Após um árduo e burocrático dia de trabalho, parei no café a beber uma cervejinha e a ler o jornal. Voltei a ler jornais. O P2 oferece-nos uma extensa prosa de Eduardo Cintra Torres que merece algum trabalho estatístico. Se excluirmos o título do artigo –A campanha eleitoral da Central de Propaganda −, Cintra Torres repete 17 vezes a palavra Central, assim mesmo, grafada com maiúscula. Segundo o crítico televisivo, esta suposta Central tem uma estratégia: dizer aquilo que o povo pensa, ou seja, que os políticos são todos corruptos. Para tal, contratou José Lello, um maquiavélico agente ao serviço da abstenção. Cabe ao deputado socialista esse papel paradoxal de dissuadir os portugueses do voto para, assim, aumentar a abstenção e, com isso, aumentar as possibilidades de um bom resultado socialista. Dito de outra forma, Lello não quer que os portugueses votem para que ele possa ser eleito (não sei se Lello vai em alguma lista, mas se for é esta a sua estratégia). Cintra Torres refere que «os eleitores mais livres votariam mais facilmente na oposição», pelo que é do interesse do PS neutralizar estes eleitores. Para Cintra Torres, há eleitores mais livres e eleitores menos livres. Os mais livres são os que votam em quem ele quer, os menos livres são os que votam em Sócrates (estes, ao votarem, não exercem um direito, limitam-se a reagir como cães de Pavlov). Isto faz sentido… na cabeça de Cintra Torres e, provavelmente, na de Pacheco Pereira. Logo, os eleitores livres são marionetas manipuláveis pela verve de Lello e Torres o Messias destes desgraçados bonecos de porcelana. Mas a paranóia obsessiva do escriba não se fica por aqui. Sócrates foi programado pela Central para repetir sempre as mesmas frases decoradas, é bem provável que lhe tenham injectado um chip na espinal medula, os jornalistas são todos vítimas dos métodos estalinistas da Central e só fazem perguntas que podem ser respondidas com as tais frases decoradas, Sócrates é um andróide, uma espécie de versão adulta do rapazinho de Inteligência Artificial, as notícias negativas para o Governo apenas são dadas quando os portugueses estão de férias, a gozar feriados ou de televisão desligada, a Central trabalha 24 horas por dia com o intuito de desgastar os adversários lançando científica e cirurgicamente no caudal mediático todo o tipo de boatos, intrigas, factóides e mentiras, entre as quais talvez se inclua a própria existência de uma Central de Propaganda ao serviço do Governo, Fernando Nobre foi uma das mais recentes vítimas desta Central e as centenas de comentários que levaram o bom Fernando a encerrar a página do Facebook foram patrocinados pela Central, supondo-se inclusive que as recentes dúvidas sobre a nacionalidade de Obama tenham servido para desviar as atenções dos eleitores luso-americanos… Depois de ler este artigo, estou mesmo em crer que o próprio Eduardo Cintra Torres é uma agente secreto dessa Central de Propaganda. Afinal, a quem senão Sócrates servem artigos tão paranóicos e obsessivos como este de Cintra Torres?
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quinta-feira, 28 de abril de 2011
ELA CHORA SOBRE O RAHOON
Suavemente cai a chuva no Rahoon, caindo suavemente,
Onde jaz meu amor sombrio.
Triste é sua voz que me chama, chamando tristemente,
Ao pálido nascer da lua.
Amor, escuta tu
Quão macia, quão triste é sempre sua voz chamando,
Sempre irrespondível, e a negra chuva caindo,
Antes como agora.
Também sombrios nossos corações, Ó amor, jazerão e frios
Como seu triste coração repousado
Sob luarentas urtigas, húmus negro
E chuva murmurante.
Trieste, 1913.
James Joyce, in Poems and Shorter Writings, da sequência Pomes Penyeach (1927), Faber and Faber, 2001, p. 54.
Versão de HMBF.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
CHAMBER MUSIC

XXVIII
Amável senhora, não cante
Canções tristes sobre o fim do amor;
Afaste a tristeza e cante
O quanto basta o amor que passa.
Cante o longo e profundo sono
Dos falecidos amantes, e como
Na sepultura todo o amor repousará:
Por ora o amor está cansado.
James Joyce, in Poems and Shorter Writings, Faber and Faber, 2001, p. 40.
Versão de HMBF.
25 DE ABRIL
Andamos há 37 anos a comemorar uma revolução que ainda não aconteceu verdadeiramente. Esmagados por uma guerra inglória, os militares revoltaram-se contra o regime e desbravaram caminho para a democracia. Cedo se percebeu o que nos esperava: uma oligarquia a ir a votos de 4 em 4 anos, dividida entre duas facções políticas que são mais do mesmo. Soares entregou-nos a uma Europa agora americanizada, de socialismo não só engavetado como totalmente enterrado e sem direito a memorial. Em França, mãe da Revolução de todos nós, há trabalhadores que se imolam, suicidam-se à vez sem grande alarido. Por cá, o nepotismo faz escola e os crápulas jogam com a cintura na ânsia de um tacho. A baba é tanta que daria para fazer um cozido à portuguesa com morcelas de socialismo, enchidos de social-democracia e alheiras de populismo. No batatal do cavaquistão há batatas que cheguem para todos e para quem se lhes queira juntar. Construíram-se auto-estradas, vias rápidas para o enriquecimento indevido, engordaram-se fortunas e patrocinaram-se cartéis. O PPD de Duarte Lima, Santana Lopes, Dias Loureiro, entre outros larápios de estirpe intocável reunidos na cantina do BPN, leia-se SLN, prepara-se novamente para fazer das suas, enquanto o PS do Grande Chefe, dos estádios e do Rui Pedro Soares e do Ricardo Rodrigues e do Freitas do Amaral e do Basílio Horta vai distribuindo o que resta da côdea governativa. Uma elite política de merda, aos ombros de uma elite empresarial de merda, num país a afundar-se na merda com um povo que de tanto gostar de viver na merda mais se assemelha a uma vara de porcos do que a um verdadeiro povo. Mas animemos a malta, recordemos as velhas canções, olhemos para o passado, desfilemos na Avenida da Liberdade de açaime na boca e coleira pelo pescoço. O FMI tratará de nós como o Frontline trata das pulgas. Amemos os nossos patrões.
domingo, 24 de abril de 2011
CASTELO SEM PÁTRIA

para Antonia Lozano e Diego Doncel
Vieram do outro lado da fronteira
alguns dos meus amigos e não os queria
e resisti e todos eram de Castela, terra
e resisti e todos eram de Castela, terra
negra e caída do outro lado
da escondida meia-noite.
Não eram o galego olhar nem catalã a
resposta à minha dúvida
nem andaluz altivo como os julgara em
adolescente sonho.
Vieram dos campos altos do outro lado e
de raiz, absortos na errante nuvem
coisa alguma têm por detrás
além do peso inteiro da península. E são
um verso,
verso de espera no umbral da pedra derrubada
acordam ainda a juventude, canção secreta
adormecido eco da nossa história e por
detrás da fronteira há mais fronteira
João Miguel Fernandes Jorge, in Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010, p. 29. A fotografia foi tirada pelo Álvaro no Ulster.
sábado, 23 de abril de 2011
EM DELÍRIO HÁ VINTE ANOS
INVERNO
A
que horas começa o Inverno?
Tenho de me precaver atempadamente,
os meteorologistas avisam
que será um Inverno rigoroso.
A
que horas começará?
Tenho de arranjar um agasalho,
abastecer-me de provisões,
pegar num machado, partir lenha.
Mas
antes, preciso de algo mais:
um calendário, um relógio que me informe
a que horas começa o Inverno.
*
SEDE
Às
vezes penso que a vida
nasceu-me ao contrário.
Consulto o ortopedista
e fico a saber que sofro do coração,
vou ao cardiologista
e diagnosticam-me pés chatos,
coxeio até ao dentista
e arrancam-me a língua.
Quem
me desconheça
julgar-me-á emudecido,
mas a verdade é que fui barbaramente
tratado pelo dentista.
É
com os dentes que ferramos a língua,
mordemos os lábios,
roemos as unhas.
É com os dentes que redemoinhamos
a desesperança, o medo,
a tentação, a agonia.
Estou
calado porque levaram-me a língua,
mas tenho dentes que tremem
do horror calado
com que pauto os dias.
Espero
chegar a velho sem dentes
nem dentadura,
toda a minha boca só gengivas.
Ninguém precisa de dentes para matar a sede.
*
O
TEMPO QUE FALTA
Acordar
pesado sob manhãs de nevoeiro:
podia ser uma manhã como outra qualquer,
a sair de casa sem tomar pequeno-almoço,
o corpo ensaboado com desconfiança
porque na manhã anterior faltou-me gás,
fiquei murcho debaixo de uma água tão fria
que o único grau a pairar no ar
aqueceu-me as notas de crédito e de débito,
recolhas, devoluções, facturas, consignações
e uma hora extra mais sem parafusos na alegria.
Sujeito-me
aos estragos, «caminho pela humidade
luminosa», só, sem vislumbre de sentido
para esta vida roubada, os dias a crescerem
ao nosso lado, a crescerem tão alto que
nos sentimos formigas a olhar para os ombros
dos dias. São gigantescos e pisam-nos
e nós deixamos porque nos foi inculcada
a música das crostas que estalam,
estamos transformados em baratas
e dessa metamorfose fazemos assumida identidade.
Chega
o almoço aos bolsos vazios,
aqueles que circulam pela arena do vício
desenganam a ignorância com os olhos distraídos
nos monitores e nós sentimos mais uma vez
o vazio de que nos enchemos, escavamos argumentos
no peito para que nele brotem sentidos,
mas já nada no deserto, apenas nuvens de pó
e uma porta a bater, livros enterrados na humidade,
músicas adormecidas. O tempo que falta faz-nos falta.
*
Henrique
Manuel Bento Fialho, in “Em delírio há vinte anos”, coordenação de Luís Paulo
Meireles e Mário Galego, non nova sed nove, Abril de 2011, s/p.
Textos
e imagens de Alexandra Demenkova, Fabiano Donato Leite, Fernando Guerreiro, Henrique
Manuel Bento Fialho, Jaime Rocha, Jorge Velhote, José Carlos freitas, Miguel Martins,
Steve Remígio Delgado, Rui Almeida, Rui Tinoco, Sílvia C. Silva, Vítor Vicente,
Wellitania Oliveira.
Tenho de me precaver atempadamente,
os meteorologistas avisam
que será um Inverno rigoroso.
Tenho de arranjar um agasalho,
abastecer-me de provisões,
pegar num machado, partir lenha.
um calendário, um relógio que me informe
a que horas começa o Inverno.
nasceu-me ao contrário.
Consulto o ortopedista
e fico a saber que sofro do coração,
vou ao cardiologista
e diagnosticam-me pés chatos,
coxeio até ao dentista
e arrancam-me a língua.
julgar-me-á emudecido,
mas a verdade é que fui barbaramente
tratado pelo dentista.
mordemos os lábios,
roemos as unhas.
É com os dentes que redemoinhamos
a desesperança, o medo,
a tentação, a agonia.
mas tenho dentes que tremem
do horror calado
com que pauto os dias.
nem dentadura,
toda a minha boca só gengivas.
Ninguém precisa de dentes para matar a sede.
podia ser uma manhã como outra qualquer,
a sair de casa sem tomar pequeno-almoço,
o corpo ensaboado com desconfiança
porque na manhã anterior faltou-me gás,
fiquei murcho debaixo de uma água tão fria
que o único grau a pairar no ar
aqueceu-me as notas de crédito e de débito,
recolhas, devoluções, facturas, consignações
e uma hora extra mais sem parafusos na alegria.
luminosa», só, sem vislumbre de sentido
para esta vida roubada, os dias a crescerem
ao nosso lado, a crescerem tão alto que
nos sentimos formigas a olhar para os ombros
dos dias. São gigantescos e pisam-nos
e nós deixamos porque nos foi inculcada
a música das crostas que estalam,
estamos transformados em baratas
e dessa metamorfose fazemos assumida identidade.
aqueles que circulam pela arena do vício
desenganam a ignorância com os olhos distraídos
nos monitores e nós sentimos mais uma vez
o vazio de que nos enchemos, escavamos argumentos
no peito para que nele brotem sentidos,
mas já nada no deserto, apenas nuvens de pó
e uma porta a bater, livros enterrados na humidade,
músicas adormecidas. O tempo que falta faz-nos falta.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
EM DUBLIN ESTÁ SOL
quarta-feira, 20 de abril de 2011
FUCK IMF

Strings in the earth and air
Make music sweet;
Strings by the river where
The willows meet.
There's music along the river
For Love wanders there,
Pale flowers on his mantle,
Dark leaves on his hair.
All softly playing,
With head to the music bent,
And fingers straying
Upon an instrument.
James Joyce, in Chamber Music (1907), Poems and Shorter Writings, Faber and Faber, 1991, p. 13. A fotografia foi tirada no St. Stephen's Green, Dublin, durante a digestão de um Irish beef stew with Guiness.
segunda-feira, 18 de abril de 2011
8 ANOS
Parece que foi ontem. Era o que ouvia dizer sempre que fazia anos. Ou então, o tempo passa num instante. É tudo falso. Nessas alusões vive adormecido o logro de um tempo que é impossível resgatar. Passaram 8 anos. Os filhos crescem, nós envelhecemos, o planeta continua a correr. Sabe bem enterrar as mãos na areia, sentir o sal da espuma, andar descalço sobre a terra, trazer ao corpo a luz que afaga a erva. Salvamo-nos, assim, da melancolia que a passagem do tempo imprime. Agora que lês, dou-te o que julgo saber: ama a Terra, não terás outra, e aprende a gostar das pessoas com a nobre desconfiança de quem sabe poder haver num coração inimagináveis razões para se ser tal como se é. As pessoas escondem mistérios, não nos cabe tanto julgá-los como importa compreendê-los. Não te iludas com a busca da felicidade, essa quimera impenetrável. Procura antes colocar em cada momento a alegria que te for possível. E quando não for possível, faz qualquer coisa para que se torne possível. Nenhum outro esforço será tão valoroso.domingo, 17 de abril de 2011
BIBLIOTECAS CHEIAS DE FANTASMAS
Qualquer amante de livros lerá de um só fôlego e com enorme prazer Bibliotecas Cheias de Fantasmas (Quetzal, Outubro de 2010). Traduzido por José Mário Silva, este pequeno livro reúne nove textos sobre problemas concernentes à organização de uma biblioteca pessoal. A escrita de Jacques Bonnet, historiador de arte e bibliómano inveterado, é culta, mas límpida, prescinde de elucubrações complexas em prol de uma narrativa bem-humorada, repleta de episódios pessoais e curiosidades históricas. Logo a páginas 17, o problema do espaço ocupado pelos livros no interior de uma habitação é retratado com as «circunstâncias da morte do compositor Charles-Valentin Alkan, a quem chamavam «o Berlioz do piano», morto em sua casa, a 30 de Março de 1888, esmagado pela própria biblioteca» (p. 17). Daqui se conclui que todos os espaços de uma habitação são susceptíveis de servir de despensa para livros, excepto a parede à qual encostamos a cama onde dormimos. Evitando teorizar de um modo abstracto, os pontos de vista expressos são fundamentados através do exemplo e com uma destreza e brevidade que nos levam a pensar não ser tanto essa a intenção deste livro, como será mais a de declarar amor a uma arte e às manias dos seus cultores. «Consta que Gilbert Lély, o poeta e especialista em Sade, mantinha em sua casa exactamente 100 obras, nem mais nem menos, e sempre que acrescentava uma, retirava logo outra» (p. 18). Os comportamentos mais ou menos obsessivos dos amantes de livros dão azo a um anedotário infindável cujo interesse acaba por estar na confrontação com as nossas próprias manias. O bibliómano é, por natureza, um indivíduo caprichoso. Pode olhar para a sua biblioteca como se estivesse a olhar para um paraíso na terra, mas também pode ver nela uma insuportável prisão. Vem-me à memória Jean Genet, que não só não tinha morada fixa, como nem sequer possuía um único exemplar dos seus livros. No entanto, não se pode dizer que não amasse os livros. Talvez os amasse sem estar contaminado pela possessão que caracteriza os coleccionadores. Bonnet refere um «que só se interessa por autores cujos nomes começam por um B ou que, como ele, se chamam Jules» (p. 29). Na relação que mantemos com os livros, a nossa humanidade emerge envolta no manto da curiosidade. Podemos denotar alguma extravagância ou a mais entediante picuinhice na organização de uma biblioteca, no modo como catalogamos ou arrumamos os volumes nas prateleiras, no trato que damos ao próprio objecto, mas há algo que nos liga nesta relação. E esse elo é o da curiosidade. A variabilidade das práticas de leitura conflui para este elemento universal. O que nos leva aos livros é um íman que reside misteriosamente dentro da palavra impressa e nos atrai a curiosidade. Depois, sublinhamos com lápis ou caneta de feltro as frases que melhor satisfazem essa curiosidade, entretemo-nos a corrigir gralhas ou mantemos intactas e impolutas as páginas do objecto folheado. Eu sublinho: «Quanto a Bernard Berenson, ao saber que a Virgem acabara de aparecer a Pio XII, colocou imediatamente a questão que se impunha a um historiador de arte: «Em que estilo?»» (p. 102). Jacques Bonnet afirma que uma das razões que o levou a escrever este livro foi a inquietação instaurada pela última grande revolução mundial, a qual afecta de um modo ainda pouco perceptível esta relação do leitor com o livro. A pergunta impõe-se: «Teria eu construído a mesma biblioteca se pertencesse à geração Internet?» (p. 139) Independentemente da resposta, há uma certeza nela implícita: nunca uma biblioteca pode ser construída duas vezes da mesma maneira. Há entre esta e a singularidade da pessoa humana que a constrói uma ligação de propriedade, como se a biblioteca fosse uma extensão da existência. Para essa extensão o bibliófilo olhará como quem se olha a um espelho. As perguntas serão as mesmas, assim como as dúvidas. Com uma vantagem: num gesto extremo de autocrítica ou de autodesprezo, podemos sempre evitar a automutilação destruindo um punhado de livros que façam parte da nossa biblioteca pessoal.A ARTE E O MODO DE ABORDAR O SEU CHEFE DE SERVIÇO PARA LHE PEDIR UM AUMENTO
Podia ser um livro de auto-ajuda, muito útil nos tempos que correm, ou um daqueles guias de gestão light para yuppies emergentes (o adjectivo é redundante, mas isso pouco importa para o caso). Na realidade, trata-se de um exercício literário de aproximadamente 50 páginas. Georges Perec (1936-1982) escreveu-o em 1968 a partir de um labiríntico organigrama que lhe foi entregue por Jacques Perriault. Esta intrincada matriz acompanha um texto não menos difícil de interpretar, quer pelas suas características estruturais, quer pela complexidade do pensamento inerente ao exercício. Refira-se que se trata de um texto com um único sinal de pontuação, o ponto final no termo daquilo que pode ser classificado como uma longuíssima frase, monólogo ininterrupto de uma trama reflexiva sobre uma das mais vulgares aspirações humanas. A complexidade reside na multiplicação de hipóteses. Para cada acção prevêem-se várias consequências, a linearidade da narrativa é superada pela multiplicidade das combinações. O que importa, mais do que contar o que a personagem X fez ou deixou de fazer, é ponderar aquilo que poderá acontecer mediante esta ou aquela acção. Estamos no campo algo paranóico da especulação, da conjectura, da ponderação, do encadeamento de probabilidades, da relação causa/efeito em contexto não determinístico. Isto porque as variantes a considerar são infinitas, das mais previsíveis às mais imponderáveis e absurdas: «mr x engoliu uma espinha ao comer ovos de galinha alimentada com restos de peixe» (p. 34). Georges Perec, que fez parte do movimento experimental OuLiPo, admite, deste modo, um constrangimento inicial como suporte da criação literária. A aventura da linguagem surde da exploração lógica das combinações e das probabilidades, desenvolvendo-se o texto no sentido de uma espécie de espiral ou remoinho que caracteriza de um modo deveras plástico a organização kafkiana das empresas. Repare-se como começa a divagação do pobre assalariado: «Tendo ponderado bem» (p. 9). É esta ponderação que motoriza a experiência do pensamento num vaivém de considerações sobre o que pode ou não acontecer mediante esta ou aquela decisão. A personagem central, se assim podemos dizer, «anda às voltas no corredor» (p. 13) como quem se perde no pensamento. O Bartleby de Melville resolveu este mesmo problema do pensamento pela inacção, mas uma inacção com consequências. Logo, uma inacção activa. Neste caso, há como que uma inversão no sentido da realidade. É como se as acções levassem à inacção. Deste modo, a repetição exaustiva das palavras que expressam um pensamento tão simples quanto «é sempre preciso simplificar», num contexto onde nada se simplifica porque tudo se pondera, reforçam o encadeamento de probabilidades que levam à indecisão. O jogo não se mantém entre várias personagens, mas antes no âmago de uma mesma e pobre criatura. Perec limita-se, enquanto narrador, a arbitrar indiferentemente esse mesmo jogo: «o seu chefe de serviço que vê aonde quer chegar interrompe-o perguntando-lhe se se trata de uma questão T 60 das duas uma ou se trata de uma questão T 60 ou não se trata de uma questão T 60 mas não sabe o que é uma questão T 60 e infelizmente não posso ajuda-lo pois também não sei» (pp. 28-29). Logo a seguir, o truque repete-se: «mande o seu chefe de serviço ao TV1 não sabe o que é um TV1 o seu chefe de serviço também não e eu também não» (p. 37). As secções e os departamentos da organização/empresa são, deste modo, percorridos sem que neles alguém ponha os pés. Basicamente, trata-se de uma escrita ilusionista, cheia de truques, que opera segundo as velhas técnicas do ilusionismo: reproduzir os mesmos efeitos utilizando assessórios diferentes. A Arte e o Modo de Abordar o Seu Chefe de Serviço Para lhe Pedir um Aumento é um exercício divertido (Presença, Outubro de 2010), mas não nos enriquece nem nos livra da burocracia que o texto eficazmente reproduz. MANICÓMIO
Basta folhear o periódico para constatar a mais evidente das realidades: Portugal é um manicómio. Fernando Nobre oferece uma entrevista ao Expresso para dizer que encabeça uma lista do PSD sem conhecer o programa do PSD. Mais afirma que a sua única intenção, ao candidatar-se pelo principal círculo eleitoral do país, é ser eleito presidente da Assembleia da República, como se as legislativas servissem para eleger um presidente da Assembleia da República. «Se não for eleito presidente da AR renuncio de imediato», diz. Quer chegar a general sem ser recruta. Ao pé disto, a campanha do Licor Beirão com o Futre a propor soluções para Portugal - Acabar com o desemprego. Cunhas para Todos! - é de uma ingenuidade enternecedora. Fernando Nobre arrisca transformar-se no jogador chinês que o PSD de Passos Coelho tanto precisava, depois do partido se ter transformado numa máquina de distribuição de tachos para pseudo-independentes que há muito andavam a cheirá-los (de Francisco José Viegas a Carlos Abreu Amorim é um ver se te avias). Mas isto não é tudo. Medina Carreira, também no Expresso, resume com especial eficácia o sentido das manifestações populares. Vale a citação:
Cada vez que a CGTP convoca uma manifestação, eu fico satisfeito. Vêm com galinhas, sentam-se no Parque Eduardo VII, comem uma galinha, descem a avenida, ouvem o Carvalho da Silva e vão para casa. E há descompressão. A nossa sociedade precisa disso.
Portanto, do que estamos todos necessitados é de piqueniques. A CGTP que continue a promover piqueniques, é disso que o país (e os seus gestores) precisa. Enquanto houver piqueniques, podem dormir descansados todos os trafulhas que enriqueceram à conta do BPN de José Oliveira Costa (ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais num dos governos de Cavaco Silva, nunca é demais lembrá-lo). Enquanto tal, os signatários do «compromisso Portugal» promovem almoçaradas e alargam o clube, a Maria Filomena Mónica vota Partido Socialista desde 1974, a crise aumenta depressões e risco de suicídio, os furtos dão prejuízo de 1 milhão por dia (resta saber se nestas contas estão contemplados todos os tipos de furtos e todos os géneros de larápios) e o procurador José Vaz Correia entretém-se a recitar quadras ao gosto popular durante os julgamentos. Eis a cereja no topo do bolo de uma nação que já não está à deriva nem naufragou nem nada do que possam imaginar, é mesmo uma nação inimputável:
Os comboios já vão cheios
Muitos se levantam cedo
Nas mulheres aprecio os seios
Mas têm outro enredo
Vejo brancos e pretos
Nacionais e estrangeiros
Alguns vivem em guetos
Outros em lugares foleiros
São sete e pouco da manhã
Viajo de metro para o trabalho
Fi-lo ontem, farei-o [sic] amanhã
Só sou aquilo que valho
Quadras escritas pelo procurador José Vaz Correia durante uma viagem de metro e registadas em ata, por exigência do próprio, em plena sala de tribunal durante um julgamento que opunha uma empresa à beira da falência à operadora de telefones móveis Vodafone. Dá para acreditar?
Cada vez que a CGTP convoca uma manifestação, eu fico satisfeito. Vêm com galinhas, sentam-se no Parque Eduardo VII, comem uma galinha, descem a avenida, ouvem o Carvalho da Silva e vão para casa. E há descompressão. A nossa sociedade precisa disso.
Portanto, do que estamos todos necessitados é de piqueniques. A CGTP que continue a promover piqueniques, é disso que o país (e os seus gestores) precisa. Enquanto houver piqueniques, podem dormir descansados todos os trafulhas que enriqueceram à conta do BPN de José Oliveira Costa (ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais num dos governos de Cavaco Silva, nunca é demais lembrá-lo). Enquanto tal, os signatários do «compromisso Portugal» promovem almoçaradas e alargam o clube, a Maria Filomena Mónica vota Partido Socialista desde 1974, a crise aumenta depressões e risco de suicídio, os furtos dão prejuízo de 1 milhão por dia (resta saber se nestas contas estão contemplados todos os tipos de furtos e todos os géneros de larápios) e o procurador José Vaz Correia entretém-se a recitar quadras ao gosto popular durante os julgamentos. Eis a cereja no topo do bolo de uma nação que já não está à deriva nem naufragou nem nada do que possam imaginar, é mesmo uma nação inimputável:
Os comboios já vão cheios
Muitos se levantam cedo
Nas mulheres aprecio os seios
Mas têm outro enredo
Vejo brancos e pretos
Nacionais e estrangeiros
Alguns vivem em guetos
Outros em lugares foleiros
São sete e pouco da manhã
Viajo de metro para o trabalho
Fi-lo ontem, farei-o [sic] amanhã
Só sou aquilo que valho
Quadras escritas pelo procurador José Vaz Correia durante uma viagem de metro e registadas em ata, por exigência do próprio, em plena sala de tribunal durante um julgamento que opunha uma empresa à beira da falência à operadora de telefones móveis Vodafone. Dá para acreditar?
quinta-feira, 14 de abril de 2011
quarta-feira, 13 de abril de 2011
CASO NOBRE
O caso Fernando Nobre, tipicamente português em todas as leituras possíveis, recorda-me um indivíduo de uma aldeia perto da minha terra. Era aquele tipo de pessoa a quem todos chamavam um bom homem. Disponível, prestável, compassivo e todos os demais epítetos que possam abonar em seu favor. Um dia foi apanhado a cagar em plena praça pública. De um momento para o outro, toda a gente se esqueceu do quão bom era aquele homem, do bem que tinha feito, do quanto tinha servido a comunidade e o quanto havia ajudado as pessoas que dele se socorriam recorrentemente. O trabalho deste homem era simplesmente varrer as ruas. Foi apanhado a cagar nas ruas que ele próprio varria. As pessoas começaram a desprezá-lo. Que ninguém se atreva a censurá-las.
domingo, 10 de abril de 2011
O REI FAZ VÉNIA E MATA
Nove textos, escritos à entrada do século XXI, compõem a colectânea O Rei Faz Vénia e Mata (Texto, Janeiro de 2011). São conferências e discursos proferidos por Herta Müller (n. 1953) antes da consagração instalada com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 2009. Duas dimensões da vida caminham lado a lado ao longo das margens destes ensaios, a dimensão existencial e a dimensão literária. A autora sobrevaloriza a primeira em detrimento da segunda, referindo-se por diversas vezes ao poder da experiência vivida enquanto magma fundador da palavra escrita. Nota-se mesmo um certo desprezo quando o tema recai sobre a possibilidade de exprimir sem haver vivido, o que não deixa de ser surpreendente numa autora onde a relação entre a palavra e a realidade aparece quase sempre sob uma névoa feérica e metafórica. Importa entender esta relação na prosa de Herta Müller. Mais que uma relação meramente representativa, trata-se de uma relação transfiguradora: «As palavras são feitas à medida para falar, se calhar até são recortadas ao milímetro. (…) Não têm capacidade para representar aquilo que se passa na cabeça» (p. 20). A realidade não se deixa capt(ur)ar pela palavra, os objectos têm vida própria, uma identidade que, no fundo, acaba por fundar a nossa razão de ser. Porque a nossa razão de ser está na complexidade do pensamento, onde uma rede de associações dificilmente descritíveis ampara a lógica e a memória sob os trapézios voadores da imaginação. Quando muito, pode haver empatia entre o objecto e a palavra que o nomeia. Mas o contexto acaba sempre por determinar o significado, e o significado impõe o sentido. Daí a importância dos objectos enquanto vestígios reais de uma paisagem que o tempo tende a rasurar. O objecto, agora no sentido material do termo, é como que um resquício perdurável que nos evoca o passado e dá forma ao presente. Assim, aos pormenores biográficos que acompanham a escrita deve juntar-se a vida dos objectos enquanto reflexos da nossa própria vida. No caso, uma vida marcada pelos traumas da ditadura de Ceauşescu: «toda a panóplia de ameaças, buscas domiciliárias, interrogatórios, psiquiatria compulsiva, execuções durante a fuga, prisão, tortura, assassinato» (p. 172), o isolamento e o exílio, a asfixia, uma espécie de deslocamento apátrida, medo, muito medo e solidão, como chagas de um «bicho-coração» fundador do «olhar estranho». Tudo isto no interior de uma paisagem contornada pela dicotomia campo/cidade: «Quando fui para a cidade, espantou-me o quanto os citadinos tinham de falar para se sentirem a si próprios, para serem amigos ou inimigos uns dos outros, para darem ou receberem alguma coisa. E acima de tudo o quanto se queixavam quando falavam de si próprios. Na maioria das conversas havia um emparelhamento constante de arrogância com autocomiseração, de uma afectação narcisista com o corpo todo. Andavam sempre de um lado para o outro com aquele Eu sobrecarregado na boca» (p. 72). O Eu de Herta Müller não será o mesmo da sua escrita, mas haverá entre ambos uma empatia que a capacidade de reinventar proporcionada pela literatura logra como nenhuma outra arte. Porque a literatura é, por excelência, a arte da linguagem. E nada nos reinventa mais e melhor do que a linguagem. THE SOCIAL NETWORK
Apesar do ingrediente romântico, que parece ter estado na origem do Facebook, o que mais sobressai no filme de David Fincher é o maquiavelismo patológico que rege as relações humanas entre as diversas personagens do filme. À excepção de Erica Albright, musa inspiradora do génio maligno e sua primeira vítima, em quem ainda detectamos um certo humanismo orgânico, todos os intervenientes parecem saídos de um manicómio, provavelmente Harvard, onde o fervilhar incontinente das ideias tem na sua base a intenção muito norte-americana da popularidade. Esta necessidade doentia de popularidade, que, no fundo, é o motor da própria rede social criada por Mark Zuckerberg, impele os intervenientes para a mais vetusta armadilha da avidez: a solidão. No fundo, encontramos muitos pontos de contacto entre a personagem central do filme de Fincher e o Citizen Kane de Orson Welles. Os impérios gerados por ambos alimentam-se das mesmíssimas paixões, agora pronunciáveis em formato digital e manipuláveis a uma escala internacional. A solidão de Mark Zuckerberg, enxotado para o lado por amigos traídos e, acima de tudo, pela musa publicamente (ou interneticamente) enxovalhada, é o paradigma mais resistente da megalomania dos génios. No entanto, há um pormenor no filme de Fincher que actualiza a nostalgia latente em Rosebud. Esse pormenor é a velocidade das falas, a ânsia que a palavra sente quando pretende acompanhar o pensamento, uma vertigem que não prescinde da nota final: Mark Zuckerberg é o mais novo bilionário do mundo. Esta meteórica ascensão é típica de um mundo em que todos nós desaprendemos de viver devagar, para aprendermos a sobreviver à velocidade da luz (aqui, a palavra luz pode ser entendida sob vários sentidos). Encriptados no frenesi de uma estrutura social cuja dinâmica está organizada em função da rentabilidade do tempo e da voragem do sucesso, tendemos a esquecer-nos do milagre que a vida contém: «bebe devagar, concentra-te no prazer de beberes, sê o teu corpo que bebe. A vida está tão cheia de milagre. Mas convulsos rápidos distraídos, tanta coisa que se perde» (Vergílio Ferreira).sábado, 9 de abril de 2011
SIDNEY LUMET (1924-2011)
Este filme prenunciou-me o futuro como uma espécie de oráculo do qual nunca mais me libertei. Morreu o mensageiro, ficou a mensagem.
BRIGADA DO REUMÁTICO
Camarada Van Zeller, está em marcha uma conspiração contra o nosso querido país. É preciso resgatá-lo. As pessoas andam aflitas, temem a miséria, a pobreza, o desespero e o Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia. Veja bem que uma amiga desempregada já nem tem dinheiro para pagar o Imposto Automóvel. Se ela está desempregada, como pode pagar o Imposto Automóvel? Não basta ter que pagar balúrdios de gasóleo? De resto, os transportes públicos estão pela hora da morte. E ainda por cima cheiram mal, são desconfortáveis. Dois amigos professores queixam-se dos cortes nos salários. Passo os dias a ouvir pessoas queixarem-se dos cortes salariais. Coitadas das pessoas. Ganhavam 2500 e agora só ganham 2200. Já viram a miséria que é? Uma aflição. Nota-se a tristeza com que vão às compras, o desespero com que olham para o salmão fumado, para a sobremesa de baunilha. 47 alvas e impolutas personalidades resolveram assinar um documento com propostas contra este estado deprimente de coisas. Receiam que os filhos tenham que passar a deslocar-se para o Liceu (Pedro Nunes) ao volante de um humilde Golf GTI. Propõem um clima de tranquilidade, que continuemos a ser governados exactamente pelos mesmos snobes que nos trouxeram até onde estamos; propõem um compromisso entre as instituições, ou seja, um compromisso com o sistema que há anos vem alimentando saltimbancos de fato e gravata. A brigada do reumático uniu-se para nos salvar, para resgatar Portugal das artroses. Uma elite tão miserável quanto a miséria em que estamos. Olhe, convidaram-me para palestrar sobre o poder curativo da espiritualidade. Convite inusitado que, perante a surrealidade do momento, me sinto tentado a aceitar.
terça-feira, 5 de abril de 2011
domingo, 3 de abril de 2011
THE HORSE WHISPERER
Voltei a apanhar The Horse Whisperer no canal Hollywood e, mais uma vez, deixei-me ficar até ao fim. O mesmo nó na garganta e a mesma comoção que só os maus filmes conseguem provocar. Aquela paisagem rural norte-americana pode ser um mito, mas é um mito muito bonito. Ao alto, num penhasco com vista para o infinito, ainda se vêem as sombras dos índios. E, com sorte, podem escutar-se as suas lamentações. Ficar ou partir? Largar tudo ou permanecer? Mudar ou ir andando? São estes os grandes dilemas da vida, pairam sobre nós como a sombra da águia voando em contracampo. O cavalo ferido − e sempre que digo cavalo lembro-me, vá lá saber-se porquê, de António Ramos Rosa − somos nós, o encantamento surge da disponibilidade e da entrega, da paz e do sossego que acalma o tremor e oferece às pernas o seu merecido descanso. Alguém lhe chama dom, julgo que é a personagem interpretada por Dianne Wiest, quando junto ao rio vai directo ao assunto e explica a Annie MacLean (Kristin Scott Thomas), olhos nos olhos, que Tom Booker (Robert Redford) tem um dom sobrenatural, embora não deixe de ser um homem. Eu acho que sei qual é esse dom, é algo apenas possível em quem descobriu o seu lugar, a sua casa, e pode aí viver numa tumultuosa paz com os seus íntimos fantasmas. Daí que Tom Booker só tenha medo de envelhecer e de começar a sentir-se unuseful. Não teme a solidão porque está em paz consigo próprio. No fundo, isso é o mais importante.
O CORONEL CHABERT
sábado, 2 de abril de 2011
POEMA AO MEU PAPEL
lendo poemas próprios
penas impressas quotidianas transcendências
sorriso orgulhoso perdoado equívoco
é meu é meu é meu!!
lendo letra cursiva
alegre latir interior
sentir que a felicidade se coagula
ou bem ou mal ou bem
estranheza de inatos sentires
cálice harmonioso e autónomo
limite no dedo gordo do pé cansado e
cabelo lavado em encrespada cabeça
não importa:
é meu é meu é meu!!
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
penas impressas quotidianas transcendências
sorriso orgulhoso perdoado equívoco
é meu é meu é meu!!
lendo letra cursiva
alegre latir interior
sentir que a felicidade se coagula
ou bem ou mal ou bem
estranheza de inatos sentires
cálice harmonioso e autónomo
limite no dedo gordo do pé cansado e
cabelo lavado em encrespada cabeça
não importa:
é meu é meu é meu!!
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
sexta-feira, 1 de abril de 2011
EU SOU…
minhas asas?
duas pétalas apodrecidas
minha razão?
cálices de vinho azedo
minha vida?
vazio bem pensado
meu corpo?
um gume na cadeira
meu vaivém?
um gongo de brincar
meu rosto?
um zero dissimulado
meus olhos?
ah! pedaços de infinito
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
duas pétalas apodrecidas
minha razão?
cálices de vinho azedo
minha vida?
vazio bem pensado
meu corpo?
um gume na cadeira
meu vaivém?
um gongo de brincar
meu rosto?
um zero dissimulado
meus olhos?
ah! pedaços de infinito
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
ESTE NÃO ESTÁ A RECIBOS VERDES
Caro Van Zeller, este país, já o sabíamos, é uma anedota. Tal facto não seria desagradável caso a anedota fosse bem contada. O problema está em que este país é uma anedota mal contada. Que vivemos numa oligarquia é dado adquirido, que o nepotismo comanda as hordas do poder também não é novidade, mas a evidência com que começamos a concluir a falta de vergonha generalizada é alarmante. Não sei se é deste zepelim que paira no ar, uma coisa cinzenta com um letreiro a dizer “salve-se quem puder”, se é de um qualquer fenómeno químico desconhecido (começo a acreditar que Portugal está assente sobre placas tectónicas sulfurosas que emitem gases tóxicos contaminadores do bom senso), o que sei é que começa a ser caricato assistir impávido e sereno ao jogo de cintura das ratazanas e das toupeiras apanhadas em contramão. Desta feita, um amigo de seu amigo de seu nome Marcos Baptista. Escutemos o homem: “Devo referir que sempre estive convencido de que o meu percurso académico com oito anos de frequência universitária e elevado número de cadeiras concluídas, em mais do que um plano de estudos curriculares, correspondesse a um curso superior à luz das equivalências automáticas do Processo de Bolonha. Solicitei, por isso, hoje ao ISEG [a instituições que frequentou] a devida avaliação curricular”. Tomando de assalto o raciocínio, devo referir que sempre estive convencido de que o meu percurso académico com 4 anos de frequência universitária, mais um estágio profissionalizante e todas as cadeiras concluídas, correspondesse a um doutoramento honoris causa à luz da desvergonha nacional. Mas eu não me chamo Marcos, muito menos Baptista. Com p. Trabalho numa livraria para cima de 50 horas por semana e não sou figura muito próxima de Paulo Campos, secretário de Estado das Obras Públicas. Azarinho.
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