sexta-feira, 31 de julho de 2020

PORTUGAL SIMPLEX


Portugal simplex: Alunos apanhados a ver pornografia nos computadores Magalhães. (2009) Teste com drone português fracassa e vídeo vira piada na web. (2014) Milagre do Citius: não há processos pendentes em Portugal. (2014) SIRESP tem falhas inaceitáveis numa rede de emergência e segurança. (2018) Ventilador Atena: “A segurança do doente pode estar em causa” (2020). É fácil, é barato, dá milhões.

[FODIDOS E RESIGNADOS]


Resignação é haver proletariado
sem ditadura e o socialismo
na gaveta dos administradores
dos bancos que emprestam o dinheiro
do estrangulamento futuro dos teus filhos
que maltratam os filhos dos outros
e os dos outros os teus em directo na tv
que é para parecer liberdade
e democracia que é aquela coisa
misturada com sangue coalhado
a feder na imensa vala comum
do "não me venhas dizer
que preferias o fascismo e a ditadura?"
preferir por preferir prefiro
um longo pano negro
a tapar a vergonha de ser
deste país de homens e de mulheres
forrados a pele de "antes assim que"
rotinados republicanos laicos e socialistas
empanturrados d'hinos e bandeiras menstruadas
a disfarçar o medo
e a fingir o futuro
fodidos
todos.

Houve aqui alguém que se enganou?
Naturalmente.

A veia aberta da revolução
entulhada com dez milhões
de telemóveis.

Revolução a vir? Claro:
McDonald's ou Morte!


Ilustração de Pedro Zamith, poema de Carlos Alberto Machado, in 40 X Abril, vários autores, Abysmo, Maio de 2014, p. 40. 

quarta-feira, 29 de julho de 2020

UM POEMA DE ANTÓNIO OSÓRIO


O REGRESSO

Regressado da morte
procurava o calor das fogueiras,
o cheiro lêvedo do pão,
o passo dos cegos na rua,
o ninho ancorado à varanda
com o seu frágil, suspenso
voo de barro, as grandes rugas
das casas que envelhecem.

À terra mate do arroz
ia ver se as mulheres eram humilhadas.
E tocava na ponta das espigas
para saber se os homens eram humilhados.

Oh alegria
de tocar na própria carne,
no rosto que vira inquietante crescer.

Nem que fosse um instante,
seguia o rasto ido do futuro
e sonhava ser aquilo que não fui:
o Inca clandestino, a coberta das árvores
depois das últimas chuvas do Outono,
antiquário de raízes, fósseis, destruições,
o cúmplice dos que se amam, dos que confiam,
dos que lutam pelo homem, ou nuvem
que de outras nuvens se aproxima,
rio que noutros rios deita a sua água,
pai exangue ou filho de tudo quanto existe.

António Osório, in A Raiz Afectuosa, edição do autor, Abril de 1972, pp. 78-79.

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #29


Não sei, minhas filhas, o que viver bem possa ser. Suponho que para morrer bem devíamos todos morrer a dormir. Mas viver bem, como pode alguém saber qual a melhor forma de viver? Não se vive senão vivendo-se, e a vida cumpre-se diariamente com seus humores, suas comédias e suas tragédias, seus dissabores e suas aventuras. Por vezes, num só dia, numa só ida, são tantas as emoções vividas, e tantas e tão acentuadas as curvas no electrocardiograma, que 24 horas nos parecem a vida inteira. E talvez a vida não seja senão esse intervalo entre o sol surgir a oriente e desaparecer a ocidente, com o céu ora limpo, ora atravessado de nuvens finas, ora estrelado, ora ocultado por um véu de névoa. Passa num instante, que por vezes olhamos para nós e é como se estivéssemos a ver estrelas mortas luzindo num céu escuro como breu. Bem sei, minhas queridas, que não gostais de falar da morte. Como não aceitar tamanha repulsa, tanta a vida que tendes pela frente? Mas talvez por isso mesmo convenha falar-vos do mais angustiante dos temas. Muita gente passa a vida a fugir da morte e é como se já estivesse morta, há pessoas que optam por fugir da vida e é como se nunca tivessem estado vivas. De um modo ou de outro, talvez seja justo reconhecermos que a vida é em todos uma fuga. Uns fogem dos medos que os perseguem, outros fogem do tédio que os aprisiona, há quem fuja de uma infância traumatizante e quem se veja obrigado a fugir de um presente ameaçador. Talvez seja esta a essência de viver, uma fuga constante de algo que nos persegue e ameaça. Se assim for, não será tão triste que desperdicemos a vida fugindo do que mais temos por certo? E que mais certo haverá na vida do que a morte? Daí que me pareça apaziguador, embora a princípio reconheça que talvez vos possa parecer tormentoso, abraçar o absurdo da vida aceitando a inevitabilidade da morte. São terríveis as coisas que se fazem em nome da perpetuação de um nome, são terríveis e criminosas as coisas que se fazem em nome de um elixir da eternidade que mais não é do que a memória afagando o esquecimento. Tomai pois de exemplo este homem de nome Gesuniala que, certa manhã, resolveu deixar de fugir, optando por simplesmente sentar-se à espera da morte. E que viu ele enquanto esperava? Viu a vida inteira passar-lhe à frente como quem assiste a um filme e vê correr, fotograma a fotograma, todas as tragédias e conquistas da humanidade. Esperar, em vez de fugir, também é um modo de viver. Tem as suas consequências, é certo, tem o seu preço, pois ninguém compreende aquele que espera. Como pode aquele que foge compreender quem espera? Neste livro que agora vos entrego, “A Morte Lenta” não é lenta por ser dolorosa como amargurada é a doença. A lentidão é a indiferença com que a morte brinda quem dela aprendeu a não fugir. Talvez o velho Gesuniala que o escritor Saguenail (n. 1955) imaginou prefira esperar pela morte a arrastar-se na inutilidade de uma vida de trabalhos e de afazeres, uma vida desperdiçada com deveres e obrigações cujo fim último será distrair-nos de que há um termo para tudo. Talvez naquele esperar descanse a liberdade que escapa tanto ao escravo inquieto como ao senhor desassossegado, já que pela espera se supera a dialéctica que opõe quem manda e quem é mandado. Eis uma opção de vida que não merece censura: «Mas uma dúvida profunda atormenta Gesuniala. Eu que pensava não ter mais nada a ver nesta vida, dou comigo a apreciar este atraso da morte, este adiamento que ela me concede. Viver, será, no fundo, tão-só esperar?» Gesuniala é o homem que transcende o colectivo, que está para lá de um projecto social, é em si mesmo a negação desses projectos colectivos que se alimentam das fugas individuais. Num mundo em que todos esperássemos, minhas filhas, acabava-se a produção e, acabando-se esta, desapareceria a avidez, pelo que muitas vezes ides ouvir ao longo da vida gente horrível que vos dirá não gostar de esperar ou de ficar à espera. Quem espera, desespera. Mas se desespera, não é tanto porque espera mas porque anseia fugir. Gesuniala é uma espécie de monge abnegado que não se fundamenta na renúncia nem na indiferença, mas apenas e tão-somente na entrega a uma espera que só o nada pretende alcançar:

Gesuniala espera. O desespero de sobreviver não lhe permite adormecer. Depois de dar voltas e mais voltas sobre o seu tapete, desiste de dormir. Levanta os olhos e contempla as estrelas. É uma noite sem lua e elas brilham ainda mais, incrivelmente próximas, varando os olhos. Gesuniala estende a mão; bastariam umas polegadas para ele conseguir agarrá-las. Que paz! Que indiferença! As estrelas não se preocupam nada com as nossas guerras. Observam a terra e provavelmente só vêem um grão de poeira, um berlinde liso, uma ágata iriada lançada no espaço. Como poderiam elas conceber a nossa existência? E ainda menos as nossas triviais e mesquinhas preocupações. Cintilam mas evitam iluminar as nossas devastações. Debaixo de um céu assim, parece que estamos na estação dos amores, no tempo das cerejas e dos desejos. Nesse instante do seu devaneio, Gesuniala vê uma estrela cadente riscar a noite. Infelizmente já não tenho nenhum desejo a formular. As cerejeiras arderam e já não há apaixonados para te dirigirem pedidos. E no entanto Genusiala sente o coração a jubilar sem motivo. Espera pela próxima estrela cadente, excitado como uma criança. Fita tão intensamente o céu estrelado que sente os astros a incrustarem-se nas suas retinas. Quando o horizonte começa a clarear, Gesuniala vê sem tristeza as estrelas apagarem-se. Colheu nelas luz suficiente e quando pousa na planície desolada, o seu olhar espalha paz.

Saguenail, in A Morte Lenta, traduzido por Regina Guimarães, com ilustrações de João Alves, Douda Correria, Dezembro de 2018, s/p.

terça-feira, 28 de julho de 2020

UM POEMA DE RUY CINATTI



RACISMO

1957

Meu Deus, Deus meu,
Um Cristo preto!
Não pode ser!

1974

Deus meu, meu Deus!
Os meus filhinhos
— agora homens 
querem-Lhe tanto!

(Lembremos a primeira data para comemorar a estreia no Tivoli do Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, espectáculo notável repassado de cristianíssimo espírito, mas tão mal compreendido por muita piedosa gente — bem pensante... — que se fez eco, não o tendo convivido — ainda por cima — do mais odioso partidarismo sacristático, não sei bem porquê... A alguma dessa gente, minha conhecida — e a que me ligam ainda estreitos laços de responsável amizade — ouvi eu comentários que abrangendo condenatoriamente o meu entusiasmo, se sublinhavam de incrível conselheirismo, e do mais visceral racismo cultural. «Não é tanto por nós — afirmavam — mas um espectáculo desses pode induzir em erro os nossos filhos.» Assim aconteceu numa das «abadias» do catolicismo «fino» lisboeta, Sic transit, a segunda data — para escarmento dessa piedosa gente! Crredo! Uma pessoa já não pode ser sincera!

3/6/74

Ruy Cinatti, do livro O A Fazer, Faz-se, 1974, in Obra Poética — Volume I, prefácio de Joana Matos Frias, Assírio & Alvim, Outubro de 2016, p. 1082.



BRUNO CANDÉ


   Não há tema que me deprima mais do que o racismo, dá-me vontade de sair de casa e desatar a matar pessoas. Eu, que se tivesse uma arma de fogo em casa, já me tinha suicidado 100 vezes, fico com vontade de matar pessoas, pessoas que dizem ser mais pessoa do que outras pessoas, pessoas que julgam ser mais pessoa do que outras pessoas por causa da cor da pele.
   Quando era professor, fazia regularmente um exercício com os meus alunos. Vou trocar as personagens:

   Imagina que vives num prédio com três andares e certo dia tens de pedir a um vizinho que tome conta da tua filha menor por uma tarde. No rés do chão direito vive uma família cigana, no esquerdo vive um padre. No primeiro esquerdo vive um rapaz de 21 anos que trabalha no apoio ao cliente numa empresa conhecida. Ao lado vive um casal discreto. No segundo esquerdo vives tu, tendo como vizinhos, no lado direito, uma mulher de 30 anos com os seus 4 filhos. Por cima de ti vive um piloto de aviões e ao lado, no terceiro direito, um senhor embaixador. A pergunta é: a quem pedias que tomasse conta da tua filha?
   Ninguém escolhia a família cigana, sendo vários os que optavam pelo padre sem saberem que se tratava do padre Luís Mendes, condenado a 10 anos de prisão por 19 crimes de abuso sexual de menores. Outros escolhiam a vizinha do segundo direito, Brittany Tucker, uma norte-americana que se suicidou depois de assassinar os 4 filhos e uma vizinha. O rapaz de 21 anos é Anders Behring Breivik, o casal discreto é Pedro Dias e a mulher, o piloto de aviões é Andreas Lubitz e o embaixador, ao cuidado de quem alguns alunos deixariam os seus filhos, é Jorge Ritto. Era muito provável que, por causa de preconceitos estúpidos que nos toldam inúmeras decisões, a nossa pobre criança se queixasse de dores quando regressasse aos nossos braços.

   Racismo é mais ou menos isto, condenar o outro ao sofrimento por sermos incapazes de olhar uns para os outros com empatia. É uma palavra bonita, procurem o seu significado. E apliquem na vida, porque não tarda muito estarão todos mortos. Se é que não estão já.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

VÍRUS PORTUGUÊS


Corrupção endémica, incêndios epidémicos, racismo pandémico, sinistralidade rodoviária sistémica, violência doméstica covídica. Quitéria adora Portugal, esse país que recebe tão bem os ingleses e confina ainda melhor os ciganos.

QUASE HAIKU



jaz morto
o insecto na corola
zonza de perfume

27/Julho/2020

domingo, 26 de julho de 2020

CÚMPLICES


Parafraseando o Chicão: "Portugal não é um país racista." Parafraseando Rui Rio: "Não há racismo na sociedade portuguesa." Parafraseando André Ventura: "Racismo é um fantasma que não existe." O raçudo lusitano que executou este preto disse à sua vítima o mesmo que Ventura disse a Joacine: "vai para a tua terra." Lá (USA, Brasil, etc) como cá, alguns políticos eximem-se de responsabilidades negando relações de causa-efeito entre o que dizem, o exemplo que dão e o que acontece à sua volta. No fundo, negam o principal trunfo do exercício político que é poder influenciar atitudes e comportamentos através da palavra, do discurso, da retórica. Sim, as palavras têm consequências. Sim, as palavras influenciam. Há muita gente que anda a brincar com o fogo ao brincar com as palavras quando o tema é o racismo. Esta é uma das consequências. Não venham agora com paninhos quentes dizer "lamentável", "são coisas que acontecem", "investigue-se". Já toda a gente percebeu que um problema existe, excepto aqueles que insistem em negar o problema contribuindo com essa negação para que ele se agrave. Isto não é uma rixa de delinquentes na praia de Carcavelos, isto é racismo puro e duro. Tal como foi racismo o assassinato de Alcindo Monteiro por um escarro de gente que RTP e TVI exibem impunemente nos seus programas familiares. Há racismo em Portugal. Negá-lo é em si mesmo ser cúmplice com ele.

FRUGAIS


Desde que o comércio reabriu, Quitéria entra em todas as lojas. Diz que poupa muito em álcool gel.

DISTANCIAMENTO SOCIAL


Fui à Nazaré averiguar como estamos de distanciamento social. À excepção da Feira do Livro, onde aproveitei para fazer umas comprinhas, não vi covid-19 em lado nenhum. A marginal estava repleta de comunistas nos treinos para a Festa do Avante e a praia, apesar do vento, foi ocupada por gente preocupada com o 1 de Maio de 2021. São Martinho do Porto, que é mais maneirinho, também está transformado num viveiro de comunas. Que saudades dos tempos do Prado Coelho, do La Féria e da Brito e Cunha, que por ali veraneavam precavendo distâncias. Não tirei fotografias para não chocar católicos, mas trouxe da Nazaré este conjunto de retratos de uma exposição antropoetnográfica sobre o mundo actual em particular e o nosso país em geral.






sábado, 25 de julho de 2020

UM POEMA DE GEORG TRAKL


OS RATOS

No pátio, aparece, branco, o luar outonal.
Da borda do telhado caem sombras fantásticas.
Um silêncio habita as janelas vazias;
Sem barulho, aí aparecem os ratos.

E escapam-se, chiando, aqui e ali,
E o odor horrível das latrinas,
Que se evola atrás deles,
O luar fá-lo estremecer fantasmagoricamente.

E eles chiam loucos de uma ganância ávida
E enchem a casa e os celeiros
Cheios de cereais e de fruta.
Ventos gelados lamentam-se na escuridão.


Georg Trakl, in Poemas, tradução e prefácio de António de Castro Caeiro, Abysmo, Abril de 2019, p. 87.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

ESTREMOZ



É uma das imagens do ano, para juntar à do anúncio da "champions". Lá está Berardo, ao lado do actual presidente da câmara de Estremoz, inspector das finanças de profissão. Todos de mascarilha, como os irmãos Metralha. Todos homens, todos de perna aberta. Um deles nem tirou o panamá, talvez para ficar mais disfarçado. A câmara de Estremoz foi conquistada por um desses movimentos cívicos de malta que não gosta dos políticos nem dos partidos nem do sistema, uma cambada de corruptos. Este país é uma anedota, do povinho ao Presidente da República o melhor que temos é mesmo os passarinhos a cantar com o rabinho a dar a dar.

É A CULTURA BRONCA!



Há muito que deixei de comprar jornais. Fui leitor de O Independente e do (lembram-se?), guardo todos os números do segundo e inúmeras páginas do primeiro (poemas do João Miguel Fernandes Jorge, críticas do Joaquim Manuel Magalhães, suplementos vários...). Fui comprador do Público às sextas e do Expresso aos sábados, tenho um arquivo de recortes. Depois chateei-me, deixei de comprar, perdi a curiosidade. Já lá vão uns 15 anos. Visito diariamente a página do Público, mas nunca espreito a cultura. Só me aventuro quando sou enviado por partilhas de "amigos" no Facebook. A razão do desinteresse tem várias explicações, uma delas fica explícita na chamada que aqui se partilha. É este discurso, esta mentalidade tacanha, este servicinho indisfarçável. O que é que a Matilde voltou a ganhar? As olimpíadas de jogos florais? Os 400 metros medley? O euromilhões? Uma raspadinha? A eleição de miss lusofonia? Pobre Matilde, a gente fica logo sem vontade de a ler. E ela não tem culpa, que faz pela vida como os outros. Mas se é para maratonas, prefiro regressar aos vencidos da vida. Com estes nada tenho a perder. Resta saber como irá António Guerreiro lidar com as 8 é para repetir, 8 páginas dedicadas ao novo livro da Matilde Campilho. O que pensará ele sobre o assunto?

quinta-feira, 23 de julho de 2020

ROSTO DE PORTUGAL




Este é o rosto de Portugal. Reapareceu ontem, com uma catrefa de jornalistas atrás. Se calhar ainda lhes ofereceu um bom vinho na vernissage aonde o apanharam, mais uma vez, a insultar o Estado. Este é o rosto dos portugueses, o chico-esperto que só fez o que a lei lhe permitia fazer. Os portugueses admiram os sabichões que lesam o Estado, desde que não sejam ciganos, porque os portugueses não pensam no Estado como sendo uma designação genérica para "todos nós". O Estado é um grupo de malfeitores que nos vai ao bolso, pelo que haver quem lhe vá ao bolso é deveras admirável. As pessoas não gostam de pagar impostos, acham uma injustiça o que se paga de impostos, mas exigem um SNS em condições e uma escola pública competente e uma administração interna eficaz e muitas outras coisas que cabe ao Estado garantir já que estamos a pagar ao Estado com os nossos impostos. Depois aparece o rosto de Portugal e todos lhe beijam a mão, todos sem excepção. O clown faz apenas a uma escala inimaginável o que qualquer português faria se pudesse, aproveita-se de lacunas na lei para ludibriar a lei. Para os portugueses, ele limita-se a gozar com o Estado. O que na cabeça dos portugueses está muito longe de querer dizer que goza com todos nós. Quem não gosta de gozar com o Estado? É o rei da chico-espertice, um homem que , afinal de contas, tanto tem dado à cultura. Devemos-lhe tanto, a este adorável mecenas.

ARRANJA-ME UM EMPREGO


Desde que ouviu falar na chegada de Jesus a Portugal, Quitéria pensa em ir para "padra". Mas só se lhe pagarem o mesmo que pagam ao franciscano Vítor Melícias.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

SAPATOS



Legenda bué fixe cool 'tá-se: "Try walking in my shoes".

Legenda moralista: "Uns com tanto, outros com tão pouco".

Legenda situacionista: "O consumismo desenfreado é uma consequência natural do capitalismo selvagem, que, por sua vez, leva a que as civilizações ditas desenvolvidas fiquem soterradas sob o lixo por si mesmas produzido. O pior é que não são só essas civilizações as vítimas dos seus próprios vícios, mas sim toda a humanidade."

Legenda liberal: "Cada um faz o que bem entende com os seus sapatos."

Legenda social democrata: "Produz para que possas estar na moda e, assim, seres alguém na vida."

Legenda socialista: "Se comprares uns sapatos novos partilha os velhos com quem tenha menos do que tu."

Legenda populista: "É uma pouca vergonha. Tanto cigano e tanto refugiado neste país e não há ninguém a quem sirvam estes sapatos? Vão para a vossa terra que lá é que se está bem. Descalços."

Legenda comunista: "Não mudem de pés, não. Depois queixem-se dos sapatos."

ARRANJAR AS UNHAS


Cipriano quis saber o que Quitéria faria se recebesse 45,1 mil milhões de euros. Ela respondeu que faria marcação na manicure e pedicure para arranjar as unhas.

terça-feira, 21 de julho de 2020

OS LIVROS


Os livros, esses mal-amados. Uma stôra é saco de pancada por ter dito a verdade numa entrevista. Já não se pode dizer verdades. Eu sempre ouvi dizer que quem diz a verdade não merece castigo, não entendo por que tem de ser diferente com stôres. Fui colega de curso de pelo menos duas almas que se gabavam de nunca ter lido um livro na vida. Podem achar estranho alguém gabar-se de tal coisa, eu não. É como aqueles tipos que se gabam de ser pais sem nunca terem dado uma para a caixa, se é que me faço entender. Enfim, um dos tais colegas tem feito a vida toda como stôr de filosofia. É o que mais há. A gente lá na loja dos livros tinha a mania de classificar a clientela pelas classes profissionais. Os stôres estavam no topo das criaturas intragáveis. A culpa não era deles nem dos livros, mas da própria palavra intragável. É natural, a vida está difícil e ser professor não é um mal menor. Lamento pelos alunos. O que pretendo dizer é que não me admiro da existência de professores que não gostam de ler, pois tive de lidar muito e de muito perto e durante muitos anos com escritores e editores do mesmo recorte. Sem querer exagerar, todas as semanas atendi pelo menos uma néscia alma (é destas o reino dos céus) que pretendia saber quais os passos a dar para publicar o seu livro. Às tantas, comecei a responder de um modo que me pareceu o mais pragmático: dê dois passos até uma estante, compre um livro e leia. Para um escritor, é princípio como outro qualquer. A modos que não me espanto. O que ainda me causa espanto é haver tanto livro novo, tanta editora nova, tanto escritor novo, para tão poucos leitores. Agora que entre toda esta gente haja tanta que detesta livros, não me admiro mesmo nada. Eu também estou para aqui a escrever e detesto isto.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

IMPASSE


Quitéria puxa para a frente, Cipriano puxa para trás. Não saem do mesmo lugar, que é onde se está melhor.
Nota explicativa, talvez desnecessária, porventura não: isto sou eu a pensar na palavra "impasse", a propósito da Europa. Tenham um bom domingo. Saúde.
P. S. 1.: não perder de vista que tanto Quitéria como Cipriano são os dois ciganos.
P. S. 2.: há dias, Quitéria deu com Cipriano a ler o "Manifesto Anti-Dantas". Pensou logo em escrever um "Manifesto Anti-Cristina", mas ficou num impasse por causa do discurso de ódio. Agora não se pode. É feio.

FRUGAL


Quitéria é deveras frugal. Quando esteve em Amesterdão não foi às putas. Só fumou charros. Pardon my French.

domingo, 19 de julho de 2020

UM POEMA DE NUNO DEMPSTER


MONÓLOGO DE UM CRENTE EM CRISE DE LUCIDEZ

Senhor, nós que tivemos
carros velozes,
comprados aos teutões do rio Meno;

nós, os nautas, que andámos
a cavalgar a luz em gigabites
nos ecrãs fabricados
pelos netos de Mao Tse-Tung;

nós, os sem estatuto,
que deixámos a Great Corporation
fingir facilitar-nos
em prestações suaves
a casa que comprámos
com o nosso trabalho de trinta anos;

nós, que nos apurámos
em civilizações contínuas
e vimos o rosto à mais pequena célula,
medindo a chegada aos astros
em milhões de anos-luz,
matematicamente certa,
hipoteticamente possível no futuro,
para nossa alegria e glória humana,

nós dizemos, Senhor,

são íngremes os teus caminhos,
pois devoraste quanto amealhámos
e fizeste-nos servos em Espártaco,
e deste a água, o vento, povos e países
à Great Corporation,
e entregaste-lhe o nosso sangue
e as ervas que apurámos contra a morte,
e preparas agora as trevas
em dias finais de sol,

responde, deveremos escutar
a pregação de Paulo
ou a palavra secreta do teu filho
que os zelotas baniram?


Nuno Dempster, in Variações da Perda, Companhia das Ilhas, Junho de 2020, pp. 39-40.

sábado, 18 de julho de 2020

MEDIDAS HIGIÉNICAS



Quitéria está-se nas tintas para a Cristina e para o Jesus. Ela quer é saber quando a DGS toma medidas verdadeiramente higiénicas ordenando a retirada do mercado de tudo quanto se refira à saga "Onde Está o Wally?".

sexta-feira, 17 de julho de 2020

ACERCA DO DISCURSO DE ÓDIO


Quitéria anda com comichão na flor do ânus. Depois de ler Herberto Helder nunca mais disse cu.

«Milhares de martas infectadas com covid-19 estão a ser abatidas em Espanha e nos Países Baixos»


Morcego. Pangolim. Marta. Leio isto e vêm-me à cabeça as imagens do monarca espanhol a pousar ao lado dos troféus de caça. Elefante. Bisonte. O ser humano é a mais estranha criatura gerada pela natureza. Tão inteligente foi feito que não suporta quem o pariu. Eis que o complexo de Édipo ganha forma, matámos o pai (Deus) e passamos a vida a foder a mãe (Natureza). Não prestamos para nada.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

FCP


Quitéria não tem saco para o azul.

TÍTULOS


Dois títulos do Público no mesmo dia: "Ciclistas e peões saíram à rua em várias cidades para pedir que não os matem"; "Partidos mais pequenos temem ser atropelados pelo bloco central." Isto anda tudo ligado.

terça-feira, 14 de julho de 2020

ÚLTIMA HORA


"Jesus desmente cáse com a 'dvugada Ana Paula Berinjela"

segunda-feira, 13 de julho de 2020

MASTIGAR DE BOCA ABERTA


Quitéria é uma lesada dos pés. Tem joanetes que parecem a carranca de Cavaco a comer bolo-rei.

PORTUGUESES ILUSTRES



Felizmente não são ciganos nem pretos. Têm lugar reservado no céu. Bons homens, cidadãos exemplares, inexcedíveis no amor ao próximo e zelosos cumpridores dos mandamentos do Senhor.

domingo, 12 de julho de 2020

BRASIL


Quitéria não entende Cipriano. Desde que se divorciou, só diz mal da ex-mulher. Que era uma traidora, que era uma ladra. A actual mulher de Cipriano é-lhe infiel todos os dias, rouba-lhe tudo quanto tem, já lhe meteu veneno no prato, maltrata-o à frente de toda a gente, chama-lhe nomes, rebaixa-o, mas Cipriano não quer saber. A ex-mulher é que era má.

sábado, 11 de julho de 2020

MEIO EDITORIAL PORTUGUÊS

Quitéria acordou com algumas dúvidas. Se numa pocilga metermos galinhas, a pocilga transforma-se em galinheiro? Uma capoeira com um porco é um galinheiro ou uma pocilga?

sexta-feira, 10 de julho de 2020

HERR DIREKTOR

Quem é o director do Museu José Malhoa? Quem é o director do Museu da Cerâmica? Quem é o director do Museu do Ciclismo? Quem é o director do Museu Barata Feyo? Quem é o director do Museu Leopoldo de Almeida? Quem é o director do Atelier-Museu António Duarte? Quem é o director do Museu do Hospital das Caldas? Ora comecemos aqui pela terrinha, a ver se nos entendemos.  E como é que essas pessoas chegaram a esses cargos? Foi por concurso público? Houve várias candidaturas? Tinham experiência e provas dadas? Fazem bem o seu trabalho? Talvez fosse importante começar a pensar estas coisas pelo bairro. Se a Irene fosse amiga da Rita, tinha mostrado a mesma preocupação?

quinta-feira, 9 de julho de 2020

DIETAS


Quitéria acha os cães tão inteligentes que não consegue entender como ainda não adoptaram esses belos animais uma dieta vegetariana.

MATILHA

Era uma vez um osso para uma matilha. Veio um rato e roeu. Foi indignação que só visto.

HEGEMONIZAR

A propósito da contratação mais polémica dos últimos anos, Quitéria abriu o jornal e deu com uma tal de Irene Fuvtsdchjvufjdvuuvuf Pimentel a dizer que "há o perigo do PCP hegemonizar a".... Não conseguiu ler o resto, desatou à gargalhada.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

DISCURSO SOBRE O FILHO-DA-PUTA




   Acreditando que em 1977 era diferente o mundo, ficaríamos algo decepcionados ao constatar quão mesmo, idêntico, semelhante, repetitiva e monotonamente previsível é hoje esse dissemelhante que julgávamos para sempre enterrado mas se perpetua como um vírus impossível de erradicar. Apetece recuperar o célebre dito do unionista Manuel de Brito Camacho, que há coisa de um século resumiu de modo eficaz o curso da História: «As moscas mudam mas a merda é a mesma.» Os vícios humanos são universais, acompanham-nos como parasitas, muito provavelmente desde que para eles inventámos a palavra vício. Mas nem tanto se exigia, já que intrínseco ao homem é a sua bestialidade. “Superação”, ouvimos a certa altura, como um eco vindo dos antigos mandamentos que ordenaram controlar a animalidade exercendo sobre a natureza o domínio da razão. Os resultados estão à vista.
   Talvez tenha sido por silogística similar que Alberto Pimenta se encerrou numa jaula do Jardim Zoológico de Lisboa originalmente pensada para albergar símios. O happening deu que falar, acabando o poeta marcado com o ferro da inconveniência por uma Academia mais vocacionada para o comodismo reverencial do “sim senhor”. Não queremos cá macacos, disse o director. E Pimenta ficou no desemprego. Passaram 43 anos sobre o feito e sobre a primeira edição do “Discurso Sobre o Filho-da-Puta”, reflexão cartesiana acerca de um certo tipo de ser (ou de se ser) que os dicionários excluem, preferindo a versão eufemística filho da mãe, mas a vida concreta se encarrega de reproduzir ad nauseam. Escusado será um périplo pela imprensa diária para que fique provada e comprovada a tese, bastando para tal que em casa existam espelhos onde possamos ver reflectidos os vícios que ou nos conspurcam ou nos derrotam.
   Há um preço a pagar pela liberdade de pensamento, por essa maldita ousadia de olharmos para nós próprios com aquele espírito ameaçador da idiolatria tão cara ao poder. Este prefere erguer estátuas, disseminando por ruas, praças e avenidas a toponímia dos seus heróis sem que por debaixo do nome surja uma referência, por mínima que fosse, aos crimes de que ninguém está livre de cometer. Afinal somos humanos. Nisto, os gregos  antigos eram mais honestos (ia dizer justos) do que nós temos sido. Eram deuses, precisamente, por neles haver o reconhecimento da maldade, ao passo que nós insistimos nesta ilusão de santidade com que idealizamos paraísos na terra e glorificamos pulhas com cara de anjo. Daí também o puritanismo com que os órgãos oficiais, do Estado, pagos por todos nós, se referem à linguagem do “filho-da-puta”, reduzindo-o a fdp ou disfarçando-o com *** onde é uta. Já agora, um aparte: se googlarem filho da puta ficarão a saber que o dito também foi um puro-sangue que ganhou nove de doze corridas. Garanhão aristocrático, portanto.
   Eis que em pleno século XXI se revela um risco levar à cena um texto como o que Pimenta publicou nos idos de 1977, depois de se ver confrontado com um ror de peripécias burrocráticas, chamemos-lhes assim, atadas, erguidas, enroladas pelos tais que entre fazer e não fazer se empenham em não deixar fazer. O ritual a que assistimos na Sala Estúdio do Teatro da Rainha tem o condão de azucrinar as atitudes comodistas, conformadas, reverenciais e servis que tanto agradam aos poderes instalados, celebrando-os através do gume da sátira e, por que não assumi-lo, de uma alegria cínica que tanto convém ao ambiente social e político deste nosso tempo, já não detergente, como diria Ruy Belo, mas desinfectante. Não há gel, porém, que elimine das mãos dos homens o veneno pandémico da besta, devidamente representada no cenário com um bestiário seleccionado a preceito: cobras e lagartos, abutres e tubarões. Ao centro, um ser com cabeça de revólver remete para outras criaturas. Será arte, a da guerra?
   O tratamento dado ao texto de Pimenta por Fernando Mora Ramos e por Miguel Azguime tem, entre outros, dois méritos evidentes: a capacidade de encarnar os diferentes tipos de retórica persuasiva do discurso e a respectiva articulação desses tipos com jogos fonéticos que fazem desta peça uma espécie de musical para um só instrumento, a voz através da qual a palavra se exprime. Desde que entram na sala, encapuzados como monges beneditinos, evocando o filho-da-puta à laia de canto gregoriano, até ao ritual fúnebre final, os quatro actores em cena (Cibele Maçãs, Fábio Costa, Marta Taveira e Nuno Machado) desdobram-se em múltiplas personagens. Vemos o político e o vendedor de banha da cobra, o especialista de painel televisivo e o aprendiz, o mestre, o discípulo, vemos o malandro e a menina de cabaret, o pivot de telejornal, o deputado, o padre, o sacristão e as carpideiras, em sucessivas reencarnações discursivas que nos oferecem, ao mesmo tempo, a transversalidade dos grandes e dos pequenos filhos da puta.
   Apesar deste aspecto lúdico, o pior que pode acontecer a um espectáculo deste tipo é ser confundido com a mera anedota. Não o é, nem sequer podemos garantir que seja inofensivo. Há no texto de Pimenta e na adaptação que lhe foi conferida pelo Teatro da Rainha uma obstinação e uma contumácia pouco usais entre nós. O princípio é o de uma espécie de desobediência civil, entendida como direito inalienável de confrontar todas as formas de exercício do poder com a sua violência inerente. Se aqui o riso assoma aos rostos do público é para que deixe de estar latente a crueldade exercida pelo filho da puta, lembrando quanto dele pode germinar em cada um de nós. Neste sentido, há uma profilaxia no espectáculo, neste momento preciso da história, que é deveras pertinente. O medo aí está espalhado entre continentes, desbravando caminho para a paranóia de que se alimenta o autoritarismo asfixiante das liberdades individuais. Pandemia rima com burocracia, esta com idolatria, e nada disto é por acaso.

SEI LÁ

Cipriano está indignado com a contratação de uma comunista para o Museu do Aljube Resistência e Liberdade. Mas onde fica o raio desse museu, pergunta Quitéria. Sei lá, responde-lhe Cipriano.

terça-feira, 7 de julho de 2020

domingo, 5 de julho de 2020

À DERIVA


Quitéria viu um filme sobre dois amantes à deriva no alto mar. Estranhou que a ele crescessem as barbas com o passar do tempo, enquanto ela se conservou impecavelmente depilada tanto nas pernas como nas axilas.

sábado, 4 de julho de 2020

TESTE


Acerca de progresso e evolução das espécies, Quitéria sugere um exercício simples: colocar lado a lado duas fotografias, uma de Abraham Lincoln, outra de Donald Trump.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

«VOU CONTAR UMA HISTÓRIA»


(...)
   Vou contar uma história.
   Havia uma rapariga que era maior de um lado do que de outro.
   Cortaram-lhe um bocado do lado maior.
   Foi de mais.
   Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno.
   Cortaram.
   Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior.
   Tornaram a cortar.
   Foram cortando, cortando, cortando.
   O objectivo era este: criar um ser normal.
   Não conseguiram.
   A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados.
   Isto levou muitas pessoas ao suicídio.
   Outras riram, apenas — o que era uma forma de suicídio.
   Algumas compreenderam.
   Não me venham com teorias, estou farto.
   Acontecimentos, seres, objectos, lugares.
   A coluna vertebral disto tudo.
   A posição vertical — eis o que me parece justo.
   Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa.
   O erro pode estar em andar com os pés e pôr o chapéu na cabeça.
   De qualquer maneira, é magnífico ver uma flor ter delicadeza debaixo da terra. 
(...)

Herberto Helder, in Apresentação do Rosto, Porto Editora, 2.ª edição da obra (1.ª na Porto Editora), Março de 2020, pp. 192-193.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

PEELING


Em 2012,Cecilia Giménez, idosa de 80 anos, caiu nas bocas do mundo devido ao desastroso restauro de um desinteressante “Ecce Homo” assinado por Elías García Martínez. O pacato município de Borja tornou-se lugar de peregrinação. A intervenção de Cecilia ofereceu ao original de Martínez inusitada popularidade, incrementando o turismo onde só moscas se ouviam. Mais recentemente, uma pintura de Murillo, propriedade de anónimo coleccionador de Valência, foi vítima de semelhante atentado. Dizem as más-línguas que tudo não passou de conjuração para valorizar uma obra que, de outro modo, estaria condenada ao esquecimento. Decretada a falência da espiritualidade, a caixa de esmolas do anedótico é via aberta ao sucesso. Já não se trata de pôr bigodes na Mona Lisa, mas de pedir a um pedreiro que faça um peeling num Rodin.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

FRAGILIDADES


(...)

Graças ao vírus, a fragilidade do nosso mundo ficou escancarada. O jogo que agora se joga é infinitamente mais perigoso que o vírus e causará muito mais mortes. Mas os contemporâneos só parecem ter medo do vírus...

(...)

Gianfranco Sanguinetti, O Despotismo Ocidental - Dolorosamente, está a ser parido um novo mundo. Que mundo é este?, in Calamidade, dépliant (folheto dobrado), Barco Bêbado, Junho de 2020, s/p.