Bianca acedeu ao convite de Baltazar para um programa Zen, deixando-o num estado de tal excitação que este necessitou rever um episódio de Os Jovens Heróis de Shaolin para restabelecer os índices de entusiasmo. Enquanto assistia ao episódio, imitava os movimentos de kung fu numa coreografia tão singular que parecia estar a treinar tae-kwon-do. Na realidade, Baltazar não entendia a diferença entre as duas artes. Agradava-lhe a fonética dos termos. Gritava-a bem alto defronte a um espelho, fazendo caretas ao jeito dos bonecos animados de mangá. Eis um mistério por resolver: porquê chamar animados a uns desenhos com posições petrificadas onde não se vislumbra um único disfarce de músculo em movimento? Neste sentido, os bonecos de mangá reflectiam o espírito estático de Baltazar. No fundo, uma erupção de judo, ninjutsu, kenjutsu, laijutsu, karaté, kempo, aikido, yoseikan, kyudo, kendo, mas à superfície, ah, à superfície, sempre a mesma pacífica inércia. Ainda assim, o suficiente para deslocar uma vértebra e ficar com o sacro do avesso. Consultou um massagista ayurvédico, mas os óleos não lhe serviram no desvio das vértebras. Procurou então a massagem taoista, tailandesa, shantala, shiatsu, tui na, mas sem qualquer efeito satisfatório. Só o tempo poderia curar o que as massagens não resolviam. Estava na hora do encontro com Bianca. Levou-a a provar sushi. No decorrer da refeição, porque as palavras sempre o traíam e o silêncio era mais forte do que ele, ofereceu a Bianca um origami e assobiou uma melodia min'yō. Bianca sentiu-se levitar, o que diria do estado de embriaguez passional em que se encontrava não fosse o caso de a levitação ter sido provocada por um excesso de gases produzidos pelo sushi mal confeccionado. Indisposta, devido a uma gastroenterite altissonante, Bianca sugeriu que regressassem a casa. Já em casa, Baltazar disponibilizou-se para lhe arrumar a mobília segundo as regras feng shui. Bianca achou o máximo, mas fechou-se na casa de banho a evacuar tudo o que lhe restava nos intestinos de tai chi chuan e medicinas congénitas. Aliviada a tripa, sentou-se no chão em posição yôgui. Baltazar pensou então que chegara a hora de atacar os seus propósitos e hipnotizou Bianca com um longo, lento e monocórdico mantra, acompanhado de ásanas e kriyás e bandhas e pránáyámas e yôganidrás e samyamas adequados. O efeito foi tão poderoso que mal se aperceberam estavam ambas as partes num sonolento reiki de ressonadelas tântricas ao som do ronronar dos gatos persas, os quais rondavam o incenso ateado com felina desconfiança.
Sexta-feira, 29 de Abril de 2011
CINTRA TORRES É UM AGENTE SECRETO AO SERVIÇO DE SÓCRATES
Após um árduo e burocrático dia de trabalho, parei no café a beber uma cervejinha e a ler o jornal. Voltei a ler jornais. O P2 oferece-nos uma extensa prosa de Eduardo Cintra Torres que merece algum trabalho estatístico. Se excluirmos o título do artigo –A campanha eleitoral da Central de Propaganda −, Cintra Torres repete 17 vezes a palavra Central, assim mesmo, grafada com maiúscula. Segundo o crítico televisivo, esta suposta Central tem uma estratégia: dizer aquilo que o povo pensa, ou seja, que os políticos são todos corruptos. Para tal, contratou José Lello, um maquiavélico agente ao serviço da abstenção. Cabe ao deputado socialista esse papel paradoxal de dissuadir os portugueses do voto para, assim, aumentar a abstenção e, com isso, aumentar as possibilidades de um bom resultado socialista. Dito de outra forma, Lello não quer que os portugueses votem para que ele possa ser eleito (não sei se Lello vai em alguma lista, mas se for é esta a sua estratégia). Cintra Torres refere que «os eleitores mais livres votariam mais facilmente na oposição», pelo que é do interesse do PS neutralizar estes eleitores. Para Cintra Torres, há eleitores mais livres e eleitores menos livres. Os mais livres são os que votam em quem ele quer, os menos livres são os que votam em Sócrates (estes, ao votarem, não exercem um direito, limitam-se a reagir como cães de Pavlov). Isto faz sentido… na cabeça de Cintra Torres e, provavelmente, na de Pacheco Pereira. Logo, os eleitores livres são marionetas manipuláveis pela verve de Lello e Torres o Messias destes desgraçados bonecos de porcelana. Mas a paranóia obsessiva do escriba não se fica por aqui. Sócrates foi programado pela Central para repetir sempre as mesmas frases decoradas, é bem provável que lhe tenham injectado um chip na espinal medula, os jornalistas são todos vítimas dos métodos estalinistas da Central e só fazem perguntas que podem ser respondidas com as tais frases decoradas, Sócrates é um andróide, uma espécie de versão adulta do rapazinho de Inteligência Artificial, as notícias negativas para o Governo apenas são dadas quando os portugueses estão de férias, a gozar feriados ou de televisão desligada, a Central trabalha 24 horas por dia com o intuito de desgastar os adversários lançando científica e cirurgicamente no caudal mediático todo o tipo de boatos, intrigas, factóides e mentiras, entre as quais talvez se inclua a própria existência de uma Central de Propaganda ao serviço do Governo, Fernando Nobre foi uma das mais recentes vítimas desta Central e as centenas de comentários que levaram o bom Fernando a encerrar a página do Facebook foram patrocinados pela Central, supondo-se inclusive que as recentes dúvidas sobre a nacionalidade de Obama tenham servido para desviar as atenções dos eleitores luso-americanos… Depois de ler este artigo, estou mesmo em crer que o próprio Eduardo Cintra Torres é uma agente secreto dessa Central de Propaganda. Afinal, a quem senão Sócrates servem artigos tão paranóicos e obsessivos como este de Cintra Torres?
Quinta-feira, 28 de Abril de 2011
SÁBADO, TODOS AO SÍTIO
dia 30 de Abril de 2011
celebramos vinte anos de delírio
no sítio da nazaré
juntamo-nos para ler os poemas
da nova revistazine de
Fabiano Donato Leite (Brasil)
Fernando Guerreiro
Henrique Manuel Bento Fialho
Jaime Rocha
Jorge Velhote
José Carlos Freitas (Brasil)
Miguel Martins
Rui Almeida
Rui Tinoco
Sílvia C. Silva
Vitor Vicente
e Wellitania Oliveira (Brasil)
e para ver as fotografias de
Alexandra Demenkova (Rússia)
e Steve Remígio Delgado
encontro marcado para as
18 horas
café Porto Bello
largo nª srª nazaré, 25
Sítio da Nazaré
celebramos vinte anos de delírio
no sítio da nazaré
juntamo-nos para ler os poemas
da nova revistazine de
Fabiano Donato Leite (Brasil)
Fernando Guerreiro
Henrique Manuel Bento Fialho
Jaime Rocha
Jorge Velhote
José Carlos Freitas (Brasil)
Miguel Martins
Rui Almeida
Rui Tinoco
Sílvia C. Silva
Vitor Vicente
e Wellitania Oliveira (Brasil)
e para ver as fotografias de
Alexandra Demenkova (Rússia)
e Steve Remígio Delgado
encontro marcado para as
18 horas
café Porto Bello
largo nª srª nazaré, 25
Sítio da Nazaré
ELA CHORA SOBRE O RAHOON
Suavemente cai a chuva no Rahoon, caindo suavemente,
Onde jaz meu amor sombrio.
Triste é sua voz que me chama, chamando tristemente,
Ao pálido nascer da lua.
Amor, escuta tu
Quão macia, quão triste é sempre sua voz chamando,
Sempre irrespondível, e a negra chuva caindo,
Antes como agora.
Também sombrios nossos corações, Ó amor, jazerão e frios
Como seu triste coração repousado
Sob luarentas urtigas, húmus negro
E chuva murmurante.
Trieste, 1913.
James Joyce, in Poems and Shorter Writings, da sequência Pomes Penyeach (1927), Faber and Faber, 2001, p. 54.
Versão de HMBF.
DÚVIDA EXISTENCIAL
Reactivei a conta do Facebook. Estou com uma dúvida: é suposto aceitarmos ou solicitarmos pedidos de amizade das pessoas que não nos gramam?
QUETZAL
Para que serve uma editora? Dir-me-ão que é para editar livros. Pois bem, eu julgo que uma editora serve para muito mais do que esse acto algo frívolo e burguês de dar lombada às lucubrações humanas. Há imensos exemplos, mas tome-se nota deste. Há tempos, a Quetzal editou uma coisa intitulada Mudar, da autoria de certa eminência parda do pensamento político português que pretende vir a ser PM de Portugal. Quando vi o livro, recordo-o como se fosse hoje, ocorreu-me uma dúvida óbvia: como é que uma editora com um catálogo tão simpático e apreciável se dá ao luxo de editar uma coisa destas? Olhando para as listas do PSD, percebe-se hoje a razão. Francisco José Viegas deixou-se entusiasmar pela prosa de Passos Coelho e fez o frete. O livro não cola com absolutamente nada do que a Quetzal publicou nos últimos tempos, sai fora dos eixos, é uma espécie de nódoa negra numa renda de bilros. Ora expliquem-me lá, então, para que serve uma editora.
Quarta-feira, 27 de Abril de 2011
CHAMBER MUSIC

XXVIII
Amável senhora, não cante
Canções tristes sobre o fim do amor;
Afaste a tristeza e cante
O quanto basta o amor que passa.
Cante o longo e profundo sono
Dos falecidos amantes, e como
Na sepultura todo o amor repousará:
Por ora o amor está cansado.
James Joyce, in Poems and Shorter Writings, Faber and Faber, 2001, p. 40.
Versão de HMBF.
PONTO DE ENCONTRO
As pessoas que têm Facebook julgam o máximo reencontrarem-se com velhos amigos. Eu nunca tive o prazer de saber o que é um velho amigo. Será um amigo de idade mais avançada? Será um amigo que se perdeu de vista? Será apenas um conhecido a quem perdemos o rastro? É possível perder o rastro aos amigos? Sem resposta para tais dúvidas, fico-me pela certeza de não pretender reencontrar absolutamente ninguém que tenha deixado de fazer parte da minha vida. Que alegria pode haver em reencontrar gente a quem nunca se ligou um caralho?
25 DE ABRIL
Andamos há 37 anos a comemorar uma revolução que ainda não aconteceu verdadeiramente. Esmagados por uma guerra inglória, os militares revoltaram-se contra o regime e desbravaram caminho para a democracia. Cedo se percebeu o que nos esperava: uma oligarquia a ir a votos de 4 em 4 anos, dividida entre duas facções políticas que são mais do mesmo. Soares entregou-nos a uma Europa agora americanizada, de socialismo não só engavetado como totalmente enterrado e sem direito a memorial. Em França, mãe da Revolução de todos nós, há trabalhadores que se imolam, suicidam-se à vez sem grande alarido. Por cá, o nepotismo faz escola e os crápulas jogam com a cintura na ânsia de um tacho. A baba é tanta que daria para fazer um cozido à portuguesa com morcelas de socialismo, enchidos de social-democracia e alheiras de populismo. No batatal do cavaquistão há batatas que cheguem para todos e para quem se lhes queira juntar. Construíram-se auto-estradas, vias rápidas para o enriquecimento indevido, engordaram-se fortunas e patrocinaram-se cartéis. O PPD de Duarte Lima, Santana Lopes, Dias Loureiro, entre outros larápios de estirpe intocável reunidos na cantina do BPN, leia-se SLN, prepara-se novamente para fazer das suas, enquanto o PS do Grande Chefe, dos estádios e do Rui Pedro Soares e do Ricardo Rodrigues e do Freitas do Amaral e do Basílio Horta vai distribuindo o que resta da côdea governativa. Uma elite política de merda, aos ombros de uma elite empresarial de merda, num país a afundar-se na merda com um povo que de tanto gostar de viver na merda mais se assemelha a uma vara de porcos do que a um verdadeiro povo. Mas animemos a malta, recordemos as velhas canções, olhemos para o passado, desfilemos na Avenida da Liberdade de açaime na boca e coleira pelo pescoço. O FMI tratará de nós como o Frontline trata das pulgas. Amemos os nossos patrões.
Terça-feira, 26 de Abril de 2011
COME OUT OF CHARITY, AND DANCE WITH ME IN IRELAND

São os dois últimos versos de uma canção que W. B. Yeats (Georgeville, Dublin, 13 de Junho de 1865) parafraseou num poema do livro «Words for Music, Perhaps» (1931). Convite que atravessa os anos, bastante pertinente em regime de austeridade imposta pelos algozes do FMI. Há muito que sentia o apelo da ilha, alimentado talvez pelas reconstituições cinematográficas de velhas lutas independentistas, ou pelas canções que foram ficando desde a adolescência (dos U2 aos The Chieftains, dos The Dubliners aos nortenhos Energy Orchard). Curiosamente, os The Pogues e os The Waterboys, ao contrário do que muitas vezes se julga, surgiram no Reino Unido na cabeça de um inglês (os primeiros) e de um escocês (os segundos). Mas o meu imaginário irlandês foi sendo essencialmente nutrido pelos escritores. É espantosa a quantidade de grandes escritores que aquelas terras deram ao mundo: Swift, Joyce, Beckett, Yeats, Seamus Heaney, Oscar Wilde, George Bernard Shaw... Como é que de uma pequena ilha (imaginava-a muito maior do que é na realidade, fruto de uma incorrigível incompetência para ler mapas) surdiram tantos e tão bons homens de palavras?

Portanto, a tentação de me fazer acompanhar por um pedaço de literatura autóctone foi irresistível. A escolha recaiu sobre «Gente de Dublin» (Dubliners), de James Joyce. Não é o melhor cartão-de-visita da capital da República da Irlanda. Os personagens dos contos de Joyce vivem entalados entre vidas indesejáveis, duras, violentas e uma enorme, mas oprimida, vontade de fugir, de abandonar a cidade, de procurar a felicidade noutras paragens. São gente melancólica enterrada num pântano de pouca sorte: «Não havia dúvida; quem quisesse vencer tinha de se ir embora. Em Dublin, nada se conseguia». Casas pobres, vagabundos, sujidade, imoralidade, vício, desespero, angústia, sufoco: «Dublin é uma cidade pequena, onde todos sabem o que se passa com os outros». A esperança de um futuro risonho parece naufragada nas águas turvas do rio Liffey. É provável que a actualidade não desminta o quadro pintado pelo escritor, embora a Sul e a Norte do Liffey consigamos vislumbrar inúmeros remédios para a melancolia. Há a música e a bebida, vários parques verdejantes onde a vida parece sossegar e o ar assume um alento agradável.

David, o cicerone de Dublin, levou-nos do Dublin Castle à Christ Church Cathedral, do Temple Bar (a área por excelência da boémia irlandesa) ao Trinity College, daqui ao St Stephen’s Green. Com um impagável sentido de humor, instruiu-nos nas venturas e desventuras da nação, falou dos símbolos da presença britânica e sublinhou as repetidas tentativas de assalto de que foram sendo alvo, referiu-se a vários heróis da independência e ao bluff dos ingleses, queixou-se dos horríveis edifícios que revelam a ausência de leis rigorosas ao nível do planeamento urbano, foi implacável na exaltação dos símbolos independentistas e na censura de uma hipocrisia inglesa que pretende apagar da história milhões de irlandeses sacrificados pela fome ao longo de vários séculos de colonialismo britânico. No final, tirámos uma fotografia e substituímos o tradicional «olha o passarinho» por um muito mais pertinente «fuck imf». O nacionalismo irlandês terá os seus defeitos, aqui e acolá abrirá as portas a uma xenofobia pouco saudável, mas consegue compreender-se no seu contexto histórico muito específico. Pessoalmente, em regime turístico, só me posso queixar de um excelente sentido de humor e das qualidades «de hospitalidade e de agradável disposição» que Joyce também referia.

Das caminhadas pela cidade há a destacar uma visita à St Patrick’s Cathedral, onde Swift e a sua amada Stella estão sepultados (ruidosa, desorganizada e pobre para os padrões mediterrânicos), uma passagem pelas multiculturais colecções da Biblioteca Chester Beatty (filantropo norte-americano muito querido na República da Irlanda, uma espécie de Gulbenkian), um passeio pela impressionante National Gallery (com pinturas de Brueghel, Rubens, Caravaggio, Picasso, Monet, entre muitos outros), assim como inevitáveis deambulações pelo Temple Bar, com direito a livros numa das muitas pequenas livrarias que se encontram pelo caminho, CDs a preço de saldo, vários pints de Guinness, música ao vivo, sacos abarrotados de fish and chips a exigirem desenjoo. Rumamos na direcção do Ulster, onde um casal de amigos portugueses nos aguarda com generosíssima e impecável disponibilidade na pequena cidade de Portadown. Estamos perto de Belfast, que não chegaremos a visitar, numa zona onde os bairros se dividem entre o laranja/verde dos republicanos católicos e o azul/vermelho dos protestantes fiéis à monarquia.

Em plena época pascal, com eleições à porta, ecoam nas ruas os tambores do Sinn Fein. Acompanhamos a procissão, de um bairro classificado de problemático pelos nossos anfitriões até ao cemitério onde escutaremos loas aos tombados da Irmandade Republicana Irlandesa na Revolta da Páscoa de 1916. Seamus Heaney também os lembrou no «Requiem pelos Rebeldes». O tom oscila entre a rigidez militar daqueles que ostentam as bandeiras dos seis condados da Irlanda do Norte, escoltados por uma grande bandeira da República da Irlanda, e uma certa informalidade dos jovens músicos que parecem prestar pouca atenção aos nomes dos combatentes do IRA igualmente homenageados. As barreiras interconfessionais e políticas que impõem um clima umbroso na região nada têm que ver com a «whispering grass» disseminada pela paisagem. Visitamos o Lough Neagh, um dos maiores lagos da Europa, subimos a Coleraine, Bushmills, paramos no Giant’s Causeway e acompanhamos os penedos numa descida até ao mar. Depois regressamos por Cushendall, atravessamos os Glens of Antrim, vales de um verde deslumbrante que lembra a beleza indescritível e insuperável de São Miguel.

Bandos de estorninhos percorrem o ar largando na relva as marcas de um canto aflito. Por sobre as casas, um céu pesado de nuvens cheias ameaça os ninhos. As ovelhas pastoreiam indiferentes, lenta e silenciosamente. As árvores crescem em torno das casas, não servem de sombra em dias de chuva mas estão ali como que para servirem de moradia ao olhar dos homens. Limpam-nos a alma. Sentamo-nos a ouvir a água escorrer em pequenas cascatas que se formam na floresta, abrimos ao acaso uma antologia de poesia irlandesa:
Sunset
In Loch Lene
a queen went swimming;
a redgold salmon
flowed into her
at full of evening.
John Montague

De novo em chão republicano, tempo ainda para apanhar o comboio até Bray, uma simpática cidade costeira banhada pela Baía de Killiney. É bank holiday (feriado) e os irlandeses recuperam dos excessos da noite anterior. Tomámos-lhe a pulsação, ainda que timidamente. Convém dizer que a beleza da paisagem foi ingrata para com o físico dos irlandeses. A metade feminina, a que mais me interessa, sofre de uma alvura vitoriana agravada pelo uso e abuso de várias camadas de base. O excesso de maquilhagem não disfarça a fealdade. As mais gordas parecem trambolhos tentando equilibrar-se em saltos altíssimos, mas a maioria é escanzelada e todas elas ostentam saias tão curtas como boxers de tamanho S. Não é preciso estarem bêbedas, um dom deveras propagado por aquelas bandas, para parecerem ridículas, até porque em sapatos de salto alto pelo menos dois tamanhos acima do pé extraordinário seria o contrário. Digamos que numa média de 1 para 100, lá se vislumbra uma irlandesa atraente e charmosa.
De novo inclinados para o charme das palavras, passamos pelo Merrion Square onde se encontra um memorial em honra de Oscar Wilde. Mal tratado no passado, é agora condignamente celebrado. Trata-se de um bonito memorial, perto da rua onde morava, rodeado de verde e em pose adequada. A ele roubo o epitáfio da viagem, quem sabe abrindo o apetite para uma próxima:
IMPRESSION DU VOYAGE
Era um mar de safira; o firmamento
Ardia pelo ar, opala quente;
A vela içámos; ledo ia o vento
À terra azul que jaz a oriente.
Da proa a prumo, eu num veloz relance
Vi Zante: os olivais e enseadas,
O cume de Ítaca, a neve de Lycaon,
As flores da Arcádia em monte semeadas.
O roçagar das vagas no costado,
O vergastar das velas contra a verga,
Um mar de moças rindo à nossa popa,
Só estes sons – e o Sol então, corado,
A oeste ardeu nas ondas a galope,
E eis que enfim me vejo em solo grego!
(trad. Margarida Vale de Gato)
Este post é para a Ana, para a Sara e para o Álvaro, a quem devo as fotografias e a boa companhia. É também para a Susana e para o José João, a quem estamos gratos pela impecável hospitalidade.
Domingo, 24 de Abril de 2011
CASTELO SEM PÁTRIA

para Antonia Lozano e Diego Doncel
Vieram do outro lado da fronteira
alguns dos meus amigos e não os queria
e resisti e todos eram de Castela, terra
e resisti e todos eram de Castela, terra
negra e caída do outro lado
da escondida meia-noite.
Não eram o galego olhar nem catalã a
resposta à minha dúvida
nem andaluz altivo como os julgara em
adolescente sonho.
Vieram dos campos altos do outro lado e
de raiz, absortos na errante nuvem
coisa alguma têm por detrás
além do peso inteiro da península. E são
um verso,
verso de espera no umbral da pedra derrubada
acordam ainda a juventude, canção secreta
adormecido eco da nossa história e por
detrás da fronteira há mais fronteira
João Miguel Fernandes Jorge, in Sobre Mármore, Teatro de Vila Real, Outubro de 2010, p. 29. A fotografia foi tirada pelo Álvaro no Ulster.
Sábado, 23 de Abril de 2011
Sexta-feira, 22 de Abril de 2011
EM DUBLIN ESTÁ SOL
Quarta-feira, 20 de Abril de 2011
FUCK IMF

Strings in the earth and air
Make music sweet;
Strings by the river where
The willows meet.
There's music along the river
For Love wanders there,
Pale flowers on his mantle,
Dark leaves on his hair.
All softly playing,
With head to the music bent,
And fingers straying
Upon an instrument.
James Joyce, in Chamber Music (1907), Poems and Shorter Writings, Faber and Faber, 1991, p. 13. A fotografia foi tirada no St. Stephen's Green, Dublin, durante a digestão de um Irish beef stew with Guiness.
Segunda-feira, 18 de Abril de 2011
SOMBRAS
Sou capaz de conceber um escritor de hoje, mesmo intrinsecamente um escritor de primeira ordem, que simplesmente não consegue compreender, nem nunca conseguiu compreender, onde querem chegar e onde chegaram os seus colegas escritores e foi sempre tímido de mais para fazer a pergunta. Este escritor sente essa deficiência dentro de si ao ponto de se tornar uma angústia. Essencialmente um tipo humilde, tentou compreender o mais que pôde, a vida inteira (embora talvez não tenha tentado o suficiente), por isso o quarto dele está cheio de Partisan Reviews, Kennyon Reviews, revistas de poesia, Horizons, mesmo velhos Dials, de cujo conteúdo não consegue perceber exactamente nada, excepto quando uma ocasional colaboração sua, de há anos e anos atrás, lhe recorda qualquer coisa, uma recordação cada vez mais remota porque, para dizer a verdade, já não consegue compreender o seu próprio antigo trabalho. Ainda tenta, pela décima milionésima vez, perceber The Love Song of Alfred Prufrock, pela décima milionésima vez atacar The Waste Land do qual, a primeira linha - embora a saiba de cor, claro! - é ainda tão obscura como dantes e na qual nunca foi capaz de perceber porque é que Cristo devia ser comparado a um tigre, embora isso o tenha levado a ler William Blake (ele tinha de facto sido atraído por William Blake na infância quando lera no Times londrino que Blake era pírulas) cujo poema acerca do cordeirinho é talvez a única coisa em toda a literatura em que ele conseguiu penetrar profundamente e mesmo nesse caso talvez ele ainda esteja enganado. Em parte estou a brincar, porque na verdade o meu escritor tem uma estupenda base em Shakespeare. H'um. De qualquer maneira, quando ele encara de facto as coisas, descobre que o seu gosto não foi formado necessariamente pelas coisas de que gostou mas pelas coisas que ele compreendeu, ou antes, essas são tão lastimavelmente poucas que conseguiu identificá-las. Será isto um retrato fantástico? Porque não é que esse homem não seja criativo, é justamente por ele ser tão criativo que não consegue perceber nada; por exemplo: nunca conseguiu seguir o enredo do mais simples filme porque é tão susceptível ao menor estímulo dessa espécie que dez outros filmes se desenrolam na sua cabeça enquanto ele está a ver aquele. E o mesmo sucede com a música, a pintura, etc. Com a idade de 37 anos, tendo adquirido fama espúria por causa de obras que, como digo, há muito ele próprio deixou de entender, desperta para o facto de que só apreciou com distanciamento estético quatro coisas na sua vida. Um poema de Conrad Aiken, uma representação de Richard II quando tinha 10 anos de idade, no Birkenhead Hippodrome, um disco de Frankie Trumbauer' com Eddie Lang, Venuti e Beiderbecke e um filme francês realizado por Zilke (rima com Rilke?) chamado The Tragedy of a Duck. A despeito disso, ainda lê heroicamente algumas páginas de Seven Types of Ambiguity de William Empson todas as noites antes de adormecer só para se manter em forma e em contacto com os tempos...
Há muita verdade contida neste retrato, porque este homem, embora genuinamente artista - na verdade provavelmente não pensa senão em arte - é, contrariamente a muitos artistas, um verdadeiro ser humano. Porque, infelizmente, esta é a maneira como a maior parte dos seres humanos vê os outros seres humanos, ou seja: como sombras, sendo eles próprios a única realidade.
Malcolm Lowry, in Através do Canal do Panamá, trad. Anna Hatherly, Relógio d'Água, s/d, pp. 76-78.
FALSA BIBLIOTECA
Ao lermos um livro como Bibliotecas Cheias de Fantasmas é inevitável que pensemos na nossa própria relação com os livros. Em boa verdade, não posso dizer que tenha uma biblioteca. Tenho os livros espalhados por praticamente todas as divisões cá de casa. Neste momento escrevo deitado na cama. Do meu lado direito, na mesa-de-cabeceira, vejo uma pilha de livros. Memórias de um ex-morfinómano, American War Poetry, Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge, Romance Sujo, O Caminho dos Pisões, Uma Antologia de Poesia Chinesa, etc… Acumularam-se ali sem qualquer tipo de critério. Simplesmente aconteceu. Uns foram oferecidos, outros comprados on-line ou em livrarias ou em feiras de velharias ou em alfarrabistas. Por que comprei um livro em alemão se não consigo ler alemão? Não tenho resposta para isto. Na mesa-de-cabeceira do lado esquerdo, mais livros. Num móvel em frente, o mesmo. O hall de entrada tem uma estante com livros de arte. Ficaram ali porque também têm uma função decorativa. Mas a maior parte dos meus livros, diria mesmo 99% da falsa biblioteca, está no sótão. Quem ali entre deparar-se-á com uma espécie de caos controlado. Livros pelo chão, dentro de caixas, caixotes, nas estantes curvadas por já não suportarem o peso dos volumes arrumados em duas filas. Se pudesse arrumá-los como deve ser, seria este o critério: de um lado a poesia, noutro lado a ficção, e num outro a não-ficção (filosofia, ensaio, psicologia, sociologia, história, etc.). Os que estão arrumados nas estantes foram organizados em função da data de nascimento dos autores. Isto ajuda-me a ter uma perspectiva histórica das correntes, das gerações, etc. Dou muitos livros, mas, mesmo assim, sinto que deveria livrar-me de pelo menos 50% dos que tenho em casa. Digo isto sem qualquer vestígio de presunção. O problema não é a quantidade nem o espaço, a gente arranja sempre mais um canto para deixar um livro. O problema é não poder ter as coisas organizadas como gostaria e, pior, sentir que metade dos livros que tenho não servem para nada, são absolutamente dispensáveis e, em muitos casos, mais valia não ter cometido o erro de os adquirir. Muito foram oferecidos, certo. E a livro oferecido fica mal dizer que não. Mas às vezes apetece, seria mais honesto e evitaria futuras e desagradáveis repetições do gesto. É fácil distinguir os livros que foram lidos daqueles que estão por ler. Se tiverem sido lidos, estarão certamente anotados, sublinhados, emendados. Por vezes, servem-me de suporte para os meus próprios escritos. Noutras ocasiões, não tenho mão no ímpeto e risco folhas inteiras ou chamo nomes aos autores, aos tradutores, aos editores. Nunca me aconteceu deitar livros para o lixo. Uma amiga confessou-me, há dias, que não resistiu à tentação de queimar certo e determinado livro. Nunca cheguei sequer a ter essa tentação. Prefiro oferecê-los, mesmo que anotados. Por outro lado, detesto que me emprestem livros e evito emprestá-los. Geralmente recuso empréstimos. Não aceito livros emprestados porque sei que não os irei ler. Para os ler, teria de os sublinhar. Não sendo meus, prefiro não o fazer. Também não gosto de emprestar livros, temo vir a precisar deles quando os tiver emprestados. Isso já me aconteceu, deixando-me naquela desagradável situação do generoso picuinhas, o tipo que empresta mas fica cheio de cuidados. Depois há que distinguir entre os livros que temos em casa que foram lidos e podem ser dispensados, os que não foram lidos mas fazemos intenções de ler e os que não foram lidos nem sentimos qualquer vontade de vir a ler. Para que este trabalho seja elaborado com cuidado é preciso tempo. E a mim falta-me, essencialmente, tempo. Mais do que para ler, para poder prescindir do que não pretendo ler.8 ANOS
Parece que foi ontem. Era o que ouvia dizer sempre que fazia anos. Ou então, o tempo passa num instante. É tudo falso. Nessas alusões vive adormecido o logro de um tempo que é impossível resgatar. Passaram 8 anos. Os filhos crescem, nós envelhecemos, o planeta continua a correr. Sabe bem enterrar as mãos na areia, sentir o sal da espuma, andar descalço sobre a terra, trazer ao corpo a luz que afaga a erva. Salvamo-nos, assim, da melancolia que a passagem do tempo imprime. Agora que lês, dou-te o que julgo saber: ama a Terra, não terás outra, e aprende a gostar das pessoas com a nobre desconfiança de quem sabe poder haver num coração inimagináveis razões para se ser tal como se é. As pessoas escondem mistérios, não nos cabe tanto julgá-los como importa compreendê-los. Não te iludas com a busca da felicidade, essa quimera impenetrável. Procura antes colocar em cada momento a alegria que te for possível. E quando não for possível, faz qualquer coisa para que se torne possível. Nenhum outro esforço será tão valoroso.Domingo, 17 de Abril de 2011
BIBLIOTECAS CHEIAS DE FANTASMAS
Qualquer amante de livros lerá de um só fôlego e com enorme prazer Bibliotecas Cheias de Fantasmas (Quetzal, Outubro de 2010). Traduzido por José Mário Silva, este pequeno livro reúne nove textos sobre problemas concernentes à organização de uma biblioteca pessoal. A escrita de Jacques Bonnet, historiador de arte e bibliómano inveterado, é culta, mas límpida, prescinde de elucubrações complexas em prol de uma narrativa bem-humorada, repleta de episódios pessoais e curiosidades históricas. Logo a páginas 17, o problema do espaço ocupado pelos livros no interior de uma habitação é retratado com as «circunstâncias da morte do compositor Charles-Valentin Alkan, a quem chamavam «o Berlioz do piano», morto em sua casa, a 30 de Março de 1888, esmagado pela própria biblioteca» (p. 17). Daqui se conclui que todos os espaços de uma habitação são susceptíveis de servir de despensa para livros, excepto a parede à qual encostamos a cama onde dormimos. Evitando teorizar de um modo abstracto, os pontos de vista expressos são fundamentados através do exemplo e com uma destreza e brevidade que nos levam a pensar não ser tanto essa a intenção deste livro, como será mais a de declarar amor a uma arte e às manias dos seus cultores. «Consta que Gilbert Lély, o poeta e especialista em Sade, mantinha em sua casa exactamente 100 obras, nem mais nem menos, e sempre que acrescentava uma, retirava logo outra» (p. 18). Os comportamentos mais ou menos obsessivos dos amantes de livros dão azo a um anedotário infindável cujo interesse acaba por estar na confrontação com as nossas próprias manias. O bibliómano é, por natureza, um indivíduo caprichoso. Pode olhar para a sua biblioteca como se estivesse a olhar para um paraíso na terra, mas também pode ver nela uma insuportável prisão. Vem-me à memória Jean Genet, que não só não tinha morada fixa, como nem sequer possuía um único exemplar dos seus livros. No entanto, não se pode dizer que não amasse os livros. Talvez os amasse sem estar contaminado pela possessão que caracteriza os coleccionadores. Bonnet refere um «que só se interessa por autores cujos nomes começam por um B ou que, como ele, se chamam Jules» (p. 29). Na relação que mantemos com os livros, a nossa humanidade emerge envolta no manto da curiosidade. Podemos denotar alguma extravagância ou a mais entediante picuinhice na organização de uma biblioteca, no modo como catalogamos ou arrumamos os volumes nas prateleiras, no trato que damos ao próprio objecto, mas há algo que nos liga nesta relação. E esse elo é o da curiosidade. A variabilidade das práticas de leitura conflui para este elemento universal. O que nos leva aos livros é um íman que reside misteriosamente dentro da palavra impressa e nos atrai a curiosidade. Depois, sublinhamos com lápis ou caneta de feltro as frases que melhor satisfazem essa curiosidade, entretemo-nos a corrigir gralhas ou mantemos intactas e impolutas as páginas do objecto folheado. Eu sublinho: «Quanto a Bernard Berenson, ao saber que a Virgem acabara de aparecer a Pio XII, colocou imediatamente a questão que se impunha a um historiador de arte: «Em que estilo?»» (p. 102). Jacques Bonnet afirma que uma das razões que o levou a escrever este livro foi a inquietação instaurada pela última grande revolução mundial, a qual afecta de um modo ainda pouco perceptível esta relação do leitor com o livro. A pergunta impõe-se: «Teria eu construído a mesma biblioteca se pertencesse à geração Internet?» (p. 139) Independentemente da resposta, há uma certeza nela implícita: nunca uma biblioteca pode ser construída duas vezes da mesma maneira. Há entre esta e a singularidade da pessoa humana que a constrói uma ligação de propriedade, como se a biblioteca fosse uma extensão da existência. Para essa extensão o bibliófilo olhará como quem se olha a um espelho. As perguntas serão as mesmas, assim como as dúvidas. Com uma vantagem: num gesto extremo de autocrítica ou de autodesprezo, podemos sempre evitar a automutilação destruindo um punhado de livros que façam parte da nossa biblioteca pessoal.DESTE LADO DA REALIDADE
A preparar as malas, com Gente de Dublin num bolso, o guia no outro, e uma notícia amarga a servir de postal: «Os problemas que a Irlanda enfrenta atualmente vão muito além do êxodo forçado de jovens desempregados. A Irlanda, um país com perfil idêntico ao de Portugal, recorreu à ajuda externa em novembro do ano passado (sete meses depois da Grécia), em resultado da crise da dívida soberana. Os excessos da banca obrigaram a um resgate milionário de 43 mil milhões de euros para salvar o sistema financeiro. Os custos de financiamento incomportáveis resultantes das sucessivas descidas de rating colocaram o país no saco de ajuda desenhado pelo FMI e a União Europeia (UE)» (Expresso, 16 de Abril de 2011). Ainda há pouco, só ouvíamos maravilhas da economia irlandesa. Agora é isto.
...como diz lucy van pelt a charlie brown quando o incita a chutar uma bola de futebol americano que ela vai delicadamente desviar no auge do ímpeto do dito charlie brown provocando assim uma queda ainda mais dolorosa devido à humilhação que a acompanha se não confiarmos nos superiores nada feito...
Georges Perec, in A arte e o modo de abordar o seu chefe de serviço para lhe pedir um aumento, trad. Isabel Pascoal, Editorial Presença, Outubro de 2010, p. 40.
A ARTE E O MODO DE ABORDAR O SEU CHEFE DE SERVIÇO PARA LHE PEDIR UM AUMENTO
Podia ser um livro de auto-ajuda, muito útil nos tempos que correm, ou um daqueles guias de gestão light para yuppies emergentes (o adjectivo é redundante, mas isso pouco importa para o caso). Na realidade, trata-se de um exercício literário de aproximadamente 50 páginas. Georges Perec (1936-1982) escreveu-o em 1968 a partir de um labiríntico organigrama que lhe foi entregue por Jacques Perriault. Esta intrincada matriz acompanha um texto não menos difícil de interpretar, quer pelas suas características estruturais, quer pela complexidade do pensamento inerente ao exercício. Refira-se que se trata de um texto com um único sinal de pontuação, o ponto final no termo daquilo que pode ser classificado como uma longuíssima frase, monólogo ininterrupto de uma trama reflexiva sobre uma das mais vulgares aspirações humanas. A complexidade reside na multiplicação de hipóteses. Para cada acção prevêem-se várias consequências, a linearidade da narrativa é superada pela multiplicidade das combinações. O que importa, mais do que contar o que a personagem X fez ou deixou de fazer, é ponderar aquilo que poderá acontecer mediante esta ou aquela acção. Estamos no campo algo paranóico da especulação, da conjectura, da ponderação, do encadeamento de probabilidades, da relação causa/efeito em contexto não determinístico. Isto porque as variantes a considerar são infinitas, das mais previsíveis às mais imponderáveis e absurdas: «mr x engoliu uma espinha ao comer ovos de galinha alimentada com restos de peixe» (p. 34). Georges Perec, que fez parte do movimento experimental OuLiPo, admite, deste modo, um constrangimento inicial como suporte da criação literária. A aventura da linguagem surde da exploração lógica das combinações e das probabilidades, desenvolvendo-se o texto no sentido de uma espécie de espiral ou remoinho que caracteriza de um modo deveras plástico a organização kafkiana das empresas. Repare-se como começa a divagação do pobre assalariado: «Tendo ponderado bem» (p. 9). É esta ponderação que motoriza a experiência do pensamento num vaivém de considerações sobre o que pode ou não acontecer mediante esta ou aquela decisão. A personagem central, se assim podemos dizer, «anda às voltas no corredor» (p. 13) como quem se perde no pensamento. O Bartleby de Melville resolveu este mesmo problema do pensamento pela inacção, mas uma inacção com consequências. Logo, uma inacção activa. Neste caso, há como que uma inversão no sentido da realidade. É como se as acções levassem à inacção. Deste modo, a repetição exaustiva das palavras que expressam um pensamento tão simples quanto «é sempre preciso simplificar», num contexto onde nada se simplifica porque tudo se pondera, reforçam o encadeamento de probabilidades que levam à indecisão. O jogo não se mantém entre várias personagens, mas antes no âmago de uma mesma e pobre criatura. Perec limita-se, enquanto narrador, a arbitrar indiferentemente esse mesmo jogo: «o seu chefe de serviço que vê aonde quer chegar interrompe-o perguntando-lhe se se trata de uma questão T 60 das duas uma ou se trata de uma questão T 60 ou não se trata de uma questão T 60 mas não sabe o que é uma questão T 60 e infelizmente não posso ajuda-lo pois também não sei» (pp. 28-29). Logo a seguir, o truque repete-se: «mande o seu chefe de serviço ao TV1 não sabe o que é um TV1 o seu chefe de serviço também não e eu também não» (p. 37). As secções e os departamentos da organização/empresa são, deste modo, percorridos sem que neles alguém ponha os pés. Basicamente, trata-se de uma escrita ilusionista, cheia de truques, que opera segundo as velhas técnicas do ilusionismo: reproduzir os mesmos efeitos utilizando assessórios diferentes. A Arte e o Modo de Abordar o Seu Chefe de Serviço Para lhe Pedir um Aumento é um exercício divertido (Presença, Outubro de 2010), mas não nos enriquece nem nos livra da burocracia que o texto eficazmente reproduz. MANICÓMIO
Basta folhear o periódico para constatar a mais evidente das realidades: Portugal é um manicómio. Fernando Nobre oferece uma entrevista ao Expresso para dizer que encabeça uma lista do PSD sem conhecer o programa do PSD. Mais afirma que a sua única intenção, ao candidatar-se pelo principal círculo eleitoral do país, é ser eleito presidente da Assembleia da República, como se as legislativas servissem para eleger um presidente da Assembleia da República. «Se não for eleito presidente da AR renuncio de imediato», diz. Quer chegar a general sem ser recruta. Ao pé disto, a campanha do Licor Beirão com o Futre a propor soluções para Portugal - Acabar com o desemprego. Cunhas para Todos! - é de uma ingenuidade enternecedora. Fernando Nobre arrisca transformar-se no jogador chinês que o PSD de Passos Coelho tanto precisava, depois do partido se ter transformado numa máquina de distribuição de tachos para pseudo-independentes que há muito andavam a cheirá-los (de Francisco José Viegas a Carlos Abreu Amorim é um ver se te avias). Mas isto não é tudo. Medina Carreira, também no Expresso, resume com especial eficácia o sentido das manifestações populares. Vale a citação:
Cada vez que a CGTP convoca uma manifestação, eu fico satisfeito. Vêm com galinhas, sentam-se no Parque Eduardo VII, comem uma galinha, descem a avenida, ouvem o Carvalho da Silva e vão para casa. E há descompressão. A nossa sociedade precisa disso.
Portanto, do que estamos todos necessitados é de piqueniques. A CGTP que continue a promover piqueniques, é disso que o país (e os seus gestores) precisa. Enquanto houver piqueniques, podem dormir descansados todos os trafulhas que enriqueceram à conta do BPN de José Oliveira Costa (ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais num dos governos de Cavaco Silva, nunca é demais lembrá-lo). Enquanto tal, os signatários do «compromisso Portugal» promovem almoçaradas e alargam o clube, a Maria Filomena Mónica vota Partido Socialista desde 1974, a crise aumenta depressões e risco de suicídio, os furtos dão prejuízo de 1 milhão por dia (resta saber se nestas contas estão contemplados todos os tipos de furtos e todos os géneros de larápios) e o procurador José Vaz Correia entretém-se a recitar quadras ao gosto popular durante os julgamentos. Eis a cereja no topo do bolo de uma nação que já não está à deriva nem naufragou nem nada do que possam imaginar, é mesmo uma nação inimputável:
Os comboios já vão cheios
Muitos se levantam cedo
Nas mulheres aprecio os seios
Mas têm outro enredo
Vejo brancos e pretos
Nacionais e estrangeiros
Alguns vivem em guetos
Outros em lugares foleiros
São sete e pouco da manhã
Viajo de metro para o trabalho
Fi-lo ontem, farei-o [sic] amanhã
Só sou aquilo que valho
Quadras escritas pelo procurador José Vaz Correia durante uma viagem de metro e registadas em ata, por exigência do próprio, em plena sala de tribunal durante um julgamento que opunha uma empresa à beira da falência à operadora de telefones móveis Vodafone. Dá para acreditar?
Cada vez que a CGTP convoca uma manifestação, eu fico satisfeito. Vêm com galinhas, sentam-se no Parque Eduardo VII, comem uma galinha, descem a avenida, ouvem o Carvalho da Silva e vão para casa. E há descompressão. A nossa sociedade precisa disso.
Portanto, do que estamos todos necessitados é de piqueniques. A CGTP que continue a promover piqueniques, é disso que o país (e os seus gestores) precisa. Enquanto houver piqueniques, podem dormir descansados todos os trafulhas que enriqueceram à conta do BPN de José Oliveira Costa (ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais num dos governos de Cavaco Silva, nunca é demais lembrá-lo). Enquanto tal, os signatários do «compromisso Portugal» promovem almoçaradas e alargam o clube, a Maria Filomena Mónica vota Partido Socialista desde 1974, a crise aumenta depressões e risco de suicídio, os furtos dão prejuízo de 1 milhão por dia (resta saber se nestas contas estão contemplados todos os tipos de furtos e todos os géneros de larápios) e o procurador José Vaz Correia entretém-se a recitar quadras ao gosto popular durante os julgamentos. Eis a cereja no topo do bolo de uma nação que já não está à deriva nem naufragou nem nada do que possam imaginar, é mesmo uma nação inimputável:
Os comboios já vão cheios
Muitos se levantam cedo
Nas mulheres aprecio os seios
Mas têm outro enredo
Vejo brancos e pretos
Nacionais e estrangeiros
Alguns vivem em guetos
Outros em lugares foleiros
São sete e pouco da manhã
Viajo de metro para o trabalho
Fi-lo ontem, farei-o [sic] amanhã
Só sou aquilo que valho
Quadras escritas pelo procurador José Vaz Correia durante uma viagem de metro e registadas em ata, por exigência do próprio, em plena sala de tribunal durante um julgamento que opunha uma empresa à beira da falência à operadora de telefones móveis Vodafone. Dá para acreditar?
Quinta-feira, 14 de Abril de 2011
Quarta-feira, 13 de Abril de 2011
VOLTA AO MUNDO EM POESIA: CANADÁ
Quando era miúdo sentia um enorme fascínio pelo Canadá. Primeiro, porque os emigrantes portugueses que por lá andavam pareciam ter uma boa vida. Não sei se assim é de facto, mas será uma hipótese a considerar. Depois porque os meus pais eram pobres e em dias de festa a minha mãe adoçava-nos a boca com Canada Dry. Aquilo sabia-me que nem ginjas (ainda me lembro de quando beber um refrigerante era considerado uma extravagância). Havia também os esquimós, por quem fui alimentando ao longo dos anos a admiração que tenho por todos os indígenas. A capa de A Beleza das Armas (Antígona, 1994) reproduz uma fotografia de um sioux tirada por Edward Sheriff Curtis. Foi isso que primeiramente me chamou a atenção para o livro de Robert Bringhurst, poeta canadiano traduzido para português por Júlio Henriques. Na verdade, Bringhurst nasceu em Los Angeles no dia 16 de Outubro de 1946, no sítio onde fora o território dos índios Kumivit. Emigrou com os pais para o Canadá quando tinha apenas 6 anos, e só isso o torna um poeta canadiano. «A pátria é onde as pedras não deixaram de respirar e onde a luz permanece viva». Passou a infância essencialmente em Alberta, ainda que a itinerância tenha sido parte integrante da sua vida desde muito cedo. Estudos de arquitectura, filosofia, linguística, física e uma especialização em escrita criativa. A completar a orquestra há que salientar um reconhecidíssimo trabalho no domínio das artes tipográficas. Robert Bringhurst tem vários livros de poesia publicados, viveu em muitas partes do mundo e a sua poesia reflecte um interesse profundo pelas chamadas línguas mortas. Neste campo, é de referir as pesquisas junto da comunidade Haida, nem sempre bem recebidas pelos próprios elementos da tribo. Vive na Colômbia Britânica. «O único acto político que para mim, em criança, teve sentido, foi o de recusar cantar o hino nacional de qualquer pessoa ou murmurar devoções ante a bandeira nacional de quem quer que fosse». Fica um poema: MORTE PELA ÁGUA
Não era o rosto dele, nem um outro
qualquer, que Narciso viu
na água. Era a ausência ali
de rostos. Era a profundidade clara
da lagoa azul aonde continuava
a regressar e que continuou a voltar p’ra junto dele,
enquanto dela se ia aproximando, navegando nela,
Outubro após Outubro
e todas as tardes,
afastando-se do Estio contido pela terra,
para fora dos braços da sua própria voz,
caminhando para fora das palavras suas.
Era o seu olho, poderás dizer,
que ele viu, ou
a ressonância da coloração do olho.
Melhor ainda: diz que era aquilo
que ele procurava ouvir – o débil
sussurro de luz por sobre a água, e não
o clamor por entre as pedras.
Li Po também. Tal como nós – mas,
pelo amor de escutar
as nossas vozes, e pelo temor de ouvir
a nossa fala nas vozes doutros regressados
da terra, nós falamos enquanto ouvimos e olhamos
através dos azuis e longos lagos de ar que chegam até nós, e dizemos
que eles não emitem qualquer som, que
são sem rosto, que têm olhos mútuos.
FOTOGALERIA
Sugiro esta fotogaleria com alguns dos rostos mais bem pagos da actual crise. Mais um bocadinho, apanhavam o Dias Loureiro (que, se bem me lembro, era grande amigo do número 11).
CASO NOBRE
O caso Fernando Nobre, tipicamente português em todas as leituras possíveis, recorda-me um indivíduo de uma aldeia perto da minha terra. Era aquele tipo de pessoa a quem todos chamavam um bom homem. Disponível, prestável, compassivo e todos os demais epítetos que possam abonar em seu favor. Um dia foi apanhado a cagar em plena praça pública. De um momento para o outro, toda a gente se esqueceu do quão bom era aquele homem, do bem que tinha feito, do quanto tinha servido a comunidade e o quanto havia ajudado as pessoas que dele se socorriam recorrentemente. O trabalho deste homem era simplesmente varrer as ruas. Foi apanhado a cagar nas ruas que ele próprio varria. As pessoas começaram a desprezá-lo. Que ninguém se atreva a censurá-las.
Terça-feira, 12 de Abril de 2011
O CINEASTA INDIGNADO
Adorei o desvario do João Botelho num programa do canal Q. Adorei por duas razões: primeiro, porque o Botelho tentou ser sério num canal de humor; depois, porque os humoristas de serviço perderam toda a graça perante o desvario do cineasta. Não há nada mais eloquente do que arrancar o texto ao contexto. P.S.: a ditadura do humor que se instalou há tempos na pseudocultura portuguesa, cujo corolário mais evidente é a transformação dos Homens da Luta em porta-estandartes do protesto, enjoa e enfada. Ainda assim, o canal Q é um canal de piadas. Quando tenta ser sério é natural que tire as pessoas do sério.
Segunda-feira, 11 de Abril de 2011
BARMAN
Odeio miúdas vestidas de preto, sobretudo aquelas com olhos de carneiro mal morto que me aparecem frequentemente no bar a olhar para o infinito. Metem tanto lápis nos olhos, parece que querem escrever nos olhos o que os olhos não podem dizer. Porque aquele olhar é só vazio, um vácuo que nada diz, nada tem para partilhar, uma simulação de fatalidade inócua e pueril. Podiam ter saído de um daqueles filmes patéticos que adaptam os romances parolos da Stephenie Meyer. Vampiras copinho de leite, é o que é. No outro dia pus-me a falar com uma dessas miúdas ao balcão. Enquanto ia servindo os clientes, fazia pequenas pausas para tentar manter a conversa. Disse-me que gostava de Nietzsche e da Simone de Beauvoir, mas a forma como pronunciou os nomes foi tão desastrada que parecia estar a falar de programas informáticos. Andava fascinadíssima com o Facebook, aquela rede social onde os otários se sentem incrivelmente populares e as pessoas incrivelmente populares viram otárias. Quando cheguei a casa, farto de servir copos a imbecis convencidos de que os seus problemas são o fim do mundo sem fazerem a mínima ideia de que o Fim do Mundo fica no Estoril, fui espreitar-lhe o perfil no Facebook. Primeiro percorri as fotografias. Eram todas elas uma espécie de auto-retratos onde se procurava dissimular a vulgaridade com um olhar desmaiado, típico das manequins cadavéricas que há tempos pousavam para anúncios a roupa interior e perfumes incomportáveis. Nunca percebi esta mania de as pessoas se querem parecer com os mortos ou de alguma forma pretenderem assemelhar-se a zombies. É uma pretensão ingénua, pois ninguém precisa de pousar para parecer aquilo que já é com a maior das naturalidades. Depois comecei a perscrutar-lhe o perfil: gosta muito de artes, de música, de Dali e M. C. Escher (até aposto que pensa tratar-se de um rapper norte-americano), tem como citação preferida uma patacoada atribuída a Nietzsche mas que, na realidade, foi proferida por Schopenhauer, o filme da vida (qual vida?) é do Godard (só podia) e a canção preferida é do Nick Cave, interessa-se por pessoas. Presunção desarmada. Ninguém que aprecie verdadeiramente Nietzsche e Godard pode apreciar pessoas. Não conheço obras mais radicalmente anti-humanas do que as do filósofo alemão e do cineasta franco-suíço. É preciso lê-los para o entender. Eu odeio mesmo miúdas vestidas de preto que se fotografam a si próprias com um ar decadentista, fatal, que, ao mínimo safanão, desmorona-se como uma construção de areia. Do que eu gosto é de sombras, de mulheres frescas e invisíveis, desnudadas como a raiz do vento, caídas dos ramos das árvores em plena Primavera. Queria encontrar uma mulher dessas ao balcão das minhas agonias, queria poder dizer-lhe sem que ela ouvisse: amo-te tanto, amo-te como se fôssemos um nada que a nada se converte, uma luz apagada na escuridão, um ruído imóvel, o silêncio das mesas quando o bar fica vazio. Mas aqui estou, mais uma vez, rodeado de meninas vestidas de negro, de lábios rubros e angústias rabiscadas nas pálpebras. Sirvo-lhes Bacardi Lemon com sumo de limão, a mais redundante de todas as bebidas, e ouço-as rir envergonhadamente de tudo e mais alguma coisa. Não me assusta a futilidade com que fingem travar o fumo, mas preferia não estar aqui, agora, a assistir ao triste espectáculo da misantropia.
INSOLVENTE
Vocês sabem do que eu estou a falar. Se quiserem perceber um pouco melhor o NEGÓCIO dos livros, leiam este post do JAA e este outro da Catarina. Uma nota: independentemente do maior ou menor reconhecimento por parte de quem me emprega, devo dizer que gosto muito do que faço.
Domingo, 10 de Abril de 2011
O REI FAZ VÉNIA E MATA
Nove textos, escritos à entrada do século XXI, compõem a colectânea O Rei Faz Vénia e Mata (Texto, Janeiro de 2011). São conferências e discursos proferidos por Herta Müller (n. 1953) antes da consagração instalada com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 2009. Duas dimensões da vida caminham lado a lado ao longo das margens destes ensaios, a dimensão existencial e a dimensão literária. A autora sobrevaloriza a primeira em detrimento da segunda, referindo-se por diversas vezes ao poder da experiência vivida enquanto magma fundador da palavra escrita. Nota-se mesmo um certo desprezo quando o tema recai sobre a possibilidade de exprimir sem haver vivido, o que não deixa de ser surpreendente numa autora onde a relação entre a palavra e a realidade aparece quase sempre sob uma névoa feérica e metafórica. Importa entender esta relação na prosa de Herta Müller. Mais que uma relação meramente representativa, trata-se de uma relação transfiguradora: «As palavras são feitas à medida para falar, se calhar até são recortadas ao milímetro. (…) Não têm capacidade para representar aquilo que se passa na cabeça» (p. 20). A realidade não se deixa capt(ur)ar pela palavra, os objectos têm vida própria, uma identidade que, no fundo, acaba por fundar a nossa razão de ser. Porque a nossa razão de ser está na complexidade do pensamento, onde uma rede de associações dificilmente descritíveis ampara a lógica e a memória sob os trapézios voadores da imaginação. Quando muito, pode haver empatia entre o objecto e a palavra que o nomeia. Mas o contexto acaba sempre por determinar o significado, e o significado impõe o sentido. Daí a importância dos objectos enquanto vestígios reais de uma paisagem que o tempo tende a rasurar. O objecto, agora no sentido material do termo, é como que um resquício perdurável que nos evoca o passado e dá forma ao presente. Assim, aos pormenores biográficos que acompanham a escrita deve juntar-se a vida dos objectos enquanto reflexos da nossa própria vida. No caso, uma vida marcada pelos traumas da ditadura de Ceauşescu: «toda a panóplia de ameaças, buscas domiciliárias, interrogatórios, psiquiatria compulsiva, execuções durante a fuga, prisão, tortura, assassinato» (p. 172), o isolamento e o exílio, a asfixia, uma espécie de deslocamento apátrida, medo, muito medo e solidão, como chagas de um «bicho-coração» fundador do «olhar estranho». Tudo isto no interior de uma paisagem contornada pela dicotomia campo/cidade: «Quando fui para a cidade, espantou-me o quanto os citadinos tinham de falar para se sentirem a si próprios, para serem amigos ou inimigos uns dos outros, para darem ou receberem alguma coisa. E acima de tudo o quanto se queixavam quando falavam de si próprios. Na maioria das conversas havia um emparelhamento constante de arrogância com autocomiseração, de uma afectação narcisista com o corpo todo. Andavam sempre de um lado para o outro com aquele Eu sobrecarregado na boca» (p. 72). O Eu de Herta Müller não será o mesmo da sua escrita, mas haverá entre ambos uma empatia que a capacidade de reinventar proporcionada pela literatura logra como nenhuma outra arte. Porque a literatura é, por excelência, a arte da linguagem. E nada nos reinventa mais e melhor do que a linguagem. ILHAS
Ao cuidado do Rui Cóias Há no Ocidente um inquérito muito apreciado, que se repete de dois em dois anos e em que se pergunta aos escritores quais os livros de outros autores que são mais importantes para eles. A pergunta deste inquérito é: «Que livros levaria se tivesse de ir sozinho para uma ilha deserta?» Para mim, a pergunta é assustadoramente ingénua. Se TIVESSE de ir, não teria escolha, não podia levar nenhum livro de que gostasse porque cada um deles seria proibido à partida. Sim, se calhar até TERIA de ir para a ilha por gostar daqueles livros e por não ter guardado para mim o seu conteúdo. Teria de ir para a ilha por causa desses livros, como castigo. Porém, se eu não TIVESSE de ir para a ilha, mas se fosse porque QUERIA, podia deixá-la a qualquer momento, entrar e sair como me apetecesse e levar sempre livros diferentes. Ou então ficar na ilha e mandar vir os livros. Quando os intelectuais ocidentais falam de «ilha», sentem o perfume da liberdade exemplar. Uma ilha em que as normas da lei e do dever são abolidas. Se podemos ler um bom livro ainda por cima, atingimos o ponto máximo da afirmação pessoal. E, é claro, não se leva apenas os bons livros, como, além disso, boas roupas, bons cosméticos, boa comida, uma boa saúde, mas também, profilaticamente, bons medicamentos.
Por que razão é que os fazedores de revistas ocidentais, cujas vidas nunca foram atravessadas pela repressão, precisam do formigueiro inconscientemente subversivo para tornar um inquérito mais atractivo? Sabem perfeitamente, é claro, que houve ilhas para vítimas da peste e leprosos, houve, e ainda há, ilhas que são prisões. Nelson Mandela também esteve preso numa ilha, o chefe do PKK Öcalan é o único residente de uma ilha-prisão. Os poderosos sempre se serviram da água como algo fácil de vigiar, como cintura ideal para o isolamento. No entanto, para os intelectuais ocidentais, o «ter-de-ir-para-a-ilha» está recheado de liberdades pessoais. Não se irritam coma palavra ILHA nem com TER DE IR. Pedem uma decisão livre com uma pergunta que pressupõe a falta de liberdade. Têm a cabeça cheia de livros. Nenhum deles lhes fez compreender um pormenor sequer da falta de liberdade.
Herta Müller, de A ilha fica dentro – a fronteira fica fora, in O Rei Faz Vénia e Mata, trad. Helena Topa, Texto Editores, Janeiro de 2011, pp. 156-157.
Por que razão é que os fazedores de revistas ocidentais, cujas vidas nunca foram atravessadas pela repressão, precisam do formigueiro inconscientemente subversivo para tornar um inquérito mais atractivo? Sabem perfeitamente, é claro, que houve ilhas para vítimas da peste e leprosos, houve, e ainda há, ilhas que são prisões. Nelson Mandela também esteve preso numa ilha, o chefe do PKK Öcalan é o único residente de uma ilha-prisão. Os poderosos sempre se serviram da água como algo fácil de vigiar, como cintura ideal para o isolamento. No entanto, para os intelectuais ocidentais, o «ter-de-ir-para-a-ilha» está recheado de liberdades pessoais. Não se irritam coma palavra ILHA nem com TER DE IR. Pedem uma decisão livre com uma pergunta que pressupõe a falta de liberdade. Têm a cabeça cheia de livros. Nenhum deles lhes fez compreender um pormenor sequer da falta de liberdade.
Herta Müller, de A ilha fica dentro – a fronteira fica fora, in O Rei Faz Vénia e Mata, trad. Helena Topa, Texto Editores, Janeiro de 2011, pp. 156-157.
THE SOCIAL NETWORK
Apesar do ingrediente romântico, que parece ter estado na origem do Facebook, o que mais sobressai no filme de David Fincher é o maquiavelismo patológico que rege as relações humanas entre as diversas personagens do filme. À excepção de Erica Albright, musa inspiradora do génio maligno e sua primeira vítima, em quem ainda detectamos um certo humanismo orgânico, todos os intervenientes parecem saídos de um manicómio, provavelmente Harvard, onde o fervilhar incontinente das ideias tem na sua base a intenção muito norte-americana da popularidade. Esta necessidade doentia de popularidade, que, no fundo, é o motor da própria rede social criada por Mark Zuckerberg, impele os intervenientes para a mais vetusta armadilha da avidez: a solidão. No fundo, encontramos muitos pontos de contacto entre a personagem central do filme de Fincher e o Citizen Kane de Orson Welles. Os impérios gerados por ambos alimentam-se das mesmíssimas paixões, agora pronunciáveis em formato digital e manipuláveis a uma escala internacional. A solidão de Mark Zuckerberg, enxotado para o lado por amigos traídos e, acima de tudo, pela musa publicamente (ou interneticamente) enxovalhada, é o paradigma mais resistente da megalomania dos génios. No entanto, há um pormenor no filme de Fincher que actualiza a nostalgia latente em Rosebud. Esse pormenor é a velocidade das falas, a ânsia que a palavra sente quando pretende acompanhar o pensamento, uma vertigem que não prescinde da nota final: Mark Zuckerberg é o mais novo bilionário do mundo. Esta meteórica ascensão é típica de um mundo em que todos nós desaprendemos de viver devagar, para aprendermos a sobreviver à velocidade da luz (aqui, a palavra luz pode ser entendida sob vários sentidos). Encriptados no frenesi de uma estrutura social cuja dinâmica está organizada em função da rentabilidade do tempo e da voragem do sucesso, tendemos a esquecer-nos do milagre que a vida contém: «bebe devagar, concentra-te no prazer de beberes, sê o teu corpo que bebe. A vida está tão cheia de milagre. Mas convulsos rápidos distraídos, tanta coisa que se perde» (Vergílio Ferreira).Sábado, 9 de Abril de 2011
SIDNEY LUMET (1924-2011)
Este filme prenunciou-me o futuro como uma espécie de oráculo do qual nunca mais me libertei. Morreu o mensageiro, ficou a mensagem.
BRIGADA DO REUMÁTICO
Camarada Van Zeller, está em marcha uma conspiração contra o nosso querido país. É preciso resgatá-lo. As pessoas andam aflitas, temem a miséria, a pobreza, o desespero e o Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia. Veja bem que uma amiga desempregada já nem tem dinheiro para pagar o Imposto Automóvel. Se ela está desempregada, como pode pagar o Imposto Automóvel? Não basta ter que pagar balúrdios de gasóleo? De resto, os transportes públicos estão pela hora da morte. E ainda por cima cheiram mal, são desconfortáveis. Dois amigos professores queixam-se dos cortes nos salários. Passo os dias a ouvir pessoas queixarem-se dos cortes salariais. Coitadas das pessoas. Ganhavam 2500 e agora só ganham 2200. Já viram a miséria que é? Uma aflição. Nota-se a tristeza com que vão às compras, o desespero com que olham para o salmão fumado, para a sobremesa de baunilha. 47 alvas e impolutas personalidades resolveram assinar um documento com propostas contra este estado deprimente de coisas. Receiam que os filhos tenham que passar a deslocar-se para o Liceu (Pedro Nunes) ao volante de um humilde Golf GTI. Propõem um clima de tranquilidade, que continuemos a ser governados exactamente pelos mesmos snobes que nos trouxeram até onde estamos; propõem um compromisso entre as instituições, ou seja, um compromisso com o sistema que há anos vem alimentando saltimbancos de fato e gravata. A brigada do reumático uniu-se para nos salvar, para resgatar Portugal das artroses. Uma elite tão miserável quanto a miséria em que estamos. Olhe, convidaram-me para palestrar sobre o poder curativo da espiritualidade. Convite inusitado que, perante a surrealidade do momento, me sinto tentado a aceitar.
BIG ODE #8
Colaboram no mais recente número da revista Big Ode, o oitavo, Renaat Ramon, Ana Marques da Silva, Francisco Carrola, A. Dasilva O., Clemente Padín, Henrique Manuel Bento Fialho, Hugo Pontes, Claudino Rebelo, Fernando Machado Silva, Klaus Peter Dencker, Sérgio Monteiro de Almeida, Angelo Mazzuchelli, Fernando Aguiar, Hilda Paz, Arturo Accio, Miguel Jimenez, José Carreiro, António Barros, Artur Aleixo, João Pereira de Matos, Manuel Domingos, Rui Tinoco, Raquel Coelho, Virgílio Vieira Tebas, Paulo Pego, Mário Calado Pedro, Sílvia Silva, Constança Lucas, Mário Lisboa Duarte. Editada por Rodrigo Miragaia, design partilhado com Sara Rocio, a revista Big Ode é um investimento impagável onde a poesia conflui nas suas mais diversificadas formas. Da lírica ao poema visual, do poema em prosa ao poema experimental, da poesia conceitual à poesia sonora, passando pela mail art e outras formas de expressão mais ou menos populares, o equilíbrio na abrangência é garantido pelo rigor artístico. A propósito do futuro, Klaus Peter Dencker afirma em entrevista: «The borders between literature, music, art a. s. o. Will never exist and the public should be more integrated in the art works.» O futuro é o caminho. Deixo o primeiro de quarto poemas com que assinei a minha colaboração: A DECADÊNCIA DA PAIXÃO #1
Todos os beijos morreram na tua boca.
Ajoelho-me e rezo, mesmo não sabendo
com que palavras honrar essa morte.
Um ramo de flores secas lembra ter havido
algures um odor a ligar as nossas mãos.
Não há memória desse toque, apenas um simulacro.
Todos os beijos morreram na tua boca.
E não tão longe daqui como longe
uns dos outros estamos nós, ó deus,
perecem sob pedregulhos os guerreiros.
No sangue que vertem,
o caule da nossa inglória melancolia.
Não sei se é pena, se desespero.
Por certo um ramo de flores secas
não chega para exultar o dia.
Revista Big Ode – Poesia e Imagem, n.º 8, Março de 2011.
BOWLING FOR RIO DE JANEIRO
Essa noite sonhei coisas esquisitas, violentas, que não consegui entender. Há um trauma coletivo que se instaurou a partir do episódio, e por isso a obsessão de escrever, falar.
Mariana, aqui.
Sexta-feira, 8 de Abril de 2011
Quinta-feira, 7 de Abril de 2011
O FILHO DA STEPHENIE MEYER
− Tem livros do filho da Stephenie Meyer?
− Quem é o filho da Stephenie Meyer?
− Aquele que escreveu o Equador.
− Quem é o filho da Stephenie Meyer?
− Aquele que escreveu o Equador.
AS TOUPEIRAS
Terça-feira, 5 de Abril de 2011
LIXO
Ouvi dizer que temos bancos que são considerados lixo. Custa-me ouvir este tipo de coisas vindas de agências obscuras com interesses ininteligíveis. Mesmo quando o tema é lixo.
SOU AUTOR
Há tempos convidaram-me a participar num festival literário. Estranhei o convite, mas senti-me grato e, como sempre, inseguro. Pensei no que pretenderiam de mim. Nunca fui a festivais literários. Quereriam que moderasse uma mesa, como aconteceu na Feira do Livro do Porto? Que apresentasse um autor, como já tem acontecido? Que fosse apenas para relatar os acontecimentos? Eu nem sequer conhecia aquele festival, como não conheço nenhum. Não sabia as datas, o local, os porquês, nada. O convite foi-se arrastando no tempo, e eu sem resposta. Afazeres vários, imensos, remeteram-me para o silêncio. Até que, perante a insistência, resolvi perguntar porquê. Após uma breve troca de equívocos fiquei a perceber a razão do convite. Convidaram-me como autor. Eu sou autor. Ainda por cima convidável. Vi o programa e fiquei entusiasmado. Gente conhecida, alguns famosos, outros que admiro muito, e aqueles com quem não simpatizo nem à distância. Entre eles, o meu nome. Incompleto, mas lá estava: Henrique Fialho, mesa tal, com fulano e sicrano, dia tantos. E aqui a porca torceu o rabo. No dia tantos estarei longe, graças a Deus. Vou de visita a terras de Joyce, Beckett e Oscar Wilde. A modos que a minha estreia em festivais literários terá de ficar adiada. Pelas melhores razões, como é óbvio, e com o crédito dessa magnífica novidade: sou autor.
DOS MEUS OS OUTROS
Hoje emocionei-me quando vi a capa do novo romance do Fernando Esteves Pinto. É uma novidade da Babel. Há-de chegar entretanto. Senti o mesmo quando vi o livro novo da Sílvia Alves. Amanhã estaremos juntos no Colégio Rainha Dona Leonor, para uma apresentação da obra a quem de direito. Sinto pelos livros dos amigos algo que não consigo sentir pelos meus. Quando fui buscar o meu último livro à gráfica havia uma frieza e uma distância entre mim e o livro que não passava de um mero gesto de compra e venda. Com os livros dos amigos emocionou-me, com os meus enfado-me.
Domingo, 3 de Abril de 2011
THE HORSE WHISPERER
Voltei a apanhar The Horse Whisperer no canal Hollywood e, mais uma vez, deixei-me ficar até ao fim. O mesmo nó na garganta e a mesma comoção que só os maus filmes conseguem provocar. Aquela paisagem rural norte-americana pode ser um mito, mas é um mito muito bonito. Ao alto, num penhasco com vista para o infinito, ainda se vêem as sombras dos índios. E, com sorte, podem escutar-se as suas lamentações. Ficar ou partir? Largar tudo ou permanecer? Mudar ou ir andando? São estes os grandes dilemas da vida, pairam sobre nós como a sombra da águia voando em contracampo. O cavalo ferido − e sempre que digo cavalo lembro-me, vá lá saber-se porquê, de António Ramos Rosa − somos nós, o encantamento surge da disponibilidade e da entrega, da paz e do sossego que acalma o tremor e oferece às pernas o seu merecido descanso. Alguém lhe chama dom, julgo que é a personagem interpretada por Dianne Wiest, quando junto ao rio vai directo ao assunto e explica a Annie MacLean (Kristin Scott Thomas), olhos nos olhos, que Tom Booker (Robert Redford) tem um dom sobrenatural, embora não deixe de ser um homem. Eu acho que sei qual é esse dom, é algo apenas possível em quem descobriu o seu lugar, a sua casa, e pode aí viver numa tumultuosa paz com os seus íntimos fantasmas. Daí que Tom Booker só tenha medo de envelhecer e de começar a sentir-se unuseful. Não teme a solidão porque está em paz consigo próprio. No fundo, isso é o mais importante.
O CORONEL CHABERT
BOM DIA
Uma grande tentação se oferece ao homem, a de exercer a sua capacidade mais superlativa e radical: criar. Eis porque não se trata de ver o poema. Paul Éluad dizia justamente que o poema consiste em dar a ver, em mostrar o mundo, em mostrar o que a quotidianidade nos dissimula e nos esconde a inanidade da vida. Dar a ver a realidade substancial do homem, o que a nossa precariedade, a nossa incapacidade, os constrangimentos da existência, nos furtam e o que nos escapa por sermos inaptos para responder directamente à exigência absoluta. Direi mais: não basta dar a ver. Trata-se de dar a criar, de um incitamento a se re-criar.
António Cabrita, aqui.
Sábado, 2 de Abril de 2011
POEMA AO MEU PAPEL
lendo poemas próprios
penas impressas quotidianas transcendências
sorriso orgulhoso perdoado equívoco
é meu é meu é meu!!
lendo letra cursiva
alegre latir interior
sentir que a felicidade se coagula
ou bem ou mal ou bem
estranheza de inatos sentires
cálice harmonioso e autónomo
limite no dedo gordo do pé cansado e
cabelo lavado em encrespada cabeça
não importa:
é meu é meu é meu!!
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
penas impressas quotidianas transcendências
sorriso orgulhoso perdoado equívoco
é meu é meu é meu!!
lendo letra cursiva
alegre latir interior
sentir que a felicidade se coagula
ou bem ou mal ou bem
estranheza de inatos sentires
cálice harmonioso e autónomo
limite no dedo gordo do pé cansado e
cabelo lavado em encrespada cabeça
não importa:
é meu é meu é meu!!
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
O GOOGLE SABE TUDO
Baltazar ligou o computador, abriu a página do Google e pesquisou: “técnicas para assassinar gatos persas”. O Google sabe tudo, há-de saber qual a melhor forma de assasinar gatos persa. Entre 73.200 resultados, a pesquisa revelou-se proveitosa. Baltazar descobriu dezassete técnicas para matar gatos persa, concentrando-se nas que lhe pareceram menos inviáveis. Enumerou-as e foi excluindo, uma a uma, as que, pela dificuldade de execução, se lhe afiguravam impossíveis de concretizar: 1. enfardamento com massinhas de letras; 2. afogamento em óleo de amêndoas doces; 3. gazeamento de tipo suíno, bovino ou à base de excrementos de aves de capoeira; 4. enforcamento com fio dentário da marca Odontine; 5. estrangulamento de tipo mento (Baltazar tinha dúvidas quanto à eficácia do processo); 6. overdose de música concreta alemã; 7. empalamento em palitos de dente, espeto para churrasco, palitos para picolé, pazinhas para sorvete, entre outros; 8. tortura de sono por meio de infestação com pulgas assassinas; 9. exposição cumulativa e excessiva a palestras sobre espiritualidades, angeologia, alquimia, astrologia, mitologia nórdica, numerologia, feng shui, cabalística, esoterismo, maçonaria e afins; 10. electrocussões repetidas em caixinhas pavlovianas; 11. injecção intravenosa de conceitos de direito fiscal; 12. tortura psicológica à base do preenchimento de declarações, solicitações, minutas, inquéritos em instituições estatais assim como por sujeição às listas de espera em centros de saúde, consultórios médicos, repartições de finanças, tribunais, conservatórias, serviços de estrangeiros e fronteiras, etc.; 13. apedrejamento, queima, decapitação e crucificação (caso os persas revelassem inclinações judaico-crstãs); 14. leitura, tal como escrita, de novelas surrealistas do avesso; 15. a menos que se desejasse uma morte lenta, uma valente dose de mau-olhado segundo as técnicas antigas do Gigante e Verdadeiro Capa de Aço, mestre São Cipriano; 16. visionamento de programas televisivos apresentados por figuras histéricas e estridentes, telejornais com alinhamento urbano-depressivo, desenhos animados do tempo em que ainda havia a Checoslováquia, concursos de cultura geral com apresentadores burros que nem portas, programação religiosa ao fim da tarde e nas manhãs de domingo, televendas e debates (o que vai dar ao mesmo), entre congéneres que seria exaustivo enumerar. Restava uma opção. A última. Aquela que, segunda Baltazar, permitir-lhe-ia vingar com inteligência, prumo, e eficiência devidas o assassinato de seu querido, estimado e saudoso pombo Benjamim: execução por convivência com pseudo-intelectuais (com intelectuais também dava, embora se dispensasse a tortura prolongada). E na sequência desta suprema descoberta, Baltazar lembrou-se de convidar Bianca para um programa zen.
Sexta-feira, 1 de Abril de 2011
EU SOU…
minhas asas?
duas pétalas apodrecidas
minha razão?
cálices de vinho azedo
minha vida?
vazio bem pensado
meu corpo?
um gume na cadeira
meu vaivém?
um gongo de brincar
meu rosto?
um zero dissimulado
meus olhos?
ah! pedaços de infinito
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
duas pétalas apodrecidas
minha razão?
cálices de vinho azedo
minha vida?
vazio bem pensado
meu corpo?
um gume na cadeira
meu vaivém?
um gongo de brincar
meu rosto?
um zero dissimulado
meus olhos?
ah! pedaços de infinito
Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)
Versão de HMBF
100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #14
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