Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

ÚLTIMAS PALAVRAS DO CRISTO DE ELQUI

LV

A arte não devia ser uma empresa privada
como deixar nas mãos de particulares
a produção de raios infravermelhos
nada mais perigoso
para a integridade da república
a nossa saúde mental em primeiríssimo lugar
a poesia por exemplo a poesia
pode levar um país à ruína
se não se tem cuidado com ela
pensem no Nocturno de José Asunción Silva
que provocou uma onda de suicídios
ou no Poema 20 de Neruda
a poesia deve ser positiva
como a Corporação de Fomento
ou os Comboios do Estado
a liberdade de expressão é um mito.

LXIII

Que o Supremo Tribunal determine:
se amar a Deus sobre todas as coisas
é possuir espírito de lucro
se não evocar seu santo nome em vão
é possuir espírito de lucro
se venerar o pai e a mãe
é possuir espírito de lucro
se não roubar matar nem fornicar
é possuir espírito de lucro
se respeitar a mulher do próximo
é possuir espírito de lucro
Vossa Excelência: se imitar o Senhor
na medida das próprias forças
é possuir espírito de lucro
para quê atirar areia aos olhos
o Cristo de Elqui é o pior dos comerciantes
o mais ruim o mais vil o mais canalha
podem crucificar-me sem mais trâmites

reconheço que vendo os meus folhetos
exactamente: vendo os folhetos
quer dizer que não os posso oferecer
ainda que me doa muito o coração
impossível ─ não posso oferecê-los
que a terra me engula senhor juiz
apenas alcanço para sobreviver:
um poucochinho de senso comum!
Juro por Deus: se fosse milionário
não só folhetos ofereceria
ofereceria bibliotecas inteiras
tanta falta que fazem creio eu
Dom Quixote em primeiríssimo lugar
─ sem esse livro não se entende nada ─
Martín Fierro meu livro predilecto
meu velador ─ minha lâmpada ─ meu tudo
Os Cavaleiros da Távola Redonda
Bertoldo Bertoldino e Cacasenno
obra como outra não há no seu género
o Han de Islândia por Victor Hugo
a sem par Genoveva de Brabante
e para terminar
ou seja que por aí deveria ter começado
a Santa Bíblia
………………….sim
……………………….a Santa Bíblia
que é o único livro verdadeiro
os demais são agradáveis mas falsos.


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
Versão de HMBF

Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010

MAIS UM DO CRISTO DE ELQUI, MUITO A PROPÓSITO

XLVIII

Eu sou o homem mais feliz do mundo
mentiria se dissesse que minto
quando declaro ser
o desgraçado mais feliz do mundo
nada tenho contra a parentela
nada tenho contra os meus inimigos
nada tenho contra os meus irmãos
resolvi os meus problemas pessoais
salvei-me por um triz mas salvei-me
repito-o para que não reste sombra de dúvida:
eu sou o homem mais feliz do mundo
dá-me vontade de soltar um uivo
e saltar de um sétimo andar
claro: sentir-me-ia mais feliz
se não fosse tão extraordinariamente feliz
se não fosse tão insolentemente feliz
se não fosse tão escandalosamente feliz

há que ter estômago de avestruz
para digerir tanta porcaria.


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
Versão de HMBF

MORREU O POLVO ERRADO


Camarada Van Zeller, como já deve ter reparado, a actualidade portuguesa anda à velocidade da luz. Um tipo lento como eu não sabe para onde se voltar. Estou como os juízes. Deve ter ouvido que «Portugal é o segundo país da Europa com mais profissionais de Justiça por habitante, só sendo ultrapassado pela Itália». São boas notícias, provam que levamos a justiça a sério. No entanto, o mesmo relatório revela que «Portugal é o segundo país da Europa que demoraria mais tempo a resolver todos os casos que estão pendentes nos tribunais. Pior só a Itália.» Oh Diabo, quererá isto dizer que os juízes portugueses e italianos são mais lentos que os dos outros países? Há nestes dados uma estranha aritmética: quanto mais profissionais de Justiça por habitante, mais lenta essa mesma justiça.

Acresce que «os juízes em final de carreira ganham muito mais em Portugal do que no resto da Europa, em concreto quatro vezes mais do que o salário médio nacional». Assim de repente, somos levados a pensar que temos mais juízes, os que temos são mais bem pagos, mas são igualmente mais lentos. Mouraz Lopes, membro da direcção da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, diz que a remuneração dos magistrados portugueses insere-se numa tendência europeia para proteger o princípio da independência. É bom sentir que estamos na vanguarda das tendências europeias, mas não é tão bom perceber que a independência dos juízes portugueses é mais cara do que a dos congéneres europeus. Ainda assim, julgo que a culpa destas discrepâncias é dos políticos. Com tantas e tão frequentes alterações legislativas e processuais, os juízes precisam de gastar muito dinheiro em livros.

Este relatório surge na mesma altura em que o Governo se prepara para mexer nos vencimentos dos juízes. As notícias dizem que «os juízes e os procuradores que estiverem no topo da carreira, com cerca de 6130 euros de salário bruto, poderão ficar com menos 750 euros no seu vencimento». Isto quer dizer que vai ser retirado aos juízes e aos procuradores que estiverem no topo da carreira mais do que eu ganho num mês. Assustador! É coisa que não se faz nem se deseja a ninguém. Por mim, acabava-se com a RTP e mantinham-se os salários dos juízes. Prefiro um procurador bem pago a um Malato funcionário público. E choca-me ter que pagar todos os meses um canal de televisão que tudo o que tem para me oferecer é a Praça da Alegria, o Portugal no Coração e o Quem Quer Ser Milionário. Eu quero, mas não é a pagar a RTP.

Também não quero ser milionário contribuindo para os relatórios da Transparência Internacional. Terá o camarada Van Zeller lido nos jornais que «Portugal mantém-se como um dos países da Europa Ocidental em pior posição do ranking anual sobre a percepção da corrupção». «Leis "herméticas", um aparelho de Justiça que "não funciona" e resultados "nulos" no combate à corrupção são as razões apontadas pela TI»!!! Não sei se o camarada aprecia a arte poética, mas esta coisa das leis herméticas é como na poesia: só serve os embusteiros. Está visto que somos um país de duques, amigos do seu amigo. E não me refiro especificamente ao camarada Luís Duque, a quem envio daqui saudações leoninas, recentemente «notificado para ser ouvido no Tribunal Central de Instrução Criminal, por suspeita de burla qualificada, corrupção e fraude na obtenção de empréstimo». Para percebermos o estado a que isto chegou, basta lembrar alguns bons rapazes:

- Armando Vara: promovido na Caixa Geral de Depósitos um mês e meio depois de ter abandonado os quadros do banco público para assumir a vice-presidência do BCP. Como é óbvio, essa promoção ao escalão máximo de vencimento terá reflexos para efeitos de reforma. Mas Vara merece-o, os desenvolvimentos do processo Face Oculta aí estão para o confirmar;
- Paulo Teixeira Pinto: ex-Presidente do Conselho de Administração Executivo do Millennium BCP, largou o cargo com uma indemnização de 10 milhões de euros e com o compromisso de receber até final de vida uma pensão anual equivalente a 500 mil euros. Passou à situação de reforma em função de relatório de junta médica. Tendo em conta que se meteu no negócio dos livros, está provada a sua incapacidade para o trabalho;
- José Miguel Júdice: foi julgado pelo Conselho Superior da Ordem dos Advogados depois de ter defendido que o Estado devia contactar as três maiores sociedades de advogados do país para serviços de consultadoria. Diga-se que o Estado tem seguido estes bons conselhos. Recentemente, o Ministério das Finanças pagou 42 mil euros a um escritório de advogados por um projecto de diploma sobre arbitragem fiscal que, caso fosse promulgado, limitaria a acção da administração fiscal;
- Rui Pedro Soares: renunciou ao mandato após a divulgação das escutas do caso ‘Face Oculta’, mas recebeu da PT uma indemnização de 600 mil euros como compensação financeira pelos salários não recebidos até ao final do mandato;
- Telmo Correia: ex-ministro do Turismo do Governo de Santana Lopes, assinou três centenas de despachos na madrugada do dia em que o novo executivo foi empossado;
- Abel Pinheiro: administrador da Grão Pará e ex-responsável financeiro do CDS, este arguido por tráfico de influências no âmbito do chamado «caso Portucale» terá influenciado o Governo PSD/CDS na viabilização de um projecto turístico do Grupo Espírito Santo (GES), o mesmo grupo ao qual a Grão Pará tem uma dívida superior a 35 milhões de euros;
- Joaquim Ferreira do Amaral: em 1994 assinou o contrato para a construção da Ponte Vasco da Gama com a Lusoponte. Para fechar o negócio, deu-lhe exclusividade na construção e exploração de qualquer nova ponte entre Vila Franca e a foz do Tejo. É, desde 2008, membro não-executivo do Conselho de Administração dessa mesma Lusoponte;
- Jorge Coelho: chegou à presidência executiva do maior grupo de construção civil de Portugal, o grupo Mota-Engil, depois de se ter demitido de Ministro das Obras Públicas na sequência da queda de uma ponte;
- Joaquim Pina Moura: a 21 de Julho de 2004 foi contratado para presidente da Iberdrola Portugal. Então confrontado com a incompatibilidade ética de exercer as funções de deputado e ser Presidente da Iberdrola, respondeu que "a ética da República é a ética da lei". Está visto que sim;
- Diogo Vaz Guedes: com António Mexia, presidente da EDP e ex-Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações do Governo de Pedro Santana Lopes, lançou a Aquapura, uma marca turística de luxo. Mais tarde, o ex-Presidente da Comissão executiva da Somague, foi multado em 10 mil euros, tendo a Somague sido igualmente condenada a pagar 600 mil euros, por financiamento ilegal do PSD nas eleições autárquicas de 2001;
- Paulo Pereira Coelho: responsável, na condição de presidente da Associação para o Desenvolvimento Turístico da Região Centro, pela adjudicação de um contrato de mais de 700 mil euros a uma empresa a que ficaria ligado cerca de um ano depois;
- Pedro Santana Lopes: solicitou a reforma aos 49 anos, recebendo desde Outubro de 2005 uma pensão de 3178 euros pelo exercício de funções no poder local;
- Manuel Dias Loureiro: ex-Ministro de governos de Cavaco Silva, foi um dos administradores executivos do Grupo SLN/Banco Português de Negócios (BPN). Terá ido a Porto Rico tratar da compra de 75 por cento da NewTechnologies (empresa sem qualquer actividade) e de uma posição de 25% na Biometrics Imagineerin» (empresa falida). «A operação envolveu duas empresas tecnológicas, contas em offshore e um investimento de mais de 56 milhões de euros por parte da SLN». Recorde-se que as ajudas do Estado ao BPN ascendem a 4,6 mil milhões de euros. Poderão ser colocados no banco mais 400 milhões de euros… É o preço a pagar pelos bons negócios.

Enfim, camarada Van Zeller, uma curtíssima lista de bons rapazes que nos fazem crer haver qualquer coisa de desacertado na morte do polvo Paul. Afinal, não era bem esse o polvo que devia morrer.

I WANT YOU TO WANT ME




As flores da cerejeira
Como elas oscilam
Não é que eu não pense em ti
Mas a tua casa é tão longe.


O Mestre comentou: «Ele não pensa realmente nela. Se pensasse, não há nada que seja tão longe.»

Confúcio, in Os Analectos, trad. Maria de Fátima Tomás, Europa-América, s/d, p. 59.

Terça-feira, 26 de Outubro de 2010

"ATUALIDADE"

Como no fim-de-semana que passou não voltei a comprar o Expresso, não li a crónica do António Guerreiro. Vejo agora parte dela reproduzida no Logros Consentidos. Concordo com o que ali está escrito. De resto, escrevi praticamente o mesmo em algumas entradas deste livrito. Falta só acrescentar o seguinte: a figura do crítico enquanto mediador entre a obra e o leitor foi substituída pela disseminação da opinião dos leitores na Internet. Independentemente dos fundamentos dessas opiniões e do esclarecimento de quem as pratica, trata-se de uma outra ponte entre o livro e o leitor que não existia no tempo de Benjamin. Sucede que eu julgo essa transformação muito saudável, diminui a soberania discriminatória dos críticos, tantas e tantas vezes apenas empenhada na defesa dos seus caciques particulares, e mete as pessoas a falar dos livros de uma forma informal. Eis uma das consequências da democratização opinativa com a qual os saudosos da tirania do gosto/qualidade terão de aprender a conviver: os livros são dos e para os leitores.

XLVI



E agora convosco
nossa Secção Perguntas e Respostas
─ Senhor Cristo de Elqui
que pensa V.
dos fatos de banho de uma peça?
─ Nada tenho contra a juventude
desde que não dê nas vistas
─ Senhor Cristo de Elqui
que opinião lhe merece a Democracia Cristã?
─ Nada tenho contra a Democracia Cristã
desde que não dê nas vistas
─ Que pensa você dos concursos literários?
─ A competição nada resolve
pois não somos cavalos de corrida
condeno-os do fundo do coração
nisto sim, sou intransigente
─ Senhor Cristo de Elqui
que recomenda você
autoritarismo ou livre arbítrio?
─ Não sei o que lhe responder: em boa verdade
autoritarismo é sinónimo de repressão
─ Que futuro prevê para a Revolução Cubana?
─ O Capuchinho Vermelho triunfará.
─ Senhor Cristo de Elqui
tem você alguma opinião
acerca do escabroso tema das perversões sexuais?
─ Nada tenho contra as perversões sexuais
desde que não dêem nas vistas
claro que eu proponho o amor platónico
─ Poderá esclarecer-nos esse conceito?
─ O amor platónico chega até ao beijo na testa
o demais é trabalho do Demónio
─ Que pensa você dos bailes de máscaras?
─ Nada tenho contra os bailes de máscaras
desde que não dêem nas vistas
nada contra a festa da primavera
que cada qual se divirta a seu modo
desde que nos dêmos conta
da fugacidade de tudo isso
da precariedade de tudo isso
da irrealidade de tudo isso.


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
Versão de HMBF

ESTILO WORD, UM EXEMPLO

Reparo que o JPT fez uma referência ao estilo-Word no Ma-Schamba. Na caixa de comentários, ABM, colaborador do mesmo weblog, aparenta ter confundido o alho com o bugalho. Não se trata de actualizações ortográficas e vocabulares, mas antes de condenar à reforma grande parte do vocabulário português. Resultado: uma língua empobrecida, certamente mais usual, mas também mais entediante (como tudo o que é usual). Um brevíssimo exemplo, respigado da novela Gracejos que Matam:

Ordinariamente, chamam-se, à francesa, «espirituosos» uns sujeitos dotados de génio motejador, aplaudidos com a gargalhada, e aborrecidos àqueles mesmos que os a aplaudem. São os caricaturistas da graciosidade.
O «espirituoso», à moderna, abrange os variados ofícios que, antes da nacionalização daquele estrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de casa, outros importados: chocarreiro ─ trejeitador ─ arlequim ─ palhaço ─ proxinela ─ polichinelo ─ maninelo ─ truão ─ jogral ─ goliardo ─ histrião ─ farsista ─ farsola ─ vejete ─ bobo ─
pierrot ─ momo ─ bufão ─ folião, etc.
Esta riqueza de sinonímia denota que o «bobo» medieval bracejou na Península Ibérica vergônteas e enxertias em tanta cópia que foi preciso dar nome às espécies.
Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga «jogralidade», que era mester vil, acendrada nos secretos crisóis do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espírito», e com o foro maior da faculdade poderosa, cáustica, implacável.
Ainda assim o estreme «espírito» português, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo; não se emancipa a velha escola das farsas: é «chalaça»
.

A vermelho estão as palavras que o Word não reconhece. À excepção de pierrot, todas as outras constam num vulgar Dicionário da Língua Portuguesa. Algumas até faz pena que tenham caído em desuso, tão pertinentes que seriam nos dias que correm.

APRENDAM A NADAR

As pessoas andam abatidas, parecem ter chegado a um estado de completa ausência de perspectivas. O abismo é o panorama que lhes resta. Tudo porque sentem que estão a perder conforto e autonomia, porque se vêem cada vez mais sujeitas aos critérios feudais do grande capital. O futuro, neste momento, é-lhes como o mar para os nossos antepassados; aqui chegados, tiveram uma de duas hipóteses: montar a tenda ou voltar para trás. Muitos séculos passaram até que fosse possível atravessar o oceano. Uma voz ecoa sai de casa, faz-te à estrada, segue o exemplo. O Omar diz-me: enxotem a crise, vão trabalhar, emigrem.

Segunda-feira, 25 de Outubro de 2010

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: UCRÂNIA


A última estação mereceu um importante comentário do GAF que passo a transcrever:

Óssip Mandelstam apenas nasceu em Varsóvia (então parte do império russo), e foi muito pequenino para Petersburgo, onde frequentou a escola russa. Sempre se considerou «poeta russo», sempre usou a língua russa, e é a língua que faz as literaturas. Gógol nasceu na Ucrânia e sempre escreveu em russo, é um escritor russo. Odessa sempre foi russa, e ainda o é na língua e nos costumes e nos sentimentos. Odessa só é ucraniana por razões políticas recentes, após o esfrangalhamento da união soviética. Os odessianos, muito dados ao humor (por sinal de grande componente judia) riem-se quando lhes chamam ucranianos e quando os pressionam a usar uma língua que eles, pura e simplesmente, não conhecem, a não ser que a estudem. São as línguas que determinam a nacionalidade das literaturas.

E sobre este último ponto acrescentou:

É evidente que me esqueci de especificar que me referia ao caso muito concreto da literatura russa e daqueles escritores concretos, embora haja muitos mais, o que não impedia que houvesse «literaturas nacionais» dentro da própria união soviética. E a Rússia, e a língua russa, não têm a disparidade transcontinental do inglês, do espanhol e até do português.

Estes dois comentários permitem-me introduzir algumas notas acerca da digressão em curso. Esta viagem é apenas um pretexto para revisitar os poetas cá de casa. A minha postura é mais improvisadora do que determinística. Mas ainda que tenda a concordar com a ideia de que a nacionalidade de um escritor está sempre mais ligada à língua que este adopta do que ao seu local de nascimento, o qual, por variadíssimas contingências, nos coloca muitas vezes perante problemas irresolúveis, não faço dessa ideia um axioma para a vida. A “multinacionalidade” de certas línguas obriga-nos a alguns cuidados. Um escritor que adopte a língua portuguesa não é necessariamente português, pode ser moçambicano, brasileiro, angolano, etc. O mesmo sucede com o castelhano por praticamente toda a América do Sul. Portanto, a nacionalidade de um escritor resulta de um conjunto de factores que incluem a língua, o local de nascimento, os elementos culturais que foi adoptando ao longo da sua formação.

Nesta digressão, o local de nascimento é apenas uma referência a ter em conta com uma segunda intenção inicial: esbater a bandeira ensimesmada do “Portugal, país de poetas” em benefício de uma perspectiva mais alargada da criação poética. Como é óbvio, isto levanta dúvidas. E ainda bem. Veja-se o caso paradigmático de Paul Celan (“pseudónimo” de Paul Antschel), que nasceu numa cidade chamada Chernivtsi, um local que estando hoje integrado na Ucrânia, região de Bukovina, passou a fazer parte da Roménia após a dissolução do Inpério Austro-Hungaro, em 1918. Trata-se de uma cidade composta por judeus, romenos, alemães, ucranianos, polacos, anexada à União Soviética em 1940 e integrada na República da Ucrânia desde 1991. Outro caso curioso é o de Alain Bosquet (Anatole Bisk), nascido em Odessa, cidade ucraniana, a 28 de Março de 1919. Filho do poeta Alexandre Bisk, emigrou para a Bélgica e faleceu em Paris. Também em Odessa nasceram os poetas Vera Inber (n. 1890), Semyon Kirsanov (n. 1906) e Margarita Aliger (n. 1915). Outros poetas ucranianos: Ilya Ehrenburg (Kiev, 1891), Mikhail Svetlov (Ekaterinoslav, 1903 [Dnipropetrovsk desde 1917]) e Boris Slutsky (Sloviansk, 1919).

No entanto, parece-me que seria criminoso passar pela Ucrânia e não visitar a zona costeira de Bol'shoy, perto de Odessa, onde nasceu a 24 de Junho de 1889 Anna Andreevna Gorenko, a grande Anna Akhmátova. Na introdução a Só o Sangue Cheira a Sangue é o próprio Filipe Guerra quem esclarece: «A família de Anna deixou o Mar Negro por Tsárskoe Seló, nos arredores de Petersburgo, quando esta tinha apenas um ano». Não obstante, manteremos o nosso inofensivo desapego relativamente a factos que preferimos deixar para os especialistas. É de Akhmátova o poema que se segue:

TERRA MATERNA

Não a trazemos ao peito como amuleto,
não soluçamos para ela em verso sentido,
ela não perturba o nosso sonho amargo,
ela não nos parece o éden prometido.
Na nossa alma ela não se molda
em objecto de compra e de venda,
nunca nos lembramos dela na hora
miserável e muda e doente.
…………Sim, ela é para nós lama nas botas,
…………sim, terra nos dentes esmigalhada.
…………E mais amassamos, mais remoemos
…………este pó que não tem culpa de nada.
Mas nela nos deitamos, nela nos tornamos,
por isso, com direito, nossa lhe chamamos.


[Leninegrado, 1961]

Anna Akhmátova, in Só o Sangue Cheira a Sangue, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, Dezembro de 2000, p. 67.

Domingo, 24 de Outubro de 2010

A MANCHA

O pombo Benjamim foi insistindo nas mensagens de amor sem obter qualquer resultado. Baltazar nem por sombras imaginava que o pombo andava a fazer-se passar por ele, enviando mensagens de amor à vizinha do rés-do-chão. Já Bianca defumava os dias com as mensagens de amor que lhe apareciam por todos os lados e de várias maneiras. Os gatos persas permaneciam hirtos e eriçados, em posição depredatória, junto à janela de casa. Olhavam para o cimo do prédio à espera que algum pombo voltasse a aproximar-se do seu território. Bianca deixara de responder às mensagens. Depois da situação embaraçosa por que passara em casa de Baltazar, resolvera fingir uma indiferença que definitivamente não sentia. Estava convencida de que Baltazar cederia à sua indiferença, mas Baltazar era a indiferença em pessoa. Dele só podíamos esperar um apático, monótono, entediante, indolente e imperturbável desinteresse. Desesperado, o pombo Benjamim voltou a descompensar, iniciou um processo vertiginoso de despersonalização que o levou de um estado esquizóide a uma personalidade paranóide-compulsiva com obsessões de acentuada postura anti-social. Baltazar não queria acreditar no que ouvia, mas o pombo Benjamim começara a miar como os gatos persas da vizinha do rés-do-chão. Baltazar procurou na Internet possíveis explicações para o sucedido. Não foi difícil determinar um diagnóstico: despersonalização específica com fixações atípicas de segunda instância paranóica. Benjamim estava apanhadinho por uma doença-sinal-dos-tempos. O problema era a terapia a aplicar em casos que tais. Quanto a isso, nada a fazer. Dar tempo ao tempo, boa alimentação, poleiro higienizado e penugem tratada. Não obstante a deferência dos tratamentos, certa noite mal dormida o pombo sonhou com um ataque aos persas. Na realidade, não sonhou. Num acesso de sonambulismo voou sobre o inimigo desamarrando toneladas de poia tóxica sobre os gatos. No dia seguinte, Bianca estava novamente em casa de Baltazar. Falava pelos cotovelos, gesticulava, insurgia-se contra o pombal, que era porcaria por todo o lado, ralhava, gritava de braços levantados, andava de um lado para o outro arrastando consigo toneladas de pó. Baltazar reparou então numa mancha na parte de trás da saia de Bianca, como se esta se tivesse peidado e largado um pouco de molho. E tinha. Na agitação, sem que desse por isso, largara uma bufa húmida que se espalhara pelas badanas do mastodôntico cu e repassara o tecido das cuecas e da saia ficando à vista de todos. Baltazar fixou-se na mancha, estava hipnotizado, Bianca bem podia continuar a palrar, ralhar, gritar que ele só lhe via uma mancha de caca na parte de trás da saia. Subitamente ela parou de falar e estacionou de braços abertos, ligeiramente inclinada sobre Baltazar, numa postura expectante e ameaçadora, diríamos mesmo triunfal, de olhos arregalados afixados aos do seu passivo interlocutor. Fez-se um breve e incomodativo silêncio, interrompido quando Baltazar, num tom algo engasgado, sorriu ligeiramente para Bianca e disse: tens uma mancha de cocó no cu.

Escrito para O Indesmentível.

A HISTÓRIA DE MUITAS COISAS

ILUSIONISMO

Toda a ficção é um truque de ilusionismo. Há bons e maus truques. Os bons são aqueles que nos convencem de uma magia que definitivamente não existe.

LIFENESS

O conceito de lifeness como que transforma o ficcionista numa espécie de fada madrinha a quem as personagens solicitam vida própria. Neste sentido, Pinóquio é a mais representativa de todas as personagens. Até pela sua natureza artificial, e pelo nariz que lhe denuncia as aldrabices.

Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010

O REALISMO


O realismo, visto em traços largos como fidelidade à maneira como as coisas são, não pode ser mera verosimilhança, não pode ser mera veracidade, mas sim o que eu chamo lifeness: a vida na página, a vida reanimada pela arte mais elevada. E não pode ser um género; o que faz é com que outras formas de ficção pareçam géneros. Porque este tipo de realismo ─ lifeness ─ é a fonte. Educa todos os outros; ensina os seus próprios gazeteiros: é o que permite a existência do realismo mágico, realismo histérico, fantasia, ficção científica, até dos thrillers. E não é tão ingénuo como os seus detractores acusam; quase todos os grandes romances realistas do século XX reflectem sobre a sua composição, e estão repletos de artifício. Os grande realistas, de Austen a Alice Munro, são também grandes formalistas. Mas isto será sempre imensamente difícil: porque o romancista deve agir como se todos os métodos ficcionais disponíveis estejam sempre à beira de se transformar em meras convenções, forçando-o a procurar formas de evitar essa inevitável obsolescência. O verdadeiro escritor, o verdadeiro servo da vida é aquele que age constantemente como se a vida fosse uma categoria muito além de qualquer coisa que o romance já tenha captado; como se a própria vida estivesse sempre à beira de se tornar convencional.


James Wood, in A Mecânica da Ficção, trad. Rogério Casanova, Quetzal, Abril de 2010, pp. 262-263.

A MECÂNICA DA FICÇÃO

A primeira questão que me ocorre ao ler um livro como A Mecânica da Ficção (Quetzal, Abril de 2010) ─ excelente versão portuguesa de Rogério Casanova para How Fiction Works (2008) ─ é a quem pode interessar um livro destes. O autor do texto de contracapa da edição portuguesa sugere-o a «estudantes, professores e bons leitores». Tendo em conta que os maus leitores foram excluídos, o que me parece uma ingénua falha estratégica, pois a ninguém senão a essa massa dúbia de consumidores esta obra faz falta, suponho que os críticos literários e os escritores constituem um tímido, mas interessado, público-alvo para as teses de James Wood. Os primeiros, para ver se aprendem alguma coisa; os segundos, porque só lhes faz bem perceberem como funciona a cabeça dos primeiros.

Nascido em 1965, o inglês James Wood é professor de crítica literária em Harvard e exerce o ofício na The New Yorker. Aponta-se-lhe o duvidoso feito de ter transformado a crítica literária num assunto pop, o que em si mesmo induz uma contradição nos termos. No entanto, ao percorrermos as quase 280 páginas de A Mecânica da Ficção percebemos que talvez não seja bem assim. O estilo é culto e fundamentado, mas igualmente claro e bem-humorado. Entre inúmeras citações, leituras cuidadas e minuciosas, confrontações de trechos diversos, numa proliferação de exemplos que enriquecem uma argumentação pedagógica, mas nada dogmática, surgem aqui e acolá piadas, anedotas do mundo literário e apontamentos cómicos que tornam a prosa bastante apelativa.

Numa nota de rodapé, Wood confessa-se viciado no «jogo absolutamente frívolo de coleccionar exemplos de personagens secundárias que por acaso têm o nome de escritores famosos» (segue-se um curto inventário); logo a seguir conta a história do presidente da Câmara de Neza que decidiu distribuir, pela força policial local, uma série de livros cuja leitura poderia contribuir para melhorar a cidadania dos agentes policiais; e há ainda um lembrete sobre «o tipo de rotina de escrita atribuída ao escritor inglês A. C. Benson ─ não fazer nada de manhã e depois passar a tarde a descrever o que tinha feito de manhã». No entanto, não nos atenhamos em demasia às notas de rodapé.

Em boa verdade, o trabalho de James Wood consiste em desocultar os mecanismos da ficção, distanciando-se da crítica de Barthes às convenções ficcionais e esbatendo a dicotomia entre realismo e formalismo. Fá-lo em tom de palestra, interrogando-se sobre vários aspectos inerentes à arte de narrar, tais como a importância dos detalhes, a complexa relação das personagens com o autor, a questão do diálogo, a presença da metáfora, etc.. O «estilo indirecto livre» é pré-estabelecido como o mais útil à narrativa, a própria história do romance acaba por ser associada ao desenvolvimento deste estilo, pois é graças a ele que conseguimos ver «as coisas através dos olhos e da linguagem das personagens, mas também dos olhos e da linguagem do autor» (p. 27). Neste sentido, Wood define o trabalho do ficcionista pela sua capacidade de criar personagens, conseguindo pensar com elas e por elas.

Referenciado como um marco daquilo que hoje se considera ser «a moderna narração realista», Flaubert nunca é perdido de vista pelo autor de A Mecânica da Ficção. Aparentemente, uma escrita de tipo cinemático obriga o narrador a uma selecção mais rigorosa dos detalhes, «portanto a tarefa do escritor ─ ou do crítico, ou do leitor ─ é procurar o indispensável, o supérfluo, o gratuito, o elemento do estilo que não pode ser facilmente reproduzido ou reduzido» (p. 248). É nesse trabalho de selecção que reside o artifício de toda a narrativa, mormente da mais realista. «Com Flaubert e os seus sucessores, apercebemo-nos de que a escrita ideal é uma procissão de detalhes interligados, um colar de observações, e que isto é por vezes uma obstrução e não um auxílio visual» (p. 94) ─ afirma James Wood. Colocado assim, o problema parece transportar-nos para uma concepção idealista da escrita. Afinal, será legítimo falar de uma «escrita ideal»?

A resposta a esta questão obriga-nos a considerar o que esperamos de uma obra de ficção. James Wood parece pôr a tónica nas personagens. As personagens ficcionais são tão mais sólidas e cativantes quanto nos permitem pressupor a sua existência chamando-nos para dentro do seu mundo. Mais do que elaborar um tratado sobre a criação de personagens, Wood desmonta uma série de truques e inventaria técnicas utilizadas por vários autores. E conclui: «Creio que um romance fracassa, não por as personagens não serem suficientemente vividas ou profundas, mas quando não consegue que o leitor se adapte às suas convenções, quando não consegue engendrar uma ânsia específica pelas suas próprias personagens, pelo seu próprio nível de realidade» (p. 139). O que importa é a subtileza das personagens, não propriamente a sua verosimilhança.

AGORA ENTENDO NIEMEYER

à Carla Ribeiro


Nunca me canso
do teu corpo
sem ângulos rectos
que impedem o avançar
das mãos

Nunca me canso
de o dizer
apesar de tu rires sempre
e eu perguntar

porquê?

porque gosto quando falas
assim

Então volto a repetir
nunca me canso
do teu corpo
sem ângulos rectos
que impedem o avançar
das mãos

tu ris
outra vez

e o dia é bom


manuel a. domingos, in O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira, org. Victor Oliveira Mateus, Labirinto, Outubro de 2010, p. 114.

Quinta-feira, 21 de Outubro de 2010

CÃOSIBETRO


Talvez interesse ao poeta, mas duvido que interesse ao leitor. Ainda que muitas vezes se confundam, e cada vez menos se distingam, poeta e leitor de poesia mantêm uma relação desequilibrada com o poema. Tenho dúvidas que para o primeiro o poema possa ser mais do que um testemunho perturbado da conexão que o seu pensamento estabelece com a linguagem. Daí que seja tão difícil, até contraproducente, traduzir um poema: perde-se música, ritmo, adultera-se, eventualmente, o sentido e até o significado do poema enquanto um todo singular. Podemos, no entanto, distinguir aqueles poetas para quem o poema é uma composição guiada pela vontade de outros para quem o poema resulta de uma vontade que se deixou guiar pela força das palavras ou por outras forças mais duvidosas, como a chamada inspiração.

Num dos seus manifestos, Vicente Huidobro insurgia-se contra os improvisadores, negando a possibilidade de um automatismo psíquico puro e classificando de banal e demasiado fácil a escrita automática advogada por um surrealismo primevo: «Todos los improvisadores actúan conforme a vuestros principios. No son los amos sino los esclavos de su imaginería mental». E acrescentava que a poesia é algo muito mais sério e formidável que surge da nossa superconsciência. Outro poeta chileno, Nicanor Parra, dizia que o poeta é um caçador de palavras que compõe poesia, não a produz: «Él no es más que un oído atento que colecciona su poesía de las bocas de sus hablantes». Portanto, o trabalho do poeta consistiria, numa primeira fase, em coleccionar palavras, frases, situações e, numa segunda fase, em elaborar esses dados provenientes da experiência oferecendo-lhes uma maquilhagem nova ─ mas fiel ao rosto original. Como é óbvio, este rosto original é de uma subjectividade ilimitada. Ninguém vê da mesma forma o mesmo objecto, a poesia não é um teste de Rorschach e mal de nós, leitores de poesia, quando os poetas pretenderem transformar-se em agrimensores da realidade ou numa espécie de sociólogos informais com pretensões científicas.

Apesar de tudo, a relação que o leitor de poesia (desinteressado) mantém com o poema é sempre mais honesta. Ele pode afirmar, como Fernando Assis Pacheco em Desversos (1990), «não tenho nada contra a poesia / mas é mais útil a limpeza a seco». Isto implica uma consciência, certamente irónica, da relevância da poesia, aqui enquanto embaixadora de toda a arte, num mundo avesso à existência dessa mesma poesia. Note-se que aqueles dois versos são os últimos de uma quadra que começa elencando «as artes nobres: varrer sachar empar / e outras: bordar coser fazer renda». Na boa tradição de Parra, esta quadra mais não faz do que coleccionar os estereótipos de um pensamento oficial, banal, vulgar, afirmando algo que, bem vistas as coisas, pretende ressalvar exactamente o contrário daquilo que está a ser dito. A ironia, aqui, reside precisamente nessa capacidade de insinuar algo afirmando o seu oposto.

Um leitor desprevenido, ao ler num poema que a limpeza a seco é mais útil do que a poesia, só pode fechar imediatamente o livro que está a ler e lançar-se na realização das tarefas domésticas. Mas um leitor mais acautelado suspenderá naquele momento a sua relação com o mundo, ficará por instantes a pensar no que possa querer dizer o que acabou de ser lido, e regressará à sua vida de todos os dias com uma nova imagem a rolar nos interstícios da consciência. Para ele aquele poema terá uma incomensurável e indefinível utilidade, nomeadamente a utilidade de lhe fazer repensar os preconceitos e os estereótipos que ainda hoje vigoram num mundo que há muito expulsou os poetas da cidade ideal para continuar a alimentar a ilusão de uma verdade universal e amestrar os indivíduos nos alienantes ofícios da sobrevivência material. A vida de um homem não pode ser reduzida ao trabalho. O trabalho dos poetas também é lembrarem-nos disso, isto é, lembrarem-nos de que não somos escravos.



Ao alto: uma das composições zoológicas do Animalário Universal do Professor Revillod, publicado em Setembro de 2009 por Orfeu Mini. Aconselha-se vivamente o livro em causa a todos os poetas ou seres deste e de outros mundos com pretensões a.

AS PALAVRAS VOAM

Às vezes googlo-me, e nunca deixo de me surpreender:

Algures por aqui.

TRABALHO DE CASA

Acabei agora mesmo de receber este e-mail:

Se de noite te atirarem um ovo contra o parabrisas (o reconhecerás por a cor amarela, já que a clara talvez não a distingas): mantem a calma e acelera, não uses o limpa parabrisas, jamáis deites água no parabrisas, acelera e foje, que os ladrôes estâo por perto. Mas sobretudo não percas os nervos, usa o telemóvel, se for necesário. O ovo com água, ao unir-se, formam uma substância viscosa como o leite, na qual te vai impedir de ver por onde vás, tapando a visão em cerca de 90% e serás forçado a parar por esse sitio onde circulas ai serás vítima de roubo. Esta é a última modalidade que os ladrões inventaram. Por favor, envia a familiares e amigos.

Parece-me óptimo para um exercício de Língua Portuguesa.

PRINCÍPIO DO ESCURO

Acordei hoje como se fosse natural-
mente necessário ter o comprimento
do teu corpo na minha cama e estranhei
que não me abraçasses, nem preenchesse
o encaixe da tua pélvis
as minhas nádegas, a tua mão
sobre o meu monte, os teus joelhos
encostados à dobra onde os meus flectem

Vês daí como tudo ainda e sempre
treme continuamente, e a descompasso
do real, todos os dias tenho calores
de imaginação, trabalho a libido
do cansaço, se fecho os olhos não durmo,
encho-me, ao invés, de fricções. Depois
no outro plano, já sentiste, custa-me
estar presente: das consecutivas vezes
que nos tocámos na boca, estudei os beijos
como uma alegoria embaraçosa:
tudo sob o comando diferido
da cabeça, com tensão mais que tesão,
a minha língua esgrimia a tua, quase
nada clamava ou humedecia, talvez
exceptuando um latido pequeno de amor
a pingar com irritação, não sei,
e além do mais haveria a indagar
se são de facto compatíveis nossas
espécies, se nisso há inevitabilidade,
ou onde preciso das tuas carícias
nos anéis das cervicais ou dedos
na pele ou o princípio do escuro
a partir do perímetro da cintura.


Margarida Vale de Gato, in O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira, org. Victor Oliveira Mateus, Labirinto, Outubro de 2010, p. 120.

Quarta-feira, 20 de Outubro de 2010

A IMPORTÂNCIA DOS DETALHES

Enquanto (fingia que) lia A Mecânica da Ficção na Pastelaria Machado, tentei observar atentamente aquilo que me rodeava. Queria captar os pormenores, dá-los a conhecer a mim próprio como se fosse um grande romancista. James Wood diz que «a literatura difere da vida na medida em que a vida é homogeneamente repleta de detalhes, e raramente chama a atenção para eles, enquanto a literatura nos ensina a reparar». Não me sinto à vontade para discordar de James Wood, mas durante muitos anos alimentei uma religiosa aversão à ficção precisamente por julgar que não precisava de ser ensinado a reparar. Convenci-me que a boa ficção só poderia ser aquela que me ensinava a distrair-me. Hoje, na Pastelaria Machado, enquanto fingia que lia A Mecânica da Ficção senti uma falta irreparável dessa boa ficção que, ao contrário do livro de James Wood, poderia ter-me distraído de uma série de pormenores e detalhes indesejáveis. Está a tornar-se penoso sair de casa para beber um café. As pessoas falam demasiado alto e tudo o que se ouve, e tudo o que se vê, é precisamente o que não queremos ver nem ouvir. Regresso então ao livro e reparo que Rogério Casanova, o tradutor, manteve escocês o beato Duns Scot. Felizmente, não o aportuguesou para um Escoto que me lembra sempre uma professora de Filosofia Medieval que cheirava mal da boca. Detalhes que mudam a perspectiva do mundo.

NAKED GIRLS READING


Em tempos, a SIC Radical teve um bloco noticioso apresentado por uma pivô que se ia desnudando à medida que deixava o telespectador a par da actualidade. Táctica copiada lá de fora, pois claro. Agora, um grupo chamado Naked Girls Reading lembrou-se de promover sessões de leitura substituindo o cinzentismo das comunidades de leitores pelo júbilo do nudismo literário. A coisa é-nos resumida nestes modos: «estas senhoras despem-se de preconceitos e sentam-se em frente à plateia - de pernas cruzadas! - para ler, desde os grandes clássicos a livros de terror e suspense»... Têm um sítio com vídeos e fotografias. É uma ideia a importar, embora me pareça pouco provável que em Portugal alguém esteja disposto a ler de pernas cruzadas.

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS


Pedro Bento passou do gabinete do secretário de Estado Paulo Campos para a empresa pública que gere o sistema de portagens nas autoestradas. E já este ano transitou para a empresa fornecedora dos mecanismos de pagamento nas SCUT. Os €53 milhões de euros que o Estado prevê gastar em 2011 em pareceres, estudos e consultadoria, assim como gastos de cerca de €300 mil em "artigos honoríficos e para decoração", são despesas "absolutamente essenciais". Dos 109 mil alunos que entram no primeiro ano de escolaridade em Portugal só 32 mil chegam ao 12.º ano. São pelo menos nove os organismos que o Governo anunciou que iria extinguir no próximo ano e que, afinal, já não existem ou cujo encerramento já estava previsto para este ano. Da lista de 50 organismos, cerca de 18% são, assim, extinções 'virtuais' - em 2011 já não existiriam, ou não deviam existir, por ordem do Governo. O sector da indústria farmacêutica declarou um volume de negócios que ultrapassou os 5300 milhões de euros entre 2005 e 2007, mas o que pagou, para efeitos de IRC, ficou "aquém dos nove milhões de euros", de acordo com um relatório de auditoria da Inspecção-Geral de Finanças (IGF). Portugal implanta el peaje más caro y caótico del mundo. A Câmara de Lisboa gastou afinal 228 mil euros com a visita do Papa Bento XVI, em Maio passado. Comentários para quê?

ROSTO

Uma das minhas mágoas
é seres hoje mais bela do que
aos vinte anos, naquela foto
que há tempo me levaste dos arquivos
com todo o nosso espólio.
Decerto esqueceste que os poemas
se tornam a melhor memória,
porque é neles que a luz renasce
e as palavras se mudam em imagens
como na tua face agora.
Com certeza, dizia-te vezes de mais
como é belo, princesa melancólica,
como é belo o teu rosto,
e era verdade, eu via algo de actriz
de Antonioni em sua luz velada.
Já morríamos, quando um dia
me respondeste não é isso
que o espelho me revela.
Ai que substância a nossa, seres
imperfeitos de vida surda.
E agora, que farei com o teu rosto
a brilhar - elegias?


Nuno Dempster, O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira, org. Victor Oliveira Mateus, Labirinto, Outubro de 2010, p. 154.

Terça-feira, 19 de Outubro de 2010

ENTULHO

A discrição com que João Miguel Henriques (n. 1978) vai divulgando os seus poemas, distante da mundanidade literária e dos seus reconhecíveis epicentros, desafia-nos a uma atenção que nem sempre é a mais cautelosa. Não esperando que outros deixem de se distrair com minudências grupusculares, cabe-nos, no mínimo, evitar cair nessa mesma esparrela recreativa. Entulho (Abril de 2010), folheto publicado pela Arqueria Editorial, com sede em São Paulo, leva-nos de regresso à poesia do autor de O Sopro da Tartaruga (2005). Pelo meio, escapou-nos Também a Memória é Algum Conhecimento (2009). É na internet que encontramos alguns dados sobre João Miguel Henriques: estudos de literatura em Lisboa, Jena e Edimburgo, participação no Tordesilhas, Festival Ibero-Americano de Poesia Contemporânea, uma mudança mais recente para a Eslovénia. Em 2005, numa leitura rápida do livro de estreia, detectei-lhe o gosto pelo poema breve e por uma linguagem simples, tingida por uma ligeira ironia, roçando por vezes o nonsense, com uma inclinação para o jogo formal e para a significação dúbia. São características que se mantêm, embora algo deva ser acrescentado.

Entulho colige catorze poemas breves que impressionam pelo seu elevado grau de depuração. Logo no poema inicial, intitulado Voz, percebemos uma cadência informal que oferece ao texto uma atraente sobriedade. O poema funciona como uma espécie de arte poética onde se sublinha a autonomia da voz relativamente ao pensamento, como que renegando aos versos o predomínio da razão. Trata-se, pois, de afirmar a ambiguidade dessa relação estabelecida entre o pensamento e o poema enquanto resultado de algo mais que não se escuda somente no pensamento. A voz escutada nos versos vem «do fundo do peito», é «livre / como todas as coisas boas da terra», não está cativa de derivações herméticas nem automatismos vazios de conteúdo, mas afirma-se mormente pela sua dimensão afectuosa. É uma voz que, transcendendo as cisões entre o corpo e o pensamento, entoa um canto partilhável. Neste sentido, a musicalidade é um elemento essencial nos poemas de João Miguel Henriques, a musicalidade que as palavras geram na sua conexão e o ritmo que advém desse mesmo relacionamento.

Não se julgue, contudo, que se trata de uma musicalidade aniquiladora do significado. Não só não o aniquila, como logra reforçá-lo. E nesse sentido percebemos um distanciamento da paisagem urbana que abunda na mais propalada poesia portuguesa da actualidade, um distanciamento que recusa a imundície da cidade ao mesmo tempo que afirma a poesia enquanto sobra dos afectos apagados pela vida citadina: «onde antes era possível um abraço / não resta agora mais que poesia». Não existem palavras a mais nestes poemas, a ausência de pontuação é superada por uma respiração segura e um perfeito domínio rítmico. Por vezes, algumas associações livres são traídas pela previsibilidade dos resultados (é o que parece acontecer no poema intitulado Parque), mas é raro isso acontecer. Mais frequente é os poemas de Entulho nos remeterem para uma irónica incompatibilidade entre as palavras e os objectos: «as palavras / são uma coisa / e as coisas / uma coisa diferente».

Esta essencialidade insubstituível remete a poesia para o lugar da representação, não lhe recusa a sombra das suposições, o lugar da incerteza, o predomínio dos acasos na figuração do real. Poemas como Continente, Estação ou Terra, que estão entre os mais ágeis deste conjunto, lançam-nos nesse espaço dúbio de algo que se anuncia mas ainda não sucedeu: «há-de o céu um dia / tornar-se terra revolta / desordenada / derradeira» ou «hás-de acordar por fim para a coisa nova / (ainda há tempo) / comigo ao lado, suave engano» ou ainda «a puta da terra que nos há-de cobrir a todos». Não é tanto uma certeza que aqui se expressa, mas sim uma crença alicerçada na presunção. Entre a verificação dessas presunções e o momento de as afirmar, vingam as suposições: «nesta parte incerta da cidade / terá nascido porventura algum poeta / mera suposição, é evidente, / mas de quem há muito calcorreia artérias estranhas // e eu terei lido alguma vez esse poeta / de cuja casa contemplo agora a ruína / algures por aqui / por estas ruas incertas / aceso por um fogo que apenas suponho».
Escrito para o Rascunho.

BIBLIOTECA



em boa verdade a biblioteca
era naquele tempo um refúgio de párias
talvez ainda o seja
faz anos que não a visito

os livros sussurravam frases inteiras
e das estantes mais próximas
era possível escutar os seus desaires

escusado lembrar o pó por todo o lado
e aqueles duzentos, trezentos volumes
da honrosa categoria dos
jamais lidos de cabo a rabo

foi lá que me treinei no choro pequeno
e no querer imenso
de fogueiras gigantes com livros


João Miguel Henriques, in Entulho, Arqueria Editorial, Abril de 2010, s/p.

OS TEUS OLHOS ABERTOS SÃO DO TAMANHO DOS MEUS DEDOS

Os teus olhos abertos são do tamanho dos meus dedos
E não falam de silêncios nem de sombras
Nem de coisas de sonhar.

Os teus olhos lembram segredos de riso,
Pequenas palavras que se dizem poucas vezes.
É nos teus olhos que sei o rumor da minha história -
Olhos de quem cresce a olhar.

(sei que enquanto me olhas respiras)

Só eu desejo a tua boca,
Pedaço antigo de sede e confronto
Por onde entra a luz jubilosa que respiras.
Da tua boca sei que traz gestos de nomes ditos
Enquanto tudo à volta acontecia.

E com os dedos percorres o sibilar da língua,
Tocas objectos que são a pele do mundo
Com a delicadeza própria de lábios.
E os teus dedos são do tamanho dos meus olhos abertos.


Rui Almeida, in O prisma das muitas cores - Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira, Labirinto, Outubro de 2010, p. 169.

O CHEIRO DA ÍNDIA

Em 1961, Pier Paolo Pasolini (n. 1922) já tinha publicado livros de poemas, o polémico romance Ragazzi di vita (1955) e realizara Accatone, a sua primeira longa-metragem. Com um currículo judiciário impressionante, fora denunciado por corrupção de menores, condenado por actos obscenos, detido por embriaguez, processado pelo romance supracitado, considerado obsceno e pornográfico, acusado de difamação, etc. Mas 1961 foi também o ano de uma viagem à Índia, na companhia do amigo de sempre Alberto Moravia, de quem a Tinta-da-China publicou há não muito o volume Uma Ideia da Índia. O Cheiro da Índia, publicado pela editora 90º, em Junho de 2008, com tradução de Miguel Serras Pereira, oferece-nos a memória que Pasolini firmou dessa viagem, a qual teve como pretexto, diga-se, o convite para participar numa comemoração dedicada a Rabindranath Tagore (1861-1941), poeta indiano agraciado com o Nobel em 1913. O título aponta para um discurso impressionista e, provavelmente, pouco reflectido, mas o resultado final alerta-nos contra as construções mitológicas que a Índia do Kama Sutra e do Taj Mahal continua a alimentar. A milhas de uma perspectiva romântica do que pudesse ser uma vivência quotidiana da religiosidade (Pasolini era, recorde-se, um homem com um profundo sentido da vivência religiosa), O Cheiro da Índia coloca-nos em ruas miseráveis e imundas povoadas por mendigos, «encruzilhadas cheias de gente descalça, vestida como na Bíblia» (p. 10), cenários de desgraça e de desolação. Entre aquela miséria atroz, típica de um país parado e dramaticamente humilde, ressalta a imagem de um povo afectuoso e brando: «A vida, na Índia, tem os caracteres do insuportável: não se sabe como se pode resistir comendo um punhado de arroz sujo, bebendo uma água imunda, sob a ameaça constante do cólera, do tifo, da varíola, quando não da peste, dormindo no chão, ou em alojamentos atrozes. O despertar de cada manhã deve ser um pesadelo. E contudo os indianos levantam-se, com o sol, resignados e, resignados, começam a ocupar-se das suas coisas: é um girar no vazio durante o dia inteiro, um pouco como se pode ver em Nápoles, mas, aqui, com resultados incomparavelmente mais miseráveis. É verdade que os indianos nunca estão alegres: muitas vezes sorriem, é verdade, mas são sorrisos de doçura, não de alegria» (p. 22). Não deixando de ser poética, esta é uma representação que nos coloca no nervo da sobrevivência. O sorriso de quem não tem nada a perder num país com vários milhões de leprosos e mais de 80% de analfabetos é um sorriso piedoso. O cheiro que Pasolini guardou da Índia foi um cheiro cadavérico, num país imenso que, curiosamente, o poeta diz pequeno pela sua uniformizada cristalização histórica. A esperança é ténue e fúnebre: «As pessoas que na Índia estudaram, ou possuem alguma coisa, ou seja como for, desempenham essa função a que se chama “dirigir”, sabem que não têm esperança: mal chegam a sair, por meio de uma consciência cultural moderna, do inferno, sabem que terão de continuar no inferno. O horizonte de um ainda que vago renascer não se desenha aos olhos desta geração, nem da próxima, e não se sabe a quais de entre as futuras se revelará enfim. A ausência de qualquer esperança expectável faz pois com que os burgueses indianos, repito, se fechem no pouco que possuem com alguma certeza: a família. Fecham-se nela para não verem e para não serem vistos» (p. 49-50). Meio século passado, talvez já não seja tanto assim. O complexo sistema de castas que Pasolini repudia poderá retardar uma efervescência social mais dinâmica e criativa, mas não tem impedido o desenvolvimento em várias frentes. Chegam-nos hoje sinais que talvez possam vir a desmentir aquilo que Pasolini farejou há 50 anos nas ruas de Bombaim e Nova Deli.

Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

NA MINHA FAMÍLIA ÉRAMOS TRÊS

Na minha família éramos três
ou melhor, sete, se contarmos
com os avôs e as avós sempre presentes.
Os meus pais eram os filhos únicos
de famílias afortunadas, de gente que
crescendo muito pobre chegara ao ponto
de ter casa, carros, empresas e sapatos.
Na minha família éramos três
e desse tempo eu não me lembro de nada,
ou porque era mesmo muito pequeno
ou porque é preciso algo de forte
acontecer na nossa vida para a
memória começar a funcionar.
Na minha família aconteceu nascer um irmão
e então tive que reformular.
Na minha família éramos quatro
ou melhor, oito, se contarmos
com os avôs e as avós sempre presentes.
Éramos quatro e, até aqui, parece
que não acontecia nada nas nossas vidas.
Havia a escola e alguns amigos,
muitos e muitos momentos sozinho,
passeios de carro aos sábados de tarde
e futebol nas tardes de domingo.
Pensando bem, quando eu nasci
a minha família eram três crianças
e depois passámos a ser quatro.
Os avôs e as avós estavam sempre presentes,
faziam jantares e compravam prendas,
tinham casas com jardins e quartos de visita.
Crescia-se muito devagar na minha família,
não para se ser um homenzinho
mas se poder ser criança mais tempo.
Fiquei velho muito cedo, velho e rabugento,
fechado dentro do quarto ou debaixo da mesa
com os olhos chorosos para lá dos óculos.
Na minha família éramos quatro
e os quatro quase nunca falavam
ou se falavam vinham-me as lágrimas aos olhos
e eu passava a mão e acreditava que ninguém me via.
De tanto acreditar nisso tornei-me invisível
e depois passei a achar que todos eram invisíveis como eu.
Na minha família éramos quatro,
o meu pai, a minha mãe, o meu irmão e eu,
e tantas vezes eu penso como éramos diferentes
e afastados, como era difícil conseguirmos ser só um.
Nós os quatro quase nunca falávamos
e quase nunca crescemos juntos,
aliás, nunca chegamos sequer a crescer.
Os avôs e as avós sempre presentes
a falar de coisas dos homens grandes
e de um amor reverencial que nos parecia,
a todos, algo de distante e irrealizável.
Na minha família éramos quatro
ou melhor, oito, e como não fomos para homenzinhos
deixámos que o tempo chegasse
e nos atingisse com o que os olhos,
e até o coração, não queriam ver.
Os meus avôs desapareceram, um morto
outro suicida, e uma das avós
só nos via a chorar e a lamentar
coisas que nenhum de nós percebia.
Luta-se, na minha família, para se ser amado
e compreendido pelos outros
e sentimo-nos, quotidianamente, como falhados,
não porque nos falte o amor
mas porque nos falta alfabetizar o coração:
amamo-nos mas não nos percebemos.
Andamos cada um para o seu lado
e da nossa identidade conjunta nada sobra,
nem os jantares de natal.
Hoje, a minha família são três,
mais um, mais um, mais eu,
e parece que ninguém está sempre presente.
Ou talvez nenhum de nós perceba
o que dizemos uns aos outros
no tempo todo que passamos calados.


Luís Filipe Cristóvão, in Pequena Antologia Para O Corpo, edição bilingue com versão castelhana por Manuel Moya, Colecção Palavra Ibérica, Ayuntamiento de Punta Umbría, 2007, pp. 48-50.

ESTILO WORD

Quis fazer a experiência sem qualquer motivo a sustentá-la: copiei uma das novelas de Camilo Castelo Branco para o Word. Resultado, dezenas de palavras irreconhecíveis. Como o Word considera erro aquilo que não reconhece, dezenas de erros numa novela de Camilo. Hei-de experimentá-lo com um conto de Guimarães Rosa. É desolador pensar que nos próximos anos assistiremos à intensificação de uma literatura-estilo-Word, com palavras reconhecíveis e sem erros lá nos critérios petulantes do processador de texto da Microsoft. Uma língua empobrecida pelos ditames da informática. Eis um desafio a levar muito a sério: escrever contra o Word, pela defesa da língua e dos vocábulos em vias de extinção.

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: RÚSSIA


Os leitores de poesia portugueses estão suficientemente familiarizados com a lírica russa. Várias antologias, tradutores empenhados, recolhas generosas de notáveis poetas da extinta União Soviética oferecem-nos um panorama relativamente vasto de uma das mais relevantes literaturas do mundo. No entanto, quando pensamos em poesia russa vêm-nos à memória nomes como os de Anna Akhmátova, que nasceu em Odessa, uma cidade costeira ucraniana, ou Óssip Mandelstam, que nasceu em Varsóvia, na Polónia. Alexander Púshkin, que é hoje considerado um dos fundadores da moderna literatura russa, nasceu em Moscovo no ano de 1799. Também moscovita é Marina Tsvetáeva, sobre quem deixei algures uma breve nota biográfica. São, por assim dizer, russos de gema, o que não quer dizer que os outros sejam de clara, até porque no mundo das letras as fronteiras geográficas nem sempre coincidem com pseudo-fronteiras literárias. Para esta viagem escolho o nobelizado Boris Pasternak, igualmente nascido em Moscovo no ano da graça de 1890. Filho de um professor de pintura e de uma pianista aclamada, Boris cresceu num ambiente culturalmente privilegiado. Rilke, Tolstoy, Rachmaninoff, eram visitas lá de casa. Estudou música e filosofia, publicando o primeiro livro de poemas em 1914. A Primeira Guerra Mundial levou-o aos montes Urais, onde foi professor, operário e recolheu material para aquela que viria a ser a obra da consagração universal: o romance Doutor Jivago. Em 1921, a sua família emigrou para a Alemanha. Boris apoiou a Revolução, empregou-se como livreiro e dedicou-se à poesia. 1922 foi o ano do casamento com Evgeniia Vladimirovna Lourie, quando o poeta já havia granjeado algum reconhecimento nacional, sobretudo, por causa de um livro intitulado Sestrá moiá-jizn’ (My Sister Life). A recusa do realismo soviético que então se impunha trouxe a Pasternak alguns constrangimentos. Impossibilitado de publicar a sua poesia, entregou-se à tradução de autores como Shakespeare, Goethe, Kleist, Verlaine e o "ídolo" Rainer Maria Rilke. Separou-se em 1931 e, três anos depois, voltou a casar, desta feita com Zinaida Nikolaevna Neigauz. Malraux conseguiu levá-lo a Paris, para participar num Congresso Anti-Fascista. A Segunda Guerra Mundial inclinou-o para os versos patrióticos e privou-o de muitos dos antigos leitores, intelectuais recambiados para os Gulag. O seu último livro de poesia foi publicado no ano da morte, em 1960. Vivia em Peredelkino, perto de Moscovo. Boris Pasternak morreu vitimado pelo cancro dois anos depois de lhe ter sido atribuído o Prémio Nobel da Literatura:

É ASSIM QUE COMEÇAM

É assim que começam. Pelos dois anos
Separam-se da ama para o enigma das melodias,
Gorjeiam, assobiam, ─ e as palavras
Surgem por volta dos três anos.

É assim que começam a entender.
E no ruído pior que uma turbina
Parece que a mãe não é mãe,
Que eles não são eles e a casa é outra.

Que fazer da terrível beleza
Que se senta no banco lilás?
Realmente quer roubar crianças?
E assim nascem as suspeitas.

Assim amadurecem os receios. Aceitar
A estrela alta inatingível,
Quando se é Fausto, quando se é visionário?
É assim que começam os ciganos.

É assim que se abrem, voando alto
Sobre as cercas, onde estão as casas ausentes,
Dos mares súbitos como suspiros.
É assim que nascerão os jambos.

Assim nas noites de Verão, de barriga
Na areia, e a súplica: Seja!
Ameaçam a aurora com a tua pupila.
E até se atrevem a discutir com o sol.

É assim que começam a viver de poesia.


Boris Pasternak, in Antologia da Poesia Soviética, org. e trad. Manuel de Seabra, Editorial Futura, Dezembro de 1973, pp. 91-92.

RAGA

Raga é, em língua apma, o nome da ilha de Pentecostes, situada em Vanuatu, estado insular da Melanésia, e banhada pelo Oceano Pacífico. Le Clézio oferece-nos uma outra visão dos mares outrora navegados por Melville ou Stevenson, de terras pintadas por Paul Gauguin, que não sai nada bem na fotografia, e desse lugar próximo de Samoa, de onde nos chegaram os discursos do chefe Tuiávii. A visão idílica dos Mares do Sul desfaz-se à medida que vamos penetrando a imensidão de um oceano há muito assaltado pelo medo. Viagens de piroga, papa de inhame servida numa escudela, alimentos cozidos sobre pedras escaldantes e a beleza enigmática do céu austral são representações inerentes a um imaginário exótico que não logra encobrir uma história de exploração imposta pelos colonos ocidentais. Lembram-se os tempos da escravatura, a chegada dos colonos e das suas arrasadoras epidemias, a sensação de angústia e de desconfiança que ainda hoje paira sobre a ilha sempre que alguém de fora se aproxima. Mas nem sempre as ameaças vêm do exterior. A ilha de Pentecostes surge-nos como um lugar isolado, repleto de cumes inacessíveis, atapetados por uma vegetação impenetrável, onde vigora uma sociedade machista. A este propósito, o fabrico das esteiras de pandano, maioritariamente realizado por mulheres, veio abrir as portas a uma ténue revolução social. «Agora, as mulheres de Raga podem pagar mercadorias e serviços com as suas próprias esteiras…» (p. 40) Ainda longe da libertação perpetrada a Ocidente, as mulheres de Raga encontraram no fabrico das esteiras um forte aliado no acesso ao poder. Do relato de Jean-Marie Gustave Le Clézio sobressai um povo que aprendeu a superar as dificuldades impostas pelo seu próprio lugar e a resistir às contrariedades importadas pelos antigos colonos. «Não deve haver mais nenhum motivo para a viagem a não ser o de avaliar exactamente as nossas próprias incompetências» ─ conclui, ao mesmo tempo que procura desmistificar a pintura que durante vários séculos reduziu aquelas ilhas a lugares de depravação moral habitados por mulheres levianas e terríveis canibais. Para tal, descreve-nos com apurada simplicidade os meios de subsistência, a agricultura, os mitos, pormenores da língua, a relação dos indígenas com a fauna e a flora locais, a relação mística com o kava, «a planta que dá paz» (p. 69). Mais do que ser a palavra a reter, aventura é a palavra que Raga – Abordagem do continente invisível procura exaltar. Uma tradução de Manuela Torres, publicada pela Sextante em Dezembro de 2008.

Sábado, 16 de Outubro de 2010

SINAL DOS TEMPOS

Dizem que esta característica das cidades que tossem tem a sua origem, lá está, nos tempos que correm, na tal lei dos mercados que tudo explica e tudo agrava e nada resolve. Mas há quem vá mais longe: antes dos tempos que correm outros tempos correram, tudo o que corre no tempo presente vem de ter corrido no tempo passado e, se não nos enganamos nas contas, tudo o que correrá no futuro será consequência deste tempo presente que já é o futuro do tempo que passou. Digamos que é preciso agir no presente para remediar o laxismo do passado e prevenir as catástrofes do futuro. O pombo Benjamim pensava nestas questões enquanto observava o desespero de Bianca e a letargia de Baltazar, mas pensava também que o nível de inteligência do especialista mede-se pela sua capacidade de dar a volta aos paradigmas sem pôr os paradigmas em causa. Sendo assim, se o presente é sempre o passado que já não é e o futuro que ainda não foi como podemos nós remediar o que quer que seja? É que o passado já foi presente e o futuro terá a sua vez de o ser. Quem ousa insistir nesta anomalia terá por diagnóstico a enfermidade do dizque: “estava a pedi-las”. Tudo se resume então a compreender algo tão simples como isto: quando uma cidade tosse, tossem logo duas ou três. E é vê-las a tossir não por, digamos assim, inclinação pantomineira, disposição serviçal, propensão imitativa. Não senhores! Quando uma cidade tosse, tossem logo duas ou três porque assim tem de ser. É a lei do mercado, ou seja, a lei do sinal dos tempos, a lei dos tempos que correm, a tal lei que todos compreendem, aceitam, aplicam, mas ninguém explica. É a lei que justifica estarmos hoje a pagar o que dizemos não ter sido pago antes de nós e não desejamos que venha a ser pago pelos nossos filhos, porque somos todos boas pessoas e não queremos o mal dos vindouros como parecem os nossos pais ter querido o nosso. Enquanto uns escarram, outros amparam o escarrador para que outros possam ser empregados a limpar a expectoração. Chama-se a isto o circuito económico, ou seja, o tipo de relações que se estabelecem entre as unidades de produção e as unidades de consumo. Nas cidades que tossem produz-se, sobretudo, muita expectoração. Expectoração de calibre diferenciado. Quanto maior for a especialização, melhor a qualidade do escarro. E depois é um tornejar de produção, acumulação, repartição, distribuição e consumo. E não há cá ismos que expliquem a coisa senão este breve e absoluto sinal dos tempos.

Escrito para O Indesmentível.

DIZ QUE VEM NO EXPRESSO


Mais informações no sítio do costume.

QUE NOS SALVE O CRISTO DE ELQUI


XLIV

Pobre Cristo de Elqui dizem os meus detractores
não podemos acreditar na sua doutrina
não queremos ser pobres como ele
não mais tem que um mísero par de sandálias
há que viver bem neste mundo
a pobreza é um sinal de inferioridade

a mim ensinaram-me
que nem o Pai nem o Filho foram ricos
─ suponho que tão-pouco o será o Espírito Santo ─
nem palácios nem herdades nem veículos
nenhum dos Três
necessita de bens materiais
e nem por isso deixam de ser Deus
antes pelo contrário, certo?

é por isto que eu me preocupo
quando os meus detractores me desqualificam
pelo facto de apenas ter uma túnica
uma única camisa
um único par de cuecas negras:
quanto mais pobres
……………………………quanto mais humildes
mais nos pareceremos ao Senhor

ajoelhemo-nos desta vez
a orar pela alma dos ricos:
Pai nosso que estás no céu…



Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
Versão de HMBF

Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010

MENTIRA E FALSIDADE


Mentira e falsidade irrompendo da desconfiança da populaça pela elite para onde quer que olhemos, desconfiança pelos intelectuais a que Tolstói chamava indignos de confiança, uma gente inútil e artificial que se nutre não da experiência mas de livros que nunca combateu numa guerra ou lavrou um campo e por isso os seus livros não produzem senão mentiras mas claro, vocês não acreditam em mim porque eles são moeda corrente não é. A mentira é a moeda corrente e com isto voltamos ao início, não a mentira pura e sem mistura mas aquilo a que Platão chama a mentira por palavras essa é apenas uma espécie de imitação, uma imagem vaga que por vezes é útil por exemplo quando temos pela frente um inimigo todos o fazemos não é? Mas porra Tolstói diz que é nosso dever edificar as massas, que é nossa vocação edificar a Humanidade mesmo daqueles que pensam que se pode educar sem saber nada já que os artistas e os poetas educam inconscientemente, e que a música, a literatura, a pintura todas as artes não são mais que disparates e mentiras se as massas não as aprovam porque, onde é que está, ah aqui. "Se eles não entendem nem querem entender a nossa linguagem literária será talvez por esta não lhes servir e eles se encontrarem no processo de criar a sua própria literatura" isto dito por Tolstói, devemos escrever o que o público deseja ou não escrever nada, "nós somos milhares e eles milhões" escreve Tolstói, obedeçam à lei do maior número falar da ditadura da maioria aqui está Ezra Pound a alargar o fosso quando diz um artista sério não permite que os valores do público modelem a sua própria visão, doutro modo está a mentir, mas não podes negar que Tolstói era um artista sério pois não? Que a nossa linguagem literária não serve ao rebanho de milhões que pulula lá fora e talvez eles estejam a criar a sua própria literatura, têm ido ao cinema ultimamente? Têm ouvido as letras das canções?! Manja meu couvi dizer que tipo tu fizeste um broche aquele cabrão filho da puta és tão palerma em cada homem um artista nesta democracia das artes alinhadas com Walt Whitman a cantar o corpo eléctrico não é? Clássico americano Folhas de Erva diz ele que o merecimento do poeta é determinado pela multidão valha-me Deus, escreve o que o público quer ler e acabas a embolsar o Pulitzer que te seguirá até ao túmulo. Até podes ganhar a Medalha de Honra a George Cross ou mesmo o Nobel mas a partir do momento em que fores estigmatizado com o definitivo selo da mediocridade o teu obituário dirá Romancista Premiado com o Pulitzer morre aos não sei quantos anos porque não é o premiado que eles estão a celebrar não. Não, com esta praga de prémios que nos inunda o prémio serve apenas para celebrar aqueles que o atribuem, tentando salvar a sua profissão o jornalismo, tão completamente desacreditada. "A imprensa é uma escola de embrutecimento" escreve Flaubert a George Sand "porque exime as pessoas de pensarem". Os premiados? Esses são apenas adornos, caricaturas, cronistas desportivos, comentadores políticos, fotos de primeira página quanto mais sanguinário melhor e tudo por esse momento de fama em papel de embrulhar peixe, santo Deus quantos premiados com o Pulitzer não há por aí?
William Gaddis, in Ágape, Agonia, trad. José Miguel Silva, Edições Ahab, Junho de 2010, pp. 68-69.

ÁGAPE, AGONIA

O grau de exigência de uma obra literária é relativo à predisposição do leitor para se abrir à linguagem dessa obra. Um texto breve como este Ágape, Agonia, originalmente publicado em 2002, e agora virtuosamente mudado para português pelo poeta José Miguel Silva, obriga-nos, pela sua densidade filosófica, pela concentração de múltiplas referências e informações, pelas suas próprias características estruturais, a dois tipos de leitura: uma mais cuidadosa e atenta aos pormenores, outra menos comprometida com o conteúdo e embalada pelo ritmo vertiginoso da narrativa. Tratando-se de um monólogo, um longo parágrafo pontuado espontaneamente, com cortes, supressões, suspensões, numa economia de pontuação que faz do famigerado estilo de Saramago uma tímida aventura gramatical, mais ainda se impõe esta necessidade de estabelecer com o texto uma relação livre de preconceitos, como se o texto nos estivesse a convidar para uma dança, como se o que ali contasse fosse a musicalidade das palavras, o ritmo do pensamento transformado em escrita.

Enriquecida por um prefácio de Rodrigo Fresán e um posfácio da autoria de Joseph Tabbi, esta edição da Ahab (Junho de 2010) oferece ao leitor português a possibilidade de se encontrar com a obra de um autor norte-americano escassamente divulgado em língua portuguesa. O enquadramento deste texto póstumo de William Gaddis (n. 1922 – m. 1998) leva-nos a pensar estar aqui não apenas a síntese de uma obra difícil e controversa, mas, sobretudo, o legado filosófico dessa mesma obra. Neste texto, a fronteira que separa a dimensão ficcional da ensaística é demasiado ténue, não permite que nos fiquemos por uma classificação tão simples como a de novela ou «curto e curioso romance/diatribe sobre a história do piano mecânico e a automatização da arte» (Rodrigo Fresán, p. 17). Este pode ser o motivo subjacente à investigação que originou a produto final, mas está longe de ser o fim para o qual tende o testemunho registado.

No posfácio, Joseph Tabbi parece aproximar-se mais daquela que terá sido a intenção de Gaddis: «a entropia, o caos, a perda e uma cultura mecanizada e indiferente ao cultivo de talentos pessoais, individuais» (p. 98). E acrescenta: «A voz singular que emerge por entre outras vozes em competição e por entre os constrangimentos dos media não é apenas a voz de um “individualismo artístico” lutando em vão contra a mercadorização imposta pela máquina capitalista. Gaddis não se ilude imaginando que pode opor a força da sua arte à força do mundo material. O que pode, porém fazer é coordenar a sua arte com os vastos sistemas e estruturas que dão forma ao nosso mundo» (p. 105). Mas são muitas as vozes com as quais o narrador de Ágape, Agonia se confronta numa espécie de duelo que frequentemente opõe o improviso e a espontaneidade à mecanização, o saber e o conhecimento à indústria do lazer, o trabalho e o talento ao lúdico e à técnica da manipulação.

O homem arruinado, doente, às portas da morte, que fala/pensa no texto de Gaddis é já um produto anacrónico do futuro pós-humano no qual vamos submergindo paulatinamente. A evocação da ovelhinha Dolly apenas actualiza a tragédia implícita na invenção da pianola mecânica. O início do texto não deixa lugar a dúvidas: esta obra trata «do colapso de tudo, do sentido, da linguagem, dos valores, da arte, para onde quer que olhemos só vemos caos e desordem, a entropia a tomar conta de tudo» (p. 27). Como é óbvio, há uma grande dose de cinismo neste olhar, um cinismo que se opôs na extinta Grécia à idealização do mundo perfeito, o qual veio a desembocar, já no séc. XVII, nessa tragédia humana que foi a filosofia de René Descartes, autor que, curiosamente, não sendo esconjurado neste texto catártico (referem-se antes Pascal e Leibniz) como que paira sobre ele do princípio ao fim. Afinal, é ao método cartesiano que devemos o ódio ao erro que está na origem do desenvolvimento tecnológico, assim como também no princípio da derrocada do talento, do improviso, da falha como fonte insubstituível da criação artística.

A celebração do amor é a mais humana das propostas que restam a um escritor como William Gaddis, pois é nas falhas da paixão que o mundo automatizado encontra o seu necessário contraponto. Acusada a «narcotização colectiva», pouco mais resta ao ficcionista em transe de Ágape do que esperar ser expulso da República platónica, antever para as suas obras o silêncio das estantes empoeiradas, reconhecer que a sua existência não passou de uma pobre alegoria e afundar-se num turbilhão de ideias, pensamentos, opiniões, emoções e sentimentos contraditórios dos quais resulta uma música alucinante e não-mecanizada, uma música que, de alguma forma, nos restitui o lugar do artista na contemporaneidade: esfrangalhar as heranças, baralhá-las e oferecê-las de novo ao mundo com uma nova respiração e um renovado sentido do delírio. Depois de ler este texto, jamais poderei olhar da mesma forma as máquinas irritantes que substituíram as saudosas meninas da portagem de A-dos-Francos.
Escrito para o Rascunho.

O PRISMA DAS MUITAS CORES


O prisma das muitas cores – Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira, organização de Victor Oliveira Mateus e prefácio de António Carlos Cortez. É uma edição da Labirinto. Estão presentes Adalberto Alves, Agripina Costa Marques, Albano Martins, Alberto da Costa e Silva, Alberto Soares, Alexandre Bonafim, Alexei Bueno, Alice Fergo, Alice Vieira, Álvaro Cardoso Gomes, Amélia Vieira, Ana Hatherly, Ana Luísa Amaral, Ana Miranda, António de Almeida Mattos, Antonio Brasileiro, António Cardoso Pinto, António Carlos Cortez, Antonio Carlos Secchin, Antonio Cicero, António José Queiroz, António Manuel Couto Viana, Antonio Miranda, António Ramos Rosa, António Salvado, Artur F. Coimbra, Carlos Ferreira Afonso, Carlos Nejar, Carlos Vaz, Casimiro de Brito, Cláudio Lima, Cláudio Neves, Cleri Aparecida Biotto Bucciolli, daniel gonçalves, Dirceu Villa, Donizete Galvão, E. M. de Melo e Castro, Ernesto Rodrigues, Eunice Arruda, Fernando Esteves Pinto, Flávio Moreira da Costa, Floriano Martins, Florisvaldo Mattos, Gilberto Mendonça Teles, Gisela Ramos Rosa, Glória de Sant’Anna, Gonçalo Salvado, Graça Pires, Hélia Correia, Henrique Levy, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Milhanas Machado, Iacyr Anderson Freitas, Ildásio Tavares, Inês Lourenço, Isabel Wolmar, Ivan Junqueira, Jaime Rocha, João de Mancelos, João Negreiros, João Ricardo Lopes, João Rui de Sousa, Joaquim Cardoso Dias, Joel Henriques, Jorge Reis-Sá, José Agostinho Baptista, José do Carmo Francisco, José Emílio-Nelson, José Félix Duque, José Jorge Letria, José Manuel Capêlo, José Manuel Mendes, Juliana Miranda, Lara de Lemos, Lêdo Ivo, Luís Adriano Carlos, Luís Filipe Cristóvão, Maiara Gouveia, manuel a. domingos, Manuel Madeira, Manuel Neto dos Santos, Marco Lucchesi, Margarida Vale de Gato, Maria Alberta Menéres, Maria Andresen, Maria Augusta Silva, Maria Azenha, Maria do Carmo Campos, Maria Carpi, Maria Estela Guedes, Maria João Fernandes, Maria Lucílio Meleiro, Maria Quintans, Maria do Rosário Pedreira, Maria do Sameiro Barroso, Maria Teresa Dias Furtado, Maria Teresa Horta, Maria Toscano, Mariana Ianelli, Mário Cláudio, Matilde Rosa Araújo, Miguel-Manso, Milton Torres, Myriam Fraga, Neide Archanjo, Nuno Dempster, Nuno Júdice, Olga Salgary, Paulo Franchetti, Paulo Moreiras, Paulo Tavares, Pedro Lyra, Pedro Sena-Lino, Pompeu Miguel Martins, Renata Pallottini, Ricardo Domeneck, Rodrigo Petronio, Rosa Alice Branco, Rui Almeida, Rui Coias, Rui Costa, Rui Lage, Ruy Espinheira Filho, Ruy Ventura, Seomara da Veiga Ferreira, Sérgio Nazar, Teresa Rita Lopes, Teresa Vieira, Tiago Nené, Urbano Tavares Rodrigues, valter hugo mãe, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus e Vítor Oliveira Jorge. Deixo o meu poema:

FACE A FACE

Escrever sobre temas profundos,
poços afundados no magma da terra.
Escrever, por exemplo, o tempo ─
como se o tempo fosse o tampo da mesa ─,
ou o esquecimento - como se o esquecimento
fosse uma imaculada folha de papel.
Escrever a morte – como se a morte fosse
a terra coberta de pele. Uma pele
encerrada numa palavra, a palavra amor.

Escrever face a face, os órgãos engodados,
explorando a estatura calada do consolo.
Escrever face a face, difusos, os significados
na cama, destapados, nus, a irradiarem
um arco-íris de insatisfeita satisfação.
Escrever a mais-valia dos olhos esmagados,
escorrendo dos globos oculares como gelatina.

Escrever amor. Porque a família corta
e cria e identifica e importuna,
sempre que do outro lado do muro,
da parede, do corredor, a palavra nos chama
e chora, e chora como uma chama gélida,
algo inexplicavelmente face a face.

Essa palavra sábia de emurchecidos membros,
amolecidas bocas secas, dedos e mãos caídos
sobre o dorso dos lençóis, essa palavra
sabe dos sóis apagados, dependurados face a face,
sabe a genealogia dos gestos e o real
a idealizar-se pelos sonhos adentro.

Face a face com o silêncio, as costas voltadas
para as costas, eis uma tão arquetípica forma
de dizer: amo-te, com o coração fechado
para balanço, o corpo fechado para obras,
as mãos - volto já – de amor face a face,
tão funcionais, lúgubres, equilibradas,
tão por fora de tudo o que foi dentro,
tão apenas já só agora, como um eco
tão-só supostamente face a face.

Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

ESTADO DE FACEBOOK

Henrique Fialho curtiu a página 478 do dicionário Académico Espanhol-Português da Porto Editora. Henrique Fialho começou uma amizade com o Cristo de Elqui e outras 45 estranhas criaturas. Henrique Fialho saiu para cagar. Henrique Fialho tem o B.I. caducado. Henrique Fialho está de folga. Henrique Fialho e Manuel Bento adicionaram William Gaddis aos amigos. Henrique Fialho ainda não mudou a sua foto do perfil. Henrique Fialho compartilhou um prato de moelas com o cão. Henrique Fialho adoptou uma gripe. Henrique Fialho inscreveu-se no campeonato de futsal para solteiros e casados no Bairro dos Arneiros. Henrique Fialho ficou impressionado com o cu da Rebeca. Henrique Fialho foi marcado para a vida. Henrique Fialho converteu-se ao espiritismo. Henrique Fialho anda a tirar um curso com o professor Bambo. Henrique Fialho convidou Omar para um café. Henrique Fialho anda a engendrar uma junta de salvação pessoal. Henrique Fialho sonhou que conseguia cortar os dez dedos das mãos um a um. Henrique Fialho começou a cortar os dedos da mão esquerda. Henrique Fialho reparou que sem os dedos da mão esquerda não conseguia cortar os dedos da mão direita. Henrique Fialho foi pedir uma mãozinha ao director comercial.

RECADOS

Olhamos para o mundo de uma forma diferente quando começamos a receber recados escritos pelos nossos filhos. A Matilde tem uma técnica lúdica, mas precavida, de largar recados pela casa, obrigando-me a uma espécie de caça ao tesouro logo pela manhã: deixou-me na mesa-de-cabeceira um recado a informar-me de que tinha deixado um outro recado em cima dos livros que ando a ler, não fosse dar-se o caso de eu hoje suspender essas leituras e partir para outros mundos.

O RATO ZINGER


Sempre que ouço um padreco a perorar sobre o estado da nação vem-me à mente a figura do Rato Zinger. Como é possível ser tão crítico da actualidade e, ao mesmo tempo, complacente para com a hipocrisia da Igreja? Eis um problema que escapa ao princípio da não contradição.

UMA CERVEJA PARA O CRISTO DE ELQUI


XLI

Tudo pode ser provado com a Bíblia
por exemplo que Deus não existe
por exemplo que o Diabo manda mais
por exemplo que Deus
é masculino e feminino ao mesmo tempo
ou que a Virgem era doidivanas
basta saber um pouco de hebreu
para poder lê-la no original
e interpretá-la como deve ser
é questão de análise lógica

têm razão os amigos cépticos
tudo pode ser provado com a Bíblia
é questão de saber baralhá-la
é questão de saber adulterá-la
é questão de saber esquartejá-la
como quem esquarteja uma galinha:
tragam mais uma dúzia de cervejas!


Nicanor Parra, in Nuevos Sermones Y Prédicas Del Cristo De Elqui (1979)
Versão de HMBF

A LER

Este artigo de Luis Sepúlveda. Um excerto: La tragedia, esos 33 hombres sepultados, ha sido utilizada para marcar de invisibilidad al otro Chile, al país que no sale en televisión, por ejemplo a los mapuche, cuya dramática huelga de hambre desapareció de la actualidad, ese sucedáneo del presente que se impone a la masa acrítica y dada al aplauso que los modernos comunicadores llaman “opinión pública”. / Desde luego que es emocionante verlos salir, uno a uno, y más emocionante es ver que esos 33 mineros, pese a los regalos prometidos, un viaje a España para ver un partido del Real Madrid, un viaje a Inglaterra para ver un partido del Manchester United, un Iphon de última generación, un viaje a Grecia, y hasta diez mil dólares a cada uno donados por un empresario chileno que aspira a ser presidente del país, pese a todo eso siguen siendo mineros y por eso mismo anunciaron la creación de una fundación que se preocupe de la situación de todos los trabajadores de la minería afectados por la irresponsabilidad de las empresas. / Sacarlos de ahí ha sido una proeza, pero una proeza de todos los que sudaron hasta conseguirlo y no de los encargados del Show del rescate.

PODIA TER SIDO PIOR

Tem livros de um escritor que se chama Tó-Les-Toy? Ou do Kafka. Gosto desses escritores existencialistas. Também me falaram dum qu'é o Dós-Tó-Vsky, tem um livro sobre alguém que é queimado durante a Inquisição… Mas não sei, sou muito crítico com aquilo que leio, gosto de leituras pesadas, tipo… O último livro que li, por exemplos, foi o de S. Cipriano.