terça-feira, 29 de janeiro de 2013

NÃO DIGAS ESCURINHO


Preto, cabrão, filho da puta, vai para a tua casa.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

QUERO SÓ ISSO NEM ISSO QUERO


Quero uma mesa e pão sobre essa mesa
na toalha de linho nódoas de vinho
quero só isso nem isso quero

Quero a casa de terra à minha volta
cães altos na noite a minha mãe mais nova
quero só isso nem isso quero

Quero a casa do forno onde eu me escondia dos relâmpagos
e trovões quando um ferro no cesto garantia uma feliz cria à galinha chocadeira
quero só isso nem isso quero

Quero de novo fundir ao lume os soldados de chumbo que no natal me punham no sapatinho
e tirar chouriço e toucinho do guarda-comidas
quero só isso nem isso quero

Quero fazer pequeninos adobes e construir casas pelo quintal
ver chegar o verão e comermos todos lá fora na varanda de tijolo
quero só isso nem isso quero

Quero uma aldeia umas pedras um rio
umas quantas mulheres de joelhos brancos esfregando a roupa nas pedras
quero só isso nem isso quero

Quero escrever fatais cartas de amor à rapariga dos meus oito anos
rasgar essas cartas deixá-las pra sempre dentro do tronco oco da oliveira
quero só isso nem isso quero

Quero umas cabras um pastor rico um pastor pobre
o leite quente na teta o cabrito morto soprado e esfolado
quero só isso nem isso quero

Quero a courela as perdizes no ovo a baba do cuco
laranjas de orvalho no ano novo colhidas na árvore
quero só isso nem isso quero

Quero dois montes e um paul de malmequeres a cheia na primavera
a asma o ruído dos ralos as pernas sombrias das raparigas
quero só isso nem isso quero

Quero os espargos os pinheiros bravos o primeiro pôr-do-sol
as noites de baile no carnaval as bandeiras da safra
quero só isso nem isso quero

Quero que voltem os que morreram os que emigraram
matar com eles o bicho com aguardente pela manhã antes da pega
quero só isso nem isso quero

Quero ver ao vento o véu das noivas apanhar os confeitos nos casamentos
saber pelos papéis dos registos o tempo da prenhez palavra misteriosa
quero só isso nem isso quero

Quero um páteo meu e da sombra e galinhas pedreses e árvores
uma mina de avencas uma horta uma sebe de cana umas casas caídas
quero só isso nem isso quero

Quero uma enxada uma gadanha calos nas mãos cuspo nos calos
a cava mais funda da vinha o capataz a fazer o vinho correr
quero só isso nem isso quero

Quero ajudar na rega do fim da tarde calcar os buracos das toupeiras
e dirigir com o sacho a água morna nos pés até aos regos do feijão
quero só isso nem isso quero

Quero em dezembro o varejo final da azeitona o búzio a tocar
a azeitona a cair dos ramos nos panos de serapilheira
quero só isso nem isso quero

Quero o meu pai de chapéu de chuva aberto nos dias de sol
o meu pai de manhãzinha a lavar-se e a explicar-nos latim e história
quero só isso nem isso quero

Quero nu em pelota entre todos tomar os banhos no marachão
os ninhos dos pássaros as andorinhas de asas escuras no céu azul
quero só isso nem isso quero

Quero o pátio da escola a roda das raparigas a cantar à volta do plátano
o primeiro sonho de amor as primeiras palavras gaguejadas trocadas com uma rapariga
quero só isso nem isso quero

Quero as feridas nos pés para poder sair à rua descalço
o pão com conduto entre os meninos pobres no recreio
quero só isso nem isso quero

Quero ir ao vale barco a malaquejo à marmeleira
roubar melões jogar ao murro ver nas festas o fogo preso
quero só isso nem isso quero

Que quero tanto que quero um mundo ou nem tanto só agora reparo
quero morder para sempre a almofada quente e densa da terra
quero só isso nem isso quero


Ruy Belo, de Toda a Terra (1976), in Obra Poética de Ruy Belo, volume 2, org. Joaquim Manuel Magalhães, Editorial Presença, 2ª edição, Lisboa, 1990, pp. 153-156.

domingo, 27 de janeiro de 2013

I WAS BORN TO SAIL AWAY INTO A LAND OF FOREVER

Praça D. Luís I, Lisboa. 2012.

I was born to love no one.
No one to love me.
Only the wind in the long green grass,
The frost in a broken tree.
I was made to love magic.
All its wonder to know,
But you all lost that magic,
Many many years ago.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Nick Drake.

sábado, 26 de janeiro de 2013

THE OUTLAW JOSEY WALES (1976)

Foras da lei como Jesse James (1847-1882) e Billy the Kid (1859-1881) inspiraram a criação de inúmeras personagens de ficção nos filmes sobre o wild west. Sem que tal seja evidente, podemos supor que Josey Wales foi uma delas. Esta personagem levada à tela por Clint Eastwood em 1976, num filme que suportou o título português de O Rebelde do Kansas, também tem no rosto as cicatrizes da guerra civil. Não anda a assaltar comboios nem bancos, mas junta-se a um grupo de rebeldes do Mississipi para fazer a vida negra às tropas da União. Nenhum objectivo político parece movê-lo, é certo. Em nenhum momento da acção podemos julgar que a luta de Josey Wales é a da Confederação. O filme é ambíguo nesses termos, não parecendo tão interessado em explorar tais questões como parece apostado em retratar os efeitos da guerra numa sociedade desmembrada e a necessidade de vingança de um homem em particular depois de assistir ao homicídio da sua família sem nada poder fazer. Como noutras personagens de Eastwood, há neste fora da lei um peculiar sentido de justiça alimentado pela dor das vítimas. Wales é um humilde agricultor quando vê a sua casa ser incendiada, a mulher ser violada e assassinada, o filho pequeno morto por uma milícia dos chamados red legs (jayhawkers do Kansas associados à causa unionista). A perda da família é, pois, a razão que o leva a juntar-se aos guerrilheiros da Confederação até estes, enfraquecidos, se renderem ao exército pela mão do líder Fletcher (John Vernon). Todos excepto Josey Wales, que prosseguirá a sua saga numa fuga paradoxal. Repare-se que a saga deste homem é a de quem perde sucessivamente aqueles a quem se junta. Há, por isso, um tom irónico neste filme que o torna bastante especial. À medida que Josey Wales cavalga, com a cabeça a prémio, na direcção das Indian Nations, adopta, involuntariamente, uma nova família. Primeiro, um velho chefe Cherokee atraiçoado pelo civismo do homem branco. Depois, uma jovem Navajo explorada por um comerciante corrupto. Por fim, duas peregrinas do Kansas resgatadas de um saque perpetrado por um bando de comancheros. Todos estes elementos têm em si a marca das vítimas, foram alvo de injustiças, traições, actos desumanos. A nova família de Josey Wales vem, ao mesmo tempo, sarar feridas abertas e alimentar essas mesmas feridas. É esta paradoxalidade ontológica que caracteriza o rebelde do Kansas, um homem traído pelas consequências da política que apenas encontra paz na comunhão desinteressada entre os seres humanos. A cena do encontro com o chefe Comanche Ten Bears (existiu, de facto, um chefe Ten Bears) é, por isso, fulcral para a compreensão da narrativa e, na minha opinião, uma sequência que merece ser revista vezes sem conta:




O que aproxima Josey Wales de Ten Bears é aquilo que os afasta de outros indivíduos, ou seja, o espírito guerreiro autónomo e justo. Daí que, aos olhos do poder, um seja fora da lei e o outro selvagem. Defendem para si o que julgam melhor e o que julgam melhor para si próprios não está em sintonia com as pretensões segregacionistas do governo. Eloquente contradição: ao mesmo tempo que a América acabava de travar, entre si, uma luta sangrenta com pretensões integracionistas e humanitários, estes dois homens, excluídos, despojados, escorraçados, perseguidos pelo “mundo civilizado”, fazem um pacto de sangue com o propósito simples de poderem partilhar os mesmos espaço e tempo, respeitando-se mutuamente na diferença, que é sempre menor do que se julga quando tentamos olhar para nós próprios com olhos que não sejam apenas aqueles que julgamos nossos.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

DE CAVALO PARA BURRO

Camarada Van Zeller, espero que a vida lhe corra de feição. Nós por cá vamos bem, ansiosos pelo primeiro vencimento pornográfico de 2013. Entretanto, inspirados pelo red light district de Viseu, desfizemo-nos dos estores e colocámos uns reposteiros semitransparentes, de cor rubra, a pensar em novas oportunidades de negócio. A vida não está fácil, é preciso ser previdente. Ou então comer muito queijo. Terá o camarada ouvido falar dos esquecimentos do nosso amigo Ricardo Salgado, que deixou 8,5 milhões de euros por declarar ao fisco. Ora, toda a gente sabe que o Salgado é um doce de pessoa. Jamais deixaria de declarar o que quer que fosse, não fosse, passe a redundância, ter-se esquecido. Acontece aos melhores, esquecerem-se de declarar 8,5 milhões. Eu próprio me tenho esquecido de declarar imensas coisas, diria mesmo 8,5 milhões de coisas, e nem por isso se justifica colocarem-me num qualquer Monte Branco por indícios da prática dos crimes de fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais, tráfico de influências, corrupção e abuso de informação privilegiada. Anda um homem fartinho de trabalhar, o primeiro a entrar e o último a sair, para isto. Tantos esforços despendidos para que os mercados nos aceitem no seu leito de ternura, e nem uma nota de gratidão pela nossa honorável bravura. Veja-se o que está a acontecer ao nosso pobre Moedas, montado a cavalo no Mulas para acabar estatelado no pântano do descrédito só porque, afinal, o Mulas simplesmente não era burro. Excitam-se agora os canhotos com a desgraça em que caiu o espanhol. Parece que Mulas, co-autor do relatório do FMI sobre Portugal, laborava sobre pseudónimo para poder pagar-se a si próprio pela excelência dos seus relatórios. Há homens autoconfiantes, gente com a auto-estima em alta. Nada contra. Não só acho legítimo como me parece uma excelente ideia. Com os seus riscos, é certo. A Amy Martin que o Mulas inventou é a mulher que há dentro de todos nós. Jubile a comunidade gay com tamanha inventividade. Acreditando nas notícias, este Frank Abagnale Jr. do século XXI engendrou uma marca comercial com logótipo para a sua Amy Martin, disse ter-se cruzado apenas uma vez com a dita-cuja, ele próprio, o outro, e chegou a fornecer e-mail e número de telemóvel americano para a contactarem. A ver vamos se o engenheiro Carlos Moedas não aparece por aí numa primeira página do Correio da Manhã fotografado ao lado da Amy, a quem gabou o excelente relatório para o qual contribuiu o Mulas. Montados no relatório, lá foram os coelhos para o Palácio Foz discutir o Futuro de Portugal à porta fechada. Já se sabe como é com este governo, para quem a renegociação da dívida poderá ter consequências desastrosas para o país. Nem pensar em pedir menos juros e mais tempo, como sugeriu o presidente a quem ninguém dá cavaco. Desenganem-se pois os néscios. Se Vitor Gaspar pediu mais tempo foi apenas e tão-somente para que a Amy Martin, isto é, o Mulas, pudesse rever as notas de rodapé aos cortes de 4 não sei quantos milhões. Um pouco mais do que o Salgado se esqueceu de declarar, mas não tanto quanto o que Relvas e Santana gastam numa patuscada. Assim vamos, camarada, de espiral recessiva em regresso aos mercados, com a cabeça entre as orelhas e muita dor de cotovelo. Se ao menos pudéssemos copiar os bons exemplos do treinador Leonardo Jardim, esse que colocado na Grécia não resistiu aos encantos da mulher do patrão, não estaríamos tão acotovelados no ressabiamento. Mas não podemos, montados na mula que vamos... de cavalo para burro. A mulher é uma fraude. O relatório? Um portento! O Relvas é bom aluno. Já o povinho... é o jumento.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

LÁ ONDE O RIO TE LEVA

Em 1842, Melville desertou de um baleeiro e aventurou-se numa ilha dos mares do sul. Aí sobreviveu a uma comunidade de canibais (a acreditar no relato do seu primeiro romance). Por mares semelhantes velejou Robert Louis Stevenson. Mais recentemente, o Prémio Nobel J. M. G. Le Clézio vai-nos mantendo informados sobre a paisagem ameríndia. Kenneth White deu-nos boleia até ao Labrador, em busca de vestígios indígenas para sempre perdidos. Similar desolação pudemos sentir entre os aborígenes da Austrália, pela mão de Bruce Chatwin. Em todos estes ousados viajantes pressagiamos uma necessidade de exílio civilizacional, uma urgência de ir ao encontro do diverso e de aí procurar, quem sabe, a raiz de si próprio. Nada comparável, porém, com o que Tobias Schneebaum (1922-2005) relata em Lá onde o rio te leva (Antígona, 1990). Nova-iorquino oriundo de uma família de emigrantes polacos judeus, Schneebaum foi para o Peru, em 1955, com uma bolsa da Fundação Fullbright. Antes, já tinha vivido no México entre uma tribo local. No Peru, foi mais longe. Arriscou-se na direcção de uma missão instalada no meio da selva. A experiência da caminhada foi, nas suas palavras, uma experiência de desintegração, a experiência de quem se afasta de um mundo facilmente definível, previsível, determinável, para entrar num universo ditado pelo acaso: «Em tudo à minha volta havia um sentido de irrealidade, assim como em relação a mim mesmo. Sentia-me como se fosse outra pessoa, de modo nenhum eu próprio, mas, apesar de o mundo e a minha caminhada através dele ser sempre indefinível e incerta, nunca tinha a aparência de um sonho. Era como se eu tivesse entrado noutra dimensão e tanto eu como as coisas à volta nos encontrássemos desfocados» (p. 16). Esta outra dimensão é, também, a dimensão onde o presente como que inverte a sua marcha natural, volta costas ao futuro e regressa a um passado primitivo onde a paisagem e as pessoas adquirem contornos apenas imagináveis. É como se agora, aos 35 anos, este pintor com inclinações antropológicas passasse a ser objecto de si próprio, pois é a si mesmo que se retrata e é sobre si mesmo que recaem todas as observações. O padre que Schneebaum encontra na missão alimenta um contraste pungente entre a normalidade do chamado mundo civilizado e a selva, ele próprio parece senil e louco na sua solitária relação com Deus. A primeira grande questão que Lá onde o rio te leva coloca é, precisamente, a da fronteira entre o normal/bem e o aberrante/mal, algo que serve os intentos do autor em desmistificar a homossexualidade descrevendo-a como uma prática natural entre os selvagens, ou seja, uma prática tão humana quão primitivas podem ser todas as coisas humanas. Mas por detrás desta questão talvez se esconda o peso de um tormento, a consciência de uma culpa imposta pelo mundo de que Schneebaum faz parte sem nele se sentir completo. Estranho paradoxo este, de ser necessária a experiência da desintegração, proporcionada pelo afastamento civilizacional, tornando-se Schneebaum tão “índio” quanto os índios com quem chega a praticar o canibalismo, para que o vazio se encha na alegria da solidão: «No México, tudo era novo para mim. Onde quer que eu estivesse não havia nunca outra ideia no meu espírito, a não ser que as pessoas estavam perto. Eu sabia que se continuasse a andar mais três ou quatro horas, iria dar a uma aldeia, a uma cabana, a uma plantação, a qualquer posto avançado. Aqui era diferente, a chegada à missão, o andar dia após dia sem sinal de outra gente que além de mim povoasse a Terra. Era esta a minha alegria» (p. 44). Sensação de liberdade repetida vezes sem conta, mesmo quando na companhia dos seus companheiros primitivos, perdido no espaço das florestas mais selvagens, este homem se encontra, finalmente, com a sua identidade. O relato apaixonado que Tobias Schneebaum faz dos Akaramas, adoptando-os e fazendo-se por eles adoptar, é mais o relato de quem procura conhecer-se a si próprio do que o relato de quem se arroga no conhecimento do outro. Talvez, neste sentido, o antigo pai da filosofia estivesse certo, não nos sendo possível conhecer o outro senão naquilo que ele nos revela de nós próprios. Assim nós, ao lermos este livro, percebemos o muito que ainda temos que caminhar para chegar a esse lugar onde um dia poderemos dizer, sem que nenhum vazio nos atormente, este sou eu, um ser, num lugar.

QUAL DE VOCÊS É CAPAZ DE LHES FALAR DOS SEUS DEMÓNIOS?

Ponta Delgada, Açores. 2012.

O mal só existe na imaginação, pequena redundância que eu escrevo como se fora assim tão espantosa de sentido. Ah! É evidente que o mal existe sem ser em imaginação, mas, um momento! Um momento, porque se fosse só em imaginação que existisse, que diferença faria? Quem me diz a mim que esses demónios que passam pela minha alma e pelo meu coração não sou eu próprio que lhes dou realidade? Olhem aqui! Olhem além! Vejam Ihuene a observar o pénis ao espelho. Como é que lhe podem falar do mal? Senta-se a uns centímetros de mim e muitas vezes segura o espelho junto à minha cara e olha para a imagem do meu perfil, comparando-a com o real. Depois retira-se a observar o seu pénis. Reindude e Michii têm andado à caça e voltaram com dois macacos pequenos e riem-se quando eles se penduram um no outro para trás e para a frente. Awaipe e Pendiari andam a fazer uma segunda jangada, servindo-se dos seus machetes para cortar as árvores de balsa ao longo do rio. Estão a preparar-se para o regresso. Qual de vocês é capaz de lhes falar dos seus demónios?

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Tobias Schneebaum.

domingo, 20 de janeiro de 2013

MANIFESTO



Eu gosto muito dos senhores que moram no meu prédio.
O prédio é alto e tem elevadores. Assim é melhor porque ninguém
tem que carregar ninguém às costas. Quer dizer, as pessoas
também podiam ir pelo seu próprio pé mas isso era se não houvesse
pessoas no meu prédio que precisam de favores. Precisam,
e depois pagam com as costas na subida-Ouvi dizer que há
pessoas no meu prédio que têm em casa florestas normandas (eu
cá só ervas daninhas!). É que o elevador do meu prédio avaria
muitas vezes. Avaria, e depois os senhores dos andares de cima
precisam de carregadores. As pessoas dos andares de baixo
começaram a nascer todos os dias com as costas mais
largas para poderem carregar melhor, e agora o elevador
avaria quase sempre. A minha sorte é eles saberem que
eu só tenho em casa ervas daninhas. Nunca me pedem para
os carregar nem sequer estacionam as suas árvores novas
a barrar-me a entrada de casa: têm medo de ser contaminados.
Agora são os senhores dos andares de cima que me pedem
favores: se posso mudar de casa, de prédio, que até me
oferecem uma casa com florestas normandas lá dentro.
Mas eu não quero. Estou bem aqui. As minhas ervas
chegam já ao primeiro andar. Às vezes subo por elas
e convidam-me para jantar. Falamos e rimos e quando
nos calamos o silêncio à volta é maior.
Até agora cresceram sempre frescas pelo seu pé acima.



Rui Costa, in O Pequeno-Almoço de Carla Bruni / El Desayuno de Carla Bruni, edição bilingue, trad. Uberto Stabile, col. Palabra Ibérica, Ayuntamiento de Punta Umbría, Inverno de 2008 (originalmente publicado aqui, a 22 de Setembro de 2005).   

O POSTADOR NATO

Para o postador nato a dificuldade está em não fazer o post excelente, fabuloso, fundamental. Ou seja, o post perfeito. O post imperfeito é que é o grande, o único objectivo. Só as loucas é que sonham com os príncipes encantados. Ou seja: altos, fortes, esbeltos, além de corajosos, gentis, amorosos, enfim, perfeitos. Isto é: chatos como a potassa posta em sossego no tubo de ensaio com uma boa meia-dose de pó de talco. A potassa no fundo do tubo, de saia recolhida e pés para dentro, a cabeça inclinada devido à vergonha e a doses maciças de educação sentimental, o nosso pó de talco bem aprumado, com as mãos nos bolsos, no outro canto do tubo, a olhar para o céu, um exemplo de virtude, pensando agora se não há-de tirar as mãos dos bolsos, a primeira meia hora passa, olhando agora para as pontas dos sapatos, uma mancha ali, não sei como é que não vi, por causa disto quase se sente indisposto, pensa desistir, entretanto é outono e a potassa continua completamente educada do outro lado do tubo, certamente um pouco mais impaciente, quem é que pode censurá-la, com o frio que faz e agora já às portas do Inverno, o nosso herói resolve tomar a iniciativa, diz "já te dava uma...", a potassa estica a cabeça como que a confirmar aquilo que ouvira, de quase adormecida que estava, não a enganaram os ouvidos, posso confirmá-lo, eu sei melhor do que vocês porque sou eu que estou a relatar esta história, ela pensa "estava a ver que não", e o que pensa a seguir não anuncia, porque é educada, mas digo-vos eu, para que não digam que estou em vantagem, "estava a ver que não desenguiçava", é o que ela pensa mas não diz, embora não lhe falte vontade, de dizer e talvez de algo mais, mas agora já estou a pôr a carroça à frente dos bois, digo, dos dois, foi ele agora quem falou, "já te dava um soneto de amor", continua, cavalheiro, generoso como sempre, e ela pensa mas não diz "se me desses mas é outra coisa", mas o que ela lhe responde é, "ai que simpático, e ainda por cima tão tímido", e ele sorriu-se e nós sabemos que corou, é fiel o relato deste pequeno romance, pequeno em tamanho por ter o seu palco num tubo de ensaio, grande no sentido, porque aquele tubo de ensaio é uma metáfora do universo, prossigamos, veio a primavera com os seus aromas e chilreios, passou a sua frescura e passamos nós ao verão, quase não bastam os corpetes à nossa potassa para conter a exultação interior, é da paixão que a distância alimenta e a paciência consome, se não leram as doze últimas linhas também não perderam muito, está tudo na mesma, com a diferença que apontei, agora é verão, quem sabe as surpresas que nos reserva, veremos, a nossa potassa ofega com a temperatura, ardem-lhe os pensamentos na cabeça, agora quase fomos poéticos, perdoe-se-nos o excesso, o verão quando nasce é para todos, a nossa potassa vitupera moderadamente a constrição dos folhos, a incomodidade que não lhe tolha a compostura, mas tolhe, a potassa respira e ao encher o peito de ar o dique cede, o decote da nossa heroína rebenta, o tubo de ensaio admite finalmente a sua pequenez e estilhaça-se em mil pedaços que voam pelo ar, o nosso herói não ganha para o susto e esconde-se debaixo do casaco, a potassa olha à sua volta e é o mundo todo que nasce da explosão, eu admito ter sido esta a origem do universo, mas isso é outra história, foi aprendida a lição, perfeição do caralho nunca mais, pensou a nossa potassa e disse-o, assim, com todas as letras, e foi o post mais imperfeito que jamais se viu.




Rui Costa, 25 de Julho de 2005, aqui.

sábado, 19 de janeiro de 2013

PAT GARRETT & BILLY THE KID (1973)



À semelhança de Jesse James, Billy the Kid é uma das lendas do velho Oeste mais retratadas cinematograficamente. Também ele um fora da lei, ficou célebre por ter defendido os interesses dos pequenos criadores de gado, no Novo México, contra os interesses de poderosos rancheiros que disseminavam pela paisagem os seus tapumes e arbitrariedades. Tanto James como Kid, de seu verdadeiro nome William Henry McCarty, Jr, têm qualquer coisa de Robin Hood do Novo Mundo, embora as circunstâncias em que actuavam permaneçam discutíveis. O poder simbólico destes indivíduos é o da contracultura, marginais que desafiam poderes instalados ou em vias de se instalarem, espíritos resistentes cujo testemunho inspira gerações de libertários.
Curiosamente, o fim de ambos foi semelhante. Jesse James, como vimos, foi assassinado pelas costas por um dos homens da sua confiança. Tinha 35 anos. Billy the Kid morreu aos 21, assassinado à queima-roupa pelo seu amigo Pat Garrett, um ex-pistoleiro convertido em xerife com a missão específica de capturar Kid. Um dos filmes que melhor recriou esta relação entre os dois foi Pat Garrett & Billy the Kid, de Sam Peckinpah (1926-1984) – realizador a quem devemos alguns dos mais violentos westerns da história do cinema. Longe da violência gratuita imposta pelo regime dos estúdios de Hollywood, com cortes que adulteravam fatalmente a autoria dos realizadores, a versão pretendida por Peckinpah para o seu Garrett versus Kid só foi conhecida muito depois do ano de estreia.
James Coburn é Pat Garrett e Kris Kristofferson interpreta Billy the Kid, num elenco riquíssimo que conta também com Jason Robards (o Cheyenne de Once Upon a Time in the West) e a participação de Bob Dylan, autor da banda sonora, no papel de Alias. A paisagem do filme de Peckinpah é árida, não fugindo o realizador aos elementos que contribuíram para o estereotipar como um dos mais violentos realizadores da história do western. Cenas de violação, lutas de galos, putas desnudadas, cartuchos de balas saindo dos canos das espingardas e estilhaçando corpos atirados contra a poeira, vertendo sangue por todos os lados, são imagens de marca, mas Pat Garrett and Billy the Kid (em Portugal, Duelo na Poeira), tem um elemento poético que o resgata do mero exibicionismo.
Esse elemento é aquilo a que poderemos chamar de cumplicidade entre duas forças opostas, neste caso dois homens afastados pela interpretação das circunstâncias. Pat Garrett é a versão do carácter rendido à mudança dos tempos, hipotecando convicções em prol de um subjectivo bem-estar material. Kid é o contrário disto tudo, uma mente rebelde que não muda em favor dos ventos, mantendo-se firme nos seus propósitos e recuando na fuga quando a experiência lhe reclama ajustes de contas. Subentende-se no comportamento de Garrett uma certa incoerência, sendo Kid, apesar da conduta questionável, o protótipo do guerreiro obstinado.
Mas repare-se que estes opostos, apesar de afastados, não estão separados. Há algo que os liga, algo de uma dimensão quase mística, porque não explícita. Depois de disparar sobre Kid, Garrett dispara sobre o seu reflexo num espelho porque sabe ter acabado de assassinar uma parte de si mesmo. Foi o último gesto de uma traição que tem por vítima também o traidor. Pois, ao matar Kid, o “xerife” Pat Garrett sabe estar a servir os interesses daqueles que odeia, de uma lei que também o há-de varrer quando dele não precisar, a lei dos homens com poder de mudar os tempos em favor dos interesses particulares. Garrett sabe que assim é. No entanto, dispara. O porquê de assim ser nunca o entenderemos, talvez seja culpa da inevitável natureza das coisas.

PREOCUPAÇÃO

Já estás melhor do vento?
Beatriz, 6 anos.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

ERLING KITTELSEN


Nascido em 1946, o norueguês Erling Kittelsen publicou mais de quarenta obras desde a estreia, em 1970, com uma colectânea de poemas intitulada Ville Fugler (Wild Birds). Além de poesia, escreveu peças para teatro, romances, literatura infantil, tendo obtido alguns prémios relevantes. Do corpo total da sua obra destacam-se três sequências longas: Tiu (1982), Hun (She, 1989) e Diktet løper som en by (The poem runs like a city, 2000). Selected Poems (Aschehoug, 2012),edição bilingue com versões inglesas de John Irons, colige alguns poemas, organizados cronologicamente, de todos os seus livros. Trata-se de uma poesia que reflecte um trabalho intenso de arqueologia literária, por vezes consubstanciado em diálogos complexos com obras clássicas nórdicas e não só. A concisão do poema, apesar das sequências mais extensas, é uma característica geral que se manifesta logo nos textos iniciais: «Pássaro humano / lançamos-te / do penhasco // sabes voar?» (Wild Birds, 1970, p. 9) Esta vertente epigramática, frequentemente acompanhada de interrogações, imagens misteriosas, anáforas, coloca a poesia de Kittelsen num território enriquecido pelos domínios da mitologia e da antropologia religiosa. No entanto, estes poemas parecem mais afectados pela dúvida do que por uma eventual realização hierofântica, mesmo quando num livro intitulado Abiriel’s Lion (1988), que remete para um épico de Henrik Wergeland (1808-1845) sobre a criação do universo, podemos ler versos talvez recriáveis assim: «Um raio de verdade toma-me e aquece-me / brilha – vibra através de mim. / Será disto que se pretendem livrar? / Um vislumbre que do coração emerge / com força, onda que em câmara-lenta pauta o voo / noutra direcção ciciando como a cauda estirada de um dragão / se mostra ela mesma: não tanto para ceder, não para ficar lá / A sombra que elucida a luz» (p. 33) O carácter culto destes textos gera algumas dificuldades que não têm que ver apenas com a inacessibilidade das fontes, mas também com uma distanciação da realidade imediata em favor de uma relação com lugares mitológicos penetrados pelo sujeito poético. Nem sempre assim é, porém. A diversidade manifesta-se, por exemplo, nos poemas do livro in (i, 1995), onde descobrimos esta poética em toada algo irónica: «Para saltar sobre troncos num rio desgarrado / o realista alinha-se com a realidade / o romântico segue desenfreado e desvia-se do caminho / o pós-moderno encontra o mundo já / desconstruído e borrifa-se / o neo-realista vê muito claramente num salto / as considerações lucrativas do fornecedor de madeira / o surrealista arrasta um francês / e acaba na cascata, o periferista / também acredita que vai andar no meio da corrente / o futurista parte em sapatos de tamanho único, perde / Estamos sentados nuns pedregulhos a acompanhar / o ballet do rio, uma crescente fina camada de celulose / com um doentio cheiro ácido revela sonhos / em actividade, políticas em bloco, poluição, uma luta / para violetas, ligações rodoviárias, premonições / Desgarrado? Quem chamou desgarrado ao rio? / Está a fluir com muita calma» (p. 57) Lugar de refúgio e de exílio, o poema é, no universo de Erling Kittelsen, um reflexo onde a realidade apenas se sugere, não se representa. O poema recebe-a de um modo elíptico e indeterminado, uma espécie de revelador acaso da linguagem. Do poeta espera-se apenas uma certa predisposição:

Vou sentar-me aqui até que alguém chegue
Não sairei daqui
Não vou esconder-me
Aqui me sento, aqui fico, aqui caminho
voo aqui, sem saber onde pousar minhas asas
ou onde estão a ser cortadas
Não vou verificar ao voltar da esquina
Não vou procurar nos meus antepassados
Não vou simpatizar com descendentes
Eu não tenho assim tantos amigos aqui
Mas se tiver problemas, alguém há-de aparecer
tenho muitos amigos algures
mas se as coisas pioram, ninguém aparece
eles também não vão compreender o vazio
Olhar apenas as sombras enquanto passam
embora em chamas, o coração calmo
algo no ar; não argumentar
algo em mim está firme, espaço à volta
devo ficar aqui para receber tudo

Do livro Mottakeren (The Receiver, 2005)

A VIDA DE PI

 
Ainda que se movimente sobre quatro patas, tenha unhas afiadas e dentes de sabre, ainda que nascido por adopção numa Bengala imaginária, sobre a qual se arqueia um arco-íris com a largueza de todas as cores do mundo, ainda que feroz não ruja tanto quanto rosna o seu querer e lhe cresça um pêlo muito belo, cobiçado pelos criminosos que só vêem tapetes onde nós vislumbramos mistérios divinos, sempre que o coração se metamorfoseia em felinas aventuras, Pi não é um tigre e o tigre jamais foi Pi. Roger Parker vive dentro de Pi como este se reflecte nos olhos daquele, mas entre ambos há uma fé que os separa e, por isso, seguem caminhos diferentes quando, a salvo das tempestades, podem voltar as costas um ao outro sem terem sequer tempo para um adeus. Nesse sentido, o tigre é mais inteligente que o homem. O homem escolhe a sua história preferida, perde-se num labirinto infindo de deuses e credos, pode encontrar explicações, inventá-las, supô-las, mesmo que reconhecendo-lhes a fragilidade das histórias. O homem pode ficar a sofrer. Já o tigre, o tigre pode apenas ser ele próprio, aprendendo, quem sabe, a responder aos truques do homem com a desconfiança da plateia que assiste à actuação de um mágico. Juntos, entram-nos pelos olhos adentro como um milagre que torna os dias menos sombrios e as noites mais claras.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

AUTOBIOGRAPHY

there’s no need to tell, you know me
I lack a sure course, I find amusement on the treetops
blowing thoughts into the world under the spell of night.
people are other as they wake, you knew that already,
this contemporary misting of niggly fear
we mislay in cities and bodies, you joined
the game ahead of me, the music’s sulphur and the
bewitchment of the lake, brief innocent man who dreams
as well you know.
Then I hired the witch for a vast black night.
and my life changed, the night grew longer,
the vertigo burned into my arms till they bled
of tedium when I thought you’d be lost forever.
In the struggle I shed an arm or two,
more than I had. but this memory is a palace,
corals of the mind. gardens and ghosts,
profound and stratospheric child drinking
from the blade in its hands: no arms and now nothing.
you didn’t understand me, I let the furies loose.
it’s an art, I meant to say, killing without recall
or delay – ah those arms to stay the hands –,
without the hoarse fear without ground that is sparse.
reaping. saturn. and. the. wind. on. the. prow. lifting.
the: ship: over: the: sea: still: completely.
still. how shall I say? not to say, I am. a dreadful
and multiple life. And now I rest
lying on these hands that move
unsupported, you know, that rise from your eyes
in the morning.


Rui Costa. Aqui.

domingo, 13 de janeiro de 2013

I SHOT JESSE JAMES (1949)


Num livro intitulado Made in America, o escritor Bill Bryson refere que, «por volta de 1920, os westerns representavam quase um terço das produções de Hollywood. Mas o seu verdadeiro auge deu-se nos anos cinquenta, na televisão. Em 1959, o ano-zénite das séries de cowboys, o telespectador americano podia escolher entre vinte e oito séries que passavam na televisão – a uma média de quatro por noite». Facilmente se entende este sucesso no contexto norte-americano, ávido de heróis nacionais e semideuses tão realistas quão pragmáticos. A mitologização do Oeste representada pelo western respondeu, deste modo, a um desejo das populações. Daí que a figura do cowboy, quase sempre descontextualizada da sua realidade histórica, seja, neste domínio, tão determinante como a do fora-da-lei. O mesmo se passa com o índio, o peregrino, os colonos, o marshal, o sheriff, o mineiro ou as cidades fantasma e os “lugarejos poeirentos”. São personagens e elementos de uma paisagem onde vamos reencontrar os conflitos essenciais da humanidade, nesse estado primitivo que procuramos constantemente como quem busca a raiz do que somos. Não nos admiremos, pois, que a velha Europa tenha adoptado este fascínio pelas recriações da Oregon Fever. Ao olhar assim para o Novo Mundo, o cinéfilo europeu regressa ao berço mitológico da civilização. E sabemos o quão fundamentais foram os mitos na construção da humanidade, chamem-se eles Prometeu, Robin Hood ou Jesse James. A vantagem deste é o de ter sido real, atingindo o Monte Olimpo na mitologia dos foras-da-lei do velho Oeste mais pela morte que teve do que pela vida que levou. A vida foi a de um homem que encontrou nos assaltos a bancos e comboios uma forma de perpetuar a guerrilha dos confederados após a Guerra Civil. Assim ganhou fama e se transformou numa lenda local, ascendendo posteriormente ao panteão dos mitos nacionais (e internacionais) muito por culpa de Robert Ford, o elemento do gangue de James que o assassinou pelas costas. É em Robert Ford que Samuel Fuller (1912-1997) centra as atenções no seu filme de estreia, o western I Shot Jesse James (1949). O filme de Fuller é uma boa ferramenta para separarmos o trigo do joio. Longe de mitologizar, como que desconstrói os próprios mitos. Num só rosto, a coragem mistura-se com a cobardia, a firmeza com o pânico, a fidelidade com a traição. Nada preocupado com a figura mitológica de Jesse James (Reed Hadley), Fuller recria na personagem de Bob Ford (John Ireland) uma espécie de Judas à procura de redenção. Muito antes de Brokeback Mountain, este filme chega mesmo a sugerir uma relação entre dois homens que transcende a mera cumplicidade. Desde a cena inicial com James a tratar de uma ferida de Ford, ao amor que este confessa por James na hora derradeira, percebemos que havia entre os dois uma relação complexa e nada convencional. Ford assassina James para poder levar uma vida normal com Cynthy (Barbara Britton), mas logo descobre o quão impossível essa normalidade se afigura. Não apenas porque Cynthy não o ama tanto quanto o teme, chegando mesmo a repeli-lo ao saber da sua condição de traidor, mas porque o fantasma de James o persegue revestido de um arrependimento que termina na confissão de um amor traído. A certa altura, Bob Ford escuta num saloon uma canção que o menospreza na exacta medida em que glorifica Jesse James. A postura de Ford, já depois de ter revelado a sua identidade ao amedrontado, trémulo e gaguejante bardo, que se vê obrigado a cantar a canção até ao fim, é a de um homem perseguido não só pela sua consciência, não só por um fantasma, mas sobretudo pela percepção do mal que fez a si próprio ao assassinar pelas costas o homem que amava para poder ficar com a mulher que lhe poderia oferecer uma vida normal. Recordemos a cena:


O terror experimentado por este homem é o de quem acaba sozinho, sem passado nem futuro, no pântano do remorso. Ao entregar Jesus nas mãos dos romanos, Judas condenou-se a si próprio. Uma leitura mais solene da denúncia dirá que se sacrificou, mas não estamos certos de que Judas o tenha compreendido antes de se pendurar pelo pescoço. Ao matar Jesse James, Robert Ford condenou-se a si próprio à máxima das penas. Ficou isolado no interior de uma cela horrível, a de não ter ninguém que o amasse como ele, afinal, amava o homem que matou.

VENDEDORES DE TAPETES

 
 
Camarada Van Zeller, antes de mais permita-me felicitá-lo pela sagacidade com que olha o mundo actual. É óbvio que o estudo do FMI sobre a reforma do Estado, encomenda de Gaspar e companhia, chegou à comunicação social pela mão do próprio Governo. A táctica não é nova. Chamam-lhe técnica do vendedor de tapetes, e consiste em propor o mais elevado dos preços para se chegar a um acordo razoável. Pratica-se muito nos souks árabes e no governo de Coelho, Relvas e Gaspar, os três reis magos que seguem caminho montados num camelo de apelido Portas. Sucede que neste caso não há razoabilidade possível, o preço a pagar é já o preço da catástrofe em que estamos metidos. Na semana em que se anunciou o pior dos cenários, os temas que entusiasmaram as hostes foram uma mala da Chanel e o abate de um cão. Ora, eu gosto muito de estudos. Venham eles do FMI ou de um instituto californiano qualquer. Gosto deles porque nos permitem brincar com os números como se por detrás dos números não existissem vidas, pessoas, famílias, gente interessada numa mala da Chanel e no abate de um cão. Por isso me interrogo se dos 100 mil milhões de planetas descobertos pelos cientistas do Caltech não haverá pelo menos um, por ínfimo que seja, onde eu possa montar a tenda para me ver livre desta gente toda. Não desejo mal a ninguém, como vossa excelência perceberá, mas também não o quero para mim. E neste momento, perdoe-me o tom confessional, sinto-me uma autêntica aberração numa república das putas, para utilizar a certeira terminologia do João Magueijo. Saberão quem é João Magueijo os milhares de humilhados e ofendidos que passaram a semana a discutir o putativo abate do cão Zico? Será, para essa gente, tão familiar o apelido Magueijo como o nome Zico? Duvido. Por isso lhe sugiro, camarada Van Zeller, a atenta leitura do artigo que o físico português publicou no Público da passada sexta-feira. A República das Putas é o título, recorda a célebre Dona Branca e aposta que, fosse hoje, a banqueira do povo mereceria um bónus de milhões e teria uma posição de topo na Wall Street. Ora, não é precisamente isto que constatamos todos os dias? Perguntem ao Jardim Gonçalves. Cito Magueijo, interesse o discurso a quem deseja malas Chanel ou não: «Os jogos financeiros contemporâneos são tão abstractos e auto-referenciais que trocando a coisa por miúdos mais não são do que comprar e vender dinheiro, como fazia a Dona Branca. Por razões que nunca entendi, muitas das galinhas dos ovos de ouro, em Londres e Nova Iorque, são físicos teóricos e matemáticos falhados, ex-colegas meus em alguns casos. Temos tido acesas discussões, mas numa coisa concordamos: a teoria do caos e o Lema de Ito que se lixe, aquilo é simplesmente jogar na lotaria. Como é que trocar acções por computador ao microssegundo, como se tem vindo a propor, pode corresponder a alguma operação económica? Aquilo é verdadeiramente a Dona Branca: uma pescadinha de rabo na boca financeira, “financiar o financiamento das finanças financiadas”, num jogo bem enterrado no umbigo da Wall Steet e da City de Londres, um totoloto mundial mas com um belo seguro contra perdas: quando se ganha, ganham eles; quando se perde, pagamos todos, em cascata». Matéria demasiado abstracta, quiçá, para quem se coloca ao nível de um cão. Discutamos, pois, tourada. É assunto por todos facilmente dominado. Que importa que uma instituição financeira como o FMI venha propor uma redução de 15% nas pensões de reforma ou um corte em 3 a 7% nos vencimentos dos funcionários públicos ou a redução de 10 a 20% dos actuais trabalhadores do Estado ou o despedimento de 50 mil trabalhadores na área da educação, etc, etc, etc? Nada disto tem qualquer importância no país das Pêpas e dos Zicos. Bem pode o Camilo Lourenço pedir que o FMI se mantenha em Portugal mais uns quatro ou cinco anos, a austeridade não fere os portugueses, não os atinge, não os indigna tanto quanto os direitos do Zico. Os eleitores não se queixam da tortura. Podem ser massacrados, roubados, vigarizados, lapidados que o seu comportamento será como o de um homem a quem cortam um braço e ele fica feliz por lhe restar outro, cortam-lhe o outro e ele agradece a Deus ter as duas pernas, cortam-lhe uma das pernas e ele sente-se grato pela que ainda tem, cortam-lhe a perna que resta e ele suspira de alívio por ainda ter cabeça, cortam-lhe a cabeça e ele pergunta-se onde raio a meteu. São altíssimos os juros que andamos a pagar pelos empréstimos contraídos, mas mais grave é esta amorfia social que já não pode ser considerada meramente indiferente. Sendo vítima, não deixa também de ser cúmplice dos seus criminosos. Vejam bem o paradoxo em que estamos metidos.
 
Ao alto: Samuel Fuller e... Zico?

sábado, 12 de janeiro de 2013

O MENTIROSO


Escritor prolixo, com mais de cem contos escritos num tempo em que os contos não se resumiam a meia dúzia de linhas, o nova-iorquino Henry James (1843-1916) foi durante largos anos desconsiderado pelos seus pares europeus. Não admira. Filho de Henry James Sr., que era amigo de Thoreau e Emerson, James tinha uma ideia do Velho Mundo e do seu puritanismo que, à época, dificilmente seria aceite sem reservas. Um dos temas implícito em muitas das suas obras é, precisamente, a oposição entre o Velho e o Novo Mundos, tendo este, aos olhos de James, tanto de rude e inocente quanto aquele tinha (tem?) de hipócrita e sofisticado. As origens eruditas permitiram-lhe estudar com tutores nas mais importantes cidades europeias, por cá permanecendo grande parte da vida. Em 1915 chegou mesmo a adoptar nacionalidade britânica, como forma de protesto contra a posição adoptada pelos Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial. Em termos identitários, podemos dizer que Henry James viveu numa espécie de limbo. Sem ser europeu, também não se reconhecia como americano. Na apresentação de O Mentiroso (Sistema Solar, Outubro de 2012), o tradutor Aníbal Fernandes refere que Henry James se ressentia «com a objecção de vozes bem instaladas nos seus prestígios». Exemplos? H. G. Wells, Oscar Wilde, André Gide… Ainda assim, teve os seus admiradores. E o tempo impô-lo como um dos maiores escritores de língua inglesa. A novela O Mentiroso (115 pp.), escrita no ano da graça em que Pessoa nasceu, não o desmente. Oliver Lyon é um pintor que se desloca a uma localidade chamada Stayes para pintar o retrato de um tal Sir David. Aí se cruza com várias personalidades, entre as quais Everina Brant, antigo amor ainda por sarar, e o coronel Capadose, com quem Everina está agora casada. A trama da novela desenrolar-se-á, essencialmente, entre estas três personagens, com as suas características psicológicas bem delineadas e os vícios e virtudes de cada uma por determinar. Nada é óbvio em cada uma delas, por tudo parecer discutível. Esse é um dos grandes méritos de Henry James, saber reproduzir a realidade sem a esgotar numa única perspectiva, admitindo-lhe nuances diversas, dúvidas, sombras. A consciência que Oliver tem de si, por exemplo, não é a mais exacta. Denota alguma insegurança na avaliação que faz de si próprio e isso acaba por reflectir-se no modo como observa quem está à sua volta. Mr. Capadose é o mentiroso compulsivo que oferece pretexto à obra; e Everina, Mrs Capadose, a personagem ambígua que tanto o leitor como Oliver parecem querer desvelar. A natureza feminina, não sendo central neste texto, acaba por conferir à narrativa uma dimensão metafórica bastante subtil. Porque a questão central nesta obra, mais do que esse aspecto caricatural da mentira inofensiva, ainda que compulsiva, é a da natureza da arte. Oliver é pintor, um retratista célebre que consegue reproduzir na tela os ângulos menos evidentes da alma humana. Só assim entenderemos a atitude de Everina quando vê o retrato que Oliver fez do coronel Capadose. As mentiras do marido, disfarçadas com uma incensurável cumplicidade, sobem-lhe à superfície do rosto, os vícios da sua personalidade como que ficam evidentes, explícitos ao olhar humano. E isso é deveras perturbador. Esta leitura concorda com a fé que Henry James colocava na arte, cuja função seria fintar a hipocrisia do mundo dizendo a verdade. Mas esta verdade, paradoxalmente, só parece ser possível traindo a realidade. Daí que o famigerado realismo de Henry James seja tão questionável como qualquer outro ismo, não circunscreve uma leitura unívoca da arte e, muito menos, do mundo. É um realismo perturbado pela constatação de que representar é trair, embora esta traição se revele o caminho mais eficaz na direcção da verdade. Perigoso caminho, é certo, mas livre, imune ao amestramento que a mentira almeja quando resulta da conveniência. O período que atravessamos, não sendo especialmente vitoriano, tem muito desta ambiguidade. Note-se como cada vez mais a realidade se confunde com o universo virtual onde ganha expressão e adquire sentido na vida das pessoas, obrigando-nos, tantas vezes, a desmenti-la se pretendemos chegar à verdade do que quer que seja. É preciso desmentir a realidade para chegar à verdade. Caso contrário, abre-se a porta ao equívoco, ao mito, ao boato, por ser muito mais conveniente acreditar no preconceito e no estereótipo do que desmontá-lo com o sentido crítico de quem admite as várias faces de um mesmo objecto. Eis o reino da hipocrisia que apenas a arte logra desconstruir, isto quando também ela, institucionalizada, não se transforma em mais um elemento dessa hipocrisia.

HUMANO


Com o homem começa o invisível.
O que se diz é o que se esconde, os olhos
giram para bem longe da sua fome.
O homem enche a sua fome de poemas,
os seus poemas de sonhos de amor,
os seus sonhos de amor de coisas impossíveis,
como a eternidade ou o lugar perfeito
onde nos deitaremos a ouvir o pensamento
dos pássaros, a água que corre aflita
com medo de ser pouca no chão tanto,
com a loucura do mundo a crescer no
nosso sexo, no nosso pensamento,
com o mundo a crescer vibrante a cada instante,
por dentro de nós, em nós, por fora de nós,
sem parar, sem memória, sempre,
sem fim, sem infinito, para lá das coisas que nos vencem,
para lá do sonho, nesse lugar além de tudo quanto
pode ser dito, de tudo quanto foi dito, além da história
do que somos, da vida que vivemos, todos, incluindo os mortos,
os que ainda não nasceram, os que se vendem, por dinheiro
ou excesso de tristeza, os que acreditam na vida, na beleza,
na utilidade prática da arte, na invencibilidade do amor,
na irmandade dos homens que constroem um mundo melhor,
homens e mulheres que estão aqui, ou que porventura
chegarão amanhã, quando nós e eles formos outros,
maiores que o dia que passou, que a noite que nos guarda,
quando o invisível for mais perto do braço que nos toca,
dos olhos onde revemos a história do mundo,
deste momento onde parimos a luz


Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Prémio Daniel Faria 2005, Quasi Edições, Maio de 2005, pp. 35-36.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

HANG ‘EM HIGH (1968)





A sequência do enforcamento público que acompanha a chegada de Mattie Ross a Fort Smith, Arkansas, remeteu-me para um western do praticamente desconhecido Ted Post (1918). Hang ‘em High foi o seu terceiro filme para cinema e conta com Clint Eastwood no papel principal. Eastwood é um ex-agente da lei, convertido em cowboy, apanhado por engano no centro de um linchamento, depois do homem a quem tinha comprado uma manada de vacas ter sido assassinado com toda a sua família. Já pendurado pelo pescoço, Eastwood, isto é, Jed Cooper, é salvo da morte por um Marshal de passagem naquela zona. O Marshal chama-se Dave Bliss (Ben Johnson) e trabalha para o juiz Fenton (Pat Hingle) num suposto Fort Grant, na região do Oklahoma.
Na realidade, trata-se exactamente de Fort Smith e o juiz Fenton é, nada mais, nada menos, do que o impiedoso Isaac Charles Parker, que ficou conhecido para a história dos EUA como o juiz dos enforcamentos. Esta realidade histórica, que em True Grit aparece referida lateralmente, é o pano de fundo do filme de Ted Post. Mas Hang ‘em High tem um outro elo, simplesmente caricato, com o True Grit de Henry Hathaway. Em ambos Dennis Hopper surge para ser assassinado na única cena em que aparece. Um outro actor que reencontramos em Hang ‘em High é Ben Johnson, o Chris Calloway de Shane. Pormenores do elenco que, sem serem fundamentais, estabelecem algumas ligações curiosas na história do western.
O que é essencial, neste caso, é a recriação do ambiente justicialista que encontramos em múltiplos destes filmes. Lembram-se do linchamento popular de Johnny Guitar? Realista ou caricatural, este ambiente ajudou a estereotipar uma imagem do antigo Oeste que está longe de ser pacífica. Inegável parece ser a evolução de uma humanidade que, afinal, já passou e, de certo modo, continua a passar por coliseus romanos, torturas públicas, lapidações, vias-sacras, fogueiras medievais, caças às bruxas e ao homem, fábricas de morte como campos de concentração e “gulags”. A história da justiça, ao contrário desta, não é cega; esquece-se, por vezes, de que entre o crime, a condenação e a pena há a vontade popular.
Ora, este filme de Ted Post questiona, precisamente, uma justiça desenhada à imagem e semelhança da vontade popular. Opondo-se a esta vontade (a missão do Marshal Jed Cooper será levar à justiça os homens que o lincharam), contrariando esse conceito de “justiça pelas próprias mãos”, acaba por a ela sucumbir sempre que se transforma em espectáculo. A caracterização de Fort Smith, convertido em Fort Grant, é inclemente, tendo Post carregado nas cores que nem Hathaway, nem mesmo os irmãos Coen, quiseram repetir. O aspecto moralmente sórdido da execução pública é transformado num espectáculo deplorável, com o povo a consumir cerveja gelada e doces enquanto aguarda o enforcamento. Algumas mensagens finais dos condenados são abafadas pela multidão expectante, mas animada. E um deles, já com a corda ao pescoço, afirma reconhecer na plateia gente bem pior do que ele. Não duvidamos.
O que o Marshal Jed Cooper vem a descobrir, ele que foi vítima da pior das injustiças, é o que o juiz Fenton pretende disfarçar. Não há justiça onde apenas reside um mórbido desejo de vingança. A inclemência do juiz, assistindo às execuções de um lugar privilegiado, surge-nos assim tão ou mais criminosa do que os crimes cometidos por alguns daqueles condenados, como os dois jovens que Jed Cooper tenta absolver depondo em seu favor. É o próprio Jed Cooper quem perdoa um dos seus executores, reconhecendo nele uma inocência que a lei cega do juiz Fenton não quer ver. E quando toma conhecimento dos fantasmas que perseguem Rachel (Inger Stevens), a misteriosa mulher que espreita cada um dos prisioneiros chegados à cidade, ele questiona-se: e se nunca chegarmos a encontrar os nossos fantasmas?
Panfleto contra a pena de morte ou não, este filme tem o mérito de nos fazer pensar alguns dos mais repetidos lugares-comuns sobre o desinteresse da lei e a “cegueira” da justiça. Impressionante que se mantenha tão actual.

domingo, 6 de janeiro de 2013

UMA BARRAGEM CONTRA A ETERNIDADE.

Ponta Delgada, Açores. 2012.

VELHOS / 5

Aceita as suas próprias mãos
sobre os seus próprios joelhos.

Donde vieram elas até ali?
De que fundotempo se apuraram as ossudas?

Armas - da guerra por travar.
Instrumentos - do trabalho saqueado.
Signos - placidamente expostos.

As que foram blandiciosas ou rudes
repousam, caligráficas, nas dobradiças
dumas pernas tão alheias a ele, o velho,
que o velho começa e acaba nessas mãos pousadas,
dentro da visão que dele tenho
(lugar-comum a outro sobreposto,
a outro que é o velho no jardim?).


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Alexandre O'Neill.

Um poema de Hans Børli

A Machada (øksa)
 
A machada
aquela machada de aço nu
é o atributo do rapaz da floresta
tão imprescindível
como chave na mão de San Pedro.
Esgotei muitas machadas,
machadas Mustad, Machadas Finstad, machadas Suecas,
muitas –
Algumas serviram-me fiéis
em dias perfumados de árvores
outras iradas em acendalhas
e em pragas rogadas
à cabeça inválida do ferreiro.
Mas todas –
as falsas tanto quanto as fiéis –
tinham seu rosto
O seu austero perfil de aço
diferente de todas as outras.

Notas assim que brandes a machada,
o linguarejar próprio
a promessa vou encontrar-te
muitas manhãs,
durar nos teus sonhos
como recordação silenciosa.

E quando rodas a machada nova
ao primeiro golpe ensejado,
é como se os músculos ouvissem –

Se não aprendes a conhecer a tua machada
a amigares-te com ela,
então acontece: dar-te lembrança
das tradições sangrentas do aço.

(originalmente publicado em Ser Jeg en blomme i skogen, 1954)


Respigado aqui. Mais poemas de Hans Børli aqui. E mais, aqui.

sábado, 5 de janeiro de 2013

WE OWN THE FORESTS


Informa a Wikipédia que Eidskog é um município do condado de Hedmark, na Noruega. Etimologicamente, o nome da região junta palavras que remetem para as suas características físicas: um caminho entre dois lagos e bosques. Foi aqui, entre lagos e bosques, que nasceu o poeta norueguês Hans Børli (1918-1989). A sua origem é uma família pobre, de madeireiros, fortemente enraizada no árduo labor da floresta. Leitor insaciável, começou a escrever poesia no termo da jorna. À noite, enquanto os camaradas de trabalho descansavam, Hans Børli escrevia poemas. Muitos. A sua poesia reflecte com clareza a influência quer do lugar geográfico que ocupa, quer da sua condição social, resvalando por vezes para um tom crítico que acaba disfarçado por uma frequente postura contemplativa. We Own the Forests and Other Poems (Norvik Press, 2ª edição, 2007) recolhe alguns dos seus poemas, em edição bilingue, com versão inglesa de Louis Muinzer. Uma breve mas cativante amostra de uma poesia transparente, mas não óbvia, que estabelece uma relação com a natureza tão devota quanto intimista, colocando o poeta num espaço intermédio entre a voz e o silêncio. Os poemas de Børli coleccionam silêncios, as melodias da floresta, o restolhar do vento e a dança das árvores à sua passagem, descobrindo mensagens secretas na paisagem e sugerindo linguagens, vozes, mistérios nos rios, na fauna, na flora, no ambiente dos bosques. Um certo tom reflexivo relembra-nos autores como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, mas mais que transcendentalista Hans Børli é um humanista refugiado na solidão da floresta. Não se trata de uma poesia insensível ao mundo. São múltiplos os exemplos em que se torna política e até social, como nesses dois poemas que evocam Louis Armstrong (p. 71) e a sul-africana Miriam Makeba (p. 79) ou no poema Muro da Vergonha, publicado em 1984. No poema Louis Armstrong podemos ler a seguinte estrofe: «Vês todas as mãos brancas, Satchmo? / Estão a aplaudir. / Mãos que ferem, mãos que enforcam, mãos / que dividem uma escuridão suave e fértil / com a cruz incendiada do ódio. / Agora aplaudem. / E tu tocas, meu velho. Cantas / Uncle Satchmo’s Lullaby. O teu suor escorrendo, a tua respiração / pesando. Um sol recolhendo-se rapidamente / na boca brilhante da tua trompete. / Como as lágrimas numa garganta. // …the trouble I’ve seen» (p. 71). Não obstante, estas inclinações impõem-se enquanto manifestação de solidariedade para com os mais fracos, os humilhados e oprimidos, sem qualquer intuito que não seja o de exprimir um autêntico sentimento de fraternidade. No poema que oferece título à recolha, um dos mais conhecidos do poeta, os ricos opõem-se às suas gentes, aos homens e mulheres que têm a floresta como uma criança tem a mãe. Os ricos podem adquirir vários acres de floresta, mas jamais possuirão o murmúrio do vento ou o pôr-do-sol. Jamais escutarão a música da fogueira ateada numa noite solitária, jamais sentirão o perfume da terra ou compreenderão as mensagens que correm no silêncio das águas de um rio. A riqueza da vida numa gloriosa solidão, que tem por companhia a simplicidade, é a mensagem silenciosa que o leitor se sente convidado a ler nestes poemas. Longe dos ruídos urbanos, de uma ruína plástica enfadonha ou da torrencialidade de escritório, mas próximo dos homens que aí sobrevivem por não ser indiferente às suas dores. Não têm escola estas imagens, são poderosas porque vêm de onde vem toda a boa poesia, ou seja, da vida:

POESIA

Eu era inculto, grosseiro e monótono,
não tinha os modos dos bem-falantes,
guardei-me para as palavras ásperas
que se usam nos trabalhos grosseiros.
Mas por momentos o meu coração foi uma pedra
no monte ensolarado da vida: a Poesia da Borboleta Apolo
nela pousou casualmente,
aí ficando a bater as suas asas em flor.

 (de The Day is a Letter, 1981)

TRUE GRIT (2010)




Em 2010, os irmãos Joel & Ethan Coen fizeram um remake do western que valeu a John Wayne o Oscar por melhor interpretação masculina em papel principal. Agora exibido nas terras de Zé do Telhado com o título Indomável, o True Grit dos irmãos Coen partilha apenas com o filme de Henry Hathaway a mesma base narrativa, ou seja, o romance de Charles Portis. Quanto ao resto, são filmes substancialmente diferentes. Uma diferença perceptível logo à partida tem que ver com a atmosfera que serve de cenário à acção. A Primavera de Hathaway dá lugar ao Inverno dos irmãos Coen, à neve, ao frio, aos vapores e à respiração ofegante dos animais. Os Coen dispensam grande parte dos elementos emotivos que tornam a primeira versão algo sentimentalista, concentrando-se na personalidade determinada e firme da jovem Mattie Ross (Hailee Steinfeld). 
Deste modo, o filme parece desenvolver-se muito mais a partir dessa personagem que é a da jovem com um objectivo definido: vingar a morte do seu pai. A sua relação com o implacável Marshal Rooster Cogburn (Jeff Bridges) mantém-se, mas este deixa de ser uma figura paternalista para passar a ser, juntamente com o ranger LaBoeuf (Matt Damon), objecto de sedução no interior de uma personalidade adolescente desbravando caminho na direcção da maturidade. Mattie encontra-se, assim, entre dois pesos e duas medidas de avaliação da realidade. A sua determinação apenas vacila quando confrontada com a necessidade de optar. De um lado, o pragmático e informal Rooster Cogburn. A sua coragem é inegável, tanto quanto a determinação de Mattie em capturar o assassino de seu pai. Do outro lado, o formal e orgulhoso LaBoeuf, talvez mais metódico e previdente. 
Não se opondo um ao outro, Cogburn e LaBoeuf actuam de modo diverso. Se na versão de 1969 aparecem sempre juntos, intervindo em equipa, agora são separados, seguem trilhos diferentes, não divergentes, reencontram-se, separam-se novamente, distanciam-se, reaproximam-se. Este duelo sem balas mantido entre ambos, esta espécie de jogo que tem na sua origem personalidades distintas, oferece a Mattie o que há de essencial na construção de uma personalidade: o choque de valores. Cogburn e La Boeuf acabam por se constituir como o pai ideal para Mattie depois de o pai real haver sido assassinado. Não é acidental o discurso derradeiro de um dos condenados na cena de enforcamento, dirigindo-se aos filhos e à importância das boas companhias. É uma subtileza humorística que se compreende no desenrolar da história. 
Mas esta história aceita também uma outra perspectiva. Se é verdade que a interacção entre Cogburn e LaBoeuf amadurece Mattie, também não deixa de ser verdade que é a resolução desta jovem que transporta aqueles homens para uma outra dimensão, talvez heróica, onde as hesitações humanas que quase os levam a desistir do objectivo inicial acabam por ser superadas pela necessidade de intervir. Lembremo-nos de que LaBoeuf morre no filme de Hathaway. Os Coen mantêm-no vivo porque isso se torna indiferente. Não há aqui nenhuma necessidade de exaltar o papel de Cogburn. Há, antes, uma vontade clara de nos fazer perceber que é Mattie quem está no centro das atenções. E esta recolocação da narrativa sobre os ombros de uma personagem obriga-nos a uma pergunta essencial, afinal onde reside essa valentia, essa firmeza, essa coragem que dá título ao filme na expressão de true grit? 
Joana d’Arc do velho Oeste, sem a componente mística e muito mais realista do que a própria realidade, esta Mattie Ross não pode ser apenas ficção. É uma energia que advém do desejo, personalização daquilo a que Nietzsche em tempos chamou vontade de poder e alguns interpretaram, maldosamente, como “vã glória de mandar”. Ela é uma força porventura incomensurável e indeterminável cientificamente, que não se resume apenas à coragem desmedida de Cogburn nem à bravura deontológica de LaBoeuf. É uma força íntima, inerente ao ser, que desabrochará subjectivamente em cada um de nós sempre que formos confrontados com o que não pode deixar de ser feito, sob pena de, não sendo feito, roubar-nos a nossa própria identidade.