Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: GRÉCIA

Eis que esta viagem motiva uma questão: «não terá havido, no caso português com a igreja, a inquisição e o salazarismo, uma impossibilidade de extrema grandeza de acesso à dimensão poética, uma impossibilidade de conhecimento de si, do seu "interior", de procurar dizer a experiência?» Por e-mail, o autor da mesma esclareceu o seguinte: «depois de ter escrito a pergunta ocorreu-me que a condição que descrevo como opressora em Portugal deverá ter ocorrido igualmente em Itália, negando por completo a minha questão». Seja como for, e ainda que pouco me seja dado afirmar sobre uma dúvida cuja formulação me parece demasiado complexa para aqui ser abordada, julgo pertinente apanharmos o barco em Brindisi e partirmos para a Grécia. Esse convencionado berço civilizacional, independentemente dos pilares engessados que hoje ostenta, foi sempre lugar de grandiosas experiências poéticas. Em termos comparativos, diria que a índole periférica do território português, fatidicamente imposta por uma muralha oceânica, apenas transposta em tempos de gloriosa memória (‘da-se, que os 5 a secos inspiraram-me o estro!), intimidou-nos a inventividade. Somos um povo assumidamente sereno e acomodado. É genético. Tais características revelam-se com indubitável clareza. Metade de um século governados por uma ditadura de espírito mesquinhamente introvertido é prova mais do que suficiente da nossa acomodação. Ainda agora, perante a crise e os pacotes de austeridade, pouco mais nos é dado agir do que encolher os ombros e enfiar as mãos nos bolsos. O espírito fundador dos gregos foi épico. As consequências são explícitas. Desse espírito retivemos apenas histórias para contar às crianças. Substituímos a eloquência das divindades clássicas pelo simbolismo sacrificial de um homem que se entregou aos seus inimigos, preferimos um corpo espetado na cruz a um calcanhar, ainda que traiçoeiro, heróico e valente. Cesare Pavese, no seu O Ofício de Viver, aconselhava um regresso a Homero. Já ele dizia, provavelmente embaraçado pela melancolia que o açoitava, que «os grandes poetas são raros como os grandes amantes. Não bastam as veleidades, as fúrias e os sonhos; é preciso melhor: ter colhões». A educação para o conforto, inseparável do aburguesamento da sociedade, castrou-nos. Camões e Bocage ainda os tiveram, mas Pessoa foi já um castrado. É por isso que Pessoa é o herói da actualidade, o génio da modernidade, é ele quem melhor representa todas as nossas debilidades, ele é o presente e o futuro, é a ruptura com o passado. É o rei dos castrados. No fundo, é essa degenerescência que está na origem de uma espécie de subsituação do épico pelo lírico (Pavese também escreveu umas coisas curiosas a este respeito). A domesticidade do ser é, por excelência, a matéria do lirismo. Andamos há muito enrolados numa poesia da tadinhice, pelo que agora talvez não seja má ideia começarmos a extrair dessa domesticidade as suas irónicas contradições. Disto tudo, como é óbvio, não se fazem regras sem excepções. Mas o que fica claro é que, ainda hoje, vigora o eu entediado consigo próprio, chateadíssimo com o mundo e tristonho, um eu submerso na consciência da inutilidade existencial, um pessimismo como que envergonhado de si próprio, um eu deveras carente de estimulantes. A força da natureza e os corajosos actos humanos foram sendo ocupados por uma resignação amorfa e desistente. É tudo morte, morte, morte, morte, morte, e de tanta morte ser dita já mortos parecem estar os sedentários zombies. Pois bem, desconheço a actualidade poética grega. Mas sei que por lá a gente ainda pode reencontra-se com Giórgos Seféris (Esmirna, 1900), Yiannis Ritsos (Monemvasia, 1909), Odysséas Elytis (Iráklio, 1911) e Konstandinos Kavafis (Alexandria, 1863):

UM VELHO


No café no lugar de dentro na zoeira turva
senta-se um velho na mesa se curva;
com um jornal diante dele, sem companhia.

E no desdém da velhice miserável
pensa como usou tão pouco o tempo deleitável
em que força, e eloquência, e beleza possuía.

Sabe que envelheceu muito; sente-o, é visível.
E contudo o tempo em que era novo ao mesmo nível
do de ontem. Que espaço apressado, que espaço apressado.

E considera como burlava dele a Prudência;
e como nela tinha confiança sempre ─ que demência! ─
a perjura que dizia: «Amanhã. O tempo é demorado».

Lembra-se de impulsos a que punha freio; e sem medida
a alegria que sacrificava. Cada história perdida
agora troça da sua desmiolada sageza.

. . . .Mas do muito que foi pensando e não esquece
o velho atordoou-se. E adormece
no café apoiado sobre a mesa.


Konstandinos Kavafis, in Poemas e Prosas, trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio D’Água, 1994, p. 73.

AMOR PATERNAL



o meu pai pegou-me ao colo
e apertou contra os seus
os meus parcos ossos tenros
(um acto de amor puro)

vinte e cinco anos mais tarde
descubro por radiografias
uma ligeira escoliose nas costas
e não pareço importar-me

é que a um pai perdoa-se tudo
e esta escoliose minha
não mais é que uma gota
no oceano de um amor paternal



João Miguel Henriques, in O Sopro da Tartaruga, Edição de Autor, p. 26. Adenda: sobre o livro de onde este poema foi respigado escrevi eu aqui. O autor escreve acolá.

UM DIA INVULGAR


O Sporting ganhou 5-0. É invulgar. O Postiga marcou. É ainda mais invulgar. O panhonha da fotografia passou 90 minutos preocupado com o Liedson e o Yannick. Enfim, ele há coisas que hão-de ser sempre incorrigivelmente vulgares.

Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

EU É QUE SOU O FORTINBRAS

«Isto é só literatura, não é a Segunda Guerra Mundial» − ora aí está algo que eu andava precisado de ler. Às vezes sabe bem sermos chamados à Terra. Caso contrário, ainda nos esquecemos de que um dia tem 24 horas e estar vivo é o contrário de estar morto. Mas será só literatura? Será sequer literatura? Pela parte que me toca, tenho a dizer o seguinte: a dúvida que aqui levantei é-me mais que legítima tendo em conta o que li do que o Jorge até hoje escreveu. As epístolas eram um must de bajulice e graxa (lembro esta ou esta), os dois livros de poesia de um sentimentalismo enjoativo, duas ou três crónicas um chorrilho de palermices. Foi tudo o que lhe li. Dito isto, irrita-me que se façam orelhas moucas às palermices que o Jorge escreve. Os cegos, surdos e mudos terão as suas razões. Não me cabe julgá-los, mas cabe-me, enquanto leitor, questioná-los, até porque estou contra o comércio de gato por lebre. Ou será que em literatura temos de enfiar tudo pela boca adentro sem sentido crítico nem dúvida? Fique também claro que não pretendo dar lições sobre nada a ninguém, isto independentemente de estar convencido de que há quem delas necessite. Raio de sina esta que sempre que alguém levanta questões tenha de ouvir-se acusado de presunçoso, mal intencionado, invejoso ou outra coisa qualquer! Bom seria que se debatessem ideias, leituras, conceitos, que se discutissem argumentos, que se jogasse com o melhor que a retórica tem para nos oferecer. Infelizmente, não vai dando para tanto, visto que em vez dessa saudável troca de impressões deparamo-nos consecutivamente traídos pela falta de ideias, conceitos, leituras, argumentos. Resta dizer que, tal como o Jorge, não simpatizo com o anonimato, nicks, pseudónimos, essas tretas. Em weblogs de índole literária ainda menos, tão medíocre o que com ele se possa ganhar ou perder. Admito o anonimato quando se pretenda discutir. Neste meio, a essa intenção sobrepõe-se frequentemente a vontade de brincar com a pilinha que não se tem (é o que resulta da castração). Então, insulta-se gratuitamente, fazem-se insinuações, dizem-se mentiras. Sabemos como é. Mas que dizer, por exemplo, se em vez do anonimato se optar pela vetusta intriga palaciana? E se os palácios forem substituídos pelas caixas de e-mail por onde pululam os intriguistas com as suas unhas viperinas, dizendo mal deste e daquele mas sempre com o cuidado de solicitarem reserva e discrição? O que é mais censurável: uma brincadeira de cachopos ou o veneno da mexeriquice? Repare-se, para terminar, como neste post o Jorge começa por dizer que censurou um comentário que lhe era favorável (ó benfeitor, guarde Deus para ti um lugar no céu tanta é a humildade que demonstras ter), para no final nos brindar com os conteúdos desse mesmo comentário supostamente censurado. O que chamar a isto? Se nessa revelação não viesse uma torpe insinuação, a de que o meu amigo Rui Almeida é o autor do Máscara&Chicote, jamais eu me daria ao trabalho desta prosa. Na verdade, o autor desse pernicioso weblog sou eu (digo-o com o mesmo espírito da criança judia que no campo de concentração apontou para um morto quando lhe perguntaram quem andava a roubar galinhas). Não me interessa quem é o Fortinbras, assim como nunca me interessou quem era o Casanova e muito menos o Palomar. Por mim, podem ser todos farinha do mesmo saco. Até podem ser o Jorge Reis-Sá. Algo que me deixaria deveras espantado, caso viesse a revelar-se. Nesse caso, as minhas dúvidas estariam desfeitas. Até lá, mantenho o que disse. Que me provem o contrário.

A LEVAR NO PACOTE

Camarada Van Zeller, o pacote foi anunciado. Olho para aquilo, leio, releio e não entendo nada. Dir-me-ão que não é hora para lavar roupa suja, mas enquanto não a lavamos ela vai sendo acumulada deixando um cheiro insuportável pela casa toda. Afinal quem nos trouxe aqui? Em que é que a incompetência dessa gente que nos trouxe ao ponto em que estamos será devidamente penalizada? Como é que essa gente que durante anos não fez outra coisa senão mamar do Estado vai agora contribuir para a resolução dos problemas do país? Temos um Presidente da República que foi Primeiro-ministro durante 10 anos. Os institutos públicos que ele e os seus ministros criaram eram necessários? Os subsídios que distribuiu foram bem distribuídos? As medidas que implementou em alguma coisa nos beneficiaram? São dúvidas para as quais não tenho resposta, camarada. Mas de uma coisa eu sei: a bandeira do trabalho aos domingos, que socialistas como o Eduardo Pitta tanto gostam de hastear, toca-me particularmente. Há dois anos que trabalho aos domingos. Ganhei mais alguma coisa por isso? Zero. Dizem-me que nos países civilizados está tudo aberto aos domingos. Se não for bem assim, não interessa. Aqueles que não abrem aos domingos não serão assim tão civilizados. Ser-se civilizado, ser-se in, moderno, actual, é abrir aos domingos. Durante muito tempo, ninguém precisou dos domingos senão para passear o tédio. Agora exigimos a alegria do consumismo 24 horas por dia, 7 dias por semana. Fazer compras aos domingos é bom, trabalhar nem por isso. No meu caso, passei a ter 1 fim-de-semana por mês para distribuir pela família e amigos. Isto quer dizer que passei a ter 1 fim-de-semana por mês para confraternizar com os que me são mais queridos. Não recebo nem mais um tostão por isso, mas estou a contribuir para a felicidade de socialistas como o Eduardo Pitta. E isso deixa-me satisfeito. De resto, toda a minha família e amigos sentem-se muito orgulhosos pelo meu esforço. Além do que não me posso queixar, ainda tenho 1 fim-de-semana. Noutros casos, nem isso. Basta pensar num casal em que ambos trabalhem aos domingos e a conciliação das folgas seja impossível. Trabalhar aos domingos é muito bom, sobretudo para quem não trabalha aos domingos.

PARA QUÊ SER FELIZ?

Nunca tive um trabalho que fosse tão mal pago. Até tenho vergonha de dizer o quanto trabalho e o quanto recebo pelo trabalho que tenho. Chega a ser ridículo. Às vezes penso que não tenho necessidade de me sujeitar a uma situação destas. Outras vezes penso que os tempos estão difíceis, melhores dias virão. Já ponderei voltar ao ensino, emigrar, fazer como o MV. O MV foi um dos muitos formandos que me passaram pela frente. Iniciou o curso em idade avançada, no limite. Tinha 22 ou 23 anos. Fora pai muito novo e tinha problemas com o álcool. Frequentava um curso profissional de 3 anos e aquela era a última oportunidade para ficar com o 12.º ano. Ao 3.º ano, sucumbiu. Ali mesmo à beira do rio, o MV foi morrer de sede. Há dias vi-o. Mudou-se para o Alentejo. Diz que não consegue arranjar trabalho, mas não se queixa. Até Abril garantiram-lhe 300€ por mês de subsídio de desemprego. Como não tem rendas para pagar, julga-se um afortunado. Não o invejo e só lhe desejo bem. No entanto, a sua história pôs-me a pensar. E se eu fizesse o mesmo? Também não tenho rendas para pagar. E tenho duas filhas. Acho que conseguia arrancar uns trocos valentes ao Estado. Encararia o subsídio de desemprego como uma espécie de Bolsa de Criação Literária. Escreveria um romance parvo, um livro de auto-ajuda, uma dessas porcarias que vendem milhares de exemplares. Ficaria rico num ápice, iniciaria uma promissora e pródiga carreira. Tenho a certeza de que seria capaz. Por outro lado, acho que não seria feliz. Assim também não sou. Para quê mudar quando nos sentimos condenados à infelicidade? E na verdade eu não sou infeliz, sou só pouco feliz, mais ou menos feliz, um feliz assim-assim, de vez em quando, tem dias, isso, tipo agora, neste momento, sinto-me feliz. Como ontem, quando ouvi esta canção enquanto estava a trabalhar:


29 DE SETEMBRO.

Tenho de deixar de orgulhar-me da minha incapacidade de sentimentos normais (o prazer de estar numa festa, a alegria da multidão, os afectos familiares, etc.). Pelo contrário, sou incapaz de sentimentos excepcionais (a solidão e o autodomínio), e se não me saio bem nos sentimentos normais é porque uma pretensão ingénua, em relação aos outros, me corroeu o sistema de reflexos, que era normalíssimo.
Em geral, contentamo-nos em ser incapazes dos sentimentos normais, e julgamos que isso significa «ser capaz dos outros».
Analogamente, pode ser-se incapaz de escrever uma idiotice e, também, uma coisa genial. Uma incapacidade não postula a outra capacidade e vice-versa.
Odeia-se o que se teme, isto é, aquilo que se pode ser, que se pode ser, que se sente que se é um pouco. Odiamo-nos a nós próprios. As qualidades mais interessantes e férteis de uma pessoa são as que essa pessoa mais odeia em si e nos outros. Porque no «ódio» encontra-se de tudo: amor, inveja, ignorância, mistério, ânsia de conhecer e possuir. O ódio faz sofrer. Vencer o ódio é dar um passo no sentido do autoconhecimento e do autodomínio, é «justificarmo-nos» e, portanto, deixar de sofrer.
Sofrer é sempre culpa nossa.


Cesare Pavese, in O Ofício de Viver - Diário (1935-1950), trad. Alfredo Amorim, Relógio D'Água, Fevereiro de 2004, pp. 121-122.

Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

OUTONO


...Naquele dia em que acordei invisível tudo me pareceu mais suportável. Andei pelas ruas como um anjo na terra, um fantasma. Não atormentei ninguém, nem deixei que me atormentassem os olhos dos outros. Estava bom tempo. Sentei-me numa esplanada e abri um livro sobre a mesa. Quem olhasse para aquela mesa não me veria, iria apenas reparar num livro que julgaria perdido. Era o meu livro. Folheava-o. Passava as páginas como se fosse o vento, as pontas dos meus dedos sopravam as páginas de um lado para o outro. Quem olhasse as páginas a passarem de um lado para o outro julgaria que era o vento. E era, porque eu era o vento.
...Foi naquele dia em que acordei invisível, a seis de Outubro. Apanhei as pessoas distraídas e servi-me de um copo de cerveja. Uma bênção. Que estranho, pensavam as pessoas que passavam e olhavam para uma mesa vazia. Sobre a mesa, apenas aquele copo de cerveja cheio e um livro aberto. Ninguém me via. Fui bebendo a cerveja. O copo ia ficando vazio. Quem o olhasse estranharia, pensaria que ali se passava um acelerado processo de evaporação. E passava. Eu era vapor, nos meus lábios o vapor de um dia, da minha boca para fora uma nuvem de vapor que ninguém via. Apenas eu, que ali sentado folheava um livro e tragava uma cerveja.
...Eu era um vapor redundante na boca do vento, exagerava talvez esse esforço inútil a que nos dedicamos sempre que pretendemos meter nas palavras a areia que não cabe nelas. As palavras estão cheias de si, nada lhes podemos acrescentar que elas não tenham já.
...Então vi Jayne passar. Fui atrás dela. Não como que perseguindo-a, porque não a perseguia. Na verdade, pouco me ralava onde iria, o que fazia, apenas queria saber se estava bem. E invisivelmente persegui Jayne até uma nova realidade nascida. Jayne tinha uma caminhada encantadora. Entrou numa imagem, e dessa imagem saltou para outra imagem, atravessou túneis longínquos de imagens fantasiosas, tinha a voz de um anjo, o rosto engenhoso de quem sonha e não se importa de oferecer alegria aos olhos. Eu amava Jayne, amo-a. Penso nela a todas as horas do dia. Mas não quis fazê-la sofrer, deixei-me ficar invisível e meti-me por atalhos obscuros, pensei que talvez pudesse ser salvo pela tristeza. De uma atmosfera assim, tudo o que podemos esperar, ironicamente, é a indiferença da monotonia.
...Trouxe à flor da pele a revolução disfarçada de um corpo. Senti-me triunfante. Já não estava tão invisível, se bem que ninguém notava em mim. Voltei à mesma esplanada, à mesma mesa, com o mesmo livro e o mesmo copo de cerveja. Agora qualquer pessoa podia ver-me, mas ninguém notava. Era como se eu não estivesse ali, como se a mesa permanecesse desocupada. Na verdade, eu retirara graça a uma mesa vazia. Eu era a esfinge que destoava numa paisagem toldada.
...Idiota, chamei a mim mesmo. Para quê pretender um corpo que ninguém toca, que ninguém vê, que ninguém suporta?
...Fui para casa ouvir música. Ornette Coleman, Don Cherry, Walter Norris, Don Payne, Billy Higgins. Eu era outra coisa quando ouvia música. Já não era o vento nem um vapor na boca do vento, nem sequer era um corpo, era algo para lá de todo e qualquer tipo de contentamento. Era a finíssima dor do silêncio quando é atravessado pelo som,
...................................................................................................era uma linha ténue que separa o dentro do fora,
.........................era essa pele esticada de onde retiraste o baque de um coração espontâneo,
.......................era um ritmo que não glosa o tempo,
..................................................................................nem a luz que no imo desse tempo se faz treva e ilumina,
.............era uma coisa cheia de vazio,
............................................................a nuvem de pó que se levanta quando à passagem da tempestade as raízes de um coro de árvores gritam em uníssono pelas folhas arrancadas,
..........................e as flores choram o pólen que parte para lugares insondáveis e de lá nunca mais volta.

A BIOGRAFIA DE ORLANDO


Orlando passou a vida a envelhecer.


Nuno Costa Santos, in Melancómico, Guerra e Paz, Fevereiro de 2007, p. 82.

MULHERES PORTUGUESAS

Era frequente fantasiarmos sobre o ideal de mulher perfeita. Uns preferiam as pretas, outros mexicanas, havia os que falavam em loiras ou morenas, aqueles desejavam asiáticas, sobre as quais se propagavam certos mitos anatómicos de razoabilidade muito duvidosa. Nórdicas, indianas e brasileiras vinham a lume com muita frequência. Por mim, não era esquisito. Não podia. Preferia as boas. Mas hoje, exactamente hoje, e tendo em conta a avalanche de pedidos desse livro intitulado Os Segredos das Mulheres Brasileiras, eu próprio fiquei curioso. Quais poderão ser os segredos dessas mulheres para manter os homens apaixonados? Serão os mesmos que mantêm os meus pais casados há 48 anos? Uma coisa é certa, há muita mulher portuguesa interessada nos segredos das mulheres brasileiras. Mais me preocuparia se começassem a interessar-se pelos segredos de seus maridos.

GRANDE REVELAÇÃO DA POESIA PORTUGUESA EM 2010

Não me direis, ó vós, que em mim falais,
Cães, para que ladrais, se não mordeis,
Bestas, porque atirais sem que acerteis?
Porcos, sem que fosseis, porque roncais?

Se é porque versos faço, talvez mais,
Ou melhores, talvez, que os que fazeis;
Brutos, para que deles mal dizeis,
Se os quereis, se os pedis e os trasladais?

Eu creio que o motivo é um de dois:
Ou inveja de ver que não luzis,
Ou receio de arder nos meus faróis.

Pois, cães, se vos não dou, porque latis?
Bestas, se vos não pico, porque o sois?
E porcos, se comeis, porque grunhis?


Tomás Pinto Brandão (Porto, 1664)

Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010

INDIGÊNCIA



Pois, sempre o mesmo: não morava ali, não se tratava da minha vida.
...Eu, sentado a escrever.
...Tinha optado pela indigência e pedia, sem local fixo, às vezes com um cartaz apelando para a minha condição. Eu, pedindo um pouco de piedade.
...Houve outras opções, naturalmente. Aquilo foi uma escolha. Mas depois o hábito impôs-se e não se via o princípio, como um texto amputado dos primeiros parágrafos que subitamente perde o sentido mas consiste em tudo aquilo que nos resta para ler.
...Tentava descortinar, nas esquinas, encostado às paredes, uma diferença no rosto das pessoas. Procurava retirá-las do fundo sujo onde nos movemos todos, longe da discrepância, sem privilégios. Procurava um representante digno, um motivo.
...Perdera toda a confiança em mim. Juntava-me a outros sem abrigo para vencer a noite. Agregação. A massa torna o frio mais suportável. Sombras em carne viva, aqueles aglomerados. Havia quem tivesse ainda menos do que eu. Seguia-os até aos seus abismos, torturado por uma culpa sem nome.
...Quem seria eu, na voragem dos rostos?
...Era só uma palavra o que mendigava às pessoas. Palavra atrás de palavra. Até nada sobrar desse alfabeto adiado.
...Passados anos percebi. Eu, sentado a escrever. Indigente.


José Ricardo Nunes, in Alfabeto Adiado, Deriva, Junho de 2010, p. 62.

JAMAIS NOS DARÍAMOS BEM

Páro no Incógnito, sigo para o bar e fico ali sentada, sozinha, a beber um gin tónico. E só vos digo que é estupenda, a sensação de estar assim mesmo: sozinha. Sem engates manhosos, sem ter de fazer conversa forçada ou arranjar desculpas para sair mais cedo. Ao ler este relato, lembrei-me desta estória.

A CONTAS COM A VIDA

Leio as vidas dos americanos e meto-me a sonhar. Faz-me falta um agente, um tipo que me representasse onde eu jamais estarei, um duplo, alguém que fosse por mim ao beija-mão, que aparecesse, um indivíduo que assinasse presença por mim nos cocktails, nas festas, nos lançamentos, que fizesse conversa, sala, alguém que fosse às apresentações e aos lançamentos, aos festivais, aos encontros, que andasse atrás dos jornalistas, que insistisse, que chegasse mesmo a ser inconveniente, quando tal parece necessário, alguém que me permitisse estar 24 horas por dia a fazer aquilo que realmente me faz feliz: viver, ler, pensar, escrever (exactamente por esta ordem). Faltando-me esse tal agente, preciso de trabalhar para me sustentar. Das 24 horas sobrar-me-ão meia dúzia, quando muito, para ser feliz.

PÚBLICO

Foi a crítica mais justa e honesta que alguma vez me fizeram: tu já não tens idade para andares a escrever só para ti, deves ir ao encontro do público. Se por displicência, arrogância ou antipatia, não sei, mas sempre que vejo esse tal público só sinto ganas de me afastar. Por vezes, confesso, chego mesmo a fugir dele. Tanto quanto posso, evito-o. No entanto, observo-o à distância. E também é sobre ele que vou escrevendo. Para mim e para quem vier atrás de mim.

UM SURREALISTA PORTUGUÊS





ESPARSA


do autor ao desconcerto do mundo


Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim
anda o mundo concertado.


Luís Vaz de Camões (Lisboa, 1524 [?])

E.T.

É na sequência final. Antes de partir, ET sugere a Elliott que embarque; o miúdo pede ao extra-terrestre que fique. Passados tantos anos, entre aquele come & stay a mesma comoção e o mesmo embaraço. A incompatibilidade era evidente, apesar de até então terem os dois estado tão sincronizados. O amável ET estende o dedo indicador até à testa do miúdo. E com a ponta do dedo iluminada diz: eu estarei sempre aqui. No pensamento, em pensamento. Valha-nos isso.

Domingo, 26 de Setembro de 2010

O DENTRO E O FORA

Bianca lia as sucessivas mensagens de amor que lhe iam chegando como se estivesse a ler o Tratado Lógico-Filosófico de Ludwig Wittgenstein. Tudo aquilo lhe fazia muito sentido, embora lhe parecesse inconsequente. Convencida de que era Baltazar quem lhe escrevia as declarações de amor, perguntava-se por que não se declararia ele a descoberto. Afinal viviam no mesmo prédio, conheciam-se, já tinham estado enrolados. O que demovia Baltazar de assumir de peito aberto aquele amor? Bianca supunha uma pulga atrás da orelha, mas na verdade havia um pombo a especializar-se em lírica amorosa. As mensagens foram sendo enviadas regularmente: que ela era uma fatia de melão doce, as águas translúcidas onde a sede procura a morte, uma talhada de melancia fresca, um pêssego careca, a corola onde o mel repousa, o botão que o sol desabrocha, que ela era a luz que ilumina as trevas, uma lua cheia na noite escura, era o molaflex de um sem abrigo, o maná dos tísicos, o doce néctar dos anacoretas do deserto, era a musa encantadora do sublime criador, uma estrelícia. Bianca já não suportava a distância. O facto de achar aquilo tudo inconsequente trazia-a ainda mais em brasa, de tal modo em brasa que os persas fritavam, as paredes da casa derretiam, tudo se incendiava à sua passagem. Não admira que por essa altura tenha havido um grande surto de incêndios na cidade. Foram tantos os fogos que Baltazar chegou a ponderar tornar-se bombeiro. Só não o fez porque detestava sirenes. Também detestava fardas. E capacetes. Em boa verdade ele detestava tudo o que pudesse estar associado aos bombeiros, de carros vermelhos a mangueiras intermináveis, passando por machados, campanhas de angariação de fundos e bailaricos de fim-de-ano. Seja como for, não podemos negar que a ideia lhe passou pela cabeça. Fugaz e superficialmente, é certo, como tudo o que por ali passava, mas passou. O que nunca lhe passou pela cabeça foi dizer a Bianca que a amava, muito menos que Bianca julgava ser ele o seu amante secreto, muito menos ainda que existia um qualquer amante secreto. Em homens como Baltazar não há razões para secretismos. Por certo raramente confessamos aquilo que o coração carrega. Não se trata de sermos fingidos. Trata-se de não sabermos dizer aquilo que o coração nos carrega. Mas Baltazar pura e simplesmente não carregava nada no coração. Logo, não tinha nada para dizer. No lugar do coração ele tinha apenas um órgão muscular oco que bombeava sangue. Na generalidade das pessoas, estes temas passam-se de forma diversa. As palavras ficam aquém do que pretendem comunicar, há nelas um hiato entre o que pensam e o que dizem. Quando pensam, não pensam com o intuito de virem a revelar os seus pensamentos. Convenceram-se de que pensar é já agir, ainda que façam questão de lembrar os outros de que nenhuma das suas conquistas caiu do céu. Do céu só cai chuva e merda de pombo. Os cidadãos das cidades que tossem são actores de si mesmos, encenam-se, e toda essa encenação é o que há de mais autêntico nas cidades que tossem. É preciso dizer que não há nada de patológico neste tipo de comportamento. As pessoas não são autênticas simplesmente porque não se conhecem a si próprias. Neste sentido, são inimputáveis. O pouco que sabem de si é apenas o pouco que julgam saber, é já uma representação, é um reflexo, uma imagem, uma construção mental. Elas não sabem o que lhes vai por dentro porque não têm tempo para pensar no assunto. Não é rentável. Nas cidades que tossem as pessoas não olham para dentro de si próprias. A maioria nem sequer tem um dentro, só tem um fora. Quando se metem a olhar para dentro vêem o vazio, que nem é coisa que se veja. Depois calam-se e fingem que pensam. Ou então falam muito, não pensam nada. Deixam o coração continuar a bombear sangue pelo corpo.
Escrito para O Indesmentível.

Sábado, 25 de Setembro de 2010

POESIA CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA



SOBRE A PRISÃO DUM SEU GALEGO
A SEU CUNHADO MANUEL MACHADO,
SENHORA DA TERRA
D’ANTRE HOMEM E CÁVADO

Inda que eu ria e me cale,
que me eu faça surdo e cego,
bem vejo eu porque o da Vale
correu tanto ao meu galego!
Como c’um leão fez festa!
Mas inda mal, a la fé,
porque um escrito na testa
não traz cada um de quem é.

Antre craros e escuros,
ladrões de seiscentas cores
andam por aqui seguros,
não lhe saem tais corredores.
Após quem torna por si
e primeiro mata ou morre
não corre o da Vale assi,
que após um tolo assi corre.

Bom matador, bom ladrão
que fugindo arma entretanto,
deixou acolher bastião,
que pica e não rende tanto!
Vive pola tua pena,
outrem prenda, outrem condene,
não me toque no da pena
em que te as barbas depene.

Escreves pólo Ribeiro,
anda após o mais proveito.
Hás-de pagar o dinheiro,
ganham a torto ou a dereito.
Deixa andar os encartados,
deixa-os, que tem os caminhos
de palhetos ouriçados,
que andam como porcos espinhos.

Come e bebe, pois te presta.
Não cures das assoadas
que se vem juntas à festa
e vos têm todos em nadas.
Onde vires um coitado
que, em te vendo, perde a cor,
dá após ele, homem ousado!
Não se vá tal malfeitor!

Executores da lei,
havei vergonha algum dia!
Este chama: aqui del-rei!
estoutro chama: a valia!
outro chama: Portugal!
De varas não há i míngua.
Desata a bolsa, que val,
traze sempre atada a língua.



Francisco Sá de Miranda (Coimbra, 28 de Agosto de 1481)

OS QUE NUNCA VÃO ONDE ESTÃO

Será que as pessoas também vão ao Burger King dizer que é por estas e por outras que vão sempre ao McDonald's?

ESCRITA AUTOMÁTICA

Afirmar que o Surrealismo é um Experimentalismo automático é um pouco como dizer que o paganismo é um cristianismo sincrético, ou seja, não faz sentido algum. Valerá a pena explicar porquê? O surrealismo, que nunca foi uma só coisa mas várias ao mesmo tempo, não pode ser reduzido à escrita automática. Leiam-se Artaud ou Huidobro, entre outros, para entender que desde o início a polémica esteve instalada entre aqueles que advogavam uma estética mais comprometida, filosófica e politicamente, e uma estética menos açaimada, inclusive, pelos ditames da psicanálise. Duas sugestões de leitura: Em plena noite ou o bluff surrealista, de Antoni Artaud − «Sempre pensei que um movimento tão independente como o surrealismo não seria justificável pelos processos da lógica comum. Aliás, a contradição não deve incomodar muito os surrealistas, sempre dispostos a não perder pitada de quanto possa trazer-lhes vantagem, de quanto possa momentaneamente servi-los. – Falai-lhes de Lógica, responder-vos-ão Ilógica, mas falai-lhes de Ilógica, Desordem, Incoerência, Liberdade, e responder-vos-ão Necessidade, Lei, Obrigações, Rigor» − e o Manifiesto Manifiestos de Huidobro − «Si seguimos vuestras teorias caeremos en el arte de los improvisadores. Todos los improvisadores actúan conforme a vuestros princípios. No son los amos sino los esclavos de su imaginería mental. Se dejan llevar por un dictado interno y el resultado es un rosário de fuegos fátuos que solo toca nuestra sensibilidad epidérmica, nuestros sentidos más externos». Portanto, a escrita automática foi, como muitas outras técnicas no contexto da criação surrealista, uma prática estética muito mais abrangente do que à partida possa parecer. A essa prática não poderá nunca o surrealismo ser reduzido. De resto, em termos de poesia, creio que a palavra se vigia a si própria: um poema automático nunca é, no limite, um aglomerado de palavras desconexas e sem vigília. A escrita automática terá sido mais um meio do que um fim em si mesmo, um meio que se julgava eficaz na manifestação das zonas obscuras e inacessíveis da mente humana. Esses textos eram uma ferramenta para o pensamento e para a reflexão, estavam longe de pretender provocar emoções, gerar sentimentos, sublimar a realidade, arquitectar o belo. Cesariny e O’Neill, "surrealistas portugueses" tardios (quando o surrealismo rebentou andávamos nós por cá entretidos com o modernismo e o futurismo), fizeram com o surrealismo o mesmo que muitos outros poetas ligados ao movimento apenas e tão-somente por afectividade libertária, isto é, escreveram poemas descomprometidos num Portugal de compromissos.

JOGOS DE LINGUAGEM

Um jogo de linguagem não é uma brincadeirinha de palavras, não é um trava-línguas. Wittgenstein definia-o como um processo do uso de palavras que permite a comunicação entre dois seres. Os jogos de linguagem não tiveram o seu tempo, acompanham os tempos, são parte integrante do nosso desenvolvimento e dos processos comunicacionais. Basicamente, um jogo de linguagem é uma convenção, é um acordo tácito nem sempre respeitável. Sobretudo quando alguém reduz um jogo de linguagem à arte de trocadilhar.

PROMESSA

Recomenda-me o bom senso que passe a ter mais cuidados com o meu coração. O problema é não resistir. Sou fraco. Isto é um pouco como tentar largar o tabaco. Deixo de fumar, pelo menos, 20 vezes por dia. A cada cigarro que fumo, prometo largar o vício. Cumpro a promessa até ao próximo.

Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

POR OUTRAS PALAVRAS

EFEITOS DA CRISE

− Tem livros a 50 cêntimos?
− Não.
− E menos?

Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010

A TORRE DE BABEL



Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
Para o cantar inteiro e o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
Dez séculos!
....................Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem os colhões de que dão ideia vaga
as nádegas brutais do Arcebispo de Braga.

*

Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
Mastro do Leviathan! Eminência revel!
Estando murcho foi a Torre de BabeI!

Caralho singular! É contemplá-lo
........................................................É vê-lo
teso! Atravessaria o quê?
..........................................O Sete-Estrelo!!
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra!
É uma porra, arquiporra!
...........................................É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder, da Terra, Eva no Paraíso!!
É uma porra infinita, é um caralho insonte
que nas roscas outrora estrangulou Le Comte.

*

Oh, caralho imortal! Glória destes lusos!
Tu poderias suprir todos os parafusos
que espremem com vigor os cachos do Alto
.........................................................................Douro!
Onde há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo??!
Marquês de VaIadas em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
─ Nada, nada contém a porra do Soriano!!

*

Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita??
─ Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe há-de abrir talvez um dia um terramoto
para que desagúe, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langonha!!!

*

A porra do Soriano é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
.........Onde é que começa?
...........................................Onde é que termina
essa porta, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento,
porque é porra de pardal e porra de jumento??
.........Porra!
...................Mil vezes porra!
..............................................Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmos num minuto!!!



Guerra Junqueiro (1850-1923), in A Torre de Babel ou A Porra do Soriano seguida de As Musas, &etc, Novembro de 1979.

ANACRUSA

Sonhou que tinha ido passear por um dos lugares da sua infância. Foi lá que fumou os primeiros cigarros, era lá que tomava banho no rio, foi lá que cometeu os primeiros delitos. Lembrou-se dos tempos em que recorria à lixeira do matadouro para apanhar grandes placas de esferovite que lhe serviam de jangada para percorrer o rio de uma ponta a outra. Pois calhou que tivesse regressado a esse lugar. O rio estava transformado numa rua ladeada por casas em forma de castelo. Havia uma mulher com uma placa pendurada nas costas. Dizia aluga-se. Começou a chorar, nunca antes tinha chorado tanto. Baixou o rosto ao chão para que a rua se enchesse de lágrimas, provavelmente à espera que se transformasse novamente num rio.

DICIONÁRIOS

Quando era puto, distraía-me com os amigos à procura de palavrões nos dicionários. Descobríamos um, dois, ficávamos todos satisfeitos. Era como encontrar pérolas pelo caminho do crescimento. Depois chegávamos ao pé dos adultos e pronunciávamos alto e bom som a palavra cabrão. Os adultos olhavam-nos num misto de espanto e censura, ao qual respondíamos com a nossa recentemente adquirida sabedoria: não é asneira, vem no dicionário. Não sabíamos que os dicionários estão repletos de asneiras. As pessoas que agora se revoltam contra a inclusão de certos palavrões nos compêndios da língua portuguesa nunca devem ter tido este tipo de brincadeiras. Na sua ânsia de um mundo puritano, provavelmente sem fumadores, sem pecadores, sem quadros do Courbet nem professoras despidas para a Playboy, sonham com criancinhas marchando em uniforme. Sobrecarregam os pobres filhos com toneladas de livros de apoio escolar e horas a fio de explicações. Querem doutores lá em casa, homens e mulheres perfeitos, com o futuro assegurado pelas ambições dos pais. Ou então não é nada disto, são apenas patuscas, não merecem preocupação.

Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

A ÚLTIMA ENTREVISTA DE UM ÍMPIO

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: ITÁLIA

Ninguém duvida da qualidade da poesia portuguesa, mas por vezes é preciso descer à terra. A terra pode ser Itália, por exemplo. Bastaria citar A Divina Comédia, de Dante Alighieri, que só encontra paralelo na Odisseia de um tal Homero. Este sítio oferece-nos uma ideia simples do que é falar de um país de poetas. Um tipo entra ali e perde-se. Ele é Ariosto, Boccaccio, Gramsci, Alda Merini, Eugenio Montale, Petrarca, Pasolini, Pavese, Quasimodo, Salgari, Umberto Saba, Ungaretti, entre tantos e tantos outros que formaram não só o berço de uma língua como souberam enriquecê-la ao longo dos séculos com uma literatura de indubitável qualidade. Ainda por cima têm nomes bonitos, musicais. Qualquer português minimamente culto terá ouvido falar de Dante, Pasolini, Pavese. Quantos poetas portugueses serão conhecidos em Itália nos meios equivalentes? Repare-se que não ponho em causa a elevação dos nossos poetas, sobretudo os do séc. XX, apenas recuso embarcar nesse desígnio nacional que é a suprema qualidade da nossa poesia. Somos pequenos. Não virá mal ao mundo se tivermos consciência das nossas próprias limitações. E falta-nos, não haja dúvidas, universalidade. Por mim, regresso frequentemente a Pier Paolo Pasolini. Por razões profiláticas, Cesare Pavese faz-me mais companhia. Gosto de combater os fogos com fogo. Mas de todos os italianos que li até hoje, Pasolini é, sem dúvida, aquele que mais vezes me apetece, vá lá, ouvir:


A PROPÓSITO DOS MEUS PROPÓSITOS DE LIGEIREZA

Ah! como eu gostaria que cada uma das minhas sílabas
Fosse uma sílaba de duplo sentido.
E que fossem facultativos todos os elementos dos meus versos!
Pelo contrário: falo seriamente a um apóstolo cândido
SDS num refeitório do Queen’s College
Uma dor cívica profunda apodera-se de mim
Quando acidentalmente num corredor do 100 da 5.ª Avenida
Vislumbro escritórios do SNCC completamente abandonados
De aspecto sou um NICE FELLOW que encara as coisas com filosofia
Enquanto dentro de mim o POETA EMPENHADO continua a sofrer;
programando
É verdade, uma certa quantidade de sílabas, precisa mente, ancípites
E elementos facultativos para um projecto arbitrário

Março de 1969

Pier Paolo Pasolini, in As Últimas Palavras de um Ímpio – Conversas com Jean Duflot, trad. Isabel St. Aubyn, Distri Editora, 1985, p. 168.

UMA DÚVIDA

Embora não leia o Pnet Literatura, não posso dizer o mesmo relativamente ao Máscara&Chicote. São opções, podem estar erradas, mas cada qual faz o que pode e a mais não deverá ser obrigado. Sucede que ao optar por ler o Máscara&Chicote incorro no sério risco de ter que ler o Pnet Literatura, tantos e tão frequentes são os envios de uma página para a outra. Hoje, agora mesmo, acabei de ler um texto do Jorge Reis-Sá publicado no Pnet e desmontado a Chicote. Não sei o que pense, nem sei o que diga, mas apetece-me dizer algo. Não me rala nada que o Jorge Reis-Sá pense, escreva, publique, embora esteja desconfiado que não pratique criteriosamente a primeira destas actividades. O que me intriga é que lhe dêem tempo de antena para tantas inanidades. Quer dizer, gostava de saber, por exemplo, o que o Francisco José Viegas ou, vá lá, o Eduardo Pitta pensam daquilo que o Jorge Reis-Sá escreve. Às vezes sinto que a falha pode ser minha. Talvez eu seja um péssimo leitor, talvez não perceba nada disto, talvez ande completamente equivocado, mas os textos e as opiniões do Reis-Sá são assim tão bons ou têm um mínimo de qualidade que justifique a sua publicação? Isto é só uma dúvida.

RELATIVISMO CULTURAL

Porco, cerdo, cochon, pig, sporco, dreckig, ou seja, xénophobic, xenófobo, xénophobe, fremdenfeindlich, isto é, racista, raciste, racizt, razzista, rassistisch.

ANTHONY BOURDAIN

Dispenso a Mafalda Pinto Leite, a Nigella (apesar dos bons argumentos), o Chakall ou Jamie Oliver, mas não perco o Anthony Bourdain. Nunca o vi a cozinhar. Passa a vida a viajar, a comer e a beber. Vidas difíceis. Especialmente dedicado aos camaradas do Hoje há pipis.

DIZER POESIA

Ontem vi um programa apresentado pelo apresentador de televisão com o penteado mais seboso de que há memória. Foi um péssimo programa, apesar da presença do Prof. Machado Vaz (gosto de o ouvir na Antena 1). Outro convidado era o Jorge Palma, que só aprecio quando canta em discos com, pelo menos, mais de dez anos. Quando fala, não consigo descortinar se está sóbrio ou bêbado. Nenhuma das hipóteses justifica o enfado. Havia ainda uma moça cujo nome não fixei e uma plateia recheada de tontos aos berros. Pelo meio, um momento de poesia. Desconheço o diseur de serviço, apresentado pelo cicerone como o melhor que conhece. Deve conhecer poucos. Acompanhado por uma violinista de porte apreciável, leu um poema do João Habitualmente que me é muito querido mas que me soou muito mal. Não quis ouvir o resto. No entanto, pus-me a pensar nas razões do meu descontentamento. Apesar da dicção ser razoável, o tom de voz era péssimo; e a postura apelava em demasia ao elemento humorístico do poema, prevendo-se um remate próximo da anedota com expectativas óbvias: os risinhos da plateia. Detesto este tipo de leituras. Vejo muita gente a implicar com o facilitismo dos comediantes que optam pela piada brejeira, pelos recursos humorísticos mais fáceis e imediatos, mas raramente escuto alguém acusar o facilitismo das opções quando o assunto é uma leitura de poemas. Sucede que raramente me foi dado ouvir alguém dizer poesia esperando da plateia o desfrute da palavra, um desfrute que não careça de tentações sensacionalistas, sejam elas emocionalmente comoventes ou risíveis. Porque vivemos numa ditadura do humor, parece que ao ler-se poesia as expectativas são típicas de um número de palhaços. O leitor lê umas coisas engraçados, tanto melhor se tiverem palavrões pelo meio, faz o seu número, a plateia ri e bate palmas. Noutros tempos, enfatuava-se tanto a palavra que não haver lágrimas a escorrer pelo rosto no final da puésia era sinal de insucesso. Há gente do meio poético que advoga a leitura silenciosa, que os poemas são para ser lidos em silêncio e pronto e acabou. Discordo no geral, embora tenda a concordar particularmente quando o desfrute da palavra dita/ouvida se curva às emoções mais básicas e imediatas. Para rir, continuo a preferir os palhaços.

Terça-feira, 21 de Setembro de 2010

VELHOS ESTEREÓTIPOS

O discurso nacionalista e xenófobo contra a imigração cresce por toda a Europa. Por cá, o ranhoso de serviço chama-se Paulo Portas. O povo revê-se no populismo que facilita a censura dos desempregados, dos imigrantes, das classes mais pobres e desfavorecidas. Apanham todos por tabela. O que ouço a quem trabalha e ganha pouco, a quem é explorado por um patronato medíocre e oportunista, vai no sentido de estereotipar o desempregado que não quer trabalhar, o malandro do cigano que vive do rendimento mínimo, os pobres que não querem deixar de ser pobres porque são preguiçosos e lhes convém não fazer a ponta de um corno. O povo sempre foi assim, precisa de bodes expiatórios para a sua incúria e amorfismo. É burro, inculto, incivilizado, foi educado por uma escola decadente cheia de professores tão ou mais imbecis que o ranhoso de serviço. O povo prefere cuspir nos desgraçados, generalizando os vícios de uns tantos, a rebelar-se, a revoltar-se contra quem verdadeiramente o explora. Preferia ouvir a quem trabalha e ganha pouco um discurso coerente e indignado contra quem lhe paga mal e indevidamente o esforço que diz fazer. Mas o que eu prefiro não conta para nada.


Nota: entretanto, lembrei-me deste post. Fica aí para memória futura.

UM VALE DEMASIADO VERDE



Não sou um admirador indefectível da obra de John Ford (1894-1973). Há nos seus filmes uma inclinação moralista que me chateia, ainda que em muitos momentos se revele desconfiada da bondade das instituições. Filmes como Judge Priest (1934), How Green Was My Valley (1941) e The Sun Shines Bright (1953), atestam-no. Há neles uma espécie de cristianismo puro, talvez algo ingénuo ou utópico, que salienta a crítica das instituições ao mesmo tempo que apela à emoção enquanto definidora do bem que as leis, na sua cega vontade de condenar, acabam por perverter. O que neles há de desprezível é o elogio do sacrifício. How Green Was My Valley, filme considerado predicante, pueril, vulgar e medíocre por Georges Sadoul, transporta-nos para os dramas de uma família de mineiros no País de Gales. A história é narrada pelo elemento mais novo da família, que já em idade adulta lembra o quão verde foi o vale nos seus tempos de criança. A ideia de paraíso perdido que subjaz ao argumento é, de facto, vulgar, assim como não deixa de ser pueril a fé que o narrador da história deposita no poder da memória. Outro elemento que me desagrada nos filmes de Ford é o facilitismo com que sustém a natureza trágica das relações encenafas recorrendo a figuras picarescas que lhe servem de mero adereço humorístico, como que cedendo às crises asmáticas e taquicardíacas do espectador. Típico de quem busca grandes êxitos de bilheteira. De um modo mais depurado, Michael Mann parece-me um fiel herdeiro destes ensinamentos. A tragédia dos mineiros no Chile fez-me regressar a How Green Was My Valley. Naquele vale está tudo o que a tragédia grega já tinha, dos conflitos familiares à disputa da razão, das oposições sociais à intriga comunitária. Naquele vale uma criança fez-se adulta aprendendo a lutar contra as adversidades da vida, a cobardia dos diáconos e das línguas viperinas não deixou de condenar um amor impossível, jovens revolucionários partiram para a América em busca de uma vida melhor, os bons sucumbiram, deixando nos que ficaram a memória dos seus actos. Naquele tempo, a América era um sonho para mineiros explorados (juízo que deve ter valido pelo menos um Óscar). Tudo o que é preciso saber acerca da vida está naquele vale, tudo o que é preciso saber para que nunca os explorados deixem de lutar contra os exploradores mesmo que a derrota seja certa. No entanto, nada disto é suficiente para que o ânimo se levante. Regressamos ao verde do vale como quem regressa a um conto de fadas. Não saímos de lá sujos pelo carvão, mas assim que saímos sabemo-nos para sempre condenados ao conforto de uma sala de cinema. Antes a vida nos obrigasse a descer aos infernos.



Nota: fui ver o que o tempo fez a Roddy McDowall, o rapazito do filme. Não fez nada de jeito.

PELAS SOMBRAS DA NOITE ADENTRO

Para quem dorme pouco, tenho sonhado bastante. Sempre algo teu me visita os sonhos. Um traço do rosto, uma expressão, a postura, um adereço, sempre algo teu, um gesto, os dedos que enrolam as pontas do cabelo, os lábios atravessando as faces, o cigarro que se leva à boca em falsa descontracção. Deve ser isto a memória, esta reconstrução monstruosa dos dados recolhidos pelos sentidos. Creio que se agora morresse, pouco mais restaria de mim do que as mesmas imagens distorcidas com que te vou refazendo na tela dos meus sonhos. Porém, a verdade é que me sabe mal a vida na boca. «Não posso escrever o teu nome. Proíbem-no as leis» (Michel Deguy). Baixo a febre pronunciando-o em silêncio, nas páginas íntimas do sonho, como um devaneio já sem esperança. Meteoritos caindo sobre a Terra abrem fundos vulcões para onde mergulho e de onde sou cuspido. Caio na Índia, de mochila às costas, e faço carreira como mendigo. Perco pedaços do corpo pelo caminho. Ou mudo-me para São Miguel, arranjo trabalho no campo, ganho o suficiente para encher uma arca de poemas que, num futuro distante, um qualquer Fernando Cabral encarregar-se-á de organizar para a editora de um qualquer padre Tolentino. Ah, já nem os poetas, a quem confiei a fé na ausência de Deus, me salvam dos dias. Detesto multidões. Aqueles que nos atraíam transformaram a poesia em mais um dente da grande roldana do tédio, são parte integrante da rotina diária. Detesto multidões. Os outros limitaram-se a ser o que sempre foram, uma ideia vaga e impronunciável, uma maçada. Detesto multidões. Optaram por escrever os dias com a mesma monotonia dos dias, não se opõem ao tédio, não espantam, evitam a loucura e o delírio, fogem do confronto como jovens bem treinados pelo mister do ramerrame. Detesto multidões. Lê-los não nos conforta nem refugia de nada, apenas nos coloca mais dentro do mundo. Um contrabaixo a solo é bem mais agradável do que uma orquestra inteira. Quem quer estar mais dentro desta pálida sensaboria? Um país com um povo incivilizado, inculto, estupidamente conservador, conformista, amorfo, um país onde a rotina se faz hábito e o hábito é ir andando com a cabeça entre as orelhas, de preferência furadas, um país de protestos surdos, mudos, um país de gente indiferente, entretida com entreténs prefabricados, cultos estéreis, holofotes, nódoas negras, lugares comuns, querelas insípidas, estereótipos, preconceitos, um país de políticos hipócritas e oportunistas, um país de arrivistas, um país de elites medíocres, mesquinhas, um país de exploradores neuróticos e explorados submissos, um país cheio de professores burros e malcriados, alunos trogloditas, um país de classes sem classe nenhuma, um país de invejosos, um país de queixinhas. Um país-bota-Botilde, este país. Então sonho, e pergunto-me: onde estás? para onde vou? Já deu para perceber que o meu corpo não é compatível com o corpo do mundo. O problema é meu. Detesto multidões, prefiro o pizzicato dos contrabaixos a solo. Daí que, em sonhos, perca pedaços de corpo pelo caminho e das crateras seja cuspido sempre que para dentro delas eu mergulho. Não vale a pena insistir numa verdade que marcha no sentido contrário do batalhão. Também não vale a pena seguir a marcha do batalhão. Estamos sujos. O melhor mesmo é parar de marchar, repousar sentado numa pedra e, como o pensador de Rodin, tentar encontrar resposta para a mais urgente das questões: que julgar da impressão suave com que me visitas? Assim seria, pudesse eu curvar-me como o pensador de Rodin. Não me é possível, tal as dores que me tomaram conta das costas. Não tenho, pois, tempo mental nem disposição física para pensar. Limito-me a dormir e, dormindo, vou deitando fora muito do que fui amealhando ao longo dos anos, toneladas de lixo quase tão tóxico como a música de um nome impronunciável. Deito fora o teu nome, deito fora o meu corpo, deito fora a casa, os livros, o pó. Fico sozinho a meio de um concerto, deitado na relva, olhando no palco uma fonte de imponderáveis recordações.

STATS

Tal como a C., só há muito pouco tempo reparei nas estatísticas do Blogger. Apesar de não ter instalado nenhum contador de visitas na casa nova, estas estatísticas não me revelaram nada de novo. Os posts mais vistos continuam a ser os posts mais parvos (tipo que prolifera por estas bandas). No Insónia não era diferente. Veja-se este exemplo. Nas fontes de tráfego também não há novidades. Se no dias felizes procuram campos de milho, aqui buscam grãos de areia. Em termos de audiência, a coisa distribui-se por Portugal, Brasil, Estados Unidos, Espanha, Canadá, Reino Unido, Países Baixos, Moçambique, Rússia, Letónia, Alemanha, Japão, França, Dinamarca, Israel, Itália, Irlanda, e Uruguai. Um blog cosmopolita, treslido pelos quatro cantos do mundo. Ainda tenho esperança de vir a ser lido nas ilhas de Samoa.

SETE

são os temas fundamentais da poesia lírica
em primeiro lugar o púbis da donzela
depois a lua cheia que é o púbis do céu
as florestas abarrotadas de pássaros
o crepúsculo que parece um cartão-postal
o instrumento músico chamado violino
e a absoluta maravilha que é um cacho de uvas.


Nicanor Parra, in Emergency Poems (1972)
Versão de HMBF

NO MEU TEMPO NÃO ERA ASSIM


1. Isto dá para pôr no IRS? – é a questão que mais me têm colocado nas últimas semanas.

2. Tínhamos as aulas, tirávamos apontamentos e estudávamos pelo manual. Agora os pais gastam fortunas em explicações e livros de apoio escolar. Há de todos os tipos, formas e feitios. Um negócio das arábias que, à semelhança da maioria dos negócios das arábias, se foi tornando indispensável sem que já ninguém se aperceba da sua absoluta inutilidade.

3. Largas dezenas de motas estacionadas ao longo dos muros da Escola Secundária demonstram bem a crise que o país atravessa.

Quarta-feira, 15 de Setembro de 2010

OS MINEIROS

Estão enfossados, os mineiros. Por um canudo do tamanho da vida, recebem mantimentos, enviam mensagens. Dizem que estão bem, não sendo bem isso que querem dizer. Supomos. As câmaras podem trazê-los à superfície, fantasmagoricamente, em imagem e movimento. Lá no fundo, o tempo será mais lento. À superfície, um deles foi pai, outro terá ficado por presenciar o primeiro dia de aulas do filho, outro ainda terá sido traído pela mulher, quem sabe não terá um deles enviuvado, ficado órfão, e é bem possível que dentre todos pelo menos um tenha conseguido escapar às fatalidades do exterior. Estão enfossados, os mineiros. Desprotegidamente protegidos. E, à distância de um oceano, tudo o que nos ocorre pensar é como terão lá ido parar? Porquê e para quê?

A MINISTRA

A ministra da educação daria uma péssima professora. Uma daquelas professoras irritantes que falam com os miúdos supondo-os atrasados mentais. No entanto, a questão que o vídeo ridículo levanta é outra. O problema, para a maioria dos críticos, não parece ser o que ali se diz e a espontaneidade com que se diz. Torna-se evidente que tudo seria diferente se tivesse passado pela cabeça de alguém tentar um segundo, terceiro, quarto, os takes que fossem necessários para que a mensagem, sendo menos espontânea, mas mais artificial e construída, pudesse parecer convincente. Ou seja, não faltou ministra. Faltou realizador. E o problema é só esse, é um problema de direcção de actores, de encenação.

A AUTOMANJEDOURA



Os tempos modernos começaram quando, ao inventar o relógio, o homem passou a organizar-se em função da cadência que quis impor à natureza. Daí à cronometragem de tarefas, à aceleração dos ritmos, à rentabilização do tempo, aos horários, às estatísticas, à automatização dos comportamentos, foi um pequeno passo. É o plano de um relógio que está no início de Tempos Modernos, o filme de Chaplin. Após a revolução industrial, a grande questão foi sempre a de como garantir o direito à felicidade tornando a vida rentável. Tornar a vida rentável significa dar-lhe utilidade, daí que não seja de estranhar aquela quase justaposição de planos que compara os operários a caminharem para uma fábrica com uma vara de porcos a caminhar para um matadouro. Basicamente, ser rentável implica uma espécie de metamorfose suína. Escravos do trabalho, os homens aprendem a viver sem terem tempo para se coçar. Começaram por ser escravos da natureza, passaram a ser escravos do fogo, tornaram-se escravos da comunidade, foram escravos dos chefes, da religião, foram escravos da própria escravidão, acabaram escravos do tempo. E disso fizeram o grande negócio pós-moderno. Enquanto os “presidentes” se entretêm com puzzles e primeiras páginas, controlando do alto da torre as manadas em alienadora produção, o mundo progride e avança. As máquinas foram substituindo a mão-de-obra, as novas tecnologias vão substituindo as máquinas, sendo provável que daqui a uns tempos qualquer coisa que não sabemos bem o quê venha a substituir as novas tecnologias. Podemos sonhar com paraísos perdidos, com a felicidade de mão dada com o amor dentro de uma cabana, podemos aspirar apenas a uma vida mais serena ou a regressarmos a uma “era dinossáurica”, selvagem, pura. Pergunto-me de quem ou do que será escravo o albatroz? Talvez de poetas que lhe invejam o voo e lhe admiram a resistência que, definitivamente, deixaram de ter. No filme de Chaplin há muitas cenas que se tornaram célebres. Numa delas, um inventor tenta convencer o dono de uma fábrica a investir numa automanjedoura. O objectivo da máquina seria eliminar a hora de almoço, um período de descanso que, como todos os períodos de descanso, traz sempre graves prejuízos às empresas. A automanjedoura, tal como nos foi apresentada no filme, não vingou. A sua inutilidade era proporcional à sua ineficácia. Em suma, não era prática. É um pouco como toda a arte. A sua inutilidade é proporcional à sua ineficácia; porque não é prática, continua a ser meramente decorativa, transformou-se em objecto de luxo, questão de mercado; deixou de ser ponto de ruptura e energia fracturante, para passar a ser mero pretexto de facturação. Mesmo quando pretende provocar, fá-lo protegida por uma ampola humorística que esvazia o conteúdo do seu potencial revolucionário. Não está em tensão com os paradigmas, é parte integrante da máquina auto-reprodutiva dos paradigmas. Escasseiam os exemplos de uma arte actual que se afirme por estar em colisão com um sistema aglutinador de artistas, o mesmo sistema que impõe a sua ditadura humorística, a tirania do design, o despotismo do aparecer. Na verdade, constata-se que a fama é a maior inimiga da fama, que o poder é o maior inimigo do poder. Conquistados certos patamares de estatuto, faz-se tábua rasa de tudo o que ficou para trás e age-se como o antigo inimigo. Na poesia actual, este esgotamento é ainda mais evidente. Onde poderíamos esperar um discurso alternativo, deparamos quase invariavelmente com uma “rotinização” do poético que esvazia a poesia do seu sentido de cisão, do seu significado de suspensão da monotonia que atravessa a vida. A poesia é agora parte integrante dessa rotina, desse tédio, dessa monotonia, dificilmente se distingue de um mero apontamento diarístico, de uma declaração de intenções, do preenchimento de um recibo verde. Já ninguém busca a excepcionalidade da palavra, todos querem ser aceites, reconhecidos e recomendados pelos caudilhos. Do hospício para o desemprego, o romântico de Tempos Modernos vê-se inadvertidamente envolvido numa manifestação. Equivocadamente acusado de liderança comunista, acaba detido. É libertado depois de impedir a fuga de dois presos que andavam a traficar cocaína dentro do estabelecimento prisional. Por que o fez? Por mero acaso, sem que a mínima intenção lhe comandasse as acções, sem que houvesse nele qualquer motivação. Na verdade, ao saber que vai ser libertado, pergunta se não pode ficar só mais um bocadinho preso. Tinha tecto, cama lavada, comida. Sabia que fora da prisão esperava-o a perigosa aventura da vida, aquela que a maioria dos criadores da actualidade evita confrontar, por ser muito mais confortável manter-se preso, servil, recomendável, útil.

MODERN TIMES

Vai com calma e evita a excitação, foi o conselho do médico. Assim fez, não teve culpa do que lhe aconteceu. Em tempos conturbados, somos todos arrastados pela desordem e pela excitação. Sonhar com a via pacífica é legítimo. Ainda assim, é apenas sonhar. Tipo mergulhar em águas baixas supondo que sejam fundas.

Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

QUEM SOU EU?

Chamo-me Henrique Manuel Bento Fialho e é com alívio que o digo. Não sendo um nome bonito, é um decassílabo perfeito. Minha mãe queria chamar-me Hernâni, mas minha avó materna, num raro momento de sobriedade, insistiu que fosse Henrique. Não sei ao certo a hora a que nasci. Fiquei, por momentos, entalado entre o ventre materno e o mundo. Chegaram a dar-me por morto, mas cá estou, um pouco como certo amigo que viveu toda a vida entre duas freguesias. Na sala, descansava em São Sebastião; no quarto, dormia em Alcobertas. São freguesias do concelho de Rio Maior, onde vi pela primeira vez a luz do dia a 20 de Novembro de 1974. Figuras ilustres da terra, conheço três: o poeta Ruy Belo, o artista plástico Manoel Barbosa e a acordeonista Eugénia Lima. É terra de mineiros, de salineiros, de leões à solta e de mocas reaccionárias. Há quem explique toda esta heterogeneidade de elementos culturais socorrendo-se de eventuais furnas sulfurosas que ali provocarão reacções antinómicas nas gentes da terra. Cá por mim é só parvoíce. Seja como for, calhou-me ser de origens humildes. Tenho as raízes no campo. Nunca conheci meu avô materno, mal conheci o avô paterno, tive uma relação ambígua com as avós. À que me livrou da amaricada nomenclatura, fui buscar o mau feitio. Lembro-me que certo dia provocou ligeiro espanto ao substituir o decano carrapito por uma grisalha permanente. Da avó paterna, herdei o cepticismo. Morreu sem acreditar que o homem havia pisado a lua. «Se assim é, por que não foi ao sol? É muito mais bonito.» – contestava. Também tinha o estranho hábito de comer pacotes de manteiga como quem come iogurtes. Felizmente, nunca me transmitiu tão estranhos hábitos.
(...)

Continuar a ler aqui, no Clube Alice.




Nota: o desafio foi-me colocado há algum tempo. Após várias tentativas, optei por um texto escrito de jorro. Saiu-me tal como está, ao dia de ontem, pela 1:30.

ABRO OUTRA GARRAFA





e continuo a dança do costume

estico uma perna
que podia perfeitamente ser braço
recolho um braço
que podia perfeitamente ser perna

dobro-me sem deixar de dançar
e desato os senhores sapatos
atiro um para lá do céu
afundo o outro debaixo da terra

agora começo a tirar a camisa

e nisto oiço o telefone a tocar
chamam-me do senhor escritório
respondo que continuarei a dançar
até que me aumentem o ordenado.



Nicanor Parra, in Emergency Poems (1972)
Versão de HMBF

CIRCO

Os benfiquistas não têm culpa. Ser-se do Benfica não é uma opção, é uma contingência ontológica. Um pouco como ser-se gay. O que dirão, no entanto, os benfiquistas inteligentes, ou seja, todos aqueles que não vêem o Canal Benfica, das mais recentes posições dos órgãos sociais do seu clube? Depois de ter sido campeão, sem queixas da arbitragem que se notassem, o Benfica teve um início de campeonato desastroso. Para os desastres, os árbitros têm sempre as costas largas. Não perderei tempo com pormenores. Vai daí, toca de pedir aos adeptos que não se desloquem aos jogos fora de casa, toca de pedir uma audiência ao Ministro da Administração Interna (porventura por estar em marcha um golpe de Estado), toca de suspender a negociação dos direitos televisivos relativos à época de 2012/2013, toca de declarar o Secretário de Estado do Desporto persona non grata, entre outras medidas que configuram não apenas uma forma de pressão mas uma clara ameaça sobre órgãos independentes e autónomos. Se isto tudo não é uma tentativa de suborno da arbitragem portuguesa, então o que é? Os árbitros estão proibidos de errar contra o Benfica? E se errarem contra o Sporting, vá lá, na próxima jornada? Se fosse o Futebol Clube do Porto a tomar este tipo de iniciativas, como era? O Benfica ameaça sair da Taça da Liga, eu julgo que devia ser a Liga a punir o Benfica. Perante este cenário, num país a sério, não me passaria pela cabeça outra hipótese. Mas nós não vivemos num país a sério, pois não? O comunicado está aqui.

40%

Camarada Van Zeller, li no jornal que o nosso Grande Chefe quer mais 40% de licenciados até 2020. Ainda que apenas sonhe com um Primeiro-ministro competente, licenciado ou não, fiquei ensimesmado com a leitura. Tendo este inusitado desejo sido confessado na sessão de abertura do ano académico, fica claro que o seu valor é assim mais ou menos o mesmo que ouvir o senhor presidente da Associação de Cangalheiros afirmar que quer mais 40% de mortos até 2020. Afinal, mais 40% de licenciados para quê? Para caixas de supermercado? Para repositores de hipermercados? Para aumentar as taxas de desemprego? Talvez para que nos sintamos todos felizes e realizados com uma sociedade mais culta, cívica, sábia. Tendo em conta a qualidade da maioria das licenciaturas em Portugal, esperança no futuro é o que não nos faltará.

Segunda-feira, 13 de Setembro de 2010

NATÁLIA CORREIA



O democrático calça seu aperto de mão de camurça anti-séptica e tira macacos do nariz da criança para os comer em público. Delirantes os pais servem-lhe as crias numa travessa azul andorinha com um requerimento espetado na boca. O democrático que fez constar que a liberdade é o democrático gostar de leitão ingere a criança tostada numa mastigação que os microfones traduzem numa língua para falar às baratas e dá finalmente um arroto. «Cheira a futuro» dizem os pais com a mão na algibeira acariciando seu órgão de continuidade. E cantam hinos até a polícia vir. Chegou a altura do democrático tirar sua jovial dentadura falsa para se entregar à mágica do inúmero monstro parado. Põe bigodeira soviética pingona da lavagem que azedou na baixela do czar. Entra no fraque de cangalheiro lusíada e dedica-se à caridade sepultando os vivos para adubar os ciprestes desvalidos. Dá pulos de alegria americana até ficar um símio bestialmente obcecado pela pichota que manuseia como uma metralhadora. Mandarina-se manipanço de Mao e pede ao feng shui que transforme os homens em pragas de gafanhotos.
Felizmente o democrático não é outra coisa além do que não é. Se o democrático fosse uma oleografia de Nosso Senhor Jesus Cristo, encimava as camas de todos os bordéis latinos, cristianissimamente pendurado pelo fervoroso mau gosto das prostitutas. Se o democrático fosse verdade, a Terra era a peta mais descarada do sistema planetário que a consente porque sabe em sua cósmica sabedoria que o democrático há-de passar como susto que é de termos os pés vermelhos em Marte e as têmporas floridas em Vénus, lindíssimos passos da dança em que se alargará o nosso círculo de ossificadas interjeições quando o democrático se fatigar de ser uma diligente mentira.
Minuto a minuto conheço os milénios sombrios do democrático a fazer recuar o tempo para nos desfigurar. Porque como todos aqueles que engolem a espada em chamas do amor eu conheço o medo e digo-vos que o democrático é o nosso medo de haver democracia. Ah, creiam-me, o democrático é, no centro da nossa crisólita de feridas abertas para a liberdade, a sufocação que não deixa haver democracia.
Atenção. Não vos falo da política das políticas. Mas, tanto dá, da musculada democracia solar deste dia que arrombou com um murro a lua, impressora de preciosas estampas prometidas no sonho, para conduzir o formigueiro do folclore consumista ao santuário da Síbaris do Efémero. Querem exemplo mais cabalmente triunfante do democrático?

A POLÍTICA DO DIA

Hoje a vida tem o sorriso
dentífrico dos candidados
e pelas ruas nos aponta
o céu em múltiplos retratos

céu não póstumo ou merecido
em cruel sala de espera
mas entre parêntesis de fogo
festiva véspera de guerra.

Teor de montras a vida
com democrático amor
a todos deixa gozar
sua dose de consumidor.

Publicitária a vida faz
sua campanha eleitoral:
É entrar meus senhores, quem dá mais
por princípios que não têm final?

Televisor férias de verão
tira a vida do seu discurso
e um partido providencial
que nos domestica o urso.

Popular a vida é toda
pétalas de apertos de mão.
Que meus versos me salvem
de cair nesse alçapão!


De A Mosca Iluminada (1972), in O Sol Nas Noites e O Luar Nos Dias, Círculo de Leitores, Março de 1993, pp. 450-452. A ler Lembrar Natália de Eduardo Pitta.

CRÍTICOS IMPLACÁVEIS

Não sei se conhecem O Imagético Mental de Michèle Métail. Se não conhecem, também não interessa. Comecei a ler em voz alta a versão do poema que aparece na antologia Sud-Express. Retrato-Robot nº 1, Retrato-Robot nº 4, Retrato-Robot nº 6… Subitamente, fui interrompido pelo Daniel. Na sua curiosidade de 11 anos, perguntou-me:
− Tio, isso é para ter graça?
− Não sei, talvez sim.
− É que não tem graça nenhuma.
Eis o que faz falta à crítica portuguesa, os juízos implacáveis das crianças de 11 anos.

TEMPOS MODERNOS

Atravessamos tempos calamitosos
impossível falar sem incorrer em delito de contradição
impossível calar sem tornar-se cúmplice do Pentágono.
Sabe-se perfeitamente que não há alternativa possível
todos os caminhos vão dar a Cuba
mas o ar está sujo
e respirar é um acto falhado.
O inimigo diz
é o país que tem a culpa
como se os países fossem homens.
Nuvens malditas revoluteiam em torno de vulcões malditos
embarcações malditas empreendem expedições malditas
árvores malditas livram-se de pássaros malditos:
tudo contaminado de antemão.




Nicanor Parra, in Emergency Poems (1972)
Versão de HMBF

Domingo, 12 de Setembro de 2010

BOM VINHO




O primeiro aniversário do filho de um amigo levou-me à Aroeira. É sempre agradável atravessar a ponte para o outro lado, recordar os tempos em que passava férias na Sobreda, em casa de uma tia que fazia uns maravilhosos iogurtes caseiros e se especializou, entretanto, em marmelada e compotas de tomate, maçã, pêra. Compreendo que para quem tenha de fazer aquela travessia todos os dias, a paisagem sobre a ponte perca o encanto que tem para quem lá passa muito de vez em quando. No meu caso, significa atravessar a memória com uma bela vista em pano de fundo. Encontrada a Rua José Gomes Ferreira, numa avenida atravessada por Jorge de Sena, Almada Negreiros, entre outros poetas que o mais que podem almejar é oferecerem o nome a uma rua, lá dei com dois velhos e bons amigos. Estamos todos mais gordos, carcomidos pelas obrigações domésticas, pelo trabalho, mas ainda sabemos rir, mesmo quando o riso se apoia apenas em velhas recordações. Cada qual com os seus projectos, carregando as necessidades das respectivas proles, sentiremos sempre que podíamos ser o que não somos, podíamos ser o que somos mas de outra maneira, podíamos simplesmente não ser… As variáveis são imensas e, roubando o verso ao Rui Costa, as limitações do amor são infinitas. Sucede que entre desabafos e lamentações surgem sempre boas histórias. Nascido em 2005, o filho de um dos meus amigos ofereceu ao avô o pretexto para uma colecção: garrafas de vinho, todas elas de 2005. Diz que vai em mais de duas centenas. Vinhos de todo o lado, sobretudo sul-americanos e europeus. Parece-me uma excelente colecção, e a dedicação do avô tem um lado comovente ao qual é impossível escapar sem uma certa nostalgia do futuro. Se lá chegarmos, como iremos nós ocupar o tempo daqui a 30 anos? 35 anos passados, a gente sabe que metade da vida está cumprida e que o porvir há-de estar irremediavelmente ligado ao que já foi. Coleccionar vinhos com a data de nascimento dos netos parece-me uma opção agradável, até porque não conheço nada que se assemelhe tanto aos homens como o vinho. Na verdade, tendo cada vez mais a pensar que não conheço nada que se assemelhe tanto ao vinho como os homens. Há os que envelhecem bem e os que envelhecem mal. E é tudo.

DE TCHEKHOV A BECKETT

Logo agora que eu ia ler Tchekhov, queres ver que o gajo me vai pôr a reler Beckett.

O LIVRO

O livro foi anunciado. O livro está a ser escrito. O livro acabou de ser escrito. O autor fez uma pausa na escrita do livro. O livro já vai na centésima página. Está escrito, o livro. Não, afinal, o autor resolveu reescrever algumas páginas do livro. Agora sim, dá-se por finalizado o livro. O livro está na gráfica. Esta será a capa do livro. Bela capa o livro tem. E esta será a contracapa. Que belas badanas terá o livro. A lombada do livro não é uma lombada qualquer, é a lombada do livro. Eis a primeira página do livro. O livro está a ser dobrado. Em primeiríssima mão, revela-se o primeiríssimo parágrafo do livro. Tem vírgulas e pontos finais, o livro. Os primeiros leitores a reservarem o livro terão direito a dedicatória. Vem aí um passatempo sobre o livro. Faça já a sua reserva do livro. Este passatempo sobre o livro é só para livreiros. Vejam o booktrailer do livro. Chegaram os flyers do livro. O livro traz marcadores. Deitam-se foguetes pelo livro. O livro está a ser colado. O livro está a ser transportado. O livro já foi lido antes de ser livro. O livro aterrou. Palmas para o livro. Vejam como atravessa a passadeira vermelha, o livro. O livro, o livro, o livro, o livro, já não há pachorra para o livro.

Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

TENHO UMA FÃ

Em tempos, tive uma fã. Escrevia-me cartas intermináveis, com poemas, declarações amorosas, era indiscreta na confissão dos ardores, queria-me. Felizmente, nunca nos cruzámos. Isto foi há muitos anos, quando eu tinha a mania que era poeta. Acabara de publicar o meu primeiro livro, um conjunto sofrível de poemas pretensiosos, sumido no pântano de francesices que à época muito me entusiasmavam. Achei por bem aceitar o convite para uma entrevista a editar num jornal local. Raramente o que achei por bem não se transformou num pesadelo. Por causa dessa entrevista, ganhei uma fã indefectível. Felizmente, nunca nos cruzámos. Mas, apesar de desconhecer o meu paradeiro e não ter o meu contacto, por muito escarafunchar nos hortos da regateirice, lá conseguiu chegar, por A mais B, à conclusão de que eu tinha família. E foi através da minha família que fiquei a saber da sua existência, nomeadamente através do meu pai.

Certo dia, a minha fã entrou pela loja do meu pai adentro, espalhou dezenas de poemas em cima do balcão e voltou-se para o velho suplicando que me fizesse chegar aqueles escritos. Pretendia uma opinião, um eco, um simples sinal que fosse de que eu havia passado as vistas pelas suas palavras. Eram palavras de uma dedicação doentia, um amor insuportavelmente declarado, um coração escancarado, eram o retrato sofrido de um corpo em chamas. Aquelas palavras transpiravam corpo, um corpo apaixonado, ingovernável, fora de si, uma espécie de corpo saltando para fora do corpo. Nunca lhe respondi, nunca lhe dei o mínimo sinal de que poderia estar minimamente interessado em conhecê-la, mas ela foi insistindo. O meu pobre pai, Deus o tenha no céu, jogava como podia entre aquela espada e um filho que ele sabia há muito emparedado na domesticação do amor. Outras histórias.

Pois bem, o tempo passou, a minha fã seguiu rastros que eu jamais suspeitaria, não perdeu a chama da persistência. Como sou um desistente por natureza, daquele tipo de pessoas que antes de ter começado a fazer já pensou em desistir, sempre estranhei nas pessoas a qualidade da perseverança. O que as levará a insistir tanto em tão pouco? Já em criança, ficava horas, dias, semanas a olhar a água batendo na pedra. Esperava que furasse, mas só me foi dado ver lodo. Nunca a água mole furou a pedra dura, sempre em lodo se transformou. Esta constatação criou em mim uma espécie de vontade paradoxal, ou seja, a única coisa que me é persistente é a ideia de que não vale a pena insistir em nada. Espanta-me, pois, que passados tantos anos a minha fã continue minha fã. Soube-o através da minha irmã, que é psicóloga, e que no outro dia se deparou com a fanática admiradora do irmão nos balcões da psicopatologia.

Quer uma fotografia minha. Guarda emotivamente um recorte de jornal onde eu apareço com uns óculos de sol. Não me consegue ver os olhos. Quer uma fotografia minha onde possa ver-me os olhos. É tudo o que quer. Claro que ficaria muito grata se eu pudesse dispensar alguns minutos para trocar com ela impressões poéticas, filosóficas, literárias. Só isso, mais nada. Ficaria sensibilizada, eternamente agradecida, seria o momento mais feliz da sua vida. Ouvido isto, ainda me passou pela cabeça fazer o frete. Vou de visita à terra e disponibilizo-me para o encontro histórico, talvez o investimento dê para um conto. Já não seria mau lucro. Pois que me passou pela cabeça tal frete, mas assim como passou assim se foi. Não ficou, não se deteve a hipótese nem por aqueles breves instantes que levariam à fatídica hesitação. E ainda bem, pois teve a minha irmã oportunidade para terminar o relato deste inesperado encontro.

Ora, confessou-lhe a minha fã que acabou por se juntar com o homem mais parecido comigo que encontrou na vida. Uma mulher também tem que pensar nas suas necessidades. Como só me tinha visto de óculos escuros, juntou-se a um cego que anda sempre de óculos escuros. Diz que é a minha cara chapada, mas de óculos escuros. Não está descontente com o meu sósia invisual, embora tenham alguns problemas. Passo a descrevê-los tal como me foram narrados, e peço perdão a quem eventualmente possa ser mais susceptível ao sentimentalismo do quadro: «só quer atacar-me no cu e na boca, mas nunca me ataca na cona. Diz que não dá com ela». Parece que entretanto foi internado com uma overdose de Viagra. Ele de facto há vidas que nasceram para sofrer.

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: FRANÇA

Às vezes parece que a poesia francesa morreu com os surrealistas. Já em 1993, quando a Relógio D’Água publicou Sud-Express – Poesia Francesa de Hoje, a paisagem era desoladora: «A poesia francesa mais contemporânea é desconhecida em Portugal». Regressamos a essa antologia e ficamos sem entender a razão do desencontro. Estabelecidas as linhas predominantes, pouco nos distingue em termos de linguagem, prosaísmo, hegemonia realista, um culto discreto da ironia. É verdade que os franceses são mais destrambelhados, isto é, não passam tantas horas a despentearem-se meticulosamente (onde é que eu já ouvi isto?). Salvo raríssimas excepções, por cá encena-se demasiado a anti-pose, afunila-se a melancolia, gastam-se energias a poupar energias. As coisas por lá são, digamos, menos sóbrias e mais dissemelhantes. Logo a abrir a supracitada antologia, Pierre Alferi (Paris, 1963) escreve assim: «como, sem ignorar as diversas solicitações, as contas, / as campainhas, as aberturas, os fechos, os prazos, / ultrapassar este leve desacerto horário que se chama: / cansaço?». França, viveiro de malditos, pesa sobre nós com uma imensidão de nomes. Nerval (Paris, 1808) e Baudelaire (Paris, 1821), Verlaine (Metz, 1844) e Rimbaud (Charleville, 1854), Artaud (Marselha, 1896) e Breton (Tinchebray, 1896), Paul Éluard (Saint-Denis, 1895) e Francis Ponge (Montpellier, 1899), Aragon (Paris, 1897) e Char (L'Isle-sur-la-Sorgue, 1907) formam uma constelação extraordinária. Depois há os outros, aqueles que não tendo nascido franceses, em francês se exprimiram e em França viveram as suas vidas. País de revoluções, de rupturas, de vanguardas e, mais recentemente, de uma triste figurinha xenófoba. Acusam recorrentemente os gauleses de chauvinismo. Ora, terão as suas razões. Em termos de poesia, Baudelaire, Rimbaud e Artaud são óptimos argumentos. Já por aqui têm andado. Apanho o Sud-Express e recupero um poema de Jacques Roubaud (Caluire, 1913) traduzido por Urbano Tavares Rodrigues:

Afasia

Jakobson diz que a afasia come a língua ao revés da sua aquisição. As articulações mais recentes são as primeiras a partir.

Uma boca que se desfaz começa pelos lábios.

Pensei a mesma coisa acerca do verso. as regras do verso desaparecem uma a uma na sua destruição, segundo uma ordem, também, afásica. Como se os poetas desfizessem o seu edifício andar por andar. Sem o fazer explodir de repente.

Perante a tua morte fiquei inteiramente silencioso.

Não pude falar durante quase trinta meses.

Não podia voltar a falar segundo a minha maneira de dizer que é a poesia.

Tinha começado a falar, em poesia, vinte e dois anos antes.

Era depois de outra morte.

Antes dessa outra morte não sabia como dizer. estava como silencioso. ………..Assim, colhido entre duas “margens” de morte



In Sud-Express – Poesia Francesa de Hoje, coord. Guilhermina Jorge, Jean-Pierre Léger e Etienne Rabaté, Relógio d’Água, 1993, p. 233.

Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010

SALA DO AZAR

Está nos tops, tem sido muito gabada por gente que se percebe perceber do assunto. Ups. Mas depois de ler isto, nem preciso de contextos. Se aquilo era a democracia cristã, metam a democracia cristã no cu. Se não era, metam na mesma. Pardon my French.

ALICE #3

A visitar, muitas vezes ao dia, aqui.

Quarta-feira, 8 de Setembro de 2010

HUMILDADE


Alguém, na internet, lembrou-se de dizer que estas são as “verdadeiras sandálias da humildade”. Arre! Como é que alguém pode dizer isso? Caramba! Gostava de ver essa pessoa usar humildemente estas "sandálias".
manuel a. domingos, aqui.

INSPECÇÃO DO TRABALHO

Ainda tive alguma esperança, mas não queriam saber dos salários. São como a Polícia, quando me faz parar só reclama de ninharias. Que o selo do seguro devia estar colado no vidro, que o selo do imposto deve estar na base do vidro (trata-se de um velho selo, que ainda por lá anda colado), que um pneu de trás está muito gasto, que uma luz de presença está fundida. A única vez que me podiam levar ao balão e obter resultados, não levaram. Uns dirão que tenho sorte, mas eu sinto-me algo frustrado com toda esta situação. Comigo querem sempre os pormenores, nunca o essencial. É uma triste sina.