sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O PODER DA CANÇÃO



Por variadíssimas razões, este documentário deve ser visto do princípio ao fim. Não darão o tempo por perdido.

PETE SEEGER (1919-2014)

domingo, 26 de janeiro de 2014

PILARES DO MUNDO CIVILIZADO

Túpac Amaru II e Zumbi mereciam um lugar ao lado dos grandes navegadores. No entanto, os seus nomes não vêm nos manuais. O primeiro foi, como aqui se diz, «um caudilho indígena líder da maior rebelião anticolonial que se deu na América durante o século XVII». À chegada dos espanhóis, o império inca estendia-se por um vasto território que compreende hoje países como o Peru, a Bolívia e o Equador, parte da Colômbia e do Chile, até ao norte da Argentina e à selva brasileira. Nuestros hermanos arrasaram esta ancestral civilização. Os índios foram transformados no «combustível do sistema produtivo colonial» (Darcy Ribeiro), atirados para as minas de ouro e de prata onde trabalhavam até a morte os libertar. Em 1781, Túpac Amaru II, descendente do imperador com o mesmo nome que os espanhóis haviam executado no século XVI, encabeçou um movimento revolucionário que pretendia libertar os escravos, acabar com a exploração de mão-de-obra indígena e abolir os impostos. O fim da mita (ver aqui) era um dos objectivos da revolução. Eduardo Galeano recorda os últimos dias do herói esquecido:
Al frente de sus guerrilleros, el caudillo se lanzó sobre el Cuzco. Marchaba predicando arengas: todos los que murieran bajo sus órdenes en esta guerra resuscitarían para disfrutar las felicidades y las riquezas de las que habían sido despojados por los invasores. Se sucedieron victorias y derrotas; por fin, traicionado y capturado por uno de sus jefes, Túpac Amaru fue entregado, cargado de cadenas, a los realistas. En su calabozo entró el visitador Areche para exigirle, a cambio de promesas, los nombres de los cómplices de la rebelión. Túpac Amaru le contestó com desprecio: «Aquí no hay más cómplices que tú y yo; tú por opresor, y yo por libertador, merecemos la muerte».
Túpac fue sometido a suplicio, junto com su esposa, sus hijos y sus principales partidários, en la plaza del Wacaypata, en el Cuzco. Le cortaron la lengua. Ataron sus brazos y sus piernas a cuatro caballos, para descuartizarlo, pero el cuerpo no se partió. Lo decapitaron al pie de la horca. Enviaron la cabeza a Tinta. Uno de sus brazos fue a Tungasuca y el outro a Carabaya. Mandaron una pierna a Santa Rosa y la outra a Livitaca. Le quemaron el torso y arrojaron las cenizas al río Watanay. Se recomendó que fuero extinguida toda su descendencia, hasta el cuarto grado. (Las Venas Abiertas de América Latina, p. 66)
Mais a norte, sob regência portuguesa, Zumbi tornou-se conhecido ao liderar o movimento de resistência do Quilombo dos Palmares. Situado no nordeste brasileiro, este reinado independente habitado por escravos fugidos das fazendas de açúcar tinha uma área próxima à do território português actual. Diversas investidas, tanto por parte de holandeses como dos portugueses, tentaram derrubar aquela espécie de estado tribal. Zumbi deu seguimento à resistência de Ganga Zumba até ao dia 20 de Novembro de 1695.
La abundancia de alimentos de Palmares contrastaba com las penurias que, en plena prosperidad, padecían las zonas azucareras del litoral. Los esclavos que habían conquistado la libertad la defendían con habilidad y coraje porque compartían sus frutos: la propiedad de la tierra era comunitária y no circulaba el dinero en el estado negro. «No figura en la historia universal ninguna rebelión de esclavos tan prolongada como la de Palmares. La de Espartaco, que conmovió el sistema esclavista más importante de la antigüedad, duró dieciocho meses» (Décio de Freitas). Para la batalla final, la corona portuguesa movilizó el mayor ejército conocido hasta la muy posterior independencia de Brasil. No menos de diez mil personas defendieron la última fortaleza de Palmares; los sobrevivientes fueron degolados, arrojados a los precipícios o vendidos a los mercaderes de Río de Janeiro y Buenos Aires. Dos años después, el jefe Zumbi, a quien los esclavos consideraban inmortal, no pudo escapar a una traición. Lo acorralaron en la selva y le cortaron la cabeza. Pero las rebeliones continuaron. No passaria mucho tiempo antes de que el capitán Bartolomeu Bueno Do Prado regresara del río das Mortes com sus trofeos de la victoria contra una nueva sublevación de esclavos. Traía tres mil novecientos pares de orejas en las alforjas de los caballos.


Eduardo Galeano, in Las Venas Abiertas de América Latina, Siglo Veintiuno Editores, 2010, pp- 113-114.

JÁ NÃO HÁ PACHORRA PARA GELATINA DE MORANGO

Periodicamente, o país acorda para o mundo das praxes. Recorre ao tema motivado por um jovem assassinado com uma cronhada na cabeça, uma jovem mergulhada num monte de merda, uma outra violada a contragosto (no mundo das praxes há delas que gostam) ou, mais recentemente, seis pseudo-doutores engolidos pela gula das marés. A malta das praxes tem as suas hierarquias, veste-se a rigor, promove sociedades secretas com rituais mais ou menos obscuros, venera fardas e hinos, sob o olhar cúmplice e apaixonado de pais e professores orgulhosos. Têm as suas bandeiras, os seus símbolos. A academia aceita, desmistifica, moraliza eventuais atentados à dignidade humana, desinflaciona a dimensão grotesca e bruta da humilhação iniciática. Afinal, só é praxado quem quer e quem quer gosta, voluntaria-se se for preciso, está disposto a tudo para poder sentir-se parte integrante do grupo que há-de promovê-lo à condição de senhor perante futuros escravos. Assim se cresce e se faz homem e mulher quem nasça no mundo civilizado. É a tradição, palavra há muito utilizada para desculpabilizar e absolver todo o tido de atrocidades. O curioso disto está em constatar certo etnocentrismo encapuçado. As mesmas pessoas que vemos falar das praxes com orgulho ou simples desdramatização são capazes de apontar com a mais estúpida insensatez o fanatismo religioso islâmico, os rituais incivilizados da raça cigana, a violência genética dos pretos, numa prática do preconceito e do estereótipo cultural há muito enraizada na assoberbada nossa cultura. Ironia das ironias, o debate actual sobre as praxes acontece na mesma altura em que investigadores se manifestam contra o desinvestimento do governo na ciência. Anunciados cortes nas bolsas de estudo, que podemos fazer acompanhar de outros tantos cortes na cultura e no ensino, são a cereja no topo do bolo deste retrocesso civilizacional. Ou então não há retrocesso nenhum. Andávamos todos iludidos e o país continua a ser o que sempre foi desde a sua origem: um caldeirão de equívocos. Foi um equívoco que nos tornou país, foi um equívoco que nos tornou messiânicos, foi um equívoco que nos levou às américas, foi por equívoco que nos julgámos ricos, equivocadamente aguentámos 50 anos de ditadura e vai fazer 40 anos que vivemos debaixo de um equívoco democrático. O mal que levámos ao mundo, nós e outros como nós, talvez seja a raiz do problema. Repare-se como glorificamos as chamadas descobertas sem sentirmos vergonha ou o mínimo peso na consciência pelos milhões de índios que condenámos à morte e outros tantos pretos que arrancámos das suas terras para os tratarmos como gado. E dos tempos coloniais continuamos a falar como quem fala de gelatina de morango. A História não nos pesa na consciência porque: 1. É passado; 2. O que lá vai lá vai; 3. Já não me lembro. Esta falta de consciência história é um mal tremendo, ilude virtudes que não temos e impede, atrasa, retarda o mais importante dos progressos. Um progresso civilizacional que tornasse a corrupção inaceitável e intolerável, ao contrário da prática generalizada que se faz da mesma desde o mais banal “chico esperto” aos altos cargos do poder; um progresso civilizacional que fosse implacável para com práticas desumanas, venham elas de claques, gangues ou associações académicas; um progresso civilizacional que não considerasse desperdício o investimento na ciência, na cultura, na educação, na saúde, pelo menos com a mesma alegria com que estupidamente aplaudimos a construção desnecessária de estádios de futebol ou exposições internacionais ou auto-estradas inúteis; um progresso civilizacional que arrancasse os cidadãos da modorra e da indigência social em que vivem, extasiados com os feitos dos seus heróis futebolísticos e estupidificados com lixo televisivo, para os elevar um pouco acima do ilusionismo que os endromina: exigindo uma democracia de facto, contra as mentiras e a hipocrisia que alimentam o motor da política e engordam 85 patrões beneméritos à custa da exploração de 7 biliões de nano-pequenos-médios-escravos agradecidos. Longe disso, indignamo-nos periodicamente com as praxes como se não fôssemos todos, mas mesmo todos, responsáveis pelo estado em que estamos, tão brandos que continuamos a ser com os facínoras que nos vão açucarando a existência à base de gelatina de morango.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

XICA QUE MANDA

A história de Francisca da Silva é conhecida. Quando os portugueses andavam por Minas Gerais a sacar ouro e diamantes aos índios, uma mulata de Tijuco tornou-se amante do contratador João Fernandes de Oliveira. A mulata, conhecida por Chica, era filha de um português e de uma escrava africana. Foram aos milhares, os negros capturados em África que os portugueses levaram para as américas. Tinham bom corpo para as minas. Os preferidos eram os guineenses, cria-se que possuíam poderes mágicos para a descoberta do ouro. Nomes como Ouro Preto, Diamantina, Minas Gerais, guardam rios de sangue em cada uma das letras. Mas a verdade é que, ontem como hoje, os pigs portugueses e espanhóis apenas faziam o jogo sujo. Ganhavam com o negócio ingleses, da parte lusa, e banqueiros alemães, genoveses, flamencos, da parte espanhola. As “coroas ibéricas” viviam luxuosamente debaixo de hipotecas. Velhas histórias.
No seio da miséria, florejaram cidades luxuriantes entretanto transformadas em ruínas com história. Eduardo Galeano conta que em Potosí, na Bolívia do século XVII, havia cento e vinte prostitutas célebres que faziam as delícias dos mineiros. Já em Ouro Preto, no século XVIII, os ricos engalanavam-se com as últimas modas europeias e esbanjavam tudo em festas, jogos, mulheres. João Fernandes de Oliveira, educado na melhor universidade portuguesa, tinha a seu cargo a exploração de diamantes (actividade herdada do pai). Apesar de nunca ter contraído matrimónio com a ex-escrava, da relação pública e assumida nasceram 13 filhos. Xica tinha dois bastardos de anteriores cruzamentos. Conta-se que a paixão de João Fernandes de Oliveira por Francisca da Silva era tal que mandou construir um lago artificial, com barco e tripulação no meio das águas, para satisfazer um velho desejo da amante: ver o mar. Nada que se compare ao que Francisca fez por ele, salvando-o de nefastas maleitas devidamente elencadas pela medicina da época. Cito Galeano, que por sua vez cita Miguel Barnet, que por sua vez citou Esteban Montejo (vale a pena seguir os links):


«En Cuba se atribuían propriedades medicinales a las esclavas. Según el testimonio de Esteban Montejo, «había un tipo de enfermedad que recogían los blancos. Era una enfermedad en las venas y en las partes masculinas. Se quitaba con las negras. El que la cogía se acostaba com una negra y se la pasaba. Así se curaban en seguida».

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

HISTÓRIAS DE LOUCURA NORMAL

Há dias dei por mim a padecer de síndrome bukowskiana, a qual se manifesta, em termos gerais, num desconforto agudo perante a realidade “pequeno-burguesa”. É como assistir aos episódios de Breaking Bad de pantufas calçadas e manta sobre as coxas, indiferente à vulgaridade dos dias e sem vontade de mudar o que quer que seja. Partindo do princípio que o leitor compreenderá a insatisfação, podendo até considerar-se cúmplice, em doses desiguais, deste desconforto, escusado será lembrar que Charles Bukowski (1920-1994) foi, enquanto escritor, uma personagem de si próprio. Lê-lo consiste em assumir a ilusão de que nos relacionamos com ele, embora tal não se verifique de facto. E não se verifica, desde logo, porque o Bukowski dos livros, o dos vídeos disponíveis e das fotografias que registaram o mito - «mito Bukowski (na verdade, sou um cobarde)» - na sua face mais caricata, está nos antípodas de tudo aquilo que nós alguma vez seremos. Aproxima-nos uma desconfiança declarada perante as virtudes da humanidade: «A raça humana sempre me tinha causado asco. Fundamentalmente, aquilo que a tornava repugnante era a doença das relações familiares, onde se incluíam o casamento, as trocas de poder e ajuda, que à semelhança de uma ferida, uma lepra, se tornava então: o nosso vizinho do lado, a nossa vizinhança, o nosso bairro, a nossa cidade, o nosso condado, o nosso estado, o nosso país… toda a gente agarrada aos cus uns dos outros na colmeia da sobrevivência por causa de uma imbecilidade de animalesco receio» (p. 88). Mas afasta-nos o excesso, o exagero, o risco que apenas os duros pisam sem temer consequências radicais. Afasta-nos a noção trágica da vida, o compromisso: «Viver é fácil: basta deixar andar. E ter algum dinheiro. Outros que travem as guerras, os outros que vão para a prisão» (p. 52). Sendo o corpo que se joga, é a própria vida que se arrisca. Disso nos dão conta os textos reunidos no volume Histórias de loucura normal (Editora Objectiva/Alfaguara, Outubro de 2013), traduzidos para português por Vasco Gato, originalmente colhidos na colectânea Erections, Ejaculations, Exhibitions, and General Tales of Ordinary Madness (1972). Marco Ferreri apoiou-se neste material para o argumento do filme Storie di ordinaria follia (1981), primeira incursão cinematográfica pela vida alucinada de Charles Bukowski. Apesar do discurso cru, do tom arrogante, desencantando e saturado, da exibição de uma certa violência que encena o palco onde a marginalidade actua, estes textos não são tão fáceis quanto aparentam. Alcoólico e misógino, o autor ora fala de si na primeira pessoa ora se reinventa em alter-egos mais ou menos recorrentes. Adeus, Watson é uma arte poética que transforma o hipódromo e as corridas de cavalos naquilo que a tourada terá sido para Hemingway: «para mim, o hipódromo revela-me rapidamente onde estão as minhas fraquezas e onde estão as minhas forças, e revela-me como me sinto nesse dia e revela-me como ninguém pára de mudar, andamos TODOS em mudança a toda a hora, e como nos damos tão pouco conta disso. / e a esfola da gentalha é o filme de terror do século. TODOS perdem» (p. 115). A disparidade narrativa é evidente, salta-se de tema para tema como numa conversa de café. Há textos que excedem a clareza do discurso pelo desvairo dos argumentos (um cobertor assassino, uma mulher com um jardim zoológico em casa…), deixando-nos na dúvida sobre possíveis alusões metafóricas. Enraizados num cinismo clássico, outros textos são mera prosa diarística, resvalam para a crónica de costumes, relatam momentos e circunstâncias aparentemente reais com frequente e declarado desdém para com o universo literário predominante e uma ironia que não pode ser confundida com auto-indulgência: «lá fora eram os carros estacionados, e as pessoas de um lado para o outro. Nenhuma delas lia poesia, falava sobre poesia, escrevia poesia. para variar, a multidão pareceu-me bastante sensata» (p. 127) São inúmeras as passagens em que a autocrítica ultrapassa os limites da sanidade, confessam-se tendências suicidas, espelham-se e assumem-se defeitos insuperáveis, é como se a escrita fosse uma automutilação: «…e senti-me, estranhamente, envergonhado de qualquer coisa. culpado, mal, incompleto, como um monte de merda, como uma bala de metralhadora desperdiçada» (p. 198); ou: «ele tem 43. eu tenho 48. pareço pelo menos 15 anos mais velho do que ele. e sinto uma certa vergonha. a barriga saliente. aquele ar abatido. o mundo levou-me muitas horas e anos com as suas tarefas aborrecidíssimas; nota-se. sinto vergonha pela minha derrota; não pelo dinheiro dele, pela minha derrota. o melhor revolucionário é um tipo pobre; eu nem sequer revolucionário sou, estou apenas cansado, mas que balde de merda me calhou! espelho, espelho na parede…» (pp. 225-226) Porque mais do que corrigir-se, importa resistir aos horrores da normalidade, da melancólica sobrevivência, do enfezado passar dos dias. Exalta-se o flanco instintivo e animal do ser, contrapondo-o aos horrores da vida doméstica e domesticável. Uma conversa tranquila é pura declaração política (mais cínica do que anarquista); Olhos como o céu retrata a guerrilha desprezível pelo “poder” na literatura; Cerveja e poetas e conversa é toda uma geração passada a papel químico. Restos de humanidade? Também os há, no rosto alegre de uma criança que apaga as quatro velas do bolo de aniversário. E na música clássica, alguns escritores, na escumalha de Los Angeles, entre os quais Bukowski se sente vivo, livre da vida:

Ofereci-me como voluntário para algumas tarefas especiais só para sair da ala, só para passear pelo sítio. Eu era parecido com o Bobby, embora não puxasse as calças para cima nem assobiasse uma versão desafinada da Cármen de Bizet. Tinha uma fixação pelo suicídio e uns surtos depressivos violentos e não suportava as multidões e, sobretudo, não suportava estar numa longa fila à espera de qualquer coisa. e é nisso que a sociedade se está a tornar: longas filas e esperas por qualquer coisa. eu tinha tentado suicidar-me com gás mas não tinha resultado. Havia, no entanto, outro problema. O meu problema era sair da cama. Eu odiava sair da cama, sempre. Costumava dizer a quem me quisesse ouvir: «As duas maiores invenções do homem são a cama e a bomba atómica; a primeira mantém-nos longe do mundo e a segunda tira-nos do mundo». As pessoas achavam que eu era maluco. Jogos infantis, é tudo o que a spessoas fazem: jogos infantis – vão da cona para o túmulo sem nunca serem tocadas pelo horror da vida.


Charles Bukowski, in Histórias de loucura normal, tradução de Vasco Gato, Editora Objectiva/Alfaguara, Outubro de 2013, 255-256.

domingo, 19 de janeiro de 2014

DIGNIDADE


A história desta fotografia é sobejamente conhecida. Em 1936, um homem chamado August Landmesser não fez a saudação nazi para aclamar Hitler. Os tempos eram incomensuravelmente diferentes, o homem estava entre uma multidão vergada pelo medo, mas a sua postura revela algo mais do que um gesto simbólico. Resulta de um exercício de consciência que, servindo-se da mais nobre das conquistas humanas, a liberdade, garante ao indivíduo a sua condição de pessoa. Ele é uma pessoa. O mesmo não podemos afirmar, pelo menos com tanta certeza, dos entes que apoiados em declarações de voto e abstenções oportunistas se curvaram, com muito menos a perder do que Landmesser, a uma disciplina de voto pura e simplesmente usurpadora da consciência individual e, por consequência, da dignidade humana. Não foi por cobardia, é mesmo falta de dignidade.

KAMASUTRA BUKOWSKI


Antes de arrancar com a marosca das drogas eu não tinha muito dinheiro e as dificuldades eram muitas. Uma vez tive de levar uma das melhores, a Mary, para a casa de banho das senhoras de uma estação de serviço. Foi muito complicado encontrarmos uma posição - ninguém se quer deitar no chão de um mictório - e de pé não calhava bem - demasiado esquisito - até que às tantas me lembrei de um truque que tinha aprendido. Numa cagadeira de comboio a passar por Utah. Com uma bela rapariga indiana embriagada de vinho. Pedi à Mary que atirasse uma das pernas para cima do lavatório. Apoiei a custo uma perna no lavatório e enfiei-o lá para dentro. Resultou. Lembrem-se disto. Podem vir a precisar. Até dá para pôr água quente a correr-nos nos tomates para intensificar as sensações.

Charles Bukowski, in Histórias de loucura normal, tradução de Vasco Gato, Editora Objectiva/Alfaguara, Outubro de 2013, p. 254.

sábado, 18 de janeiro de 2014

RIDE LONESOME (1959)


Cito João Lopes, crónica publicada no Diário de Notícias a 27 de Fevereiro de 2011: «O western, por exemplo. Hoje em dia tratado quase sempre como coisa pitoresca, com uns brancos a cavalo e uns índios aos gritos, o western representa um património admirável de narrativas e mitologias, de imensa complexidade ideológica e política (quem disse que a cultura popular é simples?), enraizado na história americana da expansão para oeste, mas cuja filosofia existencial encontrou eco em muitas outras culturas. (…) Desde as epopeias de John Ford (1894-1973) até às revisões críticas de Sam Peckinpah (1925-1984), o western foi palco de muitas e fascinantes contradições, espelhando as ânsias redentoras de uma nação à conquista do seu espaço natural, ao mesmo tempo integrando de modo mais ou menos elaborado as contradições (humanas, morais, simbólicas) de tal odisseia. É uma pena que tenham caído quase no esquecimento westerns como os que Randolph Scott (1898-1987) protagonizou sob a direcção de Budd Boetticher (1916-2001). Penso, por exemplo, em Seven Men from Now/Sete Homens para Matar (1956), Buchannan Rides Alone/Têmpera de Herói (1958) ou Ride Lonesome/O Homem Que Luta Só (1959). São filmes cuja subtil relação material com a terra e os seus heróis lhes conferiu também um apelo intemporal, da mais fascinante abstracção». Não podia estar mais de acordo. Se tivesse que escolher apenas dez westerns para esta lista, Ride Lonesome estaria entre os escolhidos. É um dos meus filmes preferidos. Ponto. Aqui chegado, perdoar-se-me-á a preguiça. Sugiro que escutem Martin Scorsese:



À semelhança de outros filmes do Ranown Cycle, também este tem por mote dramático o desejo de vingança. Mas aqui a personagem interpretada por Randolph Scott, um caçador de prémios chamado Ben Brigade, adquire características lacónicas que escapam às suas outras interpretações. Este laconismo reforça a aura enigmática da personagem, oferecendo ao desenrolar da acção um interesse redobrado. O filme começa com a captura do assassino em fuga Billy John. Brigade pretende levá-lo até Santa Cruz, onde a forca aguarda o homicida em troca de um prémio especial para os captores. O desenvolvimento da acção corresponderá, assim, ao desvelamento progressivo das verdadeiras intenções de Brigade. Para tal contribui o facto de se lhe juntarem dois foras da lei, Sam Boone e Whit (este, interpretado por um jovem de seu nome James Coburn), que também estão interessados no prémio estipulado pela captura de Billy John. No entanto, se a Brigade parece interessar apenas o dinheiro do prémio, à “sociedade” Sam & Whit interessa a outra parte do mesmo: amnistia pelos crimes anteriormente cometidos. Sam quer refazer a vida, tem um terreno onde pretende regressar para aí começar de novo na companhia de Whit e, quem sabe, de Mrs. Carrie Lane, viúva do chefe de uma estação recentemente assassinado pelos mescaleros. Brigade, Boone, Whit e Mrs. Carrie Lane seguirão em conjunto, carregando o algemado Billy John pelo caminho. Num filme todo ele filmado em exteriores, os planos gerais, de uma fotografia excepcional, são opção que permite intensificar o esforço dos pontos minúsculo em movimento na paisagem. Perante a grandiosidade geral, o aspecto ínfimo dos seres humanos assim representados torna o discurso quase religioso. Boetticher não precisa de focar o rosto das personagens para revelar a sua psicologia, optando pelo chamado plano americano nas cenas que aproximam os intervenientes. A intimidade entre estes companheiros de viagem fica relativizada pela distância nunca desfeita, estabelecendo-se entre alguns dos intervenientes diálogos que ameaçam a desintegração do grupo. O termo do filme é, pois, de um romantismo exasperante. Descobriremos que o objectivo de Brigade, afinal, não era o prémio oferecido pela captura de Billy John, mas sim atrair o irmão deste para um velho ajuste de contas. Frank (interpretado por um omnipresente Lee Van Cleef), irmão de Biily Johhn, é o verdadeiro interesse de Ben Brigade. As sequências finais são de uma tensão dificilmente resistível, sendo o remate do filme provavelmente dos melhores alguma vez filmados. A carga simbólica do travelling que se desloca de um plano onde observamos Brigade de frente para a “árvore dos enforcamentos” em chamas para o fumo que resulta das chamas é impressionante. Revela, como afirma Scorsese, um homem finalmente liberto das assombrações passadas. Aquela árvore em chamas é um homem a enterrar o seu passado (fumo, cinza), cumprida que está a sua derradeira tarefa: vingar o assassinato da mulher.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

COADOPÇÃO

Mais uma vez se prova que os neo-liberais, afinal, são proto-conservadores. Os tiques fascistas são evidentes. Só não os vê quem não quer ver.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

LÁGRIMAS DE RONALDO


Não foi só uma bola de ouro que Cristiano Ronaldo ganhou na passada segunda-feira. Com aquelas lágrimas, conquistou para a opinião pública uma dimensão humana que não tinha. Muitas pessoas olham para Ronaldo com desconfiança. Riquíssimo, inspira uma espécie de raiva, quando não inveja, perante as injustiças do mundo. Como pode ganhar tanto dinheiro um indivíduo cuja profissão é jogar à bola? Por detrás do seu talento, esconde-se porém um trabalho atlético e técnico tremendo. Muito treino, muito esforço, muita prática, espírito de sacrifício. O mesmo acontece com os melhores artistas, salvo raríssimas excepções de talento natural que, como é óbvio, não garantem fama nem proveito. Fama e proveito ficam para jogadores da bola, popstars, bestsellers, estrelas de Hollywood, alguns artistas. A fama de Ronaldo gerava também aquilo a que vou chamar convicção de superioridade moral por parte dos seus espectadores menos convencidos. É só um jogador da bola, dizem; com a selecção não faz nada, lamentam; tanto dinheiro e não dá nada a ninguém, reclamam… Apesar de tudo, o desejo da estrela é poder comer um gelado descansadamente na companhia do filho numa esplanada qualquer. Sem que o macem com fotografias e autógrafos, só os dois, ele e o filho, sossegadamente a comer um gelado. Aquelas lágrimas fazem-nos crer neste desejo e no direito que Ronaldo tem de cumpri-lo, chamaram-no à terra para que todos pudessem ver o quão igual ele é, no essencial, a cada um de nós. As lágrimas outrora vertidas em jogos com a camisola da selecção nacional deixaram de ser de crocodilo. São lágrimas que relembram a doutrina secreta da deusa Tripura Sundari, também chamada de Lalitha, a mais bela dos três mundos:

A beleza feminina é realmente a principal fonte de prazer. Todos são atraídos e encegueirados por ela, até os sages. Mas repara atentamente, Príncipe, no que é afinal tanto o corpo masculino como o feminino. É uma gaiola feita de ossos, revestidos de carne embebida em sangue e mantidos juntos aos tendões. Uma pele coberta de pêlos estende-se a toda a volta. No interior não se nos depara senão bílis, flegma e escória de excrementos. Fabricado a partir do esperma e do sangue, ele vem ao mundo pela mesma passagem que a urina.

Convenhamos não ser o mais celestial dos berços, este por onde a urina passa. Antonin Artaud disse praticamente o mesmo na famigerada Carta a Pierre Loeb (tradução de Aníbal Fernandes):

(…)
Quem foi Baudelaire?
Quem foram Edgar Poe, Nietzsche, Gérard de Nerval?
Corpos
que comeram,
digeriram,
dormiram,
ressonaram uma vez por noite,
cagaram entre 25 e 30 000 vezes,
e em face de 30 ou 40 000 refeições,
40 mil sonos,
40 mil roncos,
40 mil bocas acres e azedas ao despertar
(…)

PALAVRAS PARA 2014: RONALDO

Todos nós, portugueses, temos um bocadinho do Cristiano Ronaldo dentro de nós

Pires de Lima, aqui.

PALAVRAS PARA 2014: PANTEÃO

Sim, senhor, Eusébio merece um Panteão. Mas não aquele. Um Panteão no estádio do Benfica, ou perto dali, que as pessoas pudessem visitar sem medo de se irritar ou contaminar. Quanto ao Panteão Nacional, do que ele precisa com urgência é de um “saneamento” sucessivo, que o aproxime um pouco da realidade.

Vasco Pulido Valente.

BUCHANAN RIDES ALONE (1958)




Buchannan Rides Alone/Têmpera de Herói (1958) é o mais surreal dos filmes que integram o chamado Ranown Cycle. Vislumbramos em muitas das suas sequências a raiz do spaghetti western, sendo evidente a influência exercida sobre o Leone de Per Un Pugno Di Dollari (1964). Baseado num romance de Jonas Ward, que fez da personagem de Buchanan um mito da literatura dedicada ao Velho Oeste, a estranheza do filme de Budd Boetticher (1916-2001) começa na forma como reencarna o mito na figura do actor Randolph Scott. Esvaziado de seriedade, Scott aparece sorridente, descontraído, quase cómico. Num filme repleto de cenas grotescas, o sorriso de Scott é porventura o sinal mais ridículo de todos neste contexto desmistificador e desconstrutor do western dos anos 1940 e da primeira metade da década de 1950. O filme começa com a chegada de Buchanan à cidade fronteiriça de Agry. Ao entrar em Agry, Buchanan arrasta-nos para um palco ambíguo, fronteiriço, onde mexicanos e norte-americanos convivem aparentemente de forma pacífica. O nome da cidade é o da família que nela predomina, nomeadamente três irmãos com características bem distintas mas propósitos similares. Boetticher introduz-nos no clima mostrando as placas dos serviços espalhados ao longo da cidade: barbearia Agry, saloon Agry, hotel Agry, mercearia Agry… A mesquinhez do local torna-se evidente, mais ainda quando nos apercebemos ter cada um dos serviços prestados sempre o mesmo custo: dez dólares. O facto levará Buchanan a chamar-lhe a cidade dos dez dólares, expressão que uniformiza o ambiente geral de um modo rasteiro. Por detrás desta uniformização estão três irmãos. Lew Agry, xerife, é o primeiro com quem Buchanan se cruza. Típico brutamontes, parece pensar apenas com o músculo. Não obstante, rodeia-se de ajudantes que impele para a linha da frente sempre que é preciso oferecer o peito às balas. Tem uma única coisa em mente: dinheiro. O segundo dos três irmãos com quem Buchanan trava conhecimento é Amos, responsável pelo Hotel. Linguarudo, desajeitado, bisbilhoteiro, viscoso, corre de um lado para o outro da cidade levando consigo notícias e intrigas. O destrambelho faz dele uma personagem caricata. Tem uma única coisa em mente: dinheiro. Resta o juiz Simon, arrivista com ambições políticas, calculista, é um hipócrita com uma única coisa em mente: dinheiro. Quando o filho, alcoólico e inconsequente, acaba assassinado por um mexicano, a iminência de um linchamento público leva o juiz Simon a reivindicar um julgamento justo. Em véspera de eleições, a intenção é clara: fazer passar a imagem de homem justo perante a comunidade. Mas logo esta intenção cai por terra quando um capataz do pai do réu oferece cinquenta mil dólares em troco do filho. Todos estes acontecimentos precipitarão Buchanan numa série de façanhas onde nada se apresenta com objectividade. Ressalta à vista o seu pragmatismo, embora Boetticher faça dele, muitas vezes, uma espécie de espectador interventivo para pintar uma caricatura mais abrangente daquela comunidade. Exemplo disso é a sequência do fair trial a que são sujeitos Juan de la Veja, o jovem mexicano que vingou a violação da irmã matando o violador (Roy Agry, filho do juiz), e Tom Buchanan, por ter acudido Juan quando este estava a ser espancado pelos ajudantes do xerife. Sem tribunal na cidade, ocorre o julgamento no bar. Júri e público são convidados a parar de beber antes do julgamento para evitar opiniões embriagadas. Uns sentados em cadeiras, outros ao longo do balcão, o júri na escada que dá acesso aos quartos, todos respeitam os trâmites anedóticos do tribunal improvisado. E a aura de homem justo do juiz sai reforçada pelas decisões finais. Não interessa quais. Muita gente há-de morrer entretanto, não necessariamente aqueles que mais se espera. Mas talvez importe sublinhar a última tirada de Buchanan quando abandona a cidade: os que ficam, que façam bom proveito dela. Talvez Agry seja hoje um fantasma como outro qualquer, a sombra que acompanha a memória, um tempo que ficou para trás. Seja o que for, é também uma "metonímia" daquilo que grande parte do mundo traz em mente: dinheiro. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

DECISION AT SUNDOWN (1957)




Oscar “Budd” Boetticher, conhecido no mundo do cinema apenas como Budd Boetticher (1916-2001), merece ser recordado. Depois de experimentar várias modalidades desportivas, apaixonou-se pela tourada durante uma viagem ao México. Rouben Mamoulian contratou-o como conselheiro técnico para o filme Blood and Sand/Sangue e Arena (1941). Entra desta forma discreta no universo cinematográfico, pegando pouco tempo depois nas câmaras para começar a realizar vários filmes de série B - muitos dos quais votados à sua extravagante paixão hispânica: as touradas. Boetticher era um duro, característica explícita nos seus filmes. Não admira que enveredasse pelo western, assinando alguns dos melhores filmes do género. A sua parceria com o actor Randolph Scott na década de 1950 tornou-se, como agora se diz, incontornável. Ficou conhecida como o Ranown Cycle - designação algo equívoca -, devido à colaboração com o produtor Harry Joe Brown. Sete filmes compõem o ciclo, sendo Decision at Sundown/Entardecer Sangrento (1957) o terceiro. Os outros foram Seven Men From Now (1956), que André Bazin apreciava particularmente, The Tall T (1957), Buchanan Rides Alone (1958), Westbound (1959), Ride Lonesome (1959) e Comanche Station (1960). Filmes incisivos, com uma linguagem directa e crua, fazem descer à terra o imaginário epopeico do western. As personagens de Boetticher são ambíguas, paradoxais, não encarnam a ambivalência dos falsos heróis ou dos anti-heróis, nem se elevam ao estado trágico dos deuses gregos. São personagens humanas, cheias de defeitos, equivocam-se, arrependem-se, hesitam, actuam no palco movediço e lamacento da humanidade. Gosto especialmente de Decision at Sundown pelo inusitado do tema. O palco da narrativa é a pequena cidade de Sundown, microcosmo de um mundo aquém do que podia ser. Lugar pelo qual as pessoas se apaixonam para, nele estabelecidas, logo se decepcionarem. Boetticher oferece uma relevância extraordinária a personagens aparentemente secundárias, conseguindo uma caracterização muito eficiente do ambiente social. Do barbeiro coscuvilheiro ao juiz de paz hipócrita, passando pelo xerife corrupto, a soldo do “dono” da cidade, há toda uma personificação do local que desloca o centro da atenção do particular para o geral. Nem na exploração da psicologia dos intervenientes cai na vulgaridade. Antes pelo contrário. O “dono” da cidade não é um rancheiro implacável, um Marshall corrupto, um juiz ambicioso ou um facínora qualquer. É um galã que treme no momento de enfrentar os seus inimigos, rabo de saia prestes a casar contra a vontade e os desejos da amante. Situação curiosa, a deste homem que espera pela noiva com a amante sentada à sua frente na primeira fila da igreja. Quem interromperá o casamento é Bart Allison (Randolph Scott), marido encornado que vem vingar não sabemos bem o quê. Desempenho extraordinário de Scott, este marido enraivecido, tomado pelo desejo de vingança, assaltado pelo ódio, descontrolado. Mais tarde ficaremos a saber que a sua mulher se suicidara pouco antes de ele ter regressado da guerra, e que Tate Kimbrough, objecto da fúria de Bart, foi apenas um dos vários homens com quem ela andou enrolada. Coincidirá o momento da revelação com o despertar de toda uma cidade. Aquele dia tão especial em Sundown, desde o precipitar dos acontecimentos até à partida dos principais intervenientes, coincide com um casamento que não nos é mostrado: o casamento da cidade com os seus habitantes, que dela andavam divorciados por culpa de um homem desonesto. A reconquista da dignidade de toda uma comunidade, sucede da forma mais inesperada, movida por um homem traído, equivocado nos fundamentos dos seus propósitos, debilitado pelo total descontrolo que as suas acções revelam. Há uma direcção irónica, porventura cínica no mais clássico dos sentidos do termo, que atravessa todo o filme. Sundown é uma arena onde o confronto essencial não é tanto entre as forças oponentes, como parece ser dos homens consigo próprios. E nesse aspecto, este western desenhado por Budd Boetticher desconstrói a mitologia do Velho Oeste tornando-a “humana, demasiado humano”.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

OBRAS NO PANTEÃO


Um dos pátrios heróis cujos ossos repousam no Panteão Nacional é Guerra Junqueiro. Como outros que tais ali mumificados, era este amigo do copo. Em noites de euforia, a pena satírica fugia-lhe para a ordinarice. Assim surgiram alguns versos, que, conta-se, a ilustre figura foi tentando rasurar enquanto e como pôde (a bem da memória futura). Mas quer sempre mais o tempo do que os homens, e aí estão, perduráveis, algumas das suas mais caricatas obscenidades:

A TORRE DE BABEL OU A PORRA DO SORIANO

Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
       Para o cantar inteiro e o cantar bem
precisava viver como Matusalém.
       Dez séculos!
                           Enfim, nesta pobreza métrica
cantemos essa porra, porra quilométrica,
donde pendem os colhões de que dão ideia vaga
as nádegas brutais do Arcebispo de Braga.

*

Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
        Mastro do Leviathan! Eminência revel!
        Estando murcho foi a Torre de Babel!
        Caralho singular! É contemplá-lo
                                                             É vê-lo
teso! Atravessaria o quê?
                                        O Sete-Estrelo!!
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
juro que ninguém viu tão formidável porra!
        É uma porra, arquiporra!
                                                É um caralhão atroz
que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
e, ainda assim, fica o caralho preciso
para foder, da Terra, Eva no Paraíso!!
        É uma porra infinita, é um caralho insonte
que nas roscas outrora estrangulou Le Comte.

*

Oh, caralho imortal! Glória destes lusos!
Tu poderias suprir todos os parafusos
que esperem com vigor os cachos do Alto
                                                                   Douro!
Onde há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo??!
       Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,
em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
       — Nada, nada contém a porra do Soriano!!

*

Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
esta porra infeliz, esta porra precita,
judia errante atrás duma crica infinita???
— Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe há-de abrir talvez um dia um terramoto
para que desagúe, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langonha!!!

*

A porra do Soriano é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
        Onde é que começa?
                                        Onde é que termina
essa porra, que estando em Braga, está na China,
porra que corre mais que o próprio pensamento,
porque é porra de pardal e porra de jumento??
        Porra!
                 Mil vezes porra!
                                          Porra de bruto
que é capaz de foder o Cosmos num minuto!!!



Guerra Junqueiro, in A Torre de Babel ou A Porra do Soriano seguida de As Musas, folheto da colecção contramargem, n.º 2, & etc, Novembro de 1979, pp. 9-11.

COSTELA DO DEMO


Dos inúmeros mitos gerados pela figura andrógena de Marilyn Manson (nunca um nome encarnou tão eficazmente o princípio do belo horrível), um dos que sempre mais dificuldade senti em compreender é aquele que afirma ter o músico norte-americano removido uma costela para poder praticar fellatio consigo próprio. Fiquei agora a entender a razão de ser de tal gesto, derradeira prova no percurso curricular da iniciação satânica. Quem  o explica, com insofismável cientificidade, é Charles Bukowski (quem mais?) num conto justamente intitulado A ala dos malucos a leste de Hollywood:

E, por falar em merda, sempre receei mais a prisão de ventre do que o cancro. (Já voltamos ao Jimmy Chanfrado. Atenção, que eu já tinha dito que escrevia assim.) Se passo um dia sem cagar, não consigo ir a lado nenhum, nem fazer nada – fico tão desesperado quando tal me acontece que muitas vezes tento chupar o meu próprio caralho só para desbloquear o sistema, para pôr as coisas outra vez em movimento. E, se alguma vez tentaram chupar o vosso próprio caralho, saberão com certeza o terrível esforço imposto na espinha, na cervical, em todos os músculos, em tudo. Esgalha-se o menino até ele ficar o mais comprido possível e depois dobramo-nos como um bicho metido num instrumento de tortura, pernas bem acima da cabeça e presas ao espaldar da cama, o olho do cu a tremelicar como um pardal moribundo sob a geada, tudo bem dobradinho em torno da pança de cerveja, as fáscias musculares todas estraçalhadas, e aquilo que nos dói é que não falhamos por trinta ou cinquenta centímetros, falhamos por um terço de centímetro, a ponta da língua e a ponta do caralho muito próximas, embora a coisa possa igualmente demorar uma eternidade ou cinquenta quilómetros. Deus, ou quem quer que tenha sido, sabia o que estava a fazer quando nos concebeu.


Charles Bukowski, in Histórias de loucura normal, tradução de Vasco Gato, Editora Objectiva/Alfaguara, Outubro de 2013, pp. 46-47.

sábado, 11 de janeiro de 2014

NOSSO SENHOR DAS MARÉS



O sol das manhãs usurpa aos candeeiros toda e qualquer utilidade, mesmo quando entre ambos se intromete o sombrio magistrado das tempestades.


Mas até esse cede às marés no tribunal das praias.


E quando, afadigados, percorremos com os olhos as encostas do Atlântico, percebemos que é na terra que o mar começa.


Ao largo, vagas sucessivas invadem nossos campos de batalha com cabeleiras de espuma salgada.


O vento traz-nos o sal ao rosto, defendemo-nos com a gola das camisolas, a lã do corpo. Avisam-nos de perigos eminentes.


Mas temerários avançamos pelos corredores do tempo. Escavados à unha, abrem-nos o caminho de uma estranha esperança.


É aqui que a terra abre as portas ao seu Senhor, rei universal de todos os naufrágios.


Devagar nos aproximamos da sua voz.


Para aí quase chegados calarmos o fôlego enquanto nos previne o temor das marés.


Novamente fundo respiramos, o peso do corpo equilibrado sobre as pedras, a rocha que trava o vento, passadeira estendida à chegada do Senhor.


E entre dois braços de armaduras petrificadas, ele atravessa imponente o trilho do tempo. Em terra transforma a rocha, da terra faz areia.


Para que por fim nossos olhos se curvem a seus pés, enquanto indiferente ao gesto ele se ergue ao sol das manhãs.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

FAZER O INDIZÍVEL

Na última lição de Alberto Pimenta na UNL, a que tive o prazer de assistir através de um vídeo partilhado no Facebook pela minha amiga Maria João Lopes Fernandes, o autor de Discurso Sobre o Filho-da-Puta afirma que a função da poesia é dizer o indizível. Como todos os paradoxos, também este é sedutor. No entanto, nada diz. Descrente de uma função para a poesia, que ao longo dos tempos foi tanto sublimar como desvelar, divertir ou elogiar, creio que ao poder ser dito, sob que forma seja, o indizível passa a ser dizível. Postulando a existência desse indizível, parece-me mais concordante com a sua natureza assumir a impossibilidade de exprimi-lo. Tomemos de exemplo o amor, tema desde sempre caro aos poetas. Presumimos a sua existência e procuramos dizê-lo, vasculhando no vocabulário disponível conjugações de palavras que possam resultar num termo para tão esquivo sentimento. Num belo e longo poema intitulado Epipsychidion, Percy B. Shelley verseja o seguinte:

(…)
O Amor é como o entendimento, que se torna brilhante
ao contemplar múltiplas verdades; é como a tua luz,
Imaginação!, que desde a terra e o céu,
E das profundidades da fantasia humana,
igual a mil prismas e espelhos, enche
o universo de gloriosos raios, e destrói
o erro, esse verme, com as inúmeras setas solares
da própria luz que reverbera: ah! como são estreitos
o coração que ama, o cérebro que contempla,
a vida que se consome, o espírito que gera
um único ser, uma só forma, e assim edifica
um sepulcro para toda a sua eternidade.
(…)

(tradução de Fernando Guimarães, in Poesia Romântica Inglesa, 3.ª edição, revista e aumentada, Relógio D’Água, Fevereiro de 2012)

Não me cabe determinar se o indizível foi ou não exprimido nos versos de Shelley, sendo-me certo que soam agradáveis e enigmáticos a quem os leia. Pelo menos, assim me soam a mim. O próprio título do poema obriga a uma nota por parte do tradutor: «A palavra forjada epipsychidion, que não se encontra nos autores gregos, significaria a união de duas almas. Foi inspiradora do poema Emília Viviani (embora se conheçam esboços parciais do poema anteriores às relações do poeta com Emília), jovem italiana que tinha sido encerrada num convento pelo pai, que, assim, pretendia forçá-la a um casamento de conveniência». Shelley, que segundo Hélène Fleury escreveu sempre tomado pela «vontade de levantar o véu que cobre todas as opressões, de fazer da imaginação uma força capaz de pesar na realidade histórica», ter-se-á deixado assaltar pela paixão e pela revolta para que os versos pudessem surgir como uma espécie de explosão onde a pólvora da linguagem permite desbravar caminho para territórios livres com novas construções imagéticas a serem aí alicerçadas. Não sei se a isto se chama dizer o indizível. Talvez seja mais correcto falar numa expedição pelo estreito onde a imaginação toca o pensamento. Pelo menos, também é assim que consigo entender aquele que foi, para mim, o melhor poema alguma vez escrito por Shelley. Quem nos dá conta dele é, precisamente, Hélène Fleury, no estudo que introduz a edição de A Máscara da Anarquia (tradução de Eduarda Dionísio, & etc, Setembro de 2008):


Com Harriet e uma jovem amiga que tinha vindo partilhar com eles o sonho de uma comunidade actuante, quer associar ao poder do vento e aos prodígios da física a sua mensagem de libertação. Os três amigos fabricam pequenos balões de seda, movidos por uma mecha acendida na parte de baixo. Enchem-nos de escritos rebeldes antes de os largar, «balões carregados de saber», no céu nocturno de Inglaterra. Se muitos caem rapidamente em tochas a arder, outros continuarão o seu caminho celeste, portadores da balada Devil’s Walk e de uma Declaração dos Direitos, que Shelley tinha redigido em solo irlandês. Com a mesma Declaração enrolada – que termina pelo apelo à acção tirado do Paraíso Perdido do poeta revolucionário Milton: «Acorda! Levanta-te ou fica por terra para sempre» - enchem garrafas que vão deitar ao mar, em grande quantidade, ao encontro de companheiros de luta.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

REI DE TUDO

A morte de Eusébio da Silva Ferreira originou duas polémicas que muito têm ocupado a intelligentia lusa. Primeiro, se os restos mortais da glória do futebol nacional deverão ser tresladados para o panteão. Segundo, se os restos de rigor do ex-primeiro ministro José Sócrates garantem alguma verdade no seu discurso. Sobre ambos os casos, lembrei-me de uma citação de Heródoto feita por Paul Feyerabend no livro Adeus à Razão (Edições 70, Janeiro de 1991, p. 56):

Quando Dario era rei da Pérsia, convocou os gregos que sucedia estarem presentes na sua corte e perguntou-lhes quanto queriam para comerem os cadáveres dos seus pais. Responderam-lhe que por nenhum dinheiro do mundo o fariam. Mais tarde, na presença dos gregos, e com o auxílio de um intérprete, para que pudessem entender o que era dito, perguntou a uns indianos, da tribo chamada Callatiae, que na verdade comem os cadáveres dos seus pais, quanto queriam para o incinerar. Soltaram um grito de horror e proibiram-no de mencionar uma coisa tão horrível. Por aqui se vê o que o costume pode fazer e, na sua opinião, Píndaro estava certo quando lhe chamou «rei de tudo».


Referia-se Píndaro ao costume e não a Eusébio, esclareça-se. Sendo originalmente o templo que gregos e romanos consagravam ao conjunto dos seus deuses, com o tempo, e a morte de Deus devidamente anunciada por Nietzsche (seria de uma ironia impecável se o colocassem num qualquer panteão germânico), os panteões transformaram-se em mausoléus onde as pátrias conservam os seus heróis. Olhando para o nosso, encontraremos por lá, acredite quem queira, D. Nuno Álvares Pereira, Infante D. Henrique, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Almeida Garrett, Amália Rodrigues, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro, Humberto Delgado, João de Deus, Manuel de Arriaga, Óscar Carmona, Sidónio Pais e Teófilo Braga. Confesso certa dificuldade em determinar os feitos que garantem a excepcionalidade destas personalidades, mas acredito que um inquérito de rua revelaria uma desastrosa memória dos portugueses perante os seus heróis.
Desmemória ou conhecimento débil, tanto faz. Em suma, resulta tudo isto numa incultura genética que o passado releva, o presente evidencia e o futuro há-de consagrar. Juntar Eusébio àqueles pode parecer indiferente, mas não é. Assim como não é a morte lenta do filósofo da Covilhã há muito decretada por grande parte da comunicação social portuguesa e seus empenhados fazedores de opinião. A cicuta de Sócrates, o da Covilhã, é, ironia das ironias, a cicuta do seu povo: falta de memória. Ou, se preferirem, uma memória selectiva e fantasiosa. Pode o costume ser rei de tudo, mas não o é em Portugal. Nesta República governa a desmemória, a mesma que nos arrastará ad æternum numa confrangedora ausência de costumes que exijam, pelo menos, algum critério na hora da morte e, por consequência, na hora de escolhermos os nossos eternos representantes. Talvez preferível fosse mesmo comê-los.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

WESTERN UNION (1941)


aqui dei conta daquele que foi, muito provavelmente, o melhor western realizado por Fritz Lang (1890-1976). Ao dizer o melhor, pretendo apenas sublinhar essa faceta pouco conhecida do grande realizador germânico. Antes de Rancho Notorious/O Rancho das Paixões (1952), Lang afirmou-se nos Estados Unidos, em parte, com filmes como The Return of Frank James/O Regresso de Frank James (1940) e o mais comercial Western Union/Conquistadores (1941). Se o primeiro ofereceu a Henry Fonda o protagonismo, o segundo trouxe para a linha da frente aquele que terá sido, a par de John Wayne, o mais importante actor de westerns de todos os tempos: Randolph Scott. Wayne ficou para a história como representante do americanismo, mas não devemos esquecer que Scott só fez praticamente westerns, trabalhou com alguns dos melhores realizadores do género, sendo as obras com Budd Boetticher especialmente relevantes, e logrou representações absolutamente inesquecíveis. Não foram muitos os prémios, é certo, nem bastante o reconhecimento. O mito norte-americano precisava de um machão, não poderia encontrá-lo em Randolph Scott (a sua relação com Cary Grant originou todo o tipo de especulações). Quem contracena com Randolph Scott em Western Union é Dean Jagger, outro excelente actor, que veremos mais tarde em Bad Day at Black Rock/A Conspiração do Silêncio (1955), de John Sturges (1910-1992). São precisamente as personagens interpretadas por Randolph Scott (o fora da lei Vance Shaw) e Dean Jagger (Edward Creighton, topógrafo da Western Union) quem oferece o mote ao filme. No decorrer de uma fuga, Vance perde o cavalo. Pouco depois depara-se com um homem combalido a beber água de uma poça. Trata-se de Creighton, que se encontra gravemente ferido após uma queda. A primeira intenção de Vance é roubá-lo e prosseguir a sua fuga, mas acaba por ajudá-lo a recompor-se e deixa-o, posteriormente, numa pequena povoação. Mais tarde, os dois reencontram-se e Creighton contrata Vance para uma das suas maiores empreitadas: construir a linha de telégrafo que unirá os dois extremos do país. Quem também fará parte da equipa será Richard Blake (Robert Young), um indivíduo bastante refinado para aqueles ambientes mas duro como ninguém o imagina. Disputará com Vance a conquista de Sue (Virginia Gilmore), irmã de Creighton. O título português terá ido beber a este pormenor a sua inspiração, mas o filme de Fritz Lang em nada se reduz à luta de dois homens pela conquista de uma mulher. Na realidade, esse aspecto acaba por ser lateral numa narrativa onde sai muito mais evidenciada a confrontação entre o passado e o futuro. O termo conquista, aqui, deve pois ser entendido num contexto mais abrangente, num tempo em que o país se encontrava dividido e aqueles que procuravam uni-lo eram travados por várias forças: do conservadorismo dos Estados Confederados à resistência das nações índias. Seja como for, Fritz Lang em nenhum dos seus filmes subjuga os dramas humanos pessoais e o aspecto psicológico das suas personagens à conjuntura histórica, cultural, social, política. O seu esforço vai no sentido de relativizar o comportamento humano, colocá-lo em situações limite, conflituosas, que obrigam a decisões trágicas. É isso que faz com a personagem de Vance Shaw, um fora da lei a fugir do passado (cena inicial) na direcção de um futuro impossível de concretizar (cena final). Os obstáculos colocados no caminho são demasiados e demasiadamente pesados, obrigam a um esforço que é o de reconquistar a confiança dos novos aliados sem perder o respeito dos antigos companheiros. Entre eles, o oportunista Jack Slade (Barton MacLane), a quem Vance está ligado pelo sangue, que se faz passar por índio para roubar cavalos a quem depois os vende, que aproveita a guerra civil para fingir lutar por uma causa quando, na realidade, está apenas a servir interesses pessoais, que incendeia o acampamento da Western Union contra os apelos do irmão. Do princípio ao fim, este western de Fritz Lang não mais faz do que acompanhar à distância a cavalgada solitária e derradeira de um homem. Cada poste erguido pela Companhia de Telégrafos simboliza a marcha da modernidade, a qual não poderá ser seguida por quem ficou amarrado ao passado e dele não se consegue libertar. Na imagem: Robert Young, Fritz Lang e Randolph Scott durante as filmagens.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

SEXO DOS ANJOS

Tenho um carinho especial por notas de rodapé. Muitos leitores não lhes ligam, passando ao lado de grande parte do interesse dos livros. Há mesmo livros que valem pelas notas de rodapé. E é bem provável que alguns sejam, no seu todo, uma longa nota de rodapé. Um dia também as notas de rodapé terão direito à sua honra e glória, talvez com uma antologia, uma enciclopédia ou uma simples recolha de notas de rodapé. Não é o caso de A Vida e Opiniões de Tristram Shandy, reunido em duas partes na edição portuguesa da Antígona, onde descobri uma nota de rodapé que pode abrir portas imensas para a vida feliz:

Francisco de Vallés (1524-92), médico espanhol e comentador de Platão, autor de Controversiarum medicarum et philosophicarum (1564). Ou, eventualmente, Valésio, fundador da seita dos valésios (séc. III). Considerando pecado a perpetuação da espécie, os valésios mutilavam-se e pregavam essa mutilação.


Associo a possibilidade da vida feliz à incerteza hermenêutica sobre as alusões do texto original, adiantando que, segundo um dicionário enciclopédico de teologia disponível on-line, fiquei a saber que os valésios se castravam tanto a si mesmos como aos seus hóspedes, julgando servir a Deus dessa maneira. Faz sentido, sobretudo se considerarmos a castração uma aproximação ao estado angelical. 


Nota de rodapé: por aqui se constata que sempre esteve o mundo cheio de castradores.

domingo, 5 de janeiro de 2014

sábado, 4 de janeiro de 2014

THE LAW AND JAKE WADE (1958)



Ainda não fez um ano, iniciei uma série a que chamei algo pretensiosamente 50 westerns que deve ver antes de morrer. Empreitada impossível de respeitar. Desde logo, porque fiz batota com um filme de Jean Renoir dificilmente encaixável no género. Depois, porque me apetece fazer batota com outros filmes. Mas sobretudo porque 50 não chega, é número parco para tão vasto território. Se ninguém notou, sublinho eu o esforço colocado na diversidade. Esforço inglório, reconheço. Só de John Sturges (1910-1992) já constam na lista cinco filmes: Escape from Fort Bravo (1953), Backlash (1956), Gunfight at the O.K. Corral (1957), Last Train from Gun Hill (1959) e The Magnificent Seven (1960). São todos imperdíveis. Ainda assim, falta aquele que é provavelmente o melhor filme de Sturges: Bad Day at Black Rock/A Conspiração do Silêncio (1955). Geralmente apontado como thriller, não deixa de ser, na essência, um western. E falta o talvez mais convencional The Law and Jake Wade/Duelo na Cidade Fantasma (1958). Deste modo, Sturges fica a pesar mais de 10% na improvisada lista. Constatação algo inusitada para realizador que nunca mereceu tantos créditos quanto outros gurus do género, de John Ford (1894-1973) a Anthony Mann (1906-1967), deste a Sam Peckinpah (1926-1984), sem esquecer Sergio Leone (1929-1989) e outros génios da cowboyada. The Law and Jake Wade tem argumento baseado num romance de Marvin H. Albert, cuja experiência no domínio dos westerns deu azo a uma mão cheia de filmes. Curiosamente, o título português acaba por parecer mais apropriado do que o paradoxo implícito no título original. Jake Wade é um fora da lei retirado, convertido em Marshall numa pequena cidade onde procura refazer a vida. Está de casamento marcado. A personagem, interpretada por Robert Taylor, reproduz estereótipos sobejamente conhecidos do velho oeste. Ao longo do filme apercebemo-nos do percurso de Jake Wade, de como combateu durante a guerra ao lado de uma causa, de como ficou deserdado de causas e se transformou num assaltante de bancos, de como abandonou o submundo da criminalidade e procurou refazer a vida segundo as convenções sociais da época. Não só a história do velho oeste se polvilha destas personagens, homens fruto das circunstâncias ao mesmo tempo marcados por uma consciência natural do mal e pelo oportunismo discutível das suas acções. O que torna Jake Wade especial, digno de originar um filme, é a sua relação com Clint Hollister - Richard Widmark, que observámos em registos completamente diferentes nos filmes Backlash (1956) e Cheyenne Autumn (1964). A personagem de Clint Hollister é implacável, rancorosa, temível. Jake e Clint estiveram juntos na guerra, foram parceiros no mesmo gang, mas enquanto o primeiro foi assaltado pelo remorso o segundo parece ter expurgado de si quaisquer resquícios de culpa ou arrependimento. O filme começa com Clint preso e Jake a resgatá-lo da forca, numa sequência inicial memorável onde o reencontro entre dois antigos parceiros surge despojado de qualquer sentimentalismo. É tudo de uma frieza brutal, como fria e distante será doravante a relação entre os dois. Perguntamo-nos: porque se deu Jake ao trabalho de salvar Clint da forca? Porque em Jake a honra pesa, ser-lhe-ia impossível continuar com a morte de um antigo companheiro a pesar-lhe na consciência. O filme dá então uma reviravolta. Clint junta a antiga quadrilha, acrescenta-lhe um jovem com traços psicóticos, e rapta Jake mais a sua amável noiva (Patricia Owens). Objectivo: desenterrar 20000 dólares que só Jake Wade sabe onde estão, fruto do último golpe perpetrado pela parelha Jake & Clint. A busca do tesouro levar-nos-á a uma cidade fantasma rodeada de índios. São cenas encenadas com uma eloquência visual deslumbrante. As silhuetas dos índios ao longe, a forma como se aproximam do cenário principal, o combate, escondem por detrás da acção uma luta peculiar entre dois homens: Jake e Clint. Tudo aponta na direcção destes dois, nada os reaproxima, um deles terá que ceder e no final ficarão frente a frente como uma inevitabilidade do destino. Não interessa quem vence, porque neste tipo de duelos nunca existem vencedores. Interessa apenas sublevar o campo de batalha de dois homens outrora unidos por uma causa, entretanto afastados pelo carácter. Abel e Caim no palco sempre virgem da humanidade, como o foram, noutro contexto, Pat Garrett e Billy the Kid ou Fletcher e Josey Wales. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

MAÇÃ DE SAFO


Safo, que a lenda arrancou dos braços do marinheiro Fáon para os precipícios da ilha de Lefkada (Léucade), não sem antes ter deitado no seu regaço inúmeras moçoilas, foi honrada por Platão como a décima musa. Werner Jaeger coloca-a num capítulo de transformação da poesia grega, onde a expressão de sentimentos subjectivos ganha terreno à descrição, elevação ou reflexão da vida comunitária. Não obstante, a intimidade nos gregos não pode ser pensada fora da pólis. Faz mais sentido pensá-la no contexto de um novo pensamento sobre o sentido da vida humana na terra, um pensamento de pendor hedonista fundamentado na importância da sensualidade. Talvez seja mais fácil compreender esse contexto comparando-o com o carpe diem romano. Vale a pena citar o “rancor” de Arquíloco, tomando como referência a Paidéia, a este propósito, mais que não seja pela actualidade das formulações clássicas:

Apregoavam os poetas, desde Homero, que a polis guardava na lembrança e honrava, mesmo depois da morte, o nome dos que a tinham servido, como recompensa certa pelo serviço prestado. Mas, na verdade, ninguém, depois de morto, é honrado ou famoso na memória dos seus concidadãos; toda a vida nos empenhamos por alcançar o favor dos vivos; os mortos, porém, coitados deles! Outro fragmento mostra bem o que isto quer dizer. O poeta medita sobre a baixa maledicência que até nos lugares mais recônditos persegue a quem já não é preciso temer. É vergonhoso injuriar os mortos. Quem penetra assim na psicologia da fama e conhece a baixeza da grande massa perde todo o respeito à voz comum.

Portanto, a voz comum, que hoje enche tanto de fama como de inveja efémeras estrelas, prestando-lhes a honra do cachet facilitador da boa vida, nunca foi boa conselheira. Há nisto um enorme paradoxo, se o hedonismo cingirmos a boa cama, estômago satisfeito, música e dança. Hoje o ritmo parece diferente, mantendo-se apenas a doença, a velhice e a morte como princípios inalterados da vida humana. Daí que o hedonismo de Safo seja mais actual do que qualquer outro, pois eleva acima do simples “gozo da vida” a beleza do amor:

15 A maçã no ramo mais alto (fr. 105 a PLF)

Sozinha, a doce maçã enrubesce no alto ramo,
alto, altíssimo, pois esqueceram-na os apanhadores da maçã.
Na verdade, não a esqueceram: não conseguiram foi lá chegar.

Lembro-me disto a propósito de um vox populi sobre votos para o ano novo. Entre tradicionais votos de saúde, paz, dinheiro, alegria, lá se lembrou um artista de rua, com sotaque do leste, da palavra amor. Dizia ele: "o amor é o mais importante, tens o amor e tens tudo". Citando Jaeger, «A poesia de amor masculina nunca atingiu na Grécia a profundidade espiritual da lírica de Safo. (…) É como porta-voz do amor que Safo entra no reino da poesia, antes reservado aos homens». Leia-se:

4 Da beleza (fr. 16 PLF)

Uns dizem que é uma hoste de cavalaria, outros de infantaria;
outros dizem se ruma frota de naus, na terra negra,
a coisa mais bela: mas eu digo ser aquilo
que se ama.

(…)

Traduzido de outra forma: Alguns dizem que o que há de mais belo na Terra é um esquadrão de cavalaria; outros, um exército de guerreiros apeados; outros ainda, uma esquadra de navios; mas o mais belo é ser amado por quem o coração suspira. A beleza vê-se aqui disputada pela guerra e pelo amor, pendendo para o segundo nas batalhas de Safo. Honra seja feita ao vencedor, lembrando que por detrás desta lírica vive, afinal, um pensamento político que não só não impede a expressão individual do sentimento como o torna lei. Possa assim ser interpretado o mais belo dos fragmentos:

17 Renúncia (fr. 121 PLF)

Se és meu amigo,
vai para a cama de uma mulher mais nova.
Eu não suportaria ser a mulher
mais velha numa relação.

Pode algum homem conceber política mais doce e bela nas palavras de uma mulher?

Referências: Poesia Grega de Álcman a Teócrito, organização, tradução e notas de Frederico Lourenço, Edições Cotovia, Maio de 2006; Paidéia – A Formação do Homem Grego, de Werner Jaeger, tradução de Artur M. Parreira, Martins Fontes/Editora Universidade de Brasília, 2.ª edição brasileira, Janeiro de 1989.