sexta-feira, 30 de julho de 2010

MANIFESTO



Senhoras e senhores
Esta é a nossa última palavra
─ A nossa primeira e última palavra ─
Os poetas desceram do Olimpo.

Para os nossos maiores
A poesia foi um objecto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.

Ao contrário dos nossos maiores
─ E digo isto com todo o respeito ─
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem como os outros
Um pedreiro que constrói o seu muro:
Um construtor de portas e janelas.

Nós conversamos
Com a linguagem de todos os dias
Não acreditamos em signos cabalísticos.

E mais uma coisa:
O poeta está aqui
Para que a árvore não cresça torta.

Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos estes senhores
─ E digo isto com muito respeito ─
Devem ser processados e julgados
Por construírem castelos no ar
Por desperdiçarem espaço e tempo
Redigindo sonetos à lua
Por juntarem palavras ao acaso
Conforme a última moda de Paris.
Para nós não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce do coração no coração.

Nós repudiamos
A poesia de lentes obscuras
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu-de-sol.
Propomos ao contrário
A poesia a olho nu
A poesia a peito aberto
A poesia de cabeça destapada.

Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem de ser isto:
Uma rapariga rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.

Agora, bem, no plano político
Eles, os nossos avós imediatos,
Os nossos bons avós imediatos!,
Refractaram-se e dispersaram-se
Ao passarem pelo prisma de cristal.
Uns tantos tornaram-se comunistas.
E não sei se realmente o foram.
Suponhamos que foram comunistas,
O que sei é uma coisa:
Que não foram poetas populares,
Foram uns reverenciais poetas burgueses.

Há que dizer as coisas tal qual são:
Apenas um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Sempre que puderam
Declararam-se de palavra e feito
Contra a poesia dirigida
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.

Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um desastre:
Surrealismo em segunda mão
Decadentismo em terceira mão
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjectiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia baseada
Na revolução da palavra
Quando podia fundar-se
Na revolução das ideias.
Poesia de círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
«Liberdade absoluta de expressão».

Hoje benzemo-nos perguntando
Por que escreveram essas coisas
Para assustar o pequeno burguês?
Tempo miseravelmente perdido!
O pequeno burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.

Querem assustá-lo com poesias?

A situação é esta:
Enquanto eles estavam
Por uma poesia do crepúsculo
Por uma poesia da noite
Nós propúnhamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem,
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos por igual
A poesia toca a todos.

Nada mais companheiros
Nós condenamos
─ E isto sim, digo-o com respeito ─
A poesia de pequenos deuses
A poesia da vaca sagrada
A poesia do touro enraivecido.

Contra a poesia das nuvens
Nós contrapomos
A poesia da terra firme
─ Cabeça fria, coração quente
Somos terrafirmistas decididos ─
Contra a poesia de café
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia da praça pública
A poesia de protesto social.

Os poetas desceram do Olimpo.



Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF

ANTÓNIO FEIO (1954-2010)


Vi-o nos palcos uma mão cheia de vezes, vi-o na televisão vezes sem conta. Inspirava simpatia, talento cada vez mais raro. Vai deixar boas memórias. O cancro é um temor. Merece uma despedida à maneira:


SIGMUND FREUD



Pássaro com as penas na boca
Já não se aguenta o psiquiatra:
Relaciona tudo com o sexo.

É das obras de Freud que vêm
As afirmações mais peregrinas.

Segundo este senhor
Os objectos de forma triangular
─ Esferográficas, pistolas, arcabuzes,
Lápis, canudos, bastões ─
Representam o sexo masculino;
Os objectos de forma circular
Representam o sexo feminino.

Mas o psiquiatra vai mais além:
Não só cilindros e cones
Quase todos os corpos geométricos
São para ele instrumentos sexuais
Até as Pirâmides do Egipto.

Mas a coisa não termina aqui
O nosso herói vai muito mais longe:
Onde nós vemos artefactos
Vemos, digamos, lâmpadas ou mesas
O psiquiatra vê pénis e vaginas.

Analisemos um caso concreto:
Um neurótico vai por uma rua
Subitamente volta a cabeça
Porque algo lhe chama a atenção
─ Uma bétula, umas calças às riscas
Um objecto que atravessa o ar ─
Na nomenclatura do psiquiatra
Isso quer dizer
Que a vida sexual do seu cliente
Anda pelas ruas da amargura.

Vemos um automóvel
Um automóvel é um símbolo fálico
Vemos um edifício em construção
Um edifício é um símbolo fálico
Convidam-nos para andar de bicicleta
A bicicleta é um símbolo fálico
Vamos acabar ao cemitério
O cemitério é um símbolo fálico
Vemos um mausoléu
O mausoléu é um símbolo fálico.

Vemos um deus cravado numa cruz
Um crucifixo é um símbolo fálico
Compramos um mapa da Argentina
Para estudar o problema das fronteiras
Toda a Argentina é um símbolo fálico
Convidam-nos para a China Popular
Mao Tse-tung é um símbolo fálico.
Para regularizar a situação
Há que dormir uma noite em Moscovo
O passaporte é um símbolo fálico
A Praça Vermelha é um símbolo fálico.

O avião deita fogo pela boca.
Comemos pão com manteiga
A manteiga é um símbolo fálico.
Descansamos um pouco num jardim
A borboleta é um símbolo fálico
O telescópio é um símbolo fálico
O biberão é um símbolo fálico.

Num capítulo diferente
Vêm as alusões à vulva.
Vamos omiti-las por decoro
Quando não a comparam a um mocho
Que representa a sabedoria
Comparam-na com sapos e com rãs.

No aeroporto de Pequim
Faz um calor infernal
Esperam-nos com flores e refrescos.
Nunca tinha visto flores tão bonitas
Desde que faço uso da razão
Nunca tinha visto gente tão amável
Desde que o mundo é mundo.
Nunca tinha visto gente tão alegre
Desde que os planetas são planetas.

Desde que fui lançado
Para fora do paraíso terrestre.

Mas voltemos ao nosso poema.

Ainda que pareça estranho
O psiquiatra tinha razão
No momento de atravessar um túnel
O artista começa a delirar.
Para começar levam-no a uma fábrica
É aí que a loucura começa.

Sintoma principal:
Relaciona tudo com o acto
Já não distingue a lua do sol
Relaciona tudo com o acto
Os pistões são órgãos sexuais
Os cilindros são órgãos sexuais
As máquinas órgãos sexuais
As manivelas órgãos sexuais,
Os altos fornos órgãos sexuais
Porcas e parafusos órgãos sexuais
Locomotivas órgãos sexuais
Embarcações órgãos sexuais.

O labirinto não tem saída.

O Ocidente é uma grande pirâmide
Que começa e termina num psiquiatra:
A pirâmide está por desmoronar.



Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF

terça-feira, 27 de julho de 2010

CARTÕES DE CRÉDITO

Camarada Van Zeller, há muito que não trocamos umas palavras sobre o assunto. Não sei se ouviu dizer, mas alguns camaradas ex-administradores do BCP vão a julgamento. Como sabemos, ir a julgamento em Portugal é como entrar num comboio para uma viagem de duração interminável. A ver vamos se chega a bom porto, este comboio descendente. Para já, os media não atribuem grande destaque ao tema. Há assuntos mais prementes, como sejam um rei dos gnomos que vivia num castelo e era atacado por leitõezinhos enquanto tentava dar banho a um javali fazendo uso do seu poder electromagnético para evitar que 76% da faixa costeira portuguesa desapareça na sequência de um terramoto a ocorrer no próximo dia 8 de Agosto. Dito isto, devo dizer que a minha relação com a banca é, sem tirar nem pôr, como a do rei Ghob com a lucidez, ou seja, praticamente nula. Nunca contraí empréstimos e dispenso cartões de crédito. Já tive um e não gostei. Andava com aquilo na carteira como um viciado em nicotina que está a tentar deixar de fumar mas anda com um maço de tabaco no bolso. Uma tortura. Limito-me a uma conta onde vai caindo o vencimento à razão de uma política cada vez mais inevitável: chapa ganha, chapa gasta. Por isso, caro camarada, espero que se faça justiça, embora acredite tanto nessa possibilidade como no poder da ira do rei Ghob.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

MIL NOVECENTOS E TRINTA


Mil novecentos e trinta. Aqui começa uma época
Com o incêndio do dirigível R101 que caiu à terra
Envolto em negras lufadas de fumo
E em chamas que se vêem desde o outro lado do Canal
Eu não ofereço nada de especial, eu não formulo hipóteses
Eu sou apenas uma câmara fotográfica que passeia pelo deserto
Sou um tapete voador
Um registo de datas e de feitos dispersos
Uma máquina que produz uns quantos botões por minuto.

Primeiro mostro os cadáveres de Andrée e dos seus infortunados

companheiros
Que permaneceram ocultos na neve setentrional durante
meio século(1)
Para serem descobertos num dia do ano mil novecentos e trinta
Ano em que eu me situo e de certo modo sou situado
Assinalo o local preciso onde foram dominados pela tormenta
E nesse lugar o trenó que os conduziu aos braços da morte
E o bote cheio de documentos científicos
De instrumentos de observação
Cheio de víveres e de um sem-número de placas fotográficas.

De seguida remonto a um dos picos mais altos do Himalaya
Al Kanchetunga, e observo cepticamente a brigada internacional
Que tenta escalá-lo e decifrar os seus mistérios
Vejo como o vento lhes resiste várias vezes no ponto de partida
Até semear neles o desespero e a loucura
Vejo alguns deles resvalarem e caírem ao abismo
E vejo outros a lutarem entre si por umas latas de conserva.

Mas nem tudo o que vejo se reduz a forças expedicionárias:
Eu sou um museu ambulante
Uma enciclopédia que abre caminho através das ondas
Registo todos e cada um dos actos humanos
Basta que algo suceda em algum ponto do globo
Para que uma parte de mim mesmo se ponha em marcha
Nisso consiste o meu ofício
Concedo a um crime a mesma atenção que a um acto piedoso
Vibro da mesma maneira frente a uma paisagem idílica
Ou ante os raios espasmódicos de uma tempestade eléctrica
Eu não desvalorizo nem exalto nada
Limito-me a narrar o que vejo.

Vejo Mahatma Gandgi dirigir pessoalmente
As manifestações públicas contra a Lei do Sal
Vejo o Papa e os seus Cardeais afogueados de ira
Fora de si, como que possuídos por um espírito diabólico
A condenarem as perseguições religiosas da Rússia soviética
E vejo o príncipe Carol regressar a Bucareste num aeroplano
(2)
Milhares de terroristas croatas e eslovenos são executados
em massa na minha ausência
Eu deixo fazer, deixo passar
Deixo que sejam assassinados tranquilamente
E deixo que o general Carmona se agarre como uma lapa

ao trono de Portugal.

Este fui e estou é o que fui no ano de mil novecentos e trinta
Assim foram exterminados os kulaks da Sibéria
Deste modo o general Chang atravessou o rio Amarillo

e se apoderou de Pequim
Desta e não de outra maneira se cumprem as profecias
dos astrólogos
Ao ritmo da máquina de costurar da minha pobre e viúva mãe
E ao ritmo da chuva, ao ritmo dos meus próprios pés descalços
E dos meus irmãos que se coçam e falam em sonhos.

Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF



(1) Sobre a expedição árctica de S. A. Andrée, ver aqui.
(2) Carol II da Roménia. Ver aqui.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

NO PRINCÍPIO



No princípio era a estrela de três pontas,
Um sorriso de luz através do rosto vazio;
Um galho de osso através do ar enraizador,
A bifurcada substância que medulou o sol primevo;
E cifras ardentes à volta do espaço,
O Paraíso e o Inferno misturados enquanto rodopiavam.

No princípio era a pálida assinatura,
De três sílabas e estrelada como o sorriso;
E depois vieram as impressões na água,
Selo da face cunhada sob a lua;
O sangue que tocou no mastro em cruz e o graal
Que tocou a primeira nuvem e deixou um sinal.

No princípio era o fogo fundador
Que de uma faúlha ateou os climas,
Faúlha de três olhos rubros, brusca como uma flor;
A vida surgiu e jorrou dos mares ondeados,
Irrompeu nas raízes, bombeando da pedra e da terra
Os óleos secretos que adubam os prados.

No princípio era o verbo, o verbo
Que das sólidas bases da luz
Abstraiu todas as letras do espaço vazio;
E das sombrias bases do hálito
O verbo fluiu, traduzindo para o coração
Os primeiros caracteres do nascimento e da morte.

No princípio era o cérebro secreto.
O cérebro estava fechado e soldado no pensamento
Antes de as trevas terem sido deslocadas para um sol;
Antes de as veias terem vibrado na sua peneira,
O sangue disparou e disseminou pelos ventos de luz
O nervo original do amor.



Dylan Thomas, in 18 Poems (1934)
Versão livre de HMBF

A SITUAÇÃO TORNA-SE DELICADA

Basta olhar o sol
Através de um vidro fumado
Para ver que a coisa vai mal;
Ou parece-vos que vai bem?

Eu proponho regressar
Aos coches puxados por cavalos
Ao avião a vapor
Às televisões de pedra.

Os antigos tinham razão:
Há que voltar a cozinhar a lenha.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF

quarta-feira, 21 de julho de 2010

TESTE



O que é um antipoeta:
Um comerciante de urnas e de ataúdes?
Um sacerdote que não crê em nada?
Um general que duvida de si mesmo?
Um vagabundo que se ri de tudo
Até da velhice e da morte?
Um interlocutor de mau carácter?
Um bailarino à beira do abismo?
Um narciso que ama todo o mundo?
Um trocista sangrento
Deliberadamente miserável?
Um poeta que dorme numa cadeira?
Um alquimista dos tempos modernos?
Um revolucionário de pacotilha?
Um pequeno burguês?
Um charlatão?
.......................Um deus?
......................................Um inocente?
Um aldeão de Santiago do Chile?
Sublinhe a frase que considere correcta.

O que é a antipoesia:
Um temporal numa chávena de chá?
Uma mancha de neve numa rocha?
Um açafate cheio de excrementos humanos
Como julga o padre Salvatierra?
Um espelho que diz a verdade?
Uma bofetada no rosto
Do Presidente da Sociedade de Escritores?
(Deus o tenha em seu santo reino)
Uma advertência aos poetas jovens?
Um ataúde a jacto?
Um ataúde a força centrífuga?
Um ataúde a gás de parafina?
Uma capela ardente sem defunto?

Marque com uma cruz
A definição que considere correcta.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF
(também na Di Versos n.º12, embora com ligeiras alterações)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

EU PECADOR



Eu galã imperfeito
Eu dançarino à beira do abismo,

Eu sacristão obsceno
Menino prodígio das lixeiras,

Eu sobrinho ─ eu neto
Eu fabulador dos sete instrumentos,

Eu senhor das moscas
Eu esquartejador de andorinhas,

Eu jogador de futebol
Eu nadador do Estero las Toscas, (1)

Eu profanador de tumbas
Eu Satanás enfermo de papeira,

Eu recruta remisso
Eu cidadão com direito a voto,

Eu ovelheiro do diabo
Eu pugilista vencido pela minha sombra,

Eu bebedor insigne
Eu sacerdote da boa mesa,

Eu campeão de cueca
Eu campeão absoluto de tango
De guaracha, de rumba, de valsa, (2)

Eu pastor protestante
Eu biscateiro, eu pai de família,

Eu pequeno burguês
Eu professor de ciências ocultas,

Eu comunista, eu conservador
Eu compilador de santos velhos,

(Eu turista de luxo)

Eu ladrão de galinhas
Eu dançarino imóvel no ar,

Eu verdugo sem máscara
Eu semideus egípcio com cabeça de pássaro,

Eu de pé numa rocha de cartão:
Façam-se trevas
Faça-se o caos,
..........................façam-se nuvens,

Eu delinquente nato
Apanhado em flagrante

A roubar flores à luz da lua
Peço perdão à esquerda e à direita
Mas não me declaro culpado.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF

(1) Principal evacuador de águas fluviais do município de Chillán.
(2) A cueca e a guaracha são danças populares sul-americanas.

domingo, 18 de julho de 2010

MINIMAL EXISTENCIAL

De Paulo Tavares (n. 1977), não li o livro de estreia: Pêndulo (Quasi, 2007). Portanto, a minha estreia na sua poesia dá-se com este Minimal Existencial ─ [poesia para duas personagens e um narrador] (Artefacto, Maio de 2010). Ao que julgo saber, trata-se do primeiro livro de um novo projecto editorial, com sede na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, apostado na divulgação de textos poéticos, teatrais e de ficção curta. No sítio da editora, ficamos a saber que Paulo Tavares é professor de línguas e trabalha numa tese de doutoramento na área dos Estudos Literários. Minimal Existencial repete no rosto aquela que parece ser a linha estética predominante em muita da poesia portuguesa mais recente: letras brancas sob fundo negro. Este pormenor não é despiciendo, sobretudo se pensarmos na relação que muitos dos nossos poetas mantêm com o real e com a palavra enquanto “ponto luminoso” que campeia no alcatrão da realidade. É óbvio que não é de hoje esta cisma, embora ela tenda a prevalecer sobre outras concepções, quer da realidade enquanto ideia construída e subjectiva, quer do texto poético enquanto parte integrante dessa mesma realidade.

Ao abrirmos o livro, deparamo-nos com uma espécie de extensão do título (um subtítulo?) que nos remete para uma dimensão ficcional/dramática do texto: [poesia para duas personagens e um narrador]. Este tipo de enunciação admite várias interpretações, sendo que a mais imediata (e talvez a mais tendenciosa) é a de que o material subsequente resulta de uma cisão entre o sujeito poético e a realidade que lhe é exterior. Deste modo, assistiríamos a uma encenação subjectiva da realidade à qual corresponderia um desprendimento do objecto encenado. Porém, este tipo de interpretação corre o risco de, ao separar as águas, confundir as margens. As experiências que temos da realidade são sempre subjectivas, pelo que a expressão resultante dessas experiências não pode senão ser encenação. Se advogarmos uma estética realista, é bom que estejamos cientes deste pormenor, sob pena de cairmos numa enfadonha ditadura do olhar. Por outro lado, se preferirmos o jogo das sombras imagéticas, não será má ideia reconhecermos que o suporte de toda a imagem, em suma de toda a imaginação, é o corpo material onde vamos buscar os contornos que definem as formas por nós arquitectadas.

A poesia de Paulo Tavares situa-se, pois, num campo de intersecção, no terreno dúbio e pantanoso onde as margens confluem. Essa é, quanto a mim, a sua dimensão mais apreciável. Nas suas cinco partes, a complexidade da estrutura do livro permite-nos entender uma manifesta inclinação para os processos de encenação do texto poético. Da morte a uma figurada «segunda vida» (p. 46), o que nos salta à vista é a absolutização da ruína, dos destroços, dos escombros. No entanto, alguns poemas parecem-me de menor intensidade, tornam o discurso algo amorfo e repetitivo, são de uma melancolia demasiado urbana, óbvia e sugerem uma espécie de pose que usurpa à poesia o crédito das imagens. Refiro-me, sobretudo, aos poemas do conjunto intitulado A evidência do dia, pejados de «sirenes ecoando contra / os edifícios devorados pelo impacto» (p. 21), dos «despojos do mundo moderno» (p. 24), de «ruas desertas, sujas» (p. 30), de «destroços / lançados pelo vento» (p. 34)… Esta encenação hiperbólica da ruína, que nos transporta para um cenário de guerra, perde na recorrência a imagens gastas e precipita o processo de degenerescência em curso.

Linhas de fuga e Caixa mitológica, os dois últimos conjuntos/momentos, parecem-me mais conseguidos. Nesses poemas a poesia de Paulo Tavares assume uma reflexividade até então quase inexistente. Torna-se mais interrogativa, mais enigmática, mas as imagens são fortes e menos dependentes de recursos plásticos algo batidos. Depois da ruína, o que fica? O que se segue à corrupção? Que resta da morte? A queda: abandono, solidão, esquecimento. «Quando morrermos, / não haverá divisões, nem fronteiras, nem estatutos. / Haverá, quando muito, um nome» (p. 61). Perante isto, não há que ser complacente, mas pode-se ser auto-irónico. E o autor é-o quanto baste. Chegamos a estes versos com a sensação de que tudo o que ficou para trás foi especialmente preparado para nos transportar até aqui. No fundo, a construção de Minimal Existencial ─ [poesia para duas personagens e um narrador] como que nos convoca para uma volta no corredor da ruína. É com declarada ironia que reconheço ser esta a Feira Popular dos poetas, entreter a vida com a elucidação da sua insignificância. Entreter a vida com a melancolia dos versos.
Escrito para o Rascunho.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

AGNUS DEI

Horizonte de terra
...............................astros de terra
Lágrimas e soluços reprimidos
Boca que cospe terra
....................................dentes moles
Corpo que não é mais do que um saco de terra
Terra com terra ─ terra com minhocas
Alma imortal ─ espírito de terra.

Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Diz-me quantas maçãs há no paraíso terrestre.

Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Se fizeres favor diz-me a hora.

Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Dá-me a tua lã para fazer uma camisola
Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Deixa-nos fornicar tranquilamente:
Não te imiscuas nesse momento sagrado.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF

CORETO, 2010


Estamos vivos. E ao longe parecemos direitos. Uma ligeira curvatura, talvez. Dos ossos, talvez. Ou das horas. É provável que seja aquela curva onde todos os desastres aconteciam. Na minha terra, havia uma curva dessas. Era a curva da Amieira.



A nossa melhor actuação foi de luzes apagadas, já toda a gente havia recolhido os microfones. Mas tu leste: estamos vivos. E eu toquei-te nos ombros: fazemos coisas, fazem-se coisas, é preciso fazer as coisas acontecerem. Ninguém morre na curva da Amieira se não passar por lá.



Ora olha bem para estas olheiras. Ora olha bem para os lábios arroxeados do vinho barato servido ao pacote. Estamos vivos. Ela passa por nós a alta velocidade, um tipo pressente-a crescer enquanto os ossos dos filhos se esticam à altura dos nossos ombros. E um destes dias, acredita, também ela há-de despistar-se na curva da Amieira.


Todos os acidentes na puta da curva. Morreram por lá centenas de vidas. Gatos, cães, gente, coelhos, fantasmas. Todos atropelados, despistados na puta da curva. Mas nós estamos vivos, a música ainda agora começou no silêncio das bandas. As curvas do coreto não deixam mentir. Actuámos, fizemos qualquer coisa acontecer, qualquer coisa pelo que ninguém dará. Excepto nós. Afinal, estamos vivos.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

J. J. GRANDVILLE


Jean Ignace Isidore Gérard
(September 13, 1803 – March 17, 1847)

PAI NOSSO



Pai nosso que estás no céu
Cheio de todo o tipo de problemas
Com o sobrolho franzido
Como se fosses um homem vulgar e comum
Não penses mais em nós.

Compreendemos que sofres
Porque não podes ajustar as coisas.
Sabemos que o Demónio não te deixa tranquilo
Desconstruindo o que tu constróis.

Ele ri-se de ti
Mas nós choramos contigo:
Não te preocupes com o seu sorriso diabólico.

Pai nosso que estás onde estás
Rodeado de anjos desleais
Sinceramente: não sofras mais por nós
Tens que dar-te conta
De que os deuses não são infalíveis
E que nós perdoamos tudo.



Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF

HANG 'EM HIGH


Ontem, após mais um dia de trabalho absolutamente ridículo (anda um tipo a estudar para passar 8 horas a reetiquetar livros), cheguei a casa e, no silêncio solitário da mansão, pus-me a folhear um livrinho intitulado Curious Moments – Archive of the Century / Das Fotoarchiv. O mundo está abarrotado de momentos curiosos, e é profundamente entristecedor ver tanta gente distraída desses acidentes magníficos que dão beleza ao absurdo da existência. Como sempre fugi de vidinhas desenhadas a régua e esquadro, lá me embalei com as aberrações do século passado até o sono começar a ameaçar-me a noite. Mulheres com barba, faquires, equilibristas morais e amorais, gigantes, anões, personalidades megalómanas, sexo, crime, estórias que nos fazem olhar para o mundo como a mais cómica das tragédias.

Soterrado debaixo de toneladas de sono, apaguei as luzes e fechei os olhos. Ainda não tinham passado 15 minutos e já andava de pé novamente. Não conseguia adormecer, algo que vai fazendo parte da rotina diária. Meti um pau de incenso a queimar no quarto, outro na sala e ainda outro na cozinha. Apanhei uma moca de incenso que nem vos conto, mas mesmo assim não conseguia adormecer. Que se lixe, pensei. Quando morrer, hei-de dormir uma vida eterna. Penso isto quase todos os dias. Liguei a televisão e revi o Hang ‘Em High, um western de Ted Post, dos idos de 1968, com Clint Eastwood no papel principal. Dennis Hopper também aparece muito fugazmente. Adormeci a ver o filme, que por acaso ficou encravado ao minuto 75. Reparei nisso hoje, quando acordei no sofá da sala cheio de dores nas costas.

Acordei como o Sheriff Ray Calhoun, de Red Creek, um dia mais velho, mas não mais sábio. Como o título do filme faz prever, há por ali demasiados enforcamentos. Oklahoma ainda não era um Estado. Davam-se os primeiros passos nesse sentido, ou seja, tentava-se assegurar um regime à base de leis que os juízes procuravam aplicar protegidos pelos homens das estrelas ao peito. À injustiça da justiça pelas próprias mãos respondia-se com a justiça injusta dos tribunais. Magotes de gente reunida assista ao popular circo dos enforcamentos. Vendiam-se cervejas frescas ao mesmo tempo que se cantavam temas religiosos e orava-se em nome das almas dos assassinos. Hoje é tudo muito mais recatado. O velho novo Oeste aprendeu a não fazer do “linchamento autorizado” um espectáculo. As mulheres que são apedrejadas até à morte em alguns regimes islâmicos inspiram muito mais compaixão do que os condenados à cadeira letal nos Estados do velho novo Oeste que ainda praticam a pena capital.

Evoluímos qualquer coisa, é certo, mas não evoluímos assim tanto quanto o silêncio estratégico das sociedades ocidentais fazem prever. Os Curious Moments do séc. XXI hão-de um dia ser compilados, em livro ou digitalmente. Daqui a cem anos, muito possivelmente, teremos um tonto como eu a divertir-se com as nossas aberrações actuais enquanto queima pelas divisões da casa vários paus de incenso e reza a todos os santinhos para que o sono lhe seja generoso. Não sei o que pensarão vossas excelências sobre este assunto, mas ao rever o Marshal Jed Cooper em acção senti como que uma corda ao pescoço. Desagrada-me a memória selectiva dos meus contemporâneos, desagrada-me o moralismo faccioso com que apontam o dedo aos outros olhando de soslaio os seus próprios problemas.

Bem sei que vivemos hoje num mundo globalizado, uma aldeia global com tribos heterogéneas a fazerem por si como sabem e podem. Resistir à homogeneização cultural tem os seus custos. Um deles é virmos a ser alvo de um etnocentrismo cultural, uma mania da superioridade, que, lá está, é tão ligeira a apontar defeitos externos quanto a dissimular vícios caseiros. A lapidação é um facto hediondo, desumano, monstruoso. Óbvio. Resulta desse processo que ao longo dos tempos nos transformou em estranhas criaturas, por ter pretendido que fôssemos algo mais do que criaturas individuais, únicas, livres. É como aqueles linchamentos públicos que o Hang ‘Em High recorda, ou como a tortura medieval reavivada em Abu Ghraib. Exemplos não faltam. Manter uma vida inteira milhões de pessoas penduradas pelo pescoço, com o nó da corda capitalista apertando-lhes o gasganete até ao suicídio ou, na melhor das hipóteses, à loucura, também não é muito agradável. Enfim, vivemos num mundo complexo, abarrotado de momentos curiosos, tantos que é profundamente entristecedor ver tanta gente distraída desses acidentes magníficos que dão beleza ao absurdo da existência.

terça-feira, 13 de julho de 2010

SALSADA*


É de noite, não pensa ser de noite
É de dia, não pensa ser de dia

Como pode ser de noite se é de dia
Como pode ser de dia se é de noite
Pensam que estão a falar com um louco?

Oxalá fosse realmente de dia.

Faz frio mas eu tenho calor
Faz calor mas eu morro de frio.

Disse que fazia frio mas minto
Faz um calor que derrete as pedras
Vejo-o com os meus próprios olhos:
Falso! Não vejo nada!
Tenho os olhos hermeticamente fechados!

Sucede que me sinto mal
A mesma dor de estômago de sempre
A sensação de vertigem não cessa.

Como mal? Sinto-me perfeitamente?
Nunca na vida me senti melhor!
Oxalá me sentisse desgraçado!

Observem bem e verão
Que estou a rir-me às gargalhadas.



Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF


*Saranguaco no original.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

FRASES

Não nos atirem areia aos olhos
O automóvel é uma cadeira de rodas
O leão está cheio de cordeiros
Os poetas não têm biografia
A morte é um hábito colectivo
As crianças nascem para ser felizes
A realidade tende a desaparecer
Fornicar é um acto diabólico
Deus é bom amigo dos pobres.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF

domingo, 11 de julho de 2010

ACTA DE INDEPENDÊNCIA


Independentemente
Dos desígnios da Igreja Católica
Declaro-me país independente.

Aos quarenta e nove anos de idade
Um cidadão tem o pleno direito
De se revoltar contra a Igreja Católica.

Que a terra me devore se minto.

A verdade é que me sinto feliz
À sombra destas acácias em flor
Feitas à medida do meu corpo.

Extraordinariamente feliz
À luz destas borboletas fosforescentes
Que parecem recortadas com tesouras
Feitas à medida da minha alma.

Que me perdoe o Comité Central.

Em Santiago do Chile
A vinte e nove de Novembro
Do ano mil novecentos e sessenta e três:

Plenamente consciente dos meus actos.



Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF

sexta-feira, 9 de julho de 2010

POR UM PUNHADO DE DÓLARES



Um forasteiro entre dois grupos rivais, numa cidade fantasmagórica onde o único homem que ainda trabalha é o serralheiro: a fazer caixões à medida do freguês. Pelo meio, uma donzela raptada à família, refém do mais sórdido dos bandoleiros. Um pai e uma criança desesperados. O forasteiro joga com o baralho todo, tem jogo de anca, é calculista o suficiente para arrancar da situação o que ele julga ser mais rentável para si. Mas ao descobrir a situação da família destroçada, há algo nele que o faz mudar de táctica: um peculiar sentido da (in)justiça fundamentado nas experiências passadas, traumas por revelar mas que podemos imaginar quais sejam.

O passado condiciona-nos as acções do presente; no futuro, o presente será o nosso passado; no futuro, muito provavelmente, deixaremos de agir desta ou daquela maneira, para agirmos de outra forma qualquer, capturados pelo que estamos a viver agora mesmo. Vivemos numa permanente Guerra Fria, mas mais do que tomarmos o partido de uma das facções, agimos invariavelmente condicionados por aquele que foi o nosso passado. Daí que, antes de julgarmos um homem, importe tanto percebermos a sua história (não a presente, mas a passada).

Costuma-se dizer que o homem conquistou a sua liberdade quando aprendeu a controlar os seus instintos. Treta. É certo que os instintos mais animalescos dos bandidos sucumbem perante a implacável racionalidade do herói interpretado por Clint Eastwood, mas este não deixa de agir determinado pelo seu passado. O homem apenas seria livre se pudesse agir sem as condições que o passado lhe impõe, determinando-o inconscientemente. Ainda que procure apagá-lo, é a única coisa que o dinheiro não pode pagar: o nosso passado.

ADVERTÊNCIAS

É proibido rezar, espirrar
Cuspir, elogiar, ajoelhar-se
Venerar, uivar, escarrar.

Neste recinto é proibido dormir
Inocular, falar, excomungar
Harmonizar, fugir, interceptar.

É estritamente proibido correr.

É proibido fumar e fornicar.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]Versão de HMBF

VOYEURISMO

Deus não dorme, Deus está em todo o lado. Deus é um voyeur.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

FAZ FRIO

Há que ter paciência com o Sol.
Há quarenta dias
Que não se vê por nenhuma parte.

De sobrancelhas franzidas
Os astrónomos ianques examinam o céu
Como se estivesse cheio de maus presságios
E concluem que o Sol anda de viagem
Pelos países subdesenvolvidos
Com as malas cheias de dólares
Em missão de caridade cristã.

E os sábios soviéticos
─ Que estão por lançar um homem à Lua ─
Informam que o Sol
Anda pelos impérios coloniais
A fotografar índios desnutridos
E assassínios de negros em massa.

Em quem,
................em quem podemos acreditar?

No poeta chileno
............................que nos pede
Para termos paciência com o pobre Sol!
Ele estaria feliz de brilhar
E de bronzear os corpos e as almas
Dos banhistas do hemisfério norte
─ Especialmente as coxas das raparigas
Que ainda não cumpriram vinte anos ─
Para isso foi feito.
Encantá-lo-ia aquecer a terra
Para que novamente o trigo floresça.

Mas as nuvens não o deixam sair.

Ele não tem culpa de nada:
Há que ter paciência com o Sol.


Nicanor Parra, de Canciones Rusas (1967)Versão de HMBF

quarta-feira, 7 de julho de 2010

ACÁCIAS



Passeando há anos
Por uma rua de acácias em flor
Soube por um amigo bem informado
Que acabaras de contrair matrimónio.
Respondi que na verdade
Eu nada tinha que ver com o assunto.
Mas apesar de nunca te ter amado
─ Isso sabe-lo tu melhor que eu ─
Cada vez que florescem as acácias
─ Imagina ─
Sinto a mesma coisa que senti
Quando me dispararam à queima-roupa
A notícia bastante desoladora
De que te havias casado com outro.


Nicanor Parra, de Canciones Rusas (1967)
Versão de HMBF

terça-feira, 6 de julho de 2010

MATILDE ROSA ARAÚJO (1921-2010)


A SORTE


A sorte não ama quem a ama:
Esta pequena folha de loureiro
Chegou com anos de atraso.
Quando eu a queria
Para fazer-me querer
Por uma senhora de lábios roxos
Foi-me negada uma e outra vez
E agora que estou velho dão-ma.
Agora que não me serve para nada
Agora que não me serve para nada
Atiram-ma ao rosto
Quase
..........como
...................uma
..........................pazada
.....................................de
........................................terra…

Nicanor Parra, de Canciones Rusas (1967)
Versão de HMBF

segunda-feira, 5 de julho de 2010

THE PASSPORT

Confiei ao tradutor Martin Chalmers a minha iniciação ao universo de Herta Müller, vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 2009. Não sei se fiz bem ou se fiz mal, mas sei que The Passport (título inglês) soa-me melhor do que Der Mensch ist ein grosser Fasan auf der Welt (título original deste romance publicado em 1986). Fui espreitar e fiquei a saber que a tradução literal do título seria qualquer coisa como «A man is nothing but a pheasant in the world», provérbio em duas ocasiões pronunciado no decorrer da narrativa (p. 9 e p. 70). Herta Müller escreve como quem inventaria gestos, tem um olhar de falcão que capta os mais ínfimos pormenores, deixa-se arrastar pelas estações e descreve-nos a vida no campo com invulgar clareza poética. As frases são curtas, os capítulos são breves e configuram historietas quotidianas cujo encadeamento lógico é sustentado por uma mesma situação englobante.

Neste caso, o ponto central é a vontade/necessidade de emigrar. Windisch, o moleiro de uma aldeia aperreada pela ditadura de Nicolae Ceausescu e ensombrada pelas memórias da Segunda Grande Guerra, será o centro das atenções. Apesar do estilo narrativo me parecer bastante linear, cada "capítulo" funciona como uma peça de um puzzle. Têm o seu tema singular, condensado no título, sem deixarem de ter um vínculo muito objectivo ao assunto geral. Assim, a vida naquela aldeia é-nos relatada a partir de episódios aparentemente banais. O guarda-nocturno, o carpinteiro, o peleiro, o padre, são personagens de uma trama que vai sendo tecida à passagem das estações, acompanhada pelo som da máquina de costura, da bicicleta pedalada sobre a erva, do tiquetaquear dos relógios nas paredes, do aparecimento das dálias e do voo de uma coruja que parece um gato com asas.

Galinhas, porcos, cabras e um galo cego, acácias, hidrângeas, macieiras e a neve, são outras testemunhas dos sonhos e dos pesadelos que condicionam a vida da povoação. Mas este ambiente aparentemente idílico encerra os seus traumas, os seus segredos, as suas angústias e os seus fantasmas. Windisch procura evitar que a filha Amalie tenha o mesmo destino da mulher, Katharina, obrigada a prostituir-se durante os cinco anos passados num acampamento militar na Rússia: «“In Russia she spread her legs for a piece of bread,” the people in the village said after the war. / At the time Windisch thought: “She is beautiful, and hunger hurts.”» (p. 39) A necessidade de um passaporte para emigrar é colocada ao nível da mais básica necessidade de sobrevivência. A fome não transcende o desejo de liberdade.

O que agora se pretende preservar é uma réstia de beleza levada pela corrupção dos homens. E o passaporte que Windisch deseja é um passaporte para um lugar de esperança, um lugar que o liberte da vida desassossegada e corrompida pelos interesses e pela hipocrisia da política: «In the warm, dark air of the room, Windisch dreams that the sky opens up. The clouds fly away out of the village. A white cock flies through the empty sky. It strikes its head against a bare poplar standing in the meadow. It can’t see. It’s blind. Windisch stands at the edge of a sunflower field. He calls out: “The bird is blind.” The echo of his voice returns as his wife’s voice. Windisch goes deep into the sunflower field and shouts: “I’m not looking for you, because I know you aren’t here.”» (p. 58)

Ali só havia o vazio deixado pela ausência do belo, os carris das linhas do comboio gritando de desespero por uma partida, um vento escondido no nevoeiro, na densidade das nuvens carregadas de pó. E do lado daqueles que partiram, nostalgia (homesickness). The Passport interroga-nos, enfim, sobre os lugares de pertença, sobre as algemas que nos afastam da felicidade e nos transportam para um sítio onde a esperança se torna tão ambígua quanto a inconstância das estações. De certa forma, diz-nos que a beleza está na possibilidade de olhar o mundo na diversidade de pormenores que formam as circunstâncias. Por outro lado, parece dizer-nos que essa beleza já não está em lugar algum. E no fim, ficamos como o moleiro: «Windisch sees that many rails run into one another. He sees other trains on the confusion of rails» (p. 89).

CONTINUANDO

 
Passei por cima de La cueca larga (1958), livro de inspiração folclórica que, segundo Mario Benedetti, marca uma pausa na produção antipoética de Nicanor Parra. A cueca é um tipo de bailado popular com imensas variantes por toda a América do Sul. Os poemas desse livro aproximam-se, pois, de cantigas populares, tendo alguns deles sido musicados por Violeta Parra, irmã do poeta. Já Versos de salón (1962) recupera as linhas centrais da antipoesia, minando algumas formas poéticas clássicas e parodiando a construção dos poemas e «o paroxismo das formas elevadas da lírica». Outro dado interessante notado por M.ª Ángeles Pérez López é o facto de «em Versos de salón se acentuar uma das características da antipoesia que estava latente em Poemas y antipoemas: a presença de um sujeito poético agressivo, que Schopf explica também como uma forma de “encobrimento emocional”». Os anos que se seguirão à publicação deste livro, serão de grande actividade para o poeta. Viagens, recitais, participação enquanto júri no Concurso Literario Casa de las Américas, órgão cultural máximo da revolução cubana. No entanto, a relação de Nicanor com a revolução não foi pacífica. Após uma visita turística à Casa Branca, no decorrer de um Festival Internacional de Poesia, Parra foi fotografado a cumprimentar a senhora Nixon. Estávamos em 1970, e desde então, ao que parece, o nome de Nicanor Parra não voltou a constar em actividades da Casa de las Américas. Canciones rusas (1967) afasta-se do tom sarcástico dos livros anteriores. É mais nostálgico, evocativo de uma visita à União Soviética realizada em 1963. A ironia dá lugar a um ambiente elegíaco; a morte, o esquecimento, o luto, contaminam os versos. Os poemas tornam-se igualmente mais plásticos e visuais:

ÚLTIMO BRINDE

Queiramos ou não
Temos apenas três alternativas:
O ontem, o presente e o amanhã.

E nem sequer três
Porque como disse o filósofo
O ontem é ontem
Apenas nos pertence como recordação:
À rosa desfolhada
Não se podem tirar mais pétalas.

São apenas duas
As cartas por jogar:
O presente e o dia de amanhã.

E nem sequer duas
Porque é um facto bem estabelecido
Que o presente não existe
Senão na medida em que se faz passado
E já passou…
como a juventude.



Bem feitas as contas
Resta-nos apenas o amanhã:
Ergo o meu copo
Por esse dia que jamais chega
Mas que é o único
De que dispomos realmente.

Nicanor Parra, de Canciones Rusas (1967)
Versão de HMBF


Fotografia ao alto: Nicanor Parra, Miquel Grinberg, Allen Ginsberg e Maria Rosa Almendres, Havana, Cuba, Fevereiro de 1965.

domingo, 4 de julho de 2010

NOTICIÁRIO 1957


Praga de lambretas em Santiago.
A Sagan capotou no automóvel.
Terramoto no Irão: 600 vítimas.
O governo retém a inflação.
Os candidatos à presidência
Tentam reconciliar-se com o clero.
Greve de professores e estudantes.
Romaria ao túmulo de Óscar Castro.
Enrique Bello é convidado em Itália.
Rossellini declara que as suecas
São mais frias do que icebergues.
Teorizam-se astros e planetas.
Sua Santidade o Papa Pio XII
Dá a notícia agraciada do ano:
Cristo aparece-lhe várias vezes.

O autor retrata-se com o seu cão.

Surgem os Aguas-Azules.
Grupo Fuego celebra aniversário.
Carlos Chaplin é novamente pai
De família em plena ancianidade.
Exercícios do Corpo de Bombeiros.
Russos lançam objectos à Lua.
O pão e os remédios escasseiam.
Chegam mais automóveis de luxo.
Os estudantes saem à rua
Mas são massacrados como cães.
A polícia mata por matar.

Nicolai disparata contra a Rússia
Sem o menor sentido do ridículo:
São Cupertino voa para trás.

A metade do espírito é matéria.

Roubo com passaporte diplomático:
Na primeira página da Ercilla
As maletas aparecem fotografadas.

Jorge Elliot publica antologia.

Uma pobre pomba mensageira
Choca com os arames da luz:
Os transeuntes tentam salvá-la.

Monumento de mármore causa ira:
«A Mistral deveria estar aí».

Praga de terroristas argentinos.
Kelly afasta vestido de mulher
Esqueleto que move as ancas.

Enrique Lihn define posições.
Perico Müller pactua com o diabo.
Médicos abandonam hospitais.
Aclara-se a incógnita do trigo.

Greve do pessoal do cemitério.
Por fazer uma piada, um polícia
Dá um tiro nos miolos.

A derrota do Chile no Peru:
A equipa chilena joga bem
Mas o azar persegue-a.
Um poeta católico sustenta
Que Jeová devia ser mulher.

Novos abusos com os pobres índios:
Querem desalojá-los das suas terras.
Das últimas terras que lhes restam!
Sendo que são os filhos da terra.

Morte de Benjamín Velasco Reyes.
Já não restam amigos de verdade:
Com Benjamín desaparece o último.

Agora chega o mês dos turistas
Cascas de melões e de melancias
Pensam fazer um templo subterrâneo?

Frei viaja pela Europa.
É recebido pelo rei da Suécia.
Presta declarações à imprensa.
Uma mulher dá à luz num autocarro.
Filho mata pai alcoólico.
Discussão sobre óvnis.
Humilhação em casa de uma tia.
Morre o deus da moda feminina.
Praga de moscas, pulgas e ratazanas.

Profanação da campa do pai.

Exposição na Quinta Normal.
Todos observam no céu, por um tubo,
Astros-aranhas e planetas-moscas.
Choque entre Cartagena e San Antonio.
Soldados contam os cadáveres
Como se fossem pevides de melancia.
Outro ponto a destacar:
As dores de molares do autor,
O desvio do tabique nasal
E o negócio de penas de avestruz.
A velhice e a sua caixa de Pandora.

Mas, de qualquer maneira, ficamos
Com o ano que está por terminar
(Apesar das notas discordantes)
Porque o ano que está por começar
Só pode trazer-nos mais rugas.



Nicanor Parra, de Versos de Salón (1962)
Versão de HMBF

quinta-feira, 1 de julho de 2010

CURSO INTENSIVO DE JARDINAGEM

Que eu saiba, Curso Intensivo de Jardinagem (&etc., Maio de 2010) marca a estreia literária de Margarida Ferra (n. 1977). Uma boa surpresa num ano que tem sido especialmente generoso para a poesia portuguesa. De resto, há a notar nos últimos anos, desde logo, a emergência de uma série de vozes poéticas femininas que têm garantido a salutar “desonra do convento”. Assim de repente, lembro-me dos livros de Ana Salomé (n. 1982), Catarina Nunes de Almeida (n. 1982), Filipa Leal (n. 1979), Joana Serrado (n. 1979), Margarida Vale de Gato (n. 1973), Renata Correia Botelho (n. 1977) ou Rute Mota (n. 1980). Outros haverá que agora me escapam, com maior ou menor relevo e receptividade. Quanto à poesia de Margarida Ferra, tem merecido inusitada atenção para um livro de estreia. A beleza do livro justifica-o, uma beleza acolhida com inquestionável felicidade na capa de Luís Henriques e abreviada num título bem-aventurado.

As quatro partes deste livro permitem perceber a intenção de estabelecer um paralelismo entre a jardinagem e o acto de cultivar versos. A intensidade do curso, que remete para um momento de aprendizagem prática, explica-se pela brevidade dos poemas. Essa brevidade assume uma energia questionável, até porque os versos amanhados por Margarida Ferra prescindem de arranjos florais e de outros adereços escusados. Chamar-lhe escassez de recursos não me parece o mais adequado. Prefiro antes falar em «lâmpadas de baixo consumo» (p. 23), uma voluntária economia de recursos (estilísticos) que, na sua evidente depuração, exige ao leitor um papel interventivo. No que respeita ao discurso poético, tornou-se claro nos tempos correntes que toda a simplicidade cifra um sentido que carece de descoberta e exploração. Aparentemente nada há a desbravar na simplicidade, mas todo um mundo se (re)inventa na raiz do poema.

A raiz destes poemas está no corpo, esse mesmo corpo que a autora nos introduz através de uma epígrafe pedida de empréstimo a Marguerite Duras: Não podemos escrever sem a força do corpo. É precisamente essa força que o jardineiro semeia, cultiva e amanha, uma força que não deixa de ser também o resguardo da beleza, quando não a própria acção de resgatar a beleza da sua facilmente despercebida quotidianidade. Neste sentido, a poesia de Margarida Ferra distancia-se dos seus contemporâneos mais elegíacos, pessimistas, “decadentistas”. Sendo claramente uma poesia dos sentidos (somáticos) − arriscaria mesmo falar de uma poesia de índole fenomenológica −, ela não deixa de ser igualmente uma poesia do essencial, uma poesia cuja intervenção está nas escolhas do olhar. Parecendo fotográfica, e por vezes impressionista, esta é uma poesia que «corta o corpo, redu-lo ao essencial, ao pormenor, ao que conta do vivido» (Fernando Guerreiro, in Negativos).

Repare-se como ao longo do livro os vários sentidos do corpo vão estando em evidência. Tão predominante quanto a visão, o olfacto aparece através dos aromas das ervas, do perfume das flores, do «cheiro da menta / no canteiro improvisado» (p. 12), do «cheiro dos restos» (p. 32) no carro do lixo. E há o som dos pés da costureira no pedal, «o som dos passos / livres pela rua que desce» (p. 20), o «eco surdo das horas antigas: / avulsas, longas, gratas, iguais» (p. 36). Também o paladar e o tacto, ainda que de modo mais implícito: «Se fosse hábil de tacto, / rendia-me ao origami» (p. 13). A primeira parte do livro funciona, pois, como uma introdução a este universo poético onde a superficialidade dos gestos quotidianos, domésticos, é fotografada, registada, penetrada por uma ironia ligeira que resgata o encantamento da sua apática distracção.

A segunda parte percorre os espaços domésticos, as quatro divisões de uma casa, mais um corredor e as escadas, lugares de trânsito e conexão. O olhar estendido sobre estes espaços é algo dúbio. Se por um lado indicia um certo acolhimento, por outro lado não deixa de enunciar o desconforto da loiça por lavar, do silêncio fracturado, da exiguidade do espaço: «Nos dias melhores, / a sala era a mesa e quase nada. / Nos outros: o barulho dos animais, / um samba circular, / o óleo na frigideira, / uma faca que separava / páginas novas de livros velhos» (p. 23). Playlist, o poema sequência da parte ulterior, encaixa neste universo um tu amoroso, os filhos, um sujeito poético desdobrando-se num conjunto de imagens muito mais elípticas do que as anteriores. No entanto, nota-se entre as diferentes partes uma ligação, uma mesma identidade, uma mesma sensibilidade.

Os poemas da parte final, intitulada Isto Não São Versos, permitem-nos confirmar que, apesar da brevidade dos poemas, o que aqui está em causa é a intensidade das assimilações. Não se trata de uma poesia dependente da contemplação, nem de uma poesia meramente descritiva, reduzida a observações subjectivas e mais ou menos concretas. Estes poemas denotam um corpo aberto aos lugares habitados, percorridos, sentidos; um corpo que absorve, na sua totalidade, os elementos da experiência, para depois depurá-la com a sensibilidade daquele que cultiva os elementos, já não como um fim em si mesmo, mas como o princípio de alguma coisa tão inerente quão independente do corpo: a poesia. Porque é disso que resulta o poema, da capacidade que o ser escrevente tem de simular os dados do mundo no ser da palavra escrita (um outro corpo).

Escrito para o Rascunho.