Mais informações: aqui.
domingo, 29 de abril de 2018
sábado, 28 de abril de 2018
UM POEMA DE HAROLD PINTER
O DRAMA EM ABRIL
E assim se tornou Março num museu,
E se abriram as cortinas de Abril.
Percorro a galeria vazia
Até ao último lugar.
Naquele cenário primaveril
Os actores armam tendas,
E num mínimo de luz
Começam a sua representação.
Os gritos deles no escuro pulverulento
Adensam-se com pesar vindos
Dos bastidores do Ambassadors.
Os objectos e os adereços à chuva
São a cinza da casa
E as pedras tumulares sem número
No meio do verde.
Anseio pelo intervalo,
Farto deste repertório.
1952
Harold Pinter (n. 10 de Outubro de 1930, Londres, Reino Unido - m. 24 de Dezembro de 2008, idem), in Várias Vozes, trad. Pedro Marques, Quasi Edições, Maio de 2006, p. 139.
quinta-feira, 26 de abril de 2018
COMO SE VENDE UM LIVRO?
O grande interesse nesta publicação, que reúne fotos e
entrevistas com os galardoados de uma década, reside no facto de testemunhar,
num registo verdadeiramente patético, o embaraço dalguns membros do júri mais
audazes quando, rumo a Cascais em demanda do nosso maior poeta vivo, Herberto
Helder, portadores do “ouro” do Prémio Pessoa 1994, encontraram o caminho de
volta na simplicidade inflexível da palavra de um pobre guardador do seu
crisol: «Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...»
Paulo da Costa Domingos, aqui.
quarta-feira, 25 de abril de 2018
POMBOS LERDOS
O meu talento é bater palmas
ao talento dos outros. Respiro mal,
sofro de bronquite asmática,
tenho excesso de peso e voz sumida.
Os meus olhos já pouco vêem,
graças a Deus, e as pernas tremem
sempre que caminho em público.
Às vezes escrevo estórias que ninguém lê,
poemas sofríveis, já pintei quadros,
fiz filhas, coleccionei canetas e desilusões,
mas tudo me saiu torto. Excepto as filhas.
Para ser perfeitamente inapto
deve um homem aplicar-se em alguns
dos seus ofícios. Também plantei árvores
que nunca deram frutos e escrevi livros
que ninguém comprou. Felizmente.
Talvez o meu talento seja andar
para aqui a fingir que vale a pena.
Deixo de fumar vinte vezes ao dia,
chego a casa, abro uma garrafa de vinho,
vejo um filme de cowboys e sonho
com rios a atravessar Monument Valley,
o cheiro da Índia colado à pele,
poder vaguear sem rumo na direcção
de coisa nenhuma, os relógios parados,
os calendários dobrados, as agendas unidas.
Não tenho, nunca tive, é provável que jamais
venha a ter, a coragem dos vagabundos,
desses com quem Cristo gostava de conviver.
Achas que posso ser o próximo ídolo de Portugal?
Sábado, 6 de Abril de 2013
Henrique Manuel Bento Fialho, in “Pombos Lerdos”, Medula, Abril de 2018. Poemas
de Ana Bessa Carvalho, F. S. Hill, Henrique Manuel Bento Fialho, João Alexandre
Lopes, Jorge Aguiar Oliveira, José Ricardo Nunes, m. parissy, manuel a.
domingos, Maria João Lopes Fernandes, Rui Almeida, Rute Mota, Tatiana Faia.
terça-feira, 24 de abril de 2018
A NEVE QUE TOMBA NO RIO
Quando Deus criou o mundo, é evidente que não anteviu os futuros laços de amizade entre o homem e o cão, ou talvez Ele tivesse razões concretas e, a nosso ver, insondáveis, para atribuir ao cão uma longevidade cinco vezes mais curta do que a do seu dono. Na vida humana há já sofrimento suficiente — do qual toda a gente recebe a sua parcela — no momento de nos despedirmos dum ente querido, e quando vemos aproximar-se o fim, inevitavelmente predestinado pelo facto de a pessoa em questão ter nascido algumas décadas antes de nós, é lícito que perguntemos a nós mesmos se será correcto darmos o nosso amor a uma criatura que será vencida pela senilidade e pela morte antes mesmo que um ser humano, nascido exactamente no mesmo dia, chegue sequer a sair da infância. É para nós uma triste lembrança do carácter transitório da vida terrena quando um cão, que há apenas alguns anos — os quais nos parecem somente alguns meses — não passava dum cachorro trôpego e amoroso, começa a revelar sinais inequívocos de velhice e percebemos que o seu fim não tardará mais de dois ou três invernos. Tenho de admitir que sempre me deprimiu ver envelhecer os cães de quem gostava muito, e que esse triste espectáculo acentuou consideravelmente a melancolia que afecta uma vez por outra todo o ser humano ao pensar nos desgostos que o futuro lhe reserva. Além disso, não esqueçamos o cruel dilema em que se encontram todos os possuidores de cães quando o seu animal de estimação é vitimado na velhice por uma qualquer doença incurável, e se coloca a questão fatal de saber se o quando o bicho deverá ser abatido sem dor. Por estranho que pareça, até ao presente o destino poupou-me a esta decisão, dado que, com uma única excepção, todos os meus cães atingiram uma idade vetusta e tiveram uma morte súbita e indolor, sem qualquer intervenção da minha parte. Contudo, ninguém pode contar com isto, e eu não censuro as pessoas sensíveis que, antevendo a inevitável despedida final, se abstêm de adquirir um cão. Não as censuro? Bem, na verdade, talvez o faça. Na vida humana, há um preço de infelicidade a pagar por todos os prazeres, pois, tal como nos diz Burns:
Os prazeres são como papoilas espalhadas,
Assim que as colhemos, o seu brilho fenece;
Ou como a neve que tomba no rio
Um momento branca — mas logo derretida para sempre...
Além disso, e eis o ponto fundamental, tenho na conta de medroso o homem que renuncia aos poucos prazeres toleráveis e eticamente irrepreensíveis da vida por receio de ter de pagar a conta que, mais cedo ou mais tarde, o destino lhe apresentará. O melhor que tem a fazer aquele que teme saldar a sua dívida de sofrimento é refugiar-se num sótão, qual solteirona, e aí murchar aos poucos como um bolbo estéril, incapaz de florir.
Konrad Lorenz, in E o Homem Encontrou o Cão..., trad. Paulo Faria, Relógio D'Água, Abril de 1997, pp. 251-253.
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Os mestres e as criaturas novas
segunda-feira, 23 de abril de 2018
[De manhã os rios atravessam a cidade]
De manhã os rios atravessam a cidade;
à noite os corpos regressam nus
a tempo de ver a luz da meia-noite.
Perguntam: ainda há mãos
que transportem lanternas?
O mundo trauteia canções de marinheiros,
assistimos ao milagre da reprodução dos naufrágios
O desânimo atravessa as ruas
entregue pelo carteiro
E eu respondo: ninguém ama
sem morrer
O entulho que suja
é o que faz o poema
Fábio Neves Marcelino (n. 1987), in Canto Irregular. Estudos
de Filosofia. Dois
volumes de tiragem reduzida precederam a publicação de Canto Irregular (Averno,
Janeiro de 2018). «Como todos os outros poemas deste livro (…), o dístico
dedicado a Antero é o resultado de uma impiedosa operação de desbaste»: Sobra
manhã / na noite de Antero. «Há no autor de Canto Irregular um
genuíno desconforto com a própria condição de poeta que também o singulariza
numa geração em que a regra é a auto-promoção mais ou menos descarada». Quem o
afirma é Luís Miguel Queirós, no Ípsilon de 2 de Março de 2018. Fala ainda de «despojada
concisão» e «sofrida decantação» a propósito desta poesia.
AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM
O escritor húngaro Sándor Márai (n. 1900 – m. 1989) ia
completar 89 anos de idade quando resolveu dar um tiro na cabeça. Tinha perdido
a mulher há três anos, assim como o filho adoptivo, vivia isolado, contaminado
pelo cancro. Deixara a Hungria em 1948, insatisfeito com o regime comunista que
então dominava o país. Viveu algum tempo em Itália até se fixar definitivamente
em San Diego, nos EUA. Apesar de escrever originalmente em húngaro, foi durante
muito tempo proibido no seu país. Só alguns anos depois de falecer, começou a sua obra a ser mundialmente traduzida e reconhecida como uma das mais estimulantes
do séc. XX. As velas ardem até ao fim (Publicações Dom Quixote, 1.ª edição,
Outubro de 2001) data de 1942. A Europa estava mergulhada na Segunda Grande
Guerra, com o Reino da Hungria a fazer parte do eixo que apoiava a estratégia
nazi. Uma das características geralmente associadas ao livro de Márai é a
nostalgia da multiculturalidade do Império Austro-Húngaro, aflorada em brevíssimas passagens que parecem indiferentes ao corpo do
texto. É bom lembrar, no entanto, que as duas personagens centrais do livro
provêm de contextos socioculturais diversos. O general Henrik é rico e nobre,
vive num palácio com Nini, a velha ama que o criou, filha do carteiro da
aldeia, fiel companhia de uma vida solitária. «Havia vinte anos que não
recebiam visitas» (p. 13), quando Konrád, amigo de infância, resolve reaparecer
passados 41 anos de uma ausência intrigante. No colégio que frequentaram havia
rapazes provenientes dos palácios da Boémia, dos solares da Morávia, dos
castelos tiroleses e dos palacetes de caça estirianos, das casas de província
húngaras, «rapazes eslavos de testa estreita, em cujo sangue se misturavam
todas as características humanas do Império» (p. 29). É neste ambiente
multicultural que germinará a amizade entre dois seres bem distintos. «Tinham dez anos quando se conheceram» (p. 29). Konrád era filho de um funcionário
público da Galícia com título de barão. A mãe era polaca, de origens humilíssimas.
O tema da amizade entre Henrik e Konrád é a dimensão mais evidente do romance, o
qual desenvolve amiúde meditações de carácter axiológico sobre esse valor que
tanto tem ocupado a filosofia ao longo de milénios de especulação metafísica. Apesar
das alusões platónicas e kantianas, a referência mais evidente será a Ética a
Nicómaco, de Aristóteles, segundo a qual um homem ama o seu próprio bem ao amar
um amigo. Mas há uma outra dimensão neste romance que extravasa a questão da
amizade. Grande parte do livro é um longo monólogo de Henrik sobre aquilo que
terá levado Konrád a desaparecer durante 41 anos. O monólogo ocorre durante o
jantar do reencontro, pautado pelo ritmo das velas a arderem até ao fim. Esta
marcação do tempo, altamente musical, remete também para algo que começa a
separar Henrik de Konrád quando ainda eram jovens. O primeiro foi educado para a espada, é um homem do real, um militar, a sua relação com o
mundo apoia-se nos factos, estes são a carne da realidade. Mas por detrás da
realidade há algo mais, há uma verdade que lhe escapa. Ele sabe disso e é isso
que o frustra. Konrád, ao contrário de Henrik, refugia-se na música. A música é
uma linguagem perigosa, dois corpos comunicam através da música de um modo simbólico
que Henrik não entende, mas Konrád desenvolve.
«A realidade não é a verdade. (…)
A realidade é apenas um pormenor» (p. 54), diz Henrik a Nini quando esta o
questiona sobre as vantagens do reencontro com Konrád passados 41 anos. Estão
agora na casa dos 70, a juventude passou, algo os separou e Henrik quer saber o
quê. Não lhe importam os factos, esses ele sabe-os, não lhe importa a
realidade, essa ele conhece. «Diz-me, o que há lá no íntimo?» —
pergunta Henrik a Konrád. Mas este praticamente não fala, limita-se a ouvir. Os
leitores saberão apenas a versão da história segundo Henrik, e a versão da
história deixa-nos no limbo entre os factos da realidade e uma intimidade
impossível de decifrar. «Não se trata de me defender, porque quero saber a
verdade, e quem procura a verdade, só pode começar a busca dentro de si» (p.
101). A verdade parece inacessível, está na morte. Pelo meio, o amor a uma
mulher, o tema da traição, a fuga, uma eventual tentativa de assassinato, acusações
de cobardia esgrimindo exemplos de coragem íntima, desinteressada, sacrificial,
a memória de alguém que já não existe, ou existe de certa maneira como elo
entre os dois, a vingança…
«Tudo o que outrora eram factos, tornam-se em pó e
cinzas» (p. 137). A verdade escapa aos factos porque a verdade é muito mais
profunda do que a realidade, esta observa-se à superfície, não determinada a
amizade entre dois homens. «Li e reli Platão» (p. 81), diz o general. Nota-se. Ele
sabe o que é uma ideia. Só a realidade se compreende, as ideias são modelos inalcançáveis
até à hora da morte, até à hora da verdade. «Sim, um dia chega o reconhecimento
da verdade: e isso significa a velhice e a morte» (p. 142). Muito mais do que
uma história de amizade, As velas ardem até ao fim é a partitura a partir da
qual ouvimos uma espécie de música que nos oferece simbolicamente um pouco de
verdade. A amizade é o pretexto para escutamos essa música composta por Sándor
Márai… em solidão. Ficamos sem saber por que voltou Konrád. Qual a sua versão
dos acontecimentos? O que o fez regressar? Qual a sua verdade? Tudo o que
sabemos é-nos dito por Henrik. Konrád terá fugido por cobardia. Mas fugiu de
quê? E em que é que a coragem lhe falhou, se é que falhou? Poderá a morte desfazer
o mistério?
sexta-feira, 20 de abril de 2018
quinta-feira, 19 de abril de 2018
PADRÃO
Presumo que quem relativize o problema falando de casos situados, possa começar a ver em tantos exemplos pelo menos um esboço de padrão:
Sabemos que matar por ciúme é um tema clássico da arte (o
do Otelo que mata Desdémona e as suas múltiplas réplicas na literatura, no
cinema, no teatro), o que demonstra que tem sido universal e intemporal.
Ler o resto: aqui. Eis mais um caso situado da justiça à portuguesa.
quarta-feira, 18 de abril de 2018
AS MIGALHAS DA DÚVIDA
Fantasiado de Grande Reportagem, o jornalismo da SIC achou
por bem expor publicamente gravações de interrogatórios. Imagens a que a SIC
teve acesso, anuncia o/a jornalista como quem anuncia um número de circo. O
animal feroz está no centro da arena, esbraceja, gagueja, leva as mãos à
cabeça, indigna-se, levanta a voz, dá murros na mesa… Há chicotes à sua volta
que são incapazes de o conter. O espectáculo está montado, as câmaras estrategicamente
apontadas, a gravação roda. Em nome de quê? Presumo que em nome da justiça. Mas
admito estar enganado. Sócrates já era um caso de estudo, agora é um caso perdido.
Quando digo Sócrates quero referir-me a tudo, da marcação cerrada à detenção, da
baba noticiosa ao asqueroso espectáculo que estamos condenados a assistir:
alguém que é julgado e condenado como num filme de cowboys. O problema de
Sócrates é não termos qualquer empatia pela personagem, o problema do caso
Sócrates e já nada do que atenta contra certa ideia de Estado de direito nos
indignar. Estamos dispostos a tudo, menos a aturar os posts de Bruno de
Carvalho no Facebook. A anedota em que este país se tornou, em que esta
democracia de fantochada e fachada se tornou, fica evidente neste caso. Um
ex-primeiro-ministro, corrupto ou não, movido pela vaidade, uma justiça movida
pela arbitrariedade, uma comunicação social movida pelo ódio. Mais segredo de
justiça, menos segredo de justiça, o que fica patente é um país de pantanas, a
seu tempo saudoso de velhos rigores, pois quando tudo vale nada tem valor. E a
justiça, neste momento, não tem valor algum no nosso pseudo-Estado de direito,
pois presta-se a que tudo lhe valha em proveito de presunções e ideias feitas.
É uma miséria absoluta aquilo que estamos a passar. Podem as pessoas andar
distraídas com fados, futebóis, telenovelas, indignadas com crónicas de
humoristas, entretidas com notícias de escolas com coberturas de amianto onde
faz frio e chove, hospitais sem condições, anúncios de aumentos na função
pública, reembolsos de viagens dos deputados, incêndios, seca, a crise no
Sporting e as toupeiras no Benfica… Podem. O que lhes sobra ao redor já não é
apenas paisagem ardida, é mesmo um regime em chamas. Que não existam bombeiros
à vista para nos socorrer é trágico, que tenhamos de perecer enterrados na
podridão é torturante. Alimentemos o espírito com as migalhas da dúvida: Como é
que a SIC teve acesso às imagens? Pagou por elas? Quem as vendeu? Quem lucrou
com o negócio? A quem mais convém este circo?
PASSAR O TESTEMUNHO
A minha filha Matilde comemora hoje 15 primaveras. Por estes
dias, o mais vulgar dos exercícios é tentar recordar-me de como era o mundo
quando ela nasceu. O meu era a duas cores, é tudo quanto consigo recordar.
Esqueci-me do resto. Mas lembro-me que foi no meu 15.º aniversário que a minha
irmã Manuela me ofereceu O Papalagui, e que esse livro me influenciou como poucos. A Matilde já leu o quádruplo dos livros que eu tinha lido com a idade dela, mas
parece-me importante passar hoje o testemunho. O Papalagui vai deixar de fazer
parte da minha biblioteca.
segunda-feira, 16 de abril de 2018
sexta-feira, 13 de abril de 2018
TERRA AFOGADA
Deus respondeu às nossas preces. Agora não nos queixemos, ou
o Senhor ainda fica confuso. E para confusão, basta a dos homens em terra
afogada.
terça-feira, 10 de abril de 2018
CAIR PARA DENTRO
Valério Romão (n. 1974) iniciou com a publicação de
Autismo (Abysmo, 2012) uma trilogia a que deu o nome de Paternidades Falhadas.
O da Joana (Abysmo, 2013) foi o segundo volume. A trilogia cumpre-se agora com
Cair Para Dentro (Abysmo, Fevereiro de 2018), romance onde a figura paterna prima
pela ausência. Virgínia, a mãe, e Eugénia, a filha, são as personagens centrais
deste livro. Chamar-lhes personagens centrais pode ser algo redutor. Na
realidade, são duas vozes narrativas que se interligam e revezam ao longo do
romance. A primeira parte, muito breve, introduz-nos no universo dessas duas
figuras femininas. “Com mãos” porque Eugénia ainda vai pela mão de Virgínia, «a
mãe que só vestia de preto desde que o pai se fora, viúva precoce sem direito a
cadáver» (p. 17). O que para uma poderá ser interpretado como perda, para outra
será abandono. Certo é que a ausência da figura masculina neste núcleo familiar
é um estigma desde o início. Pouco ficaremos a saber acerca desse pai
que não seja através da figura da mãe abandonada e da filha superprotegida. Mas
esta superprotecção materna, aprofundada num segundo e extenso momento
intitulado “sem mãos”, transporta em si mesma uma fortíssima ameaça.
Virgínia
não se vê apenas obrigada a ser pragmática, como a filha eufemisticamente a caracteriza.
Ela chega a ser claustrofóbica, fria e castradora, ele é a frieza da razão
impondo-se ao tecido emocional que afasta mãe e filha. Esta, sentimentalmente
fragilizada, aprenderá a superar as inclinações poéticas com o chicote da
filosofia. Sem mãos ambas, mãe e filha, porque o que ressalta da relação é o
desamparo de dois seres ligados pela consanguinidade, mas entregues a si
próprios na solidão das suas vidas.
Referências ao Facebook, ao Youtube e a
Lisboa permitem-nos situar o romance no tempo e no espaço, apesar dos hiatos que
Valério Romão introduziu numa narrativa não linear. A linguagem é sóbria, embora
o estilo penda amiúde para uma violência emocional segura de si mesma. Um episódio marcante, pelo que tem de definidor das personalidades
envolvidas, surge quando Eugénia desespera com a perda de uma gata. O que faz Virgínia?
«Trouxe-me um alguidar vazio para o quarto, meteu-mo ao lado da cama e
declarou, Eugénia, chore aqui para dentro, não desperdice nem uma lágrima,
acendi uma velinha a Santo Antão, padroeiro e protector dos animais e
disse-lhe, meu Santo, ajude a minha filha (…) a encontrar a Maria, prometo-lhe
um alguidar de amor e sofrimento medido em lágrimas se encontrarmos a gatinha
sã e salva, e, apontando para mim, chore, Eugénia, chore como nunca chorou, que
um alguidar deste tamanho ainda leva algum tempo a encher» (p. 61).
Subitamente, o «alguidar de amor e sofrimento medido em lágrimas» ganha uma
dimensão simbólica fortíssima nesta história. É como se ao longo do romance ele
fosse sendo preenchido com desastres e frustrações, a doença e a incerteza, amores
falhados, ruína e desprezo, agrura, ódio, medo, solidão, ressabiamentos,
abandono, desamparo, é como se ao longo do romance aquele recipiente de
sofrimento fosse não apenas um talismã da esperança, mas a urna onde mãe e
filha depositam os restos mortais de um pai ausente, cadáver perdido em memórias turvas.
Quando Eugénia chega a casa, vinda da festa de final de
curso, Virgínia diz-lhe: «a vida é isto, Eugénia, desordem, confusão, o mundo é
isto, a força das nossas mãos sem a tenacidade do coração é espúria e incerta e
a força das nossas mãos sem a lucidez da razão é violenta e boçal» (pp. 93-94).
Dirá mais este aforismo da mãe ou da filha? Será ele definidor de uma ou
de outra? Não poderá resultar do que numa se reflecte da outra? É neste jogo de
reflexos que Virgínia determina Eugénia e Eugénia determina Virgínia, ambas
reflectindo-se num alguidar repleto de lágrimas — «Animais à espera da redenção
pela espora…» (p. 114) —, lágrimas que podiam ser cinza, por no final ficarmos
também nós, leitores, sozinhos perante o afastamento das personagens.
Talvez seja este o maior conseguimento do livro, gerar entre as personagens e o leitor
uma cumplicidade que nunca chega a ser invasiva, para no final tudo reduzir a
um quotidiano que é em si mesmo retrato desgastado pela passagem do
tempo, um rosto a desfigurar-se na memória, a imagem devorada pelo
esquecimento. Se a doença de Alzheimer faz parte do processo, não é o que
define a narrativa. Ela é apenas mais um elemento, porventura derradeiro, nesse
complexo processo de esquecimento, perda e abandono que excede as fronteiras do
que pode ser definido enquanto doença. No limite, é da doença de se estar vivo
que aqui se trata: «o acidente que começou no hospital onde nos arrancaram à
palmada a primeira respiração» (pp. 193-194).
[UM PUNHADO DE VERSOS NÃO SERVE COMO MOEDA DE TROCA]
Um punhado de versos não serve como moeda de troca
como também não serve o meu punho direito fechado
ou a paralisia dos cinco dedos abertos em estrela
a terra verdadeira terra é só e apenas terra
mesmo a que a tua mão envolve e depois lança
sobre o esquife na fenda de seis palmos de fundo
o sermão apenas fecha o ventre rasgado da terra
mesmo que uns pobres versos ensaiem um canto
mesmo que as cinco pontas estreladas se quebrem
no fechamento em punho da minha mão direita
a terra fragmenta-se inconfessável.
Carlos Alberto Machado, in Registo Civil, poesia reunida, 2000-2006, Assírio & Alvim, Novembro de 2009, p. 283.
segunda-feira, 9 de abril de 2018
sábado, 7 de abril de 2018
UM POEMA DE TONINO GUERRA
ONDE VAIS?
A primeira palavra que ouvi
na minha vida
foi «onde vais?»
Num aposento sentados
em sacos de milho
eu e minha mãe.
Tinha apenas um ano
e não sabia ainda
o que eram as palavras
e onde me poderiam levar.
Tonino Guerra (n. 16 de Março de 1920, Santarcangelo di Romagna, Itália - m. 21 de Março de 2002, idem), in Histórias Para Uma Noite de Calmaria, trad. Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, Novembro de 2002, p. 78.
INCONTINÊNCIA SOCIAL
O incontinente social é alguém incapaz de se conter
nas redes sociais. O caso mais paradigmático de incontinente social é Donald
Trump, para quem um país pode ser governado via Twitter. Em Portugal, Bruno de
Carvalho é de há muito o mais conhecido dos incontinentes sociais. Governa um
clube de futebol via Facebook. Lamentavelmente, a incontinência social tem os
seus adeptos, praticantes, e causa estragos. O principal dos estragos é a
subversão lógica patente em qualquer discurso. Bruno de Carvalho diz que
ninguém está acima do Sporting, mas na prática não faz outra coisa senão
colocar-se ele próprio acima do Sporting. O mais recente conflito com parte
considerável do plantel da equipa de futebol profissional podia ser também
interpretado à luz das relações laborais. A velha metáfora do Senhor e do
Escravo aplica-se aqui, com suas nuances muito específicas. O Senhor
julga que o Escravo lhe deve não só obediência como fidelidade, mas mostra-se
incapaz de aceitar que para tal o Escravo tem, pelo menos, o direito de
sentir-se respeitado na sua servidão. Bruno de Carvalho deve julgar que cada um
dos jogadores que se manifestaram descontentes com as suas declarações não tem
para onde ir se o Sporting não lhes der guarida. É como aquele patrão que diz "ou estás comigo ou contra mim"; "não gostas, venha o próximo"; "aqui quem manda sou
eu, tu comes e calas". Onde devia haver cooperação e lealdade passa a haver desconfiança
e desagregação. É este o resultado da incontinência social de Bruno, o rapazola
que se julga protagonista sem conseguir compreender o seu verdadeiro lugar. No fundo, é um incapaz. E
pouco há de pior num ser humano do que a constatação de que não percebe o seu verdadeiro
lugar.
sexta-feira, 6 de abril de 2018
O PEQUENO-ALMOÇO
A dois passos de Sogliano o dono da loja onde se vende de tudo comprou uma pequena igreja abandonada na floresta que lhe serve de armazém para as pias a vender às pensões da praia.
Um domingo de manhã abre o cadeado e fecha-se lá dentro para contar os montões de pias que cobrem as paredes e os frescos corroídos pelo bolor.
Acabada a contagem vai descansar no degrau do altar e descobre que ali ao pé há um tabuleiro com uma chávena fumegante e duas fatias de pão com manteiga. Olha em redor de olhos arregalados porque precisamente nessa manhã não tinha tomado o pequeno-almoço. «Bem, entrei sozinho e fechei-me à chave cá dentro. Então quem terá sido?» Desde esse dia a sua cabeça está cheia de preocupações que antes não tinha.
Tonino Guerra, in O Livro das Igrejas Abandonadas, trad. José Colaço Barreiros, intr. Vicente Jorge Silva, Assírio & Alvim, Maio de 1997, p. 27.
terça-feira, 3 de abril de 2018
UMA PERGUNTA
Quando é que um Governo terá a coragem de acabar com os
contratos de associação?
Pergunta o Eduardo Pitta, aqui.
Resposta possível: quando no Governo não estiverem partidos que são máquinas de distribuir empregos.
segunda-feira, 2 de abril de 2018
SEMENTES
É claro que me lembro. Havia dois atalhos
pelo meio do pinhal, direcções espantosamente
precisas, animais que não voltei a ver.
Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,
havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio
para tratar certas lesões, uma peça vital
do equipamento. Havia girassóis à volta da casa
e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma
de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro
que era preciso saltar, a manhã gloriosa
da escalada, a ciência das grandes migrações.
Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.
Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.
Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.
Vítor Nogueira (n. 1966), in Cantochão (2017). Publicou o
primeiro livro de poesia, A Volta ao Mundo em 50 Poemas, em 1999. Praticante de
uma linguagem sóbria, sem resquícios de exaltação emocional, opta amiúde por um
registo narrativo focado na derrocada da província e do que poderia sobreviver
de certa vivência rural em contextos urbanos. Fazendo uso de alguma ironia,
tende em diversos momentos para um olhar nostálgico desconfortável, ou seja,
inquieto perante o papel da memória na preservação do passado. «A poesia de
Vítor Nogueira é do lado da hiponímia, isto é, faz-se porção a porção, já que
nenhuma coisa visível se vê toda juntamente. Além de que o que não se vê,
residual, não cessa de se perseguir, por isso não se destapa a cortina» (Maria
Conceição Caleiro, Público, 28 de Dezembro de 2011).
CANTOCHÃO
Apesar de ter começado a publicar em 1999, o nome de Vítor
Nogueira (n. 1966) apenas começou a tornar-se familiar junto dos leitores de
poesia com o livro Senhor Gouveia (Averno, 2006). Nítidos e narrativos, os
poemas desse livro resgatavam uma certa ruralidade para a poesia portuguesa. A
ironia era também marca visível, particularmente no modo como caracterizavam a
província e seus tiques na figura da personagem que emprestou título ao livro. Colectâneas
posteriores ampliaram o panorama geográfico desta poesia — natural de Vila Real,
o autor tem abordado amiúde a cidade de Lisboa —, a qual se manteve fiel,
porém, a um dizer sóbrio, intimista, relacionado com a experiência pessoal de
lugares e de situações. Independentemente da familiaridade dos cenários
escolhidos, julgo ser precavido guardar alguma distância quanto a chavões como
o de “poesia da experiência” relativamente aos poemas de Vítor Nogueira. Mais
estimulante será considerá-los a partir de uma perspectiva que se concentre na
natureza do sujeito poético e na sua relação com a memória. Os dois conjuntos
de Cantochão (Averno, Dezembro de 2017) colocam-nos esse desafio, até pelo que
de indiciador de uma certa dissimulação possa estar incluído nos títulos
respectivos: Primeira Voz e Segunda Voz.
Os poemas dirigem-se quase invariavelmente a uma segunda
pessoa, não sendo certo quem ela possa ser. No poema Vozes, da primeira parte
do segundo conjunto, essa segunda pessoa é o próprio sujeito poético: «Pois
bem, / sujeito poético, estás de novo dentro / de um maldito livro, a falar com
vozes / que não distingues» (p. 65). Quem será este sujeito? De onde virão
estas vozes? Sentimo-nos tentados a responder referindo «os vários eus»
invocados no poema Cantabile ou «uma inteira multidão num corpo só» do poema
Tutti, ambos do primeiro conjunto. Estes “eus” não são exteriores ao sujeito,
eles vivem dentro do sujeito, perduram na memória do sujeito. Por vezes, são como
fantasmas. No fundo, são a memória de um eu que já não é, são a sombra de um
ser em transformação, são a consciência interna dessa transformação, a consciência
de haver sido qualquer coisa que se perdeu, que se esfumou com o tempo:
«Fragmentos das nossas memórias / como luzes dirigidas ao futuro» (p. 11),
lê-se no primeiro poema.
O passado, a infância, a juventude, ou melhor, as
memórias do passado, da infância, da juventude, surgem estimuladas pelo
regresso a um lugar, uma rua, uma casa que fica nessa rua, o sótão de uma casa
que fica nessa rua onde outrora viveu um sujeito real, agora sujeito poético:
«Mas o tempo transformara / a rua da tua infância. Eram já outras as vozes /
que no ar se desfaziam» (p. 21). A complexidade desta relação pode ser
associada aos ritmos e movimentos que oferecem título aos poemas do primeiro conjunto,
poemas no interior dos quais encontramos imagens repetidas como ecos
provenientes de uma época ausente. Repletos de interrogações, estes poemas
procuram responder ao dilema que toda a espécie de nostalgia coloca: valerá a
pena olhar para trás? Não se trata de tentar reconstituir o que
foi extinto, não se trata sequer de revisitar um lugar que se perdeu. Pelo
menos não tanto quanto se tratará de destacar a natureza enclausurante da
memória, tal como sugere a epígrafe roubada a Bernardo Soares: «Para
onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?»
Não há como fugir da memória, ela persegue-nos. Ela
persegue um sujeito poético que, em aparência, é uma espécie de fuga (novamente
a conotação musical) do sujeito ele mesmo: «Quem és tu e onde estiveste a vida
toda?» (p. 45) Jogo de identidades, camuflagem, justaposição de vozes, «a
poesia é uma cadência, / há muito que nasceu entrelaçada com a música» (p. 80).
E o que podemos dizer que é a música senão o eco da respiração no interior do
tempo? Remexendo o passado, Vítor Nogueira penetra o mistério da fantasmagoria
identitária em poemas muito mais reflexivos do que tem sido costume na sua
poesia: «Quem és tu, por trás da sombra, nesta foto / rejeitada que chegou à
nossa mão? / Como eram os teus sonhos? Quem te amou? / Quem te chora desde o
dia em que morreste?» (p. 91) Este tu a quem se dirige é um eu anulado pela
passagem do tempo, extinto, propriedade de uma memória onde pereceu sem qualquer
hipótese de ressuscitar, é poalha, sombra, fantasma, o eco de uma palavra escurecida,
pronunciada como que por segundas vozes em tom directo, isto é, sem refrão.
domingo, 1 de abril de 2018
BOA PÁSCOA
Um pormenor das imagens que nos chegam de Gaza é a ausência de perspectiva do lado israelita. Vimos sempre árabes furiosos, com paus e pedras, mulheres e crianças muçulmanas a chorar, vimos bandeiras do Hamas. Nunca vimos militares israelitas a disparar, jamais o rosto furioso, odioso, de um militar israelita. Será que o não têm? Perante isto, é-me indiferente que a ONU se reúna de urgência para discutir Gaza. Preferia que se reunissem em Gaza para discutirem o que andam a fazer no mundo.
MUNDO ÀS AVESSAS
Razões várias afastaram-me da rede por uns dias. Logo
agora, que tanta e tão estimulante matéria andava pelo ar a pedir comentário.
1. O meu Sporting disse definitivamente adeus ao
campeonato. Ainda não será desta. Não me preocupa, é só mais um campeonato
perdido. O que me preocupa verdadeiramente é a previsibilidade do resultado
antes do jogo em Braga. Alguém acreditava que o Sporting ia ganhar aquele jogo?
2. Feliciano Barreiras Duarte deixou de ser assunto. Já
ninguém parece ter paciência para estes cagões, saloios que se passeiam de
peito cheio pela aldeia e apenas são esfuracados pelo bico da verdade quando se
aproximam da capital. Continuem pela aldeia com seus pergaminhos de pechisbeque,
ninguém os incomodará.
3. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em
Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em Gaza. Violência em
Gaza. Violência em Gaza… Quantas mais vezes teremos de ouvir isto?
4. Quando cheguei a Lisboa, em 1992, a noite já não era o
que foi nos 80. O Frágil lá estava, entrei algumas vezes, mas saí quase sempre
sem perceber a piada. Preferia as Primas, ali ao lado, onde a troco de uma
moeda de 50$(?) podia ouvir China Girl, comer tremoços, beber minis. E ler
Pascal.
5. Temer diz-se perseguido por forças obscuras na justiça
brasileira. Tenham medo, tenham muito medo.
6. Foi aberta a guerra de embaixadores com a Rússia. A
Cambridge Analytica e o Facebook resolverão o problema.
7. A estação espacial Tiangong-1 vem por aí abaixo, em
queda livre, prevendo-se que entre na atmosfera este Domingo. Algures, alguém
verá Deus. Outros dirão que devia cair em cima de quem a pôs lá no alto. Os
meus desejos são inconfessáveis.
8. Depois das acusações de plágio que envolveram Tony
Carreira, tem sido um ver se te avias. No Festival da Canção era para todos os
gostos. Eis que a moda chega ao cinema. João Botelho, esse mesmo, o de “Os
Maias” e “Filme do Desassossego”, foi agora acusado de plagiar um romance de
Deana Barroqueiro. Não fugiu à questão, dizendo-se altamente inspirado pelo
livro em causa, numa carta que, pelos excertos revelados, mais parece um acto de
contrição esfarrapado de um aluno do 5.º ano. Ao que parece, no filme “Peregrinação”,
que não vi, surgem personagens que são pura invenção da autora de “O Corsário
dos Sete Mares”, que não li. Portanto, daqui talvez se possa concluir que o
filme vendido como adaptação da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é,
afinal, uma adaptação não autorizada de “O Corsário dos Sete Mares”. Anda tudo
doido.
9. O Tejo tem vindo a ser sujeito a consecutivos crimes
ambientais que passam impunes. O título da notícia é exemplificativo do
respeito pela Natureza que as leis deste país consagram: Tribunal substituiu
multa aplicada à Celtejo por repreensão escrita. Tal como se fazia na escola
primária. Para a puta que os pariu.
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