domingo, 31 de janeiro de 2021

UM POEMA DE PAUL CELAN

 


GRÃO-DE-LOBO

...Oh,
Flores da Alemanha, oh, o meu coração torna-se
Um cristal infalível que 
Põe à prova a luz quando a     Alemanha...
(Hölderlin, "Vom Abgrund nämlich...")

...como nas casas dos Judeus (para lembrança
da Jerusalém destruída) sempre alguma coisa
tem de ficar inacabada...
(Jean Paul, "Das Kampaner Thal")

Põe o ferrolho à porta: há
rosas na casa.
sete rosas na casa.
o candelabro de sete braços na casa.
O nosso
filho
sabe isso e dorme.

(Lá longe, em Michailowka, na
Ucrânia, onde
eles me mataram pai e mãe: que
floria aí, que
floresce aí? Que
flor, mãe,
te fazia doer aí
com o seu nome,
mãe, a ti,
que dizias grão-de-lobo, e não
lupino?

Ontem
veio um deles e
matou-te
outra vez no
meu poema.

Mãe,
mãe, que
mão apertei eu
quando com as tuas
palavras fui para
a Alemanha?

Em Aussig, dizias tu sempre, em
Aussig junto
ao Elba,
durante
a fuga.
Mãe, aí moravam
assassinos.

Mãe, eu
escrevi cartas.
Mãe, não veio resposta.
Mãe, veio uma resposta.

Mãe, e
escrevi cartas a —
Mãe, eles escrevem poemas.
Mãe, eles não os escreveriam
se não fosse o poema que
eu escrevi, por
ti, pelo
amor
do teu
Deus.
Bendito, dizias tu, seja
o Eterno, e
louvado, três
vezes 
Amen.

Mãe, eles ficam calados.
Mãe, eles consentem que
a ignomínia me difame.
Mãe, ninguém
cala a boca aos assassinos.

Mãe, eles escrevem poemas.
Oh,
mãe, quanto
chão do mais estranho dá o teu fruto!
Dá esse fruto e alimenta
os que matam!

Mãe, estou
perdido.
Mãe, estamos
perdidos.
Mãe, o meu filho, que
se parece contigo.)

Põe o ferrolho à porta: há
rosas na casa.
sete rosas na casa.
o candelabro de sete braços na casa.
O nosso
filho
sabe isso e dorme.


Paul Celan, in A Morte é Uma Flor, trad. João Barrento, Edições Cotovia, 1998, 2.ª reimpressão, Maio de 2017, pp. 29-35.

O PALHINHAS & CA.

 


O Palhinhas & Ca. 
colecção periódicos locais/mensais
número 67
directório colectivo: José de Matos-Cruz, Joaquim Jordão, António Viana, Álvaro Biscaia
Janeiro de 2021
 
 
Tenho dúvidas, p. 11.


sábado, 30 de janeiro de 2021

CANDLELIGHT VIGIL (1999)

 


 [tema do vibrafonista Steve Nelson para Prime Directive, do quinteto de Dave Holland]

Leio num poema evocativo de Mozart que talvez a nossa vida seja um mau instrumento, mas viver é música! A que vida se referia o catalão Màrius Torres? Talvez estivesse a falar-nos de si , como é mania dos poetas sentimentais. Haverá outros? Baldo-me às dúvidas adoptando um jogo frugal. Quero saber que instrumento a minha vida é. Que mau instrumento será a minha vida? O melhor guitarrista que alguma vez ouvi tocava com uma guitarra construída a partir de uma caixa de charutos. Invejei-o, talvez pudesse também eu inventar o meu próprio instrumento. Um instrumento feito de ar que não fosse de sopro, um som de sossego como o vazio dentro de nada. Um que reproduzisse a vibração da matéria morta. Um instrumento inumano, de preferência, com a capacidade de me transportar do lugar onde estou fora de mim para um lugar dentro de mim onde nunca estive.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

DEPOIS DO MEIO DIA

 


 

quando o toque do sino toca,
depois do sino tocar,
o toque toca o sino
 
que toca o toque
do som do sol em véu
e vertigem,
que toca a nuvem
 
os olhos, as mãos,
o corpo unge um papel velho
 
e todas as manhãs a casa vaza
sem que a areia se emudeça
 
as ruas insinuam uma ausência repetida
num mapa desenhado a luz fria,
enquanto as copas das árvores
se despem a rasgar o estalo
das folhas húmidas
até ao tempo no chão
como uma crosta solta
ao redor do vento cínico
 
laje sobre laje
loja sobre loja
nos mesmos vultos
deformado o rosto
da sombra de um céu mentiroso,
lavrando epitáfios
nos mesmos jornais atirados
ao lixo,
curiosas figuras
soltas em fotografias
 
do berço ao heroísmo
sobra o nome das ruas
onde os prédios sobem
a passo de neve:
aqui uma viga,
um ano mais alto,
logo a janela frígida,
a sala e a cama
recortadas nos telhados
da reverberação urbana
 
porque logo é tarde,
acima de tudo
porque logo é sempre já tarde
como o infixo absoluto
tivesse já chegado ao meio dia —
 
já caiu a hora da luz completa,
do silêncio sem notícia,
a hora sem casca
do fruto acabado,
orla azul de gelo
a atravessar os copos na cozinha
 
quando o toque do sino toca,
depois do sino tocar,
o toque toca o sino
 
que toca o toque
do som do sol em véu
e vertigem,
que toca a nuvem;
 
chove —
o sino cai até ao chão
a hora morre na laje
 
e todas as manhãs a casa vaza
sem que a areia se emudeça, …
 
quando o tempo nasce
embalado nas sombras,
suspenso licenciosamente no sobrecéu
do mito
 
Guilherme Vilhena Martins (n. 1996), in Háptica (Douda Correria, Junho de 2020). Formado em Filosofia, este é o seu primeiro livro. O título remete para uma forma de percepção sensorial, muito em voga na actualidade por via do desenvolvimento de tecnologias caracterizadas pelo uso de interfaces tácteis. Nestes poemas o toque desdobra-se, podendo remeter para a audição (toque de som) ou para a visão (tocar é ver, como no braille): «o olho háptico, / longo, / longe, / na rota irrecuperável / da paisagem em falta». A sinestesia é uma das dimensões da linguagem poética que, desde há muito, se alimenta de combinações entre visão e tacto. Ver é ouvir, tocar é ver, a poesia expande as convenções comunicacionais, entra em ruptura com as mesmas fundando uma linguagem essencialmente expressiva, pautada por cacofonias, zeugmas, metonímias, jogos semânticos e fonéticos diversos na demanda de uma língua total. O aspecto mais curioso destes poemas é, no entanto, o modo como escapam a um discurso contaminado por emoções e sentimentos. A expressão cinge-se, neste caso, a um dizer as coisas sem sobre elas colocar a subjectividade afectiva do sujeito. São poemas escritos e reescritos a partir da enunciação dos elementos que compõem um corpo ou uma paisagem, sendo toda a atenção direccionada para a forma como esses elementos podem articular-se entre si ao serem deslocados para o texto: «a imagem da árvore / só existe porque a árvore existe / sem se ver». O problema que levantam é, pois, o da debilidade da percepção e, por consequência, de uma poesia que pretenda ser-lhe fiel sem pôr em causa a parcialidade das impressões enquanto via de acesso ao real: «tudo isto tentativa: / tenho a sensação que se me visse de costas / não me reconheceria».

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

UM POEMA DE INÊS DIAS


 

AOS MEUS BÁRBAROS

Se todas as revelações fossem revoluções
seminais, terminais;
e os incêndios cidades novas,
o sol luz e não um tumor enferrujado,

talvez deixássemos de ser
estes doentes quotidianamente acamados
com a sede morta a soro,
a fome a comprimidos.
Repetiríamos levemente o gesto nosso
de nascer cada dia:

desatarmos o olhar para
ler o outro e descobrirmo-nos
a existir, espelho contra espelho,
incompatíveis com o mundo sem mistério.


Inês Dias, in Cerveja & Neve, Averno, Setembro de 2020, p. 42. Nota: neste volume, Inês Dias colige inéditos, dispersos e poemas publicados em livros anteriores. É uma bela porta para quem pretenda entrar nesta poesia. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

LEFT ALONE (1959)


 
À minha mãe.
 
Tocaram os sinais numa manhã de Janeiro. O dia cobriu-se de neblina, uma chuva miudinha aspergiu a terra levantando aquele odor a memória que captura o pensamento e não mais nos liberta. Por momentos desejei que o sol tudo secasse e apagasse, deixando-me em paz com o esquecimento. Por momentos anseio esquecer, mas logo um rosto sorri por entre as sombras e diz: fui assim. És tu e sorris. É difícil olhar agora para estes objectos, mãe. Como encarar a roupa e os sapatos e as jóias que te envaideciam? Como aceitar o exemplo cuidado ao longo dos anos, sem literatura que não fosse a de estar entre os outros respeitando-os? Tão difícil literatura. Deixámos de falar em compaixão, no gesto que era o teu de querer bem, acolhendo, dando, e nada esperando em troca. Herdo-te a tristeza, o gozo de estar só, mas também essa lei sagrada que exige apenas ser bom, não desperdiçar a vida senão sendo boa pessoa. Amar a quem nos quer, querer a quem nos ama. Terás o teu cântico. E um ramo de orquídeas do teu jardim.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

EXTREMA-DIREITA ESMAGADA PELOS PORTUGUESES DE MAL

 


Os resultados globais das Presidenciais 2021 são inequívocos: a extrema-direita foi esmagada e perdeu em todas as frentes.
 
Em ano de pandemia, Marcelo rebelo de Sousa conseguiu um resultado histórico. Era expectável, com o apoio do bloco central (PS + PSD) e de um partido esfrangalhado (CDS-PP). O apoio do PS não foi absoluto, mas o discurso repugnante de Carlos César após as eleições é revelador do que vai naquelas cabeças.
 
Ana Gomes consegue o melhor resultado de sempre de uma mulher candidata às presidenciais. Concorreu praticamente sozinha, traída pela direcção do seu partido, com o apoio do PAN e de alguns militantes do PS.
 
André Ventura falhou todos os objectivos a que se propôs, não vai à segunda volta, não ficou à frente de Ana Gomes e, ao contrário do que apregoa, não esmagou a esquerda. Só Ana Gomes teve mais votos que ele. Se juntarmos aos votos de Ana Gomes os de João Ferreira e de Marisa Matias, mesmo deixando Vitorino Silva de fora, os candidatos afectos à esquerda, unidos, têm quase o dobro dos votos de Ventura.
 
Ventura não só não esmagou nada, como levou um bofetadão dos portugueses de mal.  3 677 518 ainda são mais do que 496 653, suponho eu. Repito: 497 mil nada valem ao pé de 3 milhões e 700 mil. Dito isto, há que questionar uma comunicação social que, curvando-se à besta, faz o jogo da besta, transmitindo o seu comício pós-campanha sem direito a perguntas. E a pergunta que deviam ter feito é:
 
Se teve um resultado histórico, então por que se demite?
 
Esta tendência altamente perversa de dar palco e luz a um partido minimamente representado na AR é inaceitável. O foco não é, não pode ser, as trafulhices do gangue. Note-se o número de notícias e de polígrafos e de fotografias publicados na imprensa no último ano tendo como núcleo de interesse o medíocre Ventura, os dislates de Ventura, as aldrabices de Ventura, as mentiras de Ventura.
 
Outro que terá de se resolver quanto antes é o oportunista Rui Rio. Já toda a gente percebeu o descalabro do PPD-PSD, que ao legitimar o discurso messiânico, racista, xenófobo e extremado do Chega, na avidez de voltar ao poder, deixa-se enredar nos tentáculos de um gangue que pretende infiltrar-se nos lugares de decisão do país para benefício próprio. Bem estiveram Marcelo, ao demarcar-se olhos nos olhos da direita de Ventura, e Tiago Mayan Gonçalves, no antes e no depois, ao chamar o boi pelos nomes: o Chega é um gangue, tem de ser tratados como tal.


 

Olhando para 2016, percebemos melhor quanto valem. Este ano, foram votar menos 478 741 portugueses. Estavam mais inscritos, mas foram menos os votantes. Para onde foram os votos de Sampaio da Nóvoa (1 061 232), Maria de Belém (196 687), Paulo de Morais (99 974), Henrique Neto (38 973), Jorge Sequeira (13 767) e Cândido Ferreira (10 585)? Estamos a falar de 1 421 218 votos, não é coisa pouca.

541 345 terão ido para Ana Gomes. Sobram 879 873.

122 147 terão ido para Marcelo. Sobram 757726.

134 427 terão ido para Tiago Mayan. Sobram 623 299.

E foi a estes que Ventura foi buscar os seus 496 653 votos. Muito pouco, se considerarmos que 126 646, o que sobra, mais 304 795 (os que Marisa teve a menos), mais 2525 (os que João Ferreira perdeu em comparação com o resultado de Edgar Silva), mais 29 346 (os que Vitorino Silva Perdeu), somam: 463 312. É praticamente o resultado de Ventura.

Ou seja, os portugueses que não puderam ou não quiseram votar nestas presidenciais e tinham votado em 2016 são praticamente tantos quanto os que votaram em Ventura. Em legislativas, aqueles votos valerão menos do que em 2011 valia o CDS-PP com o populista Paulo Portas. E é deste CDS-PP esfrangalhado que vêm os eleitores do Chega, assim como de algum PPD-PSD mais direitista, partido que, de resto, foi a barriga de aluguer de André Ventura. Já agora, quem disse isto mesmo ontem, e bem, e com clareza inquestionável, foi António Lobo Xavier. Honra lhe seja feita por reconhecê-lo. Basta pensarmos em figuras como Nuno Melo e Telmo Correia, que bem podiam ser do Chega, para percebermos melhor o que o Chega é: direita ultraconservadora, pró-vida, que se sente ameaçada por leis do piropo e pela adopção de uma linguagem inclusiva, adoram touradas e Salazar, à qual se juntam meia dúzia de neonazis broncos que andavam pelo PNR e coisas congéneres e têm orgasmos quando ouvem o Ventura chamar subsidiodependentes aos ciganos, bandidagem aos pretos, defendendo coisas como a castração química e a prisão perpétua.

 




Agora o Alentejo e a retórica estafada de que o PCP perde para o Chega no Alentejo. Olhemos para Beja como exemplo. Os resultados de João Ferreira só são decepcionantes porque desejávamos e merecia melhor, mas há que colocar os números em perspectiva. Em Beja, João Ferreira consegue menos 1413 votos do que Edgar Silva. Marisa Matias perde 4846 votos. Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, candidatos afectos ao PS, valiam neste distrito 21816 votos. Ana Gomes teve 5613. Marcelo consegue mais 7999. Será mesmo o PCP quem está a perder para o Chega?

O Alentejo já não é o que era, convertido hoje a estância turística, entregue a latifundiários (subsidiodependentes) que empregam gente vinda da Índia, do Bangladesh, do Sri Lanka, isto é, gente que não vota. Ventura teve 8490 votos em Beja, o que terá conseguido graças ao seu discurso xenófobo, racista, anti-imigração, e ao descontentamento de uma população votada ao esquecimento e ao abandono pelo Bloco Central. Mesmo aceitando, por absurdo, que os 1413 votos que João Ferreira perdeu em Beja foram todos para Ventura, então de onde vieram os restantes 7077? Alguém em Beja deu mais votos a Ventura do que o candidato apoiado pelo PCP. Isto é óbvio e desmente a retórica instalada de que os votos do PCP estão a deslocar-se para o Chega. É uma análise que vale igualmente para Évora e  para Setúbal, assim como para Portalegre. Não vale para Faro, pois aí João Ferreira teve mais 897 votos do que Edgar Silva tinha almejado em 2016.

Dito isto, julgo que seria importante reforçar a ideia de que o Chega e André Ventura têm beneficiado altamente com uma comunicação social que faz da vida política um reality showVentura vende, como a pornografia vende, como o Big Brother vende. É preciso que comentadores políticos e jornalistas e demais gente por aí excitadíssima com Twitter e Facebook e quejandos, metam na cabeça que a relevância atribuída a André Ventura e ao gangue que ele representa é altamente desproporcional ao que ele vale na realidade. 3 milhões e 700 mil eleitores, dos pouco mais do que 4 milhões que foram votar, disseram claramente que não se revêm na demagogia racista, xenófoba, securitária e messiânica da extrema direita populista. E isso é altamente positivo.

 

A luta continua.

¡No pasarán!

25 de Abril sempre!

Fascismo nunca mais.


domingo, 24 de janeiro de 2021

NÃO APRENDERAM NADA

 


Não aprenderam nada.

Eu vinha do Porto, naqueles anos paragem obrigatória para o Fantas. Minha mãe telefonou preocupada, uma ponte havia caído em terras nortenhas. Era certo haver mortos. Descansei-a, estava com amigos na auto-estrada, de regresso. Seguiram-se semanas de directos. Um cheiro nauseabundo a invadir-nos através da imprensa. No rescaldo, contados os mortos, recuperados os corpos que foi possível recuperar, horas infindas sobre a abordagem mediática. O espectáculo da tragédia, da morte, da dor, o insuportável e fastiento espectáculo do desastre em discussão por todo o lado. Como devia ser dali em diante? Testes dobrados em quatro, teorias, e a gente numa desconfiança sustentada pela descrença.

Não aprenderam nada.

Os anos hão-de passar, séculos hão-de passar, e essa cambada que diz ser jornalista por ter uma caderneta qualquer com a qual nos garantem que são jornalistas não aprenderá nada, continuarão a actuar como o transeunte que interrompe a marcha para cheirar o acidente. Curiosidade mórbida? Nada disso. É mesmo uma absoluta ausência de compaixão, isto é, de algo que jamais entenderão ou perceberão ou serão capazes de compreender, por terem pés tão disformes que não se ajustam aos sapatos dos outros. Vale a audiência, o resto é jogo, vale a injecção de pânico para que a reacção mereça ser atendida. Medo gera medo, pânico gera pânico, destruição, ódio, audiência. É só quanto vale. 

Quantos jornalistas haverá neste país que estejam verdadeiramente interessados em informar? Quantos deles mais interessados em comunicar do que comentar? Quando o jornalismo se assemelha, cada vez mais, ao imediatismo e à irreflexão e ao sensacionalismo das redes sociais, quando o jornalismo, refém das audiências, é cada vez mais uma rede social, que podemos nós esperar do quarto poder? Nada que valha a pena. É um jornalismo da desinformação, da doxa, alienado de qualquer interesse pela verdade, apenas espectáculo, o triste espectáculo do escândalo, da tragédia, do acidental, do mastiga e cospe, patilha elástica, dos alertas e das últimas horas e dos polígrafos e das legendas e notas de rodapé enodoadas por erros ortográficos e desinformação que, afinal, é apenas mais um pedido de desculpas pelo lapso. 

Não aprenderam nada, continuam e continuarão a explorar até à exaustão o drama, a tragédia, o horror, aguardando que dentro de cada ser (cidadão?) não sobre um pingo de espanto e tudo seja vulgarizado e nenhuma compaixão exista. Até que a próxima notícia sobre a fome no mundo inspire tão-somente o desejo de encetar um pacote de pipocas. 

Não aprenderam nada. 

Erro nosso, supor que num abutre pode ainda restar margem para aprender alguma coisa.

sábado, 23 de janeiro de 2021

THEME DE YOYO (1970)

 


30/10/98, a data do bilhete, o mesmo ano do Interrail. Dantes ia a muitos concertos. Parece que foi há uma eternidade, e no entanto a eternidade é esta ilusão de ver passar os dias julgando imenso o que ficou para trás e curto o que sobra pela frente. Tenho de me apressar, não quero morrer sem ver o filme de Moshé Mizrahi. Se morresse agora, a minha vida teria sido um desperdício. Ainda não vi Les Stances à Sophie. E os livros por ler. Meu Deus, os livros que me falta ler. Viajei tão pouco, quero dizer, andei tão pouco por este planeta. E que sei eu do fundo dos oceanos? Sei tão pouco sobre o fundo dos oceanos. Deve estar-se bem por lá, no mundo do silêncio. Ou talvez não. Como poderia eu ser indiferente aos peixes que comem outros peixes? A mesma merda de sempre. Aqui posso tapar os ouvidos com música, apartar-me do ruído exterior, ler um livro, ver um filme, fazer uma pausa, caminhar até à costa onde o oceano fará o favor de realçar a insignificante medida dos homens. A eternidade parece que foi ontem.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

PARA QUE SERVE LER?


 

Para que serve ler? Para nada, ou quase nada. É como amar, como jogar. E como rezar. Os livros são como rosários de tinta negra, cada conta rolando entre os dedos, palavra após palavra. E o que é realmente rezar? É silenciar-se. Afastar-se de si no silêncio. Talvez seja impossível. Talvez não saibamos rezar como se deve: há sempre demasiado barulho nos lábios, sempre muitas coisas nos nossos corações. Nas igrejas ninguém reza, excepto as velas. Elas perdem todo o seu sangue. Elas despendem toda a sua chama. Elas não guardam nada para elas, elas dão tudo o que são, e esse dom transforma-se em luz. A mais bela imagem da oração, a mais clara imagem da leitura, sim, seria isto: o desgaste lento de uma vela na igreja fria.


Christian Bobin, in Um Vestido Curto de Festa, trad. Teresa Noronha, pref. António Cabrita, Barco Bêbado, 2020, pp. 61-62.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

TENHO DÚVIDAS

 O que espera o leitor de um político? Que lhe minta ou que fale verdade? Se um político estiver constantemente a contradizer-se o que lhe chama o leitor? E se entre o discurso e o programa do partido que representa forem inúmeras as contradições? O que espera o leitor de um político que mente reiteradamente e se contradiz constantemente? Galo dos ventos? Exemplos? Se um político lhe disser que algumas pessoas esperam mais de 3000 dias por uma consulta, o leitor acredita? E se lhe disser que há um milhão de portugueses sem médico de família, sabendo ser esse número uma falsidade? Se o programa do partido desse político defender a privatização de hospitais, escolas, vias de comunicação e meios de transporte, entenderá o leitor a razão de ser de tais mentiras? Será para denegrir um serviço que se pretende aniquilar, de modo a lucrar com um outro, privado, que o substitua? E por que razão quererá o galo dos ventos acabar com o SNS? Saberá o leitor porquê? Se o partido do tal deputado for financiado por empresários com interesses económicos nesse domínio, ficará mais perceptível? O que pensaria o leitor se um partido resolvesse inverter o sentido do seu programa após este haver sido sufragado? Se tivesse votado nesse programa, sentir-se-ia traído? O leitor gosta de ser traído? Gosta que lhe mintam? Como avalia o leitor alguém que para defender os seus pontos de vista passa o tempo a espalhar números falsos como quem espalha brasas? E o que pensa da hipótese de remoção de ovários numa mulher que interrompa voluntariamente uma gravidez? Revê-se o leitor num partido que alberga gente que apresenta propostas destas numa convenção nacional? Quer o leitor fazer parte desse elenco que defende a castração química e chega a sonhar com a castração física, sabendo serem ambas inconstitucionais? Acha o leitor legítimo que um político se dirija ao eleitorado falando da boca para fora? E se for para insultar um homem com mais de 70 anos que começou a trabalhar aos 14? Quantos ciganos há em Portugal? 30 000, 35 000? Supõe o leitor que numa população de 10 milhões de habitantes sejam esses 0,3 ou 0,4% da população a fazer a diferença? Quanto custa ao país em impostos as fugas para offshores orientadas pelo deputado-consultor que não gosta de ciganos? O que acha o leitor de um deputado que defende o regime de exclusividade ao mesmo tempo que acumula três ordenados? Parece-lhe bem? Será coerente? Nobre de carácter? Confia o leitor num partido que tem como apoiantes e dirigentes gente envolvida em processos de branqueamento de capitais e de terrorismo bombista? Saberá o leitor quem foi o padre Maximino Barbosa de Sousa e a sua aluna Maria de Lurdes? Quem os matou? O leitor revê-se num partido que tem entre os seus principais apoiantes gente que faz a saudação nazi? O leitor tem algum filho na escola pública? E se de repente o líder de um partido defendesse o fim da escola pública, o leitor concordaria? Que hombridade haverá num político que acusa os refugiados de serem uns malandros que chegam à Europa munidos de tecnologia de ponta? O leitor já ouviu falar em Alan Kurdi? Sabe quem foi? Estará Portugal a ser tomado por marroquinos? Onde estão? Onde estão? Julgará o leitor digno de um político colocar simpatias futebolísticas acima de preocupações com o país? O leitor acha que Portugal devia sair da ONU? O que pensa o leitor de um partido com propostas que replicam leis da Alemanha nazi? O que pensa o leitor de um deputado que, em menos de 24 horas, vota de três maneiras diferentes uma mesma proposta? E de um partido que tem como vice-presidente alguém que escreve e publica artigos a defender Hitler e Mussolini? O leitor simpatiza com o Papa Francisco? Parece-lhe compatível essa simpatia com esta estirpe ideológica? O leitor concorda com propostas que favorecem os mais ricos e penalizam os menos favorecidos? O leitor é eleitor? Votaria num político que se candidata à presidência da república prometendo rasgar uma Constituição que está obrigado a defender, cumprir e fazer cumprir? O leitor sabe o que é um gang? Estará o leitor eleitor disposto a entregar o destino do seu país a um gang

O DETERMINISMO


 

O determinismo exerce uma forte atracção emocional: bastante curiosamente, pode atrair o mesmo tipo de espírito que acredita nas possibilidades ilimitadas da acção de planear. O determinismo parece dar grande alento e, por vezes, assomos de energia àqueles que são capazes de se convencer a si próprios de que o que querem que aconteça vai de qualquer modo acontecer, e àqueles que gostam de sentir que vão ao sabor da maré: e todos temos ouvido dizer, de vez em quando, que a liberdade se encontra unicamente na aceitação da necessidade — embora também seja próprio do intelecto humano suspeitar que isto esconde, algures, um ardil. Devia, porém, ser igualmente óbvio para toda a gente, devido à experiência pessoal, que não há nenhuma fórmula para um vaticínio infalível; que tudo o que fazemos terá algumas consequências imprevistas; que os nossos empreendimentos mais bem fundamentados terminam frequentemente em desastre, e que por vezes os nossos disparates mais  absurdos têm os resultados mais felizes; que toda a reforma conduz a novos abusos que não podiam ter sido preditos, mas que não justificam necessariamente dizermos que a reforma não devia ter sido executada; que temos de nos adaptar constantemente ao novo e ao inesperado; e que sempre nos movemos se não no escuro, num crepúsculo, com visão imperfeita, trocando constantemente um objecto por outro, imaginando obstáculos distantes onde nenhum existe e ignorantes de alguma ameaça fatal ai à mão. Isto é Endless Adventure, de Frederick Scott Oliver.

 

T. S. Eliot, de uma conferência intitulada A Literatura da Política, proferida durante um Almoço Literário organizado pela London Conservative Union, em 19 de Abril de 1955, in Ensaios Escolhidos, selecção, tradução e notas de Maria Adelaide Ramos, Edições Cotovia, 1992, p. 208.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

HIS BLOOD’S IN ME (1999)


 

Que haverá de ti no meu sangue? Arrisco a hipótese hereditária, mas logo se impõe a ideia de que as circunstâncias desenham a coluna. As tuas foram mais agrestes, reconheço. Os cientistas têm percentagens para estas coisas. Olhando para o nosso caso, diria que nada de vocação, um cibo de valores e talvez mais do que possa parecer daquela timidez a que alguns chamam complexo de inferioridade por serem heróis e nunca haverem experimentado a acidez e a injustiça e o opróbrio da soberba a perfurar os pés como um ferro enferrujado. Vem de longe. Crescer pobre em terra de porcos incube frustrações, um ódio que se enterra na lama sem vontade de vingança.  Acerca de valores, assumamos pouco mais do que uma carcaça de intolerância ao erro que eu aprendi a mastigar mais para te incomodar do que para me resolver. Chamar-se-á o quê a isto? Obstinação? Nunca te perguntei o que pensarás de mim, que julgarás das opções que tomei na vida ou das que fui levado a tomar por me deixar levar pela corrente de paixões momentâneas. É assim e só damos por isso quando, já em alto mar, temos de esbracejar em busca de um pouco de terra onde possamos voltar a sentir-nos verticais. A verdade é que, por vezes, gostava de poder perguntar-te se já ouviste o álbum do Eric Mingus, mas noutras ocasiões dou graças a Deus por nem sequer fazeres ideia do que a música possa ser.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

CILA E CARÍBDES


 

Lembro-me de uma experiência de alguns anos atrás, quando concordei em fazer uma conferência em Nice. Ao trocar correspondência com o Presidente da colectividade a que devia dirigir a  palavra observei que, não sabendo qual de duas espécies de auditório esperar, me encontrava relativamente à escolha de um tema entre Cila e Caríbdes. Antes de ter decidido sobre o que falar, foi anunciado em Nice que ia falar sobre o tema de Cila e Caríbdes. Depois de um momento de consternação pensei — E por que não? Podem tratar-se quase todos os tópicos sob esse título. Cila e Caríbdes é deliciosamente geral, e desperta a curiosidade pelo seu carácter vago.

T. S. Eliot, de uma conferência intitulada A Literatura da Política, proferida durante um Almoço Literário organizado pela London Conservative Union, em 19 de Abril de 1955, in Ensaios Escolhidos, selecção, tradução e notas de Maria Adelaide Ramos, Edições Cotovia, 1992, p. 206.

sábado, 16 de janeiro de 2021

PORTUGUESES DE BEM

 


Os “portugueses de bem” do Chega:
 
1) João Maria Bravo – Dono do Grupo Sodarca. Lidera o fornecimento de armas, munições, tecnologia e equipamento militar ao Estado, forças Armadas e Segurança.
2) Paulo Corte-Real Mirpuri – Empresário que liderou a Air Luxor (que acabou sufocada em dívidas, tendo os bens desaparecido misteriosamente), filantropo.
3) Francisco Sá Nogueira, gerente da área turística da Helibravo. Ex-presidente da antiga holding do Grupo Espírito Santo para as actividades de agências de viagens e operador turístico, a Espírito Santo Viagens.
4) Jorge Ortigão Costa – Empresário e produtor agrícola, amante de touradas (coudelaria com o mesmo nome), cujo nome consta no Panama Papers
5) Francisco Cruz Martins – Advogado, padrinho de casamento de Ventura, também citado no Panama Papers, administrador de imobiliárias pertencentes à Breteuil Strategies (sediada no Chipre, reconhecido paraíso fiscal).
6) Salvador Posser de Andrade – Co-administrador da antiga empresa imobiliária do Grupo Espírito Santo, e administrador da Coporgest.
7) Jaime Nogueira Pinto – histórico militante fascista, “o grande pai da extrema-direita portuguesa desde o fim da ditadura salazarista” (Steven Forti)
8) Eduardo Amaral Neto – Empresário com ligações à Chamusca. Dono da sociedade de consultoria Gavião Real.
9) César de Paço – empresário, ex-cônsul honorário de Portugal na Florida (cargo do qual foi exonerado), dono da multinacional Sumit Nutritionals, fanático da Defesa. Pelo Código Penal de André Ventura, hoje seria “maneta” porque roubou um relógio de 7.500€.
10) Helder Fragueiro Antunes – Empresário, Engenheiro, ex-piloto de corridas. CEO da Global Data Sentinel. Parceiro de César do Paço em alguns negócios, primo de Miguel Frasquilho (chairman da TAP).
11) Pedro Pessanha – Militar na Reserva, gestor imobiliário. Assessorou vários negócios do BES Angola (BESA), hoje Banco Económico.
12) Fernando Jorge Serra Rodrigues – Empresário Têxtil (sofás). Salazarista devoto, defensor da ditadura fascista do Estado Novo e divulgador de propaganda nas redes sociais. É o famoso autor da saudação Nazi no jantar de apoio a André Ventura no Porto.
13) Igreja Maná (de Jorge Tadeu) – detentora dos canais de televisão Kuriakos TV, TV Maná e ManáSat 1, tem dado especial destaque a André Ventura nos seus canais promovendo-o como “defensor da moral e dos bons costumes cristãos contra gays e outras modernices antinatureza e antifamílias”.
14) Luis Filipe Graça - sócio na mediadora Elegantalfabeto. Foi angariador imobiliário no segmento premium. Ex-dirigente do PNR e do Movimento de Oposição Nacional, embrião dos neonazis da Nova Ordem Social, tendo aparecido em vídeos com skinheads em protestos.
15) Cristina Vieira – Cartomante na TVI, antiga directora de Operações da LibertaGia, sociedade que a partir das Bahamas terá lesado perto de 2 milhões de clientes através de um esquema fraudulento de pirâmide.
16) José Lourenço – Consultor Imobiliário. VP na “Fundação” dePaço. Acusado pelo ex-dirigente Nacional do Chega (Miguel Tristão) de fazer entrar dinheiro de formas “estranhas” no partido. O seu nome consta da lista pública de devedores fiscais em Portugal. Amigo do espião Silva Carvalho “com muito gosto”.
17) António Tanger Correia – ex-diplomata, adjunto de Freitas do Amaral durante o governo de Sá Carneiro. Suspenso de várias funções devido a VÁRIAS irregularidades na gestão da embaixada em Vilnius: lesou o Estado em 348.270€ em IVA mais 411.181€/ano em despesas pessoais
18) Paulo Lalanda de Castro – Empresário. Referenciado nos Panama Papers, Operação Marquês e nos Vistos Gold. Acusado de corrupção no processo Máfia do Sangues. Dono da Intelligent Life Solutions, empresa que André Ventura ajudou a ilibar no pagamento de mais de 1 milhão de Euros em IVA, enquanto Inspector Tributário.
19) Armando Batista – Comandante da Delegação da Cruz Vermelha da Amadora. Defende a criminalização e deportação de imigrantes ilegais. Promoveu petições contra o Pacto de Migração e Asilo da CE, mas afirma não ser xenófobo. Ligação às forças e aos serviços de Segurança.
20) Arlindo Fernandes – Empresário, admirador de Salazar, ex-dirigente e breve deputado do CDS. Acusado em 2019 pelo MP de burla qualificada, falsificação de documentos e branqueamento de capitais em negócios imobiliários. Ameaçou de morte João Ferreira, outro dirigente do Chega.
21) Manuel de Carvalho – O “Miterrand” de Armamar. Empresário, cônsul honorário da Costa do Marfim, antigo deputado e ex-vereador do CDS (Viseu). Em 2012 foi declaro insolvente por dividas à banca, tendo cumprido o prazo da exoneração do passivo.
22) Diogo Pacheco de Amorim – antigo ideólogo do PND, passou pelo MIRN e militou no MDLP. O MDLP seria responsável por espalhar o terror em várias zonas do país, particularmente no norte do país, onde assassinou à bomba um jovem Padre, Maximino Barbosa de Sousa, e a estudante universitária Maria de Lurdes. Em 1999, após um longo e tortuoso processo judicial, o MDLP foi condenado pelo atentado, apesar de os seus mandantes e executores não terem sido condenados.
 
Recebido por e-mail.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

UM CAVALO SENTADO À PORTA


 

XX
 
A dor é terna
como é terna a queda do cavalo
que um dia imaginei sentado à minha porta
quando chegava da escola preparatória
onde nenhum manual me havia preparado
para o espanto
não de ver um cavalo sentado
mas um cavalo sentado à minha porta
eu que vivi os meus dez primeiros anos
ao lado de um dentista
que vivia ao lado de um sindicato
que por sua vez ficava em frente a um sapateiro
numa rua que se dizia ser da igreja que
ora descia ora subia
e no adro havia uma carrinha com livros dentro
livros que também nunca imaginei terem sido
escritos
e que nos visitavam todas as semanas
um cavalo sentado à porta da minha casa
é coisa que não cabe em livro nenhum
onde é certo caber a minha timidez
pois não soube articular palavra
quando eu queria dizer
entra
eu tenho um quintal e no quintal
uma árvore que dá marmelos
e uma mãe que faz marmelada
e podemos ser amigos
pois ela a ti não se atreverá
sei que não
confia em mim
eu protejo-te
mas não
entrei a olhar para o chão
à espera que este me sacudisse
para a vida que desejava
o que não aconteceu
quase nada acontecia
a não ser a minha imaginação
como as sombras à noite no meu quarto
que vinham para me engolir
num abismo desconhecido
e terrífico
não só a minha rua descia para a igreja
como o meu quintal terminava numa outra
logo após o galinheiro
foi aqui que assisti à morte de deus
e não
não caiu do cavalo
creio que lhe faltava dentes para tal
o cavalo caiu apenas no esquecimento
de um crescimento precoce e inesperado
que uma mudança de casa provoca
em quem sofre de vertigens
azuis
hoje lembrei-me de ti
mas a minha porta já não é a minha porta
embora a dor seja a mesma
 
João Pedro Azul (n. 1972), in Um Cavalo Sentado à Porta (2020). Tomemos como exemplo este poema, no qual o autor encontrou motivo para intitular o seu livro de estreia. Entre o incipit e o remate inscreve-se a razão de ser de uma sensação emocional, a “dor terna” enraizada num lugar distante e num tempo passado. A sequência central deste livro é profícua em situações evocativas que têm nas memórias da infância a sua matriz, desdobrando-se em referências domésticas com palco numa casa dentro e à volta da qual as acções decorrem. Neste caso o leitor é deslocado do exterior para o interior de uma casa, acompanhando o percurso de um sujeito poético que elenca diversos elementos muito concretos acerca da idade que tem, de onde vem, onde se encontra, qual a envolvência do lugar. O tom é narrativo, sobressaindo a analogia estabelecida entre a deslocação do exterior para o interior e a deslocação de um espaço real para um espaço imaginativo. O cavalo sentado à porta de casa é produto da imaginação de uma criança, uma espécie de amigo imaginário. 
   Encontra-se com frequência nestes poemas esse efeito de entropia que aproxima os versos da prática surrealista, ainda que sopesada por uma memória e uma experiência vivida matriciais. O pressuposto surge explicitado no poema XXIX: «A realidade não é assim tão líquida» (p. 52). Noutros casos, este efeito joga-se no experimentalismo formal de tipo concretista (ver poema IX), na derrogação de estruturas uniformes quanto à distribuição dos versos, na oposição lúdica e irónica entre facto e ilusão (no poema XXIV, por exemplo, a casa da infância aparece envolta num manto de dúvidas quanto às suas reais/factuais propriedades). Por um lado, talvez o mais simples, questiona-se o peso que facto e imaginação têm na construção da memória. Por outro lado, porventura mais complexo, e voltando ao cavalo imaginário, a natureza da memória acarreta uma dor que se articula com o esquecimento.
   A infância é assim reconstruída partindo de um trabalho que torna presente tanto a perda — “o cavalo caiu apenas no esquecimento” — como a irrevogabilidade ou o carácter definitivo da dor, única realidade consistente, constante e inalterada para lá dos trabalhos reconstrutivos da memória. Ainda que seja terna, e a ela possamos chamar nostalgia, esta dor, sendo nostálgica, apresenta igualmente um carácter elegíaco que se reflecte em dois termos repetidos ao longo do livro: medo e morte. Também neste poema a morte ocupa lugar, nomeadamente a morte de um deus que parece estabelecer uma relação metonímica com outra entidade imprecisa. Invocando a figura do avô, no poema XI o problema coloca-se assim: «Nunca entendi essa coisa de levar / o medo para casa / e aconchegá-lo no leito /mas / tal como o meu avô / eu cresceria às aranhas / no meu quarto coberto / de sombras / Os medos reflectiam todos em mim / assim como aquelas palavras / que mais pareciam soluçadas / por mim // eu não quero morrer» (pp. 24-25). 
   Além do núcleo de 31 poemas que compõem o livro, há ainda um poema-prefácio e um poema-posfácio, assim como alguns dispersos de proveniência diversa. Aparentemente fora do contexto nuclear da obra, nenhum desses poemas belisca a coerência do todo. Acrescenta-lhe, talvez, desvios de humor que a insólita conjugação de duas epígrafes (Shakespeare e a telenovela Tieta lado a lado) permite antever. A poesia de João Pedro Azul não exclui possibilidades, antes as materializa com espantosa naturalidade.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

ALICE’S WONDERLAND (1959)


 

Os fascistas voltaram a marchar em Itália. Em pleno confinamento, fizeram a sua parada ao estilo militar, levantaram o braço para a frente como na Roma antiga, a dos imperadores que excitavam Benito Mussolini. Gritaram alto as palavras de ordem: «Per tutti i camerati caduti: presente!» Tem sido assim, de ano para ano. Discriminam, odeiam, promovem a violência sobre tudo quanto se lhes oponha, fazem-se valer da liberdade de expressão para atacar a democracia. Incapaz de os confrontar, sob pena de cair em contradição, a democracia dá-lhes espaço, no espaço montam palco, encenam e representam peças virais para uma plateia de raivosos que cresce de dia para dia. Um arrepio percorre-me a coluna vertebral quando volto a ouvir a voz de Charles Mingus na abertura do célebre Town Hall Concert, recitando um poema de sua autoria que arrisco agora traduzir:
 
LIBERDADE
 
Esta mula não é de Moscovo
Esta mula não é do sul
Mas esta mula sabe algumas coisas
Que aprendeu de boca-a-boca
 
Esta mula pode ser apelidada de teimosa e de preguiçosa
Mas esta mula pode estar a trabalhar de forma hábil
Aprendendo e planeando e esperando
Por um certo tipo sagrado de dia
Um dia em que queimar fachos e cruzes não é brincadeira de crianças
Mas um louco na sua mais ardente floração
Cuja paixão é a imperfeição e o seu noivo mais brilhante
 
Daí que aguenta firme, jovem mula
Acalma com contemplação
O todo ardente e a coxa dorida
A tua teimosia mantém-se viva
E a ansiedade prestes a morrer
 
Liberdade para o teu paizinho
Liberdade para a tua mãezinha
Liberdade para os teus confrades
Mas nenhuma liberdade para mim

 
O poema remonta ao famigerado período da caça às bruxas comunistas, mas nele ecoam imagens de outras perseguições. A mesma devoção à liberdade reconhece-se em todo o reportório deste contrabaixista com uma biografia que acabou por se tornar símbolo indelével do activismo contra a injustiça racial, assumindo uma música diferente, singular e única como a vida de um homem. O meu álbum preferido é Mingus Ah Um, pelo lado festivo e espiritual ao estilo gospel. Faz-me crer em Deus. Mas hoje prefiro mergulhar noutras águas, estou expectante e ligeiramente melancólico. Obrigaram-me a ver um documentário sobre vidas passadas e, mais uma vez, fiquei sem perceber o interesse da reencarnação. Por que não se contentam os homens com o presente que é a vida que têm? Para quê desperdiçá-la com a possibilidade inconsequente de uma vida anterior e a hipótese de uma fastidiosa eternidade? Está um dia de Inverno claro e frio. O sol há-de dar a sua volta ao mundo mais uma vez. O poema está escrito.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

DIA DE PORTUGAL


As missas são essenciais, a cultura é acessória. Retire o leitor as suas conclusões. Eu proponho que se desassocie o nome de Camões do dia de Portugal. Camões não é essencial. Portugal também não deve ser, mas assenta-lhe melhor o nome de um padre do que o de um poeta. Sugiro, em alternativa, que passemos a comemorar o Dia de Padre Borga, de Portugal e das Comunidades Confinadas Portuguesas.

Desloquemos o teatro para uma igreja, vendamos poesia ao postigo. A ideia de um Diga 33 na Igreja de Nossa Senhora da Conceição não está posta de lado. Convidamos a poeta Tolentina, que fará o favor de não ler poemas seus. Convocamos Quitéria a passar um cestinho de mão em mão, para que possam expurgar os vossos pecados acudindo a actores, encenadores, técnicos, escritores. Teremos hóstias de sonetos, o corpo de Deus cortado às estrofes. Em nome do poema e do verso e do espírito elegíaco, ai mãe.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

UM POEMA DE MIGUEL CARDOSO

 


LISBOA, 44

Em Lisboa, em 44, havia hortas. Vivia-se.
Em Lisboa, em 44, havia hortas. Morria-se.

Havia Angola. Não se via.
Havia Angola. Esquece.

A mão sobre a boca
Ajudava o pescoço
A segurar o osso
Dentro da cabeça

Em Lisboa, em 44, saía-se

de casa às 5 da manhã para a carvoaria,
às 5 da manhã de casa para a padaria,
às 5 da manhã de casa para a drogaria.

Um primeiro pé no escuro

E a cabeça a semear flores na almofada

E o estômago vivo cru danado verdadeiro


E os dedos frios lembravam-se

de uma ribeira clara que claro já esqueci


Era levá-los à boca
para chegar ao peito

Eram secos tinham cheiro
como os avós as espinhas
uma ramada de árvore morta

Qual terra?
Era céu.
Era cinza.
Era barro.

Junto ao Palácio das Galveias
faziam-se telhas e tijolos
com os mais modernos maquinismos.

Hoje, em Lisboa, há hortas e morre-se.
Hoje, em Lisboa, há hortas e vive-se.

No Convento da Encarnação,
num canto de um jardim,
onde se fuma, de onde se vê Lisboa,
há um quadrado de horta.

Há um senhor que vai lá cuidar dela.

Em volta há mato.
A luz não entra.

E nós à espera da morte.


Miguel Cardoso, in Mais de Mil Anos, com posfácio de Regina Guimarães, Douda Correria, Maio de 2017, s/p.

domingo, 10 de janeiro de 2021

SONETOS DA CASA AMARELA

 
Pudemos ver há dias, na RTP 2, A Toca do Lobo (2015), documentário dedicado à memória do escritor Tomaz de Figueiredo (n. 1902 – m. 1970). Trabalho sensível, o filme da realizadora Catarina Mourão (n. 1970), neta do escritor, toma como plataforma relatos domésticos, pessoais, familiares, para mergulhar nos arquivos de uma descendência desavinda. Impedida de aceder à generalidade do espólio do avô, agarrou-se ao que pôde para refazer o laço de uma herança perdida. Reencontro com o passado, A Toca do Lobo expõe momentos altamente marcantes e comoventes sem disfarçar as feridas por sarar, quer do contexto familiar em que o filme se enraíza, quer do tempo histórico para o qual remete. 
   Na História da Literatura Portuguesa assinada por António José Saraiva e Óscar Lopes, Tomaz de Figueiredo ocupa meia dúzia de linhas. No entanto, o entusiasmo é evidente: «deve ter sido um dos melhores ficcionistas, quer pela originalidade da intriga, em que aliás se reintegra por vezes o novelesco camiliano, quer por uma prosa flexivelmente castiça» (p. 1031). A Toca do Lobo, romance de estreia publicado em 1947, acabou por se tornar o seu livro mais conhecido, mas o carácter multímodo da obra afirma um escritor por redescobrir. Além de romances, novelas e contos, traduziu Colette, deu à estampa sonetos, poemas em prosa, um longo poema intitulado Viagens no Meu Reino (1968), escreveu para teatro. 
   O filme de Catarina Mourão mostra-nos o retrato de um homem sensível, mas fortemente abalado pela incompatibilidade dos encargos profissionais (“violência de vida”) com a dedicação à actividade literária. Formado em Ciências Jurídicas, o autor de Nó Cego (1950) trabalhou como notário na Nazaré, em Ponte da Barca e Estarreja. A separação da família fez dele um pai ausente, nomeadamente junto da filha mais nova. Em 1957, colocado em Estarreja, sofreu uma depressão. Não é exacto o diagnóstico que levou a internamento no Hospital do Telhal, resultando da investigação levada a cabo pela neta a hipótese de ter sido um pretexto para fugir à prisão. Certo desleixo profissional terá facilitado um desfalque cuja responsabilidade assumiu sem dele ter sido culpado directo. 
   Sonetos da Casa Amarela (Douda Correria, Outubro de 2020) recupera o conteúdo de um envelope enviado, durante o período de internamento, à mulher com quem casara e de quem acabara por se separar. Em nota introdutória, Catarina Mourão vai directo ao assunto: «Na família, o meu avô era visto como um excêntrico porque preferia a profissão de escritor à de notário, e o seu internamento, no Hospital do Telhal, onde foi tratado com choques eléctricos, constituiu sempre um tabu» (p. 3). Além dos 27 sonetos, reproduzidos em letra de máquina e manuscritos, o volume da Douda Correria contém ainda um conjunto de fotografias, recolhidas do arquivo do Museu São João de Deus, que de algum modo retratam o ambiente vivido no Hospital onde os poemas foram escritos.
   Nada têm que ver estes sonetos com as obras artísticas produzidas por outros autores em condições similares, estejamos a falar do estilhaçamento linguístico identificável num Ângelo de Lima (n. 1872 – m. 1921) ou de diversos exemplos de arte bruta a que temos acesso, por exemplo, através de um volume como Almas Delirantes do Telhal a Rilhafoles (Douda Correria, Março de 2019). Em Sonetos da Casa Amarela o que mais perturba é a sobriedade e a lucidez da escrita, mas também a solidez de uma consciência de si que duvida da loucura diagnosticada para denunciar uma injustiça materializada nos tratamentos administrados: «Há injecções que valem dinamite, / que, à falsa-fé, sem manha que as evite, / brutais, vão rebentar dentro do crâneo» (p. 6). 
   Das descrições do ambiente vivido no “manicómio” onde os “doidos” são tratados como “gado” à manifestação de uma condição existencial privada de dignidade, o que atravessa estes versos é a dúvida acerca da condição do sujeito, da sua relação com o mundo e com Deus, numa oscilação emocional que põe em causa fé e esperança. Inconformismo, injustiça, dão lugar a despedidas não consubstanciadas senão pelo sofrimento e a súplicas desesperadas: «Estrelas que brilhais no céu curvado, / Chamai-me para vós, sou vosso irmão. / Lá porque me esporeia a danação, / tanto sou, como vós, iluminado» (p. 29). A uma normalidade indesejada contrapõe-se, nestes sonetos, o diagnóstico de uma loucura mais do que duvidosa, sobressaindo neles o sofrimento atroz de um homem impedido de se realizar no tempo e no espaço que lhe coube viver:
 
Rasga-te, angústia minha, em versos loucos,
desforra-te em criar beleza inútil
sabendo quanto é vão, inerte e fútil
isso de te arrasares, em ânsia, aos poucos.
 
Que vale que tu soltes gritos roucos
nessa alva de suplícios, inconsútil
se nada alcança de profícuo e útil
a invisível estátua sem caboucos?
 
Mas tu, e com coragem sempre nova,
soergues-te do mal da tua cova,
cuspindo, triste, beijos e sarcasmos,
 
enquanto, no mistério da Natura,
te fura, te perfura e desfigura,
do crâneo ao ventre, o chuço dos espasmos.