Wojciech Fangor, Postaci
Dizem-nos que vivemos acima das nossas possibilidades. Por isso
cortam-nos no salário e aumentam a idade da reforma. Acusam-nos de privilégios
que nunca tivemos, metendo na gaveta “direitos adquiridos” porventura supérfluos.
Retêm o subsídio de férias e o décimo terceiro mês, flexibilizando
despedimentos, rasurando feriados, aumentando impostos, diminuindo o tempo de
férias. Queixam-se de uma população envelhecida, mas nada fazem em prol de uma
renovação demográfica. Antes roubam às famílias a estabilidade que as sustenta,
impossibilitando o convívio, a presença, a paz. As pessoas são quem menos conta
na ditadura dos mercados, disfarçada de democracia por nos ser concedido o
privilégio de assegurar a alternância democrática de quatro em quatro anos. A justiça,
mais facilmente condena um ladrão de galinhas do que um criminoso de colarinho
branco. Agravam-se assimetrias, a miséria passa a ser um dano colateral,
importa garantir a saúde financeira dos bancos e as mordomias dos seus administradores.
Porque os exemplos vêm de cima, temos uma presidente da Assembleia da República
reformada aos quarenta e dois anos. Leva para casa 7255€ de pensão por dez anos
de trabalho como juíza do Tribunal Constitucional, mais ajudas de custo no
valor de 2133€. Num país onde o salário mínimo é 485€, a presidente ganha num
mês o que a maioria dos trabalhadores precisa de um ano para receber. É só um
exemplo de imensos que poderiam ser dados. Tudo isto é público, tudo isto
círcula nas redes sociais, aparece nos jornais, vem à baila em debates
difundidos na rádio e na televisão. Mas está tudo bem, não podemos pensar que
não esteja tudo bem. Como podemos justificar que está mal se mais facilmente os
portugueses se envolvem à pancada por causa de um jogo de futebol do que por
este estado de coisas? Como podemos sequer supor que a injustiça social seja um
facto se mais facilmente os portugueses se excitam com tricas domésticas entre
figuras públicas do que com o assalto de que são diariamente vítimas? Facto
indesmentível é a decadência da nação. O povo volta-se para onde quer. Se prefere
o futebol, Fátima e fado a invadir a escadaria do parlamento reivindicando
direitos, justiça, equidade, é porque nada tem para si tanto valor quanto o
futebol, Fátima e fado. A crise actual afecta a chamada “classe média”, olhada
com inveja e desprezo pelos excluídos. Quem nada tem enraivece-se contra quem
pouco tem. O agravamento das assimetrias resulta, desta forma, numa espécie de
justiça para com as classes menos abastadas, que agora se vêem na companhia de
muito mais gente enquanto num topo inacessível os verdadeiros privilegiados do
país cantam de galo e cagam para as galinhas atiradas para a base da capoeira. O arrivismo que recrudesce é proporcional ao
caciquismo que se instala, com suas oligarquias cada vez mais protegidas por um
poder económico absolutamente desligado da sociedade. O trabalhador só existe
porque o empresário garante a sua existência, é esta a mentalidade de quem
manda. E o trabalhador aceita silenciosamente essa mentalidade, curva-se, não
diz que sim nem que não, encolhe os ombros, mete as mãos nos bolsos e segue
para o local de trabalho remoendo a raiva com sua mais ou menos apreciável
competência. Depois cai-lhe o Estado em cima, como se não bastasse já lhe ter
caído em cima o patronato, e cai-lhe também em cima uma justiça sempre mais
célere a resolver os assuntos do Estado do que as queixas das pessoas. As
queixas daqueles que ainda se queixam, porque a maioria já interiorizou não
valer a pena o esforço. Conformam-se com a sua condição inferior e desprotegida
como se vivessem num sistema de castas. Corrijo, não é como se vivessem. Vivem mesmo.
Vivem num sistema de castas organizado em função de apelidos e laços
familiares, credenciais valiosíssimas nesta sociedade onde o conhecimento e a
competência não são determinados pelo mérito pessoal mas recebem-se de herança
e por consanguinidade. Não obstante, está tudo bem, está tudo óptimo, ninguém
parece incomodar-se com o assunto. Pelo menos não tanto quanto incomoda a vida
doméstica de um professor de filosofia e de uma conhecida apresentadora de
programas de entretenimento.




