Desta feita, em resposta ao
Tolan:
1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?Já reli livros, mas evito fazê-lo por preocupações de organização e gestão existencial. Não há nenhum livro que eu releria várias vezes, mas há livros aos quais regresso vezes sem conta. Vou lá rever uma frase, um capítulo, buscar uma ideia, às vezes apenas uma palavra.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?Não. Por muito que me possa custar, faço questão de terminar todo e qualquer livro que comece a ler. Às vezes demoro muito tempo a chegar ao fim, mas a viagem nunca fica a meio. O
Ulisses, por exemplo. Li-o da primeira à última palavra, tenho-o sublinhado, apontado, até rasurado em algumas partes. E, curiosamente, é um dos tais livros aos quais regresso vezes sem conta.
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?Quando me apetece viver muito, escolheria todos os livros do livro
À la recherche du temps perdu. Quando me apetece viver pouco, escolheria
A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?À la recherche du temps perdu.
5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?Esta pergunta remete, essencialmente, para obras de ficção - e eu não sou um adepto incondicional dos livros de ficção. Mas assim de repente, lembro-me de dois. Um que li há não muito tempo, o
Pergunta ao Pó, de John Fante, com um tipo a lançar pelo ar, na direcção do deserto do Mojave, um exemplar do seu primeiro livro, dedicado a uma paixão malograda. Um outro grande final é o de
Luz de Agosto, de William Faulkner. Jamais o esqueci, embora agora não me lembre.
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?Quando era criança tinha o hábito de ser criança. É provável que lesse. Porém, ao olhar para trás lembro-me melhor dos mergulhos no rio, dos cigarros com barba de milho, das aventuras pela serra a apanhar rosmaninho para as fogueiras de Santo António. Seja como for, tenho uma teoria: uma pessoa deixa de ser criança quando começa a ler, aconteça isso aos cinco, seis, sete, oito anos…
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?Muitos. De poesia, então, centenas. Recordo-me que fiz um esforço estóico para chegar ao fim de livros como
O Monte dos Vendavais,
Estudos de Moral Moderna, do filósofo alemão Karl-Otto Apel, ou a
Tábua das Matérias, de Pedro Tamen. Porquê? Talvez por questões de química.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.Vou dividir a tarefa por três secções, mais uma intermédia. Na filosofia, tudo do Nietzsche, tudo do Michel Onfray, tudo do Feyerabend. Depois, o
Elogio da Loucura, a
Utopia, pequenos ensaios como
O Direito à Preguiça (Paul Lafargue) e
Uma Apologia dos Ociosos (Stevenson), Bertrand Russell (os escritos sobre axiologia, ética e religião), o
Ensaio Sobre o Homem, de Ernst Cassirer e quase todo o Ortega Y Gasset, os delírios do mestre Artaud, Bataille, algum Sartre, os aforismos de Cioran em doses moderadas, Wittgenstein, claro, os capítulos sobre a morte no
Ser e Tempo, de Martin Heidegger, algum Schopenhauer, algum Kierkegaard, Lipovetsky, Peter Singer, o
Espírito Nómada, de Kenneth White, Thoreau… Mas de todos os livros de filosofia que li até hoje, aquele que escolheria como tendo sido o mais marcante é:
O Papalagui.
Na poesia, todo o Ruy Belo, Alexandre O’Neill, Cesariny, Jorge de Sena (este com a passadeira estendida às três secções), Rui Knopfli, Fernando Pessoa (mesmo o que é mau), Nicanor Parra, quase toda a Alejandra Pizarnik, Huidobro, Sá-Carneiro, Manoel de Barros, Gullar, Michaux (outro dificilmente enquadrável), Baudelaire, claro, Pavese, Vian, Herberto Helder em doses moderadas, Pasolini… Dá-se também o caso, na poesia, de por vezes preferir os poemas aos livros e quase sempre os livros aos autores.
A Cena do Ódio, por exemplo, é um livro inteiro. E o que dizer do
FMI de José Mário Branco? Mas de todos os livros de poesia que li até hoje, aquele que escolheria como tendo sido o mais marcante é:
O Medo.
Na ficção, porque a história vai longa, refiro 10 obras que muito apreciei:
O Vermelho e o Negro,
Moby Dick,
Crime e Castigo,
Húmus,
A Metamorfose,
Memórias de Adriano,
A Náusea,
Debaixo do Vulcão,
A Queda,
Contos do Gin-Tonic. Estou a passar por cima do Danill Harms, do George Orwell, do Bukowski, do Joyce, do Saramago, de
A Montanha Mágica, de 2666, de
Fome, do Knut Hamsun, de Oscar Wilde, de Beckett, Gógol, Jorge Luis Borges, só para poder citá-los assim às três pancadas. Mais recentemente, descobri a prosa de J. Rentes de Carvalho e os livrinhos de Sam Savage que são uma maravilha. Mas de todos os livros de ficção que li até hoje, aquele que escolheria como tendo sido o mais marcante é:
Prometeu Agrilhoado.
Depois há as zonas intermédias, onde meto tudo da Maria Gabriela Llansol, livros como
O Livro do Desassossego,
Ofício de Viver,
Exame de Consciência,
Os Gatos ou o bom Chatwin.
9. Que livro estás a ler neste momento?Vou lendo vários livros intervaladamente. Neste momento, ando às voltas com a poesia da Alejandra Pizarnik, uma antologia de James Joyce (
Poems and Shorter Writings) e
Uma Antologia de Poesia Chinesa (tenho vários livros de poesia portuguesa contemporânea começados, mas aos quais só dedicarei mais atenção quando estiver menos farto dos poetas portugueses contemporâneos), a filosofia do Zizek (também tenho revisto o
Utilitarismo, de John Stuart Mill) e
As Anotações de Malte Laurids Brigge. Tenho começados
Daisy Miller, de Henry James, e um livro de contos de William Trevor intitulado
Cheating at Canasta. Por razões facilmente entendíveis se tivermos em conta a resposta à pergunta 7, ando há muito com
O Caminho dos Pisões aberto na mesma página.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário:Estão todos a ler, não têm tempo para isto.