Sábado, 31 de Julho de 2010

VOU PARA SUL


Levo livros e banda sonora apropriada. Ao alto, o novo CD do Fernando Dinis. O conteúdo é óptimo, o preço melhor. Podem encomendá-lo ali. As Estranhas Criaturas continuam a circular. As Estórias Domésticas também. Tem sido uma agradável surpresa, as manifestações discretas de leitores amigos e anónimos. Assim como assado, o meu obrigado a todos. Tentarei ir dando notícias. Faço conta disso.

Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

MANIFESTO



Senhoras e senhores
Esta é a nossa última palavra
─ A nossa primeira e última palavra ─
Os poetas desceram do Olimpo.

Para os nossos maiores
A poesia foi um objecto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.

Ao contrário dos nossos maiores
─ E digo isto com todo o respeito ─
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem como os outros
Um pedreiro que constrói o seu muro:
Um construtor de portas e janelas.

Nós conversamos
Com a linguagem de todos os dias
Não acreditamos em signos cabalísticos.

E mais uma coisa:
O poeta está aqui
Para que a árvore não cresça torta.

Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.
Todos estes senhores
─ E digo isto com muito respeito ─
Devem ser processados e julgados
Por construírem castelos no ar
Por desperdiçarem espaço e tempo
Redigindo sonetos à lua
Por juntarem palavras ao acaso
Conforme a última moda de Paris.
Para nós não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce do coração no coração.

Nós repudiamos
A poesia de lentes obscuras
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu-de-sol.
Propomos ao contrário
A poesia a olho nu
A poesia a peito aberto
A poesia de cabeça destapada.

Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem de ser isto:
Uma rapariga rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.

Agora, bem, no plano político
Eles, os nossos avós imediatos,
Os nossos bons avós imediatos!,
Refractaram-se e dispersaram-se
Ao passarem pelo prisma de cristal.
Uns tantos tornaram-se comunistas.
E não sei se realmente o foram.
Suponhamos que foram comunistas,
O que sei é uma coisa:
Que não foram poetas populares,
Foram uns reverenciais poetas burgueses.

Há que dizer as coisas tal qual são:
Apenas um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Sempre que puderam
Declararam-se de palavra e feito
Contra a poesia dirigida
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.

Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um desastre:
Surrealismo em segunda mão
Decadentismo em terceira mão
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjectiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia baseada
Na revolução da palavra
Quando podia fundar-se
Na revolução das ideias.
Poesia de círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
«Liberdade absoluta de expressão».

Hoje benzemo-nos perguntando
Por que escreveram essas coisas
Para assustar o pequeno burguês?
Tempo miseravelmente perdido!
O pequeno burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.

Querem assustá-lo com poesias?

A situação é esta:
Enquanto eles estavam
Por uma poesia do crepúsculo
Por uma poesia da noite
Nós propúnhamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem,
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos por igual
A poesia toca a todos.

Nada mais companheiros
Nós condenamos
─ E isto sim, digo-o com respeito ─
A poesia de pequenos deuses
A poesia da vaca sagrada
A poesia do touro enraivecido.

Contra a poesia das nuvens
Nós contrapomos
A poesia da terra firme
─ Cabeça fria, coração quente
Somos terrafirmistas decididos ─
Contra a poesia de café
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia da praça pública
A poesia de protesto social.

Os poetas desceram do Olimpo.



Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF

ANTÓNIO FEIO (1954-2010)


Vi-o nos palcos uma mão cheia de vezes, vi-o na televisão vezes sem conta. Inspirava simpatia, talento cada vez mais raro. Vai deixar boas memórias. O cancro é um temor. Merece uma despedida à maneira:


REFÚGIOS



Foi o poeta catalão Joan Margarit quem mais recentemente recuperou para a poesia a propriedade do refúgio. Casa da Misericórdia, o poema, diz assim: «Os orfanatos e hospícios eram duros, / mas ainda mais dura a intempérie. / A verdadeira caridade dá medo. / É como a poesia: um bom poema, / por mais belo que seja, tem de ser cruel. / Não há mais nada. A poesia é agora / a última casa da misericórdia». No epílogo ao livro homónimo, publicado pela OVNI em Outubro de 2009, o poeta não resistiu à tentação de se explicar: «As Casas da Misericórdia foram instituições de uma grande severidade, às vezes à beira da maldade, pensava eu, recordando aqueles anos do pós-guerra, quando eram referentes familiares na nossa vida quotidiana. E, neste ponto, vinham-me à cabeça as solicitações das mães, e a conclusão era clara: a intempérie era muito mais assustadora. Por isso, esforçavam-se por fazer entrar os seus filhos naquele lugar. E, neste sentido, a mente dava um salto para a poesia, para o pouco que um poema talvez sirva para ajudar a suportar a dor e as ausências». Esta comparação da poesia com uma Casa da Misericórdia, sendo feliz poeticamente, não deixa de ser triste existencialmente. Estamos ainda nos domínios da catarse aristotélica, de uma concepção da arte enquanto refúgio, numa tentativa de conferir àquilo que se cria (para Margarit, aquilo que se descobre) alguma utilidade. A pouca utilidade do poema será, então, «ajudar a suportar a dor e as ausências».

Não obstante, o poema «tem de ser cruel». A sua utilidade determina-se pela sua finalidade, ou seja, sendo um refúgio, ele recorda-nos a sua parca condição, a sua insuficiente natureza, a sua ínfima força perante as ameaças da intempérie. Debaixo de um temporal, por vezes nenhum toldo aguenta. As grutas podem proteger-nos das feras, mas mais tarde ou mais cedo seremos obrigados a enfrentá-las nos caminhos da vida. Fora das grutas pensadas, imaginadas, erigidas por cada um à sua maneira, somos todos débeis. A crueldade do poema reside na sua capacidade de sintetizar a insignificância. O discurso é atraente, o argumento impõe-se pela lógica irrefutável das premissas; mas como em todo o raciocínio, é a proposição maior que determina a cópula e a conclusão. Por que parte o poeta desse princípio de uma realidade ameaçadora? O que o leva a determinar a catástrofe? Dir-me-ão que os olhos abertos são o que chega para de uma forma muito clara e cartesiana podermos formular o nosso indubitável princípio primeiro: o mundo é uma ameaça constante. Logo, enquanto parte integrante do mundo, o homem é um ameaçado permanente. Contudo, num outro poema, o poeta acrescenta: «Mas o monstro sou eu, e não outro alguém / a quem, para me salvar, posso matar» (Prozac). Pode alguém escapar a esta monstruosidade? Pode o texto restituir-nos a forma perdida, a geometria das proporcionalidades? Poderá a poesia reconstruir-nos o rosto deformado pelo tempo?

Traz-nos aqui a ilusão de uma inocência perdida, a suposição de uma degenerescência irremediável. No fundo, estamos a falar da consciência dos males que contaminam o mundo. E, no imo dessa consciência, de uma náusea que nos impede a reacção. Deixamo-nos inebriar pelo espanto que o terror inspira, ficamos boquiabertos perante as impensáveis, imponderáveis, inimagináveis atrocidades humanas. A guerra, a intempérie. O próprio mundo revela-se-nos catastrófico, na medida em que nos desperta este triângulo no centro do qual passaremos a andar à deriva: maldade, insignificância, morte. Curiosamente, sobrevivemos. Talvez o mal não seja assim tão mau, ou talvez haja quem invista algum do seu tempo na construção dos refúgios. A poesia, a música, a pintura, o cinema, a dança, as artes, as artes serão esses refúgios. E o artista o super-herói da Marvel, qual spider-man, que das suas mãos verte a teia onde nos protegeremos dos reis do mal. Isto não faz sentido algum, impele-nos para as populares parangonas que pretendem disfarçar a insignificância do artista ele mesmo. O problema está em assustarmo-nos perante esta insignificância, o problema está em olharmos para o mundo com apenas um dos olhos, não conseguirmos perceber que na sua aparente hecatombe, no seio da intempérie, há todo um processo de renovação em marcha. Lemos os fragmentos de Empédocles, achamos piada ao mago, às duas grandes forças que, no mundo, orientam esse ser exilado e errante que é o homem: o Amor e a Discórdia (Ódio). Achamos piada, mas não fazemos disso lei. Preferimos embriagar-nos de discórdia, é muito mais fácil dizer que o mundo é uma merda a assumir que com a merda se estruma a beleza que atapeta os prados.

Vem-me à memória esse diálogo seminal saído da pena de Vergílio Ferreira (Para Sempre):

─ Que problema de merda é esse do absoluto e da morte?
─ Fala baixo que as tias podem ouvir.
─ Que problema de caca é esse de desocupados? Os teus problemas são um insulto para quem não tem que comer. Eu estou-me nas tintas para todo esse mistifório de meninos mimamos pela sorte. Quero lá saber do depois do depois. Quero é saber do agora, aqui, quero saber de problemas concretos, daqueles que se resolvem com as mãos, com os pés, no estômago. Toda essa metafísica de merda
─ Fala baixo
mas ele não parou.

E fez muito bem, agradeço-lhe. Duvido que possamos ilustrar melhor o estado actual da pátria do que chamando a atenção para o vazio discursivo desses «meninos mimados pela sorte» que, independentemente das subjectivas e individuais profissões de fé, nos parecem sempre mais papistas que o papa, esperando dos outros não o que eles são, mas o que a sua consciência preconceituosa concebe lá nos desígnios imponderáveis da preguiça de pensamento. Dar-se-ão bem com padres, tão acólitos e beija-mão se apresentam. Açaimados pela gravata do uniforme, prescindem de pensar por cabeça própria. E dizem: morte, morte, morte, morte, morte, criando em nós uma vontade imensa de responder: diz-me algo que eu não saiba já. Que vamos todos morrer, é dado adquirido. Há muito nos intoxicámos desse inevitável destino. Até lá, estamos vivos e até rimos e brindamos e sobrevivemos e fazemos coisas; mais do que construir refúgios, limitamo-nos a fazer coisas que não nos refugiam de nada senão de nós próprios, porque o que aqui está em causa não é a inadequação do mundo, pelo menos não tanto quanto a nossa inadaptabildiade. Se conseguirmos evitar os vicíos que reconhecemos aos outros, já não é mau. O melhor poema será sempre o da velhice, até lá andaremos na guerra:

SER VELHO

Entre as sombras daqueles galos e cães
dos quintais e currais de Sanaüja,
há um buraco de tempo perdido e chuva suja
que vê os meninos ir contra a morte.
Ser velho é uma espécie de pós-guerra.
Sentados à mesa da cozinha
em noites de braseiro a escolher lentilhas
vejo os que me amavam.
Tão pobres que no fim daquela guerra
tiveram de vender a miserável
porção de vinha e o casarão gélido.
Ser velho é a guerra já ter acabado.
Saber onde estão os refúgios, agora inúteis.



Ao alto: ilustração de Filipe Abranches, in Massive, VV.AA., vol. 8 da colecção CCC, Associação Chili Com Carne, Dezembro de 2009. O poema final é de Joan Margarit, in Casa da Misericórdia, trad. Rita Custódio e Àlex Tarradellas, OVNI, Outubro de 2009.

SIGMUND FREUD



Pássaro com as penas na boca
Já não se aguenta o psiquiatra:
Relaciona tudo com o sexo.

É das obras de Freud que vêm
As afirmações mais peregrinas.

Segundo este senhor
Os objectos de forma triangular
─ Esferográficas, pistolas, arcabuzes,
Lápis, canudos, bastões ─
Representam o sexo masculino;
Os objectos de forma circular
Representam o sexo feminino.

Mas o psiquiatra vai mais além:
Não só cilindros e cones
Quase todos os corpos geométricos
São para ele instrumentos sexuais
Até as Pirâmides do Egipto.

Mas a coisa não termina aqui
O nosso herói vai muito mais longe:
Onde nós vemos artefactos
Vemos, digamos, lâmpadas ou mesas
O psiquiatra vê pénis e vaginas.

Analisemos um caso concreto:
Um neurótico vai por uma rua
Subitamente volta a cabeça
Porque algo lhe chama a atenção
─ Uma bétula, umas calças às riscas
Um objecto que atravessa o ar ─
Na nomenclatura do psiquiatra
Isso quer dizer
Que a vida sexual do seu cliente
Anda pelas ruas da amargura.

Vemos um automóvel
Um automóvel é um símbolo fálico
Vemos um edifício em construção
Um edifício é um símbolo fálico
Convidam-nos para andar de bicicleta
A bicicleta é um símbolo fálico
Vamos acabar ao cemitério
O cemitério é um símbolo fálico
Vemos um mausoléu
O mausoléu é um símbolo fálico.

Vemos um deus cravado numa cruz
Um crucifixo é um símbolo fálico
Compramos um mapa da Argentina
Para estudar o problema das fronteiras
Toda a Argentina é um símbolo fálico
Convidam-nos para a China Popular
Mao Tse-tung é um símbolo fálico.
Para regularizar a situação
Há que dormir uma noite em Moscovo
O passaporte é um símbolo fálico
A Praça Vermelha é um símbolo fálico.

O avião deita fogo pela boca.
Comemos pão com manteiga
A manteiga é um símbolo fálico.
Descansamos um pouco num jardim
A borboleta é um símbolo fálico
O telescópio é um símbolo fálico
O biberão é um símbolo fálico.

Num capítulo diferente
Vêm as alusões à vulva.
Vamos omiti-las por decoro
Quando não a comparam a um mocho
Que representa a sabedoria
Comparam-na com sapos e com rãs.

No aeroporto de Pequim
Faz um calor infernal
Esperam-nos com flores e refrescos.
Nunca tinha visto flores tão bonitas
Desde que faço uso da razão
Nunca tinha visto gente tão amável
Desde que o mundo é mundo.
Nunca tinha visto gente tão alegre
Desde que os planetas são planetas.

Desde que fui lançado
Para fora do paraíso terrestre.

Mas voltemos ao nosso poema.

Ainda que pareça estranho
O psiquiatra tinha razão
No momento de atravessar um túnel
O artista começa a delirar.
Para começar levam-no a uma fábrica
É aí que a loucura começa.

Sintoma principal:
Relaciona tudo com o acto
Já não distingue a lua do sol
Relaciona tudo com o acto
Os pistões são órgãos sexuais
Os cilindros são órgãos sexuais
As máquinas órgãos sexuais
As manivelas órgãos sexuais,
Os altos fornos órgãos sexuais
Porcas e parafusos órgãos sexuais
Locomotivas órgãos sexuais
Embarcações órgãos sexuais.

O labirinto não tem saída.

O Ocidente é uma grande pirâmide
Que começa e termina num psiquiatra:
A pirâmide está por desmoronar.



Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF

Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

PIOLHO 001

Depois de A Revista Filha da Puta, Marquesa Negra ou Última Geração, António da Silva Oliveira (n. 1958), “enfant terrible” das letras lusas, volta a agitar as águas com a revista Piolho (n.º 1, Maio de 2010). Não é preciso muito para pôr a circular este género de “fanzine poético”. Basta a cumplicidade de uns tantos escribas, folhas A4 dobradas e agrafadas, a crueza do objecto em sintonia com a crueza das palavras. Com A. Dasilva O. sempre foi assim. Conhecemo-lo enquanto autor de alguns dos livros mais abjeccionistas de que há memória em Portugal: de Chocolates Choupe la Peace a Coração Sujo, de Excrementos a Peidinhos, de Punhetas de Wagner a Teatro d’Abjecção. Além de escritor, foi livreiro na extinta Pulga, é editor das Edições Mortas, vem sendo, desde os idos de 1980, um coerente e obstinado perturbador do marasmo nacional. Piolho, a revista, é só mais «uma sebenta que circula de mão em mão / Nesse charco que É o POEMA / COM NOVE BURACOS / QUE SANGRAM escárnio e maldizer / nesta época em que os poetas / se crepusculizam». Maldita seja.

Coordenado a quatro mãos (Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho, Ricardo Álvaro e A. Dasilva O.), o primeiro número abre com uma prosa-manifesto, assinada por A. Dasilva O., intitulada Os Malefícios da Literatura. O programa está estabelecido: «dizer a verdade contra os representantes da ordem social estabelecida» (p. 3). Mais à frente, do mesmo autor, alguns poemas retomarão o tom, denunciando a «paz podre» que tomou conta do poema (entenda-se puésia), ao mesmo tempo que procuram expelir toda a porcaria que a maquilhagem sobre o corpo procura disfarçar e dissimular. Estes textos são como uma lição de anatomia, a sua “visceralidade” não deixa margem para ilusões. Opondo-se à contaminação do sonambulismo social, despertam no leitor a utopia da verdade. Na verdade, resta-nos admitir que não há verdade alguma que não possa ser resumida à paradoxal insignificância do ser. Parte-se do princípio que é preciso desinchar o ser de Ser, mostrar-lhe a sua composição e (des)construir a literatura a partir deste pressuposto. A literatura só tem a agradecer tanta clareza, embora nos custe acreditar que ao entrar-lhe o discurso por um ouvido não venha logo a sair-lhe pelo outro.

Poemas de António Barahona e de Fernando Guerreiro, assim como os três poemas de m. parissy que se seguem, são bons argumentos. Oferecem-nos um lugar despreocupadamente à margem dos decretos oficiais. Sendo o que são e sem que façam disso intenção, desrespeitam esses decretos. A poesia de tom confessional, elegíaco, meramente descritiva ou memorialista, que vem fazendo escola, assim como as preocupações de embelezamento imagético com metáforas por vezes inalcançáveis, não têm assento nesta anti-cátedra. Por aqui não passa qualquer tipo de ambição iniciática, nenhum desejo de figurar nas antologias, nos compêndios, nenhuma ansiedade baptismal, nenhuma preocupação com ecos mediáticos ou mediúnicos (que também os há, especialmente nas abadias onde se cozinham todo o tipo de simpatias e afeições). Ironicamente, fecha esta Piolho com três traições aos poemas do checo Jaroslav Seifert (1901-1986), Prémio Nobel da Literatura de 1984. Responsabiliza-se pelo acto terrorista Sílvia C. Silva, que também assina três textos em apetitoso registo de metáfora gastronómica.

Versos de Humberto Rocha, Pedro Águas, Ricardo Gil Soeiro, A. Pedro Ribeiro, Zarelleci, Miguel Martins, João Pereira Matos, Ricardo Vil e Ricardo Álvaro, assim como narrativas de Raul Simões Pinto, Nuno Brito e Rui Costa, mais um drama de Suzana Guimarães, compõem o resto do ramalhete. Sem escapar a uma postura mais ou menos ensaiada de contrapoder, alinham-se rimas em toada rap (Suzana Guimarães), sátiras de inspiração picaresca (Miguel Martins), incursões pelos timbres exóticos do Brasil (Rui Costa), etc. Escatologia, anticlericalismo, sexualidade explícita, situacionismo, um certo culto da maledicência, intervenção anarquista, terrorismo poético, são alguns dos chavões que podemos utilizar para caracterizar os conteúdos da Piolho – um objecto que me faz acreditar nem tudo ser, na poesia portuguesa, à moda kantiana, ou seja, conforme o dever. Não consegui apurar a autoria das ilustrações.
Escrito para o Rascunho.

Quarta-feira, 28 de Julho de 2010

PLANO B


Portanto, a questão é esta: «If we are here not to do / What you and I wanna do / And go forever crazy with it / Why the hell we are even here?» Faz bricolage do peito, recolhe de cada um dos teus poros os vermes de Dylan Thomas, prime o botão para que se dê início ao Plano B. Perante ultimatos, como os recentemente aprovados pela comunidade cigana da qual és parte integrante, retém-te nos vibradores domésticos, corta o cordão umbilical, cresce um pouco, que é como quem diz ─ deixa de olhar só para o teu umbigo e toma a barriga pelo todo. Lá dentro estão filhos que te obrigam a pensar para lá do umbigo, um cão doente, presidentes, bilionários, generais, amantes estrangeiras e uma grande dor. Toma: a Faixa de Gaza preocupa-te, os poetas não; a fome em África preocupa-te, frangos depenados não; a prostituição infantil preocupa-te, assim como o aumento do IVA ou o Programa de Estabilidade e Crescimento que têm vindo a fomentar a prostituição adolescente, adulta e da terceira idade. Os bordéis onde avistas a identidade do demónio, passeando de saltos altos, desnudado, numa passarela atapetada de vermelho, com câmaras digitais em vez de espingardas apontadas ao luxuoso modelo, enquanto lá fora os profetas declamam excertos bíblicos de cor, como se carecessem de salvação, como se a salvação não fosse apenas mais um momento encenado desta grande festa, tudo isso te preocupa. Os poetas não. Os poetas preocupam-te apenas enquanto espécie em vias de extinção, uma espécie, infelizmente, autofágica, maníaca e obsessiva. Portanto, a questão é esta: tal como o tio Sandro, também tens experienciado um absoluto sentimento de desorientação. Mas não tens o seu engenho, por aqui não te esperam haréns como os da Toscânia. Como sobreviver neste desperdício de oportunidades? Como dar corda aos relógios? Como viver sem fazer da estupidez, da ignorância e da prepotência um abismo à beira do qual nos sentimos tentados a dar um passo fatal? «Give me a vision when I got none». Dando asas ao subconsciente, guardando-te numa caixinha depositada no lado esquerdo do peito, fazendo de cada um dos pulmões frequências do amor, apelando à compreensão dos violinos, sendo, talvez, um pouco mais exigente com o cântico dos pássaros e ansiando pela generosidade dos grilos, rezando para que a pesca seja pródiga, caminhando com uma mão no bolso e a outra no assobio, assobiando para o ar a esperança de uma vontade reprimida e aguardando que o vento nos baptize com o bafo dessa esperança há muito renegada. Os homens são uma fonte de contradições, mas as contradições são um caudal de ideias onde largamos à deriva a nossa voz. Tiveste um pai e uma mãe para desconhecê-los. Hoje, são apenas estranhos que se cruzam nos subterrâneos da família. Tens batidas de plástico no coração. Em termos de laços, calha-te sempre que de quem gostas não goste de ti e quem gosta de ti ou te é indiferente ou simplesmente insuportável. Portanto, dança, dorme, bebe, fuma. «What da hell can you do, my friend?» Há-de haver sítios onde ninguém te multará o excesso de inspiração, há-de haver pelo menos um lugar onde ninguém te censurará a respiração tribal, sem método nem razão, onde ninguém se atreverá sequer a supor conspiração onde apenas existe vontade de cantar, livremente, espontaneamente, sem outro sentimento que o da pura improvisação. Ahhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!! «Spread good music and good poetry». Dissemina o álcool do desejo, semeia os incêndios da paixão, cospe o fogo das palavras, não brinques com coisas sérias, não faças da sobrevivência um espectáculo, não caias na vulgar ratoeira das greis, sem que dês por isso terás a cara maquilhada e não passarás de um palhaço, e os palhaços podem entreter as crianças, mas estão longe, muito longe, de serem crianças, transforma-te tu numa delas, recupera o sorriso que o tempo te usurpou, apaixona-te pelas bruxas e pelos magos, pelas sereias e pelas fadas, reinventa os mitos no fundo de uma garrafa, distribui talhadas de melão fresco pelos amigos, pensa que amanhã nenhum país te cuidará dos ossos como podes tu agora fazê-lo. Reúne todos os vermes de Dylan Thomas e mete-os a dançar ao som de Gogol Bordello. Verás que, por momentos, resulta. Mais que uma sucessão de breves e fugazes momentos não é a vida.

UM POEMA DE HUMBERTO ROCHA




Leitora no café

Subia a mão
até à boca
molhava o dedo
parava os olhos
e virava a página.
Ou o tédio tinha anemia
ou o braço
um embaraço.


In Piolho 001, Revista de Poesia, coordenação de Sílvia C. Silva, Meireles de Pinho, Ricardo Álvaro e A. Dasilva O., Edições Mortas, Maio de 2010, p. 14.

Terça-feira, 27 de Julho de 2010

NÃO PRIVATIZEM OS NOSSOS NEURÓNIOS

A meio do primeiro número da revista Piolho, sobre o qual conto escrever qualquer coisa antes de me meter à estrada, deparo-me com um remate sinistro numa prosa intitulada Um País sob Escuta (p. 23). O autor é Raul Simões Pinto:

Efectivamente, vivemos tempos de crisomania e de medos constantes e depressivos; mas por favor, não privatizem os nossos neurónios, nem as nossas paranóias mais íntimas… Deixem-nos ao menos Sonhar e sentir o calor da Liberdade…

Aquela possibilidade de me privatizarem os neurónios deixa-me perplexo, pois não os sabia públicos. No entanto, o autor do texto tem toda a razão: a quem deseja sonhar e sentir o calor da Liberdade, não há como retirar-lhe o direito a ser proprietário de si próprio. Transformando as pessoas em património público, sempre lhes sobra com o que sonhar - e eu já não sei se sou dono de mim próprio, seja naquilo que for. Portanto, não me privatizem os neurónios, que os mantenham públicos e façam com eles o que eu jamais saberei fazer.

AS PESSOAS

Em tempos de céu nublado e temperaturas amenas, as pessoas queixavam-se de que o sol não se via, queixavam-se do Verão frouxo, de uma luz triste e elegíaca (isto sou eu a tentar fazer poesia à maneira de alguns dos meus contemporâneos). Agora que o Sol resolveu mostrar-se em todo o seu esplendor, elevando as temperaturas ao sufoco das paredes dissolventes (isto sou eu a tentar fazer poesia à maneira de alguns outros dos meus contemporâneos), as pessoas queixam-se do calor insuportável. As pessoas dizem que é do tempo, mas só porque evitam olhar para si próprias. Se olhassem, constatariam que não é do tempo. É mesmo delas.

CARTÕES DE CRÉDITO

Camarada Van Zeller, há muito que não trocamos umas palavras sobre o assunto. Não sei se ouviu dizer, mas alguns camaradas ex-administradores do BCP vão a julgamento. Como sabemos, ir a julgamento em Portugal é como entrar num comboio para uma viagem de duração interminável. A ver vamos se chega a bom porto, este comboio descendente. Para já, os media não atribuem grande destaque ao tema. Há assuntos mais prementes, como sejam um rei dos gnomos que vivia num castelo e era atacado por leitõezinhos enquanto tentava dar banho a um javali fazendo uso do seu poder electromagnético para evitar que 76% da faixa costeira portuguesa desapareça na sequência de um terramoto a ocorrer no próximo dia 8 de Agosto. Dito isto, devo dizer que a minha relação com a banca é, sem tirar nem pôr, como a do rei Ghob com a lucidez, ou seja, praticamente nula. Nunca contraí empréstimos e dispenso cartões de crédito. Já tive um e não gostei. Andava com aquilo na carteira como um viciado em nicotina que está a tentar deixar de fumar mas anda com um maço de tabaco no bolso. Uma tortura. Limito-me a uma conta onde vai caindo o vencimento à razão de uma política cada vez mais inevitável: chapa ganha, chapa gasta. Por isso, caro camarada, espero que se faça justiça, embora acredite tanto nessa possibilidade como no poder da ira do rei Ghob.

TELEMÓVEL

Digo a um amigo que praticamente deixei de usar o telemóvel. Quase só o tenho para me servir de despertador e para tirar fotografias. Ele espanta-se e indaga sobre como farei eu se tiver uma urgência. Meu amigo, passámos toda a infância sem telemóvel, entrámos e saímos da adolescência sem telemóvel, fizemos ambos um InterRail de um mês sem telemóvel, começámos a trabalhar sem telemóvel. Não me consta que antes de termos tido telemóvel a nossa vida estivesse menos exposta a urgências do que agora. Além disso, da última vez que precisei do telemóvel no decorrer de uma urgência, ele não me serviu para nada. Estava sem saldo.

ARRUMOS

Passei a tarde a arrumar estantes e gavetas. Quatro sacos de papelada para o lixo, incluindo revistas, recortes, folhetos de exposições, planificações, textos vários, testes, trabalhos de alunos que foram ficando por aqui, etc. Também enchi dois caixotes com livros lidos que já não me apetece ter nas estantes. Por que terei desperdiçado tempo a lê-los? Sentei-me no sótão a olhar para pelo menos duas décadas de livros acumulados, filmes, CDs. Poderia desfazer-me de mais de metade que não daria pela falta de nada. São poucos os livros, os filmes, é pouca a música de que sentiria realmente falta se me faltassem. Não posso estar certo disto, é verdade, mas pressinto-o. Podia oferecer centenas de livros que tenho cá por casa, mas estão todos sublinhados. Se alguém os quiser sublinhados, dou-os. A música e o cinema, ficará por cá à espera das filhas. Se quiserem, que voltem a dar uso ao que eu já não dou. Com os livros é diferente. Como não consigo ler um livro emprestado, porque tenho de sublinhá-los, anotá-los, rasurá-los, porque tenho de feri-los, convenço-me de que elas não terão paciência para passar por cima dos meus sublinhados. Também elas quererão atentar contra a memória universal contaminando as intactas páginas dos canhenhos com as suas próprias caligrafias. Pelo menos, tenho a certeza de que se algum dia me faltar lenha no Inverno não passarei frio. Faço uma fogueira com os livros.

ÁREA AFECTADA




As pessoas felizes são aquelas que não ignoram o mundo
porque elas vagueiam como uma luz rara
e apresentam-se com uma intensa serenidade
tão hábeis e tão perfeitas.

É limpo o coração dessas pessoas
absorvem os nossos dias loucos
e acendem inúmeras velas emocionais diante da nossa vida.

O amor é o fósforo dos actos das pessoas felizes
e elas transportam a chama e queimam
os erros dos corações nocturnos
deixam vestígios de brilho nos sentimentos vazios
em cada passo de luz sobre um rosto desconhecido
.


Fernando Esteves Pinto, in Área Afectada, Temas Originais, 2010, p. 45.

LEITURAS DE VERÃO

A poucos dias de partir para umas mais que merecidas e ansiadas férias, o único desassossego é o das opções de leitura. Tenho mais olhos que barriga. Não terei tempo para tanto, ainda assim apetrecho a mala das leituras a ponderar humores variáveis:
- Short Shorts, VVAA (Bantam Books, 1983);
- Poesía y poética, Vicente Huidobro (Alianza Editorial, 1996);
- Fome, Knut Hamsun (Cavalo de Ferro, 2008);
- A Confiança em Si, A Natureza e Outros Ensaios, Ralph Waldo Emerson (Relógio d’Água, 2009);
- Pornografia e Obscenidade, D. H. Lawrence (Frenesi, 2009);
- Adoecer, Hélia Correia (Relógio d’Água, 2010);
- A Amante Holandesa, J. Rentes de Carvalho (Quetzal, 2010);
- Ágape, Agonia, William Gaddis (Ahab, 2010).
Se ainda chegar a tempo, juntar-se-á a esta caótica selecção o novo livro de poesia da Inês Lourenço. Para o caminho, se a Ana não se importar de ir a conduzir, levo no bolso Raso Como o Chão, de Álvaro Lapa (Estampa, 1977). E tu, leitor, já escolheste as tuas leituras para férias? Já tiraste férias? Vais tirar?

ESTAR ATENTO

Se te disserem, leitor, é um poeta que merece ser seguido com a máxima atenção, não ligues. Atenta-te antes aos teus filhos, se os tiveres; segue com atenção o mundo, tudo aquilo que está nas tuas mãos melhorar para que ele não seja tão irrespirável. Não sigas o poeta nem com máxima nem com mínima atenção. Lê-lhe os livros, isso basta. Depois, deixa-o em paz.

Domingo, 25 de Julho de 2010

QUANDO AS COISAS PARTIRAM

Porque quando partiram, as coisas estavam bem melhores. Basta pensarmos nas casas dos homens. Não tinham máquina de café, microondas, a roupa e a louça lavavam-se à mão. As mãos ficavam um pouco encardidas, é certo, mas estimulava-se a indústria do sabão azul, das pomadas e dos cremes. Não havia computadores, esse demónio que veio fazer da televisão um ingénuo energúmeno. Não havia televisão, leitor de DVD ou cassetes de vídeo. Havia muito mais tempo, um bem precioso que o homem foi aprendendo a desperdiçar ocupando-se das mais inúteis tarefas, tais como coleccionar séries ridículas, previsíveis, ocas. As casas não tinham casa de banho, obrigavam o homem a libertar-se fora das quatro paredes onde hoje vive enjaulado. Este é um pormenor muito relevante, pois o homem começou a deixar de ser homem quando pretendeu disfarçar o seu odor com fragrâncias ludibriantes. O homem inventou um montão de utensílios para ter mais tempo, para poder desperdiçar o pouco tempo que tem com actividades que a não serem realizadas ninguém daria pela falta delas. Para poder ter mais tempo, o homem deixou de ter tempo. Não havia aparelhos de som, nem rádios, nada que preenchesse o saudável silêncio com o ruído stressante da música moderna. As coisas partiram do silêncio para chegarem a este ruído insuportável. Ah, a música, a música, essa indústria de ruídos descartáveis que nos veio roubar o ócio que só o silêncio oferece. Sirenes, buzinas, retroescavadoras, máquinas, ferro, a música. E nesse tempo em que as coisas partiram não havia nada disto, nada de estantes abarrotadas de livros que ninguém tem tempo para ler, repletos de empoeiradas ideias acerca das quais ninguém tem tempo para pensar, ideias que geram ácaros e provocam alergias, dermatoses, problemas respiratórios. Só servem à indústria farmacêutica. No tempo em que as coisas partiram, eram outros os medicamentos, medicamentos que se limitavam a tratar sem efeitos secundários as maleitas que agora são invariavelmente trampolins para outras viroses. As coisas respiravam melhor antes de terem partido. Porque houve um tempo em que nem casa as pessoas tinham. Andavam de cá para lá, montavam tenda, não contraíam empréstimos, não se enforcavam com dívidas, não se matavam por sufocantes e anestesiantes mensalidades. Dantes as casas eram um abrigo, agora são um perigo iminente. Se recuarmos um pouco, repararemos que houve inclusive um tempo em que nem roupa as pessoas tinham. Andavam nuas e não sentiam vergonha por isso. Talvez tivessem um pouco de frio, mas que mal fazia sentirem frio na pele se agora sentem os corações enregelados? E talvez tivessem um pouco mais de fome, talvez andassem descalços, talvez fizessem feridas nos pés, nada que não fosse preferível às artroses provocadas pelos solas modernas, pelos asfaltos de agora. Quando as coisas partiram estavam muito melhores. Chegaram a este estado, neste estado, para quê?

Escrito para O Indesmentível.

NÃO ENTRES DOCILMENTE NESSA NOITE SERENA



Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis acções ter dançado na baía verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.



Dylan Thomas, in A Mão ao Assinar Este Papel, trad. Fernando Guimarães, Assírio & Alvim, 2.ª edição, 1998, p. 41.

Sexta-feira, 23 de Julho de 2010

MIL NOVECENTOS E TRINTA


Mil novecentos e trinta. Aqui começa uma época
Com o incêndio do dirigível R101 que caiu à terra
Envolto em negras lufadas de fumo
E em chamas que se vêem desde o outro lado do Canal
Eu não ofereço nada de especial, eu não formulo hipóteses
Eu sou apenas uma câmara fotográfica que passeia pelo deserto
Sou um tapete voador
Um registo de datas e de feitos dispersos
Uma máquina que produz uns quantos botões por minuto.

Primeiro mostro os cadáveres de Andrée e dos seus infortunados

companheiros
Que permaneceram ocultos na neve setentrional durante
meio século(1)
Para serem descobertos num dia do ano mil novecentos e trinta
Ano em que eu me situo e de certo modo sou situado
Assinalo o local preciso onde foram dominados pela tormenta
E nesse lugar o trenó que os conduziu aos braços da morte
E o bote cheio de documentos científicos
De instrumentos de observação
Cheio de víveres e de um sem-número de placas fotográficas.

De seguida remonto a um dos picos mais altos do Himalaya
Al Kanchetunga, e observo cepticamente a brigada internacional
Que tenta escalá-lo e decifrar os seus mistérios
Vejo como o vento lhes resiste várias vezes no ponto de partida
Até semear neles o desespero e a loucura
Vejo alguns deles resvalarem e caírem ao abismo
E vejo outros a lutarem entre si por umas latas de conserva.

Mas nem tudo o que vejo se reduz a forças expedicionárias:
Eu sou um museu ambulante
Uma enciclopédia que abre caminho através das ondas
Registo todos e cada um dos actos humanos
Basta que algo suceda em algum ponto do globo
Para que uma parte de mim mesmo se ponha em marcha
Nisso consiste o meu ofício
Concedo a um crime a mesma atenção que a um acto piedoso
Vibro da mesma maneira frente a uma paisagem idílica
Ou ante os raios espasmódicos de uma tempestade eléctrica
Eu não desvalorizo nem exalto nada
Limito-me a narrar o que vejo.

Vejo Mahatma Gandgi dirigir pessoalmente
As manifestações públicas contra a Lei do Sal
Vejo o Papa e os seus Cardeais afogueados de ira
Fora de si, como que possuídos por um espírito diabólico
A condenarem as perseguições religiosas da Rússia soviética
E vejo o príncipe Carol regressar a Bucareste num aeroplano
(2)
Milhares de terroristas croatas e eslovenos são executados
em massa na minha ausência
Eu deixo fazer, deixo passar
Deixo que sejam assassinados tranquilamente
E deixo que o general Carmona se agarre como uma lapa

ao trono de Portugal.

Este fui e estou é o que fui no ano de mil novecentos e trinta
Assim foram exterminados os kulaks da Sibéria
Deste modo o general Chang atravessou o rio Amarillo

e se apoderou de Pequim
Desta e não de outra maneira se cumprem as profecias
dos astrólogos
Ao ritmo da máquina de costurar da minha pobre e viúva mãe
E ao ritmo da chuva, ao ritmo dos meus próprios pés descalços
E dos meus irmãos que se coçam e falam em sonhos.


Nicanor Parra, in Otros poemas [1950-1968]
Versão de HMBF




(1) Sobre a expedição árctica de S. A. Andrée, ver aqui.
(2) Carol II da Roménia. Ver aqui.

1 DIA

8 horas encafuado dentro de uma loja. Mais uma 1 hora para o almoço. São 9 horas. 1 hora para ir buscar as filhas, meia hora para lá, meia hora para cá. 10 horas. Restam-me 14 horas. Na melhor das hipóteses, 6 horas na cama. Não necessariamente a dormir. Fico com 8 horas. 1 hora para o jantar. Restam-me 7 horas. A higiene pessoal, meia hora de manhã, meia hora à noite, um pouco mais, talvez, sobretudo de manhã. 6 horas. Menos uma hora para afazeres domésticos vários, tais como limpar mijo de cão, passar pelo supermercado, Correios, pagar contas (foda-se, agora que penso nisso, esqueci-me de pagar o novo CD do Fernando Dinis)… Que fazer com as 5 horas diárias que me restam? Raramente cozinho, diria mesmo que muito excepcionalmente. Limpo o pó à caverna uma vez por ano, não mais. Tenho uma santa mulher. Se algum dia vier a viver sozinho, viverei como um índio. Ou como o cigano ao pé do qual vivi 17 anos da minha ainda curta vida. Gosto das teias, fazem-me companhia. 5 horas. Ler, ouvir música, ver filmes, andar a pé, desenhar, brincar, olhar para o tecto. Ler, por exemplo, Alexander Sokurov: «O tempo é irrepetível: uma hora e meia na vida de uma pessoa, ninguém nos devolverá esse tempo». Sublinhar a frase, levá-la a sério o dia inteiro, viver debaixo dela como se ela fosse um toldo a proteger-me dos perdigotos largados por quem faz de nós um problema. Tenho 5 horas por dia para viver, não posso desperdiçá-las com imbecilidades. Cada qual ocupa o seu tempo como bem entende. Do meu, trato eu.

Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

NO PRINCÍPIO



No princípio era a estrela de três pontas,
Um sorriso de luz através do rosto vazio;
Um galho de osso através do ar enraizador,
A bifurcada substância que medulou o sol primevo;
E cifras ardentes à volta do espaço,
O Paraíso e o Inferno misturados enquanto rodopiavam.

No princípio era a pálida assinatura,
De três sílabas e estrelada como o sorriso;
E depois vieram as impressões na água,
Selo da face cunhada sob a lua;
O sangue que tocou no mastro em cruz e o graal
Que tocou a primeira nuvem e deixou um sinal.

No princípio era o fogo fundador
Que de uma faúlha ateou os climas,
Faúlha de três olhos rubros, brusca como uma flor;
A vida surgiu e jorrou dos mares ondeados,
Irrompeu nas raízes, bombeando da pedra e da terra
Os óleos secretos que adubam os prados.

No princípio era o verbo, o verbo
Que das sólidas bases da luz
Abstraiu todas as letras do espaço vazio;
E das sombrias bases do hálito
O verbo fluiu, traduzindo para o coração
Os primeiros caracteres do nascimento e da morte.

No princípio era o cérebro secreto.
O cérebro estava fechado e soldado no pensamento
Antes de as trevas terem sido deslocadas para um sol;
Antes de as veias terem vibrado na sua peneira,
O sangue disparou e disseminou pelos ventos de luz
O nervo original do amor.



Dylan Thomas, in 18 Poems (1934)
Versão livre de HMBF

CITATIONS


Era uma vez um jovem escritor. «Trabalho para o devir», disse. E deu um tiro na cabeça pois queria fazer obra útil.

Boris Vian, in Boris Vian por Boris Vian, trad. Sarah Adamopoulos, Fenda, Junho de 2006, p. 94.

SLOGAN: NINGUÉM NA FÁBRICA!

Julgo que era Agostinho da Silva quem dizia, na senda de outros muito antes dele, que o homem não foi feito para trabalhar. Um axioma destes determina o que possamos pensar acerca da vida, nomeadamente em termos políticos. Há uma ideia simples que separa as águas, com a clareza indubitável das ideias simples: para uns o homem está ao serviço da economia, para outros a economia deve estar ao serviço do homem. Revi-me sempre nos últimos. Não consigo sequer conceber o argumento de que é o homem quem deve estar ao serviço da economia. Pessoalmente, prescindo de toda a quinquilharia conquistada, a preço de escravatura, em nome de um putativo conforto que tem vindo a predominar de modo absolutamente ditatorial uma suposta evolução da humanidade. Nisso a que chamam evolução eu vejo apenas o agravar das velhas assimetrias sociais, uma máquina de explorar, física e psicologicamente, os indivíduos mais dependentes financeira e materialmente. Faço minhas as palavras de Boris Vian: «Foi-lhes dito: «O trabalho é sagrado, é bom, é belo, é o que verdadeiramente conta, e apenas os trabalhadores têm direito a tudo.» Mas depois põem-nos a trabalhar o tempo todo, e então eles não podem aproveitar.» A vida não faz sentido sem tempo, sem ócio, sem preguiça. É óbvio que o trabalho é condição sem a qual não se sobrevive, mas para se desejar sobreviver é importante alimentar a ambição de viver. 22 dias de férias por ano, muitas vezes distribuídos/(re)partidos não em função da vontade daquele que trabalha, mas coercivamente por quem dá trabalho, por quem emprega, não chegam. Roubar aos cidadãos o direito às folgas semanais, aos feriados, obrigando-os a trabalhar em nome daquilo a que chamam “a saúde das empresas”, acenando-lhes com recompensas miseráveis que servem apenas para compor vencimentos vergonhosos, é o princípio de uma terrível doença social. Os feriados deviam ser feriados, momentos de celebração e reflexão, descanso, folia. Os feriados deviam ser momentos de libertação e recompensa. Os fins-de-semana idem. Trabalhar aos fins-de-semana só beneficia as carteiras de quem não tem que trabalhar ao fim de semana, prejudicando a família, o direito ao silêncio, a confraternização. Toda a actividade comercial devia parar nesses dias. A sobrevivência devia parar nesses dias, de modo a que todos pudessem viver um pouco mais e sobreviver um pouco menos.

A SITUAÇÃO TORNA-SE DELICADA

Basta olhar o sol
Através de um vidro fumado
Para ver que a coisa vai mal;
Ou parece-vos que vai bem?

Eu proponho regressar
Aos coches puxados por cavalos
Ao avião a vapor
Às televisões de pedra.

Os antigos tinham razão:
Há que voltar a cozinhar a lenha.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF

Quarta-feira, 21 de Julho de 2010

UMA VIAGEM À COSTA RICA


I

Entrei no aeroporto pelo lado das chegadas, mesmo a tempo de me cruzar comigo, três dias depois, carregado com as prendas para a família e as inúteis recordações de mais uma viagem.
Três dias depois, ida e volta, não antes nem no preciso momento em que centenas de pessoas iam avançando nas filas para o
check-in, eu que seria apenas mais um, daí a pouco, após me perguntar pela viagem que não havia ainda começado.
Após reconhecer que passei bem, de ânimo e de saúde, pronto para ver o que já vi, agregado por palavras torpes e de novo pulverizado. Como um fruto partido, um fruto tropical, exótico.
Que ganhei um bonito tom de pele, as temperaturas elevadas, de humidades nem falar, e que um espelho quebrado não é forçoso que obrigue a sete anos de azar, isso tudo frente a frente, depois de cada um de nós mostrar o passaporte ao agente de segurança, eu a chegar pelas chegadas, eu a partir pelo lado das chegadas, um pouco surpreendido, o agente a duvidar. E sempre esta indecisão entre chegar e partir, mesmo quando já deixou de ser possível voltar atrás, que sim, que venho bronzeado, de bom humor, quando me cruzo comigo tenho de reconhecer que melhorou o meu aspecto e que até pareço uma pessoa feliz.
O avião levantava voo da Portela e eu só pensava no bom que é chegar a casa. E quando me lembrei de que é assim de cada vez respirei fundo, colei-me ao assento e fechei o caderno dos poemas (que desastre, os versos, tão repetidos quanto a vida). Não me assustava com a turbulência nem com as aterragens, duas para lá e outras duas para cá, apenas tive medo, um medo súbito, inclassificável, no momento em que me cruzei comigo, três dias depois, dirigia-me eu ao balcão do
check-in, de que as recordações que trazia comigo não correspondessem às que levava para mais uma viagem.


José Ricardo Nunes, in Uma Viagem à Costa Rica, Edição do Autor, com fotografias de Margarida Araújo, Junho de 2010, pp. 5-6.

"A POESIA NÃO INTERESSA". O PAÍS REAL SIM. ALGUÉM QUE O COMPREENDA:

Hoje de manhã, a caminho da praia, meto gasóleo. A minha mulher chega-me com o Jornal de Notícias, inteiramente grátes. O Jornal de Notícias, que é o melhor jornal do país, porque é o único a publicar as crónicas do Manuel António Pina, é também um dos piores jornais do país, um diário tristonho com primeiras-páginas de sensação.
A manchete do
JN tratava, em duas ou três página, dos crimes cometidos por um saloio anormal, lá para os lados da Praia de Santa Cruz. É uma merda destas que o JN tem para parangonear ao país -- apesar de outro tema, esse sim, relevante e preocupante, como o é o da erosão costeira figurar na primeira página, e muito bem.
É evidente que o bom do cidadão está-se a cagar para a erosão costeira, excepto quando ela lhe bata à porta ou a porcaria dos telejornais tragam imagens de homenzinhos a chorar as suas casinhas clandestinas que o mar entretanto ameaça devorar. Aí, sim, o bom do cidadão interessa-se.
Oito da noite, começo a fazer zapping, aparece-me o jornal da TVI a abrir com o anormal saloio de Torres Vedras. Cheio de nojo, menos do parolo que dos directores de informação, fui-me lavar do sal da praia.


HOMEM AO MAR


Se o problema se resume a provar que podemos viver livres, então estamos irremediavelmente condenados ao desastre. É verdade que os homens tendem a exigir mais dos conceitos do que os próprios podem dar. O conceito de liberdade, por exemplo, foi ao longo dos séculos banqueteando todo o género de doutrinas. O tema é complexo, o conceito dificilmente poderá ser pensado por si só, tão interligado que está com outros conceitos. Começa aqui o paradoxo: a liberdade, enquanto conceito, prende-se a outros conceitos, está cativa da relação que estabelece com outros conceitos. A liberdade está encarcerada nos esquemas de pensamento que lhe atribuem esta ou aquela configuração. No entanto, podemos simplificar um pouco o problema se pensarmos que, do ponto de vista de um sujeito, a liberdade afirma-se, sobretudo, pela sua ausência. Sabemos o que ela é quando nos falta. É certo que a palavra foi inflacionada, mas também não é menos verdade que essa inflação carrega aos ombros séculos inteiros de servidão, subjugação, escravatura, repressão, medo, coerção, etc. Sejamos pragmáticos.

Habituámo-nos, sob o toldo sartriano, a pensar a nossa liberdade a partir da relação que mantemos com os outros, responsabilizando o homem pelas suas acções, reduzindo-o a um projecto realizável na medida da vontade e do desejo. Para conquistar o destino, tomando-nos das mãos de Deus, Sartre parece (por vezes) esquecer a tirania das circunstâncias sobre a maleabilidade das vontades. «Estamos sós e sem desculpas», diz. Mas acrescenta: «O homem é uma paixão inútil». Se a nossa liberdade depende da liberdade dos outros e, por sua vez, a liberdade dos outros depende da nossa liberdade, sendo ela intrínseca à condição humana, cabe perguntar: em que contexto pode a nossa liberdade afirmar-se livremente? A tendência do artista é dizer que a arte é essa floresta na qual o ser humano prova que pode ser livre, independentemente dos rígidos moldes da sociedade. Levado à letra, este tipo de raciocínio incorre no risco de omitir o papel da sociedade na afirmação da expressão livre ─ desde logo, porque é ela que nos fornece os tapumes que importa transcender, as grades que convém torcer, os obstáculos que desafiam a nossa consciência e nos permitem dizer não.

É igualmente à sociedade que vamos buscar as ferramentas e os motivos, é ela que nos põe à disposição a linguagem para que possamos reescrever a vida e romper as fronteiras do discurso mais vulgar e superficial. Portanto, a nossa liberdade afirma-se sempre em confronto com aquilo que a ameaça. Pior quando a sua maior ameaça é o indivíduo (ele mesmo, o outro), o qual, por conveniência, desleixo ou precisão, opta por submeter-se ao arbítrio alheio. Ainda assim, é a sua opção, mais ou menos condicionada, que está em causa. É por essa opção que ele deverá responder. Santo Agostinho, para quem o livre arbítrio era o acto de decidir ou optar livremente, dizia que «um ser que peca por livre vontade, é melhor que o que não peca por não ter vontade livre» (O Livre Arbítrio). Ainda que ao homem tenha sido outorgada essa livre vontade, inclusive de optar pela inacção quando for esse o seu desejo, parece-me no mínimo razoável não esperarmos mais da nossa liberdade do que esta possibilidade de entre vários rumos optarmos pelo que mais nos convém.

Ora, é precisamente na opção pelas conveniências que podemos distinguir as acções dos homens. Os porquês são sempre interrogações acerca das conveniências momentâneas. Mais: é precisamente pelas opções, nas quais incluímos a recusa ou a resistência, nas quais incluímos a possibilidade do indivíduo se negar, projectar-se e partir para uma outra situação que não aquela que o confina, é precisamente neste contexto de «superação e projecção absolutamente espontânea e não derivada» (Sergio Moravia) que uma obra pode ser erguida enquanto refúgio de um homem só, enquanto floresta na qual o ser humano prova que pode viver livre, enquanto testemunho dessa experiência individual de liberdade. Livre, não no sentido de coisa separada do mundo, mas no sentido de homem em relação com o mundo, no sentido de sujeito capaz de dizer ao mundo que está nele não apenas como uma rolha que dança de vaga em vaga, mas como um «bateau ivre» que não teme o naufrágio das ideias. Há-de haver sempre uma ilha onde o náufrago sobreviverá. O poema, não sendo uma bóia de salvação, não se limitando a ser um refúgio, pode muito bem ser um copo de água no meio do deserto, uma tábua solta no meio da tempestade.

Ao alto: F. Bourgeon, in Os Pássaros do Vento 1, Meribérica/Liber, 1987.

TESTE



O que é um antipoeta:
Um comerciante de urnas e de ataúdes?
Um sacerdote que não crê em nada?
Um general que duvida de si mesmo?
Um vagabundo que se ri de tudo
Até da velhice e da morte?
Um interlocutor de mau carácter?
Um bailarino à beira do abismo?
Um narciso que ama todo o mundo?
Um trocista sangrento
Deliberadamente miserável?
Um poeta que dorme numa cadeira?
Um alquimista dos tempos modernos?
Um revolucionário de pacotilha?
Um pequeno burguês?
Um charlatão?
.......................Um deus?
......................................Um inocente?
Um aldeão de Santiago do Chile?
Sublinhe a frase que considere correcta.

O que é a antipoesia:
Um temporal numa chávena de chá?
Uma mancha de neve numa rocha?
Um açafate cheio de excrementos humanos
Como julga o padre Salvatierra?
Um espelho que diz a verdade?
Uma bofetada no rosto
Do Presidente da Sociedade de Escritores?
(Deus o tenha em seu santo reino)
Uma advertência aos poetas jovens?
Um ataúde a jacto?
Um ataúde a força centrífuga?
Um ataúde a gás de parafina?
Uma capela ardente sem defunto?

Marque com uma cruz
A definição que considere correcta.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF
(também na Di Versos n.º12, embora com ligeiras alterações)

Terça-feira, 20 de Julho de 2010

ANSELM KIEFER: OS CAMINHOS DA SABEDORIA DO MUNDO: A BATALHA DE HERMANN, 1978


Falta-me tempo. Venho aqui como quem bebe um café instantâneo. A vida resume-se cada vez mais à monótona rotina do percurso que separa a casa do trabalho e o trabalho de casa. No trabalho, dou entrada de livros, observo-os fugazmente, por vezes espreito-lhes as primeiras páginas, as badanas, etiqueto-os, arrumo-os, recolho outros, mais velhos, às vezes com apenas dois, três meses de loja... Estão sempre a chegar novas capas, estão sempre a partir velhas capas, velhas capas que nem tiveram tempo para envelhecer, mas é preciso espaço e falta espaço a uma livraria como falta tempo a um homem. Depois, os revólveres de trazer por casa: as recorrentes estórias domésticas, alguns minutos para estupidificar em frente à televisão, enquanto no Porto Canal a Rosa Bella lê, e mal, as contracapas dos livros “interessantes e cativantes” que tem para sugerir aos seus telespectadores. O pó cresce debaixo das estantes, o cão ladra, o e-mail acena. Jogo paciências, campo minado, copas. Fumo cigarros. Ando há quase um ano a riscar diariamente no calendário os dias que faltam para as férias. Enquanto elas demoram na casa da tortura, vou traçando projectos, projectos simples, projectos tão simples e fúteis que seria ridículo partilhá-los com quem quer que fosse.

Tento ocupar a cabeça com uma questão que há anos me persegue: quem sou eu? Pediram-me que escrevesse um texto que respondesse a essa pergunta limite: quem sou eu? Pensei mandar duas únicas palavras: não sei. Ou um decassílabo: Henrique Manuel Bento Fialho. Um homem não é um nome, é a história desse nome. Tenho de descobrir a história do meu nome. Reinventá-la. Os nomes reinventam-se diariamente. Lembro-me do Questionário do Gunnar Ekelöf, talvez porque vi o autor citado algures, e arrisco uma paráfrase. A minha missão na vida, a única, é viver, embora não veja qualquer utilidade nessa missão. Quem põe filhos no mundo arrisca-se a acrescentar qualquer coisa a isto, nomeadamente criar condições para que os filhos também possam viver. E nisso eu já vejo alguma utilidade. No fundo, há utilidade naquilo que nos oferece condições para que possamos viver. Portanto, acho literariamente interessante a ideia da inutilidade da vida, mas não entendo como possamos chegar a essa ideia não vivendo. Lá chegados, só nos resta uma de duas hipóteses: matarmo-nos ou suportarmo-nos. E quando o mal nos chega ao corpo, nenhuma literatura nos salvará.

Também a isto se resumem todas as minhas convicções políticas. Não concebo a política para lá desta premissa. Como não convivo bem com a desgraça alheia, procuro assegurar-me do sentido que possa fazer a minha própria vida. É-me essencial começar por me suportar para conseguir suportar os males que o mundo me faz chegar. Estou plenamente consciente desses males, das catastróficas assimetrias que relativizam os ideais. Nesta matéria, porém, julgo-me algo ingénuo. Penso sempre que poderia ser tudo mais simples. Não sendo já possível vivermos em sistemas tribais, tendo o rumo do mundo sido outro, tendo os recursos que são de todos sido tomados pelas mãos de uns poucos, sendo nós hoje obrigados a cumprir uma série de leis, normas, regras, obrigações, deveres, em nome de um sistema que acredita ser preferível deixar nas mãos de alguns o que é de todos, há que ser exigente com esse sistema. É a ausência dessa exigência, subsumida na indiferença da maioria, o que mais me indigna. Não me admira. O sistema muniu-se das suas ferramentas, começou por falir tudo o que dissesse respeito à educação do espírito crítico ─ como forma de transformar os cidadãos numa enorme massa acéfala e acrítica. Convém-lhe a indiferença. A mim convém-me antes espicaçar essa indiferença.

A religião mete-me a olhar para o céu. Quem muito olha para o céu, arrisca-se a pisar merda de cão. É esta a opinião que tenho sobre a religião. Portanto, não procuro nada nas pessoas que não tenha que ver com esta necessidade de olhar mais para a terra. Até porque não espero nada delas. A procurar alguma coisa, procuro apenas que me espicacem a consciência como eu me esforçarei para espicaçar a delas. Não vale a pena, não é sequer justo, esperar muito das pessoas. Se elas aprenderem a olhar em todas as direcções, já não é mau. Combater preconceitos, resistir à atraente, mas perigosíssima, ideia única, é quanto basta. Estamos vivos, estaremos mortos. Espero apenas que vivam e que as suas próprias vidas possam obstaculizar o direito que eu tenho a viver a minha vida e que a minha vida obstaculize o menos possível a vida delas. É exactamente o mesmo que procuro nos livros. De resto, não procuro nos livros nada que não procure nas pessoas. Mas espero sempre dos livros uma agressividade, uma insolência, uma obstinação, um cinismo que seriam, nas mesmas doses, dificilmente suportáveis em qualquer ser humano. E estas são algumas das coisas mais belas que conheço. E este é o meu hobby preferido, assim como o meu pecado favorito. E não será por outras razões que perco tempo a escrever.

QUESTIONÁRIO



Qual considera ser a sua missão na vida?
Sou um ser humano absolutamente inútil.
Quais as suas convicções políticas?
O que está está bem. A oposição
ao que está está bem. A gente deveria ser
capaz de imaginar uma terceira via ─ mas qual?
A sua opinião em religião ─ se a tem?
A mesma que na música: na verdade só
quem for realmente imusical pode ser musical.
O que procura nas pessoas? As minhas relações
infelizmente têm pouca ou nenhuma consistência.
O que procura nos livros? Profundidade filosófica?
Vastidão? Elevação? Épica? Lírica?
Procuro a esfera perfeita.
Qual é a coisa mais bela que conhece?
Pássaros nos cemitérios, borboletas nos campos de batalha,
qualquer coisa entre. Não sei.
O seu hobby preferido? Não tenho hobbies.
O seu pecado favorito? Onanismo.
E para concluir (tão brevemente quanto possível):
Porque é que escreve?
Não tenho mais nada a fazer. Vate recto. (1)
Faz jogos de palavras também?
Sim ─ também faço jogos de palavras.


(1) Nota dos tradutores. No original «Vade retro», que, em português, não faria aqui nenhum jogo de palavras. ─ Em sueco a expressão pode ser lida de modo a equivaler «Var det rätt, tro?» que significa «Está certo, não é?» donde o jogo múltiplo.


Gunnar Ekelöf, in Antologia Poética, trad. Ana Hatherly e Vasco Graça Moura, Quetzal, 1992, p. 19.

Segunda-feira, 19 de Julho de 2010

NÃO SE PASSA NADA


Não se passa nada, está tudo bem, nos conformes. Onde estão os indigentes que os não vejo? Onde estão? E os mortos? Por que não aparecem os mortos? Só vejo marfim, dentes de elefante, não vejo os elefantes. Só vejo o ouro nos dedos das parideiras, vejo a prata nas orelhas dos filhos, vejo os diamantes no pescoço esguio, massajado, descontraído das estrelas. Vejo o dinheiro, não de onde ele veio. Não vejo os garimpeiros, não vejo os inimigos, não vejo a lealdade dos guardiães do templo. Ainda terão dentes, os guardiães do templo? Não vejo ninguém a descer ao inferno das minas, não sinto a dinamite, não ouço as explosões. Não se passa nada. Os filhos brincam no parque, tu estás na esplanada a comer amêijoas regadas com imperial fresca no termo de um tórrido dia de Verão. E balanças as coxas ao som de RAS. Não se passa nada à tua volta. Onde estão os esfomeados, os humilhados, os estropiados, os expropriados? Onde param que os não vejo?

Diz-se que 215 milhões de crianças trabalham para sobreviver, embora na realidade elas trabalhem para a engorda dos galifões. Estranhos números. Não os vejo. Não vêm nos versos. Quem são os galifões? A poesia não os deixa entrar, o lirismo tem pouca cilindrada, falta-lhe cavalos, não vai longe. Dança, continua a dançar, segue o ritmo do molho das amêijoas borrando-te as beiças. Lambuza-te no molho amanteigado das amêijoas. Um homem é aquilo que come. Não se passa nada. Está tudo bem, mundo perfeito, lindo mundo. Qual crise? Não se passa nada. Falam de caos, de gente sem ter onde dormir, de telhados de vidro, mas eu não vejo. Onde estão os sem-abrigo? Só vejo o Mercedes que passa e buzina e segue caminho e carrega a obesidade do condutor, as sedas da mulher do condutor, os portáteis dos filhos do condutor. Não se passa nada.

África nunca será tão perto quanto a esplanada onde nada se passa. Para a Ásia vai quem procura a virgindade assexuada das pré-adolescentes, na América do Sul os dias correm aceleradamente devagar e tu abres uma janela para o mundo que te oferece percursos pedonais. A Índia é visitada por escritores que anseiam páginas imortais. No regresso, deixam para trás a mortalidade e queixam-se da vida. De tanto andarem a pé, já não sabem o que é voar, falta-lhes tempo para parar os olhos sobre a paisagem. Usam óculos de sol. De tanto caminharem, com meias e botas adequadas ao acidentado percurso, deixaram de sentir nos pés as feridas de quem não tem onde pôr os pés, porque fugiu o chão para a relva dos jardins regados duas vezes ao dia, porque se abrem crostas imensas na terra e a lava vem à tona e fica insuportavelmente inóspita. É preciso um Call center que sirva ao cliente os males do mundo, preferencialmente ao som de RAS. Não se passa nada.

Não se passa nada. É preciso passar protector solar pela pele. 815 milhões de pessoas, em todo o mundo, são vítimas crónicas de subnutrição. Que podemos nós fazer contra isso? Restam-nos ossos, cascas de amêijoas. Lambuza-te no molho amanteigado das amêijoas. Não se passa nada, números, não vejo nada, 815 milhões de pessoas não são pessoas, são 815 milhões, números abstractos, distantes, são uma matemática vertiginosa, desapiedada, que não comove as bocas dos filhos que agora pedem duas bolas de gelado com pepitas de chocolate e chantilly ao som de RAS. Está um calor de morte. Não se passa nada, não podes fazer nada senão continuar a viver no gerúndio evolutivo, progressivo, dos números. Por isso, aprecia o sol e caminha sobre as águas. Diz amor, diz simpatia, diz caridade, diz conforto, diz solidariedade, que queres morrer feliz, diz felicidade, diz a cruz que carregas, diz vazio, di-lo com indiferença e sê complacente com todos aqueles que, como tu, prestam o seu contributo ao mundo desperdiçando diariamente o que compensam com uma esmola anual.

Não se passa nada. Está tudo bem. Os funcionários da France Telecom suicidam-se ao som de RAS. 24 suicídios em 18 meses. Que quererá isto dizer? Que quererá dizer aquele solo de saxofone, o beat que me faz dançar, os corpos atirando-se de um vigésimo quarto andar? Estaria o suicídio incluído nos objectivos mensais da empresa? Lembra-te deles quando alguém, do outro lado da linha, te atender o serviço ao cliente da Internet intermitente. Por onde anda a fome que a não vejo? Por onde anda a guerra que a não vejo? Será dos óculos de Sol? Não se passa nada. Subitamente dão à costa centenas de botes atulhados de emigrantes, homens, mulheres e crianças em fuga. De quê? O que os ameaça? Por que se entregaram à deriva? Desejam ser ilegais. De onde vêm, por que vêm, a que vêm? Aqui não se passa nada. Vou arranjar uma régua, um esquadro e um compasso para tratar da assimetria dos versos, para traçar novas fronteiras no globo terrestre, para redesenhar os meridianos, a ver se alguma coisa acontece. É que eu não vejo. Aqui não se passa nada.

EU PECADOR



Eu galã imperfeito
Eu dançarino à beira do abismo,

Eu sacristão obsceno
Menino prodígio das lixeiras,

Eu sobrinho ─ eu neto
Eu fabulador dos sete instrumentos,

Eu senhor das moscas
Eu esquartejador de andorinhas,

Eu jogador de futebol
Eu nadador do Estero las Toscas, (1)

Eu profanador de tumbas
Eu Satanás enfermo de papeira,

Eu recruta remisso
Eu cidadão com direito a voto,

Eu ovelheiro do diabo
Eu pugilista vencido pela minha sombra,

Eu bebedor insigne
Eu sacerdote da boa mesa,

Eu campeão de cueca
Eu campeão absoluto de tango
De guaracha, de rumba, de valsa, (2)

Eu pastor protestante
Eu biscateiro, eu pai de família,

Eu pequeno burguês
Eu professor de ciências ocultas,

Eu comunista, eu conservador
Eu compilador de santos velhos,

(Eu turista de luxo)

Eu ladrão de galinhas
Eu dançarino imóvel no ar,

Eu verdugo sem máscara
Eu semideus egípcio com cabeça de pássaro,

Eu de pé numa rocha de cartão:
Façam-se trevas
Faça-se o caos,
..........................façam-se nuvens,

Eu delinquente nato
Apanhado em flagrante

A roubar flores à luz da lua
Peço perdão à esquerda e à direita
Mas não me declaro culpado.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF

(1) Principal evacuador de águas fluviais do município de Chillán.
(2) A cueca e a guaracha são danças populares sul-americanas.

Domingo, 18 de Julho de 2010

MINIMAL EXISTENCIAL

De Paulo Tavares (n. 1977), não li o livro de estreia: Pêndulo (Quasi, 2007). Portanto, a minha estreia na sua poesia dá-se com este Minimal Existencial ─ [poesia para duas personagens e um narrador] (Artefacto, Maio de 2010). Ao que julgo saber, trata-se do primeiro livro de um novo projecto editorial, com sede na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, apostado na divulgação de textos poéticos, teatrais e de ficção curta. No sítio da editora, ficamos a saber que Paulo Tavares é professor de línguas e trabalha numa tese de doutoramento na área dos Estudos Literários. Minimal Existencial repete no rosto aquela que parece ser a linha estética predominante em muita da poesia portuguesa mais recente: letras brancas sob fundo negro. Este pormenor não é despiciendo, sobretudo se pensarmos na relação que muitos dos nossos poetas mantêm com o real e com a palavra enquanto “ponto luminoso” que campeia no alcatrão da realidade. É óbvio que não é de hoje esta cisma, embora ela tenda a prevalecer sobre outras concepções, quer da realidade enquanto ideia construída e subjectiva, quer do texto poético enquanto parte integrante dessa mesma realidade.

Ao abrirmos o livro, deparamo-nos com uma espécie de extensão do título (um subtítulo?) que nos remete para uma dimensão ficcional/dramática do texto: [poesia para duas personagens e um narrador]. Este tipo de enunciação admite várias interpretações, sendo que a mais imediata (e talvez a mais tendenciosa) é a de que o material subsequente resulta de uma cisão entre o sujeito poético e a realidade que lhe é exterior. Deste modo, assistiríamos a uma encenação subjectiva da realidade à qual corresponderia um desprendimento do objecto encenado. Porém, este tipo de interpretação corre o risco de, ao separar as águas, confundir as margens. As experiências que temos da realidade são sempre subjectivas, pelo que a expressão resultante dessas experiências não pode senão ser encenação. Se advogarmos uma estética realista, é bom que estejamos cientes deste pormenor, sob pena de cairmos numa enfadonha ditadura do olhar. Por outro lado, se preferirmos o jogo das sombras imagéticas, não será má ideia reconhecermos que o suporte de toda a imagem, em suma de toda a imaginação, é o corpo material onde vamos buscar os contornos que definem as formas por nós arquitectadas.

A poesia de Paulo Tavares situa-se, pois, num campo de intersecção, no terreno dúbio e pantanoso onde as margens confluem. Essa é, quanto a mim, a sua dimensão mais apreciável. Nas suas cinco partes, a complexidade da estrutura do livro permite-nos entender uma manifesta inclinação para os processos de encenação do texto poético. Da morte a uma figurada «segunda vida» (p. 46), o que nos salta à vista é a absolutização da ruína, dos destroços, dos escombros. No entanto, alguns poemas parecem-me de menor intensidade, tornam o discurso algo amorfo e repetitivo, são de uma melancolia demasiado urbana, óbvia e sugerem uma espécie de pose que usurpa à poesia o crédito das imagens. Refiro-me, sobretudo, aos poemas do conjunto intitulado A evidência do dia, pejados de «sirenes ecoando contra / os edifícios devorados pelo impacto» (p. 21), dos «despojos do mundo moderno» (p. 24), de «ruas desertas, sujas» (p. 30), de «destroços / lançados pelo vento» (p. 34)… Esta encenação hiperbólica da ruína, que nos transporta para um cenário de guerra, perde na recorrência a imagens gastas e precipita o processo de degenerescência em curso.

Linhas de fuga e Caixa mitológica, os dois últimos conjuntos/momentos, parecem-me mais conseguidos. Nesses poemas a poesia de Paulo Tavares assume uma reflexividade até então quase inexistente. Torna-se mais interrogativa, mais enigmática, mas as imagens são fortes e menos dependentes de recursos plásticos algo batidos. Depois da ruína, o que fica? O que se segue à corrupção? Que resta da morte? A queda: abandono, solidão, esquecimento. «Quando morrermos, / não haverá divisões, nem fronteiras, nem estatutos. / Haverá, quando muito, um nome» (p. 61). Perante isto, não há que ser complacente, mas pode-se ser auto-irónico. E o autor é-o quanto baste. Chegamos a estes versos com a sensação de que tudo o que ficou para trás foi especialmente preparado para nos transportar até aqui. No fundo, a construção de Minimal Existencial ─ [poesia para duas personagens e um narrador] como que nos convoca para uma volta no corredor da ruína. É com declarada ironia que reconheço ser esta a Feira Popular dos poetas, entreter a vida com a elucidação da sua insignificância. Entreter a vida com a melancolia dos versos.
Escrito para o Rascunho.

PODEM SER VINTE E UMA?

─ Tem livros de 20 páginas?

EQUINÓCIOS



Nem um som. Nem um estilhaço
a remoer o ar. Coloco dentro de um copo
de água todas as verdades semi-vazias
do homem civilizado e enveneno-me
nesta noite de Verão em chamas.
Como sempre,
depois dos espasmos e dos calafrios,
uma visão abrupta de um pormenor oculto
ou do amor por consumar
trar-me-á, no limiar da loucura, o antídoto
e encontrarei de novo breves equinócios
nas veias do meu corpo.
«Sedento de outro tempo?», pergunta-me
uma voz que vem do fundo do copo.
Hesito um pouco.
Penso na quantidade de vozes
a subtrair ao coro das tempestades
para que o lídimo rumor se liberte.
«Nenhum outro tempo me pode ser útil»,
respondo. «Este pertence-me por inteiro.»
E depois, nenhuma voz ou som,
nem um estilhaço a remoer o denso ar nocturno.
Qualquer dia sucumbo, cheio de verdades
ou cheio de antídotos.


Paulo Tavares, in Minimal Existencial, Artefacto, Maio de 2010, pp. 43-44.

PORTUGÁLIA

─ A minha mulher quer pôr umas mamas novas.
─ Porquê?
─ Convenceu-se de que as tem velhas.
─ Quantos anos tem ela?
─ 35 anos.
─ E duas filhas…
─ Pois.
─ As filhas dão cabo das mamas. Envelhecem as mamas pelo menos no dobro.
─ Nesse caso, tem 70 anos de mamas.
─ E o que achas tu disso?
─ Gosto das mamas velhas.
─ Mas achas que estão velhas?
─ Não, mas um tipo cansa-se de andar a comer sempre a mesma sopa.
─ Lá isso, umas mamas novas podem fazer rejuvenescer uma relação.
─ Pois podem.
─ Tu também devias mudar qualquer coisa.
─ O quê?
─ Ela não te come as mamas.
─ Pois não.
─ O que é que ela te come?
─ Hmmmm.
─ Podias mudar o coiso.
─ Qual coiso?
─ O coiso, pá.
─ Mudar?
─ Sim.
─ Mas…
─ Se o mudasses, querias um maior ou mais pequeno?
─ Do mesmo tamanho.
─ Mais estreito ou mais largo?
─ Exactamente com o mesmo diâmetro.
─ Ela com umas mamas novas, tu com um coiso novo, seriam um casal renovado.
─ Acho que não.
─ Não queres um coiso novo?
─ Gosto do que tenho.
─ Mas ela pode achá-lo velho. Pode ter com o teu coiso a mesma relação que tem com as mamas dela.
─ Mas as mamas dela têm duas filhas, o meu coiso não.
─ Lá nisso tens toda a razão.
─ Já deve ter uma porrada de quilómetros.
─ Dez anos, cerca de 250 mil quilómetros.
─ Muda de coiso pá, está na hora, faz alguma coisa pela tua vida, pela vossa relação.

Sábado, 17 de Julho de 2010

ESTADO DA NAÇÃO

No meio de todo este cenário catastrófico, em que uns roubam com uma mão o que dão com a outra, outros devoram as mãos à procura dos anéis que já não têm nos dedos, e ainda outros se sitiam entre poderosas muralhas fazendo crer que estão preocupados com o que se passa para lá dos seus bolsos, no meio de todo este cenário, pensou o pombo Benjamim, o mais extraordinário é como é que eu ainda estou vivo. É-me hoje óbvio que o argumento desenvolvido por Voltaire é um argumento demasiado fácil para ser levado a sério. Ser alguém educado a pensar que vive no melhor dos mundos possíveis não é nada de improvável, apesar de desde muito cedo ameaçarmos as crias com papões, monstros, bruxas, polícias e ciganos. Antes as ameaçássemos com a racionalidade dos mercados e com as políticas de contenção. Sejamos exigentes com a estirpe humana. Imaginemos alguém educado na crença de que vivemos no pior dos mundos possíveis. O que sentiria uma pessoa dessas quando saísse da sua caverna e se deparasse com o mundo tal como ele é? Não vivemos no melhor nem no pior dos mundos possíveis, mas alguém que tenha sido educado a acreditar que o seu é o pior dos mundos possíveis só poderá morrer de tédio quando se der conta que está vivo e de que há mais mundo para lá dos seus défices particulares. Pois que andar à deriva pelo mundo faz-nos perceber o quanto este se presta à corrupção, aos negócios sombrios, a desfechos sanguinários. Voamos uma jarda para lá das muralhas do nosso pombal, e não nos faltarão histórias tocadas com a surdina do medo, mergulhadas num lodaçal de práticas maquiavélicas para as quais é preciso ter estômago de pombo. A ganância dos homens é como a nossa merda: faz estragos imprevisíveis. Homens que matam as suas mulheres, mulheres que se vingam dos seus maridos, incêndios ateados pela chama irreflectida da ambição, do ciúme e da inveja. No fundo, sexo, drogas e rock ‘n’ roll sob o tecto sagrado do deus dinheiro. A gente pensa que é só nos filmes, nas séries, matéria para narrativas, ficções, mas essa matéria tem os seus vulcões. E esses são tão reais como estarmos agora, aqui mesmo, distraídos da sorte que temos em ainda estarmos vivos no meio de todo este cenário. Os homens gostam de acreditar que vivem no pior dos mundos possíveis. Esse tipo de fé como que lhes justifica toda a porcaria que fazem, ao mesmo tempo que apontam a nossa merda como se ela fosse a maior das tragédias nas suas miseráveis vidas. Afinal nós somos o que de mais cómico há na vida dos homens. Eles é que nos destroem os ninhos, os beirais, mas nós é que somos os culpados do estado a que as coisas chegaram. E o estado a que as coisas chegaram é lastimável, sobretudo se pensarmos no estado em que partiram.

Escrito para O Indesmentível.

Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

TELECINCO

As pessoas que me conhecem não me acusam de pessimismo, mas de algo um pouco diferente: negativismo. Eu interpreto a distinção tendo em conta que num cesto de maçãs podem existir várias espécies, não deixando todas elas de ser maçãs. Esforço-me um pouco mais e percebo que o pessimismo se distingue do negativismo pelo que há no primeiro de derrotismo e no segundo de desesperança. O pessimista é uma espécie de derrotado conformado com a derrota, pelo que tende a ser conservador. O negativista é mais inconformado, mas sofre do desespero com que olha para o futuro. Não sou do tipo que diz: não vale a pena. Sou mais do tipo assertivo, o tipo que diz: esta merda está toda fodida. Vem isto a propósito, embora não pareça, do famigerado vídeo do beijo que o nobre guarda-redes da selecção espanhola resolveu oferecer à sua namorada durante um directo televisivo. Aquilo foi música para os meus ouvidos, foi um sinal de esperança, foi um momento de libertação invulgar, foi a transposição da norma em nome de algo muito mais belo que a norma, foi um grito da vontade, foi poesia, um acto espontâneo, foi improviso, libertação, aquilo foi uma explosão de emoções, um homem vacilando perante a força da comoção, aquilo foi o que de mais humano pode haver nesta espécie de monstros em que nos temos vindo a transformar. Aquilo foi, perdoem-me o sentimentalismo, tudo o que eu gostaria de ser. Pois bem, voltei hoje ao vídeo e deparei-me com a seguinte informação: «este vídeo já não está disponível devido a uma reivindicação de direitos de autor apresentada por Telecindo». Não sei quem é Telecinco, mas só pode ser uma grande besta para reivindicar os “direitos de autor” daquelas imagens - que deviam ser do mundo e só não o são porque os Telecinco deste mundo conseguem foder esta merda toda.

POIS É

Às vezes é bom baixar a guarda e deixar que cuidem de nós. Ninguém aguenta muito tempo o papel feito de dureza que muitas vezes deixamos que nos envolva os sorrisos, os gestos e os dias.

AGNUS DEI

Horizonte de terra
...............................astros de terra
Lágrimas e soluços reprimidos
Boca que cospe terra
....................................dentes moles
Corpo que não é mais do que um saco de terra
Terra com terra ─ terra com minhocas
Alma imortal ─ espírito de terra.

Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Diz-me quantas maçãs há no paraíso terrestre.

Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Se fizeres favor diz-me a hora.

Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Dá-me a tua lã para fazer uma camisola
Cordeiro de deus que lavas os pecados do mundo
Deixa-nos fornicar tranquilamente:
Não te imiscuas nesse momento sagrado.


Nicanor Parra, in La camisa de fuerza [1962-1968]
Versão de HMBF

CORETO, 2010


Estamos vivos. E ao longe parecemos direitos. Uma ligeira curvatura, talvez. Dos ossos, talvez. Ou das horas. É provável que seja aquela curva onde todos os desastres aconteciam. Na minha terra, havia uma curva dessas. Era a curva da Amieira.



A nossa melhor actuação foi de luzes apagadas, já toda a gente havia recolhido os microfones. Mas tu leste: estamos vivos. E eu toquei-te nos ombros: fazemos coisas, fazem-se coisas, é preciso fazer as coisas acontecerem. Ninguém morre na curva da Amieira se não passar por lá.



Ora olha bem para estas olheiras. Ora olha bem para os lábios arroxeados do vinho barato servido ao pacote. Estamos vivos. Ela passa por nós a alta velocidade, um tipo pressente-a crescer enquanto os ossos dos filhos se esticam à altura dos nossos ombros. E um destes dias, acredita, também ela há-de despistar-se na curva da Amieira.


Todos os acidentes na puta da curva. Morreram por lá centenas de vidas. Gatos, cães, gente, coelhos, fantasmas. Todos atropelados, despistados na puta da curva. Mas nós estamos vivos, a música ainda agora começou no silêncio das bandas. As curvas do coreto não deixam mentir. Actuámos, fizemos qualquer coisa acontecer, qualquer coisa pelo que ninguém dará. Excepto nós. Afinal, estamos vivos.

Quinta-feira, 15 de Julho de 2010

ETRANGES ATTRACTEURS


É tudo tão estranho, deformado, que ter descoberto entre estes rostos a pureza dos teus olhos só pode ser milagre. Brindo aos alquimistas que do gelo souberam fazer sangue e do sangue a lava que deu vida a esses olhos. Brindo às vozes que nos cantam mentiras e rendições, embalando-nos o cansaço na direcção da fé perdida. Eu também queria contentar-me com a luz do sol, mas como posso contentar-me com a luz do sol depois de ter sido iluminado por esses olhos?
.......................................................................................................................................................Por onde andarão os milagres? Em que navios terão embarcado, para que latitudes terão voltado o peso das suas asas? Nas frias terras da esperança sonhamos com dias livres, perdoáveis. E eu rendo-me à solidão, o chamamento dos anjos não espera por mim. Do seu uivo, chega-me um ruído declinado, caindo vertiginosamente para um silêncio sem fundo. Como os pingos de água que caem ao quinto tema, um instrumental que caminha por entre húmidas canas-de-açúcar, os canibais de Taipi matando-te a sede com água de coco.
..............................................................................................Abri o poço do silêncio com os meus próprios dentes. Comi a terra, mastiguei-a lentamente, para que não me parasse a digestão enquanto ao fígado oferecia vinhas inteiras de esquecimento. Um dia disseste-me: esse teu rosto oprime-me. Um dia nunca mais te libertaste da opressão do meu rosto e da tua devoção irromperam gradeamentos de ferro. Agora faço-me acompanhar de aranhiços afoitos, bolsos cheios de nada, um vento cigano, as mãos em concha à espera que alguém cuspa nelas as lágrimas entaladas de um colonialismo selvagem. E um sonho: um milagre.
................................................................................................................................É tudo tão estranho, deformado, que ter descoberto entre estes rostos a pureza dos teus olhos só pode ser milagre. Arrumo os dias numa listagem de afazeres simples, rápidos, efémeros, banais, mas demoram-me tanto os dias a passar. Esta paralisia tímida que nos condena à tristeza e não deixa dançar. Pudessem os anjos perceber que têm cheiro, que os trazemos da memória ao corpo através do aroma gravado algures como a derradeira impressão digital de uma existência fantasmagórica.
...................................................................................................................................................................Elle est si belle, os dedos enlouquecem-me, a batida descompassada das sirenes anuncia-me o que há muito eu já sabia: o mundo tem abusado de mim, esta paralisia tímida que nos condena à tristeza e não deixa dançar. Olho as paredes à minha volta e julgo-as almofadadas, tal como as paredes de um manicómio. Atiro-me contra elas, violentamente, abrindo feridas na pele, martelando nódoas negras na carne. Desgasto cada um dos meus dedos na textura estalada das paredes. Sento-me a escutar o coração, fecho os olhos:
É tudo tão estranho, deformado,

que ter descoberto entre estes rostos

a pureza dos teus olhos só pode ser milagre.

...........................................................................O som de uma guitarra a chover ao longe, um túnel de circulação nocturna, lenta, um antídoto para as viagens ímpares do coração, um medicamento pleno de efeitos. Eu queria, eu queria muito que as palavras rissem de si próprias no salão textual, eu queria muito que houvesse em cada um destes parágrafos o anúncio de uma coisa muito maluca, muito tonta, que pusesse a rir cada uma das palavras. Eu queria que não fossem apenas pianos fechados, murmúrios, a batida descompassada das sirenes, a paralisia tímida que nos condena à tristeza e não deixa dançar.