quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2016

A Antologia do Esquecimento deseja a todos os seus leitores um próximo ano de boa memória, já que este que ora finda será mesmo para esquecer.


Saúde,
Henrique Manuel Bento Fialho

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

REVELAÇÃO SENSACIONAL



«Ora, se existe no mundo um homem do qual não posso estar psicologicamente seguro, sou eu. Ignoro a minha lei; que contínua transformação permite que os outros me reconheçam e me chamem pelo meu nome; não sou capaz de me ver de perfil. A todo o instante traio-me, desminto-me, contradigo-me. Não sou aquele em quem depositaria a minha confiança. E nisso não há de que desesperar.»

Louis Aragon, «Révélations sensationelles», Littérature, n.º13, Maio de 1920, pp. 1-2.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

LIVROS: O MELHOR DE 2015


Este ano, o exercício que proponho aos leitores da Antologia é pensarmos o livro para lá do que nos pretendem impor, em termos genéricos, os chamados críticos da especialidade, com suas listas de preferências mais do que previsíveis, complacentemente reproduzidas por autores, editores e livreiros instalados nas redes sociais. O livro é hoje uma mercadoria tal qual os sabonetes o são. Basta entrar nas livrarias para o constatar, conquanto devamos sempre perscrutar nas prateleiras e no refundo ao encontro insistente das preciosidades que consigam resistir ao sufoco imposto pela novidade. Não me interessa, pois, essa figura abstracta dos dez melhores livros do ano, sobretudo num país onde se publicam dezenas de novidades por dia, onde rareiam livrarias e editores independentes dos grupos e das redes hegemónicas, onde o lixo e a poluição são o que mais se evidencia. Interessam-me os livros e suas componentes. Daí que, este ano, o exercício recaia sobre o livro enquanto objecto. As minhas escolhas são limitadas às minhas leituras, como é óbvio. Mas são autónomas, livres e declaradamente diletantes. Assim sendo,

Melhor cinta do ano


A maioria das cintas são um verdadeiro pesadelo, ofendem as capas, rasgam-se, reduzem-se a mera propaganda sem interesse: prémio tantos de tal, milhares de exemplares vendidos, o livro preferido de X...  Neste caso tudo é equilibrado e pertinente. A 2.ª edição, revista, de A Última Sessão  — A Edição dos "Textos Malditos" de Luiz Pacheco foi publicada em Maio de 2014 pela Montag — uma edição para retronautas.

Melhor primeira orelha/badana do ano

O que esperamos de uma primeira badana? Regra geral, tudo menos o que por lá se põe: perorações inúteis do editor, dados biográficos inconclusivos, recepção crítica seleccionada, etc.. Com uma primeira badana quase ao largo da página, Os Filmes da Minha Vida, de François Truffaut, editado pela Orfeu Negro em Maio de 2015, oferece, desde logo, os nomes dos realizadores abordados no miolo. Excelente livro, excelente capa, excelente design, incompreensivelmente omitido nas listas que por aí pululam.

Melhor guarda do ano

Quase sempre reduzida à pobreza da página em branco, a guarda mereceu uma especial atenção na antologia O Desejado — Robot Bimby, colectânea poética sebastiânica organizada por Jorge Corvo Branco e publicada pela Companhia das Ilhas (26 de Setembro de 2015). Rara é a beleza desta guarda. 

Melhor capa do ano

A escolha não poderia recair senão sobre um livro da editora Tinta-da-China, que há muito se vem destacando pelo bom gosto a vários títulos. As pinhas e a caruma na capa de Andar a Par (Maio de 2015), de José Ricardo Nunes, fazem justiça ao melhor livro de poesia portuguesa publicado em 2015. 

Melhor folha de guarda

Deixando de lado elementos altamente técnicos, tais como o melhor corte superior, o melhor corte dianteiro e o melhor corte inferior, avanço directamente para a melhor folha de guarda. A referência principal vai para Manual de Instruções Para Desaparecer, de José Anjos, publicado pela Abysmo em Abril de 2015. Porquê? Porque resolveram preservar a excelente ilustração da capa, assinada por Luísa Jacinto, guardando para a folha de guarda o título da obra, o nome do autor e a referência editorial. 

Melhor folha de rosto do ano

O livro póstumo de Herberto Helder foi o momento mais paradoxal do ano em termos literários. Ver o nome do poeta associado ao maior grupo editorial português, com uma raríssima fotografia a olhar-nos do lado esquerdo, seria algo impensável há anos. Aconteceu. Ironia? Resignação? Provocação? Cada qual interprete como bem entender. Poemas Canhotos (Porto Editora, Maio de 2015) é só um mau livro de poesia de um dos mais relevantes poetas portugueses do séc. XX.

Melhor dobra do ano

Chamemos-lhe dobra. A Mariposa Azual tem, desde a primeira hora, o hábito de deixar uma página em branco para as notas do leitor. É um belo hábito ao qual Um Teste de Resistores (Janeiro de 2015), de Marília Garcia, não foi excepção. Num ano em que a publicação em Portugal de poesia brasileira contemporânea esteve à discussão, este livro merece também uma referência especial pelo conteúdo perturbador.

Melhor segunda orelha do ano

Nas segundas orelhas encontramos de tudo o que o mau gosto permite: listas dos títulos de colecção em que a obra se insere, citações de críticas publicadas na imprensa, notas bio-bibliográficas do autor, citações do livro. Naquele que é, para mim, um dos livros do ano, Dada — História de uma Subversão (Novembro de 2015), de Henri Béhar e Michel Carassou, com tradução de José Miranda Justo, os editores refractários reservaram um excelente sumário da obra em apreço. E é assim que deve ser. Conto escrever sobre este livro em breve.

Melhor contracapa do ano

Quem goste de livros, não pode ficar indiferente ao trabalho extraordinário que algumas editoras portuguesas vão fazendo contra as ventanias de banalidade e as marés de superficialidade reinantes no mercado. A Antígona é uma dessas editoras. A contracapa de Música para Água Ardente (Março de 2015), tradução de Rita Carvalho e Guerra para Hot Water Music de Charles Bukowski, devia ser estudada nas universidades. Quem veja mal, leia o "contrarótulo" da garrafa reproduzida: «qual é o seu conselho para os escritores jovens? Bebam, fodam e fumem muitos cigarros. Qual é o seu conselho para os escritores mais velhos? Se ainda estão vivos, não precisam do meu conselho. // Ler sem moderação». 

Melhor lombada do ano

Quem trabalhe ou frequente livrarias, sabe que a ausência de um critério uniforme na disposição de informações nas lombadas provoca frequentemente indesejáveis torcicolos. Nos livros ao alto temos um bom exemplo do que devia suceder sempre: símbolo do editor na base, nome do autor ao alto, escrito de cima para baixo, seguido do título da obra. Facilita a pesquisa e evita dores musculares. 

Melhor formato do ano

Em Março, o crítico literário António Guerreiro referia-se à proliferação imoderada e imprudente de plaquettes como um lado negativo no círculo elitista da poesia. Não se entende a preocupação, sobretudo por não a termos observado a respeito das inúmeras plaquettes publicadas em tempos por Contraponto, &etc ou Averno. Meros exemplos. Hossanas, pois, à plaquette e às suas virtudes. Ao alto, Chaconne ou a arte de mudar de assunto, de Miguel Castro Caldas, publicado em Janeiro de 2015, logo a inaugurar o ano, pela rainha das plaquettes, mais conhecida por Douda Correria. É o n.º 15 de um conjunto diverso, imoderado, imprudente e desequilibrado de apreciáveis edições.

Melhor impressão do ano

Composto em tipografia de caracteres móveis e capa em serigrafia, Púsias (Fevereiro de 2015), de Vitor Silva Tavares, é a homenagem perfeita a um certo olhar sobre os livros que se perdeu com a perda do autor deste livro. Quando estamos perante os livros das Edições 50kg sentimos que estamos perante objectos raros, e rara é a beleza. Capa de Luís Henriques.

Melhor miolo do ano

Com a publicação de Atrás das pálpebras, o sonho abriu os olhos., o alfarrabista Miguel de Carvalho ofereceu-nos um testemunho impagável sobre a arte do livro-objecto. No princípio não era o verbo (Debout Sur L'Oeuf, Abril de 2015), materializa, de certa forma, a tese. Trata-se de um livro-objecto reproduzível, único na sua beleza, mas reproduzível. É poesia, é poesia visual, é para ler com os sentidos anteriores ao verbo. Um livro com uma linguagem prévia à linguagem. Magnífico.

Melhor sobrecapa do ano

É difícil perceber a beleza deste objecto sem o ter nas mãos. Paginado e composto por Pedro Serpa, tem uma sobrecapa em papel vegetal que é como o mais fino pano no estendal. Impressa e vincada e dobrada e encapada manualmente na oficina artesanal O Homem do Saco, a sobrecapa de À Barbárie Seguem-se os Estendais (&etc, Fevereiro de 2015) é um dos grandes momentos na livrolândia portuguesa deste ano. Para o mesmo livro vão os prémios:

Melhores agradecimentos e melhor posfácio do ano

Melhor dedicatória do ano

Uma dedicatória que é um poema: «para o filhastro / ler depois». In Miguel-Manso, Persianas, Tinta-da-China, Março de 2015. Outra grande capa da colecção de poesia coordenada por Pedro Mexia.

Melhor epígrafe do ano

Há epígrafes que a gente pressente que estão por estar, mas há outras que a gente sente que não podiam ser de outra maneira. Num dos romances mais injustamente esquecidos do ano, O Terceiro Polícia (Cavalo de ferro, Junho de 2015), de Flann O'Brien, esta epígrafe de De Selby não podia ser de outra maneira: «Sendo a existência humana uma alucinação que contém, em si mesma, as alucinações secundárias do dia e da noite (a última um estado insalubre da atmosfera devido ao desenvolvimento orgânico do ar negro), fica mal a qualquer homem sensato preocupar-se com a abordagem ilusória da alucinação suprema conhecida como morte». A tradução é de Rita Carvalho e Guerra.

Melhor sumário do ano

Luís Quintais reuniu este ano a sua produção poética sob um título lindíssimo: Arrancar Penas a Um Canto de Cisne (Assírio & Alvim, Outubro de 2015). Fê-lo ao contrário do que é costume fazer-se, ou seja, do livro mais recente para o livro mais antigo. E explicou: «A memória faz-se ao contrário. Assim fiz a minha. Procurei, porém, não desfigurar. Corrigi erros, arrumei melhor, alguns poemas foram eliminados, outros, que esquecera, foram incluídos, reescrevi pontualmente». Não vejo outra maneira de olhar o passado através do que se foi escrevendo.

Melhor prefácio do ano

O prefácio de Anselm Jappe a O Fetichismo da Mercadoria e o seu segredo, de Karl Marx, publicado pela Antígona em Julho de 2015, é uma excelente introdução a uma leitura actualizada e "actualizante" do marxismo. Vale citar: «Ser explorado torna-se quase um privilégio (que os restos do velho proletariado fabril da Europa defendem com unhas e dentes), quando o capitalismo continua a transformar cada vez mais pessoas em «homens supérfluos», em «desperdícios».»

Melhor nota de rodapé do ano

Prolixo em notas de rodapé, Estado Islâmico: Estado de Terror (Vogais, Abril de 2015), foi o melhor livro que li sobre o mais indigesto dos assuntos da actualidade. Algumas das notas de rodapé são verdadeiramente inquietantes. Como esta: «Não podemos deixar de nos perguntar por que razão o EI se concentra naqueles valores «sagrados» que justificam matar xiitas, escravizar «politeístas» e atirar homossexuais do cimo de edifícios altos (apesar de o sexo homossexual parecer ser tolerado entre os próprios combatentes do EI)». Ou esta: «O movimento Darbyite dos anos 1830-1880 foi o precursor para o fundamentalismo cristão moderno e forneceu a base teológica para a ascensão da ênfase fundamentalista no literalismo bíblico e a noção de «dispensação pré-milenarista» — de que Jesus regressará antes do seu governo de mil anos, e de que a Humanidade terá entrado no fim dos tempos depois de receber anteriores «dispensações» de Deus, na forma da expulsão de Adão do Éden, do Dilúvio e da graça de Cristo, a que o Homem falhou em responder». A reflectir sobre o assunto.

Melhor cólofon do ano

Publicado em Novembro de 2015, Baço, de manuel a. domingos, reúne poemas escritos entre Janeiro e Julho do mesmo ano. A referência ao lugar onde os mesmos foram escritos é um testemunho que não deve ser lido, à luz da poesia do autor, como meramente sarcástico: «num quarto com marquise (trezentos euros/tudo incluído)». A precariedade é uma fonte inesgotável de boa poesia. Publicado pelo projecto Medula, paralelo às margens, mas premiado como convém.

Melhor colecção do ano

Continuo a gostar dos Retratos da Fundação publicados pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Comecei o ano a ler Malditos — histórias de homens e de lobos (Dezembro de 2014), por Ricardo J. Rodrigues, e deliciei-me, logo de seguida, com Aleluia! (Janeiro de 2015), de Bruno Vieira Amaral. Livros económicos, bem escritos, informativos, com um design impecável.

Melhor bibliografia do ano

Num livro repleto de pormenores tão deliciosos quão arriscados, o jovem poeta Leonardo (n. 1993, Ponta Delgada) resolveu incluir uma bio-biliografia [algum motor] onde cabem amigos, leituras, influências culturais de ordem diversa. Tem tanto de bibliográfico como de agradecimento, este momento mor que termina assim: «as ruínas da casa primeira, o cavaleiro do apocalipse que regressa / ao império em chamas, mãe / e demais amigos e entidades e gratidões e artes e perícias e equívocos, / cegos, reordenados, parafraseados, orbitando, noite: / oxi oxi, eu bem sei que erro // (2013-2015) // ab imo pectore, // leonardo». A edição de âmbula [: pés, punhos, tórax: manicómio/manicórdio] (Outubro de 2015) coube à Companhia das Ilhas. Só ficamos a saber quem é o autor quando chegamos ao fim. Bom e estranho livro.

Melhor título do ano

Digamos que se trata de um título síntese, onde poderia caber todo um balanço sobre o ano prestes a findar. Problemas no Paraíso (Bertrand Editora, Setembro de 2015), é muito mais do que um ensaio de Slavoj Žižek sobre a crise do capitalismo e a pertinência do comunismo na actualidade. É um ensaio para lá do fim da história e do futuro pós-humano, é uma espécie de revisão da matéria dada que nos obriga a pensar a nossa vida na Terra sob prismas raramente questionáveis. Belo título.


O livro do ano



Pelo dito e pelo não dito, o livro do ano só poderia ser este Editor Contra: Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite (Novembro de 2015), organizado por Pedro Piedade Marques e editado pela Montag. Tem tudo o que de melhor as referências supra revelam, é um objecto único e inesgotável, de raríssimo cuidado e beleza. A seu tempo, diremos de nossa justiça. Fica, para já, a eleição. 

LEMMY KILMISTER (1945-2015)


A única ocasião em que pisei o território do Rock in Rio Lisboa foi para ver e ouvir os Motörhead. Lemmy era uma lenda viva do rock britânico. Impossível não recordar o Rui Costa, autor de um poema, publicado aqui, que me deixa na vã esperança de um encontro prenunciado com trocas de rosas:

MOTÖRHEAD


Lounge, ah! Conheço pessoas
que estão sempre cansadas.
Descansam e ficam cansadas.
Trocam as pernas no sofá e cansam-se.
Ibiza relax? Overdose de ceroulas.
Chill out Café? "Por favor,"- diz o Chagas-
"que haja leite fresco no estabelecimento!"
Não há pachorra. As pessoas cansadas
cansam-me. Toquem-se, aboca-
nhem-se no estabelecimento!
Percam-se, desgracem-se, comam
iogurtes.
Casem-se, dêem ao vosso filho o
melhor curriculum do século XXI.
Digam-lhe, antes que ele abra a boca
para cantar, que esteja cansado.
Digam-lhe, se ele ainda não estiver
completamente convencido, que é um
novo conceito, uma forma de
estar na vida.
Eu, ouviram bem, não me canso.
Nem tu, Lemmy!
Um dia hei-de oferecer-te uma rosa.
Sairemos para a rua,
quando todos estiverem cansados,
e havemos de ver deus e deus vai querer
juntar-se a nós.
Então
vamos começar a cantar até
a rosa arrastar tudo para dentro do som
e havemos de
enlouquecer deus
nessa esquina.

Rui Costa

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

UMA CANÇÃO PIRATA

Desastrada canção
Ao Rui Costa
(1972-2012)


Nunca és tu na porta que se fecha.
É apenas o vento sueste,
a dizer-me que não vieste 
e que já nada há aqui que mexa.

Não és tu no eco de certa voz.
É outra declinação do meu nome,
a soar-me ao teu silêncio atroz 
preso à eternidade que dorme.

E também não és tu na fotografia
Impressa nas páginas mais tristes
que ao mundo, esvaziado, anuncia
o erguer da manhã onde inexistes.

Poderá ainda haver um gesto teu 
na papoila que se balança lenta 
ao ritmo das notas da lira de Orfeu
E o fracasso de Eurídice lamenta.

(Tentei recuperar-te nos escuros confins do Hades,
mas falhando todas as notas e olhares  perdi-te tardes)

Ou serás tu no verso de um poema azul,
tecendo a inocência mágica das estrelas,
ou rosa-dos-ventos desorientada a Sul,
desenhando o inverso cego das letras.

Mas serás tu, por certo, 
no mais digno vértice da minha inquietação,
Onde semeaste a planície de liberdade
que deixaste como penhor da saudade,
E serás, por fim, nesta desastrada canção.



Cuca, a Pirata. Aqui.

MORTES NO HOSPITAL

Quando, no início do ano, se discutia o acesso a um medicamento contra a Hepatite C, o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho disse que era obrigação do Estado fazer tudo o que estava ao seu alcance para salvar vidas humanas, mas não a qualquer custo. “Custe o que custar” foi a expressão utilizada, e sintetizava na perfeição a mentalidade do governante. Exactamente a mesma que podia afirmar que Portugal estava melhor, apesar de os portugueses não estarem melhores, e colocar no mesmo pacote cofres cheios. Toda esta argumentação releva uma insensibilidade social que foi a matriz da governação da direita coligada, cujos resultados não podiam ser outros senão estes: mortes no Hospital por falta de quem socorra. Se estavam todos a pensar nos cofres do país, por que haviam de se preocupar com a vida das pessoas?

LEITORES

Há-de ser sempre um mistério o motivo da visita, mas também quem visita. Esta semana, um dos posts mais visitados é uma versão para um poema de Michael Longley. O que haverá em Os Tecedores de Linho que trouxe aqui tanta gente? Ou será sempre a mesma pessoa muitas vezes? Uma leitura de Canto Nono, de Nuno Moura, vem logo a seguir como o post da semana mais visitado. Não são textos recentes. Datam ambos de 2013. De resto, 2013 tem sido o ano mais visitado na última semana de 2015. Terá alguém acordado agora para 2013? Um texto sobre um western desconhecido, El Condor, é o terceiro post de 2013 mais visitado na última semana de 2015. Que interesse terá 2013 despertado nos leitores que 2015 não tem?

domingo, 27 de dezembro de 2015

O MELHOR E O PIOR DE 2015

Imagem ridícula do ano.


O melhor: Charlie Hebdo. O pior: Gustavo Santos.
O melhor: soldadas Peshmerga. O pior: a marcha dos líderes mundiais em Paris.
O melhor: toda a gente saber onde fica Paris. O pior: ninguém saber onde fica Baga. 
O melhor: bicicletas. O pior: as novas regras de circulação automóvel em Lisboa.
O melhor: Syriza. O pior: Syriza. 
O melhor: a argumentação apocalíptica de César das Neves. O pior: a argumentação burgessa de Pedro Arroja.
O melhor: José Pacheco Pereira. O pior: Pedro Passos Coelho. 
O melhor: acordos entre os partidos de esquerda. O pior: a vitória da coligação PàF nas legislativas.
O melhor: bananas da Madeira. O pior: Cavaco.
O melhor: cofres cheios. O pior: afinal era treta, vai tudo para o Banif.
O melhor: anónimos a socorrerem-se durante os atentados de Paris. O pior: Andreas Lubitz.
O melhor: já ninguém se lembrar de Cosme Vieira. O pior: vídeos virais de jovens à chapada uns aos outros.
O melhor: vitória do SCP na Taça de Portugal. O pior: pilhagens e agressões no Estádio D. Afonso Henriques.
O melhor: acordo entre EUA e Cuba. O pior: crimes de ódio nos EUA.
O melhor: a resistência do povo grego. O pior: José Rodrigues dos Santos na Grécia. 
O melhor: campanha Liberdade Já. O pior: Isabel dos Santos loves Nicki Minaj.
O melhor: Teresa Veiga. O pior: Pedro Chagas Freitas.
O melhor: a fotografia da criança morta na praia. O pior: a fotografia da criança morta na praia.
O melhor: acolhimento. O pior: xenofobia. 
O melhor: portas abertas. O pior: muros erguidos.

Imagem inspiradora do ano.

sábado, 26 de dezembro de 2015

"AQUILO É UMA VIDA COMPLETAMENTE PERTURBADA" #9


A imagem é um postal turístico das Honduras. Lembrei-me das Honduras depois de ler algures que se trata de um dos países do mundo onde os níveis de criminalidade são mais elevados. 90% dos homicídios ficam impunes. O título cita Medina Carreira, a propósito da paralisação de Bruxelas.

COISAS MESMO MUITO BOAS

Um weblog que é método de trabalho: Um Estranho por Dia. Via sound + vision.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

EDITORIAL DO PÚBLICO

O estouro do Banif é um exemplar manifesto de incompetência, irresponsabilidade e dolo. Desta vez, e ao contrário do que aconteceu com o BES, não se conhecem actos de manipulação de informação relevante nem práticas de gestão suspeitas de condutas criminosas. Quando António Costa nos deu conta da resolução do Banif e da brutal factura que todos teremos de pagar, foi muito fácil constatar que este era um desastre cada vez mais evidente a cada adiamento, a cada varrer do lixo para baixo do tapete, a cada hesitação denunciadora da falta de coragem. Desde Dezembro de 2014 que se sabia que o Banif não conseguia assumir os seus compromissos com o Estado, desde sempre que se conhecia o criticismo e receio com que a Direcção-Geral de Concorrência da Comissão Europeia olhava para a forma como o Governo geria a situação. Os oito planos de reestruturação chumbados eram prova cabal de que o tempo não resolveria coisa nenhuma. Nestes três anos, Maria Luis Albuquerque, Pedro Passos Coelho e o Governador do Banco de Portugal limitaram-se porém a tergiversar, a prometer soluções que ora não avançavam por causa da saída limpa, ora ficavam congeladas por causa do calendário eleitoral. Quando Bruxelas anunciou que a brincadeira estava para acabar (este fim-de-semana), bastou uma notícia especulativa na TVI para que mil milhões de euros desaparecessem do balanço e a salvação do Banif passasse a ser feita à custa dos impostos. A aura de Pedro Passos Coelho como político responsável, que quer que “se lixem as eleições”, apagou-se nessa conta astronómica. Já se sabia que os cidadãos teriam de pagar alguma coisa, mas três mil milhões de euros é um custo demasiado alto para que a sua gestão neste caso mereça um mínimo de condescendência.


Pergunta do leitor: quem contribuiu para a construção da aura? Independentemente da resposta, fazem todos parte do mesmo esterco. Criminosos na prisão, já!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

2015 REVISITADO

— Qual o momento mais alegre de 2015?
Alegria, verdadeira alegria, senti sempre que acordei de um sono profundo. De memória, não me aconteceu uma única vez.

— Por onde andou a beleza em 2015?
Pelas ruas da amargura.

— Foi a algum concerto em 2015?
Agradeço à minha mulher quase me ter obrigado a sair de casa para assistir ao concerto de Benjamin Clementine no Coliseu dos Recreios. Raro momento de interrupção.

— Qual o disco que ouviu mais vezes em 2015?
Muito provavelmente, o disco rígido do meu velho Pentium enquanto rodava At Least For Now.

— Frequentou exposições em 2015?
Quis frequentar a de Lourdes Castro, mas estava encerrada para descanso do pessoal. Vou guardar na memória um comentário que li no livro de visitas à mostra Génesis, de Sebastião Salgado: «gostei muito, mas acho que as fotografias deviam ter mais cor».

— Qual o melhor filme a que assistiu no cinema em 2015?
La paura, de Roberto Rossellini, com Ingrid Bergman. Um filme de 1954, num cinema sem pipocas.

— Nomeie o melhor golo de 2015.
Não tem nada que saber: os de Adrien Silva, Nani, Slimani e Montero que valeram ao Sporting a 16.ª Taça de Portugal. Todas as defesas de Patrício nesse jogo épico também deviam contar como golos.

— Conte-nos a sua história de 2015.
Tem vindo a ser contada aqui. Dezembro ainda não terminou, mas prevejo um final apelante.

— Onde foi buscar inspiração para 2015?
Ao vinho, ao gim, à água tónica e à pimenta rosa.

— Jogou muito em 2015?
Fartei-me de jogar copas com o computador.

— 2015 teve bom ou mau karma?
Hmmmmmmmm.

— Qual o melhor livro que leu em 2015?
Sinais de Fogo, de Jorge de Sena. Pela segunda vez.

— Qual o mote que 2015 deixa para 2016?
Despacha-te lá com isso, pá.

— Escolha um nome que defina 2015.
Sou sempre muito previsível nessas matérias. O nome que escolho é Ghiyath al-Din Abu'l-Fath Umar ibn Ibrahim Al-Nishapuri al-Khayyami.

— Qual o óbito que mais sentiu em 2015?
Felizmente, não perdi familiares nem amigos. Perdemos todos um gigantesco editor: Vitor Silva Tavares.

— Foi muito à praia em 2015?
Menos do que devia. Sobretudo à Praia da Carreagem.

— Qual a querela que mais gozo lhe deu em 2015?
A querela sobre a legitimidade do actual governo.

— O que o fez rir em 2015?
Som de Cristal, de Bruno Nogueira.

— Diga-nos um sítio onde esteve em 2015 e ao qual gostaria de regressar.
À Ponte da Mizarela, lá para os lados de Montalegre.

— Que tristezas marcam 2015?
A merda do terrorismo.

— Qual a utopia de 2015?
«Só há liberdade a sério quando houver/  A paz, o pão habitação saúde, educação.»

— Qual o melhor vinho que bebeu em 2015?
Em matéria de vinhos, gosto sempre mais daquele que mais bebo. Este ano os Badula foram uma companhia frequente.

— Qual o weblog que mais gostou de seguir em 2015?
O xilre. Dentre as mais variadas razões, faz-me sentir que, passados 12 anos desta brincadeira, ainda faz sentido ler weblogs.

— Teve algum xamã em 2015.
Um tal de B. Traven.

— A que diria yes em 2015?
Aos Ventilan na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul.

— Para terminar, qualquer coisa com a palavra Z.
Zambujo.

COISAS MESMO MUITO BOAS

MENSAGEM DE NATAL

Vi e ouvi esta mensagem até ao fim, na vã esperança de que no final dessem um linguado e se engasgassem na língua um do outro. Cavaco tem mais graça quando come Bolo-rei. Maria simplesmente não tem graça, devia dedicar toda a sua atenção à colecção de presépios. 

SÓCRATES

Este faz por merecer o ódio que lhe têm, tamanha é a falta de humildade. Tudo bem que se defenda, mas que o faça no recato da sua presumível inocência. O constante querer aparecer e estar no centro das atenções enjoa, coloca-o ao nível dos seus arqui-inimigos do Correio da Manhã. É de uma pobreza de espírito saturante. Eu estou farto de ouvir falar de Sócrates e não entendo como é que Sócrates não está farto de ouvir falar de si próprio.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

UM POEMA DE LI BAI

DIÁLOGO NA MONTANHA

Perguntas-me: porque habito a verde montanha?
Rio-me. E nem respondo. Quieto, coração.
Correntes águas, floração, vão para esse escuro
E outro mundo há que dado não é a Mortais.


Li Bai (Suyab, actual Quirguizistão, 701 d.C. - Dangtu, actual Anhui, República Popular da China, 762 d.C.), in Uma Antologia de Poesia Chinesa - do Shijing a Lu Xun, Segundo Milénio Antes da Era Comum - Século XX, por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 2.ª edição, Setembro de 2010, p. 153. «A lenda sobre a morte de Li Bai fala do falecimento de um poeta, quando uma noite passeava de barco no Rio Yangtzé, ébrio, e lançou-se à água para abraçar o reflexo da lua, afogando-se».

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

UM POEMA DE WALT WHITMAN

POR CAMINHOS INEXPLORADOS

Por caminhos inexplorados,
Pela vegetação junto às margens das lagoas,
Liberto de uma vida que se expõe a si mesma,
De todos os princípios já conhecidos, dos prazeres, benefícios, conveniências,
Com que há muito alimentava a minha alma,
Tenho agora a certeza de que os princípios ainda não conhecidos, tenho a certeza de que a minha alma,
De que a alma do homem para quem falo se enche de alegria junto dos companheiros,
Aqui, só, longe do mundo tumultuoso,
Em harmonia com as línguas aromáticas que aqui falam,
Já sem constrangimento (pois neste lugar isolado respondo como não ousaria noutro qualquer),
Diante de mim a vida intensa que não se revela, mas que contém tudo,
Decidido hoje a cantar apenas cantos sobre o afecto viril,
Projectando-os ao longo dessa vida real,
Legando daqui as formas de amor atlético,
Pela tarde deste delicioso mês de Setembro dos meus quarenta e um anos,
Continuo para todos os que são ou foram jovens,
A contar o segredo das minhas noites e dos meus dias,
A celebrar o desejo de ter companheiros.


Walt Whitman (Long Island, Nova Iorque, 31 de Maio de 1819 - Camden, Nova Jérsia, 26 de Março de 1892), in Folhas de Erva, tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Círculo de Leitores, Fevereiro de 2006, p. 106.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

UMA VEZ QUE TUDO SE PERDEU

Não sei quão exacto será considerar que Pedro Mexia (n. 1972) não publicava nenhum livro de poemas há mais de dez anos, mais concretamente desde Vida Oculta (Relógio d’Água, Novembro de 2004) — o sexto volume de um conjunto que o poeta resolveu assumir como “aproveitável”. Muito do que o autor nos tem oferecido nos seus diários se aproxima, pelo tom e até, por vezes, pela forma, dos elementos mais característicos do seu trabalho poético. Rigor, contenção e exigência são talvez as marcas mais evidentes do que foi sendo apurado desde Duplo Império (Edição do autor, 1999), conjunto de poemas reveladores de uma capacidade de problematizar o real que coloca o indivíduo e a sua subjectividade no centro de toda a recriação. É uma poesia onde a memória pesa avassaladoramente sobre os ombros do sujeito poético, o qual se apresenta quase invariavelmente dissimulado pelas evidências.
O jogo que os poemas de Mexia introduzem é o de uma identidade dissimulando-se constantemente, seja através da inclusão de traduções de outras vozes no conjunto da obra, seja mediante teatralizações biográficas que transformam o poema num pequeno enigma tantas vezes indecifrável aos olhos do leitor. As versões de John Berryman, Robert Lowell, Dylan Thomas, Michel Butor, Erich Fried, Wallace Stevens e Donald Justice incluídas em Uma Vez Que Tudo se Perdeu (Tinta-da-China, Novembro de 2015) — título pedido de empréstimo a um verso de Ruy Belo, com ligeira variação —, encontram no Soneto à Morte de Pedro Mexía, de Gutierre de Cetina, a expressão máxima de uma ironia sobre as vozes que ecoam na voz do sujeito. Uno na sua divisibilidade, Pedro Mexia (n. 1972) também é Pedro Mexía (n. 1497 – m. 1551), aquele que só em imaginação e por coincidência onomástica já está morto e até cantado, mas que na realidade em parte desapareceu com o passar da infância e da juventude. O biografismo elíptico destes poemas insinua, deste modo, uma inquietação acerca da singularidade que a memória se encarrega de adensar.
Dois exemplos: a imagem reproduzida na capa do livro e um poema, talvez dos melhores que Mexia publicou até à data. A imagem convoca a praia da Figueira da Foz num tempo que já não existe, o tempo da infância e da primeira adolescência do poeta. No entanto, perduram na idade adulta memórias desse tempo. E é ao relógio característico dessa praia que hoje se pergunta: «Relógio, coluna do tempo, / juiz taciturno, / viste quem eu era / e quem sou agora?» (p. 60) Se esta relação com o tempo convoca Ruy Belo, a relação com o lugar não deixa de convocar Jorge de Sena através do romance Sinais de Fogo. Este diálogo com o passado é também um diálogo com o principal ensinamento dos mestres, a forma como o tempo subtrai expectativas à medida que as desilusões, os arrependimentos, o remorso e até uma certa desesperança (se não estranha, pelo menos problemática num católico assumido) dão lugar a um pessimismo que tem tanto de escudo como de espada. Neste sentido, são de reter os poemas deste livro que, entre as páginas 18 e 26 (o índice é omisso quanto a alguns títulos), focam a questão da amizade.
Depois vem o poema. Em Katherine Whitmore Dá Uma Aula Sobre Pedro Salinas, Mexia encena uma aula de literatura em que a professora Katherine Whitmore questiona as alunas do Smith College sobre a identidade da amada evocada nos poemas de Salinas. Será um conceito poético? Será uma mulher concreta? «Katherine diz que o poético é o ambíguo, / embora também o inquietante, o clamoroso» (p. 49). Mas nós sabemos que, na realidade, Salinas se apaixonou por Katherine, podendo muito bem a professora ser a mulher concreta por detrás do conceito ou o conceito por detrás da mulher concreta. A jogada encenada no poema não é inocente, resulta como uma arte poética no contexto desta poesia que está constantemente a subverter os lugares do real e do imaginário atribuindo a cada um deles o papel daquilo que, em aparência, se lhe opõe. Talvez a conclusão possa ser pensada ao nível da relação abstracta entre uma palavra e o seu objecto, talvez toda a poesia resulte dessa abstracção bem mais simples do que a nossa capacidade para interpretar supõe. Talvez, afinal, tudo seja simplesmente o que é, ou seja, o que foi, «uma vez que já tudo se perdeu» (Ruy Belo, in Homem de Palavra[s])

ESCHIGE ZUNBADA


SOIRÉES PÚBLICAS

   Pela palavra, pela escrita, pelo espectáculo que lhe dão a ver, os dadaístas querem desconcertar, ofender o seu público. E têm uma predilecção pelas grandes soirées públicas porque têm necessidade da presença de um auditório para o conduzir às reacções mais descontroladas.
   Antes da guerra, Arthur Cravan, precursor do espírito dada, já se tinha dedicado a este tipo de exercício. No dia 5 de Julho de 1914, organizara na sala das Sociétés-Savantes uma soirée memorável. Vestido com uma camisa de flanela de grandes cavas, com uma faixa vermelha à cintura, com umas calças negras e com uns escarpins leves, tinha dançado, boxeado, dado alguns tiros de pistola, antes de se lançar num elogio aos desportistas, superiores aos artistas, aos homossexuais, aos ladrões do Louvre, aos loucos...
   Em Zurique, no Cabaret Voltaire, os primeiros espectáculos orientados por Hugo Ball transformaram-se rapidamente em manifestações agressivas. Em cena, produzia-se música batendo em latas. Debaixo de um imenso chapéu, uma voz recitava poemas de Arp. Walter Serner, em vez de ler os seus, depunha flores aos pés de um manequim de costureira. Huelsenbeck uivava os seus textos, acompanhado por Tzara num bombo... (...)
   Quando, de seguida, Dada se deslocou para Paris, beneficiou da experiência adquirida em Zurique, e as sessões públicas foram organizadas de acordo com o mesmo esquema, já devidamente rodado. Para começar realizou-se a Primeira Sexta-feira do grupo Littérature, no dia 23 de Janeiro de 1920, durante a qual foi tocada música de Satie, Milhaud, Poulenc, Auric. Tzara estava presente e leu um artigo de jornal acompanhado de sons de sinetas e ruídos diversos. Picabia executou um grande desenho numa ardósia, apagando cada parte terminada antes de começar a seguinte... O público parisiense, menos paciente que o de Zurique, depressa começou a vaiar e a sessão terminou na maior das confusões.
    Manifestações do mesmo tipo sucederam-se a um ritmo constante. Em Déjà jadis, Ribemont-Dessaignes evoca assim o clima da Grande Soirée Dada, no Teatro de l'Œuvre, a 27 de Março de 1920, durante a qual a numerosa assistência se sentiu «no direito de passar ao contra-ataque, vaiando, gritando e assobiando». Dada atingiu o seu apogeu em Paris, no dia 26 de Maio de 1920, com o «Festival» da Sala Gaveau. Tinha sido anunciado que os dadaístas cortariam os cabelos uns aos outros em cena. Os espectadores haviam-se preparado para desempenhar um papel activo munindo-se de ovos e de bifes com que bombardearam Éluard, Breton, Soupault e os outros a partir do momento em que surgiram com tubos e funis na cabeça.


Henri Béhar, Michel Carassou, in Dada - História de uma Subversão, traduzido por José Miranda Justo, Antígona, Novembro de 2015, pp. 55-56.

sábado, 12 de dezembro de 2015

ESTADO DE TERROR

2015 ficará inevitavelmente na nossa memória colectiva como o ano dos atentados em Paris, capital da revolução que se mantém até hoje como uma espécie de embrião do Ocidente secular. Ainda mal tínhamos digerido os excessos da passagem de ano, fomos brutalmente surpreendidos pelo massacre na redacção do jornal satírico Charlie Hebdo. Talvez por ingenuidade ou, quem sabe, por puro desconhecimento, houve quem encolhesse os ombros perante a notícia, como se já estivesse à espera, como se houvesse uma qualquer relação de causa e efeito que justificasse o atentado face à blasfémia cultivada pelo jornal. Não havia, não podia haver. Quem estivesse minimamente a par do modus operandi dos facínoras do Estado Islâmico sabia que o que aconteceu no Charlie Hebdo estava, em termos políticos e morais, ao nível do que havia acontecido no World Trade Center. Nenhum dos caricaturistas executados era mais ou menos inocente do que as 1344 vítimas das Torres. Podemos dizer exactamente o mesmo acerca daqueles que, mais recentemente, perderam a vida junto ao Stade de France, no Bataclan Café, na rue Charonne ou junto ao canal Saint-Martin. Mais de 100 mortos cujo crime era estarem a viver as suas vidas, uns trabalhando, outros divertindo-se. Portanto, para os simpatizantes do Estado Islâmico, qualquer indivíduo que não se reconheça na leitura do Islão que pretendem impor ao mundo é um alvo a abater. Importa ter consciência disso, sobretudo para nos pormos a salvo de leituras ora generalistas (todo o Islão é mau), ora relativistas (alguns estavam a pedi-las), que em nada contribuem para uma perspectiva minimamente esclarecida acerca dos intentos que motivam o jihadismo do califado liderado por Abu Bakr al-Baghdadi. Um livro como este Estado Islâmico: Estado de Terror (Vogais, Abril de 2015) ajuda ao esclarecimento, quer pela boa organização temática que apresenta, quer pelas múltiplas referências e envios que proporciona, quer ainda pela vasta informação que faculta, com dados cronológicos, um glossário pertinente, um fertilíssimo apêndice com breves resenhas históricas do islamismo e das suas lutas, com abundantes notas de rodapé que tanto esclarecem como justificam as afirmações proferidas mediante a denúncia das fontes. As investigações de Jessica Stern no domínio da guerra psicológica são fundamentais para percebermos o que devemos e não devemos fazer: «O terror pode fazer-nos ripostar contra o inimigo errado, pelas razões erradas, ou ambos (como foi o caso da invasão do Iraque, em 2003). Queremos travar a guerra, não só ao terrorismo como também ao terror, para acabar com o sentimento de sermos injustamente atacados ou incapazes de proteger os inocentes. Queremos fazer guerra ao Mal. Todavia, por vezes, o efeito da nossa reação é precisamente aquilo que queríamos impedir — mais terroristas e mais ataques, espalhando-se de forma mais vasta pelo mundo» (p. 234). Os autores não se afastam, portanto, de uma leitura que considera a invasão do Iraque como o princípio da disseminação do inimigo que hoje o mundo secularizado enfrenta, alertando para os erros de uma resposta que apenas servirá o discurso psicopata do assassino que se coloca no lugar de vítima para justificar as suas acções. Como combater, então, o Mal sem voltar a resvalar em efeitos perversos? J. M. Berger, especializado nos modos de comunicação e propaganda do jihadismo internacional, afirma que «Em vez de tentar deslocar o EI com uma força externa, devíamos considerar esforços para reduzir a sua capacidade de atrair combatentes, propaganda e dinheiro para dentro e para fora das regiões que controla, enfraquecendo a sua capacidade de usar a força bruta e a violência extrema para manter a população local sob controlo. Isto também obrigaria o Estado Islâmico a fracassar com base nas suas próprias ações, em vez de ser removido por forasteiros, o que a longo prazo faria mais para desacreditar futuros esforços na construção da nação jihadista» (pp. 277-278). Ora, esta proposta parece situar-se nos antípodas da atitude que dá forma às decisões dos nossos governantes, sempre muito preocupados com a popularidade junto das suas populações amedrontadas. Em vez de um combate inteligente, constatamos um medir de forças contraproducente. Atirar bombas sobre a Síria e sobre o Iraque e sobre o território dominado pelo EI, falando de alvos estratégicos, não se afigura a mais inteligente das medidas, tal como no passado não foi muito inteligente treinar militarmente os grandes inspiradores da al-Qaeda ou invadir o Iraque sob falsos pretextos. Não deixa de ser curioso que al-Baghdadi, como outras fontes de inspiração do Estado Islâmico do Iraque e da Síria, tenha estado detido em Camp Bucca aquando da invasão norte-americana no Iraque. As prisões norte-americanas foram, em parte, universidades do terror para estes filósofos do islamismo radical, facto que não pode deixar de nos perturbar quando constatamos que «A visão da al-Qaeda é — muitas vezes explicitamente — niilista. O Estado Islâmico, apesar de toda a sua barbárie, é simultaneamente mais pragmático e mais utópico. Lado a lado com a sua tremenda capacidade de destruição, está a vontade de construir» (p. 100). E a verdade é que, para os autores do livro, já conseguiram construir um Estado, ainda que não reconhecido internacionalmente, o que é, apesar da desconsideração ocidental, uma base de sustento tremendamente difícil de aniquilar. O ambiente é, sem dúvida, de Terceira Guerra Mundial. Pretender escamotear esta realidade quando ela está tão próxima de nós talvez não seja a melhor das opções.