Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

IMBECIL

Um dia, ainda no tempo do escudo, vi uns sapatos numa montra que me saltaram à vista [que pena não te terem partido as trombas], entrei na sapataria, experimentei-os, gostei e mandei embrulhar. Quando a empregada disse o preço – 80 contos – eu ia desmaiando [um ataque cardíaco era mais apropriado]. Mas já não tive coragem para voltar atrás. Pois bem: as principais características do calçado são o conforto, a segurança e a durabilidade [temos sapateiro]. Ora esses sapatos – ingleses, marca Church’s – não eram confortáveis, não eram seguros nem se mostraram duráveis, pois resistiram bastante menos do que outros muito mais baratos [mas destes não citas a marca, ó grunho]. E digo que não eram seguros pois escorregavam perigosamente em superfícies muito lisas, como as calçadas de Lisboa, em que as pedras estão polidas pelo desgaste [muda-te tipo para a Somália, lá já não escorregas]. Por pouco esses luxuosos sapatos não me causaram quedas aparatosas [que pena].

Ler todo o rol de imbecilidades ali. Via Maria João. Mais um naco do bom jornalismo nacional.

A MINHA VIDA DEU UM FILME

Terça-feira, 28 de Junho de 2011

A ARTE DE CAMINHAR

O pensamento de Henry David Thoreau (1817-1862) tem inspirado sucessivas gerações de amantes da natureza. Livros como Walden ou A Desobediência Civil (versões portuguesas na Antígona) justificam o acolhimento. Thoreau ficou conhecido pelas suas inclinações transcendentalistas, na linha de um Ralph Waldo Emerson (1803-1882) e, como tal, pelo interesse das possibilidades de uma vida em perfeita comunhão com o meio ambiente. Em 1845 construiu uma cabana junto ao lago Walden, aí permanecendo durante praticamente dois anos. Foi preso por se recusar a pagar impostos, viajou na direcção das comunidades indígenas, empreendeu várias jornadas que lhe permitiram arquitectar uma filosofia de índole nómada e ambientalista. Desobediência Civil surgiu em 1848, sob forma de palestra, e em 1854 publicou Walden, relato pormenorizado da sua vida na floresta. Trata-se, obviamente, de uma postura fortemente ligada ao taoismo, embora liberta de constrangimentos religiosos que, nos textos de Thoreau, são totalmente absorvidos pela inquietação do homem dividido entre a civilização e o apelo da floresta. A Arte de Caminhar, o texto que a Padrões Culturais agora publica em versão portuguesa sofrível e com uma capa que não lembraria ao diabo, data de 1851. Conferência proferida em Concord, apenas seria publicada em 1862. O texto reflecte de uma forma muito concisa grande parte daquilo a que já chamámos o pensamento de Henry David Thoreau. O elogio da errância, física e mental, tem na sua origem um combate feroz ao sedentarismo da civilização ocidental. É-nos hoje fácil entender as consequências terríveis desse sedentarismo, quer nas suas implicações directas na vida dos homens, quer nas suas implicações menos imediatas no meio ambiente. O engodo da propriedade privada prendeu o homem à terra, levando-o a acreditar num poder que, em última análise, apenas o transformou em escravo da preservação de um bem que o fixa, limita e o consome até pouco mais restar para viver do que esse pedaço de tempo livre que vamos logrando reivindicar junto da comunidade onde estamos inseridos. Não é difícil estabelecer pontes entre esta premissa e o elogio do ócio (que é, sobretudo, um combate feroz ao trabalho escravo) ou a crítica da família enquanto núcleo castrador e cristalizante da liberdade individual. Daí que Thoreau inicie o seu texto, precisamente, por esse alicerce mais que sensível do sedentarismo Ocidental: «Se estiveres preparado para deixar o teu pai e mãe, irmão e irmã, mulher, filhos e amigos, e nunca mais os ver − se tiveres pago as tuas dívidas, feito o teu testamento, deixado em ordem as tuas coisas e depois disso sentires-te [sic] como um homem livre, então acredito que estarás pronto para uma verdadeira caminhada» (pp. 17-18). Está visto que esta caminhada não é apenas física, mas também espiritual, é a caminhada da «estrada larga» de Whitman na direcção de uma cumplicidade inabalável com a vida selvagem. A prática começa, muito à maneira hindu, por excluir da mente os compromissos que a prendem à vida doméstica. Nesse domínio, é natural que as pessoas à nossa volta se cansem de nós, é perfeitamente compreensível que deixem de ter paciência para as nossas lamentações. O que não é tão compreensível é a sua complacência para com a nossa incapacidade de agir. Aproxima-se da tortura, a passividade com que nos suportam. Importa partir, pagar as dívidas (não as dúvidas) e caminhar na direcção certa, a direcção do oeste, «um outro nome para a vastidão da Terra Selvagem» (p. 49). O culto do selvagem não pode ser reduzido à simplicidade de uma nostalgia por um tempo eventualmente nunca vivido, ou por um louvor hipócrita e indigno disso a que hoje alguns tendem a apelidar de frugalidade. Este selvagem não exige sacrifício, mas sim inteligência; não pede qualquer tipo de conversão, acolhe-nos na pureza do essencial; não é uma terra mítica, é a ruína sobre a qual o Ocidente se ergueu. Há nesta Terra Selvagem uma estética que as mais selvagens das obras lograram representar: «Na literatura o que nos atrai é o que é selvagem. o tédio é apenas um sinónimo de domado. É a liberdade incivilizada e o pensamento selvagem em Hamlet e na Ilíada que nos arrebatam como em todas as escrituras e mitologias, que a escola não ensina» (p. 60). Quem pode evitar reconhecer nestas palavras a verdadeira separação entre o vigor das letras americanas e o tédio que fez/faz escola na Europa? Há também, a par de uma filosofia prática, uma estética implícita nesta arte de caminhar: «Não conheço nenhum poeta que consiga exprimir adequadamente este desassossego do impulso selvagem. Abordada sob esta perspectiva, a melhor poesia é insípida e branda» (pp. 62-63). O que está aqui em causa é, pois claro, o grito da liberdade contra o sufoco da vida doméstica, a selva versus a civilização, o bravio em oposição ao gado domesticado das cidades que a Velha Europa impôs ao Novo Mundo. Poesia, pura poesia, que nem a mais horrível das capas consegue enfraquecer.

ERVAS SOBRE A PLANÍCIE ANTIGA




Uma Canção de Despedida

Aqui e ali, surgem ervas na planície,
Em cada ano morrem e renascem.
Fogos selvagens queimam-nas, não as matam
Com o vento primaveril ei-las outra vez!
A fragrância longínqua perfuma a via antiga:
Um feixe de esmeraldas nas velhas ruínas.
É tempo outra vez de dizermos adeus
E do senhor que parte se despedem elas
.


Bai Juyi (772-846), in Uma Antologia de Poesia Chinesa, por Gil de Carvalho, Assírio & Alvim, 2.ª edição, Setembro de 2010, p. 219.



Bai Juyi wrote over 2,800 poems, which he had copied and distributed to ensure their survival. They are notable for their relative accessibility: it is said that he would rewrite any part of a poem if one of his servants was unable to understand it.

COMENTÁRIO A UM POEMA DE BAI JUYI

Para onde me devo voltar se quiser escrever a natureza? Para onde quer que me volte, vejo apenas cimento e alcatrão. Prédios horríveis, ruas inóspitas, maquilhados pela sombra de fortuitas plantas enclausuradas em canteiros. Poderei eu encontrar a natureza nas pedras arrancadas às suas raízes?

COMENTÁRIO A UM POEMA DE LI YU

Muitos relatos escutados, assim como muitos livros lidos, não garantem o conhecimento do passado. Mesmo por ele passando, resta-nos confiar na vaga sombra da memória. E a memória mais não logra do que arrefecer os ânimos.

Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

COMENTÁRIO A UM POEMA DE WANG SHIZHEN

Não é compreensível que conhecendo a erva o imo da semente, fique por perto a obsidiar o que deveria florescer em liberdade e alegria.

VOLTA AO MUNDO EM POESIA: CHINA

Pegar numa obra como Uma Antologia de Poesia Chinesa (Assírio & Alvim, 2ª edição, Setembro de 2010) obriga a uma de duas opções: ou procuramos no poema única e tão-somente aquele fogacho de beleza que a palavra logra resgatar, ou disponibilizamo-nos para ir mais além, tentando perceber um pouco mais da cultura onde esse poema foi engendrado − porque há na palavra escrita uma relação inexorável com a cultura, mesmo quando a palavra arrisca o terrorismo poético da contracultura. Entrar na “poesia chinesa” pela mão de Gil de Carvalho é travar conhecimento com um território vastíssimo e impermeável a leituras estereotipadas. Muitas vezes ouvimos falar de poesia oriental como se toda ela fosse uma e a mesma coisa. Esta antologia prova o contrário. Há uma diversidade nas formas, nos temas, nas tonalidades, que nega qualquer tipo de generalização. Ainda que possamos detectar características comuns nos diferentes períodos contemplados desta parte da história chinesa, porventura transversais a toda a poesia, venha ela de onde vier, a verdade é que nenhuma dessas características comuns permite delimitar as fronteiras de uma suposta “poesia chinesa”. Depois há um outro problema. A poesia que nos chega da China tem uma componente visual que a tradução atraiçoa. Neste campo, estamos sós. Resta-nos confiar na capacidade do tradutor para transformar em palavras que nos sejam familiares a musicalidade de uma “caligrafia” intraduzível, mesmo quando as versões portuguesas assumem uma sintaxe quase tão indecifrável quanto os caracteres chineses. Ficamo-nos, portanto, por meras aproximações/versões. E já não é mau. Muitas curiosidades podiam ser apontadas entre este extenso panorama de poetas. Citaremos três considerados maiores entre os demais. Wang Wei (701-761), poeta e pintor da dinastia Tang, nasceu no seio de uma família aristocrática. Budista militante, ocupou altos cargos. Durante uma rebelião de opositores à dinastia Tang, ter-se-á fingido surdo pra não ter que servir os rebeldes. Perdeu a mulher no ano de 730, dedicando-se posteriormente à vida monasterial. Os seus poemas, como a maioria dos poemas chineses, são breves e contemplativos. Denotam uma forte relação com a natureza:

O PARQUE DOS VEADOS

Solitários vazios montes, ninguém à vista
Ecos somente de vozes humanas.
Um sol tardio entra no bosque fundo
Brilha de novo o musgo verde.

De Li Bai (701-762), que viveu no mesmo período de Wang Wei, a chamada era de ouro da poesia chinesa, se diz ter sido «vagabundo, boémio, poeta de inspiração súbita, do fluir universal, possuidor do «divino dom». Segundo a lenda, embriagado, teria morrido afogado no Rio Azul ao tentar agarrar a imagem da lua aí reflectida». As histórias que a sua vida inspirou são proporcionais à sua grandiosidade enquanto poeta. Apesar de Taoista, a sua vida parece-se à de um maldito ao estilo ocidental. Viandante entre a civilização, subiu às montanhas para daí dialogar melhor com a humanidade:

DIÁLOGO NA MONTANHA

Perguntas-me: porque habito a verde montanha?
Rio-me. E nem respondo. Quieto, coração.
Correntes águas, floração, vão para esse escuro
E outro mundo há que dado não é a Mortais.

Por fim, Tu Fu (712-770). Ou Du Fu. Considerado por muitos o maior dos poetas chineses, perdeu a mãe quando ainda era criança. Foi criado por uma tia que o instruiu segundo as regras clássicas do confucionismo. A amizade com Li Bai deverá ter influenciado a sua opção por uma vida de poeta após haver fracassado nas suas ambições por um cargo público. Passou sempre por grandes dificuldades, quer por culpa de algumas debilidades físicas, quer pela época conturbada em que viveu. A sua poesia reflecte essas conturbações, chegando, por vezes, a adquirir a forma de poema de guerra. Seja como for, é talvez o poeta dos três aqui citados que mais facilmente poderá ser entendido pelo leitor habituado apenas à poesia do Ocidente:

PENSAMENTOS NOCTURNOS

Ervas rasteiras,
Brisa suave
Sozinho na noite
Sob o mastro ao alto.

As estrelas suspensas
Sob a vasta planície
A lua ondula
Corre o grande rio.

Vem das obras, a fama?
O letrado retira-se velho
E doente – sempre errante
Que sou eu senão uma
Gaivota entre céu e terra?

Sábado, 25 de Junho de 2011

A MINHA VIDA DEU UM FILME

AINDA TRUE GRIT


Os diálogos não são o elemento mais forte em True Grit. O filme agarra-se à determinação da jovem que pretende vingar a morte do pai. Por vezes, a personagem parece-nos inverosímil. É essa a intenção, levar-nos a acreditar no inacreditável. Uma jovem a pensar com a inteligência, perspicácia e determinação tão raras vezes reconhecível nas pessoas adultas. São características da natureza humana, independentes da idade. No fundo, a idade só lhes confere as barbas do tempo. Um instinto inabalável na negociação, uma assertividade imperturbável na acção. Tudo o que nos falta. O problema da justiça que a história complexifica, acompanhado de uma morte omnipresente, ganha nesta força de viver o elemento necessário para o equilíbrio de forças. Esta jovem rapariga a tentar sobreviver entre “cowboys” é, assim, uma personificação muito inteligente da fase embrionária da justiça no antigo Oeste, o que faz deste western uma metáfora excelente dos duros terrenos onde a lei emerge.

EM FALTA

Estou em falta para com o Manuel, ando há meses para lhe rever o livro. Estou em falta para com o Jorge, já devia ter escolhido as fotografias, feito aquele telefonema. Estou em falta para com a Maria, que fez hoje anos e eu não disse nada. Ainda telefonei duas vezes, mas do outro lado da linha o silêncio foi a resposta merecida. Estou em falta para com o Fernando, foi operado e ainda não sei como correu o corte. Telefonei-lhe hoje, não me atendeu. Estou em falta para com o Daniel, o Bruno, o Mário, o Luís, o Nuno, nem copos, nem guitarras, nada, zero. Estou em falta para com as minhas filhas, há muito que não brincamos. Não pensem que venho aqui para não estar em falta convosco. Venho aqui apenas para respirar um pouco, esquecer-me de que, neste momento, só não estou em falta para com o trabalho. Ainda que tenha consciência de que, de todos, há-de ser sempre o trabalho a estar em falta para comigo.

Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

CAROLINE DE GUNDERODE




En nostalgique je vagabondais
par l’infini

C. de G.

A mão da namorada do vento
afaga a cara do ausente.
A alienada com sua «mala de pele de
..................pássaro»
foge de si mesma com uma navalha na memória.
A que foi devorada pelo espelho
entra num cofre de cinzas
e apazigua as bestas do esquecimento
.

A Enrique Molina


Alejandra Pizarnik, in Otros Poemas (1959)


Versão de HMBF

ESTÁS A OLHAR PARA ONDE?

JPT anda a ler “O Meu Cinzeiro Azul” de Henrique Fialho, Pedro Góis Nogueira anda a ler “A Dança das Feridas” do Henrique Fialho. Sinto-me observado.

Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #21



A 2 de Março de 1900, nascia Kurt Weill em território germânico. As lições de piano começaram à entrada da adolescência, se bem que, naquele tempo, as idades mereciam medições menos rigorosas. O tamanho da adolescência era proporcional à maturidade retardada de inúmeras almas hoje vítimas de um infantilismo alongado à razão de baterias Duracell. Aos 13 anos, a primeira composição. Ao longo dos anos, por convicção ou necessidade, a música erudita foi dando lugar a sonoridades mais populares. O teatro berlinense era o palco ideal para algo que se vinha desenvolvendo nos últimos anos. Já na década de 1920, aproximações a grupos ligados a uma arte de pendor socialista levaram-no a travar conhecimento com a actriz e futura mulher Lotte Lenya. Música para teatro e canções foram o pão-nosso de cada dia no trabalho de Kurt Weill. O primeiro encontro com a obra de Bertolt Brecht deu-se em meados da década de 1920. Brecht estava então casado com a cantora de ópera Marianne Zoff, mas aproximava-se cada vez mais da actriz comunista Helen Weigel. O contacto entre Brecht e Weill nasceu, pois, num ambiente dramático que coincidiu com a ascensão do nazismo e a aproximação de ambos ao comunismo. A primeira colaboração foi Mahagonny, continuada na ópera Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny. Um ano antes, Bertolt Brecht tinha publicado o seu primeiro livro de poemas: Taschenpostille. O sucesso da colaboração levou-os a explorar o potencial das canções populares em operetas, emissões radiofónicas, peças de teatro. O título deste álbum explica o resto. Ute Lemper, actriz, cantora, bailarina, recrutada por Pina Bausch para Kurt Weill Revue, interpreta com excelência as composições do mestre. As gravações datam de 1988 e repercutem um ambiente que, apesar de algo datado na generalidade, não deixa de impressionar pela sugestão de ambientes tão irónicos e erosivos quão trágicos. Die Moritat Von Mackie Messer ou Alabama-Song são hoje património universal, graças ao génio de Weill, Brecht e das sucessivas reinterpretações que, como esta, souberam resgatar do entorpecimento a memória de um período inquietante na História da Humanidade.

A ESQUERDA PORTUGUESA

A esquerda portuguesa também tem os seus pategos. Mais que o bom senso, a saloiice nacional é de uma equidade ímpar. Enquanto puderam, esses pategos atiraram-se às canelas de Sócrates. Às vezes até pareciam matilha de cães de fila encomenda por Coelho & Companhia Lda. Agora que Sócrates foi à vida, precisavam de novo bode expiatório. Atiraram-se a Rui Tavares. Lembram-me os indigentes de Ladrões de Bicicletas, o filme de Vittorio De Sica. De tão pérfidos uns para os outros, lá iam vivendo miseravelmente sob a sobranceria dos seus negligenciados inimigos. A esquerda portuguesa é autofágica. Esperemos que não faleça de dispepsia.

ÁRBOL DE DIANA




23

uma olhadela a partir do esgoto
pode ser uma visão do mundo

a revolução consiste em olhar uma rosa
até que os olhos sejam pulverizados

37

para lá de qualquer zona proibida
há um espelho para a nossa triste transparência



Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)


Versão de HMBF

PERGUNTEM QUE EU RESPONTO

Desta feita, em resposta ao Tolan:



1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Já reli livros, mas evito fazê-lo por preocupações de organização e gestão existencial. Não há nenhum livro que eu releria várias vezes, mas há livros aos quais regresso vezes sem conta. Vou lá rever uma frase, um capítulo, buscar uma ideia, às vezes apenas uma palavra.

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Não. Por muito que me possa custar, faço questão de terminar todo e qualquer livro que comece a ler. Às vezes demoro muito tempo a chegar ao fim, mas a viagem nunca fica a meio. O Ulisses, por exemplo. Li-o da primeira à última palavra, tenho-o sublinhado, apontado, até rasurado em algumas partes. E, curiosamente, é um dos tais livros aos quais regresso vezes sem conta.

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Quando me apetece viver muito, escolheria todos os livros do livro À la recherche du temps perdu. Quando me apetece viver pouco, escolheria A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
À la recherche du temps perdu.

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Esta pergunta remete, essencialmente, para obras de ficção - e eu não sou um adepto incondicional dos livros de ficção. Mas assim de repente, lembro-me de dois. Um que li há não muito tempo, o Pergunta ao Pó, de John Fante, com um tipo a lançar pelo ar, na direcção do deserto do Mojave, um exemplar do seu primeiro livro, dedicado a uma paixão malograda. Um outro grande final é o de Luz de Agosto, de William Faulkner. Jamais o esqueci, embora agora não me lembre.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Quando era criança tinha o hábito de ser criança. É provável que lesse. Porém, ao olhar para trás lembro-me melhor dos mergulhos no rio, dos cigarros com barba de milho, das aventuras pela serra a apanhar rosmaninho para as fogueiras de Santo António. Seja como for, tenho uma teoria: uma pessoa deixa de ser criança quando começa a ler, aconteça isso aos cinco, seis, sete, oito anos…

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Muitos. De poesia, então, centenas. Recordo-me que fiz um esforço estóico para chegar ao fim de livros como O Monte dos Vendavais, Estudos de Moral Moderna, do filósofo alemão Karl-Otto Apel, ou a Tábua das Matérias, de Pedro Tamen. Porquê? Talvez por questões de química.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Vou dividir a tarefa por três secções, mais uma intermédia. Na filosofia, tudo do Nietzsche, tudo do Michel Onfray, tudo do Feyerabend. Depois, o Elogio da Loucura, a Utopia, pequenos ensaios como O Direito à Preguiça (Paul Lafargue) e Uma Apologia dos Ociosos (Stevenson), Bertrand Russell (os escritos sobre axiologia, ética e religião), o Ensaio Sobre o Homem, de Ernst Cassirer e quase todo o Ortega Y Gasset, os delírios do mestre Artaud, Bataille, algum Sartre, os aforismos de Cioran em doses moderadas, Wittgenstein, claro, os capítulos sobre a morte no Ser e Tempo, de Martin Heidegger, algum Schopenhauer, algum Kierkegaard, Lipovetsky, Peter Singer, o Espírito Nómada, de Kenneth White, Thoreau… Mas de todos os livros de filosofia que li até hoje, aquele que escolheria como tendo sido o mais marcante é: O Papalagui.

Na poesia, todo o Ruy Belo, Alexandre O’Neill, Cesariny, Jorge de Sena (este com a passadeira estendida às três secções), Rui Knopfli, Fernando Pessoa (mesmo o que é mau), Nicanor Parra, quase toda a Alejandra Pizarnik, Huidobro, Sá-Carneiro, Manoel de Barros, Gullar, Michaux (outro dificilmente enquadrável), Baudelaire, claro, Pavese, Vian, Herberto Helder em doses moderadas, Pasolini… Dá-se também o caso, na poesia, de por vezes preferir os poemas aos livros e quase sempre os livros aos autores. A Cena do Ódio, por exemplo, é um livro inteiro. E o que dizer do FMI de José Mário Branco? Mas de todos os livros de poesia que li até hoje, aquele que escolheria como tendo sido o mais marcante é: O Medo.

Na ficção, porque a história vai longa, refiro 10 obras que muito apreciei: O Vermelho e o Negro, Moby Dick, Crime e Castigo, Húmus, A Metamorfose, Memórias de Adriano, A Náusea, Debaixo do Vulcão, A Queda, Contos do Gin-Tonic. Estou a passar por cima do Danill Harms, do George Orwell, do Bukowski, do Joyce, do Saramago, de A Montanha Mágica, de 2666, de Fome, do Knut Hamsun, de Oscar Wilde, de Beckett, Gógol, Jorge Luis Borges, só para poder citá-los assim às três pancadas. Mais recentemente, descobri a prosa de J. Rentes de Carvalho e os livrinhos de Sam Savage que são uma maravilha. Mas de todos os livros de ficção que li até hoje, aquele que escolheria como tendo sido o mais marcante é: Prometeu Agrilhoado.

Depois há as zonas intermédias, onde meto tudo da Maria Gabriela Llansol, livros como O Livro do Desassossego, Ofício de Viver, Exame de Consciência, Os Gatos ou o bom Chatwin.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Vou lendo vários livros intervaladamente. Neste momento, ando às voltas com a poesia da Alejandra Pizarnik, uma antologia de James Joyce (Poems and Shorter Writings) e Uma Antologia de Poesia Chinesa (tenho vários livros de poesia portuguesa contemporânea começados, mas aos quais só dedicarei mais atenção quando estiver menos farto dos poetas portugueses contemporâneos), a filosofia do Zizek (também tenho revisto o Utilitarismo, de John Stuart Mill) e As Anotações de Malte Laurids Brigge. Tenho começados Daisy Miller, de Henry James, e um livro de contos de William Trevor intitulado Cheating at Canasta. Por razões facilmente entendíveis se tivermos em conta a resposta à pergunta 7, ando há muito com O Caminho dos Pisões aberto na mesma página.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
Estão todos a ler, não têm tempo para isto.

TRUE GRIT (2010)


Apesar de praticamente toda a acção decorrer em território índio, o único indígena que se vê está prestes a ser enforcado. Quando se prepara para pronunciar as últimas palavras, enfiam-lhe o capuz na cabeça e calam-no para sempre. Há um outro, mas não conta, vê-se demasiado ao longe e limita-se a carregar um cadáver para fazer negócio. Na sequência desta cena, ainda pensei que o médico agasalhado com uma pele de urso, dando ares de curandeiro, fosse índio. Mas não. Surge no meio de um bosque, sob uma ligeira queda de neve, arrastando atrás de si o tal morto do qual aproveitou os dentes mas ainda pode comerciar em troco de uns cobres. É uma cena típica do humor negro que caracteriza a cinematografia dos irmãos Coen, tal como este pormenor de um território habitado por fantasmas cuja presença se afirma, sobretudo, pela sua ausência. Fantasmas são sugestões, sombras de almas desconfiadas, desapiedadas, em ruptura com o chão que o corpo que os carrega pisa. E estes corpos carregam alguns fantasmas. A vingança enquanto móbil para a acção é apenas um pretexto. Mais importante é o ménage à trois desenvolvido ao longo da narrativa. São três perspectivas diferentes da justiça, eventualmente conciliáveis, com um mesmo fim para diversos meios. Da ingenuidade e determinação da jovem que quer vingar o assassinato do pai à dureza e implacabilidade do marshall bêbado contratado para o efeito, passando pelo incipiente sentido de direito formal do ranger que os acompanha, há toda uma complexidade ética e moral que nos leva a pensar sobre os caminhos mais eficazes para a consecução da justiça. São tortuosos os caminhos que a ela levam, por vezes obrigam a amputações inesperadas e geram amiúde desencontros sem remédio.

Segunda-feira, 20 de Junho de 2011

ROSTOS DESTES NÃO PODEM MORRER




Pedro Hestnes (1962 - 2009)*


*As datas, as datas, estão aqui.

AGARREM-ME, AGARREM-ME


Domingo, 19 de Junho de 2011

O DESPERTAR




A León Ostrov


Senhor
A gaiola transformou-se em pássaro
e voou
e o meu coração enlouqueceu
porque uiva à morte
e sorri por detrás do vento
aos meus delírios

Que farei com o medo
Que farei com o medo

Já não baila a luz no meu sorriso
nem as estações queimam pombas nas minhas ideias
As minhas mãos desnudaram-se
e partiram para onde a morte
ensina os mortos a viver

Senhor
O ar castiga-me o ser
Por detrás do ar há monstros
que bebem o meu sangue

É o desastre
É a hora do vazio não vazio
É o momento de pôr uma fechadura nos lábios
ouvir os gritos dos condenados
contemplar cada um dos meus nomes
enforcados no nada

Senhor
Tenho vinte anos
Também os meus olhos têm vinte anos
e no entanto nada dizem

Senhor
Cumpri a minha vida num instante
Estourou a última inocência
Agora é nunca ou jamais
ou simplesmente foi

Como não suicidar-me frente a um espelho
e desaparecer para reaparecer no mar
onde um grande barco me esperaria
com as luzes acesas?

Como não extrair as veias
e fazer com elas uma escada
para subir ao outro lado da noite?

O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos desgastados
O interesse interessado
As perguntas de pedra em pedra
As gesticulações que imitam o amor
Tudo continuará igual

Mas os meus braços insistem em abraçar o mundo
porque ainda não lhes ensinaram
que já é demasiado tarde

Senhor
Expulsa os féretros do meu sangue

Recordo a infância
quando era uma anciã
As flores morriam nas minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria
destruía-lhes o coração

Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer antes de ontem
quer dizer há séculos

Senhor
A gaiola transformou-se em pássaro
e devorou as minhas esperanças

Senhor
A gaiola transformou-se em pássaro
Que farei com o medo




Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)


Versão de HMBF

ALEKSANDRA (2007)



Conheci mal os meus avós. O meu avô materno morreu com um cancro na cabeça ainda eu não era nascido, o paterno foi-se tinha eu meia dúzia de primaveras mal contadas. Lembro-me da mãe da minha mãe, que amuava facilmente, tinha mau feitio e durante muitos anos usou carrapito. A mãe do meu pai foi viver connosco após a morte do meu avô, intercalando estadias com uma tia minha com quem falo raríssimas vezes. Andou para cá e para lá até a arrumarem definitivamente num lar, já muito debilitada da vista, por culpa das cataratas, e pouco lúcida. Nunca mantive fortes laços afectivos com as avós. De resto, a distância que sempre se intrometeu entre mim e a família é algo que não consigo explicar, mas talvez se compreenda se tivermos em conta uma velha e frustrada necessidade de me libertar da protecção com que me capturaram. Sou o mais novo de três irmãos, o menino. Curiosamente, este proteccionismo familiar ganhou na minha consciência a forma de um campo de batalha. Ao contrário do que muitas vezes ouço por aí apregoado, julgo que o nosso primeiro inimigo é, precisamente, esse refúgio a que chamam família. Penso nisto enquanto revejo Aleksandra, um filme de Sokurov que podia intitular-se “Avó e Neto”. Aleksandra é a avó que se desloca ao acampamento militar onde o neto, um oficial do exército russo, está destacado com funções de combate no centro da Chechénia. O cenário militar, subitamente atravessado pela luminosidade de uma mulher idosa, para com quem todos os cuidados parecem poucos, permite vislumbrar resquícios de esperança num palco de ruínas e pó. Aleksandr Sokurov não resiste a passar pelo conflito, mostrando-nos a hostilidade dos jovens chechenos para com os militares russos, uma hostilidade ausente nas relações que a velha Aleksandra mantém com quem está à sua volta. “A primeira coisa que se deve pedir a Deus é inteligência”, diz ela a um jovem checheno. E é essa inteligência que o andar lento e cansado da velha Aleksandra arrasta pela neblina, embalada por uma brisa incapaz de disfarçar o ar sufocante da época. Este sufoco exterior tomou conta do neto sob uma forma mais íntima. E ainda que pareça desaparecer quando este abraça a avó ou lhe entrança o cabelo, a verdade é que está lá, habita nas profundezas de um ser perfilado para as formalidades militares mas mal resolvido para com a hierarquia familiar. No vocabulário de Aleksandra a palavra liberdade não tem o mesmo peso que a palavra inteligência, talvez porque a primeira não seja materialmente possível sem a prática da segunda. Uma prática eventualmente conquistada com a sabedoria da idade, mas longe de afastar a solidão ao mesmo tempo destruída e restaurada pela família.

Sábado, 18 de Junho de 2011

A MINHA VIDA DEU UM FILME

A CASA DE BANHOS





As nossas casas de banhos não são assim tão más. Podemos tomar banho. Só temos problemas nas nossas casas de banhos com os bilhetes. Sábado passado fui a uma casa de banhos e deram-me dois bilhetes. Um para a roupa interior, o outro para o chapéu e para o casaco.
Mas onde vai um homem nu guardar os bilhetes? Sejamos directos − em sítio nenhum. Não há bolsos. Olhemos à nossa volta − é tudo barriga e pernas. O único problema é com os bilhetes. Não os podemos atar à barba.
Bem, eu atei cada um dos bilhetes a uma perna diferente para não correr o risco de perder os dois ao mesmo tempo. E fui tomar banho.
Os bilhetes agitam-se em torno das minhas pernas. É aborrecido andar daquela maneira, mas tem de ser. Porque temos que arranjar um balde. Sem um balde, como nos podemos lavar? E esse é o único problema.
Procurei um balde. Vi um indivíduo a lavar-se com três baldes. Estava dentro de um, lavava a cabeça com outro e segurava o terceiro com a mão esquerda, de modo a que ninguém pudesse retirar-lho.
Puxei o terceiro balde; entre outras cosias, queria tirar-lho para ficar com ele. Mas o indivíduo não deixou.
«O que estás a tramar», disse, «a roubar os baldes dos outros?» Enquanto eu puxava, ele disse, «dou-te com o balde entre os olhos, a ver se gostas.»
Eu disse: «Não estamos no regime czarista», disse, «para andar por aí a agredir pessoas com baldes. Egoísmo», disse eu, «puro egoísmo. Outras pessoas», disse, «também têm que se lavar. Estamos a brincar ou quê?», disse eu.
Mas ele voltou-me as costas e começou a lavar-se de novo.
«Não posso ficar por aqui», pensei, «a dar-lhe este prazer. Ele vai continuar a lavar-se», pensei, «durante três dias».
Mudei de lugar.
Algum tempo depois, vi um idiota boquiaberto a olhar para o vazio, tinha o balde à solta. Procurava sabão ou estava apenas a sonhar, não sei. Roubei-lhe o balde e fiz o que tinha a fazer.
Agora tinha um balde, mas nenhum sítio onde me sentar. E para me lavar de pé − que raio de banho era aquele? E esse é o único problema.
Muito bem. Estou então de pé. Seguro o balde com uma mão e lavo-me com a outra.
Mas à minha volta toda a gente esfrega furiosamente as roupas. Um lava as calças, outro esfrega as ceroulas, um terceiro retorce uma coisa qualquer. Tão depressa nos lavamos como ficamos novamente sujos. Eles estão a esguichar-me, os sacanas. E todo aquele ruído de gente a esfregar retira qualquer prazer ao banho. Não conseguimos sequer perceber onde o sabão chia. E esse é o único problema.
«Que vão para o Inferno», pensei. «Acabo de tomar banho em casa».
Regresso aos cacifos. Dou-lhes um bilhete e eles devolvem-me a roupa interior. Confirmo. É tudo meu, mas as ceroulas não são minhas.
«Concidadãos», digo, «as minhas não têm um buraco aqui. As minhas têm um buraco ali».
Mas o criado diz: «Não estamos aqui», disse ele, «para tomar conta dos seus buracos. Estamos a brincar ou quê?», disse ele.
Muito bem. Visto as calças, estou prestes a reaver o meu casaco. Eles não me devolvem o casaco. Querem o bilhete. Esqueci-me do bilhete na perna. Tenho que me despir. Tiro as calças. Procuro o bilhete. Não há bilhete. Há o cordel atado em torno da minha perna, mas não há bilhete. O bilhete foi pelo ralo abaixo.
Dou o cordel ao empregado. Não o quer.
«Não levará nada com um cordel», disse ele. «Qualquer pessoa pode cortar um pedaço de cordel», disse. «Não teríamos casacos que chegassem. Espere», disse ele, «até que toda a gente saia. Dar-lhe-emos o que sobrar».
Eu disse: «Olhe lá, irmão, e se tudo o que restar for lixo? Estamos a brincar ou quê?», disse eu. «Posso identificar-lho. Um bolso», disse, «está rasgado e o outro já não existe. Quanto aos botões», disse, «o de cima permanece lá, os outros não se vêem».
Seja como for, ele deu-mo. Mas não ficou com o cordel.
Vesti-me e saí para a rua. De repente lembrei-me: esqueci-me do sabão.
Regressei. Não me deixaram entrar vestido.
«Nu», disseram.
Eu disse, «Escutem, concidadãos. Não posso despir-me pela terceira vez. Estamos a brincar ou quê?», disse. «Pelo menos devolvam-me o valor do sabão».
Nada feito.
Nada feito − muito bem. Partirei sem o sabão.
Claro, o leitor acostumado a formalidades poderá ficar curioso sobre que tipo de casa de banhos era esta. Onde fica localizada? Qual a morada?
Que tipo de casa de banhos? O tipo do costume. Onde pagamos dez
kopeks para entrar.


Mikhail Zoschenko (1895-1958), a partir da versão inglesa (The Bathhouse) de Sidney Monas, inserida na colectânea Short Shorts – An Anthology of the Shortest Stories, organizada por Irving Howe e Ilana Wiener Howe, Bantam Books, 1983.





Versão de HMBF

RENDA CERTA

Numa carta dirigida ao Benjamim Machado, o António Cabrita afirma o seguinte:

Um caso extremo da estupidez das editoras é o do Henrique Fialho, que tem um blogue com 1500 seguidores, um trabalho notável diariamente exposto como escritor e tradutor, mas em quem nenhuma editora de peso pega (a não ser que ele tenha recusado, o que não me consta) porque afinal eles não vendem livros, unicamente traficam amizades, senão já teriam percebido que o Fialho é renda certa.

Devo dizer que concordo em absoluto com o António Cabrita, eu sou um caso extremo da estupidez. Seja lá de quem for. Abraço do Paralelo 40 N,

TABACARIA

Os professores acorreram em massa à livraria, procuram os livros do Crato. Um deles fez questão de me confessar os seus intentos: estou a preparar-me para depois lhe dar com o livro nas trombas. Medina Carreira continua a rivalizar com os vampiros em termos de vendas, o que apenas comprova o gosto dos portugueses por sangue. Nos plasmas, publicita-se uma nova edição de Tabacaria. Cliente mais imediatista entra, dirige-se ao balcão, e pede um SG Filtro. Então mas isto não é uma tabacaria?

Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

GOVERNO

Tenho muita coisa na ponta da língua, mas o cansaço, para já, trava-me a garganta. Estou de rastos. Aguento-me apenas para salvar a honra. A Lourdes confessou-me que andou para aí, mais propriamente numa mesa do Nicola, a manchar a minha reputação espalhando a calúnia de que eu tinha votado PS nas últimas eleições. Não é tão grave como julgarem-me do Benfica, mas fica perto. Quero repor a verdade quanto antes. Nos tempos que correm, assegurar a impecabilidade do nosso bom nome na praça pública é a única garantia de prestígio que nos resta. Eu não só não votei PS, como me sinto profundamente ofendido ao verificar a existência de almas neste mundo capazes de me reputar tão grave delito. Dito isto, ver a Cristas gerir o grosso da torneira de Bruxelas vai ser uma animação. Se o Telmo fez um excelente trabalho neste Portucale, esperem só para ver a Cristas. O Portas sabe-a toda, espertalhão. Quanto ao Crato, vai ser uma maravilha assistir até onde a teoria suporta a prática. Uma boa oportunidade para tirar a prova dos nove ao blá blá blá dos teóricos. O bigodes já disse que não vai dormir descansado. A ver vamos. E pronto, o resto é a tralha do costume.

Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

ECLIPSE LUNAR

A Sofia era a rapariga mais bonita do bairro, mas apenas eu o reconhecia. Todos os outros, rapazes e raparigas, chamavam-lhe ranhosa, porque, de facto, ela passava o tempo todo com o pingo no nariz. O mais curioso era verificar que aquele pingo caía sempre da narina direita. A esquerda, seca como um deserto. A direita, com um inesgotável fio de ranho pendente. Até esse pormenor eu achava estético na Sofia. A sua presença alegrava-me, a sua voz enchia-me os ouvidos de melodias bucólicas, o seu passar era para mim a mais bela das paisagens.

Durante muito tempo, acreditei ganhar o dia sempre que via a Sofia passar. Ao largo, os labregos, rapazes e raparigas, chamavam-lhe ranhosa. Mas eu não ouvia os labregos. Ouvia-os, mas era como se não ouvisse. Porque o simples passar da Sofia com seu fio de ranho na narina direita calava os labregos na minha cabeça. A minha cabeça perdia-se em conjecturas sobre a Sofia, tudo eu pensava, tudo ponderava, tudo imaginava. Sobretudo imaginava. Imaginava-nos aos dois na mesma cama, abraçados, adormecendo ao som da respiração um do outro. Ela afagando-me a barba e eu, numa ginástica inexplicável (estamos no campo da imaginação), embalando-lhe as pestanas com ligeiros e mansos sopros. Sopros que me são impossíveis, visto eu sofrer de asma.

Era tão bom adormecer a olhar para a Sofia, observando o lento deslizar do seu fiel fio de ranho. Sempre na narina direita. De manhã, quando acordávamos, o ranho estava transformado em bostela. Nunca entendi esta estranha metamorfose. É como se dormir fosse morrer por instantes, as funções vitais param, o corpo entra em ponto morto e as narinas estaqueiam. O que era líquido torna-se sólido, o que era sólido desfaz-se em pequenos grãos. Pó. Atente-se o leitor a esta estranha lei da química, sempre que acorda há-de reparar na solidez do seu sangue. É como se por dentro fôssemos todos pedra, naquele preciso instante que separa o sono da vigília. Acordar não mais é do que permitir à pedra a sua vida. Mas a minha Sofia, a minha Sofia era diferente.

Eu não podia permitir, nem em imaginação, que a minha Sofia assumisse a mais inofensiva dimensão natural. Eu preferia deixar o naturalismo para os poetas sensíveis, aqueles que sublinham a sua repulsa para com os aviários enquanto comem canja de galinha. Não, não sou desses, eu amo a minha Sofia com seu pingo de ranho caindo da narina direita. Ela é não só a mais bela do bairro, como a mais bela de todas as raparigas do meu universo. O meu universo não tem lados, é um descampado sem fronteiras, um som acordado entre o dia e a noite, o sol e a lua, um eclipse lunar, o meu universo é um eclipse lunar sem lua nem sol, o meu universo é a narina direita da Sofia, a mais bela rapariga do bairro.

O leitor perspicaz já terá reparado no pretérito assumido à entrada da prosa. A Sofia era a rapariga mais bonita do bairro. Já não é. Porquê? Bem, várias razões se conjugam para tão pesarosa constatação. Resumindo os factos a dois elementos essenciais, limitar-me-ei a revelar que a narina direita da Sofia já não é o que era. O fio de ranho desapareceu. Com isso, os labregos transformaram-se em potenciais pretendentes. A Sofia afastou-se dos meus olhos, foi levada pela secura. Desaparecido o fio de ranho que a afastava dos labregos, desapareceu também a imaginação com que eu a pintava em paisagens líricas sem igual. A minha Sofia, a minha querida Sofia, secou as narinas. E daquela secura a respiração da terra espalhou pelo meu coração um deserto intransponível. Levada pela aridez como as dunas pelo vento, foi-se a ternura dos seus dedos que me afagavam as barbas para um estéril e severo campo de imitações. A ilusão deu lugar à desilusão, a imaginação deu lugar à realidade, e eu estou triste porque a Sofia se transformou numa imitação do que era. Ou então fui eu que cresci. O tempo faz isso às pessoas, dá-lhes centímetros a mais.

Terça-feira, 14 de Junho de 2011

A NOITE




Pouco sei da noite
mas a noite parece saber de mim,
e para mais, conforta-me como se me desejasse,
cobre-me a consciência com as suas estrelas.

Talvez a noite seja a vida e o sol a morte.
Provavelmente a noite é nada
e nada as conjecturas sobre ela
e nada os seres que a vivem.
Talvez as palavras sejam tudo o que existe
no enorme vazio dos séculos
que nos arranham a alma com as suas recordações.

Mas a noite há-de conhecer a miséria
que bebe do nosso sangue e das nossas ideias.
Ela há-de atirar ódio às nossas observações
sabendo-as cheias de interesses, de desencontros.

Mas sucede que ouço a noite chorar nos meus ossos.
A sua lágrima imensa delira
e grita que algo partiu para sempre.

Um dia voltaremos a ser
.


Alejandra Pizarnik, in Las Aventuras Perdidas (1958)


Versão de HMBF

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #20



Respigando o nome numa oração judaica, Richard Wolfson e Andy Saunders, a dupla por detrás dos Towering Inferno, conceberam Kaddish (1993) como uma peça em quatro actos. O tom espiritual do primeiro tema pode induzir em erro. Endre Szkárosi lê alguns salmos, a húngara Marta Sebestyén, provavelmente o nome mais familiar deste projecto, recita um poema e empresta a excelência da sua voz ao canto de alguns versos, sob os quais se ouve uma voz masculina afirmando pogrom e, por fim, cantando parte de uma oração funerária húngara. Ao segundo tema, a distorção das guitarras eléctricas desfazem a toada mística, ainda que lúgubre, do intróito. Afinal as orações são ecos de uma indústria de morte perpetuada no tempo, com índices elevados de estupefacção durante a Segunda Guerra Mundial. Mais que uma homenagem ao sofrimento e à resistência, ou uma reafirmação da memória contra o esquecimento, este disco é uma reverberação de fantasmas no corpo dos viventes. Os arranjos de cordas e as violentas composições para piano que vão introduzindo elementos próximos do rock industrial reproduzem um ambiente dramático sem paralelo, que eu conheça, na música dita popular. O ecletismo final é uma virtude inquestionável. Os momentos de acalmia, mais ou menos sinistros, que alternam com a pura alienação da generalidade das composições, conferem ao todo um dramatismo deveras revelador. Num só tema, a voz de Hitler pode aparecer “sampleada” ao lado da voz de um rabino. Estranha vizinhança para uma tão realista verdade.

E AGORA MÁRIO CRESPO? E AGORA?

PAULO PORTAS MINISTRO?


Ana Gomes provocou uma tempestade mediática com as suas declarações sobre Paulo Portas. Considero muito Ana Gomes, uma mulher de causas, frontal, corajosa, diplomata com muito relevantes serviços prestados a Portugal e à Humanidade. Confesso que me escapa alguma da sua argumentação contra Paulo Portas e não alcanço a invocação do exemplo de Strauss-Kahn. Mas estou com ela na sua conclusão: Paulo Portas não deve ser ministro na República Portuguesa. Partilho inteiramente a conclusão ainda que através de diferentes premissas.
Paulo Portas, enquanto ministro da Defesa Nacional de anterior governo, mentiu deliberadamente aos portugueses sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, que serviram de pretexto para a guerra de agressão anglo-americana desencadeada em 2003. Sublinho o deliberadamente porque, não há muito tempo, num frente-a-frente televisivo, salvo erro na SICNotícias, a deputada do CDS Teresa Caeiro mostrou-se muito ofendida por Alfredo Barroso se ter referido a este caso exactamente nesses termos. A verdade é que Paulo Portas, regressado de uma visita de Estado aos EUA, declarou à comunicação social que “vira provas insofismáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque” (cito de cor mas as palavras foram muito aproximadamente estas). Ele não afirmou que lhe tinham dito que essas provas existiam. Não. Garantiu que vira as provas. Ora, como as armas não existiam logo as provas também não, Portas mentiu deliberadamente. E mentiu com dolo, visto que a mentira visava justificar o envolvimento de Portugal naquela guerra perversa e que se traduziu num desastre estratégico. A tese de que afinal Portas foi enganado não colhe. É a segunda mentira. Portas não foi enganado, enganou. Um político que usa assim, fraudulentamente, o seu cargo de Estado, não deve voltar a ser ministro. Mas já não é a primeira vez que esgrimo argumentos pelo seu impedimento para funções ministeriais. Em 12 de Abril de 2002 publiquei um artigo no Diário de Notícias em que denunciava o insulto de Paulo Portas à Instituição Militar, quando classificou a morte em combate de Jonas Savimbi como um “assassinato”. Note-se que a UNITA assumiu claramente – e como tal fazendo o elogio do seu líder –, a sua morte em combate. Portas viria pouco depois dessas declarações a ser nomeado ministro e, por isso, escrevi naquele texto: «O que se estranha, porque é grave, é que o autor de tal disparate tenha sido, posteriormente, nomeado ministro da Defesa Nacional, que tutela as Forças Armadas. Para o actual ministro da Defesa Nacional, baixas em combate, de elementos combatentes, particularmente de chefes destacados, fardados e militarmente enquadrados, num cenário e teatro de guerra, em confronto com militares inimigos, também fardados e enquadrados, constituem assassinatos. Os militares portugueses sabem que, hoje, se forem enviados para cenários de guerra […] onde eventualmente se empenhem em acções que provoquem baixas, podem vir a ser considerados, pelo ministro de que dependem, como tendo participado em assassinatos. Os militares portugueses sabem que hoje, o ministro da tutela, considera as Forças Armadas uma instituição de assassinos potenciais». Mantenho integralmente o que então escrevi.
Um homem que, com tanta leviandade, mente e aborda assuntos fundamentais de Estado, carece de dimensão ética para ser ministro da República. Lamentavelmente já o foi uma vez. Se voltar a sê-lo, como cidadão sentir-me-ei ofendido. Como militar participante no 25 de Abril, acto fundador do regime democrático vigente, sentir-me-ei traído
.


Junho de 2011-06-13
PEDRO DE PEZARAT CORREIA



Via 5 Dias.

Domingo, 12 de Junho de 2011

NOITE




Quoi, toujours? Entre moi sans cesse et
le bonheur!

G. de Nerval



Talvez esta noite não seja noite,
deve ser um sol horrendo, ou
o outro, ou qualquer coisa…
Que sei eu? Faltam palavras,
falta candura, falta poesia
quando o sangue chora e chora!

Podia ser tão feliz esta noite!
Se apenas me fosse possível tactear
as sombras, ouvir passos,
dizer «boas noites» a quem quer
que passeasse o seu cão,
olharia a lua, diria a sua
estranha lactescência, tropeçaria
nas pedras ao acaso, como se faz.

Mas há algo que rasga a pele,
uma fúria cega
que percorre as minhas veias.
Quero sair! Cérbero da alma:
Deixa, deixa-me atravessar o teu sorriso!

Podia ser tão feliz esta noite!
Porém ficam os sonhos adiados.
E tantos livros! E tantas luzes!
E meus poucos anos! Porque não?
A morte está longe. Não me vê.
Tanta vida Senhor!
Para quê tanta vida?



Alejandra Pizarnik, in La Ultima Inocência (1956)

Versão de HMBF

Sábado, 11 de Junho de 2011

OS CÃES

Com tanta polémica neste país, com tanto caso de primeira página, tantas mãos sujas, tanta indignação, sempre me intriguei sobre o porquê de não fazerem notícia histórias, que as haverá, de corrupção entre jornalistas. Se calhar essa classe de intocáveis, protegida pela sacrossanta liberdade de expressão (uma camuflagem que serve para tudo), é impoluta, angelical, devota e nada mais. Ou se calhar não. É ler aqui o que o Presidente do Supremo afirma e os residentes das redacções calam. Mas cuidado, os cães andam à solta. Ao Supremo fica a interrogação: mas porque é que ninguém fez nada?

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #19



Só de o pensar sinto um arrepio na espinha capaz de me provocar uma hérnia discal com graves consequências degenerativas. Por isso, evito pensá-lo. Mas a verdade é que passaram 15 anos sobre Dynamite, o mais assustador dos álbuns da sueca Kristina Marianne Nordenstam (aka Stina Nordenstam). Os jovens que tenham hoje a idade deste memorável conjunto de canções podem averiguar a excitação provocada pelo final do século XX. À época, já se falava de crise de valores, de choque civilizacional, de futuro pós-humano. As torres gémeas mantinham-se de pé, mas a ovelha Dolly acabara de nascer e os raelianos preparavam-se para lançar a empresa Clonaid. Em suma, o mesmo absurdo essencial, a mesma melancolia existencial, homens diferentes dentro das mesmíssimas estruturas de raciocínio. O caos, o colapso, o apocalipse é uma evidência prolongada no leito do tempo, a linguagem apenas se limita a introduzir novos termos numa mesma retórica. Dynamite reflectia/reflecte tudo isso, com a sua sonoridade sombria, amadurecida, sincrética. Dos primeiros álbuns, Stina manteve apenas a doçura da voz. Entregou-a, porém, a arranjos apoplécticos a milhas da ingenuidade e transparência dos álbuns Memories of a Color e And She Closed Her Eyes. Uma distorção abafada à altura dos tempos, assumindo para si os traumas do mundo e muito mais honesta na exposição das dores e dos tormentos pessoais. António Pires, no Blitz, entusiasmava-se e chamava-lhe «assustador e belo». «É um álbum que fica para o futuro». Aqui estamos nós, no futuro, a confirmá-lo.

CÉU




observando o céu

digo-me que é celeste desbotado (acalma
azul puro após um duche gelado)

as nuvens movem-se

penso no teu rosto e em ti e nas tuas mãos e
no ruído da tua pena e em ti
mas o teu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
esperava vê-lo colado a ela como um
pedaço de algodão enrolado dentro de fita adesiva
continuo a caminhar

um cocktail mental ladrilha a minha testa
não sei se pense em ti ou no céu
e se atirasse uma moeda ao ar? (cara tu coroa céu)
não! o teu ser não se arrisca e
eu desejo-te de-se-jo-te
céu pedaço de cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor

pensemos nos dois

os dois tu + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicolores bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe

sim amor estás longe como o mosquito
sim! esse que persegue uma mosquita junto
ao farol amarelosujo que vigia debaixo do
céu negrolimpo esta noite angustiante
..........................................cheia de dualismos



Alejandra Pizarnik, in Un Signo en tu Sombra

Versão de HMBF

Sexta-feira, 10 de Junho de 2011

FRUGALIDADE

Camarada Van Zeller, o grande homem falou. No dia da raça, o grande homem não se limitou a distribuir medalhas por pantufas estrábicas de português sofrível. Não, ele falou concentradíssimo:

Aqui, em Castelo Branco, poderemos buscar no exemplo dos portugueses do interior a inspiração de que precisamos para, uma vez mais, fazer das fraquezas forças e transformar as adversidades em oportunidades. A sua frugalidade e o seu espírito de sacrifício são modelos que devemos seguir num tempo em que a fibra e a determinação dos portugueses são postos à prova.

Por momentos, julguei-me a viver no Portugal só e orgulhoso do mestre. Não é caso para tanto, a frugalidade de espírito do grande homem, mais os 800€ por mês da sua senhora, independentemente da Quinta da Coelha e dos sócios, não podem demover-nos do verdadeiro sentido das palavras: sejam pobres, matem-se a trabalhar, curvem-se, que a gente vai ali pescar uns lagostins no prato e já volta. Ainda hei-de ouvi-los gabar a frugalidade dos chineses. Puta que os pariu mais a frugalidade. Pardon my French, camarada Van Zeller. Pardon my French.

PORTUGAL

Portugal não me interessa, prefiro São Martinho do Porto no Inverno e o Rogil no Verão. É para lá que fujo sempre que Portugal me cansa. E Portugal cansa-me sempre, tudo dito e redito, uma insuficiência, um peso, uma desvantagem, rotunda saturação. O’Neill, o nosso, sintetizou o drama numa palavra: remorso.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós


Mais tarde, numa mesma linha avançada, Jorge Sousa Braga rematou a história:

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
.

Este país é para velhos. Os novos nascem já velhos e os velhos arrastam-se moribundos, é um país fatídico onde as coisas boas serão sempre insuficientes. O ventre lusíada pariu um povo eternamente insatisfeito com tendências masoquistas (eu sou português, eu sou português). Não era preciso teres ido à merda, ó Caldas. Bastava ficares por cá. Longe de qualquer entendimento possível, este país é um cómico absurdo. E um poeta pretendeu tornar-nos épicos em registo ensimesmado, cantando façanhas de glória duvidosa e consciência pesada. Dantes dizia-se que abrimos novos mundos ao mundo. Se assim foi, de nada serviu, nada se vê, os horizontes permanecem quietos nos seus não-lugares. Portugal não me interessa, prefiro São Martinho do Porto no Inverno e o Rogil no Verão.

EM PANTANILLO




A don Federico Valle


1


Mil passos arrastam pacientemente as solas maduras em rochas diferentes.
Talvez uma gota gema desejando a antiga espessura em tardes mais livres que esta (gaguejante de impuro colorido, de sol inibido, de água acobreada, de cavalos com caldas etéreas, do pranto do cacto impotente…). A cascata reverdeja os pastos silenciosos que nutrem a negra penugem da terra vestida de brilho.
Sombras persistentes, imagens constantes que obrigam as retinas a carregá-las alegremente em frágeis blocos. Montanhas vibrantes de cercania solar, de chuva inaudita, de flores invisíveis possíveis de criar debaixo de tanto céu, tanto lume cromático, tanta conjectura de lugar
.


2


Os meus dedos dactilografam do mesmo modo… (talvez contribuam com seus ruídos para aumentar os ruídos naturais de fundo).
As vozes elevam-se pretendendo matizar as aspirações de solidão a que os espaços obrigam. Cânticos pujantes de fragrância primaveril caem de surpresa no nevoeiro. Os lábios adensam as notas. Lábios fechados por rugas habilmente conseguidas. Lábios dobrados sobre dentes felizes. Lábios que riem debaixo da opressão tensa do manto ungido de vários tons (eu vermelho, tu azul, ele verde, ela cinzento…). Começa a lide cromática. Cada cor requer um espaço maior na tela. Claro que nenhuma quer sucumbir. Claro que nenhuma deseja dissolver-se anonimamente. E assim continua, assim caminha, assim se vê esfumar as folhitas a preto e branco deste calendário que transpira o suor de um calor intangível
.


3


As montanhas permanecem impávidas. Dúvida tremenda: arranhar-se debaixo do manto carnal ou remover os caules difusos tentando encontrar o perfil da flor única à luz de um enlevo descolorido.

Alejandra Pizarnik, in La Tierra Más Ajena (1955)

Versão de HMBF

Terça-feira, 7 de Junho de 2011

HEREAFTER (2010)





O problema da imortalidade da alma não encerra o da possibilidade de existir uma qualquer forma de vida além da morte. O primeiro foi bem explanado por Platão no Fédon e decalcado pela socialite Lili Caneças no seu conhecido resumo da obra platónica: estar vivo é o contrário de estar morto. O segundo as pessoas tentam resolvê-lo recorrendo a bruxas, videntes, parapsicólogos, médiuns, programas da TVI. No fundo, ao pretenderem comunicar com os mortos as pessoas desejam saber-se imortais, ou seja, anseiam por uma qualquer prorrogação da existência sob formas improváveis. Quanto mais improvável melhor. Nestes assuntos, a lógica tem uma estrutura peculiar: até prova da improbabilidade, considere-se provável o improvável. Isto é: se não consegues provar a existência de vida além da morte, tens de provar que a vida além da morte não existe. O busílis da questão reside num erro de princípio. A haver vida além da morte, a morte não existe. Existe apenas vida. para os padrões ocidentais isto será sempre difícil de assumir, mais que não seja pela ilógica das premissas. Como pode a morte não existir para que exista apenas vida? Certo é que a todos cabe o inevitável kaput existencial. O corpinho deixa de se mexer, a carne apodrece, os ossos fazem-se pó, os rins, os pulmões, o coração recusam a próxima dança. As experiências de quase morte falam-nos de luz, de leveza, de uma certa forma de energia que, lá vem o Caneças da Academia, se liberta do corpo, essa terrível prisão, e vai desta para melhor. Atentem-se na expressão: desta para melhor. O além da morte é sempre melhor, o outro lado da vida é só leveza, paz, silêncio, calma. O inferno ou não existe ou ainda não foi sentido, experimentado, por ninguém em fase post mortem. Provavelmente as pessoas que tiveram essas experiências eram todas boazinhas, tinham-se em óptima conta, e por elas aguardava apenas a leveza do paraíso. Desde já confesso que o meu cepticismo não vai tão longe. A acreditar numa outra forma de vida que não esta, espero que seja pelo menos tão infernal. Os seres humanos merecem a guerra, seria indecoroso oferecer-lhes apenas a paz. Hereafter, de Clint Eastwood, aborda estas questões. Excelente título, dificilmente traduzível para a língua de Camões, mas com indícios de uma ambivalência nem sempre clara no cinema deste vidente. No filme, o dom de falar com os mortos transforma-se numa maldição. O médium no centro da acção, homem admirador de Charles Dickens, preferia não ter contactos com o after. A única coisa que ele deseja é um here normal, exequível, digamos assim, um here que lhe permitisse viver a vida por que está a passar mesmo sabendo que a outra há-de um dia chegar. A mensagem, a haver uma mensagem nestas coisas, será: para que queres saber se existe uma vida além desta? Não preferes saber o que é esta? A charlatanice ameaça o tema, mas não o consome, porque no centro da narrativa está o desejo de uma vida simples. Lembrei-me de The Elephant Man enquanto via Hereafter. Cada um dos protagonistas é uma aberração na demanda de um direito básico: uma vida normal. Repare-se como em Hereafter é esse o verdadeiro problema: um jovenzito perde o seu irmão gémeo enquanto ambos tentavam ajudar a mãe a libertar-se da toxicodependência, uma jornalista famosa vê o seu estatuto ameaçado na sequência de uma experiência traumática, o vidente deseja não ver. Todos eles querem uma vida simples. Todos eles tocados pela morte, buscam uma só coisa, a mais importante: uma vida simples. Esta, agora, aqui. A de depois logo se verá.

ANA GOMES

Ainda há pouco tudo se podia chamar a José Sócrates (nazi, Hitler, fascista, mentiroso, ladrão, etc., etc., etc….). Agora porque a Ana Gomes disse umas verdades, toda a gente se indigna. País de hipócritas. Merda para este país de hipócritas e falsos puritanos. Não há paciência.

100 ÁLBUNS ASSUSTADORES #18





O japonês Ryuichi Sakamoto é capaz do melhor e do pior. Em 1996 esteve no seu melhor. Para tal bastaram um piano, um violino e um violoncelista exímio: Jacques Morelenbaum. Basta ouvir o tema 1919 para o comprovar. Neste álbum, Sakamoto recupera algumas composições escritas para filmes como The Last Emperor ou Merry Christmas Mr. Lawrence. Os arranjos são simples, oferecem-nos uma música despojada de efeitos sonoros artificiais e concentrada na orgânica de três instrumentos base. Os elementos adicionados em dois ou três temas são excepções a confirmar a regra. Como é óbvio, em 15 temas o tom geral é algo volátil. Mas mesmo quando as composições ameaçam resvalar para pinturas trágicas ou épicas, mesmo quando percorrem dedáleos e sombrios recantos, provocando uma ansiedade tipicamente cinematográfica, a melancolia e a introspecção tomam conta dos ambientes. Alguns temas remetem para paisagens ruinosas, um só corpo caminhando para um insidioso porto de abrigo, uma jaula, uma condenação. A perspectiva não sublinha qualquer dimensão elegíaca no decorrer do percurso, limita-se a olhar desencantadamente sobre os silvados, as casas abandonadas, os insectos que se atravessam no caminho permitindo à vida marcar presença. E depois olha para trás buscando as pegadas que levaram o corpo ao ponto onde se encontra, para daí perceber a impossibilidade do regresso, a irreparabilidade dos sonhos perdidos, depostos, entregues à sua fatal condição onírica.

Domingo, 5 de Junho de 2011

APOCALYPSE NOW (1979)




Já nem precisamos de postular um génio maligno por detrás dos desígnios humanos, tão evidente se tornou, ao longo dos séculos, a ilógica que governa o mundo. Ali duas jovens adultas, podiam ser mães, agridem, esmurram, pontapeiam brutalmente uma outra jovem, mais nova, sem que ninguém a auxilie. Antes pelo contrário, outros jovens nas imediações do acontecimento limitaram-se a gravar a cena para depois a exibirem no pardieiro da comunicação. A justiça actuou e o bastonário dos advogados, indignado com uma suposta exemplaridade da justiça, falou de perseguição medieval. Como é óbvio, a jovem agredida não era filha do bastonário. Não muito distante de onde tudo isto se passou, uma casa foi selada porque lá dentro mais de uma dúzia de crianças ficavam ao cuidado de uma ama com métodos de aquietação orientais. Uma novidade neste tipo de técnicas, o uso das bofetadas, do medo, da coerção para manter calados meninos em idade de fazer muito barulho. Alguns pais confiavam na ama, a ponto de a julgarem uma espécie de avó ao cuidado de quem os petizes ficavam enquanto a vida obrigava a afazeres que, nas sociedades em que vivemos, se sobrepõem, em importância e urgência, à educação dos filhos. Na China um jovem vende um rim para poder comprar um iPod e um iPad. A mãe só deu pelo negócio ao ver a cicatriz no tronco do filho. Salvas as devidas proporções, o cenário é de guerra. Não é preciso surfar debaixo de bombardeamentos de napalm, nem trazer à selva as coelhinhas da Playboy. A nossa capacidade de ajuizar os dias está por horas, a nossa moral ficou enterrada num mar de sangue e de lama. Há muito fomos tomados pela insanidade, nada de novo para quem esteja minimamente atento. Bem vistas as coisas, o apocalipse é esta morte lenta e nós vamos rio acima ao encontro do tal génio maligno sem nos darmos conta da sua presença por todo o lado. O absurdo delimita o campo de acção onde tudo é hoje possível. Por mais cuidadosos que sejamos na colocação dos pés não nos livraremos de pisar, aqui e acolá, a mina da estupidez, fazendo coisas das quais só não nos arrependemos por orgulho, vergonha ou medo. A guerra leva isto ao limite, é claro. A guerra é uma situação limite, apaga, ou pelo menos obscurece, aquela linha indefinível, mas que todos intuem, entre o bem e o mal, a sanidade e a loucura. Loucos estamos todos, e não é de agora, por julgarmos viável a captura do génio maligno, como se essa missão pudesse resolver os nossos problemas. Os problemas começam em nós próprios, no desequilíbrio das emoções, na incompetência para gerir fobias, desejos, ambições, na rotina com que a vida nos armadilha a vontade, na fraqueza crítica e autocrítica do espírito. Por mais defeitos que tivesse, Sócrates, o original, estava cheio de razão quando apregoava o autoconhecimento. É tudo o que nos resta. Se não nos levar à sabedoria, leve-nos, pelo menos, a uma menor estupidez.

PEDRAS

As pedras padecem de enganos que aos homens não lembra. Nem sequer por imaginação poderemos algum dia compreender os enganos das pedras. Só o tempo, ninguém mais que o tempo, poderá emendar tão estranho infortúnio.

FUTEBOL E JORNALISMO LITERÁRIO

Fui ao café do bairro ver o jogo da selecção, gesto arredado dos meus hábitos desde que a Ana trouxe o MEO para casa. Devia fazer isto mais vezes. O café do bairro é um retrato fiel do país nas suas inúmeras variantes. Ontem, entre várias personagens de interesse inquestionável, salientava-se um indivíduo que, tivesse ido ao estádio, teria passado o jogo todo a assobiar o Cristiano Ronaldo. Mais do que pretender a vitória da selecção portuguesa, o tipo estava interessado em assobiar o Cristiano Ronaldo e em elogiar facciosamente tudo o que era jogador do FCP. Se por absurdo a selecção da Noruega tivesse mais jogadores do FCP do que a de Portugal, aposto que o tipo teria torcido pela selecção norueguesa. Nunca vi tamanho facciosismo. O mais que se aproxima disto é o António Guerreiro com as suas croniquetas no Atual.

FEITO

Levantei-me cedo. Agarrei nos jornais, fui beber um galão e comer um folhado misto. O último post do José Rentes Carvalho não me saía da cabeça: Amanhã irei votar. Hoje pergunto-me por que o faço. No suplemento de Economia, mais do mesmo: 42% das empresas municipais não contribuem para o PIB. A maior parte delas foi criada por câmaras lideradas pelo PSD. Isto não pode continuar assim, nesta sufocante ditadura das clientelas. Indeciso entre PCP e PEV, acabei por votar na CDU. Mas por pouco não segui o exemplo da minha vizinha do lado. Perante a qualidade generalizada, não resistiu a votar em todos.

Sábado, 4 de Junho de 2011

SEM TÍTULO


Acordei com uma dor do lado inteiro do corpo, a noite passada com contornos apagados pelo excesso de tempo, a carne a fazer-se pó, a memória levantando-se numa nuvem de fumo. Mantenho na tela do espírito os traços que me foi possível desenhar: mãos, ombros, lábios, e um cheiro adocicado a baunilha do qual nunca mais me libertei. Cada um destes contornos, mantendo-se inalteráveis na tela do espírito.

Ando de mão dada com imagens fugazes, memórias efémeras, palavras incrustadas numa folha como gravuras numa pedra, a caligrafia nervosa das paixões proibidas, o lacre onde cada uma das impressões foi digitalizada para que mais tarde, quem queira, possa fazer prova: este homem não foi uma personagem de ficção, existiu, carne, osso, veias, nervos, sistemas centrais e periféricos em curto-circuito. E amou.

Os livros são uma companhia paciente, não reclamam a nossa ausência senão quando nos fazemos notar com um sublinhado, um apontamento nas margens, uma dobra nas pontas. Olho-os dispostos anarquicamente na mesa-de-cabeceira enquanto do cabelo me caem contornos apagados pelo excesso do tempo, caem sobre a almofada suada, espalham-se pelos lençóis, células em fuga, desvanecidas, mortas, o último resquício de uma guerra sem fim.

Subitamente atravessado pela dor, penso que a retórica é um vício mediterrânico propagado por onde andaram os impérios da democracia grega e dos parlamentos romanos. A retórica foi de caravela para o Novo Mundo e aniquilou o que ainda restava de inocência sobre a Terra. Somos todos vítimas da retórica, o mais falarmos do que fazermos, o mais dizermos do que actuarmos, o mais escrevermos do que agirmos. E nenhum valor ter já o verbo.

Nasci com uma falha na vontade que me impede o passo derradeiro. No abismo já eu estou, falta-me a força para escalar as paredes pedregosas, as escarpas, as encostas, os muros e chegar à superfície do medo com o esquecimento às costas, como uma mochila arrumada para aventuras impossíveis. Eu queria aniquilar o verbo, dar músculo e nervo e osso e carne ao verbo, torná-lo humano, demasiado humano, para que enfim as células pudessem já não ser apenas vestígios apagados de uma coisa que aconteceu.

A SUL DE NENHUM NORTE 2

É ir por aqui.

Sexta-feira, 3 de Junho de 2011

LIVRO DE ESTILO

Se quiseres uma flor, não venhas aqui. (23/05/05)

Quinta-feira, 2 de Junho de 2011

37 ANOS

Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado.

José Mário Branco, in FMI

ISTO ERA PARA SER UM CONTO

Isto era para ser um conto. Tenho Alejandra Pizarnik aberta à minha frente, uma taça de tinto do lado esquerdo, o Ventil a arder no cinzeiro que a Ana trouxe de Odeceixe. Julgo ter sido de Odeceixe. Não quero voltar a mentir. No outro dia presumi que nunca tivesse lido Herberto Helder, esquecendo aquele exemplar do Passos em Volta lido, creio, por lhe ter eu oferecido os cães donos de um pescador. Sobre a Arte de Amar, naquele momento em que o vinho põe o coração a jeito, um nó ofertado pelos colegas de trabalho. José Mário Branco, mais um cadáver na praia, toca onde as marés desfalecem. Sinto-me melancólico, faltam-me pernas para a saturação, sonho com montanhas, serras inteiras afundando-se num mar de lama. Há pássaros que me nascem dos poros, mas não ganho asas. Falaram-me há dias de duas velhas que costumam encontrar-se no Bocage, um bar aqui em Caldas, ali para os lados da Praça da Fruta. Vão lá todos os dias. Entram, olham a sala, procuram uma mesa disponível. O Bocage tem uma sala rectangular atravessada por um balcão em forma de L invertido. Um L invertido é um T maneta. Neste caso, falta-lhe o ombro esquerdo, isto se o ponto de referência for quem o olha de frente. Enfim, cada uma das velhas senta-se numa ponta da sala. Acabam sempre metendo conversa uma com a outra. Ou porque folheiam uma revista, um jornal, e são despertadas pela indignação, ou porque a juventude passa descomprometidamente do outro lado da montra, ou porque José Gomes Ferreira escreveu sobre pessoas expostas em vitrinas, tudo as leva ao encontro da palavra. Trocam impressões, discutem, se for preciso, arremessam argumentos em voz alta que passam por cima dos demais sem que os demais se dêem sequer conta do que ali acontece. Duas velhas unidas pelo simples gozo de falar, cada uma a seu canto, como Ovídio, agora mesmo, aqui a meu lado insistindo que lhe massaje a página 37. Juro que estas velhas existem, juro que o Bocage existe, juro que alguém as viu. Isto era para ser um conto, os bombos que agora reclamam as multidões exploradas em águas calmas nada têm que ver com as velhas do Bocage. Enfim, o que quero dizer é que não há dia que as velhas não entrem no Bocage e se ponham a tagarelar em voz alta, cada uma a seu canto, indiferentes a quem está, entra ou sai. Quem ali vai simplesmente beber um café, ou pedir um copo de água, ou comprar um bolo, fazer uma refeição amena, quem ali entra sem outro intuito que não seja sair, terá que comer com as velhas e suas impressões atiradas pelo ar como mensagens em papelinhos dobrados. Os papéis não existem, apenas representações. Duvido que saibam de Alexandra Pizarnik e da noche soleada del vigoroso participio. Pretenderão, por certo, ser felizes. Nada mais alguém pretende. E cada uma a seu canto saberá do que as traz pelo riso, pela alegria, pelo amor, cada uma a seu canto saberá da solidão apartada pelos papéis arremessados imaginariamente de uma ponta a outra do Bocage. Estranho, porém, o que se segue. Não há dia, não há vez, que a momento indeterminado daquele encontro, daquela partilha, uma delas se levante e vá sentar-se na mesa da outra. É sempre assim, a história repete-se, o gesto renova-se. Entram, sentam-se em lugares distantes, falam pelo ar em voz alta, toda a gente as ouve, toda a gente as vê. Depois, uma delas levanta-se e dirige-se à mesa onde a outra se encontra. Senta-se. Então, ambas se calam, fecham-se num silêncio de morte, nada dizem, é como se aquela deslocação significasse uma coisa tão simples como: fim, acabou-se a conversa, agora estamos aqui uma ao pé da outra, nenhum palavra mais é necessária para que enfim o vómito sepulte o mito, Alejandra Pizarnik unida a Ovídio e José Mário Branco tocando a serenata. Simplesmente se calam quando se aproximam, simplesmente nada mais dizem, nada mais parecem ter a dizer quando a distância que as separava acaba superada por uma simples deslocação. Isto era para ser um conto, mas não é. Há tanto nesta terra que ainda está por fazer.

Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

O NEPOTISMO

Independentemente de custos e ganhos, o nepotismo é sempre nepotismo. O nepotismo não é menos censurável entre indigentes. O nepotismo é tão censurável entre indigentes como entre as elites. De resto, por vezes, as elites revelam-se extremamente indigentes. É o que acontece em sectores sociais como o da cultura literária.

VOTAR PSD




Bem sei que em Portugal a memória pouco importa. A generalidade das pessoas deixa-se levar pela onda, não chega sequer a ter esperança. A onda, neste momento, parece ser laranja. É semelhante à onda que, no passado, trouxe a terra os primeiros-ministros Cavaco, Durão e Santana. Cavaco, rei das auto-estradas, deixou um legado invejável: da destruição das pescas ao patrocínio de uma agricultura de tracção às quatro rodas foi um ver se te avias. Acabou tudo à pancada na ponte, polícias contra polícias no Terreiro do Paço, Paulo Portas sem mãos para as polémicas sucessivas trazidas à primeira página de O Independente. Fernando Nobre, que em Janeiro deste ano, repito, em Janeiro deste ano acusava Cavaco Silva de ter tido, enquanto primeiro-ministro, «um Ministério do Mar que destruiu grande parte da frota pesqueira portuguesa», é agora candidato pelo PSD a Presidente da Assembleia da República. Coisa nunca antes vista, isto não é apenas vergonhoso, isto é não ter vergonha na cara. Passos Coelho recupera tudo o que o cavaquismo teve de pior, nomeadamente a distribuição anunciada de tachos e... Eduardo Catroga, o ministro dos pentelhos. O PSD não é apenas o partido de uma mulher que adorava suspender a democracia por uns tempos para se ver livre de adversários políticos que ela não suporta, é o partido que durante muitos anos deu guarida a Isaltino Morais, é o partido que, em tempos, escolheu para secretário de Estado dos Assuntos Fiscais o maior ladrão português do séc. XX: José de Oliveira e Costa, o homem de todas as trafulhices no caso BPN. Teve bons colegas de trabalho: Dias Loureiro foi um deles. Este Dias Loureiro não é um homem qualquer, foi Ministro dos Assuntos Parlamentares e Ministro da Administração Interna, foi membro do Conselho de Estado. Está inocente até prova em contrário. Também inocente está o efémero Durão Barroso, ali fotografado ao lado de um criminoso que invadiu nações autónomas e independentes, coadjuvado pelos cúmplices europeus, na base de puras mentiras. As mentiras daqueles quatro homens mataram milhares de inocentes, provocando custos ao mundo que ainda estão por contabilizar. Mas isto são pormenores. Nada disto interessa a quem for votar nas próximas eleições. Santana Lopes é um caso paradigmático deste desinteresse, conseguiu vencer várias eleições não passando de um ardiloso incompetente. O resultado das suas contribuições para o bem nacional já várias vezes foi divulgado na imprensa nacional: aos 49 anos, uma pensão de 3178 euros como ex-presidente das câmaras da Figueira da Foz e de Lisboa. Mas Daniel Sanches, ex-ministro da Administração Interna de Santana Lopes, conseguiu melhor: reformou-se da Procuradoria-Geral da República com uma pensão mensal de 7316,45 euros. Num país miserável, a moral das elites banqueteia-se com discursos apelando à contenção e medidas de austeridade. Hipócritas. É isto o PSD. Passa pela cabeça de alguém que Passos Coelho tenha tomates para arrumar esta teia de interesses? Num partido ainda há não muito tempo multado pelo Tribunal Constitucional por financiamento ilícito?

ECLIPSE TOTAL




Nunca gostei de alemães. Não sinto qualquer complexo de culpa relativamente a este ódio de estimação. Cresci, como muita gente da minha geração, marcado pelas fotografias de Auschwitz-Birkenau que apareciam nos manuais de História Universal. Nos meus tempos de estudante, nutri um certo gosto pela Filosofia da História. Julgava Hegel odioso, mas Kant era muito pior. Leibniz um chato insuportável. Há aquela anedota do filósofo obsessivamente metódico, guiado pelos sinos da igreja, programado ao segundo nos seus afazeres. Os meus poetas alemães preferidos são os menos alemães de entre os alemães. Nietzsche, por exemplo, que ofereceu à Alemanha todos e mais alguns pretextos para que os alemães pudessem tornar-se... simpáticos. A prova de que são estúpidos é a tremenda incompreensão dessa obra dionisíaca gerada para lá das fronteiras impostas pelo tempo. O idealismo e o romantismo alemães chegaram a entusiasmar-me, mas apenas até àquele ponto em que o tesão se revela uma irrefreável vontade de urinar. Não admira que Hölderlin e Nietzsche tenham ensandecido, foi o azar de nascerem alemães que os arruinou. Fichte foi um bom alemão. Estudei minuciosamente Karl Jaspers, o nazi Martin Heidegger, o misógino Arthur Schopenhauer, e de nenhum deles retirei ensinamentos mais proveitosos para a vida do que dos discursos proferidos pelos chefes índios da América do Norte. Na verdade, sinto pela cultura alemã uma ansiedade semelhante à que eles sentiram pelos judeus. Com uma diferença: não lhes desejo a morte, nenhum tipo de genocídio, apenas e tão-só distância. Uma vez conheci dois alemães que se mostraram muito surpreendidos com a minha tendência para dizer mal de Portugal. Eu tentei explicar-lhes que um povo que não é capaz de rir de si próprio, apesar do fatalismo que o condena, é um povo detestável. Eles não compreenderam, julgaram que eu estava a ser irónico. Os alemães anseiam por uma Europa germânica, metódica, escrava da produção e subjugada ao stresse dos mercados e aos tremeliques das bolsas. A Europa civilizada dos alemães sempre foi a Europa especulativa, ou seja, a Europa vendida ao arbítrio do Mefisto, tão bem pintada por Johann Wolfgang von Goethe. Como é óbvio, há bons alemães. Basta pensar em Brecht, o emigrado. O problema não é esse. O problema é que eu não gosto de alemães, mas gosto ainda muito menos deste meu lado alemão de não gostar de alemães.

RECICLAR

O número de economistas e politólogos, para usar essa caricata expressão, todos de direita, é um enfado. E aquele case study do Medina Carreira, que até se atreveu a dizer que quando Portugal foi mais próspero, foi no tempo de Salazar? Este, mais o dos pentelhos deviam de fazer uma reciclagem aos neurónios.
Inês Lourenço, aqui.

UM HOMEM SENSATO

Escreve sobre mim/nós: aqui.