terça-feira, 28 de junho de 2011

A ARTE DE CAMINHAR

O pensamento de Henry David Thoreau (1817-1862) tem inspirado sucessivas gerações de amantes da natureza. Livros como Walden ou A Desobediência Civil (versões portuguesas na Antígona) justificam o acolhimento. Thoreau ficou conhecido pelas suas inclinações transcendentalistas, na linha de um Ralph Waldo Emerson (1803-1882) e, como tal, pelo interesse das possibilidades de uma vida em perfeita comunhão com o meio ambiente. Em 1845 construiu uma cabana junto ao lago Walden, aí permanecendo durante praticamente dois anos. Foi preso por se recusar a pagar impostos, viajou na direcção das comunidades indígenas, empreendeu várias jornadas que lhe permitiram arquitectar uma filosofia de índole nómada e ambientalista. Desobediência Civil surgiu em 1848, sob forma de palestra, e em 1854 publicou Walden, relato pormenorizado da sua vida na floresta. Trata-se, obviamente, de uma postura fortemente ligada ao taoismo, embora liberta de constrangimentos religiosos que, nos textos de Thoreau, são totalmente absorvidos pela inquietação do homem dividido entre a civilização e o apelo da floresta. A Arte de Caminhar, o texto que a Padrões Culturais agora publica em versão portuguesa sofrível e com uma capa que não lembraria ao diabo, data de 1851. Conferência proferida em Concord, apenas seria publicada em 1862. O texto reflecte de uma forma muito concisa grande parte daquilo a que já chamámos o pensamento de Henry David Thoreau. O elogio da errância, física e mental, tem na sua origem um combate feroz ao sedentarismo da civilização ocidental. É-nos hoje fácil entender as consequências terríveis desse sedentarismo, quer nas suas implicações directas na vida dos homens, quer nas suas implicações menos imediatas no meio ambiente. O engodo da propriedade privada prendeu o homem à terra, levando-o a acreditar num poder que, em última análise, apenas o transformou em escravo da preservação de um bem que o fixa, limita e o consome até pouco mais restar para viver do que esse pedaço de tempo livre que vamos logrando reivindicar junto da comunidade onde estamos inseridos. Não é difícil estabelecer pontes entre esta premissa e o elogio do ócio (que é, sobretudo, um combate feroz ao trabalho escravo) ou a crítica da família enquanto núcleo castrador e cristalizante da liberdade individual. Daí que Thoreau inicie o seu texto, precisamente, por esse alicerce mais que sensível do sedentarismo Ocidental: «Se estiveres preparado para deixar o teu pai e mãe, irmão e irmã, mulher, filhos e amigos, e nunca mais os ver − se tiveres pago as tuas dívidas, feito o teu testamento, deixado em ordem as tuas coisas e depois disso sentires-te [sic] como um homem livre, então acredito que estarás pronto para uma verdadeira caminhada» (pp. 17-18). Está visto que esta caminhada não é apenas física, mas também espiritual, é a caminhada da «estrada larga» de Whitman na direcção de uma cumplicidade inabalável com a vida selvagem. A prática começa, muito à maneira hindu, por excluir da mente os compromissos que a prendem à vida doméstica. Nesse domínio, é natural que as pessoas à nossa volta se cansem de nós, é perfeitamente compreensível que deixem de ter paciência para as nossas lamentações. O que não é tão compreensível é a sua complacência para com a nossa incapacidade de agir. Aproxima-se da tortura, a passividade com que nos suportam. Importa partir, pagar as dívidas (não as dúvidas) e caminhar na direcção certa, a direcção do oeste, «um outro nome para a vastidão da Terra Selvagem» (p. 49). O culto do selvagem não pode ser reduzido à simplicidade de uma nostalgia por um tempo eventualmente nunca vivido, ou por um louvor hipócrita e indigno disso a que hoje alguns tendem a apelidar de frugalidade. Este selvagem não exige sacrifício, mas sim inteligência; não pede qualquer tipo de conversão, acolhe-nos na pureza do essencial; não é uma terra mítica, é a ruína sobre a qual o Ocidente se ergueu. Há nesta Terra Selvagem uma estética que as mais selvagens das obras lograram representar: «Na literatura o que nos atrai é o que é selvagem. o tédio é apenas um sinónimo de domado. É a liberdade incivilizada e o pensamento selvagem em Hamlet e na Ilíada que nos arrebatam como em todas as escrituras e mitologias, que a escola não ensina» (p. 60). Quem pode evitar reconhecer nestas palavras a verdadeira separação entre o vigor das letras americanas e o tédio que fez/faz escola na Europa? Há também, a par de uma filosofia prática, uma estética implícita nesta arte de caminhar: «Não conheço nenhum poeta que consiga exprimir adequadamente este desassossego do impulso selvagem. Abordada sob esta perspectiva, a melhor poesia é insípida e branda» (pp. 62-63). O que está aqui em causa é, pois claro, o grito da liberdade contra o sufoco da vida doméstica, a selva versus a civilização, o bravio em oposição ao gado domesticado das cidades que a Velha Europa impôs ao Novo Mundo. Poesia, pura poesia, que nem a mais horrível das capas consegue enfraquecer.

ERVAS SOBRE A PLANÍCIE ANTIGA




Uma Canção de Despedida

Aqui e ali, surgem ervas na planície,
Em cada ano morrem e renascem.
Fogos selvagens queimam-nas, não as matam
Com o vento primaveril ei-las outra vez!
A fragrância longínqua perfuma a via antiga:
Um feixe de esmeraldas nas velhas ruínas.
É tempo outra vez de dizermos adeus
E do senhor que parte se despedem elas
.


Bai Juyi (772-846), in Uma Antologia de Poesia Chinesa, por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 2.ª edição, Setembro de 2010, p. 219.



Bai Juyi wrote over 2,800 poems, which he had copied and distributed to ensure their survival. They are notable for their relative accessibility: it is said that he would rewrite any part of a poem if one of his servants was unable to understand it.

sábado, 25 de junho de 2011

AINDA TRUE GRIT


Os diálogos não são o elemento mais forte em True Grit. O filme agarra-se à determinação da jovem que pretende vingar a morte do pai. Por vezes, a personagem parece-nos inverosímil. É essa a intenção, levar-nos a acreditar no inacreditável. Uma jovem a pensar com a inteligência, perspicácia e determinação tão raras vezes reconhecível nas pessoas adultas. São características da natureza humana, independentes da idade. No fundo, a idade só lhes confere as barbas do tempo. Um instinto inabalável na negociação, uma assertividade imperturbável na acção. Tudo o que nos falta. O problema da justiça que a história complexifica, acompanhado de uma morte omnipresente, ganha nesta força de viver o elemento necessário para o equilíbrio de forças. Esta jovem rapariga a tentar sobreviver entre “cowboys” é, assim, uma personificação muito inteligente da fase embrionária da justiça no antigo Oeste, o que faz deste western uma metáfora excelente dos duros terrenos onde a lei emerge.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

CAROLINE DE GUNDERODE




En nostalgique je vagabondais
par l’infini

C. de G.

A mão da namorada do vento
afaga a cara do ausente.
A alienada com sua «mala de pele de
..................pássaro»
foge de si mesma com uma navalha na memória.
A que foi devorada pelo espelho
entra num cofre de cinzas
e apazigua as bestas do esquecimento
.

A Enrique Molina


Alejandra Pizarnik, in Otros Poemas (1959)


Versão de HMBF

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A ESQUERDA PORTUGUESA

A esquerda portuguesa também tem os seus pategos. Mais que o bom senso, a saloiice nacional é de uma equidade ímpar. Enquanto puderam, esses pategos atiraram-se às canelas de Sócrates. Às vezes até pareciam matilha de cães de fila encomenda por Coelho & Companhia Lda. Agora que Sócrates foi à vida, precisavam de novo bode expiatório. Atiraram-se a Rui Tavares. Lembram-me os indigentes de Ladrões de Bicicletas, o filme de Vittorio De Sica. De tão pérfidos uns para os outros, lá iam vivendo miseravelmente sob a sobranceria dos seus negligenciados inimigos. A esquerda portuguesa é autofágica. Esperemos que não faleça de dispepsia.

ÁRBOL DE DIANA




23

uma olhadela a partir do esgoto
pode ser uma visão do mundo

a revolução consiste em olhar uma rosa
até que os olhos sejam pulverizados

37

para lá de qualquer zona proibida
há um espelho para a nossa triste transparência



Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)


Versão de HMBF

TRUE GRIT (2010)


Apesar de praticamente toda a acção decorrer em território índio, o único indígena que se vê está prestes a ser enforcado. Quando se prepara para pronunciar as últimas palavras, enfiam-lhe o capuz na cabeça e calam-no para sempre. Há um outro, mas não conta, vê-se demasiado ao longe e limita-se a carregar um cadáver para fazer negócio. Na sequência desta cena, ainda pensei que o médico agasalhado com uma pele de urso, dando ares de curandeiro, fosse índio. Mas não. Surge no meio de um bosque, sob uma ligeira queda de neve, arrastando atrás de si o tal morto do qual aproveitou os dentes mas ainda pode comerciar em troco de uns cobres. É uma cena típica do humor negro que caracteriza a cinematografia dos irmãos Coen, tal como este pormenor de um território habitado por fantasmas cuja presença se afirma, sobretudo, pela sua ausência. Fantasmas são sugestões, sombras de almas desconfiadas, desapiedadas, em ruptura com o chão que o corpo que os carrega pisa. E estes corpos carregam alguns fantasmas. A vingança enquanto móbil para a acção é apenas um pretexto. Mais importante é o ménage à trois desenvolvido ao longo da narrativa. São três perspectivas diferentes da justiça, eventualmente conciliáveis, com um mesmo fim para diversos meios. Da ingenuidade e determinação da jovem que quer vingar o assassinato do pai à dureza e implacabilidade do marshall bêbado contratado para o efeito, passando pelo incipiente sentido de direito formal do ranger que os acompanha, há toda uma complexidade ética e moral que nos leva a pensar sobre os caminhos mais eficazes para a consecução da justiça. São tortuosos os caminhos que a ela levam, por vezes obrigam a amputações inesperadas e geram amiúde desencontros sem remédio.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

ROSTOS DESTES NÃO PODEM MORRER




Pedro Hestnes (1962 - 2009)*


*As datas, as datas, estão aqui.

domingo, 19 de junho de 2011

ALEKSANDRA (2007)



Conheci mal os meus avós. O meu avô materno morreu com um cancro na cabeça ainda eu não era nascido, o paterno foi-se tinha eu meia dúzia de primaveras mal contadas. Lembro-me da mãe da minha mãe, que amuava facilmente, tinha mau feitio e durante muitos anos usou carrapito. A mãe do meu pai foi viver connosco após a morte do meu avô, intercalando estadias com uma tia minha com quem falo raríssimas vezes. Andou para cá e para lá até a arrumarem definitivamente num lar, já muito debilitada da vista, por culpa das cataratas, e pouco lúcida. Nunca mantive fortes laços afectivos com as avós. De resto, a distância que sempre se intrometeu entre mim e a família é algo que não consigo explicar, mas talvez se compreenda se tivermos em conta uma velha e frustrada necessidade de me libertar da protecção com que me capturaram. Sou o mais novo de três irmãos, o menino. Curiosamente, este proteccionismo familiar ganhou na minha consciência a forma de um campo de batalha. Ao contrário do que muitas vezes ouço por aí apregoado, julgo que o nosso primeiro inimigo é, precisamente, esse refúgio a que chamam família. Penso nisto enquanto revejo Aleksandra, um filme de Sokurov que podia intitular-se “Avó e Neto”. Aleksandra é a avó que se desloca ao acampamento militar onde o neto, um oficial do exército russo, está destacado com funções de combate no centro da Chechénia. O cenário militar, subitamente atravessado pela luminosidade de uma mulher idosa, para com quem todos os cuidados parecem poucos, permite vislumbrar resquícios de esperança num palco de ruínas e pó. Aleksandr Sokurov não resiste a passar pelo conflito, mostrando-nos a hostilidade dos jovens chechenos para com os militares russos, uma hostilidade ausente nas relações que a velha Aleksandra mantém com quem está à sua volta. “A primeira coisa que se deve pedir a Deus é inteligência”, diz ela a um jovem checheno. E é essa inteligência que o andar lento e cansado da velha Aleksandra arrasta pela neblina, embalada por uma brisa incapaz de disfarçar o ar sufocante da época. Este sufoco exterior tomou conta do neto sob uma forma mais íntima. E ainda que pareça desaparecer quando este abraça a avó ou lhe entrança o cabelo, a verdade é que está lá, habita nas profundezas de um ser perfilado para as formalidades militares mas mal resolvido para com a hierarquia familiar. No vocabulário de Aleksandra a palavra liberdade não tem o mesmo peso que a palavra inteligência, talvez porque a primeira não seja materialmente possível sem a prática da segunda. Uma prática eventualmente conquistada com a sabedoria da idade, mas longe de afastar a solidão ao mesmo tempo destruída e restaurada pela família.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

GOVERNO

Tenho muita coisa na ponta da língua, mas o cansaço, para já, trava-me a garganta. Estou de rastos. Aguento-me apenas para salvar a honra. A Lourdes confessou-me que andou para aí, mais propriamente numa mesa do Nicola, a manchar a minha reputação espalhando a calúnia de que eu tinha votado PS nas últimas eleições. Não é tão grave como julgarem-me do Benfica, mas fica perto. Quero repor a verdade quanto antes. Nos tempos que correm, assegurar a impecabilidade do nosso bom nome na praça pública é a única garantia de prestígio que nos resta. Eu não só não votei PS, como me sinto profundamente ofendido ao verificar a existência de almas neste mundo capazes de me reputar tão grave delito. Dito isto, ver a Cristas gerir o grosso da torneira de Bruxelas vai ser uma animação. Se o Telmo fez um excelente trabalho neste Portucale, esperem só para ver a Cristas. O Portas sabe-a toda, espertalhão. Quanto ao Crato, vai ser uma maravilha assistir até onde a teoria suporta a prática. Uma boa oportunidade para tirar a prova dos nove ao blá blá blá dos teóricos. O bigodes já disse que não vai dormir descansado. A ver vamos. E pronto, o resto é a tralha do costume.

terça-feira, 14 de junho de 2011

A NOITE




Pouco sei da noite
mas a noite parece saber de mim,
e para mais, conforta-me como se me desejasse,
cobre-me a consciência com as suas estrelas.

Talvez a noite seja a vida e o sol a morte.
Provavelmente a noite é nada
e nada as conjecturas sobre ela
e nada os seres que a vivem.
Talvez as palavras sejam tudo o que existe
no enorme vazio dos séculos
que nos arranham a alma com as suas recordações.

Mas a noite há-de conhecer a miséria
que bebe do nosso sangue e das nossas ideias.
Ela há-de atirar ódio às nossas observações
sabendo-as cheias de interesses, de desencontros.

Mas sucede que ouço a noite chorar nos meus ossos.
A sua lágrima imensa delira
e grita que algo partiu para sempre.

Um dia voltaremos a ser
.


Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)


Versão de HMBF

domingo, 12 de junho de 2011

NOITE




Quoi, toujours? Entre moi sans cesse et
le bonheur!

G. de Nerval



Talvez esta noite não seja noite,
deve ser um sol horrendo, ou
o outro, ou qualquer coisa…
Que sei eu? Faltam palavras,
falta candura, falta poesia
quando o sangue chora e chora!

Podia ser tão feliz esta noite!
Se apenas me fosse possível tactear
as sombras, ouvir passos,
dizer «boas noites» a quem quer
que passeasse o seu cão,
olharia a lua, diria a sua
estranha lactescência, tropeçaria
nas pedras ao acaso, como se faz.

Mas há algo que rasga a pele,
uma fúria cega
que percorre as minhas veias.
Quero sair! Cérbero da alma:
Deixa, deixa-me atravessar o teu sorriso!

Podia ser tão feliz esta noite!
Porém ficam os sonhos adiados.
E tantos livros! E tantas luzes!
E meus poucos anos! Porque não?
A morte está longe. Não me vê.
Tanta vida Senhor!
Para quê tanta vida?



Alejandra Pizarnik, in La Ultima Inocência (1956)

Versão de HMBF

sábado, 11 de junho de 2011

CÉU




observando o céu

digo-me que é celeste desbotado (acalma
azul puro após um duche gelado)

as nuvens movem-se

penso no teu rosto e em ti e nas tuas mãos e
no ruído da tua pena e em ti
mas o teu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
esperava vê-lo colado a ela como um
pedaço de algodão enrolado dentro de fita adesiva
continuo a caminhar

um cocktail mental ladrilha a minha testa
não sei se pense em ti ou no céu
e se atirasse uma moeda ao ar? (cara tu coroa céu)
não! o teu ser não se arrisca e
eu desejo-te de-se-jo-te
céu pedaço de cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor

pensemos nos dois

os dois tu + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicolores bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe

sim amor estás longe como o mosquito
sim! esse que persegue uma mosquita junto
ao farol amarelosujo que vigia debaixo do
céu negrolimpo esta noite angustiante
..........................................cheia de dualismos



Alejandra Pizarnik, in Un Signo en tu Sombra

Versão de HMBF

sexta-feira, 10 de junho de 2011

FRUGALIDADE

Camarada Van Zeller, o grande homem falou. No dia da raça, o grande homem não se limitou a distribuir medalhas por pantufas estrábicas de português sofrível. Não, ele falou concentradíssimo:

Aqui, em Castelo Branco, poderemos buscar no exemplo dos portugueses do interior a inspiração de que precisamos para, uma vez mais, fazer das fraquezas forças e transformar as adversidades em oportunidades. A sua frugalidade e o seu espírito de sacrifício são modelos que devemos seguir num tempo em que a fibra e a determinação dos portugueses são postos à prova.

Por momentos, julguei-me a viver no Portugal só e orgulhoso do mestre. Não é caso para tanto, a frugalidade de espírito do grande homem, mais os 800€ por mês da sua senhora, independentemente da Quinta da Coelha e dos sócios, não podem demover-nos do verdadeiro sentido das palavras: sejam pobres, matem-se a trabalhar, curvem-se, que a gente vai ali pescar uns lagostins no prato e já volta. Ainda hei-de ouvi-los gabar a frugalidade dos chineses. Puta que os pariu mais a frugalidade. Pardon my French, camarada Van Zeller. Pardon my French.

EM PANTANILLO




A don Federico Valle


1


Mil passos arrastam pacientemente as solas maduras em rochas diferentes.
Talvez uma gota gema desejando a antiga espessura em tardes mais livres que esta (gaguejante de impuro colorido, de sol inibido, de água acobreada, de cavalos com caldas etéreas, do pranto do cacto impotente…). A cascata reverdeja os pastos silenciosos que nutrem a negra penugem da terra vestida de brilho.
Sombras persistentes, imagens constantes que obrigam as retinas a carregá-las alegremente em frágeis blocos. Montanhas vibrantes de cercania solar, de chuva inaudita, de flores invisíveis possíveis de criar debaixo de tanto céu, tanto lume cromático, tanta conjectura de lugar
.


2


Os meus dedos dactilografam do mesmo modo… (talvez contribuam com seus ruídos para aumentar os ruídos naturais de fundo).
As vozes elevam-se pretendendo matizar as aspirações de solidão a que os espaços obrigam. Cânticos pujantes de fragrância primaveril caem de surpresa no nevoeiro. Os lábios adensam as notas. Lábios fechados por rugas habilmente conseguidas. Lábios dobrados sobre dentes felizes. Lábios que riem debaixo da opressão tensa do manto ungido de vários tons (eu vermelho, tu azul, ele verde, ela cinzento…). Começa a lide cromática. Cada cor requer um espaço maior na tela. Claro que nenhuma quer sucumbir. Claro que nenhuma deseja dissolver-se anonimamente. E assim continua, assim caminha, assim se vê esfumar as folhitas a preto e branco deste calendário que transpira o suor de um calor intangível
.


3


As montanhas permanecem impávidas. Dúvida tremenda: arranhar-se debaixo do manto carnal ou remover os caules difusos tentando encontrar o perfil da flor única à luz de um enlevo descolorido.

Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)

Versão de HMBF

terça-feira, 7 de junho de 2011

HEREAFTER (2010)





O problema da imortalidade da alma não encerra o da possibilidade de existir uma qualquer forma de vida além da morte. O primeiro foi bem explanado por Platão no Fédon e decalcado pela socialite Lili Caneças no seu conhecido resumo da obra platónica: estar vivo é o contrário de estar morto. O segundo as pessoas tentam resolvê-lo recorrendo a bruxas, videntes, parapsicólogos, médiuns, programas da TVI. No fundo, ao pretenderem comunicar com os mortos as pessoas desejam saber-se imortais, ou seja, anseiam por uma qualquer prorrogação da existência sob formas improváveis. Quanto mais improvável melhor. Nestes assuntos, a lógica tem uma estrutura peculiar: até prova da improbabilidade, considere-se provável o improvável. Isto é: se não consegues provar a existência de vida além da morte, tens de provar que a vida além da morte não existe. O busílis da questão reside num erro de princípio. A haver vida além da morte, a morte não existe. Existe apenas vida. para os padrões ocidentais isto será sempre difícil de assumir, mais que não seja pela ilógica das premissas. Como pode a morte não existir para que exista apenas vida? Certo é que a todos cabe o inevitável kaput existencial. O corpinho deixa de se mexer, a carne apodrece, os ossos fazem-se pó, os rins, os pulmões, o coração recusam a próxima dança. As experiências de quase morte falam-nos de luz, de leveza, de uma certa forma de energia que, lá vem o Caneças da Academia, se liberta do corpo, essa terrível prisão, e vai desta para melhor. Atentem-se na expressão: desta para melhor. O além da morte é sempre melhor, o outro lado da vida é só leveza, paz, silêncio, calma. O inferno ou não existe ou ainda não foi sentido, experimentado, por ninguém em fase post mortem. Provavelmente as pessoas que tiveram essas experiências eram todas boazinhas, tinham-se em óptima conta, e por elas aguardava apenas a leveza do paraíso. Desde já confesso que o meu cepticismo não vai tão longe. A acreditar numa outra forma de vida que não esta, espero que seja pelo menos tão infernal. Os seres humanos merecem a guerra, seria indecoroso oferecer-lhes apenas a paz. Hereafter, de Clint Eastwood, aborda estas questões. Excelente título, dificilmente traduzível para a língua de Camões, mas com indícios de uma ambivalência nem sempre clara no cinema deste vidente. No filme, o dom de falar com os mortos transforma-se numa maldição. O médium no centro da acção, homem admirador de Charles Dickens, preferia não ter contactos com o after. A única coisa que ele deseja é um here normal, exequível, digamos assim, um here que lhe permitisse viver a vida por que está a passar mesmo sabendo que a outra há-de um dia chegar. A mensagem, a haver uma mensagem nestas coisas, será: para que queres saber se existe uma vida além desta? Não preferes saber o que é esta? A charlatanice ameaça o tema, mas não o consome, porque no centro da narrativa está o desejo de uma vida simples. Lembrei-me de The Elephant Man enquanto via Hereafter. Cada um dos protagonistas é uma aberração na demanda de um direito básico: uma vida normal. Repare-se como em Hereafter é esse o verdadeiro problema: um jovenzito perde o seu irmão gémeo enquanto ambos tentavam ajudar a mãe a libertar-se da toxicodependência, uma jornalista famosa vê o seu estatuto ameaçado na sequência de uma experiência traumática, o vidente deseja não ver. Todos eles querem uma vida simples. Todos eles tocados pela morte, buscam uma só coisa, a mais importante: uma vida simples. Esta, agora, aqui. A de depois logo se verá.

ANA GOMES

Ainda há pouco tudo se podia chamar a José Sócrates (nazi, Hitler, fascista, mentiroso, ladrão, etc., etc., etc….). Agora porque a Ana Gomes disse umas verdades, toda a gente se indigna. País de hipócritas. Merda para este país de hipócritas e falsos puritanos. Não há paciência.

domingo, 5 de junho de 2011

APOCALYPSE NOW (1979)




Já nem precisamos de postular um génio maligno por detrás dos desígnios humanos, tão evidente se tornou, ao longo dos séculos, a ilógica que governa o mundo. Ali duas jovens adultas, podiam ser mães, agridem, esmurram, pontapeiam brutalmente uma outra jovem, mais nova, sem que ninguém a auxilie. Antes pelo contrário, outros jovens nas imediações do acontecimento limitaram-se a gravar a cena para depois a exibirem no pardieiro da comunicação. A justiça actuou e o bastonário dos advogados, indignado com uma suposta exemplaridade da justiça, falou de perseguição medieval. Como é óbvio, a jovem agredida não era filha do bastonário. Não muito distante de onde tudo isto se passou, uma casa foi selada porque lá dentro mais de uma dúzia de crianças ficavam ao cuidado de uma ama com métodos de aquietação orientais. Uma novidade neste tipo de técnicas, o uso das bofetadas, do medo, da coerção para manter calados meninos em idade de fazer muito barulho. Alguns pais confiavam na ama, a ponto de a julgarem uma espécie de avó ao cuidado de quem os petizes ficavam enquanto a vida obrigava a afazeres que, nas sociedades em que vivemos, se sobrepõem, em importância e urgência, à educação dos filhos. Na China um jovem vende um rim para poder comprar um iPod e um iPad. A mãe só deu pelo negócio ao ver a cicatriz no tronco do filho. Salvas as devidas proporções, o cenário é de guerra. Não é preciso surfar debaixo de bombardeamentos de napalm, nem trazer à selva as coelhinhas da Playboy. A nossa capacidade de ajuizar os dias está por horas, a nossa moral ficou enterrada num mar de sangue e de lama. Há muito fomos tomados pela insanidade, nada de novo para quem esteja minimamente atento. Bem vistas as coisas, o apocalipse é esta morte lenta e nós vamos rio acima ao encontro do tal génio maligno sem nos darmos conta da sua presença por todo o lado. O absurdo delimita o campo de acção onde tudo é hoje possível. Por mais cuidadosos que sejamos na colocação dos pés não nos livraremos de pisar, aqui e acolá, a mina da estupidez, fazendo coisas das quais só não nos arrependemos por orgulho, vergonha ou medo. A guerra leva isto ao limite, é claro. A guerra é uma situação limite, apaga, ou pelo menos obscurece, aquela linha indefinível, mas que todos intuem, entre o bem e o mal, a sanidade e a loucura. Loucos estamos todos, e não é de agora, por julgarmos viável a captura do génio maligno, como se essa missão pudesse resolver os nossos problemas. Os problemas começam em nós próprios, no desequilíbrio das emoções, na incompetência para gerir fobias, desejos, ambições, na rotina com que a vida nos armadilha a vontade, na fraqueza crítica e autocrítica do espírito. Por mais defeitos que tivesse, Sócrates, o original, estava cheio de razão quando apregoava o autoconhecimento. É tudo o que nos resta. Se não nos levar à sabedoria, leve-nos, pelo menos, a uma menor estupidez.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

VOTAR PSD




Bem sei que em Portugal a memória pouco importa. A generalidade das pessoas deixa-se levar pela onda, não chega sequer a ter esperança. A onda, neste momento, parece ser laranja. É semelhante à onda que, no passado, trouxe a terra os primeiros-ministros Cavaco, Durão e Santana. Cavaco, rei das auto-estradas, deixou um legado invejável: da destruição das pescas ao patrocínio de uma agricultura de tracção às quatro rodas foi um ver se te avias. Acabou tudo à pancada na ponte, polícias contra polícias no Terreiro do Paço, Paulo Portas sem mãos para as polémicas sucessivas trazidas à primeira página de O Independente. Fernando Nobre, que em Janeiro deste ano, repito, em Janeiro deste ano acusava Cavaco Silva de ter tido, enquanto primeiro-ministro, «um Ministério do Mar que destruiu grande parte da frota pesqueira portuguesa», é agora candidato pelo PSD a Presidente da Assembleia da República. Coisa nunca antes vista, isto não é apenas vergonhoso, isto é não ter vergonha na cara. Passos Coelho recupera tudo o que o cavaquismo teve de pior, nomeadamente a distribuição anunciada de tachos e... Eduardo Catroga, o ministro dos pentelhos. O PSD não é apenas o partido de uma mulher que adorava suspender a democracia por uns tempos para se ver livre de adversários políticos que ela não suporta, é o partido que durante muitos anos deu guarida a Isaltino Morais, é o partido que, em tempos, escolheu para secretário de Estado dos Assuntos Fiscais o maior ladrão português do séc. XX: José de Oliveira e Costa, o homem de todas as trafulhices no caso BPN. Teve bons colegas de trabalho: Dias Loureiro foi um deles. Este Dias Loureiro não é um homem qualquer, foi Ministro dos Assuntos Parlamentares e Ministro da Administração Interna, foi membro do Conselho de Estado. Está inocente até prova em contrário. Também inocente está o efémero Durão Barroso, ali fotografado ao lado de um criminoso que invadiu nações autónomas e independentes, coadjuvado pelos cúmplices europeus, na base de puras mentiras. As mentiras daqueles quatro homens mataram milhares de inocentes, provocando custos ao mundo que ainda estão por contabilizar. Mas isto são pormenores. Nada disto interessa a quem for votar nas próximas eleições. Santana Lopes é um caso paradigmático deste desinteresse, conseguiu vencer várias eleições não passando de um ardiloso incompetente. O resultado das suas contribuições para o bem nacional já várias vezes foi divulgado na imprensa nacional: aos 49 anos, uma pensão de 3178 euros como ex-presidente das câmaras da Figueira da Foz e de Lisboa. Mas Daniel Sanches, ex-ministro da Administração Interna de Santana Lopes, conseguiu melhor: reformou-se da Procuradoria-Geral da República com uma pensão mensal de 7316,45 euros. Num país miserável, a moral das elites banqueteia-se com discursos apelando à contenção e medidas de austeridade. Hipócritas. É isto o PSD. Passa pela cabeça de alguém que Passos Coelho tenha tomates para arrumar esta teia de interesses? Num partido ainda há não muito tempo multado pelo Tribunal Constitucional por financiamento ilícito?