terça-feira, 30 de abril de 2019
O FÉRTIL IMAGINÁRIO DOS R. R.
A minha mulher adora A Guerra dos Tronos. Ontem esforcei-me
para ver um episódio. O que vi? Um grupo de seres humanos a tentar sobreviver a
uma legião de mortos-vivos. Quase nada de diálogos, muita gritaria e sangue e
pancada. Foi a segunda vez que tentei ver um episódio de A Guerra dos Tronos. A
minha mulher gosta muito, mas não tem paciência para O Senhor dos Anéis. Entre
J. R. R Tolkien e George R. R. Martin eu continuo a preferir o primeiro.
PIADAS DE MAU GOSTO
O maior desafio que o humor nos coloca é o de percebermos até que ponto estamos disponíveis para aceitar o exercício livre da falta de bom gosto.
Não posso indignar-me com uma piada quando ela atinge os meus valores, julgando
que os outros não se devam indignar quando os seus valores são atingidos. Há
piadas que não têm piada alguma, mas são piadas. A agitação em torno de uma
sátira na Faculdade de Direito de Lisboa é bem ilustrativa de certa
incoerência, sobretudo se pensarmos nas reacções que mereceram o jogo de atirar
cocó à cara de um juiz, exibido por Ricardo Araújo Pereira no seu programa de
humor, várias piadas de Rui Sinel de Cordes, as sátiras a Maomé do Charlie
Hebdo, algumas caricaturas de António, etc, etc, etc. Se o princípio for o da inexistência de limites para o
humor, e eu defendo esse princípio até à última das consequências, então tenho
de conseguir aguentar quando julgo não haver piada alguma numa piada. Voltamos
ao mesmo: posso não achar piada alguma à sátira que alguns alunos da Faculdade
de Direito fizeram e tanto incómodo tem causado, ma isso não legitima minimamente um discurso de ódio a esse tipo de
humor. Muito menos quando generaliza a toda a faculdade o gesto isolado de um
grupo específico. Parece-me muito mais censurável esse discurso, pelo tipo de
raciocínio que o fundamenta, do que a piada em si. Que, bem vistas as coisas, é
só mais uma piada de mau gosto.
segunda-feira, 29 de abril de 2019
A FALAR SOZINHO
Como aquele que anda a falar
sozinho
na rua
tentando entender-se
a cidade é o seu hospício.
Como aquele que
confessa
sua angústia a outro
sendo esse outro
ele mesmo
a andar na rua
a cidade é o seu hospício.
Como aquele que sem o saber
caminha
entre as pessoas
gesticulando estranhamente
ao outro
que é ele mesmo
a cidade é o seu
hospício.
Como aquele que vai de um canto
ao outro
caminha e fala sozinho
a tentar entender-se
com o outro
que é ele mesmo
como esse
como esse
a cidade é o seu hospício.
Leónidas Lamborghini, versão de HMBF a partir do original
coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en
Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 243-244.
A ARTE AUTÊNTICA
Quando, após vários meses de treino com o arco, Herrigel confessa ao mestre a sua permanente dificuldade em executar o tiro, surge a seguinte resposta:
A arte autêntica - exclamou ele - é sem finalidade e sem intenção! Quanto mais teimar em querer aprender a soltar a seta para acertar com segurança no alvo, mais se afastará, tanto do primeiro como do segundo intento. O que se interpõe no seu caminho é a sua vontade demasiado activa.
(Herrigel, 1953: 38-39)
Citado Catarina Nunes de Almeida, in Migração Silenciosa - marcas do pensamento estético do extremo oriente na poesia portuguesa contemporânea, Edições Húmus, Dezembro de 2016, p. 50.
sábado, 27 de abril de 2019
OS PÁSSAROS PERDIDOS
Amo os pássaros perdidos
que retornam do além,
confundindo-se com um céu
que jamais poderei recuperar.
Retomam as memórias,
as jovens horas que ofereci,
e do mar chega um fantasma
feito de coisas que amei e perdi.
Foi tudo um sonho, um sonho que perdemos,
como perdemos os pássaros e o mar,
um sonho breve e antigo como o tempo
que os espelhos não podem espelhar.
Depois tentei perder-te em tantas outras
e todas e aqueloutra eram vós;
logrei por fim aceitar quando um adeus é adeus,
devorou-me a solidão e fomos dois.
Regressam os pássaros nocturnos
que voam cegos sobre o mar,
a noite inteira é um espelho
que me devolve a tua saudade.
Sou apenas um pássaro perdido
que retorna do além
confundindo-se com um céu
que jamais poderá recuperar.
Mario Trejo (n. 13 de Janeiro de 1926, Argentina – m. 14
de Maio de 2012, Buenos Aires, Argentina) , versão de HMBF a partir do original
coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en
Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 229-230. Desconhece-se
o local de nascimento, informação que o poeta fazia questão de desprezar. Foi jornalista,
argumentista, actor, letrista, participando em vários grupos reunidos em torno
de revistas tais como Poesía Buenos Aires (de Edgar Bayley e Raúl Gustavo
Aguirre), Contemporánea, Luz y sombra. Relacionou-se nos anos de 1950 com o
Grupo de Arte Concreto-Invención. A sua poesia surge caracterizada como detentora
de uma ironia que questiona as convenções sociais e políticas, comprometida com
diversas causas sem se tornar panfletária. Pájaros Perdidos foi musicado por
Astor Piazzolla.
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Volta ao mundo em poesia
sexta-feira, 26 de abril de 2019
APRENDIZ
Uma nota no
final de Aprendiz (Volta d’Mar, Fevereiro de 2019) dá conta dos lugares e do
período de incubação dos poemas, assim como de um processo criativo que de
algum modo estabelece contacto com as obras de outros autores. Os títulos terão
sido pedidos de empréstimo, embora não fique claro o tipo de relação
estabelecida entre esses títulos e o conteúdo dos poemas. Claro é que na poesia de
manuel a. domingos (n. 1977) encontramos desde sempre uma economia verbal que tanto evita o artifício como aposta num
esvaziamento a tender para espaços silenciosos, o que a aproximaria de certa
poesia oriental, pelo menos na forma, não fossem outras as premissas culturais segundo
as quais se rege.
O sujeito
poético e o outro cruzam-se nestes poemas, por vezes confundem-se sem se
anular. Dedicado ao pai falecido, Aprendiz deixa-se ainda tocar pelo tema da
morte com uma impressionante capacidade de síntese emotiva:
A MORTE
A morte não é uma flor —
é o meu pai nos Cuidados Paliativos
Eu a fazer-lhe a barba
pela última vez
E no final: o seu sorriso
Por aqui se afere
a capacidade revelada de resumir uma perspectiva acerca de um tema desde sempre
central. Como noutros poemas, o tema surge subentendido numa acção, num gesto
revelador da essência daquilo que se procura compreender.
Podemos ainda apontar
uma tendência aforística cirurgicamente trabalhada através do recurso a poucas
mas centrais palavras, as bastantes para que o tema se esclareça, a paisagem se
descreva, a observação se consubstancie. O gato é a
personagem mais recorrente em poemas cuja paisagem se revela essencialmente
urbana, sendo possível vislumbrar na sua presença uma espécie de resquício
natural em contexto adverso à Natureza. Mas o gato é também companhia e,
enquanto tal, manifestação de uma certa solidão, de um certo isolamento, ou
recolhimento, que o sujeito faz transparecer por interposta figura.
Há igualmente
uma face lúdica nestes apontamentos que não pode ser descurada:
SONETO CONTRA AS PESPORRÊNCIAS
A cada poeta
o lugar-comum
que merece:
uma veia aberta
pelo sopro
uma aresta de luz
rente ao nervo
ou até Deus
e a sua infinita
misericórdia
O meu é esta mesa
onde todos os dias
bebo o mesmo café
de sempre
Entre as
diversas cenas quotidianas sobressaem, por vezes, erupções emotivas que apontam
para o cansaço, para a melancolia, para uma certa desilusão. Talvez exista
nesta via uma busca da simplicidade, do desapego, uma atitude poética que tenta
organizar em breves e depurados retratos a experiência directa dos dias na
cidade. A característica fundamental é a recusa da figura do poeta enquanto mestre,
ele coloca-se no lugar do aprendiz que observa e da observação tentar obter uma
certa forma de conhecimento. Num outro livro do autor, intitulado Teorias
(2011), já tínhamos percebido a sua desconfiança perante as grandes elaborações de um
discurso filosófico meramente racional, desligado da experiência, mas sobretudo a desconfiança de uma poesia eloquente e exageradamente verborreica. manuel a. domigos escreve
contra o excesso, escreve a favor de uma humilíssima consciência do lugar que
todos nós ocupamos no mundo, escreve a favor de uma aprendizagem continuada da vida, sem qualquer necessidade de impor lições ou de estabelecer uma qualquer axiomática do saber poético.
quinta-feira, 25 de abril de 2019
UM FILME... A PROPÓSITO DO DIA MUNDIAL DO LIVRO
A escritora norte-americana Helene Hanff (1916-1997) ficou
conhecida como autora do livro 84, Charing Cross Road (1970), adaptado para
cinema por David (Hugh) Jones (1934-2008) em 1987. Os dicionários
classificam-no como realizador de culto, embora nunca tenha obtido grande
sucesso. Com uma carreira essencialmente garantida por trabalhos para
televisão, chegou a filmar para cinema com actores de renome tais como Jeremy
Irons e Ben Kingsley (Anatomia de uma Traição), Robert de Niro e Ed Harris
(Jacknife). É dele uma adaptação de O Processo, romance de Franz Kafka, com
Anthony Hopkins no papel principal e argumento do Nobel da Literatura Harold
Pinter. Quem também nunca granjeou grande popularidade foi Helene Hanff, autora
de várias peças que nunca chegaram a ser encenadas. 84, Charing Cross Road/A
Rua do Adeus (1987) baseia-se no romance epistolar com o mesmo título. É um
belo filme, com Hopkins no papel de livreiro em Londres e Anne Bancroft a fazer
de Helene Hanff. Judi Dench interpreta o papel de mulher do livreiro. A
história, ao que parece verídica, coloca em cena uma espécie de amor platónico
entre um livreiro e uma cliente, separados por um oceano. Ele trabalha numa livraria
em Londres especializada em livros antigos e raridades, ela vive em Nova Iorque
e encomenda-lhe livros. Nunca se chegam a conhecer, mas geram entre si uma
relação que transcende meros interesses comerciais. Admiram-se, vivem na expectativa
de virem a conhecer-se, trocam confidências nas cartas que anunciam encomendas
e despachos. O filme é um belíssimo exercício cinematográfico, pelo desafio que
é fazer contracenar duas personagens que nunca estão na presença uma da outra. Anthony
Hopkins, igual a si mesmo, é sempre um senhor. Anne Bancroft, mais agitada,
fala para a câmara, teatraliza, garante ritmo à acção. Elogio da palavra
escrita, 84, Charing Cross Road provoca-nos a nostalgia de um tempo que
acabou. As cartas foram substituídas pelas sms, e com isso perdeu-se o que a espera oferecia: ansiedade, expectativa, pensamento. Entre o
envio de uma missiva e a chegada da resposta havia um período que permitia
pensar, um tempo de espera que desapareceu. Esta aceleração da comunicação
tem o efeito óbvio de nos retirar o tapete da reflexão. À época, o filme ainda
não teria em perspectiva tais temas. Mas (re)vê-lo provocará
inevitavelmente tais impressões, até por estarmos a falar de uma livraria
como elas já não existem, espaços onde os livros eram tratados e pensados para
lá do seu valor meramente comercial. Hoje, substituam os livros por sabonetes
num qualquer espaço livreiro dos mais comuns e obterão o mesmíssimo resultado. Esta
possibilidade de uma relação afectiva separada por um oceano de distância,
assente no amor aos livros e a tudo quanto nos oferecem, tornou-se miragem.
quarta-feira, 24 de abril de 2019
CRISTOVAM PAVIA
Alguém no fundo
da sala me questiona acerca de Deus, respondo sem pedras na mão que é para mim
assunto encerrado. Ainda mal refeito da morte, já Deus dançava com os meus maiores inimigos. Tenho pelos zeladores o asco que me causam
tortura, evangelização, vias-sacras. Veio ele ao mundo para isto? Fez-se homem
para isto? Antes os homens de carne e osso, com seus pecados mortais espalhados
pelo corpo como vírus. Antes uma ilha de pássaros em chamas, antes um enxame de
ilhas esvoaçantes, antes o delírio das cabeças que cantam com agrura.
Alguém no fundo
da sala me questiona, respondo de braços abertos: vem, senta-te a meu lado,
tenho carvão com que poderemos traçar paralelas em folhas infinitas. Juntos
suportaremos melhor o frio. Deus vive nas coisas perecíveis, não tem frio. Mas nós
temos, por isso enchemos as paredes de figuras, por isso adornamos as casas com
figuras, por isso alimentamos os filhos e as criaturas. Como ele caminharemos
sobre as águas equilibrando o corpo na volta das ondas, de mão dada, juntos,
próximos um do outro bastaremos à aventura de estar vivo.
Alguém no fundo
da sala, respondo: o canto estende-se no ar tal o corpo na relva, o canto
espreguiça-se e suspira, o canto é um lençol que se desfaz na atmosfera, escuta
o canto em cada partícula de silêncio, escuta-o explosivo a enunciar quanto
de nós há na voz, quanto de vós há em nós, o canto pode ser lamento,
anunciação, exaltação, o canto saúda o sol e todas as coisas da Terra, vindas
da Terra para acima da Terra perdurarem como sombras de pássaros, o canto é
esta comunhão sentada ao lado do vazio, convido-te a escutar o canto oferecido
sem retorno, apenas uma nota vibrando no interior do sangue, escuta-o,
desenha-o, observa-o, o canto tem a mais nítida cor que um som pode ter.
Alguém no fundo:
Alguém no fundo de nós
por nós responde em silêncio,
vozes que cantam
por
dentro do sangue,
rasgada a carne, é Deus
quem se espalha pela Terra.
E eu
respondo “questão resolvida”
imitando pedra que raspada
contra pedra ateia a chama.
Nota: pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores
Bugalho, Cristovam Pavia foi assaltado desde cedo por vários tormentos
psíquicos. Faleceu no dia 13 de Outubro de 1968 sob o rodado de um comboio.
ÚLTIMAS REGRAS
Só quem ande
distraído poderá surpreender-se com a incursão de Inês Lourenço (n. 1942) no
terreno da prosa. Encontramos três textos de sua autoria na Primeira Antologia
de Micro-Ficção Portuguesa (Exodus, Fevereiro de 2008), dois dos quais reaparecem,
com pequenas alterações, nestas Últimas Regras (Companhia das Ilhas, Abril de
2019). Um deles chegou a oferecer título à colectânea Ephemeras (Companhia das
Ilhas, 2012), na qual alguns dos textos agora reeditados tinham sido
anteriormente publicados. Tratando-se de uma relevante poeta portuguesa, Inês
Lourenço não larga mão da poesia nos seus textos em prosa. Alguns aproximam-se
daquele género que Charles Baudelaire classificou de “petits poemes en prose”, sendo
isso evidente, por exemplo, nos textos intitulados A seda da sombra e Lúbricos.
A diferença destes para outros reside no desvio da narratividade para uma acção
em que a interacção entre personagens dilui-se na sublimação de gestos—
«deslizar os dedos na pelagem morna de um bicho amável» (p. 25) —
ou na caracterização de determinados objectos — «o erotismo telúrico dos
frutos» (p. 26) —, abrindo possibilidades de interpretação com uma
linguagem mais exposta ao registo metafórico.
Há também textos
atravessados por uma coluna vertebral aforística, reflexões curtas e
acutilantes sobre temas diversos: da relevância das ditas ciências humanas (num
mundo cativo das ciências ditas exactas) à morte, passando pelo amor, pela
doença, a velhice, o suicídio, o erotismo. Mas o mais interessante talvez seja
sublinhar como nestas histórias se retrata a passagem do tempo, recorrendo a
memórias domésticas ou ironizando costumes sociais, lembrando os jogos da
infância, desmontando com humor, ironia e iconoclastia quanto baste, os hábitos
de uma sociedade arreigada a tradições caídas em desuso. Por vezes, o cinema
estimula o jogo de comparações, oferece o cenário, noutras ocasiões é a música
ou a literatura quem sustenta o palco onde se desconstroem mitologias. Estes
diálogos com as outras artes não esgotam, porém, o verdadeiro interesse destas
narrativas, já que deles logo saltamos para vidas e situações concretas.
Temos a
bibliófila Serafina, o bombeiro Orfeu, misturados com a rapariga ardina, a
adepta do F.C.P. ou alguém que inspira uma curiosíssima Biografia Apócrifa:
«Disse que estava farta de fazer de senhora bem comportada e sentia o desejo
obsessivo de que o seu interior verdadeiro tivesse uma descrição, não numa
dessas coisas que saem como brochuras grátis nos semanários e a que chamam
biografias edificantes, mas que parece não passavam de histórias muito
exemplares e falsas como o pechisbeque» (pp. 23-24). Nota-se uma especial
predilecção por personagens femininas, o que permite a Inês Lourenço questionar
o lugar da mulher na sociedade e nos diferentes contextos sociais. De resto, o
próprio título do livro remete para uma condição especificamente feminina. No
conto com o título Primeiras Regras glosa-se a primeira menstruação, enquanto
nas Últimas Regras o tema é a última menstruação. Entre um e outro, o próprio
corpo —
«Corpo humano, corpo divino» (p. 53) — é quadro onde a passagem do tempo se
evidencia a partir de uma experiência transformante.
É nesta relação
com o corpo que melhor se coloca o problema da passagem do tempo: «Por que
seria seu aquele corpo em que os anos já se amontoavam?» (p. 30). A questão
surge no texto intitulado Simetrias. Num outro, com o título Auge, o problema aparece
desta forma: «Lembrava-se do corpo da juventude só necessitando de água, sol e
ar» (p. 53). Mas também temos as cartas de amor substituídas pelas sms, temos
os álbuns de fotografias substituídos por arquivos digitais. Uma leitura
precipitada tenderá a falar de nostalgia, mas talvez seja mais correcto apontar
uma crítica do senso comum: «O senso comum glorifica a juventude, a voracidade
relampejante, o inteiro ardor. Ignoram que é próximo do fim da caminhada, num
lugar até aí inexpugnável, que estão as respostas aos enigmas» (p. 54). O enigma
da existência, plasmado na consumação do tempo, é o que melhor convém às
Últimas Regras. Estas histórias abrem-nos caminho para o pensamento,
alertam-nos para o que se oculta por detrás da voragem insensível de um mundo
acelerado por obrigações, deveres, ambições. A brevidade dos retratos apenas acentua
a urgência do diagnóstico, tornando claro, por vezes com requintado humor e uma
ironia astuta, outras vezes com impetuoso sentido crítico, que a vida é sempre
mais o quanto se vai perdendo do que aquilo que se conquista.
terça-feira, 23 de abril de 2019
100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #15
Os detractores
falarão de licenciosidade, censurando a gargalhada erótica com que brindou a
literatura. Pierre Louÿs (n. 1870 – m. 1925) foi um daqueles franceses como
sabeis terem existido muitos. À semelhança de Jesus Cristo, preferia a
companhia das putas e dos marginais. A sífilis cegou-o e abriu-lhe as portas da
morte. Mas tinha bom sangue, com barões e duquesas na árvore genealógica. Nos
maus vícios esbanjou fortuna e saúde, terminando só e cheio de dívidas.
Impressionante, porém, o legado literário que deixou. Se tiverdes curiosidade,
desbravai os campos do preconceito e ide ao encontro sem receios. Os livros,
até ver, não transmitem doenças, tenhamos nós espírito para com
eles aprendermos a questionar tudo quanto existe.
Deste Manual de
Civilidade Para Meninas destinado às escolas podeis encontrar duas versões cá
em casa. Uma, no formato de folheto, publicada na colecção contramargem da
& etc em Outubro de 1980. Que eu tenha dado por isso, não faz referência ao
tradutor. Custava 70$00 à data de publicação. A outra, num formato mais requintado,
com ilustrações de Pedro Proença e tradução de Júlio Henriques, foi publicada
pela Fenda em 1988. Tenho a 3.ª edição, já de 2005. Custou-me 11,70 € numa
FNAC.
Publicado postumamente em 1926, dirigia-se às
meninas com o propósito claro de abater o puritanismo e libertar a mulher de opressões
sociais, morais, religiosas, em matéria de sexo. O tom jocoso e grotesco, mais
do que apelar a um hedonismo à maneira dos gregos, desafia a imaginação. Vós,
que sois raparigas e saudáveis, podeis melhor do que eu averiguar quanto de
fantasioso ou naturalista há nestas máximas e nestes conselhos. A mim cabe-me
preparar-vos para a complexidade do corpo e dos seus desejos, mostrando-vos os
caminhos múltiplos e as diversas possibilidades de exaltação.
Júlio Henriques apresenta-o como «hilariante caricatura dos livros de moral para crianças». Dos deveres para
com distintas entidades (pai, mãe, irmão, irmã, Deus…) a advertências protocolares,
percorrendo as práticas mais diversas nos contextos mais díspares (copa, casa,
quarto, mesa, recreio, aulas, igreja…), Pierre Louÿs não se imiscui de sugerir sugestionando. A gastronomia presta-se a todo o tipo de alusões,
estejamos a falar de espargos, bananas ou morangos. O mais é gramática:
Entre os
principais verbos da segunda conjugação não deves incluir foder (eu fodo, eu
fodia, eu foderei, que eu fodesse, fodendo, fodido). Conjugá-lo é interessante
mas, revelando que o sabes, arriscas-te mais facilmente a uma reprimenda do que
se o ignorares.
Ou boa tradução:
Nos exercícios de
inglês do primeiro ano, às vezes aparecem frases simplórias: «Eu tenho uma
linda ratinha. Nós temos grandes grelos. Ele ou ela gosta de linguado. A minha
irmã tem uns bonitos marmelos. O meu irmão cuida dos tomates. A minha mãe está
a esfolar um cabrito. O meu padrinho gosta muito do broche da minha tia. Quando
o meu pai monta, rebenta sempre o freio. A minha prima está a comer um
jesuíta.» Se tal acontecer, não deves retroverter à letra: «I have a pretty
little cunt. We have big
clitos. He or she likes to be tongued, etc.»
Dito isto, sabei
que por detrás da graça se esconde a mais desafiante das lutas: oferecer ao
corpo os prazeres que ele merece, libertando-o das amarras de uma mente
moralista e moralizante. Reparai, minhas filhas, quão difícil é a tarefa que
vos espera, mais ainda neste tempo em que tudo anda para trás.
Os pequenos ditadores da moral e dos bons costumes sussurram-nos ao ouvido
permanentemente, pretendendo-nos submissos e infelizes na paz do Senhor. Ao
contrário do grande Ideal antigo, que fazia do corpo uma prisão da alma, podeis
nesta obra constatar que prisão maior e mais indelével é a alma para o corpo
quando impõe sem questionar, quando força e obriga sem deixar espaço para a
imaginação, quando censura sem permitir experimentar.
domingo, 21 de abril de 2019
EXÍLIO EM SELFIES
Suicídio é ter nascido no Brasil, vivido a abertura
política e a redemocratização, acreditado em alguma espécie de futuro (crença
fatal a qualquer jovem com alguma saúde mental) e agora encontrar o passado.
Não vou sair, é certo, porque sei que não há saída, e aqui é a luta. Entendo os
que precisaram ou escolheram sair. Mas acho desrespeitoso que, tendo condições
para tal, fiquem mandando selfies de sua nova vida no exterior.
Mariana, aqui.
IGREJAS E HOTÉIS
Agora foi no Sri Lanka. Morto sobre morto, a dúvida
persiste: o que ganham os terroristas com o terror? Alguém se lembra de alguma
vez um terrorista ter ganho o que quer que fosse com o terror? Não falo de
terrorismo fiscal, laboral, económico. Falo disto de andar por aí a espalhar bombas
que apenas atingem gente que passeia. Quanto ao mais, é mundo novo:
O Governo cingalês decretou um recolher obrigatório
imediato: das 18h locais às 6h de segunda-feira. Outra das medidas de segurança
implementadas foi o corte no acesso às principais redes sociais e serviços de
troca de mensagens, como o Facebook e o Whatsapp, para evitar a difusão de
informação errada ou falsa. (Público)
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Arquivo de Factos,
Elos,
Imaginação de Van Zeller
sábado, 20 de abril de 2019
UM POEMA DE MARIO TREJO
A PROPÓSITO DA PALAVRA DEUS
Dizê-la
Nomeá-la
Rogá-la
Temê-la
Observá-la
Tocá-la
Negá-la
Gritá-la
Creio em todo este caos
Creio em toda esta loucura
Crimes e torturas
Que um dia terminarão
Creio em tanta injustiça
E na lei da selva
Viver é uma guerra
Que um dia terminará
Creio sem dúvida
Que no meio do incêndio
Quando tudo está a arder
Algo existe
Beleza dos loucos
Crepúsculo em chamas
Infância destroçada
Algo existe
Labirintos intrincados
Espelhos sem saída
Amor enceguecido
Algo existe
Roleta de esperanças
Memórias como flechas
Domingo interminável
Algo existe
Beijar pela primeira vez
Lutar contra o esquecimento
Reencontros inúteis
Algo existe
Balas na boca
Negro sol de tristeza
Escolher o esquecimento
Algo existe
Loucura do planeta
Razão do universo
Que ignora o bem e o mal
Tambores que à noite
Repetem a palavra
Obsessiva como o mar
Saber que não há resposta
E contudo dizer
Algo existe Algo existe
Mario Trejo (n. 1926 – m. 2012), versão de HMBF a partir
do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo
XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por
Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp.
219-221.
sexta-feira, 19 de abril de 2019
A MULHER QUE CORREU ATRÁS DO VENTO
A participação
num clube de leitura levou-me a entrar na obra de João Tordo (n. 1975) através
deste A mulher que correu atrás do vento (Companhia das Letras, Março de 2019),
romance com uma estrutura ambiciosa que o autor desenvolve com segurança, apesar
de incoerências menores, mas que nos deixa no final com sentimentos ambivalentes
quanto ao estilo, linguagem, desenvolvimento de algumas personagens. Antes de
mais, convém ter presente a ideia de um romance sobre mulheres. As personagens
que importam são todas femininas, os homens surgem como adereços nos dramas,
nas angústias, nas experiências de vida das mulheres aqui retratadas. Mas é um
romance que se pretende sobre mulheres escrito por um homem, o que levanta
desde logo problemas quanto à real percepção de uma sensibilidade feminina. A
pergunta é: tivessem as personagens femininas nomes de homens, qual seria a
diferença? Julgo que nenhuma. Nada há nestas personagens que realmente as
defina enquanto mulheres, podendo demarcar-se nos seus comportamentos, gestos,
atitudes, pensamentos. São mulheres, podiam ser homens. São personagens.
O logro
agrava-se com a tendência algo frustrante nos escritores da minha geração que
vou lendo para personagens sempre muito cultas, interessadas por literatura,
música erudita, pintura. O problema talvez seja meu, saturado que ando de
livros sobre escritores. Assim, temos a estudante de literatura que anda a traduzir
Joyce. Ainda por cima Joyce, o mais exigente dos autores. E temos a professora
de piano que no séc. XIX deixa de herança uma composição magnífica. Ora tomem
lá com o Mozart e o Satie e o Gesualdo e o Wagner e o Beethoven e o Dvořák
e o Grieg e o Tchaikovsky e o Bruckner e o Mendelssohn e o Bach e tantos mais… E
quando julgávamos ter algo diferente, uma sem-abrigo, descobrimos que afinal a
rapariga estudou muitas coisas, desde os clássicos do realismo russo a
Belas-Artes, tem um incomparável talento para o desenho, passou pela dança e
pelo budismo e leu O Peregrino, de John Bunyan, e conhece O Retrato de Alice
Guérin, de Helleu. Uma canseira. Não bastando, a miúda é filha de uma
famosíssima actriz, como ela ninguém fez Tchekhov, Beckett, Miller…
Como é óbvio,
todas estas personagens vão de algum modo ligar-se em determinada altura. Só no
último capítulo a trama fica totalmente desvendada, ou nem por isso. O mérito
está no ritmo narrativo, na capacidade de prender o leitor até ao fim, na
técnica, até na forma como ludibria, joga, simula, subverte, está na história
dentro da história, no romance dentro do romance, está na capacidade de ligar
as personagens através de uma marca comum que as equilibra na complexa teia
montada: «A palavra surgiu-lhe com força inusitada. Conseguia vê-la na
escuridão da mente: abandono» (p. 412). O abandono é o que liga estas mulheres,
emergindo das suas relações com a força dos grandes temas. Uma abandonada pelo
amante, outra abandonada pela mãe, outras que abandonam quem amam ou por quem
amam são abandonadas. Do abandono geram-se mazelas insanáveis, perturbadoras
depressões. Obviamente teremos suicídios, e até uma espécie de crime edipiano, mas
tudo num jogo de simulações que faz deste um romance sobre a própria arte do
romance, sobre a natureza da ficção, sobre o artista como um mentiroso, um
enganador, um fingidor.
João Tordo leva 456 páginas a dizer-nos o que Fernando
Pessoa resumiu em três quadras no poema Autopsicografia. Não tem mal, é essa a
arte do narrador. A do poeta é sintetizar. O pior é o estilo, a obsessão com os
cheiros. Por exemplo: «Não cheirava a água-de-colónia; cheirava, nesse dia, a
uma mistura de suor e de sono» (p. 36), «Cheirava — a quê? A cânfora, a lareira…
Cheirava a lágrimas e a sal quando a abraçava» (p. 48), «Cheirava a limão e a
outro aroma impossível de identificar. O sexo dela sabia ao mesmo que a boca, um
travo almiscarado» (p. 170). Enfim, o que não falta são cheiros e odores e
aromas e travos. E um escritor impotente a falar com o próprio pénis: «Cabrão,
pensa. Podias funcionar de vez em quando» (p. 169). Talvez tudo isto pudesse
ser mais burilado, trabalhado, cortado. Há cenas que estão claramente a mais,
não servem para nada, capítulos esticados à exaustão que nada perderiam sendo
reduzidos a metade. Mas há também a história de Lisbeth, a tal professora de
piano, a história dentro da história, contada como uma peça de teatro,
adaptação de um famoso romance do tal escritor impotente, e bem ilustrada no
segundo capítulo, sobretudo na cena do funeral em que Lisbeth solta um grito contra
a hipocrisia social envolvente. Lisbeth, por si só, garantiria o livro. Lisbeth
e o aluno autista, um prodígio.
quarta-feira, 17 de abril de 2019
APONTAMENTOS PARA UMA CRÍTICA DA RAZÃO POÉTICA
Digamos, por exemplo:
de um dado ponto fora da lua
apenas e tão-somente uma perpendicular
poderá delinear a dita lua.
Ou também:
chama-se barroco a todo aquele
para quem a distância menor
entre dois pontos
é a curva.
Proposição:
passar de uma poética da moral
à moral poética.
Exemplo:
de dois perigos deve precaver-se o homem novo:
da direita quando é destra
da esquerda quando é sinistra.
Em resumo:
mais vale ser cabeça de leão do que cauda de rato.
O melhor modo de esperar é ir ao encontro.
Mario Trejo (n. 1926 – m. 2012), versão de HMBF a partir
do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo
XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por
Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 224.
terça-feira, 16 de abril de 2019
domingo, 14 de abril de 2019
BIBI ANDERSSON (1935-2019)
Actriz de relevo em vários filmes de Ingmar Bergman, os melhores: O Sétimo Selo (1957), Morangos Silvestres (1957), A Máscara (1966).
sexta-feira, 12 de abril de 2019
UMA IMAGEM PARA O DIA
Às vezes invejo o carácter definitivo da morte. A certeza. E tenho de afastar esses pensamentos, quando me sinto fraca. Nunca nos habituaremos aos caminhos árduos do Senhor, Joseph.
CARIDADE ROMANA
São inúmeras e bastante desiguais as representações da
caridade ao longo dos tempos. Encontramos uma das mais controversas em Sete
Obras de Misericórdia (1607), de Caravaggio. Diz-se que era violento e
grosseiro, que escolhia os modelos entre gente comum. Não perderemos nada em
mantê-lo por perto. O quadro em causa envia-nos para o mito da caritas romana,
com a figura feminina de Pero a amamentar Cimon, seu pai, enquanto ele aguarda pela
morte na clausura. Incesto e altruísmo misturam-se nesta história, a qual se
conta às criancinhas enquanto exemplo de piedade. José Emílio-Nelson (n. 1948),
que há muito mantém uma relação de proximidade com a pintura na sua poesia, não
recupera exactamente esta história em Caridade Romana (Abysmo, Novembro de
2018), mas de algum modo a reconfigura no que ela possa conter de extremamente
lascivo: uma filha a amamentar o pai.
Este pequeno livro é todo ele excessivo e voluntariosamente
blasfemo, quer na forma de abordagem do ágape místico, quer na associação que
dele faz ao sadismo e ao masoquismo. A evocação de Marguerite Porete (1250-1310)
no prólogo, mística francesa condenada à fogueira, autora de O Espelho das
Almas Simples, considerada pelo Tribunal da Inquisição como “herética recidiva,
relapsa e impenitente”, dá conta do recado: esta é mais uma obra do diabo.
Escrito como se de uma peça teatral se tratasse, desafiando todas as normas da
construção dramática, intercalando múltiplas vozes com enigmáticas e labirínticas
didascálicas, Caridade Romana coloca em cena modelos requisitados nas obras do
Marquês de Sade, nomeadamente na Histoire de Juliette, ou Les prospérités du
vice (1801), retomando a hipótese do vício como caminho para a santidade.
Lembremos que a Justine, irmã de Juliette, mais não coube
do que uma desesperada existência de abusos por tão recta e virtuosa procurar
ser. A Besta e o Velhorro El Señor que se confrontam ao longo da parada marcam
o ritmo de uma interpelação repleta de cenas pornográficas, onde não faltam
actos necrófilos e coprofágicos, festim de bestialidade espiado pelos flashes
de uma Leica fetichista. «Julie, estremecida, celebra Sade», celebra-o e
actualiza-o à luz das expiações e actos de contrição levados agora a cabo nas
redes sociais. Alguns separadores isso mesmo indicam, sugerindo a transcrição
de diálogos facebookianos: «Continue a postar retratos seus, serão sacrificados
ao meu narcisismo. (…) Vou actualizar a foto de perfil. (…) A mim ninguém pede
adesão, só às vezes algum conhecido».
Blasfema, heterodoxa, iconoclasta, depravada, heresiarca,
esta é uma obra que se lê nas entrelinhas de um fascínio pela maldade e pelo
vício, gozo de tudo quanto afronta a moral e os bons costumes, uma obra que revira
os mitos para desmistificar, desnudando as faces luxuriante e concupiscente do
corpo que deseja. O transe é paixão, o êxtase é orgasmo, a oração é
masturbação, a genitália é o terço que nos redimirá do pecado: «Julie é
estuprada por Mme Delbène, sempre com o seu godemiché, e é urdida
cerimoniosamente com doçura quando cede a desvendar insignes falsidades. À Emma
evocam a noção de pertença e tentam sancionar o comportamento avesso aos bons
costumes. Claude, frente ao espelho, une três dedos e, em círculos,
perdidamente, os afunda em si, e fecha as pernas e logo as escancara, e e…
Olympe diz-se ‘ensopada’ e faz carícias a El Señor lambendo-Lhe mais abaixo do ‘escopro’.
Laurette é enrabada por Delcour, Genande, Noirceuil, alternadamente. Antonino
cede o ‘gel íntimo’. Veio-se» (p. 34).
Desta orgia de personagens e imagens retiramos também uma fé, a fé de
um corpo que se liberta da doçura conventual. O leite que alimenta aquele que
em clausura aguarda pela morte pode assumir diversas proveniências. Aqui, a
salvação ejacula-se. No prazer da carne está a via de uma santidade que já nada
pede ao sacrifício, que não cobra a existência, uma santidade amoral, por assim
dizer, na medida em que subverte os padrões contemplativos e ideais de um
erotismo sem corpo, insípido, inodoro, anódino, espiritual. Neste sentido,
podemos dizer que à Caridade Romana de José Emílio-Nelson corresponde uma
glorificação da carne, matéria de que é feito o corpo que deseja, a carne já
não apenas enquanto maná da morte anunciada, prisão do espírito, mas antes como
lugar de libertação do desejo e desprendimento de uma moral castradora.
LIXO AO AMANHECER
Esta madrugada, na rua
dominado por uma espécie
de curiosidade sociológica
revolvi com um pau o mundo surrealista
de alguns caixotes do lixo.
Verifiquei que mais do que morrerem as coisas são
assassinadas.
Vi papéis ultrajados, cascas de fruta, vidros
de cor desconhecida, estranhos e atormentados metais,
trapos, ossos, pó, substâncias inexplicáveis
que a vida rejeitou. Chamou-me a atenção
o tronco de uma boneca com uma mancha escura,
uma espécie de morte num campo rosáceo.
Parece que a cultura consiste
em martirizar profundamente a matéria e empurrá-la
ao longo de um implacável intestino.
Até conforta pensar que nem mesmo o excremento
pode ser obrigado a abandonar o planeta.
Joaquín O. Giannuzzi, versão de HMBF a partir do original
coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en
Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis
García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 194.
quinta-feira, 11 de abril de 2019
A VIDA QUOTIDIANA EM TABLÓIDE
[À porta do meu Banco no patamar, acocorados]
À porta do meu Banco no patamar, acocorados,
um e uma, vendem a pele
de uns pratos encardidos
mesmo no traço que já lhes deu flores garridas.
Eles escorriam chuva, que chovia, para a louça.
Eles nem devem ter sangue pela tez lustrosa
da porcelana dos seus olhos de caveira.
(Até faz rir, leitor, coisa tão triste.)
[Nos corredores das lojas a passear, lá em cima]
Nos corredores das lojas a passear, lá em cima,
arrasta um calçado encharcado,
um saco plástico que verte.
Quando lhe tocam, sujam-se,
mais rápidos caminham fazendo um esgar doentio.
Não tardará que o homem de farda lhe indique a
saída.
[Uma mania, a de andar de olhos no chão]
Uma mania, a de andar de olhos no chão,
Deus esta noite resultado.
Entre baldes do lixo, pequeno como um rato, a minha filha
encontrou o que diz ser
uma gatinha.
Velho de alguns anos, o nosso gato,
que eu penso que ela julga solitário, recebeu-a mal.
(Disse a toda a família que o castramos
e que somos agora a sua fêmea.)
[Vestindo tão de luto como quando o enterraram]
Vestindo tão de luto como quando o enterraram,
a Senhora que o conheceu dava generosa tristeza aos Cristos
alinhados como velas em bolo.
(Cristo de
noiva, a tradição.)
Imperfeitos uns, outros polidos, alguns mais corroídos.
Régio comprou por devoção, à dúzia, e vendeu-os bem.
Deus está atento, já
voltaram para ele,
para o seu nome.
[Lanço o homem à minha frente para a vala]
Lanço o homem à minha frente para a vala?
Que hei-de dizer? Que é da doença.
A cabeça um cacho, a uva grossa já mosto, mas
terá uma forma de cérebro?
(Até a noz a tem.)
Boas maneiras, bilhete de identidade, contribuinte, gravata.
E pouco mais terá de humano, no manual
que dizem? (dlim, dlão).
[Durante toda a noite e dia]
Durante toda a noite e dia
as pancadas penosas do vizinho
nas paredes acolchoadas que o envelheceram. Queixava-se.
Agora espreito-o desta maneira. Mais tarde eu,
(Sob a penugem negra do receio, sonâmbulo,
com estranheza de me ver, mais tarde,
em qualquer espelho.)
em qualquer espelho que nos rodeia, no tédio.
[Primeiro passa a mulher empinando de grávida, com toucado]
Primeiro passa a mulher empinando de grávida, com toucado.
Depois uma criança rosa, que é da melhor carne da perna.
Por fim, muito estafado, franzino e roxo de ferrugem,
um homem que se senta e pede um copo de café e leite.
Desejo-os a todos.
À mulher prazenteira pelos filhinhos, a ele
como a um brinquedo.
[Um fio de mar, parece-me, inclinava a terra]
Um fio de mar, parece-me, inclinava a terra
num poço de luz silenciosa.
O vulto que chegou de motorizada pela mão
esconde as dunas, a vaguear com a madeira torcida
que encontrou. Esconde-se de si, todos o vêem.
Ouvimos rádio, o guiador colado ao jornal,
os joelhos afastados; ali uns outros num carro sem ruído.
Com a boca ranhosa diz palavrões,
mostra-se e afasta-se.
José Emílio-Nelson (n. 1948), do livro O Anjo Relicário (1999), in A Alegria do Mal (2004). «Nada melhor do que a poesia de José Emílio-Nelson para sujeitarmos às mais duras provas a boa ou má consciência do gosto literário. Poesia do feio e do mal, ela tem sido, desde Polifonia e Penis, Penis, livros de 1979 e 1980, um atentado constante às normas do bom senso e do bom gosto, só ilusoriamente banidas da República literária com a iconoclastia dos modernistas. Os seus poemas atormentados e contorcidos são a prova flagrante de que o gosto, bom ou mau, é uma hidra de mil cabeças com a aparência do diabo nos seus mil e um disfarces. (...) O que agride nesta poesia é a extrema paixão da sensibilidade, nas notações do monstruoso quotidiano, sem os espelhos correctivos que tornam invisíveis as partes malditas do real. Toda a visão da fealdade é uma fidelidade da visão: quando o feio está invisível, encontra-se algures escondido atrás de uma aparência de beleza. Ver o feio é ver a nudez em toda a sua pureza, por mais impura que aparente ser» (Luís Adriano Carlos, in Fisiologia do Gosto Literário, introdução a A Alegria do Mal).
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