quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ÚLTIMAS PALAVRAS DO CRISTO DE ELQUI

LV

A arte não devia ser uma empresa privada
como deixar nas mãos de particulares
a produção de raios infravermelhos
nada mais perigoso
para a integridade da república
a nossa saúde mental em primeiríssimo lugar
a poesia por exemplo a poesia
pode levar um país à ruína
se não se tem cuidado com ela
pensem no Nocturno de José Asunción Silva
que provocou uma onda de suicídios
ou no Poema 20 de Neruda
a poesia deve ser positiva
como a Corporação de Fomento
ou os Comboios do Estado
a liberdade de expressão é um mito.

LXIII

Que o Supremo Tribunal determine:
se amar a Deus sobre todas as coisas
é possuir espírito de lucro
se não evocar seu santo nome em vão
é possuir espírito de lucro
se venerar o pai e a mãe
é possuir espírito de lucro
se não roubar matar nem fornicar
é possuir espírito de lucro
se respeitar a mulher do próximo
é possuir espírito de lucro
Vossa Excelência: se imitar o Senhor
na medida das próprias forças
é possuir espírito de lucro
para quê atirar areia aos olhos
o Cristo de Elqui é o pior dos comerciantes
o mais ruim o mais vil o mais canalha
podem crucificar-me sem mais trâmites

reconheço que vendo os meus folhetos
exactamente: vendo os folhetos
quer dizer que não os posso oferecer
ainda que me doa muito o coração
impossível ─ não posso oferecê-los
que a terra me engula senhor juiz
apenas alcanço para sobreviver:
um poucochinho de senso comum!
Juro por Deus: se fosse milionário
não só folhetos ofereceria
ofereceria bibliotecas inteiras
tanta falta que fazem creio eu
Dom Quixote em primeiríssimo lugar
─ sem esse livro não se entende nada ─
Martín Fierro meu livro predilecto
meu velador ─ minha lâmpada ─ meu tudo
Os Cavaleiros da Távola Redonda
Bertoldo Bertoldino e Cacasenno
obra como outra não há no seu género
o Han de Islândia por Victor Hugo
a sem par Genoveva de Brabante
e para terminar
ou seja que por aí deveria ter começado
a Santa Bíblia
………………….sim
……………………….a Santa Bíblia
que é o único livro verdadeiro
os demais são agradáveis mas falsos.


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
Versão de HMBF

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

MAIS UM DO CRISTO DE ELQUI, MUITO A PROPÓSITO

XLVIII

Eu sou o homem mais feliz do mundo
mentiria se dissesse que minto
quando declaro ser
o desgraçado mais feliz do mundo
nada tenho contra a parentela
nada tenho contra os meus inimigos
nada tenho contra os meus irmãos
resolvi os meus problemas pessoais
salvei-me por um triz mas salvei-me
repito-o para que não reste sombra de dúvida:
eu sou o homem mais feliz do mundo
dá-me vontade de soltar um uivo
e saltar de um sétimo andar
claro: sentir-me-ia mais feliz
se não fosse tão extraordinariamente feliz
se não fosse tão insolentemente feliz
se não fosse tão escandalosamente feliz

há que ter estômago de avestruz
para digerir tanta porcaria.


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)Versão de HMBF

MORREU O POLVO ERRADO


Camarada Van Zeller, como já deve ter reparado, a actualidade portuguesa anda à velocidade da luz. Um tipo lento como eu não sabe para onde se voltar. Estou como os juízes. Deve ter ouvido que «Portugal é o segundo país da Europa com mais profissionais de Justiça por habitante, só sendo ultrapassado pela Itália». São boas notícias, provam que levamos a justiça a sério. No entanto, o mesmo relatório revela que «Portugal é o segundo país da Europa que demoraria mais tempo a resolver todos os casos que estão pendentes nos tribunais. Pior só a Itália.» Oh Diabo, quererá isto dizer que os juízes portugueses e italianos são mais lentos que os dos outros países? Há nestes dados uma estranha aritmética: quanto mais profissionais de Justiça por habitante, mais lenta essa mesma justiça.

Acresce que «os juízes em final de carreira ganham muito mais em Portugal do que no resto da Europa, em concreto quatro vezes mais do que o salário médio nacional». Assim de repente, somos levados a pensar que temos mais juízes, os que temos são mais bem pagos, mas são igualmente mais lentos. Mouraz Lopes, membro da direcção da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, diz que a remuneração dos magistrados portugueses insere-se numa tendência europeia para proteger o princípio da independência. É bom sentir que estamos na vanguarda das tendências europeias, mas não é tão bom perceber que a independência dos juízes portugueses é mais cara do que a dos congéneres europeus. Ainda assim, julgo que a culpa destas discrepâncias é dos políticos. Com tantas e tão frequentes alterações legislativas e processuais, os juízes precisam de gastar muito dinheiro em livros.

Este relatório surge na mesma altura em que o Governo se prepara para mexer nos vencimentos dos juízes. As notícias dizem que «os juízes e os procuradores que estiverem no topo da carreira, com cerca de 6130 euros de salário bruto, poderão ficar com menos 750 euros no seu vencimento». Isto quer dizer que vai ser retirado aos juízes e aos procuradores que estiverem no topo da carreira mais do que eu ganho num mês. Assustador! É coisa que não se faz nem se deseja a ninguém. Por mim, acabava-se com a RTP e mantinham-se os salários dos juízes. Prefiro um procurador bem pago a um Malato funcionário público. E choca-me ter que pagar todos os meses um canal de televisão que tudo o que tem para me oferecer é a Praça da Alegria, o Portugal no Coração e o Quem Quer Ser Milionário. Eu quero, mas não é a pagar a RTP.

Também não quero ser milionário contribuindo para os relatórios da Transparência Internacional. Terá o camarada Van Zeller lido nos jornais que «Portugal mantém-se como um dos países da Europa Ocidental em pior posição do ranking anual sobre a percepção da corrupção». «Leis "herméticas", um aparelho de Justiça que "não funciona" e resultados "nulos" no combate à corrupção são as razões apontadas pela TI»!!! Não sei se o camarada aprecia a arte poética, mas esta coisa das leis herméticas é como na poesia: só serve os embusteiros. Está visto que somos um país de duques, amigos do seu amigo. E não me refiro especificamente ao camarada Luís Duque, a quem envio daqui saudações leoninas, recentemente «notificado para ser ouvido no Tribunal Central de Instrução Criminal, por suspeita de burla qualificada, corrupção e fraude na obtenção de empréstimo». Para percebermos o estado a que isto chegou, basta lembrar alguns bons rapazes:

- Armando Vara: promovido na Caixa Geral de Depósitos um mês e meio depois de ter abandonado os quadros do banco público para assumir a vice-presidência do BCP. Como é óbvio, essa promoção ao escalão máximo de vencimento terá reflexos para efeitos de reforma. Mas Vara merece-o, os desenvolvimentos do processo Face Oculta aí estão para o confirmar;
- Paulo Teixeira Pinto: ex-Presidente do Conselho de Administração Executivo do Millennium BCP, largou o cargo com uma indemnização de 10 milhões de euros e com o compromisso de receber até final de vida uma pensão anual equivalente a 500 mil euros. Passou à situação de reforma em função de relatório de junta médica. Tendo em conta que se meteu no negócio dos livros, está provada a sua incapacidade para o trabalho;
- José Miguel Júdice: foi julgado pelo Conselho Superior da Ordem dos Advogados depois de ter defendido que o Estado devia contactar as três maiores sociedades de advogados do país para serviços de consultadoria. Diga-se que o Estado tem seguido estes bons conselhos. Recentemente, o Ministério das Finanças pagou 42 mil euros a um escritório de advogados por um projecto de diploma sobre arbitragem fiscal que, caso fosse promulgado, limitaria a acção da administração fiscal;
- Rui Pedro Soares: renunciou ao mandato após a divulgação das escutas do caso ‘Face Oculta’, mas recebeu da PT uma indemnização de 600 mil euros como compensação financeira pelos salários não recebidos até ao final do mandato;
- Telmo Correia: ex-ministro do Turismo do Governo de Santana Lopes, assinou três centenas de despachos na madrugada do dia em que o novo executivo foi empossado;
- Abel Pinheiro: administrador da Grão Pará e ex-responsável financeiro do CDS, este arguido por tráfico de influências no âmbito do chamado «caso Portucale» terá influenciado o Governo PSD/CDS na viabilização de um projecto turístico do Grupo Espírito Santo (GES), o mesmo grupo ao qual a Grão Pará tem uma dívida superior a 35 milhões de euros;
- Joaquim Ferreira do Amaral: em 1994 assinou o contrato para a construção da Ponte Vasco da Gama com a Lusoponte. Para fechar o negócio, deu-lhe exclusividade na construção e exploração de qualquer nova ponte entre Vila Franca e a foz do Tejo. É, desde 2008, membro não-executivo do Conselho de Administração dessa mesma Lusoponte;
- Jorge Coelho: chegou à presidência executiva do maior grupo de construção civil de Portugal, o grupo Mota-Engil, depois de se ter demitido de Ministro das Obras Públicas na sequência da queda de uma ponte;
- Joaquim Pina Moura: a 21 de Julho de 2004 foi contratado para presidente da Iberdrola Portugal. Então confrontado com a incompatibilidade ética de exercer as funções de deputado e ser Presidente da Iberdrola, respondeu que "a ética da República é a ética da lei". Está visto que sim;
- Diogo Vaz Guedes: com António Mexia, presidente da EDP e ex-Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações do Governo de Pedro Santana Lopes, lançou a Aquapura, uma marca turística de luxo. Mais tarde, o ex-Presidente da Comissão executiva da Somague, foi multado em 10 mil euros, tendo a Somague sido igualmente condenada a pagar 600 mil euros, por financiamento ilegal do PSD nas eleições autárquicas de 2001;
- Paulo Pereira Coelho: responsável, na condição de presidente da Associação para o Desenvolvimento Turístico da Região Centro, pela adjudicação de um contrato de mais de 700 mil euros a uma empresa a que ficaria ligado cerca de um ano depois;
- Pedro Santana Lopes: solicitou a reforma aos 49 anos, recebendo desde Outubro de 2005 uma pensão de 3178 euros pelo exercício de funções no poder local;
- Manuel Dias Loureiro: ex-Ministro de governos de Cavaco Silva, foi um dos administradores executivos do Grupo SLN/Banco Português de Negócios (BPN). Terá ido a Porto Rico tratar da compra de 75 por cento da NewTechnologies (empresa sem qualquer actividade) e de uma posição de 25% na Biometrics Imagineerin» (empresa falida). «A operação envolveu duas empresas tecnológicas, contas em offshore e um investimento de mais de 56 milhões de euros por parte da SLN». Recorde-se que as ajudas do Estado ao BPN ascendem a 4,6 mil milhões de euros. Poderão ser colocados no banco mais 400 milhões de euros… É o preço a pagar pelos bons negócios.

Enfim, camarada Van Zeller, uma curtíssima lista de bons rapazes que nos fazem crer haver qualquer coisa de desacertado na morte do polvo Paul. Afinal, não era bem esse o polvo que devia morrer.

I WANT YOU TO WANT ME




As flores da cerejeira
Como elas oscilam
Não é que eu não pense em ti
Mas a tua casa é tão longe.


O Mestre comentou: «Ele não pensa realmente nela. Se pensasse, não há nada que seja tão longe.»

Confúcio, in Os Analectos, trad. Maria de Fátima Tomás, Europa-América, s/d, p. 59.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

XLVI



E agora convosco
nossa Secção Perguntas e Respostas
─ Senhor Cristo de Elqui
que pensa V.
dos fatos de banho de uma peça?
─ Nada tenho contra a juventude
desde que não dê nas vistas
─ Senhor Cristo de Elqui
que opinião lhe merece a Democracia Cristã?
─ Nada tenho contra a Democracia Cristã
desde que não dê nas vistas
─ Que pensa você dos concursos literários?
─ A competição nada resolve
pois não somos cavalos de corrida
condeno-os do fundo do coração
nisto sim, sou intransigente
─ Senhor Cristo de Elqui
que recomenda você
autoritarismo ou livre arbítrio?
─ Não sei o que lhe responder: em boa verdade
autoritarismo é sinónimo de repressão
─ Que futuro prevê para a Revolução Cubana?
─ O Capuchinho Vermelho triunfará.
─ Senhor Cristo de Elqui
tem você alguma opinião
acerca do escabroso tema das perversões sexuais?
─ Nada tenho contra as perversões sexuais
desde que não dêem nas vistas
claro que eu proponho o amor platónico
─ Poderá esclarecer-nos esse conceito?
─ O amor platónico chega até ao beijo na testa
o demais é trabalho do Demónio
─ Que pensa você dos bailes de máscaras?
─ Nada tenho contra os bailes de máscaras
desde que não dêem nas vistas
nada contra a festa da primavera
que cada qual se divirta a seu modo
desde que nos dêmos conta
da fugacidade de tudo isso
da precariedade de tudo isso
da irrealidade de tudo isso.


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
Versão de HMBF

domingo, 24 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A MECÂNICA DA FICÇÃO

A primeira questão que me ocorre ao ler um livro como A Mecânica da Ficção (Quetzal, Abril de 2010) ─ excelente versão portuguesa de Rogério Casanova para How Fiction Works (2008) ─ é a quem pode interessar um livro destes. O autor do texto de contracapa da edição portuguesa sugere-o a «estudantes, professores e bons leitores». Tendo em conta que os maus leitores foram excluídos, o que me parece uma ingénua falha estratégica, pois a ninguém senão a essa massa dúbia de consumidores esta obra faz falta, suponho que os críticos literários e os escritores constituem um tímido, mas interessado, público-alvo para as teses de James Wood. Os primeiros, para ver se aprendem alguma coisa; os segundos, porque só lhes faz bem perceberem como funciona a cabeça dos primeiros.

Nascido em 1965, o inglês James Wood é professor de crítica literária em Harvard e exerce o ofício na The New Yorker. Aponta-se-lhe o duvidoso feito de ter transformado a crítica literária num assunto pop, o que em si mesmo induz uma contradição nos termos. No entanto, ao percorrermos as quase 280 páginas de A Mecânica da Ficção percebemos que talvez não seja bem assim. O estilo é culto e fundamentado, mas igualmente claro e bem-humorado. Entre inúmeras citações, leituras cuidadas e minuciosas, confrontações de trechos diversos, numa proliferação de exemplos que enriquecem uma argumentação pedagógica, mas nada dogmática, surgem aqui e acolá piadas, anedotas do mundo literário e apontamentos cómicos que tornam a prosa bastante apelativa.

Numa nota de rodapé, Wood confessa-se viciado no «jogo absolutamente frívolo de coleccionar exemplos de personagens secundárias que por acaso têm o nome de escritores famosos» (segue-se um curto inventário); logo a seguir conta a história do presidente da Câmara de Neza que decidiu distribuir, pela força policial local, uma série de livros cuja leitura poderia contribuir para melhorar a cidadania dos agentes policiais; e há ainda um lembrete sobre «o tipo de rotina de escrita atribuída ao escritor inglês A. C. Benson ─ não fazer nada de manhã e depois passar a tarde a descrever o que tinha feito de manhã». No entanto, não nos atenhamos em demasia às notas de rodapé.

Em boa verdade, o trabalho de James Wood consiste em desocultar os mecanismos da ficção, distanciando-se da crítica de Barthes às convenções ficcionais e esbatendo a dicotomia entre realismo e formalismo. Fá-lo em tom de palestra, interrogando-se sobre vários aspectos inerentes à arte de narrar, tais como a importância dos detalhes, a complexa relação das personagens com o autor, a questão do diálogo, a presença da metáfora, etc.. O «estilo indirecto livre» é pré-estabelecido como o mais útil à narrativa, a própria história do romance acaba por ser associada ao desenvolvimento deste estilo, pois é graças a ele que conseguimos ver «as coisas através dos olhos e da linguagem das personagens, mas também dos olhos e da linguagem do autor» (p. 27). Neste sentido, Wood define o trabalho do ficcionista pela sua capacidade de criar personagens, conseguindo pensar com elas e por elas.

Referenciado como um marco daquilo que hoje se considera ser «a moderna narração realista», Flaubert nunca é perdido de vista pelo autor de A Mecânica da Ficção. Aparentemente, uma escrita de tipo cinemático obriga o narrador a uma selecção mais rigorosa dos detalhes, «portanto a tarefa do escritor ─ ou do crítico, ou do leitor ─ é procurar o indispensável, o supérfluo, o gratuito, o elemento do estilo que não pode ser facilmente reproduzido ou reduzido» (p. 248). É nesse trabalho de selecção que reside o artifício de toda a narrativa, mormente da mais realista. «Com Flaubert e os seus sucessores, apercebemo-nos de que a escrita ideal é uma procissão de detalhes interligados, um colar de observações, e que isto é por vezes uma obstrução e não um auxílio visual» (p. 94) ─ afirma James Wood. Colocado assim, o problema parece transportar-nos para uma concepção idealista da escrita. Afinal, será legítimo falar de uma «escrita ideal»?

A resposta a esta questão obriga-nos a considerar o que esperamos de uma obra de ficção. James Wood parece pôr a tónica nas personagens. As personagens ficcionais são tão mais sólidas e cativantes quanto nos permitem pressupor a sua existência chamando-nos para dentro do seu mundo. Mais do que elaborar um tratado sobre a criação de personagens, Wood desmonta uma série de truques e inventaria técnicas utilizadas por vários autores. E conclui: «Creio que um romance fracassa, não por as personagens não serem suficientemente vividas ou profundas, mas quando não consegue que o leitor se adapte às suas convenções, quando não consegue engendrar uma ânsia específica pelas suas próprias personagens, pelo seu próprio nível de realidade» (p. 139). O que importa é a subtileza das personagens, não propriamente a sua verosimilhança.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ENTULHO

A discrição com que João Miguel Henriques (n. 1978) vai divulgando os seus poemas, distante da mundanidade literária e dos seus reconhecíveis epicentros, desafia-nos a uma atenção que nem sempre é a mais cautelosa. Não esperando que outros deixem de se distrair com minudências grupusculares, cabe-nos, no mínimo, evitar cair nessa mesma esparrela recreativa. Entulho (Abril de 2010), folheto publicado pela Arqueria Editorial, com sede em São Paulo, leva-nos de regresso à poesia do autor de O Sopro da Tartaruga (2005). Pelo meio, escapou-nos Também a Memória é Algum Conhecimento (2009). É na internet que encontramos alguns dados sobre João Miguel Henriques: estudos de literatura em Lisboa, Jena e Edimburgo, participação no Tordesilhas, Festival Ibero-Americano de Poesia Contemporânea, uma mudança mais recente para a Eslovénia. Em 2005, numa leitura rápida do livro de estreia, detectei-lhe o gosto pelo poema breve e por uma linguagem simples, tingida por uma ligeira ironia, roçando por vezes o nonsense, com uma inclinação para o jogo formal e para a significação dúbia. São características que se mantêm, embora algo deva ser acrescentado.

Entulho colige catorze poemas breves que impressionam pelo seu elevado grau de depuração. Logo no poema inicial, intitulado Voz, percebemos uma cadência informal que oferece ao texto uma atraente sobriedade. O poema funciona como uma espécie de arte poética onde se sublinha a autonomia da voz relativamente ao pensamento, como que renegando aos versos o predomínio da razão. Trata-se, pois, de afirmar a ambiguidade dessa relação estabelecida entre o pensamento e o poema enquanto resultado de algo mais que não se escuda somente no pensamento. A voz escutada nos versos vem «do fundo do peito», é «livre / como todas as coisas boas da terra», não está cativa de derivações herméticas nem automatismos vazios de conteúdo, mas afirma-se mormente pela sua dimensão afectuosa. É uma voz que, transcendendo as cisões entre o corpo e o pensamento, entoa um canto partilhável. Neste sentido, a musicalidade é um elemento essencial nos poemas de João Miguel Henriques, a musicalidade que as palavras geram na sua conexão e o ritmo que advém desse mesmo relacionamento.

Não se julgue, contudo, que se trata de uma musicalidade aniquiladora do significado. Não só não o aniquila, como logra reforçá-lo. E nesse sentido percebemos um distanciamento da paisagem urbana que abunda na mais propalada poesia portuguesa da actualidade, um distanciamento que recusa a imundície da cidade ao mesmo tempo que afirma a poesia enquanto sobra dos afectos apagados pela vida citadina: «onde antes era possível um abraço / não resta agora mais que poesia». Não existem palavras a mais nestes poemas, a ausência de pontuação é superada por uma respiração segura e um perfeito domínio rítmico. Por vezes, algumas associações livres são traídas pela previsibilidade dos resultados (é o que parece acontecer no poema intitulado Parque), mas é raro isso acontecer. Mais frequente é os poemas de Entulho nos remeterem para uma irónica incompatibilidade entre as palavras e os objectos: «as palavras / são uma coisa / e as coisas / uma coisa diferente».

Esta essencialidade insubstituível remete a poesia para o lugar da representação, não lhe recusa a sombra das suposições, o lugar da incerteza, o predomínio dos acasos na figuração do real. Poemas como Continente, Estação ou Terra, que estão entre os mais ágeis deste conjunto, lançam-nos nesse espaço dúbio de algo que se anuncia mas ainda não sucedeu: «há-de o céu um dia / tornar-se terra revolta / desordenada / derradeira» ou «hás-de acordar por fim para a coisa nova / (ainda há tempo) / comigo ao lado, suave engano» ou ainda «a puta da terra que nos há-de cobrir a todos». Não é tanto uma certeza que aqui se expressa, mas sim uma crença alicerçada na presunção. Entre a verificação dessas presunções e o momento de as afirmar, vingam as suposições: «nesta parte incerta da cidade / terá nascido porventura algum poeta / mera suposição, é evidente, / mas de quem há muito calcorreia artérias estranhas // e eu terei lido alguma vez esse poeta / de cuja casa contemplo agora a ruína / algures por aqui / por estas ruas incertas / aceso por um fogo que apenas suponho».
Escrito para o Rascunho.

O CHEIRO DA ÍNDIA

Em 1961, Pier Paolo Pasolini (n. 1922) já tinha publicado livros de poemas, o polémico romance Ragazzi di vita (1955) e realizara Accatone, a sua primeira longa-metragem. Com um currículo judiciário impressionante, fora denunciado por corrupção de menores, condenado por actos obscenos, detido por embriaguez, processado pelo romance supracitado, considerado obsceno e pornográfico, acusado de difamação, etc. Mas 1961 foi também o ano de uma viagem à Índia, na companhia do amigo de sempre Alberto Moravia, de quem a Tinta-da-China publicou há não muito o volume Uma Ideia da Índia. O Cheiro da Índia, publicado pela editora 90º, em Junho de 2008, com tradução de Miguel Serras Pereira, oferece-nos a memória que Pasolini firmou dessa viagem, a qual teve como pretexto, diga-se, o convite para participar numa comemoração dedicada a Rabindranath Tagore (1861-1941), poeta indiano agraciado com o Nobel em 1913. O título aponta para um discurso impressionista e, provavelmente, pouco reflectido, mas o resultado final alerta-nos contra as construções mitológicas que a Índia do Kama Sutra e do Taj Mahal continua a alimentar. A milhas de uma perspectiva romântica do que pudesse ser uma vivência quotidiana da religiosidade (Pasolini era, recorde-se, um homem com um profundo sentido da vivência religiosa), O Cheiro da Índia coloca-nos em ruas miseráveis e imundas povoadas por mendigos, «encruzilhadas cheias de gente descalça, vestida como na Bíblia» (p. 10), cenários de desgraça e de desolação. Entre aquela miséria atroz, típica de um país parado e dramaticamente humilde, ressalta a imagem de um povo afectuoso e brando: «A vida, na Índia, tem os caracteres do insuportável: não se sabe como se pode resistir comendo um punhado de arroz sujo, bebendo uma água imunda, sob a ameaça constante do cólera, do tifo, da varíola, quando não da peste, dormindo no chão, ou em alojamentos atrozes. O despertar de cada manhã deve ser um pesadelo. E contudo os indianos levantam-se, com o sol, resignados e, resignados, começam a ocupar-se das suas coisas: é um girar no vazio durante o dia inteiro, um pouco como se pode ver em Nápoles, mas, aqui, com resultados incomparavelmente mais miseráveis. É verdade que os indianos nunca estão alegres: muitas vezes sorriem, é verdade, mas são sorrisos de doçura, não de alegria» (p. 22). Não deixando de ser poética, esta é uma representação que nos coloca no nervo da sobrevivência. O sorriso de quem não tem nada a perder num país com vários milhões de leprosos e mais de 80% de analfabetos é um sorriso piedoso. O cheiro que Pasolini guardou da Índia foi um cheiro cadavérico, num país imenso que, curiosamente, o poeta diz pequeno pela sua uniformizada cristalização histórica. A esperança é ténue e fúnebre: «As pessoas que na Índia estudaram, ou possuem alguma coisa, ou seja como for, desempenham essa função a que se chama “dirigir”, sabem que não têm esperança: mal chegam a sair, por meio de uma consciência cultural moderna, do inferno, sabem que terão de continuar no inferno. O horizonte de um ainda que vago renascer não se desenha aos olhos desta geração, nem da próxima, e não se sabe a quais de entre as futuras se revelará enfim. A ausência de qualquer esperança expectável faz pois com que os burgueses indianos, repito, se fechem no pouco que possuem com alguma certeza: a família. Fecham-se nela para não verem e para não serem vistos» (p. 49-50). Meio século passado, talvez já não seja tanto assim. O complexo sistema de castas que Pasolini repudia poderá retardar uma efervescência social mais dinâmica e criativa, mas não tem impedido o desenvolvimento em várias frentes. Chegam-nos hoje sinais que talvez possam vir a desmentir aquilo que Pasolini farejou há 50 anos nas ruas de Bombaim e Nova Deli.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O PRISMA DAS MUITAS CORES


O prisma das muitas cores
poesia de amor portuguesa e brasileira
Organização de Victor Oliveira Mateus
Prefácio de António Carlos Cortez
Labirinto
Outubro de 2010

Face a Face, p. 77.

RAGA

Raga é, em língua apma, o nome da ilha de Pentecostes, situada em Vanuatu, estado insular da Melanésia, e banhada pelo Oceano Pacífico. Le Clézio oferece-nos uma outra visão dos mares outrora navegados por Melville ou Stevenson, de terras pintadas por Paul Gauguin, que não sai nada bem na fotografia, e desse lugar próximo de Samoa, de onde nos chegaram os discursos do chefe Tuiávii. A visão idílica dos Mares do Sul desfaz-se à medida que vamos penetrando a imensidão de um oceano há muito assaltado pelo medo. Viagens de piroga, papa de inhame servida numa escudela, alimentos cozidos sobre pedras escaldantes e a beleza enigmática do céu austral são representações inerentes a um imaginário exótico que não logra encobrir uma história de exploração imposta pelos colonos ocidentais. Lembram-se os tempos da escravatura, a chegada dos colonos e das suas arrasadoras epidemias, a sensação de angústia e de desconfiança que ainda hoje paira sobre a ilha sempre que alguém de fora se aproxima. Mas nem sempre as ameaças vêm do exterior. A ilha de Pentecostes surge-nos como um lugar isolado, repleto de cumes inacessíveis, atapetados por uma vegetação impenetrável, onde vigora uma sociedade machista. A este propósito, o fabrico das esteiras de pandano, maioritariamente realizado por mulheres, veio abrir as portas a uma ténue revolução social. «Agora, as mulheres de Raga podem pagar mercadorias e serviços com as suas próprias esteiras…» (p. 40) Ainda longe da libertação perpetrada a Ocidente, as mulheres de Raga encontraram no fabrico das esteiras um forte aliado no acesso ao poder. Do relato de Jean-Marie Gustave Le Clézio sobressai um povo que aprendeu a superar as dificuldades impostas pelo seu próprio lugar e a resistir às contrariedades importadas pelos antigos colonos. «Não deve haver mais nenhum motivo para a viagem a não ser o de avaliar exactamente as nossas próprias incompetências» ─ conclui, ao mesmo tempo que procura desmistificar a pintura que durante vários séculos reduziu aquelas ilhas a lugares de depravação moral habitados por mulheres levianas e terríveis canibais. Para tal, descreve-nos com apurada simplicidade os meios de subsistência, a agricultura, os mitos, pormenores da língua, a relação dos indígenas com a fauna e a flora locais, a relação mística com o kava, «a planta que dá paz» (p. 69). Mais do que ser a palavra a reter, aventura é a palavra que Raga – Abordagem do continente invisível procura exaltar. Uma tradução de Manuela Torres, publicada pela Sextante em Dezembro de 2008.

sábado, 16 de outubro de 2010

QUE NOS SALVE O CRISTO DE ELQUI


XLIV

Pobre Cristo de Elqui dizem os meus detractores
não podemos acreditar na sua doutrina
não queremos ser pobres como ele
não mais tem que um mísero par de sandálias
há que viver bem neste mundo
a pobreza é um sinal de inferioridade

a mim ensinaram-me
que nem o Pai nem o Filho foram ricos
─ suponho que tão-pouco o será o Espírito Santo ─
nem palácios nem herdades nem veículos
nenhum dos Três
necessita de bens materiais
e nem por isso deixam de ser Deus
antes pelo contrário, certo?

é por isto que eu me preocupo
quando os meus detractores me desqualificam
pelo facto de apenas ter uma túnica
uma única camisa
um único par de cuecas negras:
quanto mais pobres
……………………………quanto mais humildes
mais nos pareceremos ao Senhor

ajoelhemo-nos desta vez
a orar pela alma dos ricos:
Pai nosso que estás no céu…



Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)Versão de HMBF

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ÁGAPE, AGONIA

O grau de exigência de uma obra literária é relativo à predisposição do leitor para se abrir à linguagem dessa obra. Um texto breve como este Ágape, Agonia, originalmente publicado em 2002, e agora virtuosamente mudado para português pelo poeta José Miguel Silva, obriga-nos, pela sua densidade filosófica, pela concentração de múltiplas referências e informações, pelas suas próprias características estruturais, a dois tipos de leitura: uma mais cuidadosa e atenta aos pormenores, outra menos comprometida com o conteúdo e embalada pelo ritmo vertiginoso da narrativa. Tratando-se de um monólogo, um longo parágrafo pontuado espontaneamente, com cortes, supressões, suspensões, numa economia de pontuação que faz do famigerado estilo de Saramago uma tímida aventura gramatical, mais ainda se impõe esta necessidade de estabelecer com o texto uma relação livre de preconceitos, como se o texto nos estivesse a convidar para uma dança, como se o que ali contasse fosse a musicalidade das palavras, o ritmo do pensamento transformado em escrita.

Enriquecida por um prefácio de Rodrigo Fresán e um posfácio da autoria de Joseph Tabbi, esta edição da Ahab (Junho de 2010) oferece ao leitor português a possibilidade de se encontrar com a obra de um autor norte-americano escassamente divulgado em língua portuguesa. O enquadramento deste texto póstumo de William Gaddis (n. 1922 – m. 1998) leva-nos a pensar estar aqui não apenas a síntese de uma obra difícil e controversa, mas, sobretudo, o legado filosófico dessa mesma obra. Neste texto, a fronteira que separa a dimensão ficcional da ensaística é demasiado ténue, não permite que nos fiquemos por uma classificação tão simples como a de novela ou «curto e curioso romance/diatribe sobre a história do piano mecânico e a automatização da arte» (Rodrigo Fresán, p. 17). Este pode ser o motivo subjacente à investigação que originou a produto final, mas está longe de ser o fim para o qual tende o testemunho registado.

No posfácio, Joseph Tabbi parece aproximar-se mais daquela que terá sido a intenção de Gaddis: «a entropia, o caos, a perda e uma cultura mecanizada e indiferente ao cultivo de talentos pessoais, individuais» (p. 98). E acrescenta: «A voz singular que emerge por entre outras vozes em competição e por entre os constrangimentos dos media não é apenas a voz de um “individualismo artístico” lutando em vão contra a mercadorização imposta pela máquina capitalista. Gaddis não se ilude imaginando que pode opor a força da sua arte à força do mundo material. O que pode, porém fazer é coordenar a sua arte com os vastos sistemas e estruturas que dão forma ao nosso mundo» (p. 105). Mas são muitas as vozes com as quais o narrador de Ágape, Agonia se confronta numa espécie de duelo que frequentemente opõe o improviso e a espontaneidade à mecanização, o saber e o conhecimento à indústria do lazer, o trabalho e o talento ao lúdico e à técnica da manipulação.

O homem arruinado, doente, às portas da morte, que fala/pensa no texto de Gaddis é já um produto anacrónico do futuro pós-humano no qual vamos submergindo paulatinamente. A evocação da ovelhinha Dolly apenas actualiza a tragédia implícita na invenção da pianola mecânica. O início do texto não deixa lugar a dúvidas: esta obra trata «do colapso de tudo, do sentido, da linguagem, dos valores, da arte, para onde quer que olhemos só vemos caos e desordem, a entropia a tomar conta de tudo» (p. 27). Como é óbvio, há uma grande dose de cinismo neste olhar, um cinismo que se opôs na extinta Grécia à idealização do mundo perfeito, o qual veio a desembocar, já no séc. XVII, nessa tragédia humana que foi a filosofia de René Descartes, autor que, curiosamente, não sendo esconjurado neste texto catártico (referem-se antes Pascal e Leibniz) como que paira sobre ele do princípio ao fim. Afinal, é ao método cartesiano que devemos o ódio ao erro que está na origem do desenvolvimento tecnológico, assim como também no princípio da derrocada do talento, do improviso, da falha como fonte insubstituível da criação artística.

A celebração do amor é a mais humana das propostas que restam a um escritor como William Gaddis, pois é nas falhas da paixão que o mundo automatizado encontra o seu necessário contraponto. Acusada a «narcotização colectiva», pouco mais resta ao ficcionista em transe de Ágape do que esperar ser expulso da República platónica, antever para as suas obras o silêncio das estantes empoeiradas, reconhecer que a sua existência não passou de uma pobre alegoria e afundar-se num turbilhão de ideias, pensamentos, opiniões, emoções e sentimentos contraditórios dos quais resulta uma música alucinante e não-mecanizada, uma música que, de alguma forma, nos restitui o lugar do artista na contemporaneidade: esfrangalhar as heranças, baralhá-las e oferecê-las de novo ao mundo com uma nova respiração e um renovado sentido do delírio. Depois de ler este texto, jamais poderei olhar da mesma forma as máquinas irritantes que substituíram as saudosas meninas da portagem de A-dos-Francos.
Escrito para o Rascunho.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

RECADOS

Olhamos para o mundo de uma forma diferente quando começamos a receber recados escritos pelos nossos filhos. A Matilde tem uma técnica lúdica, mas precavida, de largar recados pela casa, obrigando-me a uma espécie de caça ao tesouro logo pela manhã: deixou-me na mesa-de-cabeceira um recado a informar-me de que tinha deixado um outro recado em cima dos livros que ando a ler, não fosse dar-se o caso de eu hoje suspender essas leituras e partir para outros mundos.

UMA CERVEJA PARA O CRISTO DE ELQUI


XLI

Tudo pode ser provado com a Bíblia
por exemplo que Deus não existe
por exemplo que o Diabo manda mais
por exemplo que Deus
é masculino e feminino ao mesmo tempo
ou que a Virgem era doidivanas
basta saber um pouco de hebreu
para poder lê-la no original
e interpretá-la como deve ser
é questão de análise lógica

têm razão os amigos cépticos
tudo pode ser provado com a Bíblia
é questão de saber baralhá-la
é questão de saber adulterá-la
é questão de saber esquartejá-la
como quem esquarteja uma galinha:
tragam mais uma dúzia de cervejas!


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
Versão de HMBF

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

XL

Ninguém pode dizer que é um homem
para o seu chefe pode ser um frouxo
para a sua esposa pode ser um adúltero
para a lei um vulgar assassino:
ele escolheu a sua própria perdição!

assassino Santo Deus!
que palavra mais cheia de ódio
devia ser apagada do dicionário
felizmente Santo Deus
para a mãe não existe nada disso
tudo purifica com seu choro
sonha com ele quando tinha 5 anos
e vê-o conduzindo o seu triciclo
e depois a Primeira Comunhão…
jamais lhe verá um punhal na mão
não pode ser Santo Deus não pode ser
era belo de corpo e espírito
ninguém o conheceu melhor que eu
condenaram-no à cadeira eléctrica
ninguém acedeu a tapar-lhe os olhos
quem vai tapar os olhos de um assassino
que fiquem abertos para sempre!
nem Extrema Unção nem funeral algum
ninguém recorda onde está a sua campa
mas ela que nunca duvidou dele
segui-lo-á chamando-lhe querido filho.



Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
Versão de HMBF

terça-feira, 12 de outubro de 2010

MAIS SERMÕES DO CRISTO DE ELQUI

XXIX

Um conselho de boa vontade:
NÃO CORTARÁS AS ASAS ÀS GALINHAS
elas também têm direito a voar
há algumas senhoras donas de casa
que praticam esse desporto diabólico
é preferível perder uma galinha
a cometer a torpeza imperdoável
de nos crermos capazes
de emendar os planos do Criador:
se Ele na sua infinita sabedoria
resolveu dotá-las de asas
alguma razão poderosa terá tido
ainda que nos pareça ridículo.

XXXII

Quem são os meus amigos
os doentes
……………..os débeis
…………………………..os pobres de espírito
os que não têm onde cair mortos
os velhos
…………..as crianças
………………………….as mães solteiras
─ os estudantes não porque são revoltosos ─
os camponeses porque são humildes
os pescadores
…………………..porque me recordam
os santos apóstolos de Cristo
os que não conheceram seu pai
os que como eu perderam sua mãe
os condenados a prisão perpétua
nas chamadas oficinas públicas
os humilhados por seus próprios filhos
os ofendidos por suas próprias esposas
os araucanos
os repetidamente postergados
os que nem sequer sabem assinar
os padeiros
………………os coveiros
meus amigos são
os sonhadores ─ os idealistas
que como Ele entregaram sua vida
no holocausto por um mundo melhor.

XXXVII

A neurose não é uma enfermidade
é uma concentração de energia psíquica
que devemos saber aproveitar
um neurótico bem administrado
rende o dobro ou o triplo de um sujeito normal
tomem o exemplo de Napoleão Bonaparte
de dom Miguel de Cervantes Saavedra
de dom Alonso de Ercilla y Zúñiga
de Cristóvão Colombo
do português Fernão de Magalhães
o primeiro que deu a volta ao mundo
e de tantos outros incomensuráveis génios

ninguém pode duvidar
da grandeza de todos estes homens
e no entanto todos eles eram neuróticos.



Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)Versão de HMBF

ESTÁ PROVADO: CAPOEIRA

É de família. O apelido não engana: tão imbecis os mais novos quão bestas os mais velhos. Doentio.

domingo, 10 de outubro de 2010

VELHOS HÁBITOS

Camarada Van Zeller, a tia Manuela Leite queria suspender a democracia por uns tempos, Cavaco quer agora suspender o debate político. Eis o PSD, um exemplo de ética democrática e cultura republicana. Um deputado do partido que está no governo, de seu nome Galamba, afirmou ontem na televisão que o próximo orçamento é desastroso, mas não nos restam alternativas. Para o PS somos governados pelos mercados financeiros, é bom que não lhes provoquemos contracções não vão os mercados parir mais crises. Portanto, o PS não está no governo para governar. Está no governo para assistir aos partos dos mercados financeiros. O PS é uma espécie de parteira ou enfermeira dos mercados financeiros. O PSD diz que vai negociar o orçamento sob chantagem, o que prefigura um novo tipo de negociação desconhecido desde que Aristóteles havia compilado os domínios da lógica no seu Organon. Estes novos líderes não aprenderam nada com Ferreira Leite e Cavaco. Não se chama chantagem, chama-se suspensão da democracia a bem do interesse nacional. A Marta Rebelo diz que leu A República, de Platão, mas a gente duvida. É gira, a Marta. Os jornais dizem que as famílias terão de poupar mais, mas eu não vejo como. Cá em casa é chapa ganha, chapa gasta. Na casa de outros é chapa ganha, chapa empréstimo. Também conheço uns que é chapa ganha, chapa dívida. E há os que nem chegam a ganhar para a chapa. Só vejo uma forma de começar a poupar: deixar de limpar o cu com papel higiénico. Por falar em papel higiénico, salvo seja, prossigo na leitura de O Poder e o Povo. Muitos velhos hábitos fui ali reencontrar. Ora veja só:

Segundo O Mundo, em 1904, 52 dos principais políticos monárquicos tinham entre si 263 empregos, ou seja, uma média de 4,7 empregos por cabeça. Havia um cavalheiro ubíquo com 11 empregos, dois com 9, três com 8, seis com 7, dos com 6, treze com 5, nove com 4, dezassete com 3 e dois principiantes só com 2. Um típico exemplar da raça, como António Centeno (7 empregos), podia ser simultaneamente deputado progressista, membro do conselho fiscal da Companhia Real dos Caminhos-de-Ferro Portugueses, administrador de A Editora, director da Companhia Tauromáquica Lisbonense, administrador da Companhia do Niassa, director da companhia de Papel do Prado e administrador da Companhia do Gás do Porto.

Não sei, camarada Van Zeller, mas este Centeno lembrou-me o Valentim de Gondomar, o último moicano da nação. Ele há mistérios que se escondem na genética de um país, esta coisa da distribuição de cargos e funções é um deles. Um outro é o escândalo apimentado. Com pimenta me despeço:

Em 1891, O Século fez rebentar o «escândalo Sara de Matos». Sara de Matos, uma rapariga de 14 anos, aluna interna do Convento das Trinas, morrera em circunstâncias suspeitas. A autópsia revelara a presença de uma substância tóxica no organismo e o facto, considerado escandaloso, de que a falecida já não era virgem. Na base destas «provas», O Século concluiu que Sara fora, primeiro, violada e, depois, envenenada para não revelar o nome do violador. (…) [Mais tarde, levantou-se] a chamada «questão dos bispos», cujo episódio central foi o famoso «escândalo Ançã». A «questão» começou em Agosto [de 1909], quando o maioral dissidente, José Maria Alpoim, acusou a Igreja de manter seminários ilegais e pediu um inquérito. Com o cardeal-patriarca à frente, os bispos recusaram-se a responder. Entretanto, o bispo de Beja demitira dois professores do seminário local ( os irmãos Ançã), medida que, de acordo com a lei, não podia tomar sem autorização governamental. A Igreja justificou este acto com o argumento de que os padres de Ançã eram proprietários de um bordel. A isto o primogénito pertinentemente replicou que o bispo lhe fizera propostas homossexuais, chegando ao pormenor de reclamar «a passiva».

Ai camarada, camarada, que nunca nos faltem os bispos de Beja para apimentarmos dias tão chuvosos.

Nota:
as citações são do livro O Poder e o Povo, de Vasco Pulido Valente, Alêtheia, 6.ª edição, Setembro de 2010.

DOIS POEMAS DE NICANOR PARRA

XXIV

Quando os espanhóis chegaram ao Chile
mostraram-se surpreendidos
por não haver aqui ouro nem prata
neve e gravilha sim: gravilha e neve
nada que valesse a pena
os alimentos eram escassos
e dirão vocês que continuam a ser
é o que eu pretendia sublinhar
o povo chileno tem fome
sei que por pronunciar esta frase
posso ir parar a Pisagua (1)
mas o incorruptível Cristo de Elqui não pode ter
outra razão de ser senão a verdade
o general Ibáñez (2) que me perdoe
não se respeitam os direitos humanos no Chile
aqui não existe liberdade de imprensa
aqui mandam os multimilionários
o galinheiro está a cargo do raposo
claro que eu vou pedir-vos que me digam
em que país se respeitam os direitos humanos.

XXVI

Resumindo a coisa
ao tomar uma folha por uma folha
ao tomar um ramo por um ramo
ao confundir um bosque com um bosque
estamos a comportar-nos frivolamente
esta é a quintessência da minha doutrina
felizmente já começam a vislumbrar-se
os contornos exactos das coisas
e vê-se que as nuvens não são nuvens
e vê-se que os rios não são rios
e vê-se que as rochas não são rochas
são altares
……………..são cúpulas!
……………………………….são colunas!
e nós devemos dizer a missa.


Nicanor Parra, in Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1977)
Versão de HMBF


1. Localidade chilena convertida em centro de detenção pelos governos ditatoriais do séc. XX.
2. Carlos Ibáñez del Campo foi Presidente da República do Chile entre 1927 e 1931 e 1952 e 1958.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O CRISTO DE ELQUI


A poesia de Nicanor Parra foi sempre fortemente contaminada pela actualidade. Hoje em dia, tendemos a classificar uma poesia deste tipo como sendo uma poesia da realidade, mas essas classificações enfermam de um preconceito acerca da realidade. Real é tudo o que se experiencia, tudo o que possa ser provado. A linguagem é real, a imaginação é real, os sonhos são reais, o ar que respiramos é real, o silêncio, na sua natural impossibilidade, não deixa de ser real. Ora, um poema que pretenda reproduzir a realidade onírica corre o risco de ser interpretado como fantasioso, abstracto ou surrealista quando, em boa verdade, está sendo o mais fiel possível ao objecto da sua observação. Não deixa de ser realista, ainda que o seu objecto seja menos concreto do que a situação política actual (a qual se nos afigura amiudadamente feérica e absurda).

Os antipoemas de Parra encaram a realidade como algo monstruoso, uma construção do olhar, relativizam a observação, renegam estereótipos, transcendem catalogações conservadoras, desmontam velhas dicotomias. O sentido de humor que os sustenta é o de um homem em conflito com as instituições. Em 1973, Nicanor aceitou um cargo no Instituto Pedagógico que foi rapidamente abandonado devido a pressões políticas. Continuou a viver da docência, primeiro de Física, depois de Poesia na Universidad de Chile. Os dois campos acabam por se cruzar numa poesia que assume uma atitude relativista e questiona velhas fórmulas da arquitectura poética. news from nowhere, conjunto de poemas visuais publicados em 1975 na revista Manuscritos, são um óptimo exemplo desse diálogo mantido entre a Física e a Poesia (ver imagem ao alto).

Em 1976, Parra tornou-se membro da Academia Chilena de la Lengua. Por essa altura, começou a trabalhar em dois dos seus livros mais significativos: Sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1977) e Nuevos sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1979). São livros-sequência marcados pela presença de um pregador chileno chamado Domingo Zárate Veja, o qual havia percorrido o Chile dos anos 30 espalhando a palavra de Deus. Nicanor Parra interpreta a acção do pregador como a de um franco-atirador, actividade por excelência do antipoeta, mas também cria com ele pontos de contacto através de uma postura de «anacoreta purificado pela solidão e pela oração». Não é difícil encontrar ligações entre o pregador excêntrico e o poeta marginal.

M.ª Ángeles Pérez López caracteriza do Cristo de Elqui como «un loco inocente, un extravagante santo popular que carnavaliza la palabra sagrada, pues es “el doble local y profano de Dios”, y hace irrisión de los sermones bíblicos. Al mismo tiempo, este desheredado de la fortuna, convencido de que suyo será el reino de los cielos, es el único que puede acercarse a la verdade n tiempos de gran tribulación, el único que, por su cercania a los débiles y humildes puede sancionar las conductas en un mundo dominado por la ignorancia, la soberbia, la coerción, el escepticismo o los prejuicios nacionalistas o antihispánicos». Ambíguo, contraditório, ambivalente, paradoxal, é uma personagem que serve um dos princípios fundamentais da antipoesia de Nicanor Parra: a debilidade dos discursos ideológicos, políticos e religiosos. Fazendo-se passar por louco, o sujeito poético contorna a censura ditatorial para dizer o que não pode ser dito:

VII
Os maridos deviam fazer um curso por correspondência
se não se atrevem a fazê-lo pessoalmente
sobre os órgãos genitais da mulher
há uma grande ignorância a este respeito
quem poderá dizer-me por exemplo
qual a diferença entre vulva e vagina
não obstante consideram-se com direito a casar
como se fossem especialistas na matéria
resultado: problemas conjugais
adultério calúnias separação
e como ficam esses pobres filhos?

XIV


Mentes que apenas podem funcionar
a partir dos dados dos sentidos
idealizaram um céu zoomórfico
sem estrutura própria
simples transposição da fauna terrestre
onde pululam anjos e querubins
como se fossem aves de capoeira
inaceitável de todos os pontos de vista!
suspeito que o céu se parece mais
com um tratado de lógica simbólica
do que com uma exposição de animais.

XXIII

E estes são os desafios do Cristo de Elqui:
que levantem a mão os valentes:
em como ninguém se atreve
a beber um copo de água benta
em como ninguém é capaz
de comungar sem prévia confissão
em como ninguém se atreve
a fumar um cigarro de joelhos
galinhas poedeiras ─ galinhas poedeiras!
em como ninguém é capaz
de arrancar uma folha à Bíblia
se o papel higiénico se acabar
a ver vamos se alguém se atreve
a cuspir na bandeira chilena
teria que cuspir primeiro no meu cadáver
aposto a minha cabeça
em como ninguém se ri como eu
quando os filisteus o torturam.



Nicanor Parra, in Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1977)
Versão de HMBF

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

ESCRITOS PORNOGRÁFICOS

A ocultação é o princípio fundador da civilização judaico-cristã. Se os gregos pretendiam privar os homens do fogo da sabedoria, os judeus do Antigo Testamento preocuparam-se em vesti-lo. No princípio, Adão e Eva andavam nus e não sentiam vergonha por isso. A vergonha surgiu quando tomaram consciência do corpo e do desejo. Estabeleceu-se então uma dicotomia que separava a carne da alma. Pela segunda, poderíamos aceder às coisas do espírito. Mas isso implicaria um corpo refreado, uma sexualidade reprimida, todo um culto sacrificial que consistia em superar o desejo, isto é, em transcender as premissas de um inconveniente hedonismo. Nos canteiros do seu jardim, Epicuro foi plantando algumas obscenidades irrepreensíveis. No entanto, ainda que atribuísse ao prazer «o princípio e o fim da vida feliz», no seu pensamento havia já a semente de uma recta filosofia que promovia a dissipação dos desejos supérfluos. Séneca encarregou-se de o contradizer recuperando o elogio do autodomínio e da vida contemplativa que vinha dos antigos: «A virtude é coisa elevada, sublime, real, invencível, inesgotável; o prazer é coisa baixa, servil, fraca, frágil, que se estabelece e permanece nos lupanares e nas tabernas». Os séculos seguintes foram de consolidação desta repulsa.

Muita água correu sob as pontes até que chegássemos onde agora estamos. O culto do corpo que marcou as últimas décadas não deixa de fazer justiça, embora de um modo perverso e talvez paradoxal, ao ocultismo da antiguidade. Falamos de algumas conquistas libertárias/libertadoras como se a toda a hora elas não acabassem renegadas pelo conservadorismo tacanho que vigora nas sociedades pseudo-democráticas. Podemos já não andar de burca, mas disfarçamos o rosto com todo o tipo de maquilhagem. A tonificação muscular, a superficialidade que subjaz a uma evidente promoção do aspecto e da sensualidade, decanta a dissimulação. A verdade é outra, permanece abjecta e pornográfica. Courbet ainda inspira desconforto moral, um desconforto semelhante ao provocado por uma professora que pousa nua para uma revista erótica. A Igreja Católica Apostólica Romana insiste em censurar a pornografia, mas não lhe reconhecemos qualquer forma de auto-censura quando está em causa o seu financiamento por empresas que lucram milhões com a divulgação dessa mesma pornografia. É verdade que muitas destas situações não têm senão uma dimensão caricatural, mas subsistem entre nós enquanto indícios de uma moralidade essencialmente hipócrita.

Herbert Marcuse chamava a atenção para a integração da obscenidade e da pornografia no grande mercado da comunicação artística. Afinal, nenhuma estrutura moral sobrevive sem ter algo a que se opor, mesmo que esse algo se torne parte integrante e imprescindível do seu funcionamento. De alguma forma a obscenidade tem vindo a ser assimilada pelas sociedades ditas democráticas. Ela está acessível, desde que em canais fechados; ela pode ser vista, desde que aceitemos os termos de serviço; ela mantém-se oculta, para que o apetite seja aguçado e o negócio não se extinga. O que está em causa nestes véus é a garantia da vergonha, uma réstia de pudicícia sexual que justifique o negócio e promova o regramento da prevaricação. Podemos prevaricar, embora dentro de limites aceitáveis, obedecendo às farisaicas regras de um mundo light e detergente. A perseguição que levou D. H. Lawrence (n. 1885 – m. 1930) a escrever Pornography and Obscenity (1929) está longe de ter terminado, desde logo porque «a verdadeira pornografia anda quase sempre oculta, não surge a rosto descoberto». Utilidade de Uma Literatura Pornográfica, conferência proferida por Boris Vian (n. 1920 – m. 1959) em 1948, chega a ir mais longe na relativização do problema: não há literatura erótica senão no espírito do erotónamo, o que há é uma compreensão subjectiva daquilo que se lê, uma compreensão que relativiza a obscenidade às mentes obscenas que a detectam.

A recente edição destes Escritos Pornográficos (Guerra e Paz, Setembro de 2010), compostos por cinco poemas, um ensaio e uma narrativa fragmentada, são um óptimo pretexto para repensar o papel da pornografia na actualidade. É Noël Arnaud quem afirma, no prólogo, que «Boris Vian apreciava pouco a pornografia, não molhava nela a sua pena e via nesse género sobretudo um exercício literário como outro qualquer que preferia deixar para os especialistas» (p. 9). No fundo, o que sempre esteve em causa neste tipo de textos foi a defesa da inteligência do corpo e do desejo. Ao defenderem-se a si próprios, os autores acusados de obscenidade defendiam o direito à expressão livre do pensamento e à livre expressão do corpo. Um corpo sem inteligência não é perigoso, desejo sem sabedoria não ameaça os credos que garantem o adestramento das paixões. Quer o leitor uma prova? Repare como em reality shows todos eles pornográficos os concorrentes são tão cuidadosos a mudarem de roupa, não vá uma mama ficar a descoberto ou uma nádega trair as audiências. Eles tomam banho de calções, elas de biquini. Repare também na recorrente exibição, em telejornais de todo o mundo, de imagens de guerra explícitas, com corpos esventrados e outras pérolas similares da ilustração do horror. Tudo isso é pornográfico, tudo isso é aceitável, porque nada disso incita à libertação do corpo, apenas aumenta a vergonha e o medo que sentimos de nós próprios.
Escrito para o Rascunho.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

CHRISTUS EST SCALA ET VEHICULUM

Se S. Boaventura existisse hoje, estaria riquíssimo. Desde logo porque não seria santo, seria Dr. Os seus livros, nomeadamente o Itinerário da Mente Para Deus, inspirariam corações em queda. Redes esburacadas, como hoje me disseram. Dr. Boaventura, parece que estou a vê-lo num programa da Oprah Winfrey a promover o seu mais recente best-seller. Imagino pilhas dos seus livros arrumadas nas secções de auto-ajuda, far-se-iam capas de alarme com a sua imagem, estaria espalhado por tudo o que é Top de vendas. Chamam esoterismo à estante onde se encontram estas redes esburacadas, havendo também quem lhe chame, à moda antiga, ocultismo, mas ocultismo ainda é uma palavra perigosa. O ocultismo cria-nos expectativas sobre a desocultação, é uma espécie de pornografia do que se pretende hermético, fechado, inacessível, exceptuando esses momentos de inspiração em que o hermético, fechado, inacessível fica ao alcance de todos pela módica quantia de 10, 15 ou 20€. É este o segredo do Segredo, por exemplo: pressupõe um oculto que as pessoas pretendem desvendar. Como? Lendo livros que mais não fazem do que revestir o inexplicável de imagens sugestivas. Boaventura, mestre dos mestres, desbrava-nos o caminho para Deus afastando-nos da investigação. Apela a uma relação íntima, contemplativa, que nos coloca «por detrás da treva super-luminosa do silêncio» (et invisibilium superbonorum splendoribus superimplentem invisibiles intellectus), esse lugar onde se escondem os mistérios da Divindade. Porque os mistérios da Divindade estão escondidos, urge encontrá-los como uma criança que joga a caça ao tesouro. Não havendo mapa à mão, socorremo-nos dos livros do Dr. Boaventura. Quem pode resistir aos mistérios da Divindade? O problema reside na conclusão:

Se pretendes saber como isto sucede, interroga a graça e não a ciência; o desejo, e não a inteligência; o clamor da oração, e não o estudo dos livros; o esposo, e não o professor; Deus, e não o homem; a treva, e não a claridade.

Devo dizer que sempre que me pus a interrogar o desejo não me senti lá muito inteligente. Mais informo que não tenho esposo a quem interrogar e não sei como interrogar Deus sem a ele ter chegado, matéria sobre a qual este livro versa. Se o problema é chegar a Deus, como o interrogarmos antes de a ele termos chegado? E os conselhos prosseguem:

Não interrogues a luz, mas o fogo que tudo inflama e transfere para Deus, com efusões extáticas e ardentíssimas emoções.

Isto é erotismo puro e duro, caros leitores. Não obstante, trata-se de um erotismo sádico, de algemas e chibata, para não dizer mórbido. Verificai:

Esse fogo é Deus; «a sua fornalha está em Jerusalém». Cristo acendeu-a na chama da sua ardentíssima Paixão. Só verdadeiramente o recebe quem diz: «a minha alma desejou um laço estrangulatório, e os meus ossos, a morte». Quem ama esta morte pode ver a Deus, pois é indubitavelmente verdade [o que diz a Escritura]: «nenhum homem me verá e continuará a viver».

Quem pode querer continuar a viver depois de ler o Dr. Boaventura? Só um tonto. A morte é a treva super-luminosa do silêncio onde os mistérios da Divindade são revelados. Não restem dúvidas a este respeito:

Morramos pois e entremos na treva; imponhamos silêncio às preocupações terrenas, às paixões e imaginações…

domingo, 3 de outubro de 2010

OS SETE PORQUINHOS (Hino Oficial do Movimento Ecologista)



1
Industrial e poeta capitalista
naturalmente:
………….PORCO COM COLETE

2
Agricultor sem inclinação ecológica
não há dúvida:
………….PORCO COM COLETE

3
Engenheiro
……………….ri-se da ecologia
protótipo do
………….PORCO COM COLETE

4
Comunista marxista leninista
maoísta castrista jochiminista
pinochetista refractário à informação ecológica
sinto muito:
………….PORCO COM COLETE

5
Sacerdote que fuma como morcego
sem a menor consideração pelo próximo
que me perdoe Sua Santidade
IMPERDOÁVEL
………….PORCO COM COLETE

6
Professor e conferencista
escritor
…………para mal dos seus pecados
auto-excluído da Frente Ecológica
não há volta a dar-lhe:
………….PORCO COM COLETE

7
AUTORIDADE CIVIL OU MILITAR
indiferente à realidade ecológica
deve ser desmascarada publicamente
boneco de neve
………….PORCO COM COLETE
nauseabundo porco com colete


Nicanor Parra, in Poesía Política (1983)
Versão de HMBF

Ao alto: postal de Nicanor ilustrado por Chantal de Rementeria, in Chistes Par(r)a Desorientar A La (Policía) Poesía.