sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
O PODER DA CANÇÃO
Por variadíssimas razões, este documentário deve ser visto
do princípio ao fim. Não darão o tempo por perdido.
domingo, 26 de janeiro de 2014
PILARES DO MUNDO CIVILIZADO
Túpac Amaru II e Zumbi mereciam um lugar ao lado dos
grandes navegadores. No entanto, os seus nomes não vêm nos manuais. O primeiro
foi, como aqui se diz, «um caudilho indígena líder da maior rebelião
anticolonial que se deu na América durante o século XVII». À chegada dos
espanhóis, o império inca estendia-se por um vasto território que compreende
hoje países como o Peru, a Bolívia e o Equador, parte da Colômbia e do Chile,
até ao norte da Argentina e à selva brasileira. Nuestros hermanos arrasaram esta
ancestral civilização. Os índios foram transformados no «combustível do sistema
produtivo colonial» (Darcy Ribeiro), atirados para as minas de ouro e de prata
onde trabalhavam até a morte os libertar. Em 1781, Túpac Amaru II,
descendente do imperador com o mesmo nome que os espanhóis haviam executado no
século XVI, encabeçou um movimento revolucionário que pretendia libertar os
escravos, acabar com a exploração de mão-de-obra indígena e abolir os impostos.
O fim da mita (ver aqui) era um dos objectivos da revolução. Eduardo Galeano
recorda os últimos dias do herói esquecido:
Al frente de sus guerrilleros, el caudillo se lanzó sobre
el Cuzco. Marchaba predicando arengas: todos los que murieran bajo sus órdenes
en esta guerra resuscitarían para disfrutar las felicidades y las riquezas de
las que habían sido despojados por los invasores. Se sucedieron victorias y
derrotas; por fin, traicionado y capturado por uno de sus jefes, Túpac Amaru
fue entregado, cargado de cadenas, a los realistas. En su calabozo entró el
visitador Areche para exigirle, a cambio de promesas, los nombres de los
cómplices de la rebelión. Túpac Amaru le contestó com desprecio: «Aquí no hay
más cómplices que tú y yo; tú por opresor, y yo por libertador, merecemos la
muerte».
Túpac fue sometido a suplicio, junto com su esposa, sus
hijos y sus principales partidários, en la plaza del Wacaypata, en el Cuzco. Le
cortaron la lengua. Ataron sus brazos y sus piernas a cuatro caballos, para
descuartizarlo, pero el cuerpo no se partió. Lo decapitaron al pie de la horca.
Enviaron la cabeza a Tinta. Uno de sus brazos fue a Tungasuca y el outro a
Carabaya. Mandaron una pierna a Santa Rosa y la outra a Livitaca. Le quemaron el torso y arrojaron las
cenizas al río Watanay. Se recomendó que fuero extinguida toda su
descendencia, hasta el cuarto grado. (Las Venas Abiertas de América Latina, p.
66)
Mais a norte, sob regência portuguesa, Zumbi tornou-se
conhecido ao liderar o movimento de resistência do Quilombo dos Palmares.
Situado no nordeste brasileiro, este reinado independente habitado por escravos
fugidos das fazendas de açúcar tinha uma área próxima à do território português
actual. Diversas investidas, tanto por parte de holandeses como dos portugueses,
tentaram derrubar aquela espécie de estado tribal. Zumbi deu seguimento à
resistência de Ganga Zumba até ao dia 20 de Novembro de 1695.
La abundancia de alimentos de Palmares contrastaba com las
penurias que, en plena prosperidad, padecían las zonas azucareras del litoral.
Los esclavos que habían conquistado la libertad la defendían con habilidad y
coraje porque compartían sus frutos: la propiedad de la tierra era comunitária y
no circulaba el dinero en el estado negro. «No figura en la historia universal
ninguna rebelión de esclavos tan prolongada como la de Palmares. La de
Espartaco, que conmovió el sistema esclavista más importante de la antigüedad,
duró dieciocho meses» (Décio de Freitas). Para la batalla final, la corona portuguesa
movilizó el mayor ejército conocido hasta la muy posterior independencia de
Brasil. No menos de diez mil personas defendieron la última fortaleza de
Palmares; los sobrevivientes fueron degolados, arrojados a los precipícios o vendidos
a los mercaderes de Río de Janeiro y Buenos Aires. Dos años después, el jefe
Zumbi, a quien los esclavos consideraban inmortal, no pudo escapar a una
traición. Lo acorralaron en la selva y le cortaron la cabeza. Pero las
rebeliones continuaron. No passaria mucho tiempo antes de que el capitán
Bartolomeu Bueno Do Prado regresara del río das Mortes com sus trofeos de la
victoria contra una nueva sublevación de esclavos. Traía tres mil novecientos
pares de orejas en las alforjas de los caballos.
Eduardo Galeano, in Las Venas Abiertas de América Latina,
Siglo Veintiuno Editores, 2010, pp- 113-114.
JÁ NÃO HÁ PACHORRA PARA GELATINA DE MORANGO
Periodicamente, o país acorda para o mundo das praxes. Recorre
ao tema motivado por um jovem assassinado com uma cronhada na cabeça, uma jovem
mergulhada num monte de merda, uma outra violada a contragosto (no mundo das
praxes há delas que gostam) ou, mais recentemente, seis pseudo-doutores engolidos
pela gula das marés. A malta das praxes tem as suas hierarquias, veste-se a
rigor, promove sociedades secretas com rituais mais ou menos obscuros, venera
fardas e hinos, sob o olhar cúmplice e apaixonado de pais e professores
orgulhosos. Têm as suas bandeiras, os seus símbolos. A academia aceita, desmistifica, moraliza eventuais
atentados à dignidade humana, desinflaciona a dimensão grotesca e bruta da
humilhação iniciática. Afinal, só é praxado quem quer e quem quer gosta,
voluntaria-se se for preciso, está disposto a tudo para poder sentir-se parte
integrante do grupo que há-de promovê-lo à condição de senhor perante futuros
escravos. Assim se cresce e se faz homem e mulher quem nasça no mundo
civilizado. É a tradição, palavra há muito utilizada para desculpabilizar e absolver
todo o tido de atrocidades. O curioso disto está em constatar certo
etnocentrismo encapuçado. As mesmas pessoas que vemos falar das praxes com
orgulho ou simples desdramatização são capazes de apontar com a mais estúpida
insensatez o fanatismo religioso islâmico, os rituais incivilizados da raça
cigana, a violência genética dos pretos, numa prática do preconceito e do
estereótipo cultural há muito enraizada na assoberbada nossa cultura. Ironia das
ironias, o debate actual sobre as praxes acontece na mesma altura em que
investigadores se manifestam contra o desinvestimento do governo na ciência.
Anunciados cortes nas bolsas de estudo, que podemos fazer acompanhar de outros
tantos cortes na cultura e no ensino, são a cereja no topo do bolo deste
retrocesso civilizacional. Ou então não há retrocesso nenhum. Andávamos todos
iludidos e o país continua a ser o que sempre foi desde a sua origem: um
caldeirão de equívocos. Foi um equívoco que nos tornou país, foi um equívoco
que nos tornou messiânicos, foi um equívoco que nos levou às américas, foi por
equívoco que nos julgámos ricos, equivocadamente aguentámos 50 anos de ditadura
e vai fazer 40 anos que vivemos debaixo de um equívoco democrático. O mal que
levámos ao mundo, nós e outros como nós, talvez seja a raiz do problema. Repare-se
como glorificamos as chamadas descobertas sem sentirmos vergonha ou o mínimo
peso na consciência pelos milhões de índios que condenámos à morte e outros
tantos pretos que arrancámos das suas terras para os tratarmos como gado. E dos
tempos coloniais continuamos a falar como quem fala de gelatina de morango. A
História não nos pesa na consciência porque: 1. É passado; 2. O que lá vai lá
vai; 3. Já não me lembro. Esta falta de consciência história é um mal tremendo,
ilude virtudes que não temos e impede, atrasa, retarda o mais importante dos progressos. Um progresso civilizacional que tornasse a corrupção
inaceitável e intolerável, ao contrário da prática generalizada que se faz da
mesma desde o mais banal “chico esperto” aos altos cargos do poder; um
progresso civilizacional que fosse implacável para com práticas desumanas,
venham elas de claques, gangues ou associações académicas; um progresso
civilizacional que não considerasse desperdício o investimento na ciência, na
cultura, na educação, na saúde, pelo menos com a mesma alegria com que estupidamente
aplaudimos a construção desnecessária de estádios de futebol ou exposições
internacionais ou auto-estradas inúteis; um progresso civilizacional que
arrancasse os cidadãos da modorra e da indigência social em que vivem,
extasiados com os feitos dos seus heróis futebolísticos e estupidificados com
lixo televisivo, para os elevar um pouco acima do ilusionismo que os endromina:
exigindo uma democracia de facto, contra as mentiras e a hipocrisia que
alimentam o motor da política e engordam 85 patrões beneméritos à custa da
exploração de 7 biliões de nano-pequenos-médios-escravos agradecidos. Longe disso,
indignamo-nos periodicamente com as praxes como se não fôssemos todos, mas
mesmo todos, responsáveis pelo estado em que estamos, tão brandos que
continuamos a ser com os facínoras que nos vão açucarando a existência à base de gelatina de morango.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
XICA QUE MANDA
A história de Francisca da Silva é conhecida. Quando os
portugueses andavam por Minas Gerais a sacar ouro e diamantes aos índios, uma
mulata de Tijuco tornou-se amante do contratador João Fernandes de Oliveira. A
mulata, conhecida por Chica, era filha de um português e de uma escrava
africana. Foram aos milhares, os negros capturados em África que os portugueses
levaram para as américas. Tinham bom corpo para as minas. Os preferidos eram os
guineenses, cria-se que possuíam poderes mágicos para a descoberta do ouro.
Nomes como Ouro Preto, Diamantina, Minas Gerais, guardam rios de sangue em cada
uma das letras. Mas a verdade é que, ontem como hoje, os pigs portugueses e
espanhóis apenas faziam o jogo sujo. Ganhavam com o negócio ingleses, da parte
lusa, e banqueiros alemães, genoveses, flamencos, da parte espanhola. As “coroas
ibéricas” viviam luxuosamente debaixo de hipotecas. Velhas histórias.
No seio da miséria, florejaram cidades luxuriantes
entretanto transformadas em ruínas com história. Eduardo Galeano conta que em
Potosí, na Bolívia do século XVII, havia cento e vinte prostitutas célebres que
faziam as delícias dos mineiros. Já em Ouro Preto, no século XVIII, os ricos
engalanavam-se com as últimas modas europeias e esbanjavam tudo em festas,
jogos, mulheres. João Fernandes de Oliveira, educado na melhor universidade
portuguesa, tinha a seu cargo a exploração de diamantes (actividade herdada do
pai). Apesar de nunca ter contraído matrimónio com a ex-escrava, da relação
pública e assumida nasceram 13 filhos. Xica tinha dois bastardos de anteriores
cruzamentos. Conta-se que a paixão de João Fernandes de Oliveira por Francisca
da Silva era tal que mandou construir um lago artificial, com barco e
tripulação no meio das águas, para satisfazer um velho desejo da amante: ver o
mar. Nada que se compare ao que Francisca fez por ele, salvando-o de nefastas maleitas
devidamente elencadas pela medicina da época. Cito Galeano, que por sua vez
cita Miguel Barnet, que por sua vez citou Esteban Montejo (vale a pena seguir
os links):
«En Cuba se atribuían propriedades medicinales a las
esclavas. Según el testimonio de Esteban Montejo, «había un tipo de enfermedad
que recogían los blancos. Era una enfermedad en las venas y en las partes masculinas.
Se quitaba con las negras. El que la cogía se acostaba com una negra y se la
pasaba. Así se curaban en seguida».
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
HISTÓRIAS DE LOUCURA NORMAL
Há dias dei por mim a padecer de síndrome bukowskiana, a
qual se manifesta, em termos gerais, num desconforto agudo perante a realidade
“pequeno-burguesa”. É como assistir aos episódios de Breaking Bad de pantufas
calçadas e manta sobre as coxas, indiferente à vulgaridade dos dias e sem
vontade de mudar o que quer que seja. Partindo do princípio que o leitor
compreenderá a insatisfação, podendo até considerar-se cúmplice, em doses
desiguais, deste desconforto, escusado será lembrar que Charles Bukowski
(1920-1994) foi, enquanto escritor, uma personagem de si próprio. Lê-lo
consiste em assumir a ilusão de que nos relacionamos com ele, embora tal não se
verifique de facto. E não se verifica, desde logo, porque o Bukowski dos
livros, o dos vídeos disponíveis e das fotografias que registaram o mito -
«mito Bukowski (na verdade, sou um cobarde)» - na sua face mais caricata, está
nos antípodas de tudo aquilo que nós alguma vez seremos. Aproxima-nos uma
desconfiança declarada perante as virtudes da humanidade: «A raça humana sempre
me tinha causado asco. Fundamentalmente, aquilo que a tornava repugnante era a
doença das relações familiares, onde se incluíam o casamento, as trocas de
poder e ajuda, que à semelhança de uma ferida, uma lepra, se tornava então: o
nosso vizinho do lado, a nossa vizinhança, o nosso bairro, a nossa cidade, o
nosso condado, o nosso estado, o nosso país… toda a gente agarrada aos cus uns
dos outros na colmeia da sobrevivência por causa de uma imbecilidade de
animalesco receio» (p. 88). Mas afasta-nos o excesso, o exagero, o risco que
apenas os duros pisam sem temer consequências radicais. Afasta-nos a noção trágica
da vida, o compromisso: «Viver é fácil: basta deixar andar. E ter algum
dinheiro. Outros que travem as guerras, os outros que vão para a prisão» (p. 52).
Sendo o corpo que se joga, é a própria vida que se arrisca. Disso nos dão conta
os textos reunidos no volume Histórias de loucura normal (Editora
Objectiva/Alfaguara, Outubro de 2013), traduzidos para português por Vasco
Gato, originalmente colhidos na colectânea Erections, Ejaculations,
Exhibitions, and General Tales of Ordinary Madness (1972). Marco Ferreri
apoiou-se neste material para o argumento do filme Storie di ordinaria follia
(1981), primeira incursão cinematográfica pela vida alucinada de Charles
Bukowski. Apesar do discurso cru, do tom arrogante, desencantando e saturado,
da exibição de uma certa violência que encena o palco onde a marginalidade
actua, estes textos não são tão fáceis quanto aparentam. Alcoólico e misógino,
o autor ora fala de si na primeira pessoa ora se reinventa em alter-egos mais
ou menos recorrentes. Adeus, Watson é uma arte poética que transforma o hipódromo
e as corridas de cavalos naquilo que a tourada terá sido para Hemingway: «para
mim, o hipódromo revela-me rapidamente onde estão as minhas fraquezas e onde
estão as minhas forças, e revela-me como me sinto nesse dia e revela-me como
ninguém pára de mudar, andamos TODOS em mudança a toda a hora, e como nos damos
tão pouco conta disso. / e a esfola da gentalha é o filme de terror do século. TODOS
perdem» (p. 115). A disparidade narrativa é evidente, salta-se de tema para
tema como numa conversa de café. Há textos que excedem a clareza do discurso
pelo desvairo dos argumentos (um cobertor assassino, uma mulher com um jardim
zoológico em casa…), deixando-nos na dúvida sobre possíveis alusões
metafóricas. Enraizados num cinismo clássico, outros textos são mera prosa
diarística, resvalam para a crónica de costumes, relatam momentos e
circunstâncias aparentemente reais com frequente e declarado desdém para com o
universo literário predominante e uma ironia que não pode ser confundida com
auto-indulgência: «lá fora eram os carros estacionados, e as pessoas de um lado
para o outro. Nenhuma delas lia poesia, falava sobre poesia, escrevia poesia. para
variar, a multidão pareceu-me bastante sensata» (p. 127) São inúmeras as
passagens em que a autocrítica ultrapassa os limites da sanidade, confessam-se
tendências suicidas, espelham-se e assumem-se defeitos insuperáveis, é como se
a escrita fosse uma automutilação: «…e senti-me, estranhamente, envergonhado de
qualquer coisa. culpado, mal, incompleto, como um monte de merda, como uma bala
de metralhadora desperdiçada» (p. 198); ou: «ele tem 43. eu tenho 48. pareço
pelo menos 15 anos mais velho do que ele. e sinto uma certa vergonha. a barriga
saliente. aquele ar abatido. o mundo levou-me muitas horas e anos com as suas
tarefas aborrecidíssimas; nota-se. sinto vergonha pela minha derrota; não pelo
dinheiro dele, pela minha derrota. o melhor revolucionário é um tipo pobre; eu
nem sequer revolucionário sou, estou apenas cansado, mas que balde de merda me
calhou! espelho, espelho na parede…» (pp. 225-226) Porque mais do que
corrigir-se, importa resistir aos horrores da normalidade, da melancólica
sobrevivência, do enfezado passar dos dias. Exalta-se o flanco instintivo e
animal do ser, contrapondo-o aos horrores da vida doméstica e domesticável. Uma
conversa tranquila é pura declaração política (mais cínica do que anarquista); Olhos como o céu retrata a guerrilha desprezível pelo “poder” na literatura; Cerveja e poetas e conversa é toda uma geração passada a papel químico. Restos
de humanidade? Também os há, no rosto alegre de uma criança que apaga as quatro
velas do bolo de aniversário. E na música clássica, alguns escritores, na
escumalha de Los Angeles, entre os quais Bukowski se sente vivo, livre da vida:
Ofereci-me como voluntário para algumas tarefas especiais só
para sair da ala, só para passear pelo sítio. Eu era parecido com o Bobby,
embora não puxasse as calças para cima nem assobiasse uma versão desafinada da Cármen
de Bizet. Tinha uma fixação pelo suicídio e uns surtos depressivos violentos e
não suportava as multidões e, sobretudo, não suportava estar numa longa fila à
espera de qualquer coisa. e é nisso que a sociedade se está a tornar: longas
filas e esperas por qualquer coisa. eu tinha tentado suicidar-me com gás mas não
tinha resultado. Havia, no entanto, outro problema. O meu problema era sair da
cama. Eu odiava sair da cama, sempre. Costumava dizer a quem me quisesse ouvir:
«As duas maiores invenções do homem são a cama e a bomba atómica; a primeira
mantém-nos longe do mundo e a segunda tira-nos do mundo». As pessoas achavam
que eu era maluco. Jogos infantis, é tudo o que a spessoas fazem: jogos
infantis – vão da cona para o túmulo sem nunca serem tocadas pelo horror da
vida.
Charles Bukowski, in Histórias de loucura normal, tradução
de Vasco Gato, Editora Objectiva/Alfaguara, Outubro de 2013, 255-256.
domingo, 19 de janeiro de 2014
DIGNIDADE
A história desta fotografia é sobejamente conhecida. Em
1936, um homem chamado August Landmesser não fez a saudação nazi para aclamar
Hitler. Os tempos eram incomensuravelmente diferentes, o homem estava entre uma
multidão vergada pelo medo, mas a sua postura revela algo mais do que um gesto
simbólico. Resulta de um exercício de consciência que, servindo-se da mais
nobre das conquistas humanas, a liberdade, garante ao indivíduo a sua condição
de pessoa. Ele é uma pessoa. O mesmo não podemos afirmar, pelo menos com tanta
certeza, dos entes que apoiados em declarações de voto e abstenções
oportunistas se curvaram, com muito menos a perder do que Landmesser, a uma disciplina
de voto pura e simplesmente usurpadora da consciência individual e, por
consequência, da dignidade humana. Não foi por cobardia, é mesmo falta de
dignidade.
KAMASUTRA BUKOWSKI
Antes de arrancar com a marosca das drogas eu não tinha muito dinheiro e as dificuldades eram muitas. Uma vez tive de levar uma das melhores, a Mary, para a casa de banho das senhoras de uma estação de serviço. Foi muito complicado encontrarmos uma posição - ninguém se quer deitar no chão de um mictório - e de pé não calhava bem - demasiado esquisito - até que às tantas me lembrei de um truque que tinha aprendido. Numa cagadeira de comboio a passar por Utah. Com uma bela rapariga indiana embriagada de vinho. Pedi à Mary que atirasse uma das pernas para cima do lavatório. Apoiei a custo uma perna no lavatório e enfiei-o lá para dentro. Resultou. Lembrem-se disto. Podem vir a precisar. Até dá para pôr água quente a correr-nos nos tomates para intensificar as sensações.
Charles Bukowski, in Histórias de loucura normal, tradução de Vasco Gato, Editora Objectiva/Alfaguara, Outubro de 2013, p. 254.
sábado, 18 de janeiro de 2014
RIDE LONESOME (1959)
Cito João Lopes, crónica publicada no Diário de Notícias
a 27 de Fevereiro de 2011: «O western, por exemplo. Hoje em dia tratado quase
sempre como coisa pitoresca, com uns brancos a cavalo e uns índios aos gritos,
o western representa um património admirável de narrativas e mitologias, de
imensa complexidade ideológica e política (quem disse que a cultura popular é
simples?), enraizado na história americana da expansão para oeste, mas cuja
filosofia existencial encontrou eco em muitas outras culturas. (…) Desde as
epopeias de John Ford (1894-1973) até às revisões críticas de Sam Peckinpah
(1925-1984), o western foi palco de muitas e fascinantes contradições,
espelhando as ânsias redentoras de uma nação à conquista do seu espaço natural,
ao mesmo tempo integrando de modo mais ou menos elaborado as contradições
(humanas, morais, simbólicas) de tal odisseia. É uma pena que tenham caído
quase no esquecimento westerns como os que Randolph Scott (1898-1987)
protagonizou sob a direcção de Budd Boetticher (1916-2001). Penso, por exemplo,
em Seven Men from Now/Sete Homens para Matar (1956), Buchannan Rides
Alone/Têmpera de Herói (1958) ou Ride Lonesome/O Homem Que Luta Só (1959). São
filmes cuja subtil relação material com a terra e os seus heróis lhes conferiu
também um apelo intemporal, da mais fascinante abstracção». Não podia estar
mais de acordo. Se tivesse que escolher apenas dez westerns para esta lista, Ride
Lonesome estaria entre os escolhidos. É um dos meus filmes preferidos. Ponto.
Aqui chegado, perdoar-se-me-á a preguiça. Sugiro que escutem Martin Scorsese:
À semelhança de outros filmes do Ranown Cycle, também
este tem por mote dramático o desejo de vingança. Mas aqui a personagem
interpretada por Randolph Scott, um caçador de prémios chamado Ben Brigade,
adquire características lacónicas que escapam às suas outras interpretações. Este
laconismo reforça a aura enigmática da personagem, oferecendo ao desenrolar da
acção um interesse redobrado. O filme começa com a captura do assassino em fuga
Billy John. Brigade pretende levá-lo até Santa Cruz, onde a forca aguarda o
homicida em troca de um prémio especial para os captores. O desenvolvimento da acção
corresponderá, assim, ao desvelamento progressivo das verdadeiras intenções de
Brigade. Para tal contribui o facto de se lhe juntarem dois foras da lei, Sam
Boone e Whit (este, interpretado por um jovem de seu nome James Coburn), que
também estão interessados no prémio estipulado pela captura de Billy John. No
entanto, se a Brigade parece interessar apenas o dinheiro do prémio, à “sociedade”
Sam & Whit interessa a outra parte do mesmo: amnistia pelos crimes
anteriormente cometidos. Sam quer refazer a vida, tem um terreno onde pretende regressar
para aí começar de novo na companhia de Whit e, quem sabe, de Mrs. Carrie Lane,
viúva do chefe de uma estação recentemente assassinado pelos mescaleros. Brigade,
Boone, Whit e Mrs. Carrie Lane seguirão em conjunto, carregando o algemado
Billy John pelo caminho. Num filme todo ele filmado em exteriores, os planos
gerais, de uma fotografia excepcional, são opção que permite intensificar o
esforço dos pontos minúsculo em movimento na paisagem. Perante a
grandiosidade geral, o aspecto ínfimo dos seres humanos assim representados
torna o discurso quase religioso. Boetticher não precisa de focar o rosto das
personagens para revelar a sua psicologia, optando pelo chamado plano americano
nas cenas que aproximam os intervenientes. A intimidade entre estes
companheiros de viagem fica relativizada pela distância nunca desfeita, estabelecendo-se entre alguns dos intervenientes diálogos que ameaçam a
desintegração do grupo. O termo do filme é, pois, de um romantismo exasperante.
Descobriremos que o objectivo de Brigade, afinal, não era o prémio oferecido pela
captura de Billy John, mas sim atrair o irmão deste para um velho ajuste de
contas. Frank (interpretado por um omnipresente Lee Van Cleef), irmão de Biily
Johhn, é o verdadeiro interesse de Ben Brigade. As sequências finais são de uma
tensão dificilmente resistível, sendo o remate do filme provavelmente dos
melhores alguma vez filmados. A carga simbólica do travelling que se desloca de
um plano onde observamos Brigade de frente para a “árvore dos enforcamentos” em
chamas para o fumo que resulta das chamas é impressionante. Revela, como afirma
Scorsese, um homem finalmente liberto das assombrações passadas. Aquela árvore
em chamas é um homem a enterrar o seu passado (fumo, cinza), cumprida que está a sua
derradeira tarefa: vingar o assassinato da mulher.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
COADOPÇÃO
Mais uma vez se prova que os neo-liberais, afinal, são
proto-conservadores. Os tiques fascistas são evidentes. Só não os vê quem não quer
ver.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
LÁGRIMAS DE RONALDO
Não foi só uma bola de ouro que Cristiano Ronaldo ganhou na
passada segunda-feira. Com aquelas lágrimas, conquistou para a opinião pública
uma dimensão humana que não tinha. Muitas pessoas olham para Ronaldo com
desconfiança. Riquíssimo, inspira uma espécie de raiva, quando não inveja,
perante as injustiças do mundo. Como pode ganhar tanto dinheiro um indivíduo
cuja profissão é jogar à bola? Por detrás do seu talento, esconde-se porém um
trabalho atlético e técnico tremendo. Muito treino, muito esforço, muita prática,
espírito de sacrifício. O mesmo acontece com os melhores artistas, salvo raríssimas
excepções de talento natural que, como é óbvio, não garantem fama nem proveito.
Fama e proveito ficam para jogadores da bola, popstars, bestsellers, estrelas
de Hollywood, alguns artistas. A fama de Ronaldo gerava também aquilo a que vou
chamar convicção de superioridade moral por parte dos seus espectadores menos
convencidos. É só um jogador da bola, dizem; com a selecção não faz nada,
lamentam; tanto dinheiro e não dá nada a ninguém, reclamam… Apesar de tudo, o
desejo da estrela é poder comer um gelado descansadamente na companhia do filho
numa esplanada qualquer. Sem que o macem com fotografias e autógrafos, só os
dois, ele e o filho, sossegadamente a comer um gelado. Aquelas lágrimas
fazem-nos crer neste desejo e no direito que Ronaldo tem de cumpri-lo,
chamaram-no à terra para que todos pudessem ver o quão igual ele é, no
essencial, a cada um de nós. As lágrimas outrora vertidas em jogos com a
camisola da selecção nacional deixaram de ser de crocodilo. São lágrimas que relembram a doutrina secreta da deusa Tripura Sundari, também chamada de Lalitha,
a mais bela dos três mundos:
A beleza feminina é realmente a principal fonte de prazer. Todos
são atraídos e encegueirados por ela, até os sages. Mas repara atentamente, Príncipe,
no que é afinal tanto o corpo masculino como o feminino. É uma gaiola feita de
ossos, revestidos de carne embebida em sangue e mantidos juntos aos tendões. Uma
pele coberta de pêlos estende-se a toda a volta. No interior não se nos depara
senão bílis, flegma e escória de excrementos. Fabricado a partir do esperma e
do sangue, ele vem ao mundo pela mesma passagem que a urina.
Convenhamos não ser o mais celestial dos berços, este por
onde a urina passa. Antonin Artaud disse praticamente o mesmo na famigerada
Carta a Pierre Loeb (tradução de Aníbal Fernandes):
(…)
Quem foi Baudelaire?
Quem foram Edgar Poe, Nietzsche, Gérard de Nerval?
Corpos
que comeram,
digeriram,
dormiram,
ressonaram uma vez por noite,
cagaram entre 25 e 30 000 vezes,
e em face de 30 ou 40 000 refeições,
40 mil sonos,
40 mil roncos,
40 mil bocas acres e azedas ao despertar
(…)
PALAVRAS PARA 2014: PANTEÃO
Sim, senhor, Eusébio merece um Panteão. Mas não aquele.
Um Panteão no estádio do Benfica, ou perto dali, que as pessoas pudessem
visitar sem medo de se irritar ou contaminar. Quanto ao Panteão Nacional, do
que ele precisa com urgência é de um “saneamento” sucessivo, que o aproxime um
pouco da realidade.
Vasco Pulido Valente.
BUCHANAN RIDES ALONE (1958)
Buchannan Rides Alone/Têmpera
de Herói (1958) é o mais surreal dos filmes que integram o chamado
Ranown Cycle. Vislumbramos em muitas das suas sequências a raiz do spaghetti
western, sendo evidente a influência exercida sobre o Leone de Per Un
Pugno Di Dollari (1964). Baseado num romance de Jonas Ward, que fez da personagem
de Buchanan um mito da literatura dedicada ao Velho Oeste, a estranheza do
filme de Budd Boetticher (1916-2001) começa na forma como reencarna o mito na
figura do actor Randolph Scott. Esvaziado de seriedade, Scott aparece
sorridente, descontraído, quase cómico. Num filme repleto de cenas grotescas, o
sorriso de Scott é porventura o sinal mais ridículo de todos neste contexto desmistificador
e desconstrutor do western dos anos 1940 e da primeira metade da década de 1950. O filme começa com a chegada de Buchanan à
cidade fronteiriça de Agry. Ao entrar em Agry, Buchanan arrasta-nos para um
palco ambíguo, fronteiriço, onde mexicanos e norte-americanos convivem aparentemente
de forma pacífica. O nome da cidade é o da família que nela predomina,
nomeadamente três irmãos com características bem distintas mas propósitos
similares. Boetticher introduz-nos no clima mostrando as placas dos serviços
espalhados ao longo da cidade: barbearia Agry, saloon Agry, hotel Agry,
mercearia Agry… A mesquinhez do local torna-se evidente, mais ainda quando nos apercebemos
ter cada um dos serviços prestados sempre o mesmo custo: dez dólares. O facto
levará Buchanan a chamar-lhe a cidade dos dez dólares, expressão que uniformiza
o ambiente geral de um modo rasteiro. Por detrás desta uniformização estão três
irmãos. Lew Agry, xerife, é o primeiro com quem Buchanan se cruza. Típico
brutamontes, parece pensar apenas com o músculo. Não obstante, rodeia-se de
ajudantes que impele para a linha da frente sempre que é preciso oferecer o
peito às balas. Tem uma única coisa em mente: dinheiro. O segundo dos três
irmãos com quem Buchanan trava conhecimento é Amos, responsável pelo Hotel.
Linguarudo, desajeitado, bisbilhoteiro, viscoso, corre de um lado para o outro
da cidade levando consigo notícias e intrigas. O destrambelho faz dele uma
personagem caricata. Tem uma única coisa em mente: dinheiro. Resta o juiz
Simon, arrivista com ambições políticas, calculista, é um hipócrita com uma
única coisa em mente: dinheiro. Quando o filho, alcoólico e inconsequente,
acaba assassinado por um mexicano, a iminência
de um linchamento público leva o juiz Simon a reivindicar um julgamento justo.
Em véspera de eleições, a intenção é clara: fazer passar a imagem de homem
justo perante a comunidade. Mas logo esta intenção cai por terra quando um
capataz do pai do réu oferece cinquenta mil dólares em troco do filho. Todos
estes acontecimentos precipitarão Buchanan numa série de façanhas onde nada se
apresenta com objectividade. Ressalta à vista o seu pragmatismo, embora
Boetticher faça dele, muitas vezes, uma espécie de espectador interventivo para
pintar uma caricatura mais abrangente daquela comunidade. Exemplo disso é a
sequência do fair trial a que são sujeitos Juan de la Veja, o jovem mexicano
que vingou a violação da irmã matando o violador (Roy Agry, filho do juiz), e
Tom Buchanan, por ter acudido Juan quando este estava a ser espancado pelos
ajudantes do xerife. Sem tribunal na cidade, ocorre o julgamento no bar. Júri e
público são convidados a parar de beber antes do julgamento para evitar
opiniões embriagadas. Uns sentados em cadeiras, outros ao longo do balcão, o júri
na escada que dá acesso aos quartos, todos respeitam os trâmites anedóticos do
tribunal improvisado. E a aura de homem justo do juiz sai reforçada pelas
decisões finais. Não interessa quais. Muita gente há-de morrer entretanto, não
necessariamente aqueles que mais se espera. Mas talvez importe sublinhar a
última tirada de Buchanan quando abandona a cidade: os que ficam, que façam bom
proveito dela. Talvez Agry seja hoje um fantasma como outro qualquer, a sombra
que acompanha a memória, um tempo que ficou para trás. Seja o que for, é também
uma "metonímia" daquilo que grande parte do mundo traz em mente: dinheiro.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
DECISION AT SUNDOWN (1957)
Oscar “Budd” Boetticher, conhecido no mundo do cinema
apenas como Budd Boetticher (1916-2001), merece ser recordado. Depois de
experimentar várias modalidades desportivas, apaixonou-se pela tourada durante
uma viagem ao México. Rouben Mamoulian contratou-o como conselheiro técnico
para o filme Blood and Sand/Sangue e Arena (1941). Entra desta forma discreta
no universo cinematográfico, pegando pouco tempo depois nas câmaras para
começar a realizar vários filmes de série B - muitos dos quais votados à sua
extravagante paixão hispânica: as touradas. Boetticher era um duro,
característica explícita nos seus filmes. Não admira que enveredasse pelo
western, assinando alguns dos melhores filmes do género. A sua parceria com o
actor Randolph Scott na década de 1950 tornou-se, como agora se diz,
incontornável. Ficou conhecida como o Ranown Cycle - designação algo equívoca -, devido à colaboração com o
produtor Harry Joe Brown. Sete filmes compõem o ciclo, sendo Decision at
Sundown/Entardecer Sangrento (1957) o terceiro. Os outros foram Seven Men From Now (1956), que
André Bazin apreciava particularmente, The Tall T (1957), Buchanan Rides Alone
(1958), Westbound (1959), Ride Lonesome (1959) e Comanche Station (1960). Filmes
incisivos, com uma linguagem directa e crua, fazem descer à terra o imaginário epopeico
do western. As personagens de Boetticher são ambíguas, paradoxais, não encarnam
a ambivalência dos falsos heróis ou dos anti-heróis, nem se elevam ao estado
trágico dos deuses gregos. São personagens humanas, cheias de defeitos,
equivocam-se, arrependem-se, hesitam, actuam no palco movediço e lamacento da
humanidade. Gosto especialmente de Decision at Sundown pelo inusitado do tema.
O palco da narrativa é a pequena cidade de Sundown, microcosmo de um mundo
aquém do que podia ser. Lugar pelo qual as pessoas se apaixonam para, nele
estabelecidas, logo se decepcionarem. Boetticher oferece uma relevância
extraordinária a personagens aparentemente secundárias, conseguindo uma caracterização muito eficiente do ambiente social. Do barbeiro
coscuvilheiro ao juiz de paz hipócrita, passando pelo xerife corrupto, a soldo
do “dono” da cidade, há toda uma personificação do local que desloca o centro
da atenção do particular para o geral. Nem na exploração da psicologia dos
intervenientes cai na vulgaridade. Antes pelo contrário. O “dono” da
cidade não é um rancheiro
implacável, um Marshall corrupto, um juiz ambicioso ou um facínora qualquer. É um
galã que treme no momento de enfrentar os seus inimigos, rabo de saia prestes a
casar contra a vontade e os desejos da amante. Situação curiosa, a deste homem
que espera pela noiva com a amante sentada à sua frente na primeira fila da
igreja. Quem interromperá o casamento é Bart Allison (Randolph Scott), marido
encornado que vem vingar não sabemos bem o quê. Desempenho extraordinário de
Scott, este marido enraivecido, tomado pelo desejo de vingança, assaltado pelo
ódio, descontrolado. Mais tarde ficaremos a saber que a sua mulher se suicidara
pouco antes de ele ter regressado da guerra, e que Tate Kimbrough, objecto da
fúria de Bart, foi apenas um dos vários homens com quem ela andou enrolada. Coincidirá
o momento da revelação com o despertar de toda uma cidade. Aquele dia tão
especial em Sundown, desde o precipitar dos acontecimentos até à partida dos
principais intervenientes, coincide com um casamento que não nos é mostrado: o casamento
da cidade com os seus habitantes, que dela andavam divorciados por culpa de um
homem desonesto. A reconquista da dignidade de toda uma comunidade, sucede da forma mais inesperada, movida por um homem traído, equivocado
nos fundamentos dos seus propósitos, debilitado pelo total descontrolo que as
suas acções revelam. Há uma direcção irónica, porventura cínica no mais
clássico dos sentidos do termo, que atravessa todo o filme. Sundown é uma arena
onde o confronto essencial não é tanto entre as forças oponentes, como parece
ser dos homens consigo próprios. E nesse aspecto, este western desenhado por Budd
Boetticher desconstrói a mitologia do Velho Oeste tornando-a “humana,
demasiado humano”.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
OBRAS NO PANTEÃO
Um dos pátrios heróis cujos ossos repousam no Panteão
Nacional é Guerra Junqueiro. Como outros que tais ali mumificados, era este
amigo do copo. Em noites de euforia, a pena satírica fugia-lhe para a
ordinarice. Assim surgiram alguns versos, que, conta-se, a ilustre figura foi
tentando rasurar enquanto e como pôde (a bem da memória futura). Mas quer sempre
mais o tempo do que os homens, e aí estão, perduráveis, algumas das suas mais caricatas
obscenidades:
A TORRE DE BABEL OU A PORRA DO SORIANO
Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
Para o cantar
inteiro e o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
Dez séculos!
Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem os colhões de que dão ideia vaga
as nádegas brutais do Arcebispo de Braga.
*
Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
Mastro do
Leviathan! Eminência revel!
Estando murcho
foi a Torre de Babel!
Caralho
singular! É contemplá-lo
É vê-lo
teso! Atravessaria o quê?
O
Sete-Estrelo!!
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra!
É uma porra,
arquiporra!
É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder, da Terra, Eva no Paraíso!!
É uma porra
infinita, é um caralho insonte
que nas roscas outrora estrangulou Le Comte.
*
Oh, caralho imortal! Glória destes lusos!
Tu poderias suprir todos os parafusos
que esperem com vigor os cachos do Alto
Douro!
Onde há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo??!
Marquês de Valadas
em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
— Nada, nada
contém a porra do Soriano!!
*
Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita???
— Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe há-de abrir talvez um dia um terramoto
para que desagúe, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langonha!!!
*
A porra do Soriano é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
Onde é que
começa?
Onde é
que termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento,
porque é porra de pardal e porra de jumento??
Porra!
Mil
vezes porra!
Porra
de bruto
que é capaz de foder o Cosmos num minuto!!!
Guerra Junqueiro, in A Torre de Babel ou A Porra do Soriano
seguida de As Musas, folheto da colecção contramargem, n.º 2, & etc,
Novembro de 1979, pp. 9-11.
COSTELA DO DEMO
Dos inúmeros mitos gerados pela figura andrógena de
Marilyn Manson (nunca um nome encarnou tão eficazmente o princípio do belo
horrível), um dos que sempre mais dificuldade senti em compreender é aquele que
afirma ter o músico norte-americano removido uma costela para poder praticar
fellatio consigo próprio. Fiquei agora a entender a razão de ser de tal gesto,
derradeira prova no percurso curricular da iniciação satânica. Quem o explica, com insofismável cientificidade, é
Charles Bukowski (quem mais?) num conto justamente intitulado A ala dos malucos
a leste de Hollywood:
E, por falar em merda, sempre receei mais a prisão de
ventre do que o cancro. (Já voltamos ao Jimmy Chanfrado. Atenção, que eu já
tinha dito que escrevia assim.) Se passo um dia sem cagar, não consigo ir a
lado nenhum, nem fazer nada – fico tão desesperado quando tal me acontece que
muitas vezes tento chupar o meu próprio caralho só para desbloquear o sistema,
para pôr as coisas outra vez em movimento. E, se alguma vez tentaram chupar o
vosso próprio caralho, saberão com certeza o terrível esforço imposto na
espinha, na cervical, em todos os músculos, em tudo. Esgalha-se o menino até
ele ficar o mais comprido possível e depois dobramo-nos como um bicho metido
num instrumento de tortura, pernas bem acima da cabeça e presas ao espaldar da
cama, o olho do cu a tremelicar como um pardal moribundo sob a geada, tudo bem
dobradinho em torno da pança de cerveja, as fáscias musculares todas
estraçalhadas, e aquilo que nos dói é que não falhamos por trinta ou cinquenta
centímetros, falhamos por um terço de centímetro, a ponta da língua e a ponta
do caralho muito próximas, embora a coisa possa igualmente demorar uma
eternidade ou cinquenta quilómetros. Deus, ou quem quer que tenha sido, sabia o
que estava a fazer quando nos concebeu.
Charles Bukowski, in Histórias de loucura normal,
tradução de Vasco Gato, Editora Objectiva/Alfaguara, Outubro de 2013, pp.
46-47.
sábado, 11 de janeiro de 2014
NOSSO SENHOR DAS MARÉS
O sol das manhãs usurpa aos candeeiros toda e qualquer
utilidade, mesmo quando entre ambos se intromete o sombrio magistrado das
tempestades.
Mas até esse cede às marés no tribunal das praias.
E quando, afadigados, percorremos com os olhos as encostas do
Atlântico, percebemos que é na terra que o mar começa.
Ao largo, vagas sucessivas invadem nossos campos de batalha
com cabeleiras de espuma salgada.
O vento traz-nos o sal ao rosto, defendemo-nos com a gola
das camisolas, a lã do corpo. Avisam-nos de perigos eminentes.
Mas temerários avançamos pelos corredores do tempo. Escavados
à unha, abrem-nos o caminho de uma estranha esperança.
É aqui que a terra abre as portas ao seu Senhor, rei
universal de todos os naufrágios.
Devagar nos aproximamos da sua voz.
Para aí quase chegados calarmos o fôlego enquanto nos previne
o temor das marés.
Novamente fundo respiramos, o peso do corpo equilibrado
sobre as pedras, a rocha que trava o vento, passadeira estendida à chegada do
Senhor.
E entre dois braços de armaduras petrificadas, ele atravessa
imponente o trilho do tempo. Em terra transforma a rocha, da terra faz areia.
Para que por fim nossos olhos se curvem a seus pés, enquanto
indiferente ao gesto ele se ergue ao sol das manhãs.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
FAZER O INDIZÍVEL
Na última lição de Alberto Pimenta na UNL, a que tive o
prazer de assistir através de um vídeo partilhado no Facebook pela minha amiga
Maria João Lopes Fernandes, o autor de Discurso Sobre o Filho-da-Puta afirma
que a função da poesia é dizer o indizível. Como todos os paradoxos, também
este é sedutor. No entanto, nada diz. Descrente de uma função para a poesia,
que ao longo dos tempos foi tanto sublimar como desvelar, divertir ou elogiar,
creio que ao poder ser dito, sob que forma seja, o indizível passa a ser dizível.
Postulando a existência desse indizível, parece-me mais concordante com a sua
natureza assumir a impossibilidade de exprimi-lo. Tomemos de exemplo o amor,
tema desde sempre caro aos poetas. Presumimos a sua existência e procuramos dizê-lo,
vasculhando no vocabulário disponível conjugações de palavras que possam
resultar num termo para tão esquivo sentimento. Num belo e longo poema
intitulado Epipsychidion, Percy B. Shelley verseja o seguinte:
(…)
O Amor é como o entendimento, que se torna brilhante
ao contemplar múltiplas verdades; é como a tua luz,
Imaginação!, que desde a terra e o céu,
E das profundidades da fantasia humana,
igual a mil prismas e espelhos, enche
o universo de gloriosos raios, e destrói
o erro, esse verme, com as inúmeras setas solares
da própria luz que reverbera: ah! como são estreitos
o coração que ama, o cérebro que contempla,
a vida que se consome, o espírito que gera
um único ser, uma só forma, e assim edifica
um sepulcro para toda a sua eternidade.
(…)
(tradução de Fernando Guimarães, in Poesia Romântica
Inglesa, 3.ª edição, revista e aumentada, Relógio D’Água, Fevereiro de 2012)
Não me cabe determinar se o indizível foi ou não exprimido nos
versos de Shelley, sendo-me certo que soam agradáveis e enigmáticos a quem os
leia. Pelo menos, assim me soam a mim. O próprio título do poema obriga a uma
nota por parte do tradutor: «A palavra forjada epipsychidion, que não se
encontra nos autores gregos, significaria a união de duas almas. Foi
inspiradora do poema Emília Viviani (embora se conheçam esboços parciais do
poema anteriores às relações do poeta com Emília), jovem italiana que tinha
sido encerrada num convento pelo pai, que, assim, pretendia forçá-la a um
casamento de conveniência». Shelley, que segundo Hélène Fleury escreveu sempre
tomado pela «vontade de levantar o véu que cobre todas as opressões, de fazer
da imaginação uma força capaz de pesar na realidade histórica», ter-se-á
deixado assaltar pela paixão e pela revolta para que os versos pudessem surgir
como uma espécie de explosão onde a pólvora da linguagem permite desbravar
caminho para territórios livres com novas construções imagéticas a serem aí alicerçadas. Não
sei se a isto se chama dizer o indizível. Talvez seja mais correcto falar numa expedição
pelo estreito onde a imaginação toca o pensamento. Pelo menos, também é assim
que consigo entender aquele que foi, para mim, o melhor poema alguma vez
escrito por Shelley. Quem nos dá conta dele é, precisamente, Hélène Fleury, no
estudo que introduz a edição de A Máscara da Anarquia (tradução de Eduarda Dionísio,
& etc, Setembro de 2008):
Com Harriet e uma jovem amiga que tinha vindo partilhar com
eles o sonho de uma comunidade actuante, quer associar ao poder do vento e aos
prodígios da física a sua mensagem de libertação. Os três amigos fabricam
pequenos balões de seda, movidos por uma mecha acendida na parte de baixo. Enchem-nos
de escritos rebeldes antes de os largar, «balões carregados de saber», no céu
nocturno de Inglaterra. Se muitos caem rapidamente em tochas a arder, outros
continuarão o seu caminho celeste, portadores da balada Devil’s Walk e de uma
Declaração dos Direitos, que Shelley tinha redigido em solo irlandês. Com a
mesma Declaração enrolada – que termina pelo apelo à acção tirado do Paraíso
Perdido do poeta revolucionário Milton: «Acorda! Levanta-te ou fica por terra
para sempre» - enchem garrafas que vão deitar ao mar, em grande quantidade, ao
encontro de companheiros de luta.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
REI DE TUDO
A morte de Eusébio da Silva Ferreira originou duas
polémicas que muito têm ocupado a intelligentia lusa. Primeiro, se os restos
mortais da glória do futebol nacional deverão ser tresladados para o panteão.
Segundo, se os restos de rigor do ex-primeiro ministro José Sócrates garantem
alguma verdade no seu discurso. Sobre ambos os casos, lembrei-me de uma citação
de Heródoto feita por Paul Feyerabend no livro Adeus à Razão (Edições 70,
Janeiro de 1991, p. 56):
Quando Dario era rei da Pérsia, convocou os gregos que
sucedia estarem presentes na sua corte e perguntou-lhes quanto queriam para
comerem os cadáveres dos seus pais. Responderam-lhe que por nenhum dinheiro do
mundo o fariam. Mais tarde, na presença dos gregos, e com o auxílio de um
intérprete, para que pudessem entender o que era dito, perguntou a uns
indianos, da tribo chamada Callatiae, que na verdade comem os cadáveres dos
seus pais, quanto queriam para o incinerar. Soltaram um grito de horror e proibiram-no
de mencionar uma coisa tão horrível. Por aqui se vê o que o costume pode fazer
e, na sua opinião, Píndaro estava certo quando lhe chamou «rei de tudo».
Referia-se Píndaro ao costume e não a Eusébio,
esclareça-se. Sendo originalmente o templo que gregos e romanos consagravam ao
conjunto dos seus deuses, com o tempo, e a morte de Deus devidamente anunciada
por Nietzsche (seria de uma ironia impecável se o colocassem num qualquer
panteão germânico), os panteões transformaram-se em mausoléus onde as pátrias
conservam os seus heróis. Olhando para o nosso, encontraremos por lá, acredite
quem queira, D. Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Pedro Álvares
Cabral, Afonso de Albuquerque, Almeida Garrett, Amália Rodrigues, Aquilino
Ribeiro, Guerra Junqueiro, Humberto Delgado, João de Deus, Manuel de Arriaga,
Óscar Carmona, Sidónio Pais e Teófilo Braga. Confesso certa dificuldade em
determinar os feitos que garantem a excepcionalidade destas personalidades, mas
acredito que um inquérito de rua revelaria uma desastrosa memória dos portugueses
perante os seus heróis.
Desmemória ou conhecimento débil, tanto faz. Em suma, resulta tudo isto numa incultura genética que o passado releva, o presente evidencia e o futuro há-de consagrar. Juntar Eusébio àqueles pode parecer indiferente, mas não é. Assim como não é a morte lenta do filósofo da Covilhã há muito decretada por grande parte da comunicação social portuguesa e seus empenhados fazedores de opinião. A cicuta de Sócrates, o da Covilhã, é, ironia das ironias, a cicuta do seu povo: falta de memória. Ou, se preferirem, uma memória selectiva e fantasiosa. Pode o costume ser rei de tudo, mas não o é em Portugal. Nesta República governa a desmemória, a mesma que nos arrastará ad æternum numa confrangedora ausência de costumes que exijam, pelo menos, algum critério na hora da morte e, por consequência, na hora de escolhermos os nossos eternos representantes. Talvez preferível fosse mesmo comê-los.
Desmemória ou conhecimento débil, tanto faz. Em suma, resulta tudo isto numa incultura genética que o passado releva, o presente evidencia e o futuro há-de consagrar. Juntar Eusébio àqueles pode parecer indiferente, mas não é. Assim como não é a morte lenta do filósofo da Covilhã há muito decretada por grande parte da comunicação social portuguesa e seus empenhados fazedores de opinião. A cicuta de Sócrates, o da Covilhã, é, ironia das ironias, a cicuta do seu povo: falta de memória. Ou, se preferirem, uma memória selectiva e fantasiosa. Pode o costume ser rei de tudo, mas não o é em Portugal. Nesta República governa a desmemória, a mesma que nos arrastará ad æternum numa confrangedora ausência de costumes que exijam, pelo menos, algum critério na hora da morte e, por consequência, na hora de escolhermos os nossos eternos representantes. Talvez preferível fosse mesmo comê-los.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
WESTERN UNION (1941)
Já aqui dei conta daquele que foi, muito provavelmente, o
melhor western realizado por Fritz Lang (1890-1976). Ao dizer o melhor,
pretendo apenas sublinhar essa faceta pouco conhecida do grande realizador germânico.
Antes de Rancho Notorious/O Rancho das Paixões (1952), Lang afirmou-se nos
Estados Unidos, em parte, com filmes como The Return of Frank James/O Regresso
de Frank James (1940) e o mais comercial Western Union/Conquistadores (1941). Se
o primeiro ofereceu a Henry Fonda o protagonismo, o segundo trouxe para a linha da frente aquele que terá sido, a par de John Wayne, o mais importante actor de
westerns de todos os tempos: Randolph Scott. Wayne ficou para a história como
representante do americanismo, mas não devemos esquecer que Scott só fez
praticamente westerns, trabalhou com alguns dos melhores realizadores do género, sendo
as obras com Budd Boetticher especialmente relevantes, e logrou representações absolutamente inesquecíveis. Não foram muitos os prémios, é
certo, nem bastante o reconhecimento. O mito norte-americano precisava de um
machão, não poderia encontrá-lo em Randolph Scott (a sua relação com Cary Grant
originou todo o tipo de especulações). Quem contracena com Randolph Scott em
Western Union é Dean Jagger, outro excelente actor, que veremos mais tarde em
Bad Day at Black Rock/A Conspiração do Silêncio (1955), de John Sturges
(1910-1992). São precisamente as personagens interpretadas por Randolph Scott
(o fora da lei Vance Shaw) e Dean Jagger (Edward Creighton, topógrafo da Western
Union) quem oferece o mote ao filme. No decorrer de uma fuga, Vance perde o
cavalo. Pouco depois depara-se com um homem combalido a beber água de uma poça.
Trata-se de Creighton, que se encontra gravemente ferido após uma queda. A
primeira intenção de Vance é roubá-lo e prosseguir a sua fuga, mas acaba por
ajudá-lo a recompor-se e deixa-o, posteriormente, numa pequena povoação. Mais
tarde, os dois reencontram-se e Creighton contrata Vance para uma das suas
maiores empreitadas: construir a linha de telégrafo que unirá os dois extremos
do país. Quem também fará parte da equipa será Richard Blake (Robert Young), um
indivíduo bastante refinado para aqueles ambientes mas duro como ninguém o imagina. Disputará com Vance a conquista de Sue (Virginia Gilmore), irmã de
Creighton. O título português terá ido beber a este pormenor a sua inspiração,
mas o filme de Fritz Lang em nada se reduz à luta de dois homens pela conquista
de uma mulher. Na realidade, esse aspecto acaba por ser lateral numa narrativa
onde sai muito mais evidenciada a confrontação entre o passado e o futuro. O
termo conquista, aqui, deve pois ser entendido num contexto mais abrangente,
num tempo em que o país se encontrava dividido e aqueles que procuravam uni-lo
eram travados por várias forças: do conservadorismo dos Estados Confederados à
resistência das nações índias. Seja como for, Fritz Lang em nenhum dos
seus filmes subjuga os dramas humanos pessoais e o aspecto psicológico das suas
personagens à conjuntura histórica, cultural, social, política. O seu esforço
vai no sentido de relativizar o comportamento humano, colocá-lo em
situações limite, conflituosas, que obrigam a decisões trágicas. É isso que faz
com a personagem de Vance Shaw, um fora da lei a fugir do passado (cena
inicial) na direcção de um futuro impossível de concretizar (cena final). Os obstáculos
colocados no caminho são demasiados e demasiadamente pesados, obrigam a um
esforço que é o de reconquistar a confiança dos novos aliados sem
perder o respeito dos antigos companheiros. Entre eles, o oportunista Jack
Slade (Barton MacLane), a quem Vance está ligado pelo sangue, que se faz passar
por índio para roubar cavalos a quem depois os vende, que aproveita a guerra
civil para fingir lutar por uma causa quando, na realidade, está apenas a
servir interesses pessoais, que incendeia o acampamento da Western Union contra
os apelos do irmão. Do princípio ao fim, este western de Fritz Lang não mais
faz do que acompanhar à distância a cavalgada solitária e derradeira de um
homem. Cada poste erguido pela Companhia de Telégrafos simboliza a marcha da
modernidade, a qual não poderá ser seguida por quem ficou amarrado ao
passado e dele não se consegue libertar. Na imagem: Robert Young, Fritz Lang e Randolph Scott durante as
filmagens.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
SEXO DOS ANJOS
Tenho um carinho especial por notas de rodapé. Muitos
leitores não lhes ligam, passando ao lado de grande parte do interesse dos
livros. Há mesmo livros que valem pelas notas de rodapé. E é bem provável que
alguns sejam, no seu todo, uma longa nota de rodapé. Um dia também as notas de
rodapé terão direito à sua honra e glória, talvez com uma antologia, uma enciclopédia
ou uma simples recolha de notas de rodapé. Não é o caso de A
Vida e Opiniões de Tristram Shandy, reunido em duas partes na edição portuguesa
da Antígona, onde descobri uma nota de rodapé que pode abrir portas imensas
para a vida feliz:
Francisco de Vallés (1524-92), médico espanhol e comentador
de Platão, autor de Controversiarum medicarum et philosophicarum (1564). Ou,
eventualmente, Valésio, fundador da seita dos valésios (séc. III). Considerando
pecado a perpetuação da espécie, os valésios mutilavam-se e pregavam essa
mutilação.
Associo a possibilidade da vida feliz à incerteza hermenêutica
sobre as alusões do texto original, adiantando que, segundo um dicionário
enciclopédico de teologia disponível on-line, fiquei a saber que os valésios se
castravam tanto a si mesmos como aos seus hóspedes, julgando servir a Deus
dessa maneira. Faz sentido, sobretudo se considerarmos a castração uma
aproximação ao estado angelical.
Nota de rodapé: por aqui se constata que sempre esteve o mundo cheio de castradores.
Nota de rodapé: por aqui se constata que sempre esteve o mundo cheio de castradores.
domingo, 5 de janeiro de 2014
sábado, 4 de janeiro de 2014
THE LAW AND JAKE WADE (1958)
Ainda não fez um ano, iniciei uma série a que chamei
algo pretensiosamente 50 westerns que deve ver antes de morrer. Empreitada impossível
de respeitar. Desde logo, porque fiz batota com um filme de Jean Renoir
dificilmente encaixável no género. Depois, porque me apetece fazer batota com
outros filmes. Mas sobretudo porque 50 não chega, é número parco para tão vasto
território. Se ninguém notou, sublinho eu o esforço colocado na diversidade. Esforço
inglório, reconheço. Só de John Sturges (1910-1992) já constam na lista cinco
filmes: Escape from Fort Bravo (1953), Backlash (1956), Gunfight at the O.K.
Corral (1957), Last Train from Gun Hill (1959) e The Magnificent Seven (1960). São
todos imperdíveis. Ainda assim, falta aquele que é provavelmente o melhor filme
de Sturges: Bad Day at Black Rock/A Conspiração do Silêncio (1955). Geralmente
apontado como thriller, não deixa de ser, na essência, um western. E falta o
talvez mais convencional The Law and Jake Wade/Duelo na Cidade Fantasma (1958).
Deste modo, Sturges fica a pesar mais de 10% na improvisada lista. Constatação
algo inusitada para realizador que nunca mereceu tantos créditos quanto
outros gurus do género, de John Ford (1894-1973) a Anthony Mann (1906-1967),
deste a Sam Peckinpah (1926-1984), sem esquecer Sergio Leone (1929-1989) e
outros génios da cowboyada. The Law and Jake Wade tem argumento baseado num
romance de Marvin H. Albert, cuja experiência no domínio dos westerns deu azo a
uma mão cheia de filmes. Curiosamente, o título português acaba por parecer mais
apropriado do que o paradoxo implícito no título original. Jake Wade é um fora
da lei retirado, convertido em Marshall numa pequena cidade onde procura
refazer a vida. Está de casamento marcado. A personagem, interpretada por
Robert Taylor, reproduz estereótipos sobejamente conhecidos do velho oeste. Ao longo
do filme apercebemo-nos do percurso de Jake Wade, de como combateu durante a
guerra ao lado de uma causa, de como ficou deserdado de causas e se transformou
num assaltante de bancos, de como abandonou o submundo da criminalidade e
procurou refazer a vida segundo as convenções sociais da época. Não só a
história do velho oeste se polvilha destas personagens, homens fruto das
circunstâncias ao mesmo tempo marcados por uma consciência natural do mal e
pelo oportunismo discutível das suas acções. O que torna Jake Wade especial,
digno de originar um filme, é a sua relação com Clint Hollister - Richard Widmark, que observámos em registos completamente
diferentes nos filmes Backlash (1956) e Cheyenne Autumn (1964). A personagem de
Clint Hollister é implacável, rancorosa, temível. Jake e Clint estiveram juntos
na guerra, foram parceiros no mesmo gang, mas enquanto o primeiro foi assaltado
pelo remorso o segundo parece ter expurgado de si quaisquer resquícios de culpa
ou arrependimento. O filme começa com Clint preso e Jake a resgatá-lo da forca,
numa sequência inicial memorável onde o reencontro entre dois antigos parceiros
surge despojado de qualquer sentimentalismo. É tudo de uma frieza brutal,
como fria e distante será doravante a relação entre os dois. Perguntamo-nos:
porque se deu Jake ao trabalho de salvar Clint da forca? Porque em Jake a honra
pesa, ser-lhe-ia impossível continuar com a morte de um antigo companheiro a
pesar-lhe na consciência. O filme dá então uma reviravolta. Clint junta a
antiga quadrilha, acrescenta-lhe um jovem com traços psicóticos, e rapta Jake
mais a sua amável noiva (Patricia Owens). Objectivo: desenterrar 20000 dólares
que só Jake Wade sabe onde estão, fruto do último golpe perpetrado pela parelha
Jake & Clint. A busca do tesouro levar-nos-á a uma cidade fantasma rodeada
de índios. São cenas encenadas com uma eloquência visual deslumbrante. As silhuetas
dos índios ao longe, a forma como se aproximam do cenário principal, o combate,
escondem por detrás da acção uma luta peculiar entre dois homens: Jake e Clint.
Tudo aponta na direcção destes dois, nada os reaproxima, um deles terá que ceder e no
final ficarão frente a frente como uma inevitabilidade do destino. Não interessa
quem vence, porque neste tipo de duelos nunca existem vencedores. Interessa apenas
sublevar o campo de batalha de dois homens outrora unidos por uma causa,
entretanto afastados pelo carácter. Abel e Caim no palco sempre virgem da
humanidade, como o foram, noutro contexto, Pat Garrett e Billy the Kid ou
Fletcher e Josey Wales.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
MAÇÃ DE SAFO
Safo, que a lenda arrancou dos braços do marinheiro Fáon para
os precipícios da ilha de Lefkada (Léucade), não sem antes ter deitado no seu
regaço inúmeras moçoilas, foi honrada por Platão como a décima musa. Werner
Jaeger coloca-a num capítulo de transformação da poesia grega, onde a expressão
de sentimentos subjectivos ganha terreno à descrição, elevação ou reflexão da
vida comunitária. Não obstante, a intimidade nos gregos não pode ser pensada
fora da pólis. Faz mais sentido pensá-la no contexto de um novo pensamento
sobre o sentido da vida humana na terra, um pensamento de pendor hedonista
fundamentado na importância da sensualidade. Talvez seja mais fácil compreender
esse contexto comparando-o com o carpe diem romano. Vale a pena citar o “rancor”
de Arquíloco, tomando como referência a Paidéia, a este propósito, mais que não
seja pela actualidade das formulações clássicas:
Apregoavam os poetas, desde Homero, que a polis guardava
na lembrança e honrava, mesmo depois da morte, o nome dos que a tinham servido,
como recompensa certa pelo serviço prestado. Mas, na verdade, ninguém, depois
de morto, é honrado ou famoso na memória dos seus concidadãos; toda a vida nos
empenhamos por alcançar o favor dos vivos; os mortos, porém, coitados deles!
Outro fragmento mostra bem o que isto quer dizer. O poeta medita sobre a baixa
maledicência que até nos lugares mais recônditos persegue a quem já não é
preciso temer. É vergonhoso injuriar os mortos. Quem penetra assim na
psicologia da fama e conhece a baixeza da grande massa perde todo o respeito à
voz comum.
Portanto, a voz comum, que hoje enche tanto de fama como
de inveja efémeras estrelas, prestando-lhes a honra do cachet facilitador da boa
vida, nunca foi boa conselheira. Há nisto um enorme paradoxo, se o hedonismo
cingirmos a boa cama, estômago satisfeito, música e dança. Hoje o ritmo
parece diferente, mantendo-se apenas a doença, a velhice e a morte como
princípios inalterados da vida humana. Daí que o hedonismo de Safo seja mais
actual do que qualquer outro, pois eleva acima do simples “gozo da vida” a
beleza do amor:
15 A maçã no ramo mais alto (fr. 105 a PLF)
Sozinha, a doce maçã enrubesce no alto ramo,
alto, altíssimo, pois esqueceram-na os apanhadores da
maçã.
Na verdade, não a esqueceram: não conseguiram foi lá
chegar.
Lembro-me disto a propósito de um vox populi sobre votos
para o ano novo. Entre tradicionais votos de saúde, paz, dinheiro, alegria, lá
se lembrou um artista de rua, com sotaque do leste, da palavra amor. Dizia ele: "o amor é o mais importante, tens o amor e tens tudo". Citando Jaeger, «A
poesia de amor masculina nunca atingiu na Grécia a profundidade espiritual da
lírica de Safo. (…) É como porta-voz do amor que Safo entra no reino da poesia,
antes reservado aos homens». Leia-se:
4 Da beleza (fr. 16 PLF)
Uns dizem que é uma hoste de cavalaria, outros de
infantaria;
outros dizem se ruma frota de naus, na terra negra,
a coisa mais bela: mas eu digo ser aquilo
que se ama.
(…)
Traduzido de outra forma: Alguns dizem que o que há de
mais belo na Terra é um esquadrão de cavalaria; outros, um exército de
guerreiros apeados; outros ainda, uma esquadra de navios; mas o mais belo é ser
amado por quem o coração suspira. A beleza vê-se aqui disputada pela guerra e
pelo amor, pendendo para o segundo nas batalhas de Safo. Honra seja feita ao
vencedor, lembrando que por detrás desta lírica vive, afinal, um pensamento
político que não só não impede a expressão individual do sentimento como o
torna lei. Possa assim ser interpretado o mais belo dos fragmentos:
17 Renúncia (fr. 121 PLF)
Se és meu amigo,
vai para a cama de uma mulher mais nova.
Eu não suportaria ser a mulher
mais velha numa relação.
Pode algum homem conceber política mais doce e bela nas
palavras de uma mulher?
Referências: Poesia Grega de Álcman a Teócrito,
organização, tradução e notas de Frederico Lourenço, Edições Cotovia, Maio de
2006; Paidéia – A Formação do Homem Grego, de Werner Jaeger, tradução de Artur
M. Parreira, Martins Fontes/Editora Universidade de Brasília, 2.ª edição
brasileira, Janeiro de 1989.
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