sábado, 27 de dezembro de 2014

O POST MAIS DEPRIMENTE DO ANO

É este da Helena, no Coriscos. E a culpa não é dela. Exemplos:
 
"A questão de me encarar como o quarto elemento da 'troika' é simplesmente insultuosa. Recuso esse papel. O meu papel é o oposto. A 'troika' estava sentada do outro lado da mesa."
Vítor Gaspar, ex-ministro das Finanças

Público, 17-02-2014

 
"A vida das pessoas não está melhor, mas a vida do país está muito melhor."
Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD
JN, 20-02-2014

 
"Depois do programa de ajustamento, é preciso um programa sério de fisioterapia que desenvolva o músculo."
António Costa, presidente da Câmara de Lisboa
08-03-2014

 
"Eu rezo com palavras de Sophia."
Manuel Clemente, patriarca de Lisboa, nas cerimónias de trasladação dos restos mortais da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen para o Panteão Nacional
02-06-2014

 
"Estou em choque, confesso, e a sensação que me fica é que a sentença não é sobre as acusações, não é sobre o que estava em causa. Eu acho que a sentença tem muito a ver com a minha circunstância [ter sido ministro do PS]."
Armando Vara, após a condenação a cinco anos de prisão efetiva no âmbito do processo "Face Oculta"
05-09-2014

 
"A argumentação usada pelo Ministério Público na acusação, bem como pelo tribunal durante o julgamento, revelam a existência de preconceitos sobre os políticos, em particular sobre os políticos que exerceram ou exercem cargos governativos."
Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da Educação, após ter sido condenada a uma pena suspensa por prevaricação de titular de cargo público
15-09-2014

 
"Peço desculpa em nome do Ministério da Justiça pelos transtornos [resultantes dos problemas detetados na plataforma informática Citius]. (...) A responsabilidade política assumo-a integralmente."
Paula Teixeira da Cruz, ministra da Justiça
17-09-2014


"Peço desculpa aos pais, aos professores e ao país."
Nuno Crato, ministro da Educação, sobre os problemas com a colocação de professores
18-09-2014

 
"Não tenho presente todas as responsabilidades que desempenhei há 15 anos, 17 e 18. É-me difícil estar a detalhar circunstâncias que não me estão, nesta altura, claras, nem mesmo nas supostas denuncias que terão sido feitas."
Passos Coelho, sobre alegados pagamentos que recebeu da Tecnoforma há 15 anos
19-09-2014

 
"Guardo as cópias do IRS de todos os anos. Dá jeito para evitar problemas."
Ângelo Correia, antigo patrão de Passos Coelho na Fomentinvest
Diário de Notícias, 25-09-2014


"Se cada vez que alguém aparecer a fazer insinuações, eu tiver de fazer (como qualquer um dos senhores deputados) o 'striptease' das contas bancárias, para deleite dos leitores de jornais, isso não faço."
Passos Coelho
26-09-2014

 
"Uma política orçamental inteligente é aquela que apoia o emprego e o crescimento, ao mesmo tempo que traz a dívida pública para níveis mais seguros [e que] valoriza o investimento público eficiente e facilita as reformas estruturais."
Vítor Gaspar, presidente do Departamento de Assuntos Orçamentais do FMI
08-10-2014

 
"Eu não menti em nenhum dos momentos em que falei neste parlamento."
Maria Luís Albuquerque
19-11-2014

 
"Em nome do bom senso, os proponentes [PSD e PS] da proposta 524-C [fim da suspensão das subvenções vitalícias a antigos políticos] pedem para que seja retirada."
Couto dos Santos, deputado do PSD
21-11-2014

 
"Só deixa de ser livre quem perde a dignidade. Sinto-me mais livre do que nunca."
José Sócrates
Expresso, 29-11-2014

JOE COCKER (1944-2014)


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

75 POEMAS



Uma das melhores notícias que 2014 nos trouxe foi a recuperação da poesia de Ruy Cinatti (Londres, 1915 – Lisboa, 1986) para os escaparates, ainda que pela mão de uma pequena editora com distribuição rígida e, por consequência, com tiragens limitadas. Dei aqui conta da publicação de Corpo Santo (Averno, Julho de 2014), antologia de poemas policopiados em folhas volantes que Cinatti distribuía pelos cafés de Lisboa na segunda metade da década de 1970. Cabe agora referir os 75 Poemas (idem, Outubro de 2014) coligidos por Manuel de Freitas a partir de uma recolha pessoal com origem no corpus do autor de Memória Descritiva (1971).
Contemporâneo dos mais importantes nomes da poesia portuguesa do século XX, Ruy Cinatti foi um dos fundadores, com Tomaz Kim (Lobito, 1915 – Lisboa, 1967) e José Blanc de Portugal (Lisboa, 1914 – 2000), dos Cadernos de Poesia. O primeiro fascículo dos Cadernos, onde era possível vislumbrar tanto uma resposta informal à continuada influência presencista como uma alternativa de ascendência católica ao realismo social que então impunha os seus valores estéticos, ocorreu em 1940, sendo do ano seguinte o primeiro livro de poemas de Ruy Cinatti: Nós Não Somos Deste Mundo. A antologia de Manuel de Freitas abre, porém, com um texto cuja primeira edição data de 1936. Trata-se do profético conto Ossobó, sobre um pássaro da ilha do Príncipe que em tudo nos lembra, e por isso o digo profético, o percurso poético e existencial, porque ambos estão intimamente ligados, de Cinatti.
No Ossobó reconhecemos uma excepcional inquietude, tem os seus companheiros mas isola-se, gosta de ver tudo, tem um canto que parece alegre, mas povoado de recordações, anda de vale em vale preso ao seu destino: «Ossobó continua no seu canto triste e suplicante; meneia a cabeça em direcções impostas, e os seus olhos pequeninos não se desviam dum tronco meio apodrecido que ali estava» (p. 11). Nesta fábula, onde a alegria da vida no seio da floresta contrasta com a queda do fruto podre e a ameaça das cobras traiçoeiras, vislumbramos já o prenúncio de uma poesia que ter-se-á imposto ainda antes de ser palavra escrita, porventura quando o poeta perdeu a mãe e ficou aos cuidados do avô paterno depois do pai partir para os EUA, ou quando após o regresso a Portugal o pai se desentendeu com o filho e o colocou fora de casa, dando origem a uma peregrinação imparável como a do pássaro qua anda de vale em vale a tentar ver tudo o que há para ver e oferecendo o seu canto nostálgico ao mundo.
Vida e poesia ligam-se aqui com uma naturalidade desarmante. Talvez por isso devamos sublinhar que, de um ponto de vista meramente historiográfico, esta poesia não é tão devedora do modernismo como possa ser das primeiras experiências surrealistas levadas a cabo por António Pedro (Cidade da Praia, 1909 – Caminha, 1966) e Jorge de Sena (Lisboa, 1919 – Santa Bárbara, 1978). Note-se que estamos a falar, em qualquer um destes casos, de vozes singularíssimas, singularíssimas porque não cederam à submissão gregária nem buscaram na poesia nada que não fosse expressão viva de uma condição existencial. 
Além dos livros, Cinatti publicava as folhas volantes, publicava em jornais e revistas, escrevia nas toalhas de mesa dos restaurantes. Todo esse espólio reflecte uma ligação da palavra escrita à vida que torna ambas indissociáveis, sendo notório o informalismo estético mesmo quando, em termos formais, o poema se aproxima de estruturas tradicionais. Tal como a vida, o poema pode ser tudo, pode assumir todas as formas, não recusando nenhuma delas. No posfácio, Manuel de Freitas aponta esta singularidade destacando «a importância crucial e fundadora da solidão» (p. 112) nesta obra. Talvez seja este o preço a pagar quando se assume a vida numa criação literária.
Porém, a solidão em Cinatti nem sempre aparece (talvez mesmo raramente apareça) como condição última do ser humano na terra. Esta solidão não repercute o exílio político e intelectual, faz antes ressoar o isolamento daquele que se afasta para ver melhor, para não perder de vista, é quase metodológica. Como o cientista que se embrenha na floresta para melhor compreendê-la, o poeta embrenha-se na sociedade, mistura-se, abandona-se, anda entre as pessoas e é entre elas que retira a luz (sombria) do poema. «Deixem-no só, / Sozinho, / Ao bebedor de estrelas» (p. 19) — eis a súplica daquele que se recolhe e no recolhimento chega à claridade. Assim remata o Exorcismo: «Perdida voz eu te procuro / Junto dos outros. / Oiro descoberto, eu te procuro / Na solidão imensa que nos cerca» (p. 22).
É neste modo fundador de sentir a religião (junto dos outros) que melhor compreendemos o recolhimento do poeta, afectado pelos males do mundo como qualquer outro, carente de luz, afastado dos seus paraísos pessoais («Paraíso / é o encontro» - p. 31), perdidos algures na distância geográfica do tempo, fazendo da ironia arma contra a saudade, fazendo da saudade arma contra o status quo. Dois poemas breves, curiosamente com o mesmo título, apesar de distantes no tempo, servem de exemplo para este lugar estranho onde religião e política se tocam na pele do poema:
 
A PEQUENA ANGÚSTIA
 
O que Portugal
poderia ser
se todos os portugueses emigrassem…

— Pé de gazela
na lua.
Um desejo adusto fora d’uso.
Um lírio.

Seria livre.
Ilimitado,
como nuvem humilde
quando se dissolve.

O que Portugal
poderia ser
se todos os portugueses regressassem…

A pergunta tenta como osso
debaixo da carne.

22.10.60
 
do livro Borda d’Alma (1970)
 
A PEQUENA ANGÚSTIA

Mais perto de mim são as estrelas
neste jardim,
do que os homens sentados a meu lado.

As estrelas brilham.
Os homens falam
lá entre eles.

Não escutam silêncio
os homens que falam
neste jardim.

As estrelas falam
perto de mim.
 
do livro Conversa de Rotina (1973)
 
Introspecção? Sonho? A solidão do errante é a sua inquietude, a angústia que se intromete entre si e os outros, é necessidade de recolhimento e de afastamento para fora do mundoHei-de ser, como não fui, / um homem fora do mundo», p. 72). Nómada incansável, o poeta é, pois, como o pássaro que anda de vale em vale na floresta. Incorporou as asas do ossobó e partiu para parte incerta, o seu prosaísmo afirma-se quando entre os homens se mistura para entre eles dizer não me revejo nesta condição, afastado da claridade essencial das estrelas e da música silenciosa do céu estrelado. Esta relação com a natureza pesa na poesia de Ruy Cinatti como um Deus mais complexo do que o catolicismo assumido pode explicar, não cinge, tal como na poesia, nenhuma formulação congelada e cristalizada nos seus próprios preceitos. Abre-se ao mundo através de uma inteligência que é libertação, para logo se fechar na simplicidade do
 
FACTO

Tenho aprendido muito convosco, ó amigos homens,
a gostar de aventuras e, sobretudo,
mulheres ao alto, ao lado, ao fundo
e, adormecido, sonhar fora do mundo.

7.12.76
 
Passar ao lado de uma poesia tão plena, deixando na penumbra este que foi, sem margem para dúvidas, um dos nossos maiores poetas, será um crime de lesa-poesia. Pude começar a prestar-lhe outra atenção depois do n.º 39 da revista LER, corria o Verão de 1997. Desde então, trago Cinatti entre os poetas que mais admiro. Corpo Santo e 75 Poemas são excelentes pretextos para a ele regressar e, no regresso, novos leitores encontrar que se interessem mais pelo silêncio das estrelas do que pelo fragor do estrelato.

CONTRIBUTO PARA UMA NOVA TESE SOBRE A TORTURA

Chego através do Provas de Contacto ao texto mais sensaborão e mal escrito de 2014. A deputada constitucionalista pode estar cheia de boas intenções, mas as boas intenções não são, definitivamente, generosas para com a literatura. Este Sair do corpo para entrar nele, presumo que no próprio corpo, só não está ao nível de um Prometo Falhar porque o segundo tem mais caracteres. Diria mesmo que depois dos temores de Assunção Esteves, meritíssima Presidente da Assembleia da República Portuguesa, quanto ao, e passo a citar, “inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustracional derivado da crise”, fim de citação, o grande momento do ano de 2014 quanto a tontices proferidas pelas elites do poder político é a hesitação de Isabel Moreira entre o orgasmo e a escrita que, logo a começar, nos deixa banzados com um experimentalismo sintático de cortar o fôlego:

Acordou de manhã no final do ano de 2014. Esticou o corpo e sentiu uma dor.
Recordou no toque a que sabe ter direito essa dor.
Que é coletiva.

Eduquem-se hermeneutas capazes de decifrar, que eu mal me posso conter com o que vem logo a seguir. Uma novíssima tese sobre a condição feminina diz-nos que ser mulher está presente nos “dedos matinais”. Há os dedos vesperais, os dedos nocturnos, os dedos vespertinos, os dedos diurnais, os dedos do meio-dia. Ser mulher está nos dedos matinais:

Sente-se ameaçada porque o seu contrato de trabalho não é renovável automaticamente, mas não se sente ameaçada, na sua vida, por ser mulher, essa condição tão presente nos seus dedos matinais.
Abela, uma rapariga asiática, puxa-lhe os dedos de dentro para fora, recorda-lhe que no mesmo dia daquele prazer solitário, a vida dela vale menos do que a vida do seu irmão e que está em risco de morte por falta de comida.

Estes dedos matinais têm particularidades, são dedos que que se puxam de dentro para fora. Nada de extraordinário se repararmos que em meia dúzia de linhas mal escritas temos já uma síntese do mundo laboral (“contrato de trabalho não é renovável”), da condição feminina (a cena dos dedos) e das assimetrias sociais no mundo (a vida dela vale menos do que a do irmão, alguém está em risco de morte porque tem fome). Ora, para resolver a fome nada melhor do que, lá está, uns marotos dedos matinais:

Acordou de manhã e agora tenta fazer explodir atomicamente estas paisagens, quer tocar-se e vir-se, sem culpas, essa coisa de que já se livrou, essa coisa que a religião faz às crianças, às meninas – “não te toques” – esse abuso de menores, quer apressar o alívio de um orgasmo, mas tem um texto lixado para escrever e puxa os dedos para o umbigo.

Camandro! Realmente, isto de ter textos para escrever quando se tem fome, contractos de trabalho não renováveis, vidas por um fio e desejos por satisfazer... é fodido. Portanto, toca de refrear desejos e meter mãos ao serviço. Os dedos matinais que se recolham ao umbigo e aí se submetam às mãos, porventura aurorais, para a grande tarefa do dia. Nada de masturbação, nada de onanismo, nada de puxar os dedos para zonas tentadoras (a religião não faria melhor do que a consciência). A religião pode dizer não te toques, mas a política fala mais alto: toca-te, mas não agora. Espera um pouco, primeiro…

…escreve, muda, nomes e nomes de mulheres dos dias de hoje, limitadas à sua função reprodutora, assassinadas e violadas em teatros de guerra, sangue pela “honra” dos homens, apedrejadas nos países muçulmanos dominados pelas fações extremistas do islão, subjugadas a um projeto de aniquilamento, de apagamento.

Assunto sério. Ou nem por isso, tal a parvoeira que se segue:

Acordou de manhã e agora faz regressar os dedos aos seus lábios, não quer escrever o texto, quer sentir os seus lábios, interiores e exteriores, o seu clitóris, gozar desta integridade. Mas no deslize dos dedos a humidade parece vir dos olhos, dos olhos das meninas africanas vítimas de excisão e de infibulação, tantas vezes por parte das próprias mães, também elas vítimas do sistema que lhes diz que é assim e porque é assim negam a vida, ou o corpo ou a sexualidade futura a estas crianças.

Não se decide, continua a hesitar entre o texto e a masturbação, a lubrificação vaginal e o fluido lacrimal, anda ali com os dedos matinais entre as pálpebras e o aparelho reprodutor feminino (nota-se uma imperdoável ausência de referências às Glândulas de Bartholin), anda com a cabeça entre a vagina e os problemas do mundo. Devo confessar que o mesmo me sucede todas as manhãs durante a hora do banho, só não tenho vagina. O hiper-realismo da prosa seria, por isso, por isto e por aquilo louvável não fosse o que se segue (os sublinhados são meus e, quase aposto, do João César das Neves):

Acordou de manhã pensando que talvez fosse fácil uma masturbação e partir para o trabalho, mas tinha um texto para escrever, e trabalha porque teve acesso à educação, e retira o indicador de si, o mesmo que dizia as letras por baixo e gritam-lhe no quarto as raparigas sem saúde nem educação, as mulheres para quem ser mãe não é bênção, nem opção, nem escolha, mas um risco. Um risco resultante de uma ação sobre um mero objeto de desejo e de satisfação masculina e proprietária.
É de continuar a tirar o dedo, porque não estamos a falar de um mundo distante, que ainda que o fosse seria vizinho, porque não há sofrimento ao quilómetro; estamos a falar do nosso bairro, da nossa cidade, do nosso país, no nosso universo familiar, onde as mulheres sofrem maus-tratos conjugais, psicológicos e sexuais, estamos a dizer (estou a dizer) que a família é um local de risco para se existir. Mesmo aqui, onde não é o véu que nos esconde nem o casamento forçado que nos força.

Devo esclarecer, antes de mais, que a minha família não é para aqui chamada. Mas uma pergunta impõe-se: como pode alguém masturbar-se com tanta desgraça na cabeça? Segue-se um fastidioso parágrafo sobre questões técnicas, escrito com os dedos dos pés.
Acordar então e fazer dos dedos uma arma simbólica para a explosão de prazer e de direitos que aqui se têm e ali, mesmo ali, o silêncio esconde numa dor que tem de ser coletiva. Porque é coletiva.
Retira o indicador de si, o mesmo que dizia as letras por baixo (trata-se, certamente, de uma liberdade poética esta coisa do indicador dizer letras por baixo), continua a tirar o dedo, faz dos dedos uma arma simbólica para a explosão de prazer… O texto ia bem no seu naturalismo erótico com claras preocupações sociais e políticas, ligeira mas agradável prosa de homenagem a um neo-realismo tardio de inclinação feminista. Resvalou tudo para a javardice quando do indicador passamos para o dedo e deste para o seu plural. Ora, um dedo ainda se aguenta. Agora os dedos todos é uma clara hiperbolização da simbolística revolucionária que hesita entre o orgasmo e a produção de chachadas destas. Tem um mérito esta prosa: de tanto ouvirmos em acordar de manhã apetece-nos adormecer, voltar a dormir e esquecer mais este triste episódio oferecido pela intelligentsia nacional.

PREVISÕES PARA 2015

Perfume Genius e Édouard Louis serão apresentados um ao outro no espaço de convívio de uma qualquer gala onde se celebrará o melhor da cultura internacional em 2014. No dia seguinte, Louis tomará a iniciativa de enviar um ramo de flores a Genius. Se fosse o Pedro Chagas Freitas, escreveria num bilhetinho algo como “o teu perfume é genial”. Não é, pelo que teremos de nos contentar com uma mensagem simples do tipo jantar às oito na Rua do Trombeta. Felizmente, a Rua do Trombeta é em Lisboa. Poderão apanhar um táxi sem recorrer a seguranças. O jantar correrá lindamente, Genius e Louis apaixonar-se-ão para a vida. O casamento ficará marcado lá para Agosto, com lua de mel em Moscovo oferecida por Vladimir Putin numa iniciativa que os anticomunistas primários designarão de marketing político abaixo de cão. Alheios ao mundo e apaixonadíssimos, Genius e Louis serão felizes para sempre. E terão muitos filhos, primeiro adoptados em campos de refugidos. Posteriormente grelados em barrigas de aluguer norte-coreanas com a colaboração de hackers patrocinados pela Sony Pictures. Joana Amaral Dias será requisitada por 52 canais de televisão portugueses para comentar estes e outros eventos, mas os telespectadores ficarão chocados quando repararem que a conhecida comentadora de futebol, política, sexualidade e horticultura biológica trocou o risco ao meio por uma franja. 2015, ano do fim. Senão do mundo, desta nação com quase mil anos de história. O tempo passa depressa.

sábado, 20 de dezembro de 2014

WEBLOGS

J. Rentes de Carvalho hesitou nos cumprimentos, respigando no mestre Thoreau a ideia de que o cumprimento pode implicar uma qualquer pretensão de superioridade. A inversa também vale, é como a história dos dois que passam um pelo outro e nenhum toma a iniciativa do cumprimento à espera que o outro o faça. Em 2003, quando vim parar ao mundo dos weblogs, o cumprimento praticava-se em repeat. Havia até quem elaborasse uma espécie de best of year awards com direito a prémio e festa de arromba. Nesses tempos, eram frequentes os encontros entre webloggers. Fui a dois, um em Leiria e outro no Porto. Não me arrependi, embora tenha servido de lição para o futuro. Ou seja, nunca mais meti os pés em feiras congéneres. Seja como for, não é por superioridade, ai de mim, que cumprimento os meus camaradas. É por gratidão pelo bom tempo que me proporcionaram ao longo do ano que passou, pelo que fui aprendendo ou desaprendendo, pela partilha. Aqui deixo, pois, sem desprimor para os demais, um cumprimento especial aos resistentes da denominada blogosfera que mais visitei durante o ano prestes a findar. Um termina, outro começa. Grato:
Boquinha d’O (qu'é feito de ti, ó sereia desgrenhada?)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

LAJES

Quantas mentiras esta imagem contabiliza? E quantas mortes na sequência dessas mentiras? Nem uma palavra de repúdio, asco, indignação, tenho lido sobre as revelações acerca dos métodos de tortura levados a cabo pela CIA durante a famigerada guerra contra o terrorismo. Terrorismo, palavra cada vez mais difícil de definir. O que são as personagens nesta imagem senão terroristas? Quanto sofrimento, quanta dor, quanta destruição desnecessários na sequência das suas decisões? Mentiras sobre as quais se perpetraram crimes, crimes dos quais se extraíram milhões, negócios erguidos sobre destroços, sobre corpos de gente que era mesmo gente. Não foi um filme, não foi teatro, não foi banda desenhada. Ainda é. E é real. É a realidade de gente sem pernas, sem braços, sem família, é a realidade da guerra, dos deslocados, dos desalojados, dos expropriados, é a realidade do ódio crescente e em marcha que uma coisa chamada Estado Islâmico agudiza e torna aos olhos de todos nauseante. Porque as cabeças cortadas, os corpos decepados, chocam de imediato. Mas sobre esta imagem há um outro choque, um choque mais profundo, um choque que se esconde e se disfarça como durante séculos andámos a disfarçar escravatura, caça às bruxas, tráfico. Quantos mortos, quanto sofrimento, esta imagem contabiliza?

TERRORISMO DE ESTADO

A ler, aqui:
Nem na Saúde, nem na Educação, nem em nenhum outro sector, não há memória de um Governo que se tenha atrevido a decretar serviços máximos através de uma requisição civil que esvazia completamente o direito à greve (…). O que fez o Governo perder a cabeça foi o seu direito a não deixar a venda da TAP para aquele que lhe suceda. O valor líquido do encaixe para os cofres públicos, como é sabido, resume-se a poucas dezenas de milhão. Não será por aí. Ainda mais proveitos submarinos, então?

NEGÓCIO OPACO

Camarada Van Zeller, o caso dos submarinos foi ao fundo. Dizem que prescreveu, nada a que não estejamos habituados onde taxistas agridem clientes com motivos homofóbicos e são convidados a sair da empresa à qual estavam vinculados. Convidados a sair é um eufemismo generoso num país de malta generosa e porreira. No caso dos submarinos, os noticiários apontam ilegalidades administrativas. Os procuradores que investigaram o caso dizem que o irrevogável Portas excedeu mandato em negócio opaco. Opacidades e excessos que não convidam a sair. Infelizmente, Portas não anda de táxi. Se andasse, podia oferecer a um taxista a glória da nossa hospitalidade. Oito anos para investigar este negócio opaco e ficarmos a saber que as ilegalidades cometidas não configuram necessariamente nenhum tipo de crime. Porquê? Porque, e passo a citar, documentos considerados relevantes não foram localizados. E ficamos nisto:
Quanto ao crime de fraude fiscal imputado aos quatro arguidos do processo, (Miguel Horta e Costa, Luiz Horta e Costa, Pedro Ferreira Neto e Hélder Bataglia) não foi possível seguir com a acusação porque os indícios existentes nos autos decorrem de declarações dos próprios decorrentes da utilização do Regime Excepcional de Regularização Tributária, que exclui  responsabilidades por infracções tributárias. De qualquer forma, mesmo que assim não fosse, a fraude fiscal estaria prescrita desde 2010.
Sobre os 30 milhões de euros pagos pelo consórcio alemão à Escom, uma empresa do grupo Espírito Santo, que se suspeitava terem sido utilizados para pagar “luvas”, os magistrados concluíram que “cerca de  27 milhões de euros ficaram ao que tudo indica na disponibilidade dos arguidos e de membros do Grupo Espírito Santo”. Mas os circuitos financeiros utilizados, envolvendo sociedades sedeadas em paraísos fiscais que não fornecem informação bancária e a celebração de empréstimos que aprovisionaram contas offshore “tiveram desígnios ocultos, que, em face da prova recolhida, não podemos afirmar quais foram”. Lamenta-se a inércia das justiças das Bahamas e da Alemã, que não enviaram os dados solicitados.
Lamentar-se a inércia da justiça das Bahamas é a cereja no topo do bolo deste negócio opaco, investigado durante oito anos para que uma dúzia de galifões possam passar o Natal em casa com saldos abastados à conta do erário público. E, claro, sem terem que recorrer a taxistas marados dos cornos. A imagem ao alto é do Público, jornal especializado na vida que Sócrates levava em Paris.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

UM POEMA DE MARGARIDA VALE DE GATO

Balada do Guarda-Livros da Penha de França

 

Isto são versos datados.
De gancho, engajados, démodés.
Isto é um poema de época.
É uma letra de intervenção do tempo
em que uma biblioteca tinha um palácio.
Tínhamos mapas antigos. Tínhamos
cartazes de anúncios, tínhamos capas de peles
de animais, tínhamos livros de vestir
bonecas e tínhamos volumes pequeninos,
com 100 anos para lá de velhos,
havia no palácio pessoas que estudavam os livros
e não eram os reis, havia pessoas
que tratavam dos livros e não eram os aios. 

Os livros podem sempre estragar-se
com a humidade e mais catástrofes.
Os bichos comem os livros com certa
facilidade, fazem carreiros
dentro do miolo, são do tamanho de uma unha,
se fossem maiores comiam um livro ao dia.
E conforme os livros eles vão ficar sujos.
Temos de evitar. Com mau tempo os livros
estragam-se e empolam, os livros como
a comida não podem ficar ao Sol.  

De repente, um despacho, ninguém pergunta.
De um dia para o outro uma alínea
e tropeça o palácio debaixo dos sapatos
de pelica da presidente da junta
que logo tratou de se descalçar.
Pôs-se à vontade e ligou ao património
para mandar vir obras. — E os livros?
indagaram as pessoas dos computadores
que chamam os livros pelos elevadores.
— Os livros fazem, claro, parte das obras.
proferiu a senhora vereadora, que dormitara
ao consultar a comissão na hora do chá.
Arranjamos-lhes uma cave aconchegada.
— E a humidade?
— A humidade é o menos — precaveu a assessora
da divisão da direção — fazemos-lhes um terraço
para enxugarem ao relento.
— E os leitores?
— Evidentemente — triunfou o relator
admirando o relatório — aqui está o leitor
tipo de perfil. Aqui têm a planta
da auditório polivalente.

A coleção de História de velino é que ficou deslocada.
A cidade atual dispensa Tito Lívio.
Não se pode tomar chá nem café perto dos livros,
os livros só servem para o passado
e para o imaginário. Não há impacto
societal entre livros e funcionários. 

O guarda-livros, assim retiradas as espécies
das estantes, assim dos arquivos as fichas, assim
escolhidas para lixo as pouco queridas,
levantando nos aros as pregas do nariz, medita:
Pode haver uma praga que justifica pôr uma pastilha
para dar cabo dos bichos ou ser juiz de mim.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

CRÍTICA 4.0

 
Pedro Chagas Freitas (n. Guimarães; 1979) gere com muita competência as expectativas de quem o segue. A sua destreza na construção de um discurso encontra paralelo em Paulo Portas na política, ou Gustavo Santos na auto-ajuda.
 
Escreve Mário Rufino, licenciado em Língua e Cultura Portuguesa. Palavras para quê?

ENCRUZILHADAS MORTAIS

Palavras trocadas na caixa de comentários deste post reenviaram-me para O Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia, de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Sem delongas, deixo alguns sublinhados (edição Assírio & Alvim, tradução de Joana Moraes Varela e Manuel Carrilho):
 
Isto funciona por toda a parte: umas vezes sem parar, outras descontinuamente. Isto respira, isto aquece, isto come. Isto caga, isto fode. Mas que asneira ter dito o isto. O que há por toda a parte são mas é máquinas, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com as suas ligações e conexões. (p. 7)
 
O desejo faz constantemente a ligação de fluxos contínuos e de objectos parciais essencialmente fragmentários e fragmentados. O desejo faz correr, corre e corta. «Amo tudo o que corre, mesmo o fluxo menstrual que arrasta os ovos não fecundados», diz Miller no seu cântico do desejo. Bolsa das águas e cálculo dos rins; fluxo de cabelo, fluxo de saliva, fluxo de esperma, de merda ou de mijo, que são produzidos por objectos parciais, sempre cortados por outros objectos parciais que, por sua vez, produzem outros fluxos, que são ainda re-cortados por outros objectos parciais. Qualquer «objecto» supõe a continuidade de um fluxo, e qualquer fluxo a fragmentação de um objecto. Não há dúvida que cada máquina-órgão interpreta o mundo inteiro a partir do seu próprio fluxo, a partir da energia que dela flui: o olho interpreta tudo em termos de ver - o falar, o ouvir, o cagar, o foder... Mas há sempre uma conexão que se estabelece com outra máquina, numa transversal onde a primeira corta o fluxo da outra ou «vê» o seu fluxo cortado. (p. 11)
 
A sociedade constrói o seu próprio delírio ao registar o processo de produção mas não é um delírio da consciência, ou antes, a falsa consciência é a consciência verdadeira de um falso movimento, percepção verdadeira de um movimento objectivo aparente, percepção verdadeira do movimento que se produz na superfície do registo. O capital é, de facto, o corpo sem órgãos do capitalista, ou antes, do ser capitalista. Enquanto tal, o capital é não só a substância fluida e petrificada do dinheiro, mas vai também dar à esterilidade do dinheiro a forma com que este produz dinheiro. (p. 15)
 
Como diz Reich, o que surpreende não é que uns roubem e outros façam greve, mas que os explorados e os esfomeados não estejam permanentemente em greve; porque é que há homens que suportam há tanto tempo a exploração, a humilhação, a escravatura, e que chegam ao ponto de as querer não só para os outros, mas também para si próprios? Nunca Reich mostrou ser um tão grande pensador como quando se recusa a invocar o desconhecimento ou a ilusão das massas ao explicar o fascismo, e exige uma explicação pelo desejo, em termos de desejo: não, as massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo num certo momento, em determinadas circunstâncias, e é isto que é necessário explicar, essa perversão do desejo gregário. (p. 33)
 
Os termos do Édipo não formam um triângulo, porque estão espalhados por todos os cantos do campo social, a mãe ao colo do professor, o pai ao lado do coronel. O fantasma de grupo está ligado, maquinado, ao socius. Ser enrabado pelo socius, desejar ser enrabado pelo socius, não deriva nem do pai nem da mãe, embora o pai e a mãe desempenhem um papel secundário como agentes subalternos de transmissão ou de execução. (p. 64)
 
Não é uma metáfora dizer que Hitler entesava os fascistas. Não é uma metáfora dizer que uma operação bancária ou da bolsa, um título, um cupão, uma nota de crédito, dão tesão, além dos banqueiros, a muita gente. E o dinheiro germinador, o dinheiro que produz dinheiro? Há «complexos» económico-sociais que também são verdadeiros complexos do inconsciente, e que são capazes de comunicar uma certa volúpia a toda a sua hierarquia (o complexo militar industrial). E a ideologia, o Édipo e o phallus não são para aqui chamados, porque eles em vez de estarem no princípio, dependem de tudo isto. O que há são fluxos, stocks, cortes e flutuações de fluxos; o desejo está sempre onde quer que haja algo a fluir e a correr, arrastando não só sujeitos interessados, mas também sujeitos embriagados ou adormecidos, para encruzilhadas mortais. (p. 109)
 
 
Para já, fico-me por aqui fazendo minhas (tomaria) as palavras da parelha Deleuze-Guattari. Desenvolverei assim que possa.

DESEJOS PARA 2015

Sou humilde nos meus votos, embora reconheça uma certa utopia nas vontades professadas. Deixo para os outros os mundos perfeitos, saúde e alegria, paz no mundo, o fim da guerra, deixo para os outros o paraíso. Eu só queria que os meus clientes deixassem de me perguntar se podem "desfolhar os livros". Detesto ter que lhes dizer que não, sobretudo em alguns casos. Mas a gerência, até ver, só autoriza "folhear livros".

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

sala de leitura baixa

 
tirou da mala os dicionários de grego deixou
na estante uma flor de palha cor-de-laranja
que a irmã lhe tinha dado
mais seis imagens de w. b. yeats de perfil
uma fotografia tirada no ribatejo em 1976:
homens embarbelados em varandas
para a passagem de um bezerro desgarrado
a que mais tarde se juntaria
a prometida peça do xadrez de lewis
(o peão judicioso munido de escudo
e semblante solene de lémure apreensivo)
 
quando lhe ia falar disso apanhou-se a dizer
não fthonos mas coisa triste com
rabo e cornos de cinza
à maneira dos ibéricos, dos portugueses
acrescentando que não seria a isso
que ia sucumbir porque começara por notar
que por duração é sempre possível
iludir e enrolar aquele peso
em manuais vulgarmente designado
por "sentimento trágico"
 
de uma destas salas poderás
observar a perfeita arquitectura do anjo
posto no telhado não à maneira dos gatos
antes elevando-se acima dos edifícios
por sobre as janelas ocre
 
enquadrado no rigor do seu cinzento
também ele está seguro do seu trompete
mas encontra-se impossibilitado
de qualquer hipótese de música
 
e porque ele não pia tu podes
descer à câmara da lower reading room
com uma mão estilhaçada envolta em gesso
deposta como um objecto que tens de carregar
 
e registar em protesto
que pararás de te debater
e de fazer barulho como é teu costume
 
rendendo-te temporariamente à evidência da falta
da caneta certa para escrever isto
ou de querer uma língua que seja a que sobre
ou de sequer sermos alguma vez
redutíveis à escolha prudente
de uma mais apropriada fala
 
 

Tatiana Faia (n. 1986), in Teatro de Rua (2013). A estreia em 2011 com Lugano (Artefacto) sublinhou um trabalho poético que vinha sendo desenvolvido em publicações colectivas, trabalho esse alicerçado em estudos clássicos com natural influência sobre esta poesia. As referências são múltiplas e variadas, dos gregos aos romanos, destes à tradição judaica, mas não vedam a intromissão de elementos contemporâneos, por vezes até populares, como uma canção de Chet Baker ou a inscrição numa linguagem puramente coloquial. No entanto, a erudição pesa invariavelmente sobre versos mais interessados na exterioridade, ou na relação do eu com o exterior, do que na exploração dos sentimentos íntimos e na expressão lírica dessa interioridade. Este é, até ver, talvez o aspecto mais singular da poesia de Tatiana Faia, a insistência no que parece distante e afastado do eu, uma espécie de fuga obstinada do lirismo onde a figura do sujeito poético é quase sempre um outro na posição de objecto observável.

SAÚDE

 
 
Bem sei que o detido da 44 é mais amoroso, uma espécie de gatinho para sacar likes no Facebook. E que as férias do Marcelo nas mansões da dinastia Salgado dão óptimas capas. Julgo até saber que os equívocos de Costa com o século dos descobrimentos podem entusiasmar hordas em fúria. Sobre a vitória do Benfica no Porto nem se fala, é tema para o resto do ano. Mas perante o relatório agora divulgado (parcialmente, porque a matéria sensível mantém-se em sigilo) sobre as purgas praticadas pelos timoneiros da democracia no mundo, cabe fazer esta humilde pergunta: para quando o julgamento deste criminoso de guerra e de todos os seus ingénuos colaboradores? Já agora, se lhe tiver escapado o dito relatório (é natural, ele há tanta matéria de interesse superior para encher páginas de jornais e horas de noticiários) pode espreitar aqui a síntese.

domingo, 14 de dezembro de 2014

BOOM

Numa breve passagem por Coimbra, com a Alma Sem Cura do Jorge Aguiar Oliveira por objecto, vasculhei as estantes do Miguel de Carvalho em busca de esmeraldas perdidas. Regressei a casa com um saco de plástico carregado de tesouros. Folheadas as obras, detém-se-me o espanto num volume intitulado Bone Lonely (Steidl, 2011) com fotografias de Paulo Nozolino e poemas de Rui Baião. Magnífico objecto sobre o qual talvez ainda venha a partilhar uma ou duas ideias. Por ora, pretendo apenas partilhar outro espanto. A constatação de uma abundância sobre a qual talvez já fosse merecida uma análise sociológico-literária. Refiro-me à profusão de poetisas vindas a lume nos últimos anos. Assim de súbito, e por certo com lapsos de memória sobre os quais responderá a ressaca, surgem-me nomes tais como Ana Salomé (n. 1982), Beatriz Hierro Lopes (n. 1985), Cláudia R. Sampaio (n. 1981), Catarina Nunes de Almeida (n. 1982), Filipa Leal (n. 1979), Golgona Anghel (n. 1979), Inês Dias (n. ?), Inês Fonseca Santos (n. 1979), Joana Serrado (n. 1979), Júlia de Carvalho Hansen (n. 1984), Margarida Vale de Gato (n. 1973), Margarida Ferra (n. 1977), Marta Chaves (n. ?), Matilde Campilho (n. 1982), Patrícia Baltazar (n. 1977), Rosalina Marshall (n. 1976), Renata Correia Botelho (n. 1977), Raquel Nobre Guerra (n. 1979), Sara M. Felício (n. 1984), Susana Araújo (n. ?), Tatiana Faia (n. 1986). Como em tudo na vida, mais tarde ou mais cedo seremos obrigados a separar o trigo do joio. É impossível à memória, por maior que seja a sua generosidade, conservar tamanha colheita no celeiro da literatura. A dificuldade será acompanhar toda esta constelação com distanciamento crítico, tentar entender o que há de verdadeiramente poético em cada uma das obras desenvolvidas. Impressiona a vitalidade, sobretudo quando olhamos para a história da literatura portuguesa e o desequilíbrio entre poetas e poetisas é aflitivo. Razões culturais e sociológicas explicarão esse desequilíbrio, como agora explicarão um aparente reequilíbrio. Não podemos é deixar de sublinhar o boom, por vezes acompanhado de incompreensível sobreexposição mediática com consequências nefastas para uma promoção sóbria e honesta da poesia.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

JÁ TINHA REPARADO

...no que temos aqui. Aceita-se que os diários de Kafka sejam ficção, porque toda a vida de Kafka é ficção. Aceita-se que a denominada autobiografia de Thomas Bernhard, um dos melhores livros (que são vários num só) publicados entre nós durante 2014, apareça entre a ficção. Mais explicações aqui. Mas que a poesia apareça ali incluída é, no mínimo, uma opção palerma. Enfim, em certos casos será apenas uma espécie de "com a verdade m'enganas". Já agora, quando é que os nossos preguiçosos jornalistas culturais se deixam destas estafadas listas e escolhas de melhores que os benza Deus do ano?

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

LÁ ESTAREI

(clique na imagem para ver melhor)

maldição contra quem tem vergonha dos filhos


um filho, a meias entre cabra e galo apaixonados, entrou pelo mar adentro. diz quem viu que batia as patas na água com força, mas tão pouco se embrenhou e já só a crista se via. em terra, por maldade, pôs-se uma galinha a cacarejar de aviso. quando os pais do jovem acorreram ao local, não se via senão uma ondulação estranha que talvez indicasse a barriga cheia do mar. a cabra prostrou-se na areia e emudeceu. o galo fez o mesmo passados uns minutos. depois, o filho voltou sem custo e surpreso, mas os pais nunca recuperaram da vergonha.

valter hugo mãe (n. 1971), in Livro de Maldições ( 2006). Afirmado e popularizado como romancista, valter hugo mãe foi durante muitos anos uma das figuras mais acutilantes e controversas da poesia portuguesa. O seu trabalho enquanto editor, primeiro nas Quasi edições, depois, e mais efemeramente, na Objecto Cardíaco, colheram ódios e paixões. Em paralelo, uma poesia pulsátil, arraigada à metáfora e repleta de imagens heterodoxas, numa época em que o discurso poético se aproximou da narratividade mais ou menos confessional e descritiva, fizeram da obra coligida em Contabilidade (2010) um exemplo de obstinação estilística. Contra as muralhas do apontamento irónico e humorístico, da quotidianidade melancólica e entediada, títulos como a cobrição das filhas (2001) ou pornografia erudita (2007) propuseram uma linguagem desbragada de sentidos e emoções liquefeitos no poder sugestivo das imagens e da musicalidade verbal.   

domingo, 7 de dezembro de 2014

ENIGMA TAVARES: TESTAR A TESE


Dois livros recentes de Gonçalo M. Tavares (n. 1970) ajudam-nos a repensar um edifício literário que vem sendo construído desde Livro da Dança (2001). No final de cada um deles, uma espécie de planta distribui por várias secções os famigerados cadernos do autor. Os Velhos Também Querem Viver (Caminho, Outubro de 2014) aparece ao lado de Histórias Falsas na secção Estudos Clássicos. Esta obsessão com a organização de uma obra mais caótica do que aparenta é reveladora de uma intenção arquitectónica sobre o texto, o qual deixa de ser organizado segundo padrões clássicos (romance, conto, teatro, poesia) para assumir novas designações (O Reino, O Bairro, Enciclopédia, Investigações…), mais pessoais e enigmáticas, que, na realidade, aproximam os géneros através de uma teia onde tudo se interliga. Toda a obra de Gonçalo M. Tavares, na sua diversidade, acaba por estar interligada, não sendo possível, ou sendo desaconselhável, lê-la de outra forma, interligada por uma espécie de linha poético-filosófica transversal a todos os géneros, aproximem-se estes mais da ficção ou da poesia, desta ou da filosofia.
Os Velhos Também Querem Viver transporta a tragédia clássica para tempo e espaço modernos, transporte no tempo e deslocação geográfica da tragédia Alceste, de Eurípedes, com variações formais onde se acrescenta ao texto original os elementos de uma actualidade meramente paisagística. Podemos dizê-lo assim porque, no essencial, o conflito humano mantém-se, à volta do homem a paisagem transforma-se mas o que há nele de verdadeiramente central permanece com uma perenidade assustadora. A tragédia, dedicada a Hélia Correia, autora de um extraordinário livro de poemas, intitulado A Terceira Miséria, onde estas questões já se colocavam sob prisma similar, tem agora por cenário a Sarajevo da década de 1990 em pleno conflito armado. Admeto é atingido por um sniper, mas pode ser salvo se alguém morrer por ele. Todos se recusam a trocar a sua vida pela vida de Admeto, excepto a sua mulher. Alceste, a mulher de Admeto, morre para ele ficar vivo, mas a consciência de Admeto não se conforma com a perda nem com as razões de seu pai, Feres, ter recusado dar a vida pelo filho. Era um homem velho, podia ter morrido para que os mais novos continuassem vivos. Feres defende-se: «Se os novos gostam de viver, os velhos também. E por que razão a vida de um velho valeria menos do que a vida de alguém que agora começa? (…) Não podes pensar que um velho é metade de um homem; um velho como eu é pelo menos dois homens, eu diria, pela experiência, pela sabedoria» (p. 56). O discurso é objectivo, nada tem de paradoxal, mas coloca à prova a resistência das teses. É esta dimensão inspectiva o que mais fascina nos textos de Gonçalo M. Tavares, textos de uma intensidade poética que muita poesia não consegue ter. Algo semelhante se observa no romance
Uma Menina Está Perdida No Seu Século À Procura do Pai (Porto Editora, Novembro de 2014). Neste romance, uma menina com trissomia 21 está perdida no centro de uma cidade alemã no século XXI (o "seu século"). É encontrada por um homem que a vai ajudar a procurar o pai. A primeira palavra que nos surge com estrondo é a palavra “deficiente”. A deficiência tem  aqui o lugar do contrapoder. Ela opõe-se não só à normalidade, a uma suposta normalidade, como também à lógica, à ordem, ao Organon aristotélico que o autor de Uma Viagem à Índia testa recorrentemente e inverte e procura sabotar e experiencia. Marius e Hanna, as personagens centrais do romance, vão cruzar-se ao longo de quase duzentas páginas com indivíduos cujas características são objectivamente escolhidas e pensadas para uma inversão valorativa que confronta o leitor com a loucura (não exclusivamente mental, mas também a partir de anomalias físicas) das pessoas aparentemente normais e a naturalidade de uma menina com trissomia 21 que, limitada na sua autonomia e nas suas capacidades comunicacionais, garante uma certa espontaneidade aos desequilíbrios do pensamento: «Da janela da carruagem, vimos o fumo preto que saía de uma fábrica. Hanna disse que era bonito. E de um certo ponto de vista era: se olhássemos para a fábrica como simples produtora de fumo. Era provavelmente assim que Hanna a via» (p. 175). Reminiscência das fábricas de morte nazis, esta passagem sublinha de um modo acutilante a relação entre a realidade e o ponto de vista. Sobrevive uma sem o outro? Hanna, a realidade, sobreviveria sem Marius, o ponto de vista? Hanna tem consigo um conjunto de fichas que estabelecem um programa de aprendizagem para pessoas com deficiência mental. Fascinante, a forma como Marius se questiona sobre as dificuldades de uma pessoa normal para responder positivamente a algumas daquelas tarefas. A exigência dos desafios testa a normalidade, daí que o romance se desenvolva na base de conflitos entre o certo e o incerto, a verdade e a mentira, a lógica e o caos, a exactidão e a subjectividade, a matemática e o acidente. Mas estas linhas, que reflectem um pouco do que se vem passando no conjunto da obra de Gonçalo M. Tavares, não seriam suficientemente cativantes se não fosse inesgotável a capacidade do autor para imaginar situações onde as mesmas são (re)desenhadas com espantosa coerência e minuciosidade. A título de exemplo, digamos que quando uma personagem procura um Hotel num livro de Gonçalo M. Tavares ela não vai encontrar apenas um sítio onde dormir. Ela vai encontrar um Hotel onde cada quarto tem o nome de um campo de concentração nazi, um Hotel cuja arquitectura reproduz a distribuição desses mesmos campos no espaço europeu. Estes elementos parabólicos, acompanhados de personagens aporéticas e de uma escrita onde a própria pessoa do narrador se confunde, sem, no entanto, confundir minimamente o leitor, fazem de cada um destes cadernos estádios de desenvolvimento de uma poética geral, uma poética com um princípio fundador: testar a tese.