicar, não se impede de travar. Só assim consigo compreender, se consigo, um outro pequeno grande poema como este:
 
PROVENZALE, Francesco
(1624-1704)
 
Aqui nos vamos
recreando a recriar

infâncias soturnas
ou felizes, rapazes
que acumulam faltas, homens
subindo na vida, imparáveis
descendo, velhos
de relance a relembrar, sopesar,

até novo golpe de vento
dar outra disposição
ao pó

e recomeçarmos.


sábado, 28 de setembro de 2013

ESCAPE FROM FORT BRAVO (1953)

Quando recebeu, em 1992, um Golden Boot Award (prémios que celebram o género Western), John Sturges (1910-1992) contava com um reportório invejável no domínio do Velho Oeste. Já me referi anteriormente a Gunfight at the O.K. Corral/Duelo de Fogo (1957) e a The Magnificent Seven/Os Sete Magníficos (1960), mas se olharmos para a sua filmografia ficaremos impressionados com a quantidade e a qualidade dos westerns que realizou. São exemplo The Walking Hills/Os Aventureiros do Deserto (1949), Escape From Fort Bravo/A Fuga de Forte Bravo (1953), Backlash (1956), The Law and Jake Wade (1958) ou Last Train from Gun Hill/O Último Comboio de Gun Hill (1959). Vejamos Escape From Fort Bravo/A Fuga de Forte Bravo (1953). Com um argumento escrito por Frank Fenton, que trabalhou também para grandes mestres como John Ford e Henry Hathaway, este filme não fica atrás de nenhum dos da "trilogia da cavalaria" fordiana. Estamos em 1863, em plena Guerra da Secessão, no território do Arizona. Fort Bravo é uma espécie de campo de concentração para prisioneiros confederados. O território está densamente povoado por mescaleros, temíveis guerrilheiros Apache que não olham a fardas, sejam elas azuis ou cinzentas. No centro das atenções encontraremos o Capitão Roper, superiormente interpretado por William Holden - falámos dele a propósito da obra-prima de Sam Peckinpah (1925-1984): The Wild Bunch/A Quadrilha Selvagem (1969). O filme começa com a chegada do capitão ao Fort, arrastando, puxado por uma corda, um prisioneiro confederado que tentara fugir. Em meia dúzia de minutos, a personalidade do capitão Roper fica traçada: militar inflexível, homem duro como uma pedra, mas com um curioso sentido de humor que nos permite supor nas suas atitudes um certo desprezo pela humanidade e uma noção do absurdo que contamina a existência. O filme desenrola-se em torno deste personagem, a partir de uma cena inicial que nunca mais o abandonará. Até porque o prisioneiro que ele traz amarrado a uma corda, como exemplo de implacabilidade para com os cativos, desempenhará um papel determinante a breve trecho. Entre as paliçadas que retêm os prisioneiros, um grupo de três homens organiza pacientemente a fuga. Ajudados pela amante de um deles, que chega ao Fort Bravo disfarçada, conseguem fugir. A fuga não seria possível sem a intervenção desta mulher, de seu nome Carla (Eleanor Parker), que nos propósitos de distrair o Capitão Roper acaba por se apaixonar por ele. A relação improvável revelará o outro lado do Capitão Roper, um lado humano, onde se esconde alguém que cultiva rosas nas traseiras dos seus aposentos para não esquecer a vida com que sonha. Um homem que, afinal, preserva um belo sorriso por detrás do rosto rígido com que procura manter a ordem e enfrentar o inimigo. Um dia fará sentido que no meio de tanta beleza um grupo de homens se tentem matar num desfiladeiro, desabafa o capitão, em tom de lamento, depois de um confronto com os mescaleros. Após a fuga de Fort Bravo, os três soldados confederados, na companhia de Carla e do prisioneiro que inicialmente chegara ao Fort puxado por uma corda, acabam por ser recapturados por Roper. Entraremos, então, numa segunda fase da narrativa, em que os inimigos se reaproximam para combaterem uma ameaça comum: índios. Mas se este elemento narrativo tem um interesse relativo quando comparado com inúmeros outros westerns, o mesmo não podemos afirmar do encontro singular entre o Capitão Roper e Bailey (John Lupton). Bailey é o jovem confederado que vimos ser violentamente arrastado na cena inicial. Duas vezes em fuga, duas vezes capturado. Traído pela cobardia, pelo medo, argumenta que há algo melhor na vida do que ser um durão, há coisas muito melhores do que procurar ser herói. E escreve poemas. Chegamos mesmo a ouvir um deles, lido pela voz do Capitão Roper:
Não sei
Dizem os axiomas e as fábulas
A fé era uma mancha de sangue
Onde um herói tombou
Ou seria uma selva
Onde duas crianças passeavam
À procura de violetas
De minhocas e de Deus?
Este poema, que é todo um exorcismo sobre os horrores da guerra, recoloca a coragem de Roper face à cobardia de Bailey. Afinal, um tem por fora o que o outro traz por dentro. E vice-versa. São mais parecidos do que julgamos. O heroísmo de Roper é a sua poesia, versos regados como as rosas que crescem nas traseiras dos aposentos, sonhos alimentados com pequenos gestos, um tipo de vida com que sempre sonhou e nunca conseguiu. A cobardia que impede Bailey de chegar à Virgínia, onde o esperam uma pequena ponte de pedra e o riacho que sob ela corre, acaba por ser tanto a sua salvação como a salvação de Roper. A esse reconhecimento assistiremos no final, depois de uma cena onde a tensão da guerra é filmada com uma economia de recursos inacreditável e superiormente eficaz.
Um agradecimento final: pude rever este filme graças à generosidade do amigo Carlos Gaspar, que descobriu este meu gosto pelo western e me fez chegar uma mão cheia de bons filmes para acrescentar a esta lista muito pessoal de 50 westerns que deve ver antes de morrer.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

ÁLVARO MUTIS (1923-2013)


UN BEL MORIR

De pé numa barca parada no meio do rio
cujas águas passam em lento remoinho
de lodos e raízes.
o missionário abençoa a família do cacique.
Os frutos, as jóias de vidro, os animais, a selva,
recebem os breves sinais da bem-aventurança.
Quando descer a mão
terei morrido no meu quarto
cujas janelas vibram à passagem do comboio
e o leiteiro virá em vão pelas garrafas vazias.
Para esse momento ficará bem pouco da nossa história,
alguns retratos em desordem,
umas cartas guardadas não sei onde,
o que foi dito naquele dia ao despir-te no campo.
Tudo se irá desvanecendo no esquecimento
e o grito de um macaco,
o fluir esbranquiçado da seiva
pela ferida casca do látex,
o chapinhar das águas contra a quilha em viagem,
serão assunto mais memorável do que os nossos longos abraços.

trad. Nuno Júdice


Nasceu em Bogotá (Cundinamarca). Poeta e romancista. Realizou os seus primeiros estudos em Bruxelas. De regresso à Colômbia viveu por temporadas numa herdade de café na região do Tolima. Segundo ele próprio afirma, toda a sua obra está destinada a celebrar e perpetuar esse território. Poesia exuberante, povoada de rios caudalosos e embravecidos, nela a linguagem flui misteriosa. A sua carreira literária começou em 1948 com a publicação em Bogotá de La balanza, seu primeiro livro de poemas, mas a edição desapareceu nas chamas dos incêndios de 9 de Abril de 1948, data em que foi assassinado o candidato presidencial Jorge Eliécer Gaitán. Nunca participa em política e declara-se monárquico. É um dos poetas mais importantes da América latina e como tal recebeu as mais altas distinções: Premio Príncipe de Astúrias das Letras 1997, Premio Reina Sofia de Poesia Iberoamericana 1997 e Premio Cervantes 2001. É grande amigo de Gabriel García Márquez e o primeiro leitor dos seus rascunhos. Vive no México desde 1956.

In Um País que Sonha - cem anos de poesia colombiana, org. Lauren Mendinueta, trad. Nuno Júdice, Assírio & Alvim, Março de 2012.

domingo, 22 de setembro de 2013

DODGE CITY (1939)

Com 580 salas de exibição, a Hungria teve uma produção muito abundante mas quasi sempre medíocre. O produtor Korda, o realizador Fejos, Michael Kertesz, que nos Estados Unidos se passou a chamar Curtiz, o argumentista e teórico Béla Balász, deixaram Budapest, logo que as suas personalidades se afirmaram, tal como uma plêiade de excelentes operadores de imagem e actores, para se instalar nos estúdios franceses, alemães, americanos, ingleses…
Georges Sadoul
Serve a epígrafe para introduzir Michael Curtiz (1886-1962), de seu verdadeiro nome Manó Kertész Kaminer, conhecidíssimo por sucessos internacionais tais como As Aventuras de Robin dos Bosques (1938) ou Casablanca (1942). É o segundo realizador de origem húngara que referimos nesta série dedicada ao western. O primeiro foi André de Toth, a propósito de Day of the Outlaw/Homens de Gelo (1959). Curtiz percorreu todos os géneros, denotando sempre uma preocupação comercial que não descurava outras dimensões da arte cinematográfica. Jean Tulard refere, a título de piada, os seus lapsos históricos com a língua inglesa: «Às voltas com uma cena de convento, pediu ao seu assistente amedrontado que lhe providenciasse para o dia seguinte twenty monkeys (macacos) ao invés de twenty monks (monges)». Tais lapsos não se vislumbram com facilidade nos seus filmes, sejam eles de horror, de guerra, comédias, policiais ou westerns. Neste domínio, um dos momentos mais inspirados deu-se com Dodge City/Vida Nova (1939). O filme tem no papel principal Errol Flynn, actor que Curtiz soube explorar como mais ninguém. Tantas vezes referida, pensada e reflectida a relação de Ford com John Wayne, seria igualmente interessante tentar perceber este casamento entre o autor de The Perfect Specimen/O Homem Perfeito (1937) e o galã dos filmes de espadachins. Dodge City, tal como o título indica, tem no centro da sua acção uma cidade. São muitas as cidades do Velho Oeste que o cinema norte-americano elegeu como santuários de uma era mítica. Dodge City é uma delas, localizada no estado do Kansas, derradeira fronteira do universo cowboy. Ainda hoje é conhecida como a capital mundial dos cowboys. Curtiz desenha uma caricatura do nascimento da cidade, exagerando nos comportamentos desordeiros e no ambiente caótico que ali se vivia antes da lei e da ordem serem instauradas. O comércio de gado ofereceu à cidade uma dinâmica para a qual as populações da segunda metade do século XIX não estavam preparadas, com tiroteios frequentes entre grupos rivais vindos do Norte e do Sul. Bares e locais de diversão cuja função seria desempoeirar os heróis que atravessavam o país guiando manadas infindáveis de gado bovino, transformaram-se no palco privilegiado do mundo do crime. Mas eram também o último reduto das feridas deixadas pela Guerra Civil. Este ambiente proporcionou o aparecimento dos senhores da ordem, autênticos deuses de carne e osso que ocupam, ainda hoje, lugar privilegiado na história do país. O Wade Hatton de Dodge City podia ser um deles, tal como o foram os irmãos Earp. A figura do bom cowboy, justicialista e corajoso, rectilíneo e moralizador, adquire na personagem interpretada por Errol Flynn uma transfiguração caricata que servirá de estereótipo em múltiplos westerns posteriores. É impressionante como no meio de tanto fogo cruzado nunca nenhuma bala lhe acerta, a não ser a bala do amor no par romântico que mais uma vez cumprirá na companhia de Olivia de Havilland:
Ele abandona o comércio de gado para se dedicar exclusivamente à implementação da lei numa cidade que vira nascer, crescer e na qual estava a tornar-se impossível sobreviver. Fá-lo contra tipos sem escrúpulos como Jeff Surrett (Bruce Cabot), movido pela boa vontade e por uma consciência moral à qual se torna impossível fugir depois de alguns trágicos acontecimentos. O imperativo categórico kantiano nunca terá tido tão popular representação. Todo este cenário aparece pintado no filme de Curtiz com um populismo indisfarçável, rendendo-se o realizador à acção puramente comercial ou a um sentimentalismo superficial quando a cena puxa à lágrima. Ainda assim, Dodge City é um filme notável para a época, com um ritmo narrativo impressionante, cenas bem desenhadas, interpretações consistentes. Não admira que tenha servido de modelo para incontáveis westerns posteriormente realizados.

sábado, 21 de setembro de 2013

O INCÓMODO DAS MEIAS VERDADES

Henrique Raposo escreveu uma crónica a que deu o título Se for de esquerda, a pedofilia é chique. O jornal Expresso, na sua versão on-line, deu-lhe guarida. A primeira premissa não é grave. Pouca gente estará interessada no que pensa e escreve Henrique Raposo, muito menos saberão sequer da sua existência. De resto, a comunicação social portuguesa está repleta de cronistas cuja imbecilidade é o maior argumento a seu favor num meio de imbecis. Só assim se compreende que um indivíduo patético como o é José António Saraiva possa manter-se director de jornais ditos de referência (para quem?) durante anos, ou que tontos na linha de João César das Neves vejam as suas tonteiras frequentemente amplificadas pelos media. O show biz da opinião dita as regras, os cronistas respeitam-nas dando azo a polémicas tão histéricas quão estéreis. Mas a segunda premissa com que abri o texto já me preocupa. Pensar que um dia alguém poderá andar a recolher informação sobre pedofilia e virá a deparar-se com a crónica de Raposo, tomando o que ali se diz à letra, sem sentido crítico (cada mais raro) nem discernimento, atrapalha-me as contas, deixa-me algo irritado e obriga-me a arrancar às teclas algumas considerações. Ao contrário do que já li, Henrique Raposo não argumenta que as pessoas de esquerda sejam pedófilas e simpatizem com a pedofilia. O que ele aponta é dois pesos e duas medidas na avaliação dos casos onde essa perversão sexual seja o centro das atenções. A primeira frase da crónica é clara: «No tema da transgressão sexual, a duplicidade de critérios do costume atinge o zénite: a direita é a enteada, a esquerda é a filha». Faltou acrescentar da puta. Tudo está errado logo de princípio. Primeiro, porque associar a avaliação de uma transgressão sexual às inclinações políticas de quem avalia é ofensivamente estúpido. Depois, porque supor sequer uma discriminação entre transgressor de direita e transgressor de esquerda coloca a própria suposição ao nível de um transtorno mental. Repare-se que perante esta argumentação, se uma das minhas filhas fosse vítima de pedofilia a minha preocupação primeira seria a de tentar perceber se o pedófilo era de esquerda ou de direita. Se fosse de direita, eu, enquanto homem de esquerda, requereria a castração do réu. Se posse de esquerda, eu perdoaria. Imaginem se fosse de esquerda e do Sporting. O mais certo seria pagar-lhe e agradecer-lhe. Mas se a preocupação ou o problema de Henrique Raposo é o tratamento dado pela comunicação social a casos de pedofilia ou de outro tipo de transgressões sexuais, então cabe-nos interrogar, a título de exemplo, sobre as razões que levaram à detenção ou à ruína política dirigentes socialistas envolvidos, sem prova, no caso Casa Pia. Não sei se por essa altura Henrique Raposo já colaborava com O Independente, mas deverá estar recordado dos pesos e das medidas então praticados pelos media. A pulhice, como diz, não escolhe rostos nem obedece a hierarquias, mas por vezes deixa-se alimentar pela falta de memória (o que é ainda mais estranho num historiador). Henrique Raposo vai mais longe, ao referir uma glorificação da transgressão sexual e até um culto da mesma pela esquerda europeia. Sabendo nós que há muito os comunistas praticam uma dieta à base de criancinhas, custa-nos perceber como não foi parar o próprio Raposo, transformado em fricassé, ao prato de um comuna. É que a sua argumentação é típica de uma criancinha mimada e invejosa, revelando uma moralidade de tal forma rastejante que de mais não precisamos para provar a superioridade moral da esquerda. Henrique Raposo sabe que só muito recentemente, praticamente a partir dos anos 90 do século passado, é que o mundo passou a olhar para a pedofilia enquanto “acto criminoso”, quando transformado em abuso sexual de menores, estando as crianças até então à mercê da boa vontade dos adultos, e que a chamada idade de consentimento é variável, e que a caça a meninos, tão facilmente detectável em inúmeras obras, de Platão a Thomas Mann, deste a Luiz Pacheco, não escolhe simpatias ideológicas, credos ou inclinações políticas. Sabe, mas não quer saber. Porque o que ele pretende com a sua crónica é disfarçar um tremendo incómodo, um incómodo do mesmo género daquele que nos poderia levar a falar de violência doméstica referindo ilustríssimas famílias da direita portuguesa que a comunicação social nunca quis ecoar. É o incómodo das meias verdades que, mais tarde ou mais cedo, acabarão por vir à superfície como à superfície veio o Ballet Rose que Raposo, provavelmente, nunca dançou.

sábado, 14 de setembro de 2013

GUNFIGHT AT THE O.K. CORRAL (1957)



Regressemos a John Sturges (1911-1992), depois da inevitável referência a The Magnificent Seven/Os Sete Magníficos (1960). Sturges merece um lugar ao lado dos grandes mestres do western, sejam eles John Ford (1894-1941), Anthony Mann (1906-1967), Howard Hawks (1896-1977) ou Henry Hathaway (1898-1985). Gunfight at the O.K. Corral/Duelo de Fogo (1957) é uma obra-prima do género. Muitas caras conhecidas no elenco. Numa terceira linha, Lee Van Cleef – o rosto mau de O Bom, o Mau e o Vilão (1966) e Tin Star/Sangue no Deserto (1957). Com presenças um pouco mais relevantes, lá estão Dennis Hopper - que já vimos em The Sons of Katie Elder/Os Quatro Filhos de Katie Elder (1965), Hang ‘Em High/À Sombra da Forca (1968) e True Grit/A Velha Raposa (1969) – e John Ireland, o magnífico Bob Ford de I Shot Jesse James/Matei Jesse James (1949) – filme de estreia de Samuel Fuller. Mas Duelo ao Fogo é totalmente das primeiras linhas, com desempenhos magníficos de Burt Lancaster no papel de Wyatt Earp e Kirk Douglas a dar corpo a Doc Holliday. São personagens míticas da história norte-americana, bastas vezes representadas com propósitos por vezes lesivos da sua grandeza. Basta recordar o Wyatt Earp (1994) de Lawrence Kasdan (1949), com Kevin Costner e Dennis Quais nos papéis aqui entregues a Lancaster e Douglas. Esta parelha é especialmente significativa no filme de Anthony Mann, que não se limita a enaltecer a coragem dos grandes mitos norte-americanos nem a recriar o histórico tiroteio de O. K. Corral. Convém recordar que Earp não é mera ficção, nasceu no Illinois em 1848 e tornou-se conhecido pela perseguição a foras da lei nas cidades de Wichita, Dodge City, Kansas, Tombstone. Foi nesta última que se juntou aos irmãos para combater Ike Clanton e a sua quadrilha num dos mais célebres tiroteios do imaginário western. Mann distancia-se dos factos conhecidos, talvez por não estar tão interessado em recriá-los como parece apostado em explorar as contingências de uma amizade improvável. Estranhos são os elos que ligam os homens, mais estranhos ainda quando estamos a falar de indivíduos da safra de Wyatt Earp e Doc Holliday. A relação de cumplicidade que se estabelece entre ambos transcende a compreensão dos deves e haveres que tantas vezes aproximam os homens. Há nesta relação uma economia de outro tipo, não necessariamente afectiva, muito menos interesseira. É uma relação reforçada pela percepção de que entre opostos, por vezes, estabelecem-se pontes de carácter que esbatem a diferença e tornam mais semelhante do que aparenta o diverso. Doc é uma espécie de filho extraviado, entregue ao jogo, desinteressado da vida, até por razão da doença que o persegue (tuberculose). Vive do jogo apesar da formação superior, erra por cidades onde os conflitos vêm ter com ele como ao mel vão as abelhas. Earp é o inverso, ou nem por isso. Reconhecemos-lhe o apego aos irmãos (família), a extrema rectidão, uma obsessão pela lei e pela ordem que Doc Holliday parece desprezar. Por outro lado, são ambos homens divididos entre o orgulho e a noção do dever, sobre eles paira a nuvem da morte iminente com a seguinte legenda: não importa quando vais morrer, mas como vais morrer. É isto que os torna verdadeiramente emblemáticos de uma ambivalência caracterizadora de todos os mitos dignos desse nome. O bem e o mal convivem neles com a naturalidade do osso e do músculo, do yin e do yang, sendo que no sangue nada mais circula do que a palavra. Sturges não resistiu a uma sequência, 20 anos depois, com o filme Hour of the Gun (1967). Mas nessa altura a realidade era outra, condicionando negativamente a leitura da relação sublinhada entre um homem da lei e um “fora da lei”. É esta relação que faz de Duelo ao Fogo um filme excepcional, uma obra-prima sobre a diversidade de trilhos que nos permitem chegar a noções consistentes de amizade e de justiça.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

OBITUÁRIO

 
Torel, Lisboa. 2012.


Para o Jorge Aguiar Oliveira

 

Os meus grafitis só farão sentido enquanto houver quem os pretenda extinguir. São esculturas de areia, afirmam-se pela efemeridade contra o universo da cultura nobre. Preservar um grafiti é contraproducente, chega a ser insultuoso para quem lhe dedicou o nervo da sua irreverência. Imaginem o que seria um museu de grafitis, com curadores e zeladores e restauradores. Um cemitério de gritos. Entrego aos caçadores do tempo a missão de me censurarem, enquanto me entretenho a imaginar obituários cautelosamente elaborados antes da morte dos artistas. Herberto terá já o dele guardado numa gaveta. Espera a oportunidade que a morte confirmará. A morte abre muitas portas. Manoel de Oliveira, Fidel, Mandela devem deixar muita gente ansiosa, muita gente aguardando a oportunidade de ver publicada as suas sábias e precavidas reflexões. Não quero que os meus grafitis sejam como estes obituários, eles são a antítese da precaução, sobrevivem de serem odiados e terem quem os odeie. Que os julguem sujidade é o melhor elogio que lhes pode ser feito.
 
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Testamento: HMBF

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

MOMENTO


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

«Não nos iludamos. Ou nos salvamos nós, ou ninguém nos salva.»


Ponta Delgada, Açores. 2012.

 
O nosso pessimismo quer dizer apenas isto: que em Portugal existe um povo, em que há, devoradas por uma polilha parasitária e dirigente, uma maioria que sofre porque a não educam e uma minoria que sofre porque a maioria não é educada.
 
Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira
Texto: Manuel Laranjeira

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

HOMER & LANGLEY

 
 
Nos states da primeira metade do século XX, os irmãos Collyer foram um dos alvos predilectos da curiosidade nova-iorquina. Raramente avistados, viviam numa mansão de família em plena Fifth Avenue. A fama foi motivada pela nuvem de mistério que sobre eles tombou, dois excêntricos personagens que coleccionavam todo o tipo de coisas, em doses industriais, rodeando-se de armadilhas contra possíveis invasores numa casa repleta de lixo. No dia 21 de Março de 1947, um telefonema anónimo denunciou a presença de um corpo morto na casa. O cheiro nauseabundo assim o indicava. Ultrapassadas várias dificuldades para entrar no território dos Collyer, a polícia encontrou Homer morto. O médico legista concluiu como causas da morte: subnutrição, desidratação e paragem cardíaca. Com uma multidão à porta do edifício, a polícia tentou então encontrar o irmão Langley entre toneladas de lixo ali recolhidas, amontoadas e espalhadas por todas as divisões. Somente a 8 de Abril conseguiram dar com o corpo de Langley, já parcialmente devorado por ratos, decompondo-se a apenas três metros de onde se encontrara o corpo de Homer. Foram removidas 140 toneladas de objectos da casa.
Esta histórica verídica está na origem do romance Homer & Langley (Porto Editora, Março de 2013), de E. L. Doctorow (n. 1931). Com obra publicada há mais de 50 anos, o escritor norte-americano chega finalmente às livrarias portugueses. E chega da melhor maneira possível. Homer & Langley é uma obra memorável. Partindo de dados históricos, o autor desenvolve uma narrativa especulativa sobre como poderia ter sido a vida daqueles dois irmãos. De algum modo transforma o mito urbano numa parábola universal, contando-nos, ao mesmo tempo, a história do século XX norte-americano através dos olhos de um cego. Homer Collyer, o narrador, oferece-nos uma perspectiva da transformação do mundo estranhamente perturbadora. Ele perde a vista progressivamente, tal como o mundo vai perdendo os seus sons, submergidos de uma forma indefinida no ruído crescente das cidades, e os seus cheiros, desaparecidos para sempre na inodora atmosfera da poluição. Homer é, no seu próprio corpo, a representação perfeita do mundo contemporâneo. Apesar de autêntica em partes incertas, a história destes irmãos acaba por se transformar numa parábola do exílio humano imposto pelas cidades e pelo desenvolvimento.
Regressado da Primeira Grande Guerra com traumas dificilmente classificáveis à época, Langley cuida do irmão cego com esmero e dedicação. Mas o seu interesse pelo mundo, sem quebrar o laço familiar indelével, leva-o a um comportamento de reclusão, de isolamento, de doentio exílio interior. Colecciona todos os jornais diários, espingardas, pianolas, gramofones, máscaras de gás, coloca no centro da sala um carro velho, rodeia-se de lixo como se pretendesse capturar o tempo nesse seu universo privado. Por vezes, Homer refere-se ao comportamento de Langley usando o termo paranóia. A sua grande e desesperada obsessão, «a recolha dos jornais diários com o objectivo último de criar uma edição de um jornal que pudesse ser lido para todo o sempre e fosse suficiente para qualquer outro dia no futuro» (p. 44), faz-nos pensar, pela excessividade que a intenção manifesta, na relatividade dos factos que o tempo arrasta consigo e na relevância que lhes damos sem nos darmos conta de que, afinal, é de facto no meio de lixo que vamos cumprindo a nossa invisibilidade.
Prolongando-se muito para lá do ano em que os irmãos foram encontrados sem vida, este romance provoca-nos com o carácter desmesurado das suas personagens, ao mesmo tempo que nos confronta com o desamparo das nossas vidas, embaladas pelo ritmo frenético do consumo e da produtividade. Homer refere um momento que marcou no percurso dos dois irmãos o início do abandono do mundo exterior, pressupondo com a afirmação uma condição de exilados que, no fundo, é a condição de todos os excluídos, de todas as aberrações existentes na vida quotidiana das urbes; mas é também, cada vez mais e cada vez mais intensamente, a das pessoas ditas normais, com suas histórias vulgares que, sem sequer darem por isso, coleccionam anualmente toneladas de lixo com que engordam vidas fúteis, desesperadas, opressivas.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

PERGUNTEM AO HOMEM DAS BARBIES

Camarada Van Zeller, o carpido das virgens ofendidas irrita pela ingenuidade demonstrada. Na Universidade de Verão do PSD, a mesma onde Relvas terá recebido doutoramento honoris causa, o Primeiro voltou a arrotar indigestões provocadas pelo Tribunal Constitucional. A inconstitucionalidade reiterada da coelheira, levou Passos a interrogar-se sobre questões em falta. “Já alguém se lembrou de perguntar aos 900 mil desempregados de que lhes valeu a Constituição até hoje?”, questionou. Ele podia ter-se interrogado sobre se já alguém se lembrou de perguntar aos portugueses de que lhes vale um Presidente da República? Ou simplesmente de que lhes vale um Governo de relações cortadas com a Constituição? Não. A grande dúvida do Coelho é se “Já alguém se lembrou de perguntar aos 900 mil desempregados de que lhes valeu a Constituição até hoje?” A questão, assim colocada, denota vários elementos positivos. Desde logo, a possibilidade de gerar emprego. Não se faz uma pergunta destas a 900 mil pessoas de pé para a mão, é preciso gente especializada e empreendedora, capaz de suportar as imolações de uma tortuosa estatística. Sugiro já que exportemos o conceito e contratemos os nossos 900 mil desempregados para irem perguntar aos 26 milhões de desempregados da União de que lhes vale a Constituição dos seus países. Pela primeira vez, o Primeiro manifesta alguma inteligência e criatividade no combate a este flagelo. Afastado o fantasma dos pastéis de nata, temos aqui um verdadeiro filão a explorar. Atacado de mixomatose, o Coelho andou durante meses a respirar deficientemente. Demos graças ao Verão e às suas Universidades pelo milagre da cura. Mais ainda por se mostrar Passos Coelho, finalmente, em perfeita sintonia com o seu público, para quem a Constituição, de facto, nada serve. Desenganem-se as virgens ofendidas. Qualquer vox populi com um mínimo de seriedade permitirá constatar o desapego dos portugueses relativamente a uma Constituição que lhes promete uma sociedade livre, justa e solidária, um Estado de direito democrático, baseado na separação e interdependência de poderes e um Estado subordinado à Constituição e fundado na legalidade democrática, com as tarefas de promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais; proteger e valorizar o património cultural do povo português, defender a natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e assegurar um correcto ordenamento do território; assegurar o ensino e a valorização permanente, defender o uso e promover a difusão internacional da língua portuguesa... (cito uma versão ainda não expurgada pelas leis do Acordo Ortográfico) Ora, vão lá perguntar aos portugueses de que lhes serve a Constituição na hora de pagar os manuais escolares dos filhos. E perguntem também aos bombeiros que andam a defender a natureza e o ambiente. E perguntem aos Privilegiados e aos Donos de Portugal e, já agora, perguntem também ao homem que tem seis mil Barbies. Pode ser que saibam responder.

NEBLINA


Saturado da actualidade e completamente inapto para lhe ser indiferente, refugio-me pela neblina. Meto a mochila às costas, uma garrafa de água dentro e ponho-me a caminhar sozinho. Enquanto caminho, penso no bem que me faz ouvir os meus próprios passos. É como adormecer sem ouvir as batidas do coração. Tão raro, tão raro. Detesto caminhar em grupo. As pessoas distraem-me do que julgo ser fundamental, têm uma tendência para a exuberância que me inibe e, ultimamente, torna-se claro que raramente conseguem partilhar espaços comuns em silêncio. Como na minha vida o silêncio se mantém ao nível do maná, prefiro lançar-me aos carreiros em solidão. Com ou sem objectivo demarcado, em busca de um lugar que possa considerar meu por nele me sentir integrado. Há lugares que exercem sobre nós um fascínio mítico. Ou porque já os visitámos e guardamos deles as melhores recordações ou porque nunca os visitámos fisicamente mas a eles nos sentimos ligados por uma espécie de elo inexorável. Se assim for, talvez seja preferível nunca chegar a visitar esses lugares. São como aquelas pessoas que admiramos tanto que tememos conhecê-las, correndo o risco de acabarmos decepcionados. Penso nisto e recordo-me de uma cena de um filme erótico que adquiriu no meu reportório pessoal de cenas em filmes eróticos um lugar cativo. Recordar-se-ão de Nine ½ weeks, um filme sofrível com Kim Basinger e Mickey Rourke a enrolarem-se de nine ½ maneiras diferentes. Pois bem, no meio de tanto erotismo a cena que trago mais viva na memória é a de um velho pintor a apreciar nas suas próprias mãos um peixe que acabara de pescar. O pintor vive refugiado numa casa isolada, junto a um lago, rodeado de árvores e na companhia da natureza. Não podendo imitar-lhe o modus vivendi, vou satisfazendo as minhas necessidades de isolamento revisitando velhos refúgios. A Quebrada de São Romeu é um deles. Esconde-se por detrás de um dos braços de terra que abraçam a baía de São Martinho do Porto. Protege-me da neblina que ali trai com frequência agitadas tardes de canícula, cumprindo os requisitos de um breve exílio com esmero e distinção. Nunca li W. H. Hudson, mas sinto uma certa afinidade quando Bruce Chatwin e Paul Theroux se lhe referem nestes termos: «Vazio, desolação, suspensão do intelecto: eram estas as coisas que Hudson recomendava quando estava em Londres, infeliz, e recordava a terra das coisas perdidas. O que é a Patagónia de Hudson? É o contrário de uma pensão em Londres». Ainda não descobri a minha Patagónia, mas gosto sempre de regressar à Quebrada de São Romeu para aí me reencontrar com o que perdi de mim próprio. Hoje, lá chegado, sentei-me nas pedras a ler um livro de poemas do moçambicano Eduardo White. Talvez influenciado pela leitura, certamente atingido pela paisagem, escrevi isto:

 

Não desesperes perante a farsa,
o vazio, a desolação.
Distancia-te apenas.

Constatada a insuficiência,
algo mais para lá de tudo
o que possas ter para dar
há-de ainda ficar aquém do desejo.

Uma vaga encolhe-se
no murmúrio da espuma,
és a vela vergada pelo vento;
através de ti uma barca
voga para portos seguros,
terras de coisas perdidas.

Se agora verificas a corrosão
do casco, e no meio da tempestade
começa a meter água o bote,
paciência. Calar, silenciar, fingir,

é tudo quanto nos sobra
para nos protegermos do amor.