quinta-feira, 30 de setembro de 2010

AMOR PATERNAL



o meu pai pegou-me ao colo
e apertou contra os seus
os meus parcos ossos tenros
(um acto de amor puro)

vinte e cinco anos mais tarde
descubro por radiografias
uma ligeira escoliose nas costas
e não pareço importar-me

é que a um pai perdoa-se tudo
e esta escoliose minha
não mais é que uma gota
no oceano de um amor paternal



João Miguel Henriques, in O Sopro da Tartaruga, Edição de Autor, p. 26. Adenda: sobre o livro de onde este poema foi respigado escrevi eu aqui. O autor escreve acolá.

UM DIA INVULGAR


O Sporting ganhou 5-0. É invulgar. O Postiga marcou. É ainda mais invulgar. O panhonha da fotografia passou 90 minutos preocupado com o Liedson e o Yannick. Enfim, ele há coisas que hão-de ser sempre incorrigivelmente vulgares.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A LEVAR NO PACOTE

Camarada Van Zeller, o pacote foi anunciado. Olho para aquilo, leio, releio e não entendo nada. Dir-me-ão que não é hora para lavar roupa suja, mas enquanto não a lavamos ela vai sendo acumulada deixando um cheiro insuportável pela casa toda. Afinal quem nos trouxe aqui? Em que é que a incompetência dessa gente que nos trouxe ao ponto em que estamos será devidamente penalizada? Como é que essa gente que durante anos não fez outra coisa senão mamar do Estado vai agora contribuir para a resolução dos problemas do país? Temos um Presidente da República que foi Primeiro-ministro durante 10 anos. Os institutos públicos que ele e os seus ministros criaram eram necessários? Os subsídios que distribuiu foram bem distribuídos? As medidas que implementou em alguma coisa nos beneficiaram? São dúvidas para as quais não tenho resposta, camarada. Mas de uma coisa eu sei: a bandeira do trabalho aos domingos, que socialistas como o Eduardo Pitta tanto gostam de hastear, toca-me particularmente. Há dois anos que trabalho aos domingos. Ganhei mais alguma coisa por isso? Zero. Dizem-me que nos países civilizados está tudo aberto aos domingos. Se não for bem assim, não interessa. Aqueles que não abrem aos domingos não serão assim tão civilizados. Ser-se civilizado, ser-se in, moderno, actual, é abrir aos domingos. Durante muito tempo, ninguém precisou dos domingos senão para passear o tédio. Agora exigimos a alegria do consumismo 24 horas por dia, 7 dias por semana. Fazer compras aos domingos é bom, trabalhar nem por isso. No meu caso, passei a ter 1 fim-de-semana por mês para distribuir pela família e amigos. Isto quer dizer que passei a ter 1 fim-de-semana por mês para confraternizar com os que me são mais queridos. Não recebo nem mais um tostão por isso, mas estou a contribuir para a felicidade de socialistas como o Eduardo Pitta. E isso deixa-me satisfeito. De resto, toda a minha família e amigos sentem-se muito orgulhosos pelo meu esforço. Além do que não me posso queixar, ainda tenho 1 fim-de-semana. Noutros casos, nem isso. Basta pensar num casal em que ambos trabalhem aos domingos e a conciliação das folgas seja impossível. Trabalhar aos domingos é muito bom, sobretudo para quem não trabalha aos domingos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

E.T.

É na sequência final. Antes de partir, ET sugere a Elliott que embarque; o miúdo pede ao extra-terrestre que fique. Passados tantos anos, entre aquele come & stay a mesma comoção e o mesmo embaraço. A incompatibilidade era evidente, apesar de até então terem os dois estado tão sincronizados. O amável ET estende o dedo indicador até à testa do miúdo. E com a ponta do dedo iluminada diz: eu estarei sempre aqui. No pensamento, em pensamento. Valha-nos isso.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

RELATIVISMO CULTURAL

Porco, cerdo, cochon, pig, sporco, dreckig, ou seja, xénophobic, xenófobo, xénophobe, fremdenfeindlich, isto é, racista, raciste, racizt, razzista, rassistisch.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

UM VALE DEMASIADO VERDE



Não sou um admirador indefectível da obra de John Ford (1894-1973). Há nos seus filmes uma inclinação moralista que me chateia, ainda que em muitos momentos se revele desconfiada da bondade das instituições. Filmes como Judge Priest (1934), How Green Was My Valley (1941) e The Sun Shines Bright (1953), atestam-no. Há neles uma espécie de cristianismo puro, talvez algo ingénuo ou utópico, que salienta a crítica das instituições ao mesmo tempo que apela à emoção enquanto definidora do bem que as leis, na sua cega vontade de condenar, acabam por perverter. O que neles há de desprezível é o elogio do sacrifício. How Green Was My Valley, filme considerado predicante, pueril, vulgar e medíocre por Georges Sadoul, transporta-nos para os dramas de uma família de mineiros no País de Gales. A história é narrada pelo elemento mais novo da família, que já em idade adulta lembra o quão verde foi o vale nos seus tempos de criança. A ideia de paraíso perdido que subjaz ao argumento é, de facto, vulgar, assim como não deixa de ser pueril a fé que o narrador da história deposita no poder da memória. Outro elemento que me desagrada nos filmes de Ford é o facilitismo com que sustém a natureza trágica das relações encenafas recorrendo a figuras picarescas que lhe servem de mero adereço humorístico, como que cedendo às crises asmáticas e taquicardíacas do espectador. Típico de quem busca grandes êxitos de bilheteira. De um modo mais depurado, Michael Mann parece-me um fiel herdeiro destes ensinamentos. A tragédia dos mineiros no Chile fez-me regressar a How Green Was My Valley. Naquele vale está tudo o que a tragédia grega já tinha, dos conflitos familiares à disputa da razão, das oposições sociais à intriga comunitária. Naquele vale uma criança fez-se adulta aprendendo a lutar contra as adversidades da vida, a cobardia dos diáconos e das línguas viperinas não deixou de condenar um amor impossível, jovens revolucionários partiram para a América em busca de uma vida melhor, os bons sucumbiram, deixando nos que ficaram a memória dos seus actos. Naquele tempo, a América era um sonho para mineiros explorados (juízo que deve ter valido pelo menos um Óscar). Tudo o que é preciso saber acerca da vida está naquele vale, tudo o que é preciso saber para que nunca os explorados deixem de lutar contra os exploradores mesmo que a derrota seja certa. No entanto, nada disto é suficiente para que o ânimo se levante. Regressamos ao verde do vale como quem regressa a um conto de fadas. Não saímos de lá sujos pelo carvão, mas assim que saímos sabemo-nos para sempre condenados ao conforto de uma sala de cinema. Antes a vida nos obrigasse a descer aos infernos.



Nota: fui ver o que o tempo fez a Roddy McDowall, o rapazito do filme. Não fez nada de jeito.

SETE

são os temas fundamentais da poesia lírica
em primeiro lugar o púbis da donzela
depois a lua cheia que é o púbis do céu
as florestas abarrotadas de pássaros
o crepúsculo que parece um cartão-postal
o instrumento músico chamado violino
e a absoluta maravilha que é um cacho de uvas.


Nicanor Parra, in Emergency Poems (1972)
Versão de HMBF

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A AUTOMANJEDOURA



Os tempos modernos começaram quando, ao inventar o relógio, o homem passou a organizar-se em função da cadência que quis impor à natureza. Daí à cronometragem de tarefas, à aceleração dos ritmos, à rentabilização do tempo, aos horários, às estatísticas, à automatização dos comportamentos, foi um pequeno passo. É o plano de um relógio que está no início de Tempos Modernos, o filme de Chaplin. Após a revolução industrial, a grande questão foi sempre a de como garantir o direito à felicidade tornando a vida rentável. Tornar a vida rentável significa dar-lhe utilidade, daí que não seja de estranhar aquela quase justaposição de planos que compara os operários a caminharem para uma fábrica com uma vara de porcos a caminhar para um matadouro. Basicamente, ser rentável implica uma espécie de metamorfose suína. Escravos do trabalho, os homens aprendem a viver sem terem tempo para se coçar. Começaram por ser escravos da natureza, passaram a ser escravos do fogo, tornaram-se escravos da comunidade, foram escravos dos chefes, da religião, foram escravos da própria escravidão, acabaram escravos do tempo. E disso fizeram o grande negócio pós-moderno. Enquanto os “presidentes” se entretêm com puzzles e primeiras páginas, controlando do alto da torre as manadas em alienadora produção, o mundo progride e avança. As máquinas foram substituindo a mão-de-obra, as novas tecnologias vão substituindo as máquinas, sendo provável que daqui a uns tempos qualquer coisa que não sabemos bem o quê venha a substituir as novas tecnologias. Podemos sonhar com paraísos perdidos, com a felicidade de mão dada com o amor dentro de uma cabana, podemos aspirar apenas a uma vida mais serena ou a regressarmos a uma “era dinossáurica”, selvagem, pura. Pergunto-me de quem ou do que será escravo o albatroz? Talvez de poetas que lhe invejam o voo e lhe admiram a resistência que, definitivamente, deixaram de ter. No filme de Chaplin há muitas cenas que se tornaram célebres. Numa delas, um inventor tenta convencer o dono de uma fábrica a investir numa automanjedoura. O objectivo da máquina seria eliminar a hora de almoço, um período de descanso que, como todos os períodos de descanso, traz sempre graves prejuízos às empresas. A automanjedoura, tal como nos foi apresentada no filme, não vingou. A sua inutilidade era proporcional à sua ineficácia. Em suma, não era prática. É um pouco como toda a arte. A sua inutilidade é proporcional à sua ineficácia; porque não é prática, continua a ser meramente decorativa, transformou-se em objecto de luxo, questão de mercado; deixou de ser ponto de ruptura e energia fracturante, para passar a ser mero pretexto de facturação. Mesmo quando pretende provocar, fá-lo protegida por uma ampola humorística que esvazia o conteúdo do seu potencial revolucionário. Não está em tensão com os paradigmas, é parte integrante da máquina auto-reprodutiva dos paradigmas. Escasseiam os exemplos de uma arte actual que se afirme por estar em colisão com um sistema aglutinador de artistas, o mesmo sistema que impõe a sua ditadura humorística, a tirania do design, o despotismo do aparecer. Na verdade, constata-se que a fama é a maior inimiga da fama, que o poder é o maior inimigo do poder. Conquistados certos patamares de estatuto, faz-se tábua rasa de tudo o que ficou para trás e age-se como o antigo inimigo. Na poesia actual, este esgotamento é ainda mais evidente. Onde poderíamos esperar um discurso alternativo, deparamos quase invariavelmente com uma “rotinização” do poético que esvazia a poesia do seu sentido de cisão, do seu significado de suspensão da monotonia que atravessa a vida. A poesia é agora parte integrante dessa rotina, desse tédio, dessa monotonia, dificilmente se distingue de um mero apontamento diarístico, de uma declaração de intenções, do preenchimento de um recibo verde. Já ninguém busca a excepcionalidade da palavra, todos querem ser aceites, reconhecidos e recomendados pelos caudilhos. Do hospício para o desemprego, o romântico de Tempos Modernos vê-se inadvertidamente envolvido numa manifestação. Equivocadamente acusado de liderança comunista, acaba detido. É libertado depois de impedir a fuga de dois presos que andavam a traficar cocaína dentro do estabelecimento prisional. Por que o fez? Por mero acaso, sem que a mínima intenção lhe comandasse as acções, sem que houvesse nele qualquer motivação. Na verdade, ao saber que vai ser libertado, pergunta se não pode ficar só mais um bocadinho preso. Tinha tecto, cama lavada, comida. Sabia que fora da prisão esperava-o a perigosa aventura da vida, aquela que a maioria dos criadores da actualidade evita confrontar, por ser muito mais confortável manter-se preso, servil, recomendável, útil.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

ABRO OUTRA GARRAFA





e continuo a dança do costume

estico uma perna
que podia perfeitamente ser braço
recolho um braço
que podia perfeitamente ser perna

dobro-me sem deixar de dançar
e desato os senhores sapatos
atiro um para lá do céu
afundo o outro debaixo da terra

agora começo a tirar a camisa

e nisto oiço o telefone a tocar
chamam-me do senhor escritório
respondo que continuarei a dançar
até que me aumentem o ordenado.



Nicanor Parra, in Emergency Poems (1972)Versão de HMBF

40%

Camarada Van Zeller, li no jornal que o nosso Grande Chefe quer mais 40% de licenciados até 2020. Ainda que apenas sonhe com um Primeiro-ministro competente, licenciado ou não, fiquei ensimesmado com a leitura. Tendo este inusitado desejo sido confessado na sessão de abertura do ano académico, fica claro que o seu valor é assim mais ou menos o mesmo que ouvir o senhor presidente da Associação de Cangalheiros afirmar que quer mais 40% de mortos até 2020. Afinal, mais 40% de licenciados para quê? Para caixas de supermercado? Para repositores de hipermercados? Para aumentar as taxas de desemprego? Talvez para que nos sintamos todos felizes e realizados com uma sociedade mais culta, cívica, sábia. Tendo em conta a qualidade da maioria das licenciaturas em Portugal, esperança no futuro é o que não nos faltará.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

NATÁLIA CORREIA



O democrático calça seu aperto de mão de camurça anti-séptica e tira macacos do nariz da criança para os comer em público. Delirantes os pais servem-lhe as crias numa travessa azul andorinha com um requerimento espetado na boca. O democrático que fez constar que a liberdade é o democrático gostar de leitão ingere a criança tostada numa mastigação que os microfones traduzem numa língua para falar às baratas e dá finalmente um arroto. «Cheira a futuro» dizem os pais com a mão na algibeira acariciando seu órgão de continuidade. E cantam hinos até a polícia vir. Chegou a altura do democrático tirar sua jovial dentadura falsa para se entregar à mágica do inúmero monstro parado. Põe bigodeira soviética pingona da lavagem que azedou na baixela do czar. Entra no fraque de cangalheiro lusíada e dedica-se à caridade sepultando os vivos para adubar os ciprestes desvalidos. Dá pulos de alegria americana até ficar um símio bestialmente obcecado pela pichota que manuseia como uma metralhadora. Mandarina-se manipanço de Mao e pede ao feng shui que transforme os homens em pragas de gafanhotos.
Felizmente o democrático não é outra coisa além do que não é. Se o democrático fosse uma oleografia de Nosso Senhor Jesus Cristo, encimava as camas de todos os bordéis latinos, cristianissimamente pendurado pelo fervoroso mau gosto das prostitutas. Se o democrático fosse verdade, a Terra era a peta mais descarada do sistema planetário que a consente porque sabe em sua cósmica sabedoria que o democrático há-de passar como susto que é de termos os pés vermelhos em Marte e as têmporas floridas em Vénus, lindíssimos passos da dança em que se alargará o nosso círculo de ossificadas interjeições quando o democrático se fatigar de ser uma diligente mentira.
Minuto a minuto conheço os milénios sombrios do democrático a fazer recuar o tempo para nos desfigurar. Porque como todos aqueles que engolem a espada em chamas do amor eu conheço o medo e digo-vos que o democrático é o nosso medo de haver democracia. Ah, creiam-me, o democrático é, no centro da nossa crisólita de feridas abertas para a liberdade, a sufocação que não deixa haver democracia.
Atenção. Não vos falo da política das políticas. Mas, tanto dá, da musculada democracia solar deste dia que arrombou com um murro a lua, impressora de preciosas estampas prometidas no sonho, para conduzir o formigueiro do folclore consumista ao santuário da Síbaris do Efémero. Querem exemplo mais cabalmente triunfante do democrático?

A POLÍTICA DO DIA

Hoje a vida tem o sorriso
dentífrico dos candidados
e pelas ruas nos aponta
o céu em múltiplos retratos

céu não póstumo ou merecido
em cruel sala de espera
mas entre parêntesis de fogo
festiva véspera de guerra.

Teor de montras a vida
com democrático amor
a todos deixa gozar
sua dose de consumidor.

Publicitária a vida faz
sua campanha eleitoral:
É entrar meus senhores, quem dá mais
por princípios que não têm final?

Televisor férias de verão
tira a vida do seu discurso
e um partido providencial
que nos domestica o urso.

Popular a vida é toda
pétalas de apertos de mão.
Que meus versos me salvem
de cair nesse alçapão!


De A Mosca Iluminada (1972), in O Sol Nas Noites e O Luar Nos Dias, Círculo de Leitores, Março de 1993, pp. 450-452. A ler Lembrar Natália de Eduardo Pitta.

CRÍTICOS IMPLACÁVEIS

Não sei se conhecem O Imagético Mental de Michèle Métail. Se não conhecem, também não interessa. Comecei a ler em voz alta a versão do poema que aparece na antologia Sud-Express. Retrato-Robot nº 1, Retrato-Robot nº 4, Retrato-Robot nº 6… Subitamente, fui interrompido pelo Daniel. Na sua curiosidade de 11 anos, perguntou-me:
− Tio, isso é para ter graça?
− Não sei, talvez sim.
− É que não tem graça nenhuma.
Eis o que faz falta à crítica portuguesa, os juízos implacáveis das crianças de 11 anos.

TEMPOS MODERNOS

Atravessamos tempos calamitosos
impossível falar sem incorrer em delito de contradição
impossível calar sem tornar-se cúmplice do Pentágono.
Sabe-se perfeitamente que não há alternativa possível
todos os caminhos vão dar a Cuba
mas o ar está sujo
e respirar é um acto falhado.
O inimigo diz
é o país que tem a culpa
como se os países fossem homens.
Nuvens malditas revoluteiam em torno de vulcões malditos
embarcações malditas empreendem expedições malditas
árvores malditas livram-se de pássaros malditos:
tudo contaminado de antemão.




Nicanor Parra, in Emergency Poems (1972)Versão de HMBF

domingo, 12 de setembro de 2010

BOM VINHO




O primeiro aniversário do filho de um amigo levou-me à Aroeira. É sempre agradável atravessar a ponte para o outro lado, recordar os tempos em que passava férias na Sobreda, em casa de uma tia que fazia uns maravilhosos iogurtes caseiros e se especializou, entretanto, em marmelada e compotas de tomate, maçã, pêra. Compreendo que para quem tenha de fazer aquela travessia todos os dias, a paisagem sobre a ponte perca o encanto que tem para quem lá passa muito de vez em quando. No meu caso, significa atravessar a memória com uma bela vista em pano de fundo. Encontrada a Rua José Gomes Ferreira, numa avenida atravessada por Jorge de Sena, Almada Negreiros, entre outros poetas que o mais que podem almejar é oferecerem o nome a uma rua, lá dei com dois velhos e bons amigos. Estamos todos mais gordos, carcomidos pelas obrigações domésticas, pelo trabalho, mas ainda sabemos rir, mesmo quando o riso se apoia apenas em velhas recordações. Cada qual com os seus projectos, carregando as necessidades das respectivas proles, sentiremos sempre que podíamos ser o que não somos, podíamos ser o que somos mas de outra maneira, podíamos simplesmente não ser… As variáveis são imensas e, roubando o verso ao Rui Costa, as limitações do amor são infinitas. Sucede que entre desabafos e lamentações surgem sempre boas histórias. Nascido em 2005, o filho de um dos meus amigos ofereceu ao avô o pretexto para uma colecção: garrafas de vinho, todas elas de 2005. Diz que vai em mais de duas centenas. Vinhos de todo o lado, sobretudo sul-americanos e europeus. Parece-me uma excelente colecção, e a dedicação do avô tem um lado comovente ao qual é impossível escapar sem uma certa nostalgia do futuro. Se lá chegarmos, como iremos nós ocupar o tempo daqui a 30 anos? 35 anos passados, a gente sabe que metade da vida está cumprida e que o porvir há-de estar irremediavelmente ligado ao que já foi. Coleccionar vinhos com a data de nascimento dos netos parece-me uma opção agradável, até porque não conheço nada que se assemelhe tanto aos homens como o vinho. Na verdade, tendo cada vez mais a pensar que não conheço nada que se assemelhe tanto ao vinho como os homens. Há os que envelhecem bem e os que envelhecem mal. E é tudo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

EU NÃO SOU UM VELHO SENTIMENTAL



um bebé deixa-me totalmente frio
não tomaria nos braços um bebé
mesmo que o mundo estivesse a desabar
que cada qual se coce com as unhas que tem
aborreço-me nas festas de família
prefiro que me dêem uma bordoada na cabeça
a ter que brincar com um sobrinho
tão-pouco me impressionam os netos
quero dizer põem-me os nervos em franja
mal me vêem regressar do trabalho
atiram-se-me para cima com os braços abertos
como se eu fosse o Pai Natal
puta que os pariu!
quem terão pensado que eu sou?



Nicanor Parra, in Emergency Poems (1972)Versão de HMBF

domingo, 5 de setembro de 2010

MILITANTEMENTE ANTIMILITANTE


Em 1969, a poesia de Nicanor Parra foi reconhecida com o Prémio Nacional de Literatura. Obra gruesa, uma antologia da sua produção poética desde Poemas y antipoemas, foi publicado por essa ocasião. Aos poemas antigos juntaram-se novas secções, entre as quais La camisa de fuerza e Otros poemas. Nesses poemas encontraremos a personagem antipoética do energúmeno, «el hombre apartado o separado de la masa social por su vociferante, enajenada y agresiva actitud ante las “camisas de fuerza” que quieren imponerle las grandes construcciones ideológicas (el capitalismo, el marxismo, el cristianismo)». Um dos poemas mais representativos desta fase é A Batalha Campal. A postura política de Nicanor havia atingido um ponto de saturação crítica algo diferente da que encontramos nos poemas iniciais, tendendo agora para uma espécie de «militância antimilitante». Sem cartão partidário, o seu compromisso passa a ser contra a coerção, a corrupção da autoridade, os excessos do capitalismo. O seu dogma é antidogmático. O sarcasmo, uma ironia brutal, são os únicos ornamentos do poema. Curiosamente, será o Taller de Creación Teatral de la Universidad Católica do Chile a levar a palco uma encenação destes poemas. Posteriormente, Nicanor dedicar-se-á à arte postal. Os “artefactos” de 1972 são poemas visuais publicados sob a forma de postal. Neles se misturam vários elementos (palavra, desenho, fotografia, etc) que resultam num forte exercício epigramático. Em muitas ocasiões, o muro passará a ser a página do antipoeta e o graffiti a sua forma de expressão mais directa. Neste sentido, Nicanor Parra distancia-se, e muito, de toda a tradição poética chilena, nomeadamente do primeiro Vicente Huidobro, cuja teoria criacionista conferia à poesia e ao poeta um grau de excepcionalidade. Para Parra o poeta é um caçador de palavras, «não produz poesia, compõe poesia. Não é mais do que um ouvido atento que recolhe a sua poesia das bocas dos seus falantes. (…) Por isso o poeta viaja pelo mundo com um noticiário na mão, cheio de toda esta poesia produzida pelo colectivo». A fauna microbiana é a sua fonte, o olho microscópico o seu instrumento. Daí que Parra renegue, ou, pelo menos, desprestigie o conceito de autor. No mesmo ano em que surgem os artefactos, aparecem os Emergency poems, ou seja, 31 novos poemas a acrescentar a outros publicados na Obra gruesa. Um desses poemas, é este

NÃO ACREDITO NA VIA PACÍFICA

não acredito na via violenta
gostaria de acreditar
em algo ─mas não acredito
acreditar é crer em Deus
a única coisa que eu faço
é encolher os ombros
perdoem-me a franqueza
nem na Via Láctea eu acredito.


Ao alto: um dos artefactos do livro de 1972, que recupera um verso do poema Frases.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

CUBISMO LITERÁRIO






Vicente Huidobro foi uma espécie de Giovanni Pico della Mirandola da poesia chilena. Com apenas 23 anos, escrevia isto: «Soy uno de los pocos poetas de hoy que lleva tras de sí una verdadera y enorme labor artística». Uma afirmação destas, no Portugal moderno, era meio caminho andado para ser encostado à boxe pelos «imbéciles que en el mundanal ruido se llaman críticos». De facto, o poeta foi a todas. Do dadaísmo ao surrealismo, da poesia visual aos caligramas, do épico ao prosaico... Uma das fases mais interessantes por que passou é a do denominado cubismo literário, que se define pela descontinuidade do discurso como forma de possibilitar várias combinações lexicais. Hoje em dia, isto não interessa para nada. A maioria dos poetas escreve por escrever, sem preocupações formais de monta nem concepções estéticas fundamentadas. Mas no início do séc. XX o classicismo combatia-se com conhecimento de causa e vontade de mudança. A supressão da pontuação, os espaços em branco, as quebras de verso abruptas, traziam em si não só uma nova estrutura rítmica como também uma intenção plástica que buscava a coerência numa justaposição de imagens que apelava à imaginação do leitor. Desta fase, gosto muito da sequência que tem por motivos a lua e um relógio. Integra o volume intitulado Poemas árticos (1918). Deixo aqui uma versão possível:

LUA

Estávamos tão distantes da vida
Que o vento fazia-nos suspirar




A LUA SOA COMO UM RELÓGIO

Inutilmente fugimos
O inverno caiu no nosso caminho
E o passado cheio de folhas secas
Perde o carreiro da floresta

…………………..Tanto fumámos debaixo das árvores
…………………..Que as amendoeiras cheiram a tabaco

………………………………Meia-noite

Sobre a vida longínqua
…………………………………alguém chora
E a lua esqueceu-se de dar as horas




LUA OU RELÓGIO

As tardes prisioneiras
……………………………….nas vielas frias
E as canções cónicas dos jardins
Andorinhas sem asas
………………………………entre a névoa sólida
Angústia na minha garganta
Sobre a testa a coroa seca
E nas tuas mãos uma estrela fresca
Depois no vale sem sol
………………………………….um mesmo ruído
A lua e o relógio

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

ESTADO MÍNIMO

Vivemos numa sociedade onde as pessoas podem queixar-se e lamentar-se, embora com prudência e algum pundonor. A liberdade de expressão não é um dado adquirido, é um território a cultivar sob a permanente ameaça das novas formas de censura. De facto, o Estado é um monstro frankensteiniano, a burocracia bloqueia muitas aspirações individuais, os cidadãos manifestam o seu desagrado ou a sua indiferença sem que sejam óbvias as suas preocupações colectivas. Na base das queixas, estão quase sempre sintomas individuais ou de grupo. E raramente pressentimos nessas queixas uma verdadeira vontade de mudar. 36 anos de democracia com o poder repartido entre duas facções em tudo similares denotam uma espécie de esgotamento ideológico. Parece que nada há a fazer senão resignarmo-nos a ser governados por proxenetas.

Penso nisto terminada a leitura de Anarquia, Estado e Utopia. Originalmente publicado em 1974, foi o primeiro livro do filósofo Robert Nozick (1938-2002). Escrito como reacção à obra A Theory of Justice (1971), de John Rawls (1921-2002), propõe um Estado mínimo como sendo o sistema político que melhor garante os direitos das pessoas. Sendo assim, o Estado mínimo seria preferível à anarquia, às utopias e aos Estados ditos paternalistas. No prefácio, Nozick deixa bem claro que a sua intenção é debater «a natureza do Estado, as suas funções legítimas e as suas justificações», acrescentando que «um Estado mínimo, limitado às funções estritas de protecção contra a violência, roubo, fraude, execução de contratos, e por aí em diante» é o único que se justifica. Ignoramos até onde poderá chegar o «por aí em diante».

Quando se defende que o Estado não pode fazer uso dos seus instrumentos coercivos para obrigar uns cidadãos a ajudar outros, como se pode defender a existência de um Estado (por mínimo que seja)? A existência de todo e qualquer Estado fundamenta-se nesse princípio de cooperação e entreajuda que decreta deveres e direitos como garante de uma maior justiça e de uma mais alargada igualdade de oportunidades. Não há outra razão que justifique a existência do Estado senão o temor da desigualdade que está na origem dos anseios de justiça. É por temerem a invasão de um espaço que tomam por seu, que os homens hipotecam parte da sua liberdade e entregam a “meia dúzia de eleitos”, para o mal e para o bem, o governo de uma boa parte das suas vidas.

Sucede que, ao defender o Estado mínimo, Nozick, com ou sem intenção, fertiliza o campo onde cresceu e vingou o capitalismo selvagem que nos trouxe onde agora estamos, entregando a alguns o poder de arrumar arbitrariamente a vida da maioria. Ao preocupar-se quase exclusivamente com os direitos individuais, justificando as suas posições com exemplos frequentemente rebuscados, como que perde o senso à realidade e, paradoxalmente, acaba por justificar um sistema que escraviza os indivíduos em vez de os respeitar na sua natural heterogeneidade - tornando-os irremediavelmente dependentes dos condicionalismos sociais e culturais onde estão inseridos.

O Estado mínimo é o Estado das seguradoras, é o Estado das clínicas e dos hospitais privados, é o Estado das grandes superfícies comerciais, dos monopólios económicos. Se não era essa a intenção, é essa a consequência. Logo na primeira parte do livro, especialmente atenta ao problema das restrições impostas pelo Estado, Nozick afirma, por exemplo, que «uma pessoa pode escolher fazer a si própria (ou permitir que outro lhe faça) seja o que for, a menos que tenha adquirido uma obrigação perante um terceiro de não o fazer ou permitir» (p. 92). Em teoria, isto faz todo o sentido. A menos que, na prática, o problema não esteja tanto no poder fazer como no dever fazer. Porque não estamos isolados no mundo, aquilo que fazemos a nós próprios terá consequências na vida dos outros. Um exemplo radical: certo pai pode matar-se; mas deverá fazê-lo, isto é, será moralmente aceitável que o faça tendo em conta a existência de um filho menor a seu cargo?

Tal como o egoísmo, as obrigações perante terceiros são inerentes à condição humana. Ninguém está livre delas. Há que gerir todos os elementos da melhor forma possível. O mesmo se passa quando falamos de obrigações dos cidadãos para com o Estado e do Estado para com os cidadãos. Afinal, por que nos obrigam a ir à escola? Para que nos são cobrados impostos? Porque violam desde cedo a nossa privacidade exigindo-nos uma matrícula identitária? A inviolabilidade dos indivíduos é uma ideia simpática, mas não confere com a realidade. A vida em sociedade conquista-se porque os indivíduos são violáveis, permeáveis à educação e à assimilação de valores com os quais poderão estar mais ou menos de acordo.

O Estado mínimo não garante sequer um pedaço de terra onde possamos cultivar isoladamente a nossa sobrevivência, não oferece condições mínimas para a conquista do mais básico dos direitos, ou seja, uma vida feliz. Porque é impossível conceber a vida feliz independentemente do exercício da liberdade, como esperar de um Estado justiça quando tudo o que tem para propor é um serviço de protecção pago? E quem administra esse serviço? Como? Em que circunstâncias? Com que critérios? Muitos dos paradoxos sugeridos e dos problemas levantados por Nozick são estimulantes de um ponto de vista académico, embora por vezes pareçam mais do domínio da ficção científica do que da política prática. Mas a dúvida que se nos coloca hoje é mais simples: assim como não vale a pena contratar um avançado para ser igual ou inferior aos que já temos, valerá a pena varrer certa trupe do poder para vir outra igual ou pior?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ÚLTIMA HORA




Moçambicanos reagem de forma efusiva às declarações de António Lobo Antunes sobre os comportamentos dos militares portugueses durante a Guerra Colonial. Carlos Matos Gomes já veio desmentir qualquer envolvimento no desenrolar dos acontecimentos, mas adianta que Lobo Antunes estava a pedi-las. Entretanto, o autor de Os Cus de Judas lamentou o sucedido. Diz que a culpa foi da sua insidiosa memória de elefante.

MUITAS NOITES SEM DORMIR



Camarada Van Zeller, os políticos portugueses metem-me nojo. Perdoe-me o tom. No entanto, permita-me que acrescente: os empresários portugueses ainda me metem mais nojo. O PM julga que os portugueses querem ter mais filhos, que é preciso criar condições para que os portugueses tenham mais filhos. Eu tenho duas filhas, camarada Van Zeller. E teria mais, uma prole africana, não fosse este facto incontornável: 551,11€. Você saberá do que eu estou a falar.

P.S.: a música é só para disfarçar.