segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

AOS OMBROS DE GIGANTES


O italiano Umberto Eco (1932-2016) é uma daquelas raras personalidades que todos parecem estar obrigados a apreciar. A adaptação cinematográfica de O Nome da Rosa (1980) granjeou-lhe imensa popularidade, livros tais Como Se Faz Uma Tese Em Ciências Humanas (1995) fizeram dele um pedagogo incontornável, estudos monumentais sobre a Idade Média, publicados entre nós pela Dom Quixote, impuseram-no enquanto erudito entre os eruditos. A obra é imensa, percorrendo fundamentalmente os territórios da ficção e do ensaio. Aos Ombros de Gigantes (Gradiva, Outubro de 2018) inscreve-se neste último domínio, embora por diversas ocasiões sintamos que estamos a lê-lo como se fosse um romance. São doze textos escritos para serem lidos em público, o que facilita a leitura, concebidos para o festival La Milanesiana, versando temas tão distintos como a beleza e a fealdade a que o autor dedicou especial atenção em dois volumes imprescindíveis, publicados com os títulos História da Beleza e História do Feio , a conspiração e o invisível, o segredo e a mentira, o fogo e a imperfeição.
   Diz-se na nota prévia que a primeira aula, a que ofereceu título a esta recolha, surge como premissa. E dessa premissa colhemos, desde logo, o sentido de humor único, uma atenção incomum à contemporaneidade, o saber de um arquivista acumulador de factos inusitados, capaz tanto de facilmente desmontar mitos universais como de se colocar numa posição de humildade face ao conhecimento: «Se quiser ser levado a sério, qualquer pensador dos nossos dias (para não falar de poetas, romancistas ou pintores) deve demonstrar que diz algo diferente do que diziam os seus predecessores imediatos e, quando não o faz, deve fingir que sim. Pois bem, os escolásticos faziam exactamente o contrário. Cometiam os parricídios mais dramáticos, por assim dizer, afirmando e tentando demonstrar que estavam justamente a repetir aquilo que os seus pais tinham dito» (pp. 21-22). E o que faz Umberto Eco? Textos como Paradoxos e Aforismos ou Dizer o Falso, Mentir, Falsificar, talvez ajudem a responder.
   A preocupação primordial do autor consiste em decompor o preconceito e a ideia feita, desmistificar apelando a uma leitura racional dos fenómenos. Fá-lo com um humor que pisa amiúde a linha que separa a ironia da sátira, mas também com uma lógica desarmante. Isso é evidente no exercício proposto para uma distinção entre paradoxo e aforismo: «O paradoxo é uma inversão real da perspectiva comum, apresenta um mundo inaceitável, provoca resistência, rejeição e, contudo, se fizermos um esforço por o entender, produz conhecimento; no final, parece espirituoso porque temos de admitir que é verdadeiro. O aforismo cancerizável é portador de uma verdade muito parcial e, muitas vezes, depois de ser cancerizado, torna-se claro que nenhuma das duas perspectivas que ele abre é verdadeira: parecia verdadeiro só por ser engraçado» (p. 228). E assim se aclara tanto do estilo que pulula nas mais inimagináveis obras, atraentes na dicção, repulsivas na observação da realidade. Que é, como não admiti-lo, o que mais temos à mão de verdade.
   Umberto Eco é não só exaustivo nos exemplos facultados, como altamente persuasivo em todos eles. Interessa-se por conceitos negativos, por assim dizer, como os de mentira e de falsidade tanto quanto se interessa pela verdade; a existência do feio garante-lhe o belo, só se permite falar de perfeição aceitando que a imperfeição existe. Os opostos não são pensados separadamente, mas antes enquanto realidades complementares. Há em todo o seu pensamento um esforço de conciliação que se afasta de uma atitude exclusivista como de uma postura edificante, pois não lhe importa a cristalização de uma perspectiva. Está, antes de mais, empenhado nas possibilidades do olhar enquanto contributo para um conhecimento o mais generalizado e humanista possível: «Mas porque é que julgamos tola a tentiva de aperfeiçoar a Vénus de Milo? Porque, quando a contemplamos, o que nos fascina é imaginar o todo que se perdeu. E a este sentimento vem juntar-se outro gosto, nascido no século XVIII, geralmente resumido pela expressão estética das ruínas» (p. 294).
   Neste sentido, podemos dizer que Umberto Eco é um esteta das ruínas, ele move-se entre destroços para tentar compreender a perfeição que se esconde por detrás do imperfeito. Para ele, a história é um enigma. O trabalho do filósofo consiste num esforço de resolução desse enigma. Aos Ombros de Gigantes reforça a nossa convicção de que toda a sua vida ficará para sempre como um exemplo desse esforço e dessa dedicação, desbravando terrenos complexos com a simplicidade que é apenas característica dos sábios.

UM POEMA DE LUIS GARCÍA MONTERO


AS LIÇÕES DA INTIMIDADE

Sei agora que estarás num poema, 
num poema meu,
o último, os versos da neve,
banhados ainda pela luz
que decifra as coisas deste mundo
e pela obscuridade calada dos remos,
para que tu caminhes sobre a água
até chegar ao centro da terra,
nua e decisiva,
atravessando o horizonte
tal como os corredores da casa.

São as lições da intimidade.

O azul mais ferido de setembro,
os castanheiros avermelhados,
a solidão doméstica das fotografias,
a pele dourada
dos aniversários,
o esplendor do céu, dos montes
ao cair da tarde,
dispostos a confessar,
com a mão no ombro
repetem-me
essa verdade de amor que só conhecem
os amantes que foram atraiçoados.

E a vida impõe-se
pela debilidade das suas palavras.
É o que nos ensinam as leis naturais.

Estrangeiro na própria intimidade,
não conhecem o meu nome
nem as margens da plenitude,
nem o cadáver do tempo escondido nas ondas.
Mas entendem a forma dos meus passos
na areia que cai,
se confundo o relógio com o deserto
ou vigio a casa tal como ao horizonte,
e na minha taça de dúvidas cabe o mundo,
e no valor encontro cobardia,
nos olhos a noite com a sua luz
e o coração da criança
numa alma de antigas corrupções.
Porque ali as paisagens são sonhos meditados
para que o horizonte
adormeça no corredor de uma casa.

A intimidade diz-nos que há amores estranhos,
estranhos como um rio sem cidade,
como alongadas noites em que se adivinha
que se torna impossível a traição
uma vez que aprendamos
a perdoar traições e verdades.


Luis García Montero nasceu em Granada no dia 4 de Dezembro de 1958. O poema acima transcrito, incluído no livro A Intimidade da Serpente (2003), foi copiado da antologia As Lições da Intimidade (Abysmo, Maio de 2018), com selecção, apresentação e tradução de Nuno Júdice. Além desse volume, foram contemplados nesta antologia os livros Tristia (1982), O Jardim Estrangeiro (1983), As Flores do Frio (1991), Quartos Separados (1994), Completamente Sexta-Feira (1998), Vista Cansada (2008), Um Inverno Próprio (Considerações) (2011), À Porta Fechada (2017). Sobre esta poesia, diz Nuno Júdice:

   Na sua poesia, Luis García Montero dedica-se a uma procura de olhar o mundo a partir de uma poética que se pretende exacta, utilizando uma captura do real que se pode descrever como fotográfica, no duplo aspecto de imagens tão nítidas como as do híper-realismo norte-americano, ou por vezes esfumadas, no sentido impressionista, quando as contaminam a dor subjectiva de um tempo que passa e o sentimento do prazer ou do desgosto da vida em todos os seus aspectos. O domínio pleno da escrita, natural em quem é igualmente um grande leitor e crítico de poesia, sustenta a precisão dessa forma que, desde o início da sua obra, se converteu em modelo e inspiração para novos poetas em Espanha, e noutros países e continentes, na base desse conceito poético de «poesia da experiência». É sem dúvida um registo marcante dessa década de oitenta, mas seria redutor confiná-lo a essa proposta inovadora das primeiras décadas da Espanha democrática. O que hoje podemos confirmar é o modo coerente como Luis García Montero, a partir desse registo marcado pela sua proximidade ao facto detonador do poema, prosseguiu uma reflexão sobre o jogo de antinomia entre a memória e o presente

As Lições da Intimidade é um exemplo entre muitos do interesse dos editores portugueses pela poesia publicada em Espanha, ao qual podemos juntar este ano Coração Desabitado (Averno, Maio), de Amalia Bautista, Privilégio de Penumbra (Abysmo, Junho), de Felipe Benítez Reyes, ou A Vida em Chamas (Língua Morta, Abril), de Luis Alberto de Cuenca.

MÁQUINAS DE LAVAR

A finalizar o ano desapaixonado de 2018, sugiro um post sobre máquinas de lavar louça: aqui.

domingo, 30 de dezembro de 2018

O CULTO DAS PEDRAS


Algures entre Alpalhão e a Barragem de Póvoa e Meadas, que é como quem diz entre Nisa e Castelo de Vide, a água corre em ribeiras cristalinas. Nas margens, avistam-se rebanhos de ovelhas e cabras e vacas em pastorícia. As ovelhas confundem-se com as pedras. Podíamos dizer das pedras que são rebanhos de ovelhas fossilizadas, podíamos dizer das ovelhas que são rebanhos de pedras animadas. Quer optemos por uma ou por outra das versões, sabemos quanto nenhum destes rebanhos se assemelha em matéria de poesia aos que quotidianamente pastoreamos no centro comercial. 


São inúmeras as antas e inúmeros os menires sinalizados nestas paragens. Estacionamos para contemplar o calhau. A Matilde diz que é só uma pedra como outra qualquer, a Beatriz refere cultos fálicos da fertilidade. Há ainda a questão da morte, associada aos dólmens. Fertilidade e morte têm formas diferentes. Por onde quer que peguemos no assunto, importa sublinhar que não são pedras como outras quaisquer. Pegamos numa ao acaso e questionamos: qual a diferença entre esta pedra e aquela? A verticalidade do calhau transpira humanidade, há qualquer coisa de humano naquelas pedras que não existe nas outras. Nas vulgares.



A mesma humanidade pode ser observada nas pedras que pisamos, nos azulejos com que adornamos paredes, na necessidade de embelezar e de premiar o embelezamento registando-o:


Já não visitava Castelo de Vide há muitos anos. Da última vez, nuns perdidos anos 90, as termas ainda funcionavam. Restam as fontes. Assim como os motivos religiosos, a perseguirem-nos o olhar para onde quer que olhemos. Algumas lojas da praça principal parecem conservar o mesmo aspecto de há cinquenta anos, uma octogenária diz-nos trabalhar ali há meio século. Na judiaria, a caminho do castelo, ou no burgo medieval, tudo adquire a consistência de um fragmento histórico.



No que se supõe ter sido uma sinagoga, um pequeno museu evoca a presença judaica com sentida dignidade. Conservam-se artefactos e nomes, ambos são resquício de passagem, marcas deixadas para o futuro como pedras. Não há qualquer diferença entre os nomes evocados e as pedras que mantêm viva a memória de um passado glorioso, defendido entre muralhas. 


Mistério insolúvel na mente desprovida: como foi possível chegarmos aqui? Pedra sobre pedra, corpo sobre corpo, palavra sobre palavra. Sobre o corpo, uma pedra. Sobre a pedra, uma palavra. E o que restará para colocar sobre a palavra? A ruína de um sopro?


A imagem não faz justiça ao belíssimo castelo de Marvão, mas é das primeiras que encontramos junto a uma casa com placa de poeta: João Apolinário. Ali morreu em 1988, depois do exílio no Brasil e da prisão e tortura em Peniche. Mais adiante, uma escultura de João Cutileiro evoca Ibn Maruán, fundador de Marvão no século IX. Sufistas, judeus, cristãos, terra de confluências é este nosso pequeno país. Desde o tempo das pedras. E essa é, mais do que qualquer outra, a nossa essência. Essência de sangue misturado, como na cisterna abobadada se misturam sons em vibração de terra água e ar. O fogo somos nós. Não sei o que mais me impressiona, se a terra a perder de vista, se o céu a perder-se na terra, se o vento estendido nas pedras como água num rosto.




Cá em baixo, o que sobra de Ammaia não deve envergonhar os romanos. Diziam-nos ingovernáveis, talvez tivessem razão. Mas deles perdura diariamente na nossa mente a palavra, e através da palavra os modos de pensar. É deles o sistema circulatório do pensamento português. E isto tudo misturado, esta coisa dita lusíada. Dois pormenores deliciosos do espólio romano:




O mais são ruínas entre pastagens, estruturas escavadas a pincel, vegetação, fauna local, romãzeiras secas, castanheiros desnudados, uma história para contar aos netos sobre ocupações, cultos perdidos, venerações ancestrais.


Não tenho nenhuma nostalgia dos impérios, julgo que tudo poder ser grandioso se aprender o pequeno lugar que ocupa no mundo. 


Gosto dos menires como aprecio as ruínas de um templo, mas em nada julgo inferior uma mulher dentro de uma árvore. Pedras que em algum momento, num qualquer lugar, tiveram o seu período de respiração. Outrora, agora.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

OS MELHORES


Compro os jornais por esta altura, curioso quanto a escolhas e balanços. Interessa-me sobretudo a música e o cinema, que aproveito para espreitar no ano seguinte em função dos filtros. Como não se pode ver tudo, confia-se que pelo menos nestes domínios exista alguma imparcialidade. O resto não me interessa, o panorama oferecido é estreito e confrangedor. Fosse o ano o que as listas revelam, estaríamos condenados à depressão. Pergunto-me se esta gente que escreve nos jornais sai de Lisboa, por exemplo, para ir ao teatro? Andarão pelo país a ver o que se faz? Duvido. Circunscritos às capelinhas lisboetas, estreitam as vistas e fazem um péssimo trabalho. Para o qual são pagos. Nos livros, a mesma cretinice de sempre. Obras de génio com direito a capa desaparecem surpreendentemente das escolhas finais. A poesia parece morar toda na mesma rua, os editores preferidos são os do costume. A variedade que existe, que é factual e saudável, fica cerceada pelo gosto subjectivo e pela capela preferida. Como toda esta gente frequenta a mesma, a oração enfadonha empobrece o cenário. Admirem-se, depois, que as livrarias fechem, os jornais acabem, o jornalismo pereça.

OUTRO POEMA DE EDGAR BAYLEY



O HOMEM MODERNO

o homem moderno disse:
tive vontade de morrer a 26 de Outubro
enquanto viajava de autocarro
às três da manhã
sei que há coisas mais importantes
na vida do mundo
na vida de milhões de homens
mas falo
conhecendo a causa
daquele que passa por ser um entre milhões
falo de um que a 26 de Outubro
tinha vontade de morrer
enquanto viajava de autocarro
às três da manhã
e nomeio o mundo inteiro
os milhões que a essa hora
morriam de verdade nasciam
esperavam
regressavam a suas casas
ou podiam morrer como estavam
se Pompeia (outra vez) o mundo inteiro
apagasse devido à guerra e à loucura
ou por uma informação equivocada.

Edgar Bayley, in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, p. 123. Versão de HMBF. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

UM POEMA DE EDGAR BAYLEY



É INFINITA ESTA RIQUEZA ABANDONADA

É infinita esta riqueza abandonada
esta mão não é a mão nem a pele da tua alegria
ao fundo das ruas encontras sempre outro céu
após o céu há sempre outra erva praias distintas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca julgues que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
após a marcha do teu amante há outra marcha
após o canto um novo toque se prolonga
e as madrugadas escondem abecedários inauditos ilhas remotas
sempre assim será
por vezes o sonho crê ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos para os corações de todos
de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros conhecem a palavra tu ignora-la
outros sabem esquecer os feitos desnecessários
e levantam o polegar esqueceram
tu hás-de regressar não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre o riso derradeiro a dor e os começos
encontrará o vento acre e as estrelas vencidas
uma máscara de bétula pressagia a visão
quiseste ver
no fundo do dia algumas vezes o conseguiste
o rio chega aos deuses
murmúrios distantes erguem-se à claridade do sol
ameaças
frio resplendor

nada esperas
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada


Edgar Bayley (n. Buenos Aires, Argentina, 1919 - idem, 1990), in Antología - La poesía del siglo XX en Argentina, Edición de Marta Ferrari, La Estafeta del Viento, Colección Visor de Poesía, dirigida por Luis García Montero y Jesús García Sánchez, 2010, pp. 121-122. Versão de HMBF. 

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

MOMENTOS FELIZES


Fotografia do Pedro Serpa.
Mais: aqui.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

BOM NATAL


Ando à procura de um livro de uma apresentadora de televisão, mas não o encontro.
Cristina Ferreira?
Não, esse já vi ali.
Judite Sousa?
Também não.
É estrangeira, Paula qualquer coisa.
Espere aí, deixe-me ver no telemóvel. (…) Ah, pois, Michelle Obama.

domingo, 23 de dezembro de 2018

INTRIGANTES

O Público escolheu aqueles que o intrigaram, entre os quais um tal de Conan Osiris a fazer capa. Não gosto da música que faz, nada me diz, tal como nada me dizem os livros de Raul Minh' Alma, Afonso Noite-Luar e afins. Mas como na música tudo parece valer, tomem lá do Conan. Também não aprecio o estilo, mas cito para memória este novo exemplo dos caminhos para o futuro: 

«Pessoas que vieram dizer cenas, pessoas que sentiram cenas por me conhecer.»
«Há quem vá achar que é uma cena bué silly, há quem vá achar que é uma cena bué deep.»
«Nada é e tudo é. Qualquer pessoa, com qualquer trabalho, é e não é.»
«Cada vez mais sinto que a ignorância é opcional.»
«Ya. Com a net consegue-se chegar lá.»
«Eu tenho bué planetas em Sagitário, bué planetas na Casa 5 [do mapa astral], e isso tem muito a ver com o humor.»
«Estou-me a cagar para essa merda.»
«O que não suporto é ver as pessoas a daçarem bué uma cena e isso ser uma piada.»
«Tudo é cultura.»
«Era bué bittersweet, e sempre foi, porque afinal de contas a vida é bué bittersweet.»
«O que é mesmo ser português? Demorou-me vinte e tal anos para perceber.» [segundo consegui apurar, o rapaz tem 29 anos]

E pronto, ainda há esperança. O futuro está garantido e bem entregue.

sábado, 22 de dezembro de 2018

FORTUNA CRÍTICA



Histórias, surpresas, absurdos tudo bem escrito.
Francisco José Viegas, no Correio da Manhã.

(…) ainda de férias, dou comigo a descobrir um autor, a lembrar outro e a admitir que cada vez mais admiro as qualidades autorais contidas em boas narrativas curtas. (…) E acabo de descobrir um português que capta muito bem o espírito do género, para além de nos cativar pela ironia e pelo domínio da linguagem.
Manuel Frias Martins, no Facebook.

São contos breves (ou brevíssimos), crónicas, reflexões, pequenos engenhos explosivos — entre ficção afiada e poema em prosa. Textos nómadas, mais ou menos selvagens, sempre a tender para a heterodoxia. Henrique M. B. Fialho olha para o mundo e espanta-se, ou indigna-se, ou contrapõe delírios ao caos do quotidiano.
Expresso, na secção Obrigatório.


Mais de cem histórias compiladas em pouco mais de trezentas páginas, num livro que tem tudo para ser portátil, atentos os seus 12,8 x 16,9 cm, em capa mole, para ser lido sem pressa e ser relido, comentado e partilhado, propenso a pensamentos nostálgicos e boas gargalhadas
Francisca Moura, na página Deus Me Livro.

Mais de cem pequenas narrativas compõem este volume delicioso. Livros como este são raros - têm a ver com a arte de narrar sem pirotecnia nem ornamentos excessivos. Histórias e enredos bem desenhados - uma medida perfeita.
Revista LER, na secção Livros do Trimestre.

Chama-se A Festa dos Caçadores, mas na verdade o mais recente livro de Henrique Manuel Bento Fialho é uma festa literária, pela forma como habilmente joga com a linguagem, com os géneros, com as personagens, com o absurdo da vida, com o quotidiano.
Inês Fonseca Santos, no programa Todas as Palavras.


Adenda: o pai do autor diz que é o livro do ano; a mãe do autor não leu, mas concorda; as irmãs do autor ponderam processar toda a imprensa que não se refira a esta obra-prima como, no mínimo, um dos melhores de 2018; os amigos do autor subscrevem a petição; mulher e filhas do autor só querem que o Natal passe depressa. Infelizmente, nenhuma destas pessoas exerce qualquer influência junto da intelligentsia nacional. A intelligentsia é tão intelligente que nem sai de casa para ver se chove.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

COLETES AMARELOS


Darei todo o meu apoio a qualquer manifestação que tenha como princípio fundamental a abolição tout court da época natalícia, multando todos quantos insistam nas iluminações noélicas e levando à prisão os fascistas das empresas que guardam as melhores promoções para esta altura. Pelo fim do Natal, visto o meu colete amarelo.

FILME DO ANO



terça-feira, 18 de dezembro de 2018

O PROBLEMA DA PERFEIÇÃO

   O problema da perfeição como completude obcecou o pensamento cristão quando este precisou de definir como ressurgiriam os corpos dos defuntos no dia do Juízo Final: íntegros como eram em vida, decerto, mas em que momento das suas vidas? Como eram aos vinte ou aos sessenta anos? No momento da morte, digamos: e se no momento da morte não tivessem um braço ou estivessem completamente calvos, ressuscitariam nesse estado?
   Na quaestio 80 do Supplementum, São Tomás pergunta-se se os intestinos ressuscitarão, que são certamente órgãos do corpo humano, mas que não poderiam ressurgir cheios de imundície e muito menos vazios, pois a natureza tem horror ao vácuo. E o braço de um ladrão justamente amputado, caso ele depois se penitencie e se salve, poderá ser recuperado mesmo não tendo cooperado para a salvação do arrependido? Também não poderia ser eliminado, pois essa falta puniria alguém que passou a ser beato. Tomás responde que, assim como a obra de arte não seria perfeita se lhe faltasse algo que a arte exige, também é preciso que o homem ressurja perfeito e, portanto, é necessário que todos os membros realmente existentes no corpo sejam reconstituídos na ressurreição.
   Portanto, os intestinos ressurgirão cheios, não de ignóbeis dejectos, mas de nobres humores. E, quanto ao ladrão, embora o membro amputado não tenha cooperado para que o homem conquistasse a glória merecida posteriormente, ele merece ser premiado com todas as suas partes.
   Mas ressurgirão os cabelos e as unhas? Diz-se que são produtos, como o suor, a urina e os outros excrementos, do alimento supérfluo e que certamente não ressurgirão com o corpo. Mas o Senhor disse: «Mas não se perderá um só cabelo da vossa cabeça.» Os cabelos e as unhas foram dados ao homem como ornamentos, Ora, o corpo humano, especialmente o dos eleitos, deve ressurgir em toda a sua beleza. Deve, portanto, ressurgir com cabelos e unhas.
   Contudo, pelo contrário, os genitais não ressurgirão, visto que no paraíso «nem eles se casarão, nem elas serão dadas em casamento», como não ressurgirá o esperma, que não serve à perfeição do indivíduo, como os cabelos, mas apenas à perfeição da espécie. Ou seja, no paraíso será possível fazer tranças, mas amor, não.


Umberto Eco, in Aos Ombros de Gigantes, tradução de Eliana Aguiar, Gradiva, Outubro de 2018, pp. 287-288.

QUANDO SE AFASTA A IDEIA DO EU




Do que vai à frente
e do que segue atrás,
do que dura e do que perece,
me desfaço,
liberto fico
do sopro forte,
do vento suave,
e quieto, apoiado nas mãos
com as costas dobradas até acima,
apoio no solo,
coração
renunciando armas, faltas,
orações com que debelar as faltas,
brando organismo, entidade
que ignora como dizer: «Eu sou»
e na doença e na morte,
nascimento e velhice,
já não encontrará lugar,
como não o encontraria o tigre
para meter as garras,
o rinoceronte o corno,
a espada seu gume.

Antes fazia, agora compreendo.

Alberto Girri, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,pp. 118.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

VIRAM ISTO?


Mais informações: aqui.

domingo, 16 de dezembro de 2018

EFEITO ESPECTÁCULO


Pessoas são pessoas são pessoas... A propósito do que se falou ontem sobre cultura, eis mais um exemplo dos efeitos da "sociedade de espectáculo" nos comportamentos humanos. Em suma, o espectáculo desumaniza. Há que entendê-lo de uma vez por todas. 

sábado, 15 de dezembro de 2018

“E isto em dizendo, fazendo” — o teatro enquanto espaço poético


(clique na imagem para ver melhor)




   Roubo a fala a Briobris, soldado da comédia “Os Estrangeiros”, de Sá de Miranda, datada do século XVI. Briobris é um dos pretendentes da bela Lucrécia, musa de um jurista rico, de um jovem e do soldado fanfarrão. Terminará com o jovem, descoberta a relação de parentesco com o jurista rico. Fica o soldado a falar sozinho, gabando-se de feitos improváveis. “E isto em dizendo, fazendo”. Interessa-me nesta fala a relação possível entre o dizer e o fazer. Briobris pretendia-se crível, pelo que procurava estabelecer uma relação directa entre o dizer e o fazer. Exige-se a um soldado que seja corajoso, logo exige-se-lhe que respeite a palavra a ponto de não temer colocar em xeque o próprio corpo. Era soldado, mas podia ser poeta. Na poesia o dizer coincide com o fazer, não há separação entre palavra e gesto, o que é dito fica feito, o realizado é o que se diz. E tal como o soldado, todos os poetas são fanfarrões.
   Poesia e teatro estão intimamente ligados através desta relação com a palavra. De resto, não é raro encontrarmos autores onde a palavra poética convive com a dramaturgia. Podemos recordar Harold Pinter, Nobel da Literatura em 2005 por nas suas peças “descobrir o precipício sob o murmúrio do quotidiano” (argumento da Academia, talvez inspirado na poesia que o dramaturgo britânico também escreveu). Bertolt Brecht, que toda a gente reconhece como um dos mais importantes dramaturgos de todos os tempos, foi igualmente um belíssimo poeta, tendo amiúde os seus versos o teatro como tema: «Por 3 000 Marcos por mês / Está pronto / A encenar a miséria das massas, / Por 100 Marcos por dia / Mostra ele / A injustiça do mundo» (O Comunista de Teatro). E não terá toda a obra de Beckett sido erigida num lugar onde as fronteiras entre poesia e teatro deixam de fazer sentido? Génios como Shakespeare ou Goethe ou Dante reforçam a nossa crença nessa aproximação.
   Não se julgue, porém, que é apenas por terem escrito poesia e teatro, teatro poético ou poesia dramática, que os mais diversos autores justificam a hipótese de uma relação íntima entre as duas artes. Os jogos de linguagem aproximam-nas, o exercício da palavra une-as, mas não só. Os poetas a quem Aristóteles se refere na “Poética” são tanto os autores da epopeia como os da tragédia. Ésquilo e Sófocles são poetas tal como Homero o foi, e o que os liga é a arte de imitar. “O poeta é imitador”, disse Aristóteles, como mais tarde dirá Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor”. Certamente não por acaso encontraremos no livro de Peter Brook “O Espaço Vazio” a afirmação de que, «Num certo sentido, o encenador é sempre um impostor». Sejam impostores, fingidores, imitadores ou simplesmente fanfarrões, poetas e encenadores lidam com a palavra num contexto metafórico, isto é, praticam as suas artes no domínio da representação, da expressão, da alusão, da sugestão, tendo sempre a palavra como matéria elementar.
   Podemos supor um teatro sem palavras, assim como uma poesia visual, uma poesia fonética, uma poesia onde a dimensão semântica da linguagem ceda a outras dimensões. A mímica não é menos teatral por se servir da linguagem gestual, como pôde concluir quem aqui assistiu este ano à peça “Dois Narizes num Mar de Plástico”. Em 1916, um grupo de jovens insurrectos, cansados da guerra, lançava as sementes daquilo a que hoje damos o nome algo pomposo de dadaísmo. A muitas das provocações dadaístas o público correspondeu atirando ovos podres sobre os intervenientes, causando o escândalo que era, assumamos, o fim último da intervenção Dada. Estavam cumpridos os objectivos. “Niilistas de salão” para Camus, mistificação grotesca para alguns, terroristas para outros, certo é que afirmaram o seu lugar na história fazendo o que prometiam: soirées onde misturavam recitação de poemas, declamação de manifestos, exposições, realizações cénicas. Fundindo vida e poesia, transformaram-se eles próprios naquilo que representavam. Os poemas lidos no Cabaret Voltaire tinham uma função pública, o significado de “Karawane”, de Hugo Ball, era tresmalhar as ovelhas do rebanho até que deixasse de haver rebanho.
   Antes de julgarmos o propósito de tais intervenções, devemos ter em conta a colheita proporcionada. O surrealismo foi um dos frutos. E com ele, sobrepondo-se a ele, o “Teatro da Crueldade” de Antonin Artaud. Em 1933, apresentou-se a público com a conferência “O Teatro e a Peste”. Anaïs Nin assistiu e descreveu no seu diário a sessão na Sorbonne. Sala apinhada, Artaud desvia-se do texto começando a interpretar o papel de um homem a morrer de peste, “representava uma agonia”, “esquecia a conferência, o teatro, as suas ideias, (…) o público”, berrava, delirava, representava a sua própria morte. Primeiro expectantes, as pessoas começaram a rir. Depois assobiaram. Por fim, abandonaram a sala em ruidoso protesto. Vaias que aparentemente não intimidaram Artaud, que no final da sessão confessou desconcertado a Anaïs Nin: «querem ouvir uma conferência objectiva sobre o teatro e a peste, ao passo que eu quero oferecer-lhes a própria experiência, a própria peste, para ficarem aterrorizados e acordarem. Quero acordá-los. Não compreendem que estão mortos» (Eu, Antonin Artaud).
   Acerca da poesia, no ensaio “Basta de Obras Primas”, o próprio Artaud reivindicava: «Temos de nos libertar desta superstição dos textos e da poesia escrita. A poesia escrita merece ser usada uma vez e devia destruir-se depois» (O Teatro e o Seu Duplo). Perante experiências tão radicais e violentas, faz sentido a questão colocada por Peter Brook: «O único problema dos choques violentos é o seu desgaste. O que se segue a um choque?»
   Os mais pessimistas dirão que a seguir a um choque vem a morte, os mais optimistas acreditarão no restabelecimento de todas as faculdades, numa recuperação seguida de renovação. Chegamos, assim, ao espaço vazio, à ideia de um lugar onde faça sentido a representação, onde o conflito dinamize o espírito criativo permitindo que a palavra se transforme em acto. A ideia de um teatro enquanto espaço poético não se coaduna com a imagem do teatro enquanto mera sala de acolhimento da poesia, espécie de centro de dia para artes à espera da capitulação. O teatro é, sempre foi, desde a sua origem até às experiências mais radicais, um lugar onde a poesia se fez, se faz, em confronto com o status quo.
   Se o cinema matou o teatro, como por vezes ouvimos, ou se a televisão deu cabo do cinema, como noutras ocasiões é dito, o que nos restará com um exterminador implacável em cena chamado Internet? Tento imaginar uma resposta observando as minhas filhas. A mais nova, com 12 anos, ocupa grande parte do seu tempo a editar vídeos no Instagram. A mais crescida, com 15 anos, passa horas a ver séries no Netflix. Também cantam, tocam instrumentos, pintam, lêem de vez em quando, mas a fatia mais generosa do tempo livre de que dispõem é distribuído por Instagram e Netflix. Têm centenas de livros em casa aguardando uma oportunidade que, espero, chegue mais tarde ou mais cedo. A questão é: como pode o livro chegar-lhes? Como pode o teatro cativá-las? O que deverá ou poderá ser feito para que elas desejem sair de casa, largar os computadores ou os telemóveis ou os 1001 canais de televisão ao dispor, com o intuito de assistir a uma peça de teatro? Enquanto pai, só tenho uma resposta para isto: é levá-las ao teatro. Mostrar-lhes que há mais mundo para lá do Instagram e do Netflix. É provável que no futuro sejam elas a lembrar-me: há muito que não vamos ao teatro. E se fôssemos?
   Durante o ano corrente realizámos aqui neste espaço um ciclo de poesia. Escolhemos um dia improvável, a terça-feira, para uma vez por mês oferecermos às pessoas a possibilidade de contactarem com a poesia. Queríamos saber quem são os poetas do nosso tempo, o que procuram, o que andam a fazer, como o fazem, por onde anda a palavra poética. Escutámos poetas, editores de poesia, partilhámos dúvidas, lemos em conjunto. Enquanto autor, confesso, eu pretendia saber algo mais. Queria saber como adeririam as pessoas a uma experiência destas. Por isso sugeri a terça-feira, por me parecer aquele dia em que apenas sairia de casa para ouvir poesia quem desejasse mesmo ouvi-la. E qual não foi o espanto ao constatar que de sessão para sessão mais gente chegava, novos rostos apareciam, a assistência aumentava, renovava-se e participava demonstrando interesse e gratidão.
   O André, estudante da ESAD, agora de regresso à Madeira Natal, quis dizer-me que era das melhores experiências que levava da passagem por Caldas da Rainha. A Margarida telefonou-me depois da sessão que dedicámos ao Rui Costa, só para manifestar quanto lhe foi grato poder-nos ver evocar um amigo desparecido sempre com um sorriso no rosto. Também nisto o teatro é um espaço poético, permite que emoções e sentimentos sejam partilhados em absoluta liberdade, sem constrangimentos. Se não for um Teatro do Aborrecimento Mortal, aquele em que o espaço cénico é vedado à poesia.
   As possibilidades da poesia no teatro são múltiplas, restando saber quais as possibilidades do teatro no teatro. Se, como pudemos constatar, o poema continua a acontecer nos espaços mais diferenciados, incluindo redes sociais, se as guerras entre poetas se mantêm vivas a despeito de disparates irrelevantes e querelas pueris, o que podemos esperar do teatro? Obrigo-me a ser cauteloso no optimismo, pois há muito venho declarando a morte da poesia — sem sucesso junto dos meus pares (que insistem em escrever e publicar poemas), mas com enorme sucesso junto de milhões de portugueses que talvez saibam que Camões escreveu “Os Lusíadas”, mas nunca leram um poema na vida e estão longe de imaginar quem terá sido Sá de Miranda.
   Na verdade, a proliferação de websites dedicados à poesia não garante um interesse alargado pela poesia. São raras as tiragens no nosso país que superam os 300 exemplares, inúmeros poemas são partilhados na rede todos os dias como quem partilha um mero adereço, cópias de cópias de cópias que não garantem vendas a quem publica. O Facebook talvez seja o Café Nicola dos Bocage de hoje, ainda que privado dos cheiros, ruídos, estímulos oferecidos por um espaço público onde da energia da discussão surdem actos criativos. Se os espectadores diminuem, se as funções do teatro se alteraram, se a sociedade de consumo e a infantilização das massas deu cabo do teatro, é seara em que não pretendo meter foice. Mas enquanto cidadão cabe-me questionar o que pretendemos em termos de cultura para a sociedade em que vivemos. Posso fazê-lo, devo fazê-lo, sob pena de acabar renegado como o soldado Briobris a gabar-me de feitos inconsequentes.
   Em que ponto estamos? O que pretendemos para a cultura numa sociedade democrática? Aqueles que querem entregar a produção cultural à sua sorte têm à mão vários indicadores sobre tendências de gosto e inclinações sociais. Artigo recente revela que o maior site pornográfico do mundo (Pornhub, caso estejam interessados) foi visitado por cerca de 90 milhões de pessoas todos os dias durante o ano de 2018, o que perfará no final do ano cerca de 33,5 mil milhões de visitas. O interesse do público só diminuiu com o casamento de Meghan Markle e príncipe Harry, registando também o site quebras durante as finais do Mundial de Futebol e da Liga dos Campeões. Em matéria de televisão, toda a ordem de reality shows e quejandos, tais como Love On Top, Secret Story, Big Brother, Casados à primeira vista, são de uma popularidade que leva a sentir saudades de telenovelas. Para uma certa elite empresarial, este é um mundo de sonho. Resta saber o que será para políticos eleitos por maiorias. Deveremos entregar a democracia à ditadura do consumidor? Deverá o show prosseguir sob o jugo do business?
   Não me passa pela cabeça julgar que um espectador de teatro não possa dar uma escapadinha pelo Pornhub, anhando alguns minutos frente a um ecrã onde a realidade é exibida sem filtros. E se já não tenho ilusões quanto à desproporção de popularidade entre uma Stormy Daniels e uma Isabelle Huppert, continuo a alimentar a crença de que a arte tem uma função a desempenhar socialmente. Em si mesma a sobrevivência da arte não é o problema, o problema é a sobrevivência de quem a faz. Para que possa ser um órgão vivo no corpo dinâmico da cultura, a arte carece de artistas empenhados, de poetas fingidores, de encenadores impostores, de dramaturgos imitadores, que desbravem o território selvagem da realidade abrindo caminho ao pensamento, ao espírito crítico, ao debate, à discussão, sem os quais nenhuma democracia sobrevive. A não ser que se pretenda de fachada.
   O combate à chamada sociedade de espectáculo, reinado autocrático da economia mercantilista, como queria Guy Debord, faz-se no domínio de uma resistência à estupidificação generalizadora e hipnotizante das massas que elegem quem nos governa. Se a democracia impõe o respeito pela vontade maioritária, precavendo os direitos das minorias que se lhe opõem, então é crucial o papel que teatro e poesia desempenham na promoção de lugares onde a palavra magoe, replique a brandura dos costumes, possa de facto combater os pequenos déspotas instalados e os grandes que se avizinham, despertando para o espanto e para o espírito crítico. Não há outro caminho para uma sociedade livre que não seja o de garantir que a liberdade prevaleça independente de tendências genéricas e de gostos momentâneos, uma “liberdade livre” de constrangimentos económicos e mercantilistas, solta dos grilhões do mero entretenimento. A produção artística livre não garante por si só a democracia, ma reforça-a. E contribui para que a cultura não se cristalize em estatuária e dias comemorativos, como uma relíquia.
  Termino com a evocação de um filme de cowboys, “McCabe & Mrs. Miller” (1971), de Robert Altman. Warren Beatty é McCabe, Julie Christie faz de Mrs Miller. É tudo lamacento, sujo e andrajoso nesse filme, tal como no Teatro Bruto teorizado por Peter Brook. McCabe e Mrs. Miller resolvem abrir um bordel na cidade, encarregando-se ele do jogo e ela do sexo. A certa altura, McCabe diz: «Tenho muita poesia dentro de mim. Só não a meto no papel. Sou suficientemente inteligente para não o fazer». Tão inteligente, que acabará por morrer de amor enfrentando os monopolistas da região. E isto em dizendo, fazendo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

O BUSÍLIS DA QUESTÃO

   Quando se trata de profetas, devemos separar o homem dos seus seguidores. Artaud nunca realizou o seu próprio teatro: talvez a força da sua visão resida no facto de ser a cenoura, à frente do nosso nariz, inalcançável. Ele próprio falava sempre de um modo de vida completo, de um teatro em que a actividade do actor e a do espectador fossem motivadas pela mesma necessidade desesperada. Aplicar Artaud é trair Artaud: traí-lo, porque só se explora uma parte do seu pensamento; traí-lo, porque é mais fácil aplicar regras ao trabalho de um conjunto de actores dedicados do que às vidas dos espectadores anónimos que entram por acaso pela porta do teatro.
   Ainda assim, da cativante expressão «Teatro da Crueldade» nasce uma busca tacteante de um teatro mais violento, menos racional, mais extremo, menos verbal, mais perigoso. Há um certo prazer nos choques violentos. O único problema dos choques violentos é o seu desgaste. O que se segue a um choque? Eis o busílis da questão.

Peter Brook, in O Espaço Vazio, trad. Rui Lopes, Orfeu Negro, 3.ª edição, Maio de 2016, p. 75.

O MUNDO DEPRIMENTE DAS MAIORIAS


As pessoas escolhem o mundo que têm. Isto é, as maiorias escolhem o mundo que temos. E o mundo das maiorias nunca me foi querido, sempre o julguei deprimente. Preferencialmente evitável.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

O PASCAL QUE EXISTE EM TI




Não se deixa estar
numa rede, mexendo-se
nesse supremo abandono que é
suprema atenção, invocação
à vertigem,
e mexendo-se
com a notícia de que Jesus
permanecerá na agonia
até ao fim do mundo,
e que entretanto
impõe-se que ninguém feche os olhos.

Ele prefere
— já que sua vigília disporá
de todo o tempo do mundo —
que a espera, prazo indicado,
não redunde em escalafrios
e resignação, passiva
qualificação da vida, a baixar e subir
através de orações e incertezas,
sendo antes actividade de minudências
elevadas a cumeeiras, mudando-se
por quartos e pátios, pela repetição,
rotina, concentrada e calmante,
de varrer, regar, cozinhar,
murmurar com passos arrastados
o próprio nome;
e prefere, enquanto projecto,
reclamar o que nunca conseguiu,
que o considerem
o louco da família, o extravagante
obcecado por portas
(espaço que os mortos
da casa atravessam,
acesso dos justos),
disseminando, sagaz,
suas chocantes conclusões:
as portas
não têm que ser tocadas, serão apenas
portas enquanto permanecerem fechadas,
caso contrário não repararemos nelas como portas,
não existirão portas, o abismo revelar-se-á
aguardando do outro lado do umbral.

Alberto Girri, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010,pp. 106-107.