quinta-feira, 31 de março de 2016

LIMPINHO, LIMPINHO

Cidade do Futebol. 10 a 15 milhões de euros financiados pela FPF, UEFA e FIFA. Dinheiro limpinho, limpinho. É disto que o mundo precisa. 

O DIA & A NOITE NÃO PODEM VIVER JUNTOS



A editora Debout Sur l’Oeuf (DSO) publicou recentemente um pequeno volume de “poemas de índios americanos numa recreação de Vasco Gato” (sic), pretendendo talvez aqui o termo recreação arrogar uma espécie de divertimento que afasta estes exercícios de outros levados a cabo sobre as eventuais origens de uma literatura índia norte-americana. Menos recreativos, porventura mais do domínio da recriação, foram os poemas mudados para português por Herberto Helder em livros tais como O Bebedor Nocturno ou As Magias. Neles encontramos enigmas maias e astecas, poemas esquimós, poemas dos peles-vermelhas, entre outras incursões proveitosas pela arqueologia de vozes ancestrais que nada têm que ver com as concepções ocidentais de literatura. É no volume As Magias que podemos vislumbrar aquele que é, talvez, o mais fiel exemplo de uma riqueza oral que a linguagem escrita procurou preservar com maior ou menor sucesso:

(Índios Comanches, EUA)

Djá i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i ná ê nê ná
i djá i naí ni ná
i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i djá ê nê ná

Refira-se, en passant, que são várias as teorias existentes sobre a intraduzibilidade de alguns cânticos ameríndios, cujo propósito parece estar mais próximo do que conhecemos por mantras do que de uma expressão verbal de sentimentos ou de realidades mundanas. A relevância desses sons é a de uma vibração semelhante ao rufar dos tambores, símbolo de unidade do homem com os tempos e os ritmos da natureza. Estas culturas nativas privilegiavam, também por isso, a tradição oral, fazendo passar de geração em geração várias narrativas morais que um processo de aculturação violentíssimo obrigou a fixar sob a forma escrita. Porém, antes da poesia, foi a autobiografia o que mais interessou aos indígenas norte-americanos, por nela encontrarem um testemunho vivo e eficaz, ao serviço das gerações vindouras, sobre as privações que passaram, as lutas que travaram e os abusos que sofreram. Devemos ao mestiço William Apess o primeiro desses testemunhos, intitulado A Son of the Forest (1831). Por sua vez, Wynema, a Child of the Forest (1891), de Sophia Alice Callahan, é hoje considerado o primeiro romance escrito por alguém com sangue índio. Estas obras foram determinantes para fomentar o interesse pela cultura ameríndia, mas são já produto de uma mestiçagem onde os valores literários ocidentais foram assimilados e reproduzidos. 
Quanto à poesia, ela surge invariavelmente envolta no mistério de um modelo que procura preservar certo conteúdo espiritual sem adulterar a energia e os ritmos de idiomas desconhecidos. Restam versões de versões de versões de versões cuja origem é quase sempre a língua inglesa. Infelizmente, no volume publicado pela DSO, com o título O dia e a noite não podem viver juntos (Janeiro de 2016), nada nos informa acerca da proveniência dos textos. É uma pena que assim seja, sobretudo quando o próprio texto que oferece o título à colectânea não é inédito entre nós. Trata-se não de um poema, mas de um discurso, proferido em 1854, pelo índio Seattle, Chefe da tribo Suquamish, aquando de uma proposta do governo americano para compra de terras em troca de protecção numa reserva. O discurso é famosíssimo.  Dele se conhecem, publicadas por cá, pelo menos duas versões anteriores: A Noite do Índio, pela Casa Do Sul Editora, com tradução e apresentação de Joaquim Palma, 1.ª edição, Outubro de 1999, e uma outra, menos rigorosa, incluída em A Alma do Índio, Padrões Culturais Editora, sem referência ao tradutor, 1.ª edição, Julho de 2008. 
Aos poemas que compõem O dia e a noite não podem viver juntos Vasco Gato juntou apenas uma indicação sobre o autor, quando é conhecido, ou a tribo de onde provêm as palavras. Pungentes, a título de exemplo, as palavras de Tom Torlino, um conhecido Navajo de quem são famosos os retratos antes e depois de ter sido admitido numa escola cujo objectivo era erradicar qualquer indício de identidade índia nos povos nativos:

DEVO PORTANTO DIZER A VERDADE

Sinto-me envergonhado perante a terra:
Sinto-me envergonhado perante os céus:
Sinto-me envergonhado perante a madrugada:
Sinto-me envergonhado perante o crepúsculo:
Sinto-me envergonhado perante o céu azul:
Sinto-me envergonhado perante a treva:
Sinto-me envergonhado perante o sol.
Sinto-me envergonhado perante aquilo que trago dentro de mim e que fala comigo.
Algumas destas coisas não param de olhar para mim.
Nunca estou longe da vista.
Devo portanto dizer a verdade.
É por isso que digo sempre a verdade.
Cinjo a minha palavra com força junto ao peito.

Torlino
[Navajo]

Resta saber a qual retrato de Torlino devemos atribuir estas palavras, se ao retrato em que se encontra com o cabelo comprido e brincos nas orelhas ou à versão polida, já sem brincos, de cabelo cortado, de fato e gravata vestido. Igualmente valiosas são as palavras atribuídas a Nalungiaq e Samik, membros Inuítes (vulgarmente tratados por Esquimós), onde dão conta tanto de uma mitologia muito própria como de princípios éticos básicos face a situações de extrema privação. Deixadas na penumbra, as canções de guerra dos Cherokee ou as orações aos guerreiros dos Asiniibwaan, disponíveis em diversas antologias, são entre o que conhecemos da poesia ameríndia alguns dos trechos mais eloquentes. Quer pelo contexto de guerra, quer pelos estímulos que procuravam produzir, esses poemas deveriam ter merecido uma outra atenção. Arrisco duas versões minhas, a partir das reproduções antologiadas em American War Poetry (Columbia University Press, 2006), volume organizado por Lorrie Goldensohn:

“CANÇÃO DE GUERRA”
A partir de Maurice Boyd, Vozes Kiowa

Corro até ao ribeiro para lavar o cabelo.
Pinto o rosto com as cores do crepúsculo.
Minha tia escolhe-me um xaile azul claro como o céu.
Mas eis que escutamos o choro que significa
treva para todo o meu povo.

Corro de regresso à minha tenda.
Limpo todas as pinturas
com as minhas lágrimas.

*

“ÚLTIMA CANÇÃO DE TOURO SENTADO” (TETON SIOUX)
A partir de Frances Densmore. Touro Sentado cantou
esta sua última canção depois de se render às autoridades
Norte-Americanas, pouco tempo passado sobre o massacre de Custer.

Um guerreiro
Eu fui.
Agora
Tudo acabou.
Um tempo difícil
Eu tenho.

DOIS LIVROS DE EDUARDO QUINA

A confiar no que foi possível apurar através de informação disponível on-line, Eduardo Quina (n. ?) estreou-se com Sombras Mortas Entre os Dedos (Apuro Edições, Dezembro de 2015). O volume intitulado Corpo: Labirintos. (Editora Licorne, s/d) reúne poemas escritos entre 2009 e 2012, supondo-se, no entanto, que a sua publicação tenha sido posterior. Independentemente da ordem cronológica, aquele que aqui tomaremos como livro de estreia é, sem dúvida, o mais desequilibrado. Denota os defeitos naturais de uma estreia, nomeadamente uma clara indecisão quanto ao lugar de uma linguagem ainda por definir. Trata-se de uma sequência de 41 textos, por vezes precedidos de um título, de uma epígrafe ou de uma dedicatória, marcados pela questão da perda, da morte, do desaparecimento. Os espaços geográficos aludidos, sejam eles «o jardim da vila» (p. 10), a «aldeia da minha infância» (p. 40) ou mesmo a cidade onde o presente se gasta em solitárias incursões pela paisagem, enviam-nos invariavelmente para lugares de memória onde fica evidente uma especial atenção à degenerescência do corpo físico e, por consequência, de uma espiritualidade inquieta, sombria, desassossegada. O problema da morte é, então, um desafio que instiga reflexões lacónicas sobre o sentido da vida e a utilidade da escrita, por entre breves apontamentos intimistas ou de índole supostamente biográfica que dão igualmente lugar a anotações quotidianas bem esboçadas: «este espaço sem gente é hoje de esquecimento. / no limite da tarde chega um grupo / de jovens da terceira idade / carregados com todas as suas mágoas. / estão vivos e constroem o que resta / da tarde numa conversa trémula. / de gestos, cansados, expressam as / estórias da sua solidão. é a manifestação / possível e sibilante de um outono de horas / certas. corrigem vontades e entretêm a / mente nas sombras do dominó» (p. 46). Em alguns poemas, os versos estendem-se no espaço da página e a prosa impõe-se como a forma mais adequada a uma respiração cansada. Pressentem-se ecos da poesia de Herberto Helder mesmo quando não são declarados, perdendo-se alguns poemas em arrebatamentos geracionais — «sofres a pertença / a uma geração de merda» (p. 25) ou «e preenchias assim o vazio / neste devir permanente entre tascas» (p. 26) — típicos de alguma poesia portuguesa contemporânea mais empenhada no sacrifício de uma tradição lírica devedora das tempestades emotivas herdadas do romantismo. Com menos concessões ao ambiente geral e à situação poética vigente,
Corpo: Labirintos. desenvolve em três sequências bem arquitectadas uma reflexão poética sobre o corpo enquanto lugar primeiro e último da existência, não recusando considerações de carácter teosófico deveras pertinentes num contexto onde a ideia de Deus ou as noções de sagrado e de divino são inseparáveis da própria assumpção que possamos fazer do corpo criador. Assim sendo, a primeira sequência foca-se no problema do corpo gerador e da sua relação com o gerado. Há como que um cordão umbilical de palavras a unir ambos através da figura da mãe e do filho que a convoca, lembra, evoca: «rasga-se o ventre para que se retire a ferros a solidão de um / outro corpo. entendes que é o teu próprio porque sabes / demasiado sobre a perfeição com que nascem as coisas. / é o deslumbramento da luz e o medo terrível das / explicações. / agora passeias sozinha sem a minha presença» (p. 27). Na sequência intitulada corpo e floração esta relação entre os corpos é como que descontinuada por uma separação, um distanciamento, uma perda e uma ausência que a morte anuncia. Criação e morte não são apenas balizas onde se joga o tema da existência, são eles próprios temas em si. E o corpo não é necessariamente e apenas o corpo físico, material, é também o corpo da memória, a imagem cuja nitidez se vai perdendo com a passagem do tempo. Há uma complexidade nesta relação que os poemas não negam nem procuram solucionar, participando antes de um reflexo que nos permite pensar no poema como também ele corpo gerado. O mistério do corpo é, pois, o da transmutação, é o da recriação através da palavra de algo que se cumpre entre a concepção e a morte. Os labirintos finais deste livro levam todos ao mesmo destino, sendo escusado aqui enunciá-lo, mas não sendo supérfluo apontar a intenção da poesia neste domínio: «queríamos um poema enquanto criação, última e / definitiva, do mundo» (p. 83). Ora, se cada poema é o seu próprio mundo, a génese engendrada neste livro permitiu uma inquietante cosmogonia. Muito mais equilibrado, por assim dizer, do que Sombras Mortas Entre os Dedos, este Corpo: Labirintos. deixa pistas atraentes sobre uma poesia que ainda está a desenvolver-se nos enredos da sua própria concepção. 

terça-feira, 29 de março de 2016

VAMOS ANTES A PARIS


Quem me dera ser simples e vulgar,
Pensar como o vizinho merceeiro...
Juntar no Montepio algum dinheiro
E fazer-me por todos respeitar.

Normal no porte, feio e regular,
Ter casa própria já, com jardineiro...
Vazio de ilusões, e bom caixeiro,
Ensinar o meu filho a continuar...

Assim envelhecer devagarinho,
Perfeitamente parvo, mas feliz,
E certo de seguir por bom caminho.

Dirás, leitor: "a quem você o diz!
Beber também eu queria desse vinho..."
— Não bebas... vamos antes a Paris!

Julho de 1938.


Olavo d'Eça Leal (n. 1908 - m. 1976), in Presença, n.º 53, 1938. Caído no esquecimento, publicou poesia e ficção, fez teatro e cinema, foi artista plástico. Colaborou na revista Contemporânea, tendo o seu nome ficado associado ao movimento presencista por na revista desse grupo ter publicado alguns dos seus versos. Poeta de leitura agradável, praticou versos simples de refinada ironia.

sábado, 26 de março de 2016

PEDRAS DA PÁSCOA

Manda a tradição que por esta época as grelhas das televisões sejam preenchidas com filmes e documentários sobre a vida de Jesus. Podemos assim rever Ben-Hur (1959), de William Wyler, Jesus of Nazareth (1977), de Franco Zefirelli, A Última Tentação de Cristo (1988), de Martin Scorsese, A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson, ou Barrabás (1962), de Richard Fleischer, entre os quais minisséries como Mary (2015), de Giacomo Campiotti, pontuam a inclinação para a telenovela sentimental. Jesus é uma excelente personagem de ficção. O que sobre ele sabemos de histórico permite-nos fantasiar inúmeras alegorias, não sendo de estranhar o interesse de artistas e das máquinas reprodutoras de imaginação em massa que vão arrecadando milhões à conta da exibição dos dotes sobre-humanos da personagem. Face aos heróis da Marvel, este semideus (ou Deus na Terra, se preferirem) é um poço sem fundo de todo o tipo de riquezas. A sua pureza equivale à ignomínia de quem a explora sem qualquer sentido crítico, disseminando pelos povos a mais bela e inútil das palavras: amai-vos uns aos outros. Lamentavelmente, estas palavras foram rapidamente esquecidas pelos parabolanos que impuseram à pedrada a sua visão do Mestre. Olhando à nossa volta podemos facilmente constatar que os parabolanos venceram. E por terem vencido podemos hoje regalar-nos com a grelha pascal, alheados da realidade com o divertimento das recriações históricas polidas, amêndoas doces e ovos de chocolate.

sexta-feira, 25 de março de 2016

UM POEMA DE KONSTANDINOS KAVAFIS

UM VELHO


No café no lugar de dentro na zoeira turva
senta-se um velho na mesa se curva;
com um jornal diante dele, sem companhia.

E no desdém da velhice miserável
pensa como usou tão pouco o tempo deleitável
em que força, e eloquência, e beleza possuía.

Sabe que envelheceu muito; sente-o, é visível.
E contudo o tempo em que era novo ao mesmo nível
do de ontem. Que espaço apressado, que espaço apressado.

E considera como burlava dele a Prudência;
e como nela tinha confiança sempre — que demência! —
a perjura que dizia: «Amanhã. O tempo é demorado».

Lembra-se de impulsos a que punha freio; e sem medida
a alegria que sacrificava. Cada história perdida
agora troça da sua desmiolada sageza.

. . . . Mas do muito que foi pensando e não esquece
o velho atordoou-se. E adormece
no café apoiado sobre a mesa.


Konstandinos Kavafis (n. 29 de Abril de 1863, Alexandria, Egipto - m. 29 de Abril de 1933, idem), in Poemas e Prosas, tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Relógio D'Água, 1994, p. 73.

quarta-feira, 23 de março de 2016

O NOME DAQUELE QUE NÃO TEM NOME

Ainda que devamos manter algum distanciamento crítico relativamente à identidade desse que hoje nos chega sob a designação de Kabir, a verdade é que as palavras atribuídas a tal figura dispensam quaisquer preocupações de autoria. Na introdução a O Nome Daquele Que Não Tem Nome (Assírio & Alvim, Março de 2016), Jorge Sousa Braga não descarta a possibilidade de Kabir ser um colectivo e salienta o facto, relevante para quem se preocupe com tais matérias, de não restarem manuscritos dos poemas desta voz a ecoar desde o séc. XV. O que temos é um conjunto disperso de textos e uma certa fé nos cuidados prestados à poesia hindu pelo grande Rabindranath Tagore, a quem devemos a primeira tradução, em 1914, dos poemas de Kabir para uma língua ocidental. Independentemente da origem das palavras contidas neste pequeno volume, sobre as quais o poeta Jorge Sousa Braga presta um serviço impagável de tradutor com as suas versões, o que mais importa é utilizar um duplo sublinhado para a excelência de muitos destes setenta e três poemas agora em língua portuguesa. 
São diversos os motivos de interesse, podendo o primeiro considerar-se de suprema pertinência. Vislumbramos aqui uma espécie de sincretismo que funde numa só instância espiritual os ensinamentos do hinduísmo e do islamismo, transcendendo o sentimento do divino as paredes do templo e as da mesquita. Nos textos de cariz iniciático, aquilo que se busca e procura parece residir no interior do ser. Ou seja, o encontro com o sagrado não se processa através de uma revelação do mestre ao iniciado, mas antes de uma entrega deste à meditação, à introspecção e à reflexão como caminho para uma reunião desejada. A austeridade, a abnegação e a renúncia aos bens materiais típicos do misticismo hinduísta, mas igualmente de muitas enunciações provenientes dos mais diversos ramos da religiosidade, não são um método nem uma provação, mas a natural sabedoria daquele que pela ascese logra caminhar no sentido do sagrado. 
Há versos porventura mais esotéricos que induzem as limitações da linguagem enquanto meio capaz de definir o processo de revelação, tornando-se assim claro estarmos na presença de uma fé que não se transmite tanto quanto se conquista em solidão. O propósito não é, portanto, evangelizador, mas sim poético, supremamente poético, na medida em que supera a hierarquia do mestre e do discípulo, transcende os muros da revelação, instiga o ouvinte a escutar-se a si próprio, a voltar-se para dentro de si próprio e a no fundo de si mesmo procurar a vibração da mais alta voz:

Não sou crente nem ateu
Não vivo segundo os mandamentos
nem segundo o meu coração
Não falo nem oiço
Não sou livre nem escravo
Não tenho afectos nem ódios
Não estou longe nem perto
Não irei nem para o céu
nem para o infenro

Quem quer que me compreenda
que encontre a paz

As palavras de Kabir parecem ressoar um nirvana onde a vida espiritual resulta do encontro entre o sentimento místico e um certo niilismo. Isto é, nos seus versos a lógica não leva à verdade, a razão não reflecte o universo, tudo se funde com tudo sem contudo se perder de si mesmo. Em alguns poemas, o absurdo dos enunciados varre para um canto muito do surrealismo que V séculos depois de Kabir procurou a “chave para o universo” na realidade delirante do sonho. Ora, que diferença haverá entre o delírio do sonho e o delírio do místico? Em que estados se instala a consciência daquele que sonha e daquele que atinge o nirvana? Curioso também notar que em muitos poemas o sujeito poético assume uma identidade feminina, superando assim, além das ramificações religiosas (hinduísmo versus islamismo), oposições de género, tal como em todos os poemas o que parece estar em causa é, precisamente, a superação dos opostos a partir de uma afirmação da vida simples como método para a paz interior, a suspensão do desassossego e da inquietação daqueles que sem se aperceberem que vivem estão já mortos e sem se darem conta de que morrem se julgam vivos:

Toda a gente fala
como se soubesse onde fica o paraíso
Mas perguntem-lhes o que
é que há por debaixo da rua onde vivem
e não saberão dizer

Se o paraíso fica naquela direcção
já alguém lá teria chegado
Não será a conversa sobre o paraíso uma treta?
É melhor que te assegures disso

Eu
tudo o que procuro
é uma boa companhia

terça-feira, 22 de março de 2016

COROA DE FLORES

A vida de Kabir confunde-se com a lenda. Desses episódios lendários da vida de Kabir há especialmente dois que gostaria que tivessem sido reais: o primeiro é o do encontro entre Kabir e Mirabai. O segundo tem a ver com a sua morte: hindus e muçulmanos teriam disputado o seu corpo, uns para cremá-lo, outros para enterrá-lo. Quando abriram o caixão, o que restava de Kabir era uma coroa de flores, que hindus e muçulmanos dividiram entre si.


Jorge Sousa Braga, na introdução a O Nome Daquele Que Não tem Nome, de Kabir, Assírio & Alvim, colecção Gato Maltês, n.º 83, Março de 2016, p. 12.

quinta-feira, 17 de março de 2016

REPÚBLICA LAICA

Marcelo mostrou-se muito feliz com o Papa Francisco. É bom ver pessoas felizes, acalma-nos. Ainda assim, penso em Mario José Bergoglio e fico triste. O homem da batina branca, chefe máximo de uma instituição conservadora, homofóbica e machista, representa o sangue derramado de milhões de vítimas torturadas em nome de Deus. A Igreja que menos tem que ver com Deus é a de Bergoglio. O Deus de Bergoglio é um Deus institucionalizado e instrumentalizado, é humano, demasiado humano, não se mistura com o vento nem com o restolho das árvores, quer levar-nos a dominar a Terra para nos escravizar em nome de um paraíso artificial. É puro negócio. Viu desaparecerem a seus pés civilizações inteiras e é como se nada tivesse sido, é como se nada fosse. Marcelo mostrou-se feliz com o Papa Francisco. Como se mostraria ele se por absurdo fosse possível colocá-lo face a face com Gungunhanha? 

UM CONSELHO DE RABINDRANATH TAGORE

JULGAMENTO

Não julgues...
Habitas num recanto mínimo desta terra.
Os teus olhos chegam
Até onde alcançam muito pouco...
Ao pouco que ouves
Acrescentas a tua própria voz.
Mantém o bem e o mal, o branco e o negro,
Cuidadosamente separados.
Em vão traças uma linha
Para estabelecer um limite.

Se houver uma melodia escondida no teu interior,
Desperta-a quando percorreres o caminho.
Na canção não há argumento,
Nem o apelo do trabalho...
A quem lhe agradar responderá,
A quem lhe agradar não ficará impassível.
Que importa que uns homens sejam bons
E outros não o sejam?
São viajantes do mesmo caminho.
Não julgues,
Ah, o tempo voa
E toda a discussão é inútil.

Olha, as flores florescem à beira do bosque,
Trazendo uma mensagem do céu,
Porque é um amigo da terra;
Com as chuvas de Julho
A erva inunda a terra de verde,
E enche a sua taça até à borda.
Esquecendo a identidade,
Enche o teu coração de simples alegria.
Viajante,
Disperso ao longo do caminho,
O tesouro amontoa-se à medida que caminhas.


Rabindranath Tagore (n. 1861, Calcutá, Jorasanko - m.  1941, idem), in Poesia, selecção e tradução de José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, pp. 204-205.

MUJICA


Não percebo o que se passa no Brasil, não estou suficientemente informado. Entristece-me a degradação do Partido dos Trabalhadores, aparentemente emaranhado numa teia de corrupção que pode ter capturado as mais altas figuras do partido. A intuição de que Lula está a recorrer a um subterfúgio para fintar a justiça é demasiado forte e inquieta qualquer admirador. Mais a norte, muita gente se espanta com a popularidade de um burgesso chamado Trump. Também queria espantar-me, mas não consigo. O que fortalece Trump é da mesma ordem do que enfraquece Lula, uma certa incapacidade de resistir às tentações corruptíveis do capitalismo e da sua amante mais querida: os mass media. Talvez precisássemos de mais Pepe Mujica na política, talvez devêssemos olhar mais para o seu exemplo, não sei, talvez não fosse má ideia citá-lo mais vezes, olhá-lo, pensá-lo, referi-lo. Ou talvez também neste caso eu esteja equivocado. 

quarta-feira, 16 de março de 2016

PANTEÃO

Era inevitável. Já circula uma petição para meter o actor no Panteão. Entretanto, dizem-me de fonte segura que a Assembleia da República se prepara para discutir a possibilidade de trasladar o próprio Panteão para o Panteão.

QUEM SERÃO OS CRÁPULAS?

Foi uma das declarações mais escutadas nos últimos dias: era um homem bom. A propósito de Nicolau Breyner todos fizeram questão de sublinhar quão humano, quão bom, quão impecável era o grande artista. Mas fizeram-no sempre com aquela ressalva de que essa bondade era tanto mais importante de afirmar quão rara é no mundo em que se movimentam os intervenientes chamados a testemunhar. O mundo do espectáculo, esse, continuará, supomos, cheio de cretinos, de crápulas, de arrivistas, de gente maldosa e mesquinha. Porque se Breyner era a excepção que ninguém deixou de mencionar, então muitos dos que sobre ele opinaram serão porventura as almas mesquinhas que fazem a regra. Ou não?

[Nada sei das verdades dos homens]


Nada sei das verdades dos homens:

toco a pedra, a beira do poço
e sou água, memória,
dança antiga das mãos sobre as pedras —

encosto o ouvido ao corpo das árvores
e renovo a certeza de ser o fundo mais fundo da terra,
raiz, seiva e sangue onde o amor acaba
onde o amor começa —

um pé depois do outro
acerto o passo com o ritmo do peito —

colho flores com as minhas mãos de deixá-las
onde estão, a minha maneira de amá-las inteiras.


Rute Mota (n. 1980), in Nenhuma Palavra nos Salva (2007). Fazendo uso de uma linguagem contida, Rute Mota pratica uma poesia de raiz epigramática, muito próxima de alguma poesia oriental, como que conferindo ao poema um estatuto revelador que nos aproxima da essencialidade dos objectos cantados. Um amor interceptado pelo silêncio ecoa nas entrelinhas dos seus versos, atentos às vozes de um mundo natural que surge sempre em contexto contemplativo. O vento, pássaros, flores, povoam brevíssimos apontamentos de uma extrema beleza e simplicidade que denotam uma mão tão frágil quanto dominadora da sua arte.  

terça-feira, 15 de março de 2016

NICOLAU BREYNER (1940-2016)


Nunca o vi nos palcos, mas gostava de o ver a representar na tela de um cinema ou num ecrã de televisão. Era um excelente actor. Dois papéis, um trágico e outro cómico, ambos para televisão, dão bem conta do seu valor: o João Goduna, de Vila Faia, e o mordomo Horácio, de Gente Fina é Outra Coisa. Papéis que marcaram a minha geração, sem dúvida. 

sexta-feira, 11 de março de 2016

O QUE VEMOS QUANDO LEMOS

Poderíamos substituir a afirmação por uma pergunta: o que esperamos de um livro quando o lemos? Leitores diferentes esperarão efeitos diferentes da leitura de um livro. Nem sempre o saldo corresponderá às expectativas, estando as expectativas quase invariavelmente relacionadas com motivações pessoais subjectivas. Posso esperar de um livro que me informe, que contribua para o desenvolvimento das minhas competências técnicas, posso esperar que me estimule a imaginação, que me ofereça momentos de abstracção ou de entretenimento, que me ajude a reflectir os problemas do mundo, que contribua para o meu autoconhecimento, posso esperar que me emocione ou que me excite. Enfim, podemos esperar inúmeros resultados da leitura de um livro. Mas e se um livro nos oferecer o que menos esperávamos? E se exceder as nossas expectativas, oferecendo-nos, por exemplo, novas pistas de leitura, ou reeducando-nos a leitura, ou transportando-nos para aquele ponto em que sentimos voltar a aprender a ler? É precisamente isso que sucede quando lemos um livro como este O Que Vemos Quando Lemos (Elsinore, Outubro de 2015), de Peter Mendelsund. 
Natural de Cambridge, Massachusetts, o autor estudou filosofia e literatura na Columbia University. Uma carreira atribulada como pianista impeliu-o para o design gráfico, especializando-se na concepção de capas para livros. Tratando-se de um espírito claramente interdisciplinar, o livro acaba por reflectir essa capacidade de analisar uma actividade na interacção por esta estabelecida com inúmeros outros domínios do conhecimento. Apresenta-se como uma fenomenologia da leitura, o que não está mal. Parece-nos, porém, ser esse apenas um chavão que não presta a devida homenagem ao objecto que temos pela frente. Antes de mais, por se tratar de um livro perfeito do ponto de vista gráfico. Objecto lindíssimo, profusamente ilustrado, profusa e pertinentemente ilustrado, estabelecendo não só um equilíbrio constante entre as palavras e as imagens, como sendo capaz de nos convencer que entre umas e outras há apenas a postura de quem interpreta. Quero com isto dizer que muitas das imagens neste livro são puro texto, devem ser lidas, assim como muitas das frases nele contidas, breves, sintéticas e eficazes como os melhores aforismos, apelam a um universo visual e imagístico que nos transforma a leitura numa autêntica experiência visual. Deste modo, o que vemos neste livro é também o que lemos. E o que lemos é, isso mesmo, o que vemos. 
Mendelsund apoia-se em clássicos da literatura universal tais como Anna Karénina, Crime e Castigo, Ulisses, Moby Dick ou As Cidades Invisíveis, entre outros, para explorar os “comos” da leitura e desbravar os territórios que levam da experiência de ler um livro à interpretação das pistas deixadas pelos autores, destas à imaginação, daqui à concepção visual, a partir de elementos dispersos, das personagens, das situações, dos climas e dos ambientes. Como formamos um cheiro na nossa mente através das palavras? Será possível representar um cheiro através de palavras? Qual o rosto do capitão Ahab sugerido por Melville? Terá o autor de Moby Dick fornecido aos seus leitores elementos suficientes para a construção objectiva desse rosto? Terá tido essa preocupação? Kafka recusou qualquer ilustração do ser narrado em A Metamorfose, temendo que a mesma usurpasse ao leitor a oportunidade de imaginar o aspecto do protagonista. E não poderá ser Gregor Samsa cada um dos seus leitores enquanto percorre as páginas de A Metamorfose? A questão é: conseguimos gerar na nossa mente elos de proximidade com uma personagem que nos permitam descrevê-la fisicamente? Haverá entre o leitor e as personagens um distanciamento do mesmo tipo que existe entre as pessoas no seu dia-a-dia? 
Privilegiando-se quase sempre em literatura a descrição comportamental em detrimento da descrição visual, é possível que os nossos ensaios visuais correspondam a estereótipos subjectivos geralmente associados a determinadas acções. Por isso mesmo uma mesma personagem pode assumir diferentes rostos ao longo de uma mesma narrativa. No fundo, ler é como olhar para o mundo. Incapazes de absorver todos os elementos da realidade através da percepção, nós fragmentamos a paisagem. Os panoramas que estabelecemos na nossa mente são construídos a partir da conjugação de diversos fragmentos. Interpretar é como que construir um puzzle com peças provenientes dos “seis” sentidos da percepção. Mendelsund conclui: «Eu diria que é por este motivo que a leitura «funciona»: ler espelha o processo pelo qual nos familiarizamos com o mundo. Não porque as narrativas nos digam necessariamente algo de verdadeiro sobre o mundo (embora possam fazê-lo), mas antes porque a prática de leitura parece-se com, e é como, a própria consciência: imperfeita; parcial; enublada; cocriativa» (p. 403). Basta folhear este livro para perceber que estamos perante um objecto distinto, uma obra exigente e rigorosa, mas ao mesmo tempo desprovida de presunções escusadas, enriquecida pela dimensão lúdica que acrescenta à leitura. Tradução de Rute Mota.

COISAS MESMO MUITO BOAS

Ópera na Prisão
(aqui)

quarta-feira, 9 de março de 2016

TRISTE FESTA

Ministro das Finanças entre 3 de Janeiro de 1980 e 9 de Janeiro de 1981. 1 ano. Primeiro-ministro entre 6 de Novembro de 1985 e 28 de Outubro de 1995. 10 anos. Presidente da República entre 9 de Março de 2006 e 9 de Março de 2016. 10 anos. 21 anos de democracia, 4 maiorias absolutas. Ele pode sair de cena, mas não sai de cena a democracia que o apoiou e elegeu. Uma democracia oligárquica comandada por plutocratas sem qualquer sentido de Estado. Motivos para festejar?

NANÁ VASCONCELOS (1944-2016)

sexta-feira, 4 de março de 2016

FRASES E FILOSOFIAS PARA USO DOS JOVENS



(Chameleon, Dezembro, 1894)

A ambição é o último refúgio do fracasso.

O primeiro dever na vida é ser tão artificial quanto possível. Em que consiste o segundo dever... ainda ninguém descobriu.

Amar-se a si próprio é o princípio de um romance para a vida inteira.

Em todos os assuntos de pouca importância o que conta realmente é o estilo e não a sinceridade. Em todos os assuntos IMPORTANTES, o que conta realmente é o estilo. E não a sinceridade.

Se alguém diz a verdade, esse alguém será, seguramente, tarde ou cedo, apanhado.

Nada que realmente tenha acontecido tem a menor importância. 

A maldade é um mito inventado pelos sensaborões para diminuir a capacidade de sedução dos outros.

Aqueles que vêem alguma diferença entre a alma e o corpo é porque não possuem nenhuma das duas.

Se os pobres apenas tivessem perfis, não seria difícil resolver o problema da miséria.

As religiões morrem quando se prova serem verdadeiras. A Ciência é o registo das religiões mortas.

Os bem-criados contradizem outras pessoas. Os sábios contradizem-se a si próprios.

A casa de um botão realmente bem feita é a única ligação entre a Arte e a Natureza.

O aborrecimento é o envelhecimento da seriedade.

O Prazer é a única coisa para que se deve viver. Nada envelhece tão bem como a felicidade.

Só não se pagando as contas é que se pode esperar perdurar na memória das classes comerciais.

Nenhum crime é vulgar, mas toda a vulgaridade é um crime. A vulgaridade é o comportamento dos outros.

Só os superficiais se conhecem a si mesmos.

O tempo é uma perda de dinheiro.

Deve ser-se sempre um bocadinho improvável.

Deve ser-se uma peça de arte ou vestir-se uma.

Há uma espécie de fatalidade sobre as boas resoluções. São feitas invariavelmente cedo de mais.

A única forma de se redimir por estar ocasionalmente um pouco vestido de forma excessiva é ser sempre excessivamente educado.

Quaisquer preocupações com ideias ou com o que está certo ou errado no comportamento demonstra um desenvolvimento intelectual tacanho.

Uma verdade deixa de ser uma verdade quando mais do que uma pessoa acredita nela.

Nos exames, os idiotas fazem perguntas a que os sábios não podem responder.

A roupa grega era na sua essência pouco artística. Nada deve revelar o corpo a não ser o próprio corpo.

São apenas as qualidades superficiais que perduram. A natureza profunda do homem acha-se depressa.

A Indústria é a raiz de toda a feiura.

As eras vivem na história através dos seus anacronismos.

Apenas os deuses saboreiam a morte. Apolo faleceu, mas Jacinto que, segundo os homens, o fez andar à roda, vive. Nero e Narciso estão sempre connosco.

O velho acredita em tudo: o de meia-idade desconfia de tudo: o jovem sabe tudo.

A condição necessária para a perfeição é a preguiça: o cume da perfeição é a juventude.

Só os grandes mestres de estilo são bem sucedidos a ser obscuros.

Há qualquer coisa de trágico sobre o grande número de jovens que existe em Inglaterra neste momento, que começa a vida com perfis perfeitos e que acaba por adoptar alguma profissão útil. 

Ser prematuro é ser perfeito.


Oscar Wilde, in Poemas em prosa, tradução de Possidónio Cachapa, introdução de Urbano Tavares Rodrigues, edição bilingue, Cavalo de Ferro, Dezembro de 2002, pp. 31-34.

POEMA EM PROSA PARA MARIA LUÍS

Tentei escrever-te em verso, mas fui incapaz. Para tanto não me basta a imaginação, nem o jogo de cintura. Olho para ti e nada almejo de vertical. Todo o teu semblante é um horizonte longínquo de verticalidade, pelo que me apareces horizontal como as bestas de quatro patas. Não te ofenda a imagem. Deves ter estômago para tanto e muito mais. Eu é que sou um desgraçado poeta, onde queria ver pessoas surgem-me sempre animais. 

quinta-feira, 3 de março de 2016

AS AVENTURAS DE AUREN


   Levei as minhas filhas ao teatro. Fomos os três assistir à estreia de As Aventuras de Auren, o pequeno serial killer, de Joseph Danan, pelo Teatro da Rainha. Por cá, a peça gerou ligeira polémica. Como sempre se passa por cá, alguns puristas foram observando pela calada a inadequação de uma peça infantil com um jovem serial killer como personagem central. Esta gente não deve saber o que os filhos lêem, se lerem, ou vêem na televisão, se passarem tempo a ver televisão, ou espreitam na Internet, quase de certeza que ocupam muito tempo na Internet, ou jogam com a PlayStation. Mas nem se exige tão custosa atenção. Basta pensarmos no nosso próprio imaginário quando éramos crianças, habitado por monstros e feras terríveis, vindos da selva ou com poderes sobre-humanos, basta pensarmos, enfim, nos cowboys e nos índios, que não tinham propriamente relações amistosas. E histórias para a infância com jovenzinhos perturbados é o que não falta. Ainda bem. 
  O que falta, por vezes, é descer à terra e abandonar a máscara hipócrita com que tentamos moralizar o mundo à nossa volta. Lembram-se do Dragon Ball? Eu lembro. E recordo até com certo pejo as inúmeras discussões num país deveras complacente para com mentecaptos sobre o quão prejudicial seria a exibição desse desenho animado, dinamizador de todos os vícios e ameaçador dos bons hábitos e dos bons costumes. Mais ou menos pela mesma altura ficámos a saber quais eram os bons costumes com a implosão do escândalo Casa Pia. Enfim, isto tudo para dizer que nada existe em As Aventuras de Auren, o pequeno serial killer que seja desaconselhável. Pelo contrário. 
   A Beatriz, de 9 anos, foi fazendo comentários do princípio ao fim com um entusiasmo que raras vezes lhe reconheço. A Matilde, a passos largos para os 13 anos, riu, deslumbrou-se, entregou-se a cogitações sobre as fronteiras que separam a realidade da ficção, a verdade dos factos, por assim dizer, do sonho. Como já sabe o significado da palavra alegoria, e não se amedronta com metáforas, percebeu existir no drama uma dimensão fantasiosa fortemente simbólica. Porque, na realidade, este jovem serial killer é apenas em estado latente o que potencia a marginalização, a exclusão social, os comportamentos desviantes de um adolescente. 
   Cenário deslumbrante, repleto de pormenores engenhosos que nos transportam para um mundo de fantasia, com figurinos burtonianos a transfigurar os pesadelos de Auren numa exótica fábula acerca dos ímpetos humanos e como o instinto animal deforma as atitudes e os comportamentos. À luz do pormenor, podíamos até acusar a Joseph Danan uma excessiva moralização do seu pequeno herói. Mais do que ser salvo pela poesia, o que revela, por parte do autor, uma fé no poder transformador das artes que nos parece hoje sempre muito estranha, salvo raríssimas excepções, Auren tem todos os ingredientes na sua situação particular para, por exemplo, vir a alistar-se num qualquer movimento jihadista. Ora, tais ambientes conferem à peça uma pertinência inesperada. 
   No decorrer da acção deparamos com as múltiplas acendalhas que propulsionam a deflagração de um incêndio emocional. Escapar ao ódio, nestes casos, é que é do domínio da ficção. Na realidade o ódio surge muito mais provável do que o amor em contextos tão desfavoráveis como são os da personagem em foco. Portanto, não se amedrontem os castos com aquilo que se encena nos palcos de uma sala de espectáculos. Amedrontem-se antes com o palco da realidade. Se o primeiro puder despertar mentes adormecidas para o segundo, o excelente trabalho dos actores e o esforço de toda a companhia foram bem-sucedidos. 

quarta-feira, 2 de março de 2016

[xácara do nunca nascido]


i.
não vim ao mundo senão para morrer

uma criança nasce nas vizinhanças da morte
absoluta e cadáver
os pulmões sufocando invisíveis
cadáver naufragando luz
e as sombras corroendo o universo inteiro

a tarde doía Deus
quando o ferro me cortou do paraíso
áspide e grego em sol contrário

deitaram-me sem estrelas num caixão
independente de sílabas gritadas
(falava o anterior e era um grito
e porque era um grito me chorava)

deram-me um nome que nunca regressei
pedras silábicas no mundo
os olhos ardiam por se ver o nada

ii.
absoluta e cadáver a criança caía
doíam Deus as tardes
quando trepava o visível de mãos cortando
as árvores barcos de sentido

se era para morrer que valia um dia

porque puseram desertos ao alcance das mãos
e colaram asas estátuas ao desejo

atravessava o nada e ninguém me vivia

iii.
e depois enganaram-me o amor

e ninguém me disse que o amor
era o sono da morte

e eu subia corpos como anunciações
sangue e sangue com a boca
colada ao invisível todo e
a morte bebia os astros e os caminhos
interestelares a distância dos braços

a terra a escavar a morte
enquanto se rasgam dois corpos
Deus doía tarde
quando absoluta uma criança morria

iv.
deram-me um espelho onde me queimei
integral e semente

atravessava vultos corredores do tempo
mas só a sede me vivia

a criança que corre pelo outono
só deseja a morte
gosto de areia é a memória
vai cegando de coisas irreais
famílias de divisas actos de passagem

um rosto devorado pelas invasões
com a sede a diluir-lhe o corpo
cadáver absoluto nas vizinhanças da
dor que Deus doía

v.
para uma criança morrer
absoluta e cadáver
dão-lhe o inferno para crescer

chamam destino ao que a morte cria
e noite à verdade dos dias
tiram retratos que a morte desfoca
e permitem que se passe entre os mortos
como se aqui fosse o lugar

sei apenas hoje e eu
que a dor Deus tarde
é o único chegar


Pedro Sena-Lino (n. 1977), in Deste lado da morte ninguém responde (2005). «A morte é o sujeito e o interlocutor destes versos, o 'eu' e o 'tu'. Transmigrados, em intersecção, indistinguindo-se. Mais do que uma poesia que parte do ponto de vista do sujeito, ou do objecto, esta é uma poesia de fusão. Deus vive aí também, nesse sopro de onde se evola cada palavra que dela nasce, ou, por vezes, de um sujeito poético, variável, em seu nome. Se lermos ao acaso um poema é indecifrável quem diz 'eu'. Ela é interpelada por esse mesmo sujeito ou pela absoluta criança-cadáver. // Poder-se-ia pensar que estávamos perante um universo mórbido ou macabro. Pelo contrário. Este fio de dor escreve-se em poemas e versos, intensivos, elípticos, de extrema elegância e beleza emocional, resguardando-se na invenção sintáctica. Um universo quase mais descritivo do que confessional, numa discreta distância» (Maria da Conceição Caleiro, Público, 16 de Abril de 2005).