Já há vencedor no campeonato das estantes. Assim está bem, calendários com moçoilas e um arsenal de garrafões. Marques Mendes, aprende. E tu também, ó Nuno Rogeiro.
quinta-feira, 30 de abril de 2020
terça-feira, 28 de abril de 2020
PÉS DE BARRO
(...) Pensem, por um momento, como seria um mundo em que não usássemos combustíveis fósseis. Antes de mais nada, não poderíamos ter um carro pessoal, nem nós nem ninguém. A vida nas cidades como as nossas, dependente do consumo de muita energia e de produtos que vêm de muito longe através dos sistemas de transporte, não poderia ser mantida. (...)
Sem combustíveis fósseis, devemos dizer adeus à ideia de viajar de avião quando nos apetece. O que faremos então, se não pudermos ter acesso aos alimentos produzidos noutros continentes e embalados em plástico em grandes fábricas que chegam a nossa casa, nas cidades, através de supermercados? (...)
E que me dizem do enorme consumo de electricidade de que hoje dependem o nosso lazer e o nosso trabalho? Telemóveis, computadores, televisores, internet... Tudo isso consome enormes quantidades de electricidade, que é, sim senhor, produzida principalmente a partir do petróleo (quando não é das coisas piores, como o urânio das fábricas nucleares. Imagino que todas se lembram de Fukushima...).
Por conseguinte, para enfrentar a crise ecológica e social, do que nós precisamos é de mudar por completo a nossa vida, a nossa economia, os nossos desejos, a nossa forma de habitar, de comer... E isso não depende duma lei ou dum imposto, duma proibição pontual ou dum decreto. Mesmo que uma lei proibisse o uso de combustíveis fósseis da noite para o dia, todos os problemas a que me refiro iriam continuar. O drama de o nosso mundo precisar de se autodestruir para funcionar, significa que parar a destruição implica voltar a pensar como fazer quase tudo.
Adrián Almazán, in Carta-aberta aos jovens em luta pelo clima, revista Flauta de Luz, n.º 7, Abril de 2020, pp. 60-61.
segunda-feira, 27 de abril de 2020
UM POEMA DE JORGE GOMES MIRANDA
DE UM SÓ TRAGO
De todas as maneiras que a solidão
escolhe para nos derrotar
nenhuma tão lenta e cruel
como a que nos faz acreditar
de novo no amor, ao mesmo tempo
que nos retira as forças para injuriá-lo
quando as promessas se revelam vãs
e percebemos que a chama que nos alenta
é a mesma que nos extingue.
E de nada serve pelos restantes dias
mostrarmo-nos compassivos
de nós mesmos, com a certeza de que
em todas as praças há um corpo apedrejado,
em todas as casas uma janela opaca,
em todos os quartos uma boca sem voz,
em todas as palavras a lembrança de outras
mais amadas e que um dia nos pertencerão.
A dor deve ser bebida em silêncio
de um só trago, ao balcão de um bar,
depois de todos haverem já partido.
Jorge Gomes Miranda, in Este Mundo, Sem Abrigo, Relógio D'Água, Novembro de 2003, p. 44.
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Os mestres e as criaturas novas
domingo, 26 de abril de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #11
Dei com uma senhora muito bem
penteada na fila do Staples. Equilibrava-se invejavelmente sobre uns saltos que eu
desaconselharia a qualquer ser humano, até porque sofro de vertigens. Fiquei a
pensar onde teria arranjado o cabelo. Atrás dela estava outra senhora, não tão
produzida, mas com uma máscara que me deixou cismático. Quando era miúdo tinha
dificuldade com os atacadores. Já mais crescido, meu pai perdeu horas a
tentar educar-me em nós de gravatas. Em vão as perdeu. Imagino que deva ser
necessária muita destreza para usar uma máscara com o aparato da que vemos na
imagem. Eu continuo em pânico com as máscaras. Já experimentei uma viseira e
senti-me como uma personagem do filme "Massacre no Texas". Se me vir
obrigado a andar com uma coisa destas, acho que vou prolongar a quarenta para
lá da quarentena. Só sairei de casa quando houver vacina. E me medicarem contra
a agarofobia.
sábado, 25 de abril de 2020
sexta-feira, 24 de abril de 2020
PANDEMIA
A propaganda fascista está a ganhar à História. Porquê?
Basta fazer pesquisas no Google sobre o antes e o depois de 25 de Abril de
1974. Onde andam os documentários que expliquem com clareza as diferenças? E os
memes? E os vídeos simples, directos, objectivos e claros? Em todo o lado
tropeço com montagens truncadas de propaganda fascista e antidemocrática. Há
uma incompetência atroz nos zeladores da democracia e da memória de Abril, uma
incapacidade de chegar às pessoas com retratos, imagens, factos, que pagará um
preço muito elevado num futuro próximo.
Há um ano que reactivei a página de Facebook e, desde
então, não me deixo de chocar todos os dias com tamanha incúria. Não pára de
crescer o desfile de frases feitas, chavões, absolutas mentiras propagandeadas
como se fossem verdades. As mesmas pessoas que dizem odiar a Coreia do Norte
manifestam empatia pelo regime do Tarrafal, da PIDE, da censura prévia. Porquê?
Que leva essas pessoas a dizerem tão mal da democracia ao mesmo tempo que dizem
odiar ditadores?
Um dos equívocos mais correntes é a falácia da corrupção.
Crê-se que não havia corrupção antes da democracia, como se esta tivesse o
exclusivo de políticos corruptos. Não há quem faça um vídeo simples, directo,
claro, a demonstrar que a ditadura era a corrupção em si mesma? Qual o papel da
Associação 25 de Abril? Que função desempenha nesta era de comunicação em rede?
Encontrei no perfil de um ex-aluno uma montagem com o Dr.
Soares a dizer, durante o período da troika, que nem nos tempos de Salazar viu
tanta fome em Portugal. Em que falhámos? Aquelas afirmações,
descontextualizadas e truncadas, servem para tudo, até para porem um homem que
combateu a ditadura a elogiar o ditador. Há nisto uma amoralidade terrível. É
preciso agir sobre isto com ferramentas comunicacionais igualmente eficazes. Eu
não tenho os meios, mas deve haver quem tenha. Por amor à democracia e à
liberdade, acordem e mexam-se. É que estão a perder a guerra. E o mais grave é
parecer que nem estão a dar por isso.
A imagem ao alto reproduz um trecho de "A República" de Platão, que também vem sendo utilizado, imagine-se, como "elogio do Estado Novo".
terça-feira, 21 de abril de 2020
#ESTUDOEMCASA
A iniciativa #EstudoEmCasa arrancou ontem, acompanhada de
um chorrilho de críticas para todos os gostos. Era previsível que assim fosse.
Qualquer iniciativa do Ministério da Educação está sujeita, à partida, a ser
crucificada na praça pública. Há duas razões para que assim seja: temos os mais
inúteis experts do mundo em matéria de educação. Segundo: os professores adoram
dizer mal dos professores, excepto quando são atacados por quem não está dentro
da classe. Nada de novo, portanto. Sucede que os tempos são, de facto, novos,
obrigam a experiências inovadoras, a uma certa ousadia em matéria de experimentalismo, até a algum voluntarismo.
E nisto, como em tudo, há os que se chegam à frente e os que se sentam na fila
de trás, com um semblante perscrutador, para poderem dizer mal e criticarem.
Ambas as atitudes são legítimas, sobretudo se quem ficar na fila de trás tiver
uma atitude proactiva que contribua para o aperfeiçoamento do que está mal. Mas
não quero ser chato nem moralista. Perante os comentários que vi à indumentária
dos professores, aos penteados, a uma ou outra calamidade congénere, ponho-me a pensar no
assunto e fico com sensações ambivalentes acerca do tema. Qualquer que fosse a
decisão do Ministério, ela seria objecto de crítica. É de lei. Tendo sido esta
a opção, quanto a mim bem, porque do mal, o menos, talvez a atitude correcta
fosse uma certa condescendência, ou, pelo menos, alguma paciência. Eu admiro
honestamente o esforço e a dedicação de todos quantos se empenham para manter a
máquina funcional, admitindo haver muita coisa a ser corrigida. Depressa e bem
não há quem, diz o povo e com razão. Ainda assim, vi excertos de uma aula com a
minha filha Beatriz e não desgostei do que vi. Por outro lado, compreendo as
críticas daqueles que se focam na indumentária dos professores, no tipo de
calçado que levam para as salas-estúdio, nos penteados e numa ou noutra calinada. Faz-me pensar no risco que é, até para os professores, uma medida
destas. Um simples frame de uma postura menos ortodoxa, um lapsus linguae
inadvertido, podem arruinar a reputação de quem ousou chegar-se à frente, dado
ser agora tão fácil pôr em prática a uma escala universal os comportamentos do
fanfarrão da turma. Não deixa de ser curioso verificar quão democrática se
tornou a fanfarronice neste novo mundo em rede. Qualquer pessoa fica exposta ao
ridículo quando assume publicamente a sua maneira de ser e de estar. Em televisão, e sem
qualquer preparação prévia, seja pelo tom de voz ou pelo penteado ou pela
gralha inevitável, essa exposição ao ridículo pode assumir uma escala inimaginável. Mas se as aulas nas escolas fossem filmadas, ideia que espero não
vir a passar pela cabeça de ninguém, seria diferente? Não estariam todos
sujeitos à gozação geral. Muito pode ser corrigido nesta iniciativa do
Ministério da Educação, mas nada que possa resolver a falta de humildade
daqueles que, estando em casa, pouco mais conseguirão fazer do que dizer mal.
Quantos de nós estariam dispostos a cumprir o papel que estes professores estão
a cumprir? Cheguem-se à frente, candidatem-se, enviem currículos, participem.
Eu prefiro ficar em casa.
segunda-feira, 20 de abril de 2020
PANO PRETO
Ou eu estou a viver um pesadelo ou as pessoas
enlouqueceram de vez. Agora querem um pano preto na janela, contra a celebração
do 25 de Abril. Para estas pessoas, celebrar, na actual conjuntura, o fim da
ditadura e o retomar da democracia é uma afronta aos portugueses, ao SNS, ao
Papa e ao Espírito Santo.
O SNS, que por acaso foi só uma das mais relevantes
conquistas da democracia, fica exposto com a celebração contida do 25 de Abril?
Pessoas, se estão verdadeiramente preocupadas com o
SNS, deixem de fumar e de beber, pratiquem exercício físico e cortem nos doces,
emagreçam, controlem peso e tensão, durmam bem. Pelas vítimas de enfarte:
deixai de ingerir sal. Pelas vítimas da fome: deixai de comer. Pelas vítimas de
SIDA: deixai de foder. Deixai mesmo de viver, por amor à santa e respeito a
todos quantos morrem diariamente das mais diversas maneiras. Mas tende o
paninho preto na varanda, que o país não pode parar. Excepto no dia da
liberdade.
domingo, 19 de abril de 2020
NA LINHA DA FRENTE
Na linha da frente. Eis uma expressão que sempre me
irritou. Na livraria, a linha da frente dividia-se entre best-sellers e
campanhas merdosas. A guerra mete na linha da frente os que são para morrer
primeiro. Chamavam-se vanguardas, coisa que tem a sua piada até a vanguarda se
desfazer em húmus. Ultimamente a expressão é usada para nos referirmos a
médicos e enfermeiros, sempre num tom tão respeitoso que lembra os samurais
diante do imperador. Ninguém nega a relevância do trabalho, nem sequer se põe
em causa essa relevância. Importa acrescentar que para esse trabalho poder ser
feito os materiais têm que chegar onde são precisos, pelo que os
transportadores também estão na linha da frente; os produtos têm de ser fabricados,
pelo que os operários estão na linha da frente. E por aí em diante, pelo que a
linha da frente tem muitas camadas, tal e qual um mil folhas, as coisas
ligam-se umas às outras. Um simples gesto tão básico e necessário como beber
água obriga a que imensa gente permaneça na linha da frente. Respeito de igual
modo toda esse massa anónima que, independentemente da sua função, a desempenha
discreta e eficientemente. Não receberão medalhas, ninguém se lembrará deles,
porque na expressão linha da frente só cabe o pico da pirâmide. A base fica sem
rosto.
sábado, 18 de abril de 2020
sexta-feira, 17 de abril de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #10
Espero pela Ana à porta da praça improvisada no pavilhão
da Expoeste. Não entro porque não consigo usar máscara, julgo preferível
manter-me distante a arriscar um ataque de pânico. Vejo pessoas com máscaras no
queixo. Outras, mais originais, penduram as mascarilhas nas orelhas como se
fossem brincos. Suponho que algumas senhoras aproveitem para comentar as
máscaras umas das outras como antes comentavam adereços e indumentária. Não
entendo por que não enfiam luvas no nariz.
quinta-feira, 16 de abril de 2020
LUIS SEPÚLVEDA (1949-2020)
(...)
Sonho, e não me importo que uma visão do lucro como única orientação do homem estigmatize os sonhos e os sonhadores. Considero-me um sonhador, paguei um preço bastante duro pelos meus sonhos, mas são tão belos, tão plenos e tão intensos que voltaria a pagá-lo uma e outra vez.
(...)
Primeiro, sou cidadão e homem livre, depois sou escritor. Tenho para mim que se é homem antes de se ser artista ou escritor, creio que se é responsável antes de se ser célebre, creio que se é justo antes de famoso, pois, caso contrário, a arte, a celebridade e a fama não seriam mais do que desculpas para não cumprir os deveres de homem e de cidadão.
(...)
As minhas histórias, escreve-as um homem que sonha com um mundo melhor, mais justo, mais limpo e generoso. As minhas histórias, escreve-as um chileno que sonha que este país cumpra o mais belo dos sonhos: sentarmo-nos todos à mesma mesa com confiança e sem a vergonha de saber que os assassinos daqueles que nos faltam não recebem o justo castigo.
E esse sonho será materializado no dia em que soubermos onde estão os que nos faltam, porque, ao sabê-lo, a nossa memória não terá abertas as feridas da incerteza, o bálsamo da justiça encarregar-se-á de fechá-las e poderemos continuar a sonhar, porque só sonhadores e fiéis ao sonhos é que conseguiremos ser melhores, e, se formos melhores, o mundo será melhor.
(...)
Palavras da alocução "Ainda Acreditamos nos Sonhos", proferida no lançamento da Editorial Aún Creemos En Los Sueños, na Biblioteca Nacional de Santiago do Chile, em 16 de Abril de 2002. In "O Poder dos Sonhos", tradução de Henrique Tavares e Castro, ASA Editores, Setembro de 2006, pp. 10-24.
quarta-feira, 15 de abril de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #9
As gaivotas andam loucas, de dia para dia ameaçam tomar
conta do bairro. Detesto gaivotas, a sorte delas é ninguém as querer comer. Mas
elas atacam os pombos. Não tivesse eu fobia a pássaros, importaria bandos de
águias para darem cabo das gaivotas. Sou como os gatos que assomam às varandas para
contemplarem suas presas. Mesmo enclausurado, não deixo de contemplar as minhas
presas. É exercício que me oferece a ilusão de uma certa liberdade. Passa-se
exactamente o mesmo na vida em rede. Somos reclusos a cumprir pena por crimes
de que nos julgamos injustamente condenados, mas nem por um segundo deixamos de
espreitar inimigos através das assépticas janelas virtuais que nos conservam obedientes
e cumpridores garantindo... distanciamento social. Infelizmente, não temos a
inteligência dos gatos. Guerreamos sem garras nem dentes, apenas palavras
domésticas, esbatidas, cansadas, dolentes. Que digo eu? As palavras parecem-me
todas iguais por estes dias, tudo me parece repetido e entediante, monótono,
fastioso, aborrecido. Sem a vida das ruas, é como se as palavras começassem a
patinar na sua própria história perdendo sentido e significado. A experiência
atribuí-lhes um travo a selvajaria, reforça-as e reanima-as de crueldade, matiza-as
de duplos e triplos e brutos sentidos. Domesticadas, redundam anódinas como
gatos ronronantes em varandas mil e uma vezes varridas ao longo de um dia,
outro dia, mais um dia. Como se não bastasse frecharem-nos em casa, querem-nos
agora de máscara no rosto. Odeio tanto as máscaras como detesto gaivotas.
Quando criança, minha mãe mascarava-me por alturas do carnaval e exigia-me que
eu fosse feliz. Sofria com as gargalhadas burlescas do entrudo como uma criança
sofre quando é castigada no meio da sala de aula. Gerou-se dentro de mim um
nojo a máscaras e um medo de mascarados do qual nunca mais me refiz. Agora
querem que me mascare, dizem que é para meu bem. Tento distrair-me desta paranóia
sanitária, que mete todos a cuidarem de todos, refugiando-me entre o pó dos
livros, mas não consigo ler, a concentração resvala amiúde da página para o
necrológio em que o mundo se transformou. Pego na guitarra e improviso melodias
ao som de trovoadas, os relâmpagos iluminam-me as noites, saio para caminhar
4000 passos, imiscuo-me no vazio das ruas da cidade vislumbrando em plena noite
um indivíduo com óculos escuros a caminhar aos esses, regresso a casa ao som de
“Peer Gynt” e com a preocupação antecipada de higienizar as mãos antes de
voltar a tocar nas minhas filhas. Há dias aproveitámos o dia mundial do beijo
para rever “Cinema Paraíso”, do Giuseppe Tornatore. Quem se recorde da
sequência final perceberá o vínculo, quem a tiver olvidado poderá procurá-la onde
tudo se encontra com a maior das facilidades: na Internet. Só duas coisas não
se encontram na Internet, aromas e texturas com que entreter os mais
sacrificados dos sentidos. Além da sequência dos beijos, há aquela cena do
filme em que Alfredo, já cego, pede a Toto que o leve a passear até ao mar.
Tornatore enquadra o diálogo entre os dois amigos com imagens de âncoras
espalhadas pelo cais. Não são meros adereços, são uma espécie de coro com a
função dramática de nos anunciarem o afastamento de Toto das suas raízes, a
necessidade de se libertar partindo, saindo, deslocando-se na direcção de um
futuro que não obrigue a olhar para trás, sem nostalgia nem a melancolia arrastada
de um saudade tão nossa. Nunca desesperei tanto por momento igual.
BRIAN DENNEHY (1938-2020)
O papel de polícia mau em A Fúria do Herói/First Blood
(1982), o primeiro da saga Rambo, deu-lhe uma visibilidade que ainda não havia
alcançado, apesar da participação em séries icónicas tais como Serpico, M*A*S*H
ou Dallas. Cá por casa lembramo-nos dele, sobretudo, em Silverado (1985),
western de Lawrence Kasdan que procurou, com mérito, recuperar para o género a
popularidade perdida. Filmou muito para televisão, com um porte carismático que
nunca passava despercebido.
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Os mestres e as criaturas novas
terça-feira, 14 de abril de 2020
DIETAS
Esta
noite sonhei que os chineses tinham adoptado a dieta mediterrânica. Como são
para cima de mil milhões de pessoas, os criadores de vacas e de porcos não
tinham mãos a medir. Os mares ficaram sem peixe, os rios sem água potável (ia
toda para a criação de vacas e de porcos e de cabras e de frangos), as zonas de
pastorícia secaram como desertos. Por cá, as escolas de hotelaria tinham
adoptado cursos onde ensinavam a fazer guisado de ratazana e estufado de
morcego. Eram pitéus muito apreciados nos restaurantes com várias estrelas
Michelin. O povo comia cocó. Quando havia.
segunda-feira, 13 de abril de 2020
O LUÍS
A grande discussão do momento: quem empurrou o Luís para
Inglaterra, o PS de Sócrates e de Costa ou a PàF de Passos Coelho e Portas?
Quem tiver interesse nesta discussão ligue já para a linha SNS 24, pois é mui
provável que tenha sido contaminado com o vírus da... nulidade.
domingo, 12 de abril de 2020
NOMENCLATURA
Higienizar, confinamento, seja um agente de saúde
pública, distanciamento social, postigo, obrigatório usar máscara, luvas
descartáveis, novo normal... Todas estas expressões têm uma fortíssima carga
simbólica e sugerem inúmeras possibilidades metafóricas. Eu é que já não posso
ouvi-las, dão-me vómitos, causam-me náuseas. Se não morrer do vírus, talvez
venha a morrer sufocado pelo vómito provocado por esta reconfiguração do
quotidiano. Não deixa de ser irónico, eu que passava a vida a queixar-me do
tédio, da modorra e da pasmaceira da vida tal como ela era, desespero agora
pela retoma dos dias em que sair de casa era só sair de casa.
sexta-feira, 10 de abril de 2020
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #28
Minhas filhas, calhou-nos nascer num país em que a
maioria das pessoas acredita que o universo foi criado em seis dias. Ao sétimo,
o Criador descansou. Depois modelou o homem à sua imagem e semelhança, da
costela do homem fez a mulher, da mulher fez o pecado e do pecado surgiu o arrependimento.
E do arrependimento fez as maldições e os castigos. Minhas filhas, este Deus em
que a maioria das pessoas no nosso país acredita tem, como qualquer Deus, as
suas particularidades. Ele manda o homem obedecer. Em havendo quem prevarique,
ele ordena aos homens obedientes que apliquem sua lei com vergastadas, apedrejamentos,
sacrifícios, guerras, condenações à
morte, destruição, castrações, mutilações, multas, enforcamentos… Deus exige,
Deus revolta-se, Deus é grande e faz-se notar pelo medo: «Não tenhas pena do
culpado. Deve-se exigir vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por
mão, pé por pé».
Minhas filhas, muitas pessoas no país onde por fortuna calhou
nascermos crêem que há coisa de dois mil anos esse Deus teve um filho. Foi
gerado no ventre de uma mulher virgem. Para que fenómeno tão extraordinário não
vos confunda, socorro-me do exemplo de um tal Denis Diderot (1713-1784): «Uma
mulher jovem, que se deitava de ordinário com o seu marido, recebeu um dia a
visita de um jovem acompanhado por um pombo. Após essa visita, a mulher ficou
cheia: e as pessoas perguntavam quem fora, do marido, do jovem ou da ave, que
lhe fizera o filho. Um sacerdote que ali estava disse: «Está provado que foi a
ave».» E o que está provado, provado está. Para mulheres adúlteras, o tal Deus
prevê apedrejamento até à morte. Mas para mulheres engravidadas por pombos ele
não previu nada.
Podeis interrogar-vos sobre o porquê de um Deus perfeito
ter pretendido um filho, ao que deverei responder com toda a honestidade: não
faço a mínima ideia. Sei que depois do filho ter rezado ao pai, isto é, depois
de Deus ter rezado a si mesmo, tornou-se altamente popular entre aqueles que, lavando
as mãos da crucificação, agora o representam na Terra sob a figura de um Papa
eleito por homens, paridos por mulheres, concebidos em pecado. Confusas? Não
desespereis, o enredo vai a meio.
De Jesus, o nazareno, diz-se que veio à Terra
para nos fazer olhar para o Céu. Com o sacrifício de seu próprio filho, Deus
quis dar aos homens um exemplo de fé. Em quê? — perguntais-me. Ora, fé num
Deus todo-poderoso, omnipresente, omnisciente, a quem nem sequer falta um
defeito para que seja perfeito. O defeito é, pois claro, o produto da sua
criação. Deus tem fé em si mesmo e espero que lhe sigamos o exemplo. Citemos
novamente Diderot: «Todos os povos têm desses factos, aos quais, de
maravilhosos que são só falta serem verdadeiros; com os quais se demonstra
tudo, mas sem que sejam eles mesmos provados; que não ousa negar quem não seja
ímpio, nem pode crer quem não seja imbecil».
Não satisfeito com o sacrifício do próprio filho, Deus
ressuscitou-o. Não satisfeito em ressuscitá-lo, Deus concedeu-lhe o poder de se
fazer mostrar em aparições. A ele e à mãe dele. Só Deus não se mostra. Este é,
para mim, o maior dos seus milagres. Mais do que curar cegos e coxos, mais do
que reanimar mortos, o grande milagre do Senhor é a sua eterna invisibilidade.
Ele está lá, mas a gente não o vê. Está na terra manchada de sangue por guerras
e crimes hediondos, está nos terramotos e nos marmotos, está na poluição dos
céus e dos lençóis freáticos e nos plásticos ingeridos por sagradas criaturas,
está nos germes, nas bactérias, nos vermes e nos vírus, está nas pandemias, a
gente é que não o vê. Pois o seu milagre é não se mostrar. Deus está em tudo e
como é lógico de tudo que está em tudo não estar em nada, Deus não está. Aguardemos por uma vacina.
Podemos assim admitir, como o fez Diderot, que «Quando
Deus, de quem recebemos a razão, exige o seu sacrifício, torna-se um manobrador
habilidoso que escamoteia aquilo que deu»; ou que «Se há cem mil condenados por
um que se salva, o diabo está sempre em vantagem, sem ter abandonado o seu
filho à morte». Mas isto são verdades da lógica, a qual não contempla a Deus. A
lógica de Deus é diferente da lógica dos homens e ainda está para aparecer um
Aristóteles que a decifre e disponha numa espécie de “Sagrado Organon”.
De
sagrado resta-nos a “Bíblia”, esse livro onde podeis melhor compreender um
legislador tão perfeito, tão perfeito, que é próprio da sua perfeição abolir-se
a si mesmo mandando amar por temor ao ódio. Não vos maçarei com as parábolas do
Apocalipse, toda uma lógica divina cujos enigmas estão por desvendar. Haja
homem para tanto. Mas gostaria de vos sugerir os “Pensamentos Filosóficos”
(Edições 70, tradução de Miguel Serras Pereira) de Diderot como pórtico para uma
reflexão que terá de ser vossa. Diderot fê-la anonimamente em 1746, temendo as fogueiras dos zeladores do tal Deus sem perdão para quem questione e duvide. Começou por ser deísta, crítico e racional
como fiel discípulo de Descartes. Acabou ateu, sepultado no Panteão de Paris ao
lado de outros tementes a Deus.
quinta-feira, 9 de abril de 2020
BOLETIM METEOROLÓGICO
Com o país paralisado e a bandeira da cultura à meia-haste,
ninguém leva a mal que as pequenas, micro e médias editoras de livros, mormente
de poesia, roguem aos céus por milagres pelo menos tão promissores como foi o
da ressurreição. Em nome do pai, que os leitores se multiplicassem; em nome do
filho, que não fechassem portas as poucas livrarias onde é possível meter
livros sem submetê-los à agiotagem de distribuidores gananciosos; em nome do
espírito santo, que dos livros que fossem sendo vendidos se recebesse algum
como garantia de que outros pudessem ser publicados. No paraíso cada pessoa
poderia viver do seu trabalho sem ter de se submeter à servidão pragmática de
extras. Longe de havermos lá chegado, e parecendo-nos cada vez mais distante por
nas lamas do inferno continuarmos a patinar, ainda por cima rodeados de
intervenientes que se divertem com a inumação, resta-nos purgar as mãos e
garantir dois metros de distanciamento social na esperança de que em não podendo
viver a respirar nos livremos de morrer com falta de ar. Por lavar as mãos
entendamos, neste contexto algo parabólico, cumprir o nosso pequeno papel de
leitores a quem os livros vão chegando por obra e graça do divino espírito santo.
Eis que nos chega o “Boletim Meteorológico” (volta d’mar, Março de 2020)
de Sandra Costa, autora que “Sob a luz do mar” (Campo das Letras, 2002)
descobrimos num tempo já distante e à qual regressámos, mais recentemente, por
culpa de um “Untitled” (volta d’mar, Dezembro de 2017) de boa memória.
Apoiando-se numa terminologia meteorológica, a autora adopta agora uma coloquialidade
que não é das suas marcas mais reconhecíveis, mantendo-se fiel, no entanto,
à tematização da lírica amorosa que já lhe conhecemos de outras paragens. Neste
sentido, o último poema, intitulado “Amanhã é o primeiro dia de Inverno”, é
talvez o mais revelador da comparência de um destinatário cuja ausência ou
distância contribui para a conjugação da romantização do amor com a
contemplação do mar.
Desde a primeira hora marca fortíssima desta poesia, o mar
— «elemento que é tão meu» (p. 15) — é o recurso paisagístico que atravessa quatro
estações de poemas onde se mede a temperatura às emoções reflectindo estados de
isolamento, distanciamento, ausência, solidão: «Em matéria de amor, / o que
conta é o que consinto que permaneça / nos olhos, mesmo quando destruo todos /
os versos que te escrevo» (p. 10). O objecto amoroso surge, desta forma, enquadrado
num ambiente contemplativo onde sobressaem um corpo frio — «A previsão
descritiva confirma que o frio / que sinto é real e não o resultado de qualquer
/ avaria técnica do meu corpo, tão desprovido / da seiva que só existe nos
amores correspondidos» (p. 11) —, umas mãos geladas, apesar de ser Agosto, uma intimidade em dessintonia com a impetuosidade geralmente conferida à lírica
amorosa: «Em desacerto com a chuva, que ora é íntima e / me desnuda ora é
distância e me reveste de sede, / entregue ao frio que só o estado sólido da
realidade / não poética consegue provocar, dilacerado por / relâmpagos que
iluminam e apagam confidências / em milésimos de segundos como se essa fosse a
/ duração da eternidade, assim existe e se demora / em mim o único lugar
possível onde ainda te / procuro, como um beijo» (p. 24).
“Boletim
Meteorológico” é um pequeno conjunto de poemas de uma autora no domínio pleno
da sua arte, consciente do tratamento a dar a temas que, sendo clássicos e lhe
sendo caros, podem assumir novas configurações, conquanto quem os recupere
saiba respeitá-los fazendo coincidir os mesmos com a cadência de uma respiração
singular: «Céu geralmente nublado, com períodos / de chuva e, na costa
ocidental, ondas de noroeste / com dois a três metros. A previsão do estado do
/ tempo a coincidir com o estado de tumulto, encolho / os ombros se lhe chamas
delírio, em que se está a / transformar o ritmo destes versos, sempre / a coincidir
com a cadência da minha respiração» (p. 15).
quarta-feira, 8 de abril de 2020
CAIR
Uma vez o Fidel caiu de um palco. Houve muita gente a
gozar. Por ser comunista, de nada me valeu dizer que só via um homem velho a
cair. Agora vejo por aí muita gente entretida com as vítimas de covid-19 que
negligenciaram a gravidade do problema. Não participarei da festa, continuo a
só ver velhos a cair.
terça-feira, 7 de abril de 2020
MUGIDO
Doutora em Antropologia Social, Marília Floôr Kosby (n.
1984) nasceu em Arroio Grande, um dos pontos mais a sul do Brasil, na fronteira
com o Uruguai. “Mugido (ou diários de uma doula)” (Douda Correria, Junho de
2019) é um livro imperdível. No final, em conversa com a poeta Angélica
Freitas, a autora revela um pouco do seu singular universo. Afastada do frenesi
das grandes cidades, esta é uma poesia do mundo rural que nada tem a partilhar
que possa dizer-se bucólico ou idílico. O mundo rural nos poemas de Marília
Floôr Kosby é como é, violento, cruel, agressivo, sobrando da proximidade entre o homem
e a natureza uma relação de poder e exploração que nada tem que ver com a
pose contemplativa de diversa poesia arreigada às raízes campesinas. A
misoginia em ambiente rural é um dos temas centrais deste livro, explorado através
de uma arriscada conotação da mulher com o gado. Diz a autora: «Aqui cabe dizer
que quando falo do mundo campeiro, de estâncias e campanha, coloco-me como uma
mulher branca em cuja família estiveram os patrões». E continua: «Vi que essa
vida junto aos animais de criação me constituía, era parte de mim, era uma
referência muito forte para o meu jeito de estar no mundo e que as mulheres
existem nesse mundo para além de como “las intrusas”». A relação com os animais
surge tingida pelo sangue das caçadas e das matanças, por uma carnificina
onde os esquemas de criação e de reprodução esvaziam de qualquer eroticidade a
sexualidade em estado bruto retratada nos poemas. “Mugido” impressiona pela
violência da linguagem associada a um campo expurgado de emotividade. Em vez de
procurar traduzir o canto dos passarinhos, a autora busca o mugido das
vacas. Fica um exemplo desse trabalho:
os ruminantes devem ter uns quatro estômagos
tudo que eles engolem vida afora volta
eu não sei
quantas vezes!
e uma língua só
uma boca só
um cu apenas
mas o escroto de um ruminante
não se rompe assim no más
é muito mais forte que os demais
o saco desses animais
não cai assim
no más
por isso é possível capar os machos ruminantes
pelos mais diversos e experimentais métodos de
emasculação:
empurrar as bolas de volta para dentro da cavidade
abdominal
danificar o canal espermático com emasculador sem
machucar a
pele do prepúcio
destruir as bolas a marretadas
sangrar não é preciso
tristes toscas engenhosas mandíbulas
as dos ruminantes
como será estar nessa vida
se vendo abortar
o vômito
segunda-feira, 6 de abril de 2020
VAI FICAR TUDO BEM
Vai ficar tudo bem, o mundo nunca mais será o mesmo. A
fome no mundo acabará, os países com produções excedentárias distribuirão os
excedentes pelos países necessitados. Serão implementados nestes países
programas de desenvolvimento nas áreas da educação, saúde e economia. O
trabalho infantil será de uma vez por todas banido da Terra, assim como o
tráfico de seres humanos. Os movimentos terroristas irão depor armas, em prol
de sociedades democráticas onde as mulheres e os homens tenham direitos iguais,
os homossexuais não sejam discriminados e nenhum culto religioso se julgue superior aos demais. As grandes potências reunirão esforços no sentido
de resolverem a crise de refugiados no mundo, cessando conflitos, restaurando a
paz nos países em guerra e fomentando programas de reconstrução de
infraestruturas arruinadas. A humanidade reencontrar-se-à com a Natureza,
protegendo florestas e os habitats das espécies em vias de extinção. Serão
banidas todas as formas de turismo que impliquem a exploração e o extermínio de
outros seres sensíveis, nomeadamente o turismo sexual infantil e os safaris
para caça grossa. As pessoas deixarão de ser vaidosas, pelo que o ouro e os
diamantes perderão qualquer valor. Serão olhados como pedregulhos iguais aos
outros. Ao pescoço, nos dedos e nas orelhas das pessoas muito ricas veremos
apenas jóias feitas de materiais recicláveis. Tal como a fome, a obesidade será
erradicada do mundo. As nações abdicarão igualmente de grande parte das suas forças
militares, prescindindo de investimentos astronómicos em armamento, tecnologia
de guerra e serviços de espionagem. Todo esse dinheiro será canalizado para a
construção de hospitais, para a investigação científica nas áreas da saúde,
microbiologia, química, física e afins. As ciências humanas voltarão a ser
respeitadas, a cultura será revalorizada como parte integrante do
desenvolvimento humano. As pessoas ocuparão muito mais tempo a ler, a estudar e
a instruir-se com filmes, peças de teatro, óperas, concertos do que
com fake news propagadas nas redes sociais. Estas, de resto, tenderão a
desaparecer, dado o ridículo da sua natureza intrínseca. O mundo nunca mais
será o mesmo, vai ficar tudo bem. A Cristina Ferreira voltará a vender
hortaliças na praça e o Sporting será novamente campeão.
domingo, 5 de abril de 2020
HÄNDEL
Ao ouvir Georg Friedrich Händel ocorreu-me a
possibilidade de estar a escutar música escrita por um eunuco. Deu para
perceber que é um tecnicista, espécie de Satriani do Barroco. Não gosto de
perfeccionistas, deixam-me a sensação de terem passado ao lado da vida. Por
outro lado, o que é a vida? Um aglomerado de experiências e de projectos
inacabados ou o mergulho a pique dos especialistas? Consigo admirar tanto
algumas pessoas que denotam um vasto conhecimento de uma única matéria como as
que sabem um pouco de tudo sem conhecerem nada a fundo. Por quem não tenho
admiração alguma é pelos preconceituosos e pelos patetas que se julgam mais
espertos do que os outros, menosprezando o saber de cada um. Seja ele
superficial ou profundo. Enfim, não gosto nada da música de Händel.
sábado, 4 de abril de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #8
Entre as diversas ocupações que podemos desenvolver
durante a quarentena, contar grãos de sacos de arroz é uma delas. Ler todos os
volumes de “Em busca do tempo perdido” será outra. Eu fico-me por tentar
responder a um questionário de Proust. Eis o resultado:
Qual é a sua ideia de felicidade plena?
Um sono descansado, profundo, silencioso.
Qual é o seu maior medo?
Perder um filho.
Qual é a característica que mais detesta em si mesmo?
Insegurança.
Qual é a característica que mais detesta nos outros?
Soberba.
Que pessoa viva mais admira?
Admiro predicados, não admiro sujeitos.
Qual é a sua maior extravagância?
Banhos demorados. Muito demorados.
Qual é o seu estado de espírito mental?
Pessimismo da razão, optimismo da vontade. Respiguei-o no exemplo de vida de um
indivíduo que tinha tudo para ser apenas pessimista: Antonio Gramsci.
Qual considera ser a virtude mais sobrestimada?
A coragem.
Em que ocasiões mente?
Quem conta um conto acrescenta um ponto.
O que menos gosta na sua aparência?
Penugem por todo o lado.
Que pessoa viva mais despreza?
Todas as pessoas que desprezem pessoas.
Qual a característica que mais aprecia nos homens?
A rectidão.
Qual a característica que mais aprecia em mulheres?
Esfericidade.
Que palavras ou frases usa excessivamente?
Estou farto desta merda toda.
O quê ou quem é o maior amor da sua vida?
Isso não é pergunta que se faça a um homem.
Onde e quando foi mais feliz?
Sempre que consegui sair de mim mesmo. Dormindo profundamente, por exemplo.
Que talento mais gostaria de ter?
Funambulismo.
Se pudesse mudar uma característica em si, o que seria?
Mudaria a minha total inaptidão para ganhar dinheiro.
Qual considera ser a sua maior conquista?
Sou um falhado, pá, nunca conquistei nada na vida.
Se morresse e voltasse, que pessoa ou coisa seria?
Seria uma coisa a modos que ociosa. Ou um piano nas mãos de Khatia
Buniatishvili.
O que mais valoriza nos seus amigos?
A amizade.
Quem são os seus artistas favoritos?
Os de circo.
Quem é o seu herói da ficção?
O homem que matou Liberty Valance.
Com que figura histórica mais se identifica?
Com o Adriano da Yourcenar, que a certa altura diz: «O nosso grande erro é
querer encontrar em cada um, em especial, as virtudes que ele não tem e
desinteressarmo-nos de cultivar as que ele possui.»
Quem são os seus heróis da vida real?
Todos aqueles que aprendem a dar sem necessidade de cobrar ou de receber pelo
que deram.
Quais são os seus nomes favoritos?
Os das operações policiais.
Do quê é que menos gosta?
De que me tomem por parvo quando na realidade o sou sem sequer se aperceberem
que tendo consciência de que sou parvo sei bem quando me estão a tomar por
parvo.
Qual é a sua aversão de estimação?
Gente racista, machista, homofóbica.
Qual é o seu maior arrependimento?
Não ter aceitado participar num seminário de línguas mortas quando era
estudante de filosofia. E ter sofrido sempre por antecipação.
Como gostaria de morrer?
Todo fodido, de preferência. Dizia o Al Berto, e eu concordo: «sei que darei ao
meu corpo os prazeres que ele me exigir. vou usá-lo, desgastá-lo até ao limite
suportável, para que a morte nada encontre de mim quando vier».
Qual é o seu lema de vida?
«A vida não é maneira de tratar um animal», dizia o Kurt Vonnegut e eu
concordo.
Qual considera ser o seu maior infortúnio?
Ora porra, ter nascido. Para a minha mãe foi mais difícil.
Como gostaria de ser?
Como o homem da harmónica no duelo final.
Qual é a sua asneira favorita?
Foda-se.
Onde gostaria mais de viver?
Fora de mim.
Qual é o bem mais valioso que tem?
Como a família não tem valor, direi que é um terceiro andar junto ao bairro dos
ciganos em Caldas da Rainha.
Qual considera ser a maior profundidade da miséria?
Ó Proust, meu burguês, que pergunta de merda é esta?
Qual é a sua ocupação favorita?
Ouvir música.
Qual é a sua característica mais assinalável?
De mim já disseram que sou besta, lombriga, água-choca, brutinho, sabujo,
verme, resto de restos, caçador frustrado, ténia, etc. Dentre todas estas
características, prefiro a de verme. Tem inspirado muitos e (alguns) bons
poemas.
Se Deus existisse, o que gostaria que ele lhe dissesse?
Tu vai dormir, pá.
quinta-feira, 2 de abril de 2020
LAVAR
Esta noite sonhei que o papel higiénico era um agente
transmissor do vírus. As televisões actualizaram de imediato os spots em que
nos ensinam a lavar as mãos, acrescentando-lhes várias técnicas de como lavar o
cu.
quarta-feira, 1 de abril de 2020
DIÁRIO DA QUARENTENA #7
Fui despertado pelo vento a roçar-se nos estores. Ontem,
enquanto fumava um cigarro na varanda e contava as peças de roupa no estendal
da vizinha do prédio direito, pressenti o temporal numa nuvem negra que se
avistava ao largo. Pode ser que a trovoada anuncie boas notícias. Duvido. Têm
estado umas manhãs maravilhosas em Caldas da Rainha, fenómeno raríssimo na mais
britânica das regiões portuguesas. Quase me apetece apostar que choverá a
cântaros quando derem a clausura por concluída e nos carimbarem o direito a pôr
os pés fora de casa sem prestar contas ao divino Espírito Santo. Talvez devesse
apostar. Com a sorte que tenho, perderia a aposta mas ganharia uma épica
libertação tingida de sol, luz e ar puro.
Escrevo ao som de Ravel, não do "Bolero" mas da "Tzigane". Grande malha. Aproveito as horas mortas para redescobrir
os discos de música clássica cá de casa, ao mesmo tempo que reviro as estantes abarrotadas
e dou com inúmeros livros por ler. Salto de livro em livro sem prosseguir na leitura,
prática que nunca tive e de algum modo me repugna. É como deixar comida no
prato, um desperdício, um insulto aos subnutridos deste mundo. A excepção foi “A
Mulher do Meio”, de Ivone Mendes da Silva.
Não sei se há boas e más conjugações
astrais para lermos determinado livro, mas parece-me existir algo de
misantrópico neste período da nossa história colectiva que acaba por favorecer
os gestos simples e solitários de resistência ao desencanto com que as entradas
d’”A Mulher do Meio” nos brindam. A Ivone escreve sem vírgulas, a escrita flui
naturalmente, as gralhas e os lapsos conferem aos seus aforismos diarísticos
uma sedutora autenticidade. Traçamos o perfil de quem nos escreve à medida que
avançamos, sem que tal seja particularmente relevante para que desejemos
continuar a avançar. Professora, divorciada, mãe, voluntariamente isolada no
seu mundo doméstico temperado a chá, socialmente distante: «Construo a
distância e com ela me protejo» (p. 13), «Trato a distância como um tesouro
frágil. Protejo-me dos encontros e do ruído» (p. 53). A actualidade de
«distanciamento social» politicamente infligido oferece uma ironia profética a algumas entradas :
«Tenho a paciente ambição de um dia conseguir fechar-me em
casa com curtas saídas bem espaçadas apenas para me abastecer de mantimentos e
café. Também chá. Mas talvez aí eu sinta falta dos caminhos como senti hoje que
não os procurei. Viver retirada afigura-se-me o que de melhor posso esperar da
vida. Choveu durante a tarde mas depois abriu e o céu anoiteceu rosado. Pensei
que poderia ainda ir caminhar mas recuei. Sentei-me junto à janela aberta e lá
em baixo na avenida cheirava à folhagem das tílias. Ou eu o imaginava» (Língua
Morta, Maio de 2019, p. 106).
Inofensivos, estes textos omitem quanto de
desconforto há do ser para consigo mesmo. Tal refreamento é uma vantagem para o leitor. À distância, “a mulher do meio” caminha,
cumprimenta, observa os outros, conservando-se igualmente distante para com quem partilha a lassidão quotidiana. Está entre qualquer coisa que se revela sem se confessar e qualquer coisa que se partilha sem se expor. Quando a Matilde
terminar “Os Maias” hei-de emprestar-lhe “A Mulher do Meio”.
As miúdas saíram para uma caminhada breve, como ordenam os regulamentos. Ainda não haviam passado dez
minutos, estavam de regresso. Uma sacristã mais papista do que o papa, devidamente
ajaezada na sua farda de PSP, remeteu-as ao lar com o argumento de que não
entendiam a gravidade da situação. Metidas num apartamento há três semanas, as
pobres coitadas devem ter ficado traumatizadas. O conceito de passeio higiénico
adquiriu todo um novo significado com o excesso de zelo da senhora agente: é uma espécie de banho de água fria, rápido e altamente desconfortável.
À noite
revimos “O Piano”, outra história dramática com final feliz para educação
sentimental de reclusos em desespero. Continuo a gostar da banda sonora do
Michael Nyman, mas o que mais me impressionou desta vez foi a interpretação de Holly Hunter. O que será feito dela? Depois de “Crash” perdi-lhe o rastro.
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