quarta-feira, 31 de outubro de 2012

AGUENTA, AGUENTA!

Fernando Maria Costa Duarte Ulrich, que provém de uma família ligada à banca e às finanças, com raízes em Hamburgo na Alemanha do século XVIII, afirmou recentemente que o país aguenta mais austeridade. Não sei de que país Ulrich, que Estudou no Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa sem terminar a licenciatura, está a falar. Não sei se é da Alemanha do século XVIII, da Angola do século XIX ou deste Portugal exangue com pedintes por todo o lado e comércio devoluto. Duvido que Ulrich ande pelas ruas a pé. Certamente terá um chauffeur à boa maneira das famílias com raízes em Hamburgo na Alemanha do século XVIII. Também não sobreviverá com o chamado “ordenado mínimo nacional”, mas seria interessante colocá-lo (e a outros como ele) numa espécie de Big Brother para homens de fato cinzento e gravata azul, a viverem durante, vá lá, seis meses com 500€ por mês. Fernando Ulrich, que preside a um banco que encaixou 117,1 milhões de euros de lucros nos primeiros nove meses de 2012, só lamenta as imposições do Ministério das Finanças  relativamente aos custos com consultores, não sendo necessariamente por isso que reduziu agências e eliminou postos de trabalho. Este herdeiro de uma família com raízes em Hamburgo na Alemanha do século XVIII, ex-chefe de gabinete de um ex-ministro da extinta AD, que ainda há não muitos dias afirmava que a capacidade dos portugueses para aguentar sacrifícios é agora menor, vem entretanto acrescentar às afirmações anteriores que, afinal, apesar de essa capacidade ser menor os portugueses ainda aguentam mais sacrifícios. Eu tenho a certeza de que o filme preferido de Ulrich é A Paixão de Cristo, do Mel Gibson, e que não há cena que mais o excite do que aquela em que Cristo está a ser torturado pelos romanos aguentando, aguentando, aguentando, aguentando todo o tipo de castigos e violência. Ora, julgo que este sadismo do banqueiro com raízes em Hamburgo na Alemanha do século XVIII merece uma resposta à altura. Note-se como fala da Grécia: 


 
Se estão vivos, é porque aguentam. Um pouco à semelhança dos sobreviventes do Holocausto nazi, que aguentaram. Ou o bilhão de pobres no mundo, que aguenta. Ou toda a humanidade que atravessou a Idade Média e aguentou. Ou o que resta de índios nas américas, que aguentaram. Na cabeça de Ulrich, umas montras partidas e um bocadinho de mais veemência nos protestos são até compreensíveis neste cenário de irmos aguentando. Por mim, sei bem por que montras poderíamos começar não andássemos todos distraídos dos Ulrich deste mundo. Aqui deixo, ao cuidado de Fernando Maria Costa Duarte Ulrich, em jeito simbólico, um nome que não aguentou. Por detrás do nome havia um homem. Chamava-se Dimitri Christoulas, era grego, não aguentou. Como ele há mais, muitos mais, não só gregos, não só portugueses, que não aguentam. Mas esses não entram nas % de Fernando Maria Costa Duarte Ulrich, porque Fernando Maria Costa Duarte Ulrich, afinal, provém de uma família ligada à banca e às finanças, com raízes em Hamburgo na Alemanha do século XVIII.

QUAL O PERIGO DE REFLECTIRES E DE TENTARES? PODES DIZER-ME?

Rêgo, Lisboa. 2011.

Não julgueis que me calo por indiferença ou orgulho. Tenho, antes, o coração dilacerado quando me vejo transformado num objecto de escárnio. Todavia, quem mais do que eu terá oferecido dignidade aos novos deuses? Silencio, porém, aquilo que sabeis. Mas escutai as misérias dos homens; escutai como, no começo, eram eles ignorantes e os tornei cientes e senhores da sua inteligência. Digo isto sem qualquer censura aos humanos, mas só para vos mostrar que nasceram do coração das minhas dádivas. No começo, eles olhavam e não viam, escutavam e não ouviam, passavam a vida alongada e néscia como sombra de fantasias. Não conheciam as casas soalheiras e feitas de tijolos, nem a madeira trabalhada. Viviam em cavernas, nas eternas trevas dos profundos antros, como formigueiros fervilhando. Não possuíam signos para o Inverno, nem para a florida Primavera, nem para o fecundo Verão. Faziam tudo sem entendimento, até eu lhes ensinar o nascimento e o acaso das estrelas mais difíceis de avistar. Para eles inventei o número, suprema sabedoria, e a arte de juntar as letras, memória de todas as coisas e infatigável mãe das Musas. Fui o primeiro a submeter ao jugo e ao carrego os cavalos selvagens para que ajudassem os homens nos trabalhos mais fatigantes; fui o primeiro a atrelar a carruagem, ornamento de magnífica riqueza, os cavalos submissos ao freio. Primeiro e sozinho, eu congeminei os velívolos carros dos marinheiros que vagueiam pelo mar. Tudo isto inventei em favor dos homens, mas - ai, mísero de mim! - vejo-me incapaz de inventar um meio de libertar-me agora dos meus tormentos.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Ésquilo.

domingo, 28 de outubro de 2012

A MAIOR PARTE DA GENTE, NASCE, MORRE SEM TER OLHADO A VIDA CARA A CARA.

Cacilhas, Almada. 2011.


Quer queiram quer não queiram aí estão na minha frente, ridículos, maníacos, pueris, nesta marcha desordenada para o sonho; tenho-os na minha frente, e com eles a hipocrisia, as explicações confusas, as leis, as regras, os hábitos fétidos, e tudo o que lhes serve para encobrir as duas ou três realidades de que se não podem libertar, com a sua filosofia, os seus livros, as suas teorias - e no fundo instinto! instinto! instinto!; tenho-os aqui só bichos em frente da necessidade fatal, da verdade iniludível, com olhos abertos de espanto, com bocas murchas de mentir, a suar grotesco e a gritar de desespero. Tenho-os aqui ridículos, só ridículos, só enfim ridículos, mas já prontos para todas as infâmias. A vida espalmou-os, secou-os, deformou-os a todos. Andou por aqui a mão da desgraça, a mão do vício, a grande mãozada de ferro que deprime e esmaga. Um alimentou-se de lascívia, outro de sonho, outro de avareza, outro de fel. Todos diante da nova visão do universo se sentem grotescos e inúteis de corpo e alma, com lepras que nunca mais se limpam, com nódoas que nunca mais de lavam, com ideias e palavras entranhadas, com ímpetos de gozo e monstruosos apetites. Os anos passaram, os anos marcaram-nos. E ei-los nus, uns em frente dos outros, nus e reles, nus e grotescos, com o esplendor cada vez maior, cada vez mais doirado, cada vez mais sôfrego diante de si. Nus e obscenos, nus, com doenças e infâmias secretas. Aqui está a embófia e o orgulho, aqui está o que come e digere, mas, no fundo deste estômago que esmói, há ainda um resto de sonho; aqui está a velha que envelheceu ridícula, mas este ridículo é atroz. Tudo isto contém ânsia, ressuma dor até nas plumas, até nos trapos. Todos os sonhos absurdos, os sonhos que ninguém se atrevia a declarar, os produtos fétidos de noites sobre noites de relento e insónia, os ridículos sonhos de almas embrionárias, transformarem-se em realidade e resolvem-se em gritos, em dor e em grotesco. A puerilidade que constitui o fundo do nosso ser, as pequenas misérias que formam montanha, e as grandes tragédias desgrenhadas afundam-se em grotesco. A todo o drama se mistura grotesco, a toda a dor rictos, e toda a convulsão emerge a escorrer grotesco.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Raul Brandão.

DEBAIXO DO SOL


Sobre Bruce Chatwin (1940-1989) se diz ter sido um mestre da moderna literatura de viagens, rótulo que desagradava ao escritor por preferir ver os seus livros nas estantes de ficção a arrumá-los ao lado dos relatos de viagem. Quem leia as suas obras mais conhecidas – Na Patagónia (1977), O Vice-Rei de Ajudá (1980) ou O Canto Nómada (1987) - facilmente compreenderá o desconforto, pois neles de torna evidente um esforço de ficcionar a realidade, tanto a partir de retratos registados pela experiência, como na base de um intenso trabalho de recolha e investigação histórico-jornalístico. Tomando de exemplo O Canto Nómada, labor de uma vida publicado mais de 17 anos depois de assinar o contrato inicial, deparamo-nos com uma narrativa fragmentária onde se intrometem diversos apontamentos, sublinhados, diálogos, citações deliberadamente selecionadas para o efeito. Cubismo literário ou arte de colagem, é literatura a um nível genialmente inclassificável. Curiosamente, é neste domínio do inclassificável que melhor se entendem as cartas editadas e reunidas por Elizabeth Chatwin, viúva do autor, e Nicholas Shakespeare. De certo modo, esta recolha, apoiada por notas de rodapé preciosas e apontamentos biográficos que contextualizam, no tempo e no espaço, a produção epistolográfica reproduzida, funciona quase como uma espécie de autobiografia involuntária. Nelas descobrimos o homem para lá da lenda em que se transformou o autor, em momentos de revelação idiossincrática ora comoventes, ora desmistificadores. O Chatwin aventureiro de mochila às costas torna-se humano, demasiado humano, na inquietação permanente de quem se busca a si próprio indo ao encontro do diverso. Episódios caricatos alternam com confissões e desabafos, mas esclarecem um autor extremamente meticuloso e exigente nos assuntos profissionais e domésticos, empenhado em sobreviver em concordância com os seus sentimentos sem se expor a ponto de magoar terceiros. Daí a homossexualidade omitida, apesar do casamento nunca desfeito com Elizabeth, e a morte por sida transformada num raríssimo fungo tropical. Mas muito mais significante do que estes aspectos da vida privada são as passagens onde se esclarece, sem que no entanto se obvie, a personalidade humana que gerou o autor. Isso acontece, por exemplo, numa carta a Michael Cannon quando Bruce ainda trabalhava para a Sotheby’s: «A mudança é a única coisa pela qual vale a pena viver. Nunca passes a vida sentado a uma secretária. Seguir-se-ão úlceras e doenças cardíacas» (p. 54); ou quando numa carta a Sunil Sethi, de 1978, se refere à relação sempre complexa que manteve com a imprensa escrita (trabalhou para o Sunday Times): «O vício inveterado de todos os escritores ingleses é a sua atracção fatal por periódicos, o seu fascínio por revistas e a sua paixão por brilhar na edição. / Resolução do mês: Nunca escrever para jornais» (p. 239); ou ainda quando se refere à função do artista, numa carta dirigida a Keith Milow: «A função de um artista é trabalhar a) para si próprio b) deixar algo memorável para o futuro, escorar ruínas. Que se lixe o resto!» (p. 248). Foi este o investimento da inquietação que tomou conta, desde muito cedo, do homem Bruce Chatwin, dando origem a um escritor onde a errância e a vagabundagem foram métodos utilizados para a compreensão de si próprio e, de alguma maneira, de toda a humanidade. O nomadismo de Bruce Chatwin resulta de um conflito particular entre a necessidade de estar em trânsito e a busca de um lugar ideal para viver. Encontramos nestas cartas preocupações, até de algum modo excessivas, com a busca de uma casa, porque «toda a gente, de uma maneira ou de outra, é ciosa do seu território, e não vale a pena ter uma casa que não sentimos como nossa» (em carta ao arquitecto John Pawson, p. 350). Talvez o que inquiete o nómada seja, precisamente, o vislumbre desse território onde possa sentir-se integrado, em sintonia com o mundo e com as forças geradoras desse mesmo mundo. Já no termo da vida, Chatwin converteu-se à Igreja Ortodoxa e não deixa de ser sem perplexidade que o ouvimos dizer: «Quem me dera deixar de escrever, e tu? Esta actividade dos livros cada vez me convida mais ao silêncio» (carta a Murray Bail, p. 399). No fundo, apercebemo-nos que os estudos de arqueologia levados a cabo nos primeiros tempos encontraram o seu rumo na literatura. E que, provavelmente, a grande descoberta arqueológica de Bruce Chatwin foi o próprio Bruce Chatwin, quando se deparou com a morte num corpo consumido pela doença.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O QUE É A VIDA? O QUE É O PRAZER, SEM A DOURADA AFRODITE?

Praça D. Luis, Lisboa. 2011.

Que eu morra, quando estas coisas já não me interessarem:
o amor secreto, as suaves ofertas e a cama,
que são flores da juventude sedutoras
para homens e mulheres. Mas quando chega a dolorosa
velhice, que faz do homem belo um homem repulsivo,
tristes preocupações sempre lhe moem os pensamentos
e já não sente prazer em contemplar a luz do sol,
mas é odiado pelos rapazes e desonrado pelas mulheres.
Assim áspera foi a velhice que o deus impôs.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Mimnermo.

BOM ALUNO

Carlos Borrego (quem ainda se lembra dele?) saiu de um Governo depois de ter contado uma anedota; Manuel Pinho (quem o pode esquecer?) pôs-se a andar depois de ter simulado uns corninhos em plena AR; e Pedro Lynce (só eu para me lembrar deste) demitiu-se depois de ter sido acusado de criar um regime de excepção para favorecer a filha do ministro António Martins da Cruz (outra alma que andará perdida sabe-se lá onde). São apenas três exemplos de ministros que fizeram o que se esperava deles mediante situações de gravidade relativa. Miguel Relvas, tão preocupado em servir de exemplo à própria filha, vai colando o cu ao poder mesmo depois de se ter tornado evidente que lhe foi atribuído o grau de licenciatura por favor, em tempo recorde, com uma candidatura aceite fora do prazo legal e com equivalência a unidades que não existiam no ano em que frequentou o curso. São dados de uma auditoria à Lusófona que o Público hoje revelou. Este caso não é especialmente estranho num país de chicos-espertos, mas só mesmo um espécime dessa classe para não perceber a mensagem que está a passar ao país: não vale a pena estudar, o estatuto não se obtém pelo conhecimento, mas sim pelo grau de influência que se pode exercer. É uma mentalidade tipificadora do maior desprezo pelo que há de mais precioso numa sociedade democrática, o conhecimento, o saber; é uma mentalidade que coloca o exercício da política ao nível de um concurso como a Casa dos Segredos, onde os mecanismos de manipulação da opinião pública fazem o homem (um homem gasto na sua superficialidade, sem conteúdo, vazio, legitimado não pela moralidade das suas acções, mas pela destreza que aplica ao tornear a lei). Indivíduos como Relvas são o que não falta neste país. Que ele se mantenha no Governo por não perceber o mal que está a fazer ao seu país não admira (outra coisa não esperamos de indivíduos com tal carácter), mas não deixa de ser sintomático do fosso em que caímos ao constatarmos que ninguém por ele, naquele Governo, tem a consciência que ele jamais terá. Este caso aprofunda uma inevitável desconfiança sobre algumas das mais nobres instituições que dão forma a uma nação. A universidade (privada) em causa faz passar de si uma imagem absolutamente medíocre, de antro de negociatas e relações promíscuas com o poder; o Governo, na pessoa do Primeiro-ministro, mostra-se indiferente a esta pornografia de diplomas e graus académicos, como se fosse normal o que se passou ou como se não tivesse importância alguma. É um Governo, claro está, concentrado nos valores materiais, nas contas públicas e na dívida suprema. É um Governo que se está nas tintas para valores tão serôdios e obtusos tais como carácter, verdade, educação, conhecimento, honestidade. Só isso explica que Relvas possa continuar a fazer parte deste (des)governo. Isso ou as traficâncias denunciadas por Helena Roseta. Venha o Diabo e escolha.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

TU QUE EXPLORAS TUDO À TUA VOLTA E VÊS OS SIGNOS, SABERÁS DIZER-ME PARA QUAL DESTES FUTUROS NOS IMPELEM OS VENTOS PROPÍCIOS?

Damaia, Amadora. 2011.

O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Italo Calvino.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

PORTUGAL CONTEMPORÂNEO

Camarada Van Zeller, recebi hoje com pesar a notícia da sua demissão. Este país não precisa de mais homens a engrossarem as filas de desempregados às portas da Segurança Social, pelo que sugiro-lhe, desde já, que emigre para Angola ou para o Brasil. Não seja piegas, aceite os bons conselhos do Primeiro aos professores desempregados e crie a sua própria oportunidade num país ultramarino. Com sorte, encontrar-se-á pelo caminho com o ex-conselheiro de Estado Dias Loureiro. Dizem que é bom amigo de seu amigo. Junte-se-lhe na fundação, peço desculpa, na criação de uma pastelaria e dediquem-se às natas. Os comunas violentos dos estaleiros de Viana não chegam onde homens liberais e pacifistas como Loureiro chegaram, pelo que é seguir-lhe os passos e o exemplo. A verdade é que este país não tem tino desde que António Guterres, lá nos idos de 1995, pôs-se a fazer contas. Veio Durão Barroso, apontou o país de tanga e zarpou para paragens mais apresentáveis. Ficámos nas mãos do poeta Pedro Santana Lopes, cuja poesia nunca é demais recordar:

 

Este é um Governo a quem
ninguém deu quase o direito
de existir antes dele nascer,
e que, depois de nascer
através de um parto difícil
teve que ir para uma incubadora
e vinham alguns irmãos
mais velhos e davam-lhe uns
estalos e uns pontapés

 
Ó camarada, que bem faria Pedro Passos se deixasse Camões na paz e no sossego do túmulo e se dedicasse à hermenêutica destes versos. Mas os tempos são outros, o mundo está difícil e os violentos comunistas dos estaleiros de Viana não lêem poesia. De resto, duvido mesmo que leiam. Têm cara de ignorantes, um pouco à semelhança dos empresários do António Borges. É por estas, e por outras como estas, que gosto de lembrar o célebre discurso de Paulo Rangel num 25 de Abril de algures. Recordar-se-á o meu amigo de que já nessa altura Rangel se referiu à asfixia democrática então vivida no país. Foi num tempo em que os políticos podiam sair à rua, depois de Cavaco ter degustado um bolo-rei engolindo em seco o brinde enquanto ordenhava vacas e se interrogava sobre o porquê de nascerem tão poucas crianças em Portugal. Foi num tempo, bom tempo, em que Manuela Ferreira Leite podia questionar-se sobre se não seria bom haver seis meses sem democracia para pôr tudo na ordem. Nesse tempo, os violentos comunistas de Viana não existiam. Se calhar estavam numa incubadora, enquanto Sócrates tentava vender o primeiro grande computador ibero-americano e Miguel Relvas norteava a sua vida pela simplicidade da procura do conhecimento permanente. Não sei se nesse tempo Vítor Gaspar já tinha acabado o curso, mas duvido que lhe passasse pela cabeça participar num Governo com o propósito de retribuir o enorme investimento que o país colocou na sua, dele, educação. Eram bons tempos, porque andávamos distraídos com assuntos mais importantes do que o défice. Afinal, há mais vida para lá do défice. Há, por exemplo, o violento e comunista sindicato dos trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana. E parece que há António José Seguro, embora não saibamos onde nem quando nem como. Talvez sentado na bancada de uma Assembleia da República que ele próprio pretende reduzir, para ficar, quem sabe, a jogar uma suecada com o Zorrinho, o Passos e o Relvas. Enfim, um abraço deste que muito o estima. Dê cumprimentos meus ao coiso.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

METAPHORIA


De visita a Guimarães, passei pela Sociedade Martins Sarmento para mergulhar a cabeça, literalmente, num barril de metáforas. Debaixo de água ouviam-se vozes, música, poemas, uma viagem subaquática com os pés na terra. Metaphoria é uma exposição que resulta, segundo a curadora Sílvia Guerra, de «uma vontade de pensar como é que a poesia, um dos géneros literários mais fortemente enraizados na história de uma país como Portugal, permite a um povo preservar o seu inconsciente, os seus sonhos, num momento em que eles lhe escapam». Quis a força das circunstâncias que este trabalho conjunto, onde a poesia convive com diversas manifestações artísticas, num diálogo sereno, mas proveitoso, em torno do conceito de metáfora, fosse dedicada ao poeta Rui Costa. O catálogo reproduz alguns textos do autor, entre os quais o poema que abaixo reproduzimos. Integram a exposição obras/instalações de Ellen Leblond-Schrader, Joana Serrado, Katie Paterson e Jason Dodge. O catálogo inclui ainda um CD com uma peça musical de Hélène Breschand e Jean-François Pauvros, originalmente interpretada aquando da inauguração. Metaphoria pode ser visitada até 10 de Novembro.

 

A TRAPEZISTA

 

Começou a subir aos telhados
Começou a resolver neles muito tempo.
 

(Primeiro, os dedos na janela mais acima.
Depois, era o cabelo que subia.
Um pulso a içar a alma para outra cidade.)

 
Daqui vê-se tudo.
Os gatos deitam-se e lambem-me os pés.
 

Os pés sobem molhados pela chuva.
Os homens congeminam negócios estendidos nas mulheres.
 

As crianças gritam dentro das casas quando os sonhos
lhes arrancam pedaços das costas.
 

Os homens caminham com quadros pendurados nos joelhos
As pessoas escrevem artigos nas revistas
sobre o que seria o mundo se alguém do outro lado as ouvisse
 

E é então que eu saio
e sobre os ombros das árvores disponho a economia
cravando-lhe os dentes ou
roçando apenas o meu sexo
no trapézio

 
Inclino-me sobre a sua demência particular
neste dia emparedado entre sucessos e crisântemos
e as crises
e ouço as ruas onde lá em baixo uma pessoa
ajeita um pouco melhor os ossos

 
Aquela mulher fabricou uma cozinha resistente a tudo
atravessou os séculos assoberbada de electrodomésticos
inexpugnáveis – ao fim-de-semana envolvia-os em celofane e espanava
um pouco melhor os filhos.

 
Mais à frente o parque onde as estratégias se apresentam –
o presidente à frente, seguido pelo hidrogénio ou o hélio
- conforme a posição do sol no buço da democracia –
e o écran reflectindo o écran e a
maresia.

 
Aqui no alto rodo os pés e alongo mais os braços.
Nos primeiros meses estendia-me com o corpo para baixo e deixava
o sangue inundar a cabeça. Via manchas vermelhas da
menstruação por entre os amigos que prometia esquecer.
Eles traziam-me os seus corpos nus e eu aquecia as suas unhas
cravadas pelo vidro.

 
Dizem: se os videntes permanecem firmes perante pequenos tiranos
podem chegar a suportar a presença do incognoscível.
Todo o conhecimento é o resultado de uma deslocação.
Se é verdade que todos os caminhos são iguais?
Sim. Pois não te conduzem a lugar nenhum.
Se quiseres fazer como o feiticeiro índio da tribo iaqui,
perguntarás: e esse caminho tem coração?

 
Perdi a minha agenda de fenómenos electromagnéticos.
Não sei por isso de que lado esperar
este súbito irromper
da melancolia.

 

Rui Costa, in catálogo da exposição Metaphoria, curadora Sílvia Guerra, direcção editorial, François Prodromidès, Guimarães – Capital Europeia da Cultura, Outubro de 2012, p. 19.

Adenda: imagens da exposição aqui.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

MANUEL ANTÓNIO PINA (1943-2012)


Num quarto com vista para o Douro, vejo na televisão a notícia. Triste. Que mais dizer? É o ano da desgraça de 2012. Tanta falta farão as crónicas deste poeta, grande poeta.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

OH VÓS QUE VOS DIZEIS LIVRES-PENSADORES, FILÓSOFOS DE MEIA TIGELA, PORQUE NÃO SEGUIS O VOSSO CAMINHO ATÉ AO DESTINO?


São João do Estoril, Cascais. 2011.


Raskolnikoff passou no hospital quase toda a Quaresma e a semana da Páscoa. Depois de restabelecido, lembrou-se dos sonhos que tivera durante a doença. Pareceu-lhe, então, ver o mundo inteiro assolado por um flagelo terrível e sem precedentes que, vindo do fundo da Ásia, caíra sobre a Europa. Todos deviam morrer, salvo um pequeníssimo número de eleitos. Vermes microscópicos, de uma espécie até então desconhecida, introduziam-se no organismo humano. Esses corpúsculos, porém, eram dotados de inteligência e vontade. Os indivíduos infectados ficavam no mesmo instante doidos furiosos. Todavia – coisa singular! – nunca os homens se tinham julgado tão sábios, tão seguros da posse da verdade, tão confiantes na infalibilidade dos seus julgamentos, das suas teorias científicas, dos seus princípios morais, como pensavam estar esses infelizes. Aldeias, cidades, povos inteiros eram atacados daquela moléstia e perdiam a razão, não se compreendendo uns aos outros.
Cada um julgava saber, ele só, a inteira verdade e, contemplando os seus semelhantes, afligia-se, batia no peito, chorava e torcia as mãos. Ninguém se entendia sobre o bem e o mal, nem sabia quem condenar ou absolver. Matavam-se uns aos outros, movidos por uma cólera absurda. Reuniam-se formando grandes exércitos, mas, começada a campanha, as tropas dividiam-se bruscamente, as fileiras rompiam-se, os guerreiros lutavam entre si, assassinavam-se e devoravam-se. Nas cidades tocava-se a rebate de manhã à noite, eram todos chamados a pegar em armas. Mas, porquê, e a que propósito? Ninguém o sabia e toda a gente andava inquieta. Cada um dava a sua opinião, propunha as suas reformas, e nunca chegavam a acordo; a agricultura tinha falta de braços. Aqui e além reuniam-se grupos, assentavam um plano de acção comum, protestavam jamais se desunirem. Mas não demorava que se esquecessem do juramento feito e começassem a acusar-se mutuamente, a bater-se, a matar-se. Este quadro desolador era completado pelos incêndios e pela fome. Tudo perecia, homens e coisas. O flagelo cada vez assumia proporções mais assustadoras. No mundo inteiro só conseguiriam salvar-se alguns homens predestinados a propagar o género humano, a renovar o mundo. Esses, contudo, ninguém os vira em parte alguma, ninguém ouvira as suas palavras, nem o som das suas vozes!

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: F. M. Dostoievski.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

PAÍS FACEBOOKEADO


O Correio da Manhã deu a notícia, e o povo, fazendo fé do jornalismo de referência praticado pelo periódico em causa, deu eco à situação tal como ela lhe chegou. A cruel directora de uma escola teria privado uma criança de uma refeição, sentando-a no refeitório a ver as outras crianças deglutirem o bife do dia, qual torturadora nazi, e proibindo uma caridosa auxiliar de acção educativa de levar o pão à boca faminta da humilhada criança. De imediato se fizeram petições exigindo a demissão do carrasco, a indignação proliferou como erva daninha, misturada com uma raiva e um ódio que, vivêssemos na Idade Média, teria justificado justiça pelas próprias mãos em plena praça pública. E a senhora directora já estaria enforcada. O país está perigoso, insuportavelmente perigoso. Aprofundada a notícia, ficamos a perceber o problema. E entre a compreensão do problema e a pintura sensacionalista que o Correio da Manhã lhe ofereceu vai uma enorme diferença. Lembrei-me logo dos alunos que solicitavam apoios sociais chegando de jeep à escola, gozando com o parque automóvel degradado dos docentes ao mesmo tempo que pegavam no seu telemóvel última geração para pedirem aos encarregados de educação mais uma declaração de rendimentos falsa. Vi disto às centenas nas poucas escolas onde trabalhei, e lembro-me muito disto agora. Afinal, a directora da escola tentou resolver um problema que se arrastava há mais tempo do que o suportável e, pelos vistos, colocava em causa o apoio dado às outras crianças. Os miúdos não têm culpa, é certo, de ter uns encarregados de educação irresponsáveis, que recusam justificar o porquê de não pagarem os almoços, como outros fizeram ficando isentados de pagar ou negociando o valor exigido. É um caso entre muitos que pode levar-nos a perguntar ao povo, que na praça pública vocifera e aponta a directora da escola, o que faria se, tendo uma loja aberta, lhe aparecessem reiteradamente a pedir fiado os mesmos clientes, sem justificar o porquê da dívida acumulada e, muitas vezes, ostentando um modo de vida que não deixa perceber o porquê das dificuldades. Bem sei que uma escola não é um negócio, e que o estômago da pobre criança não é responsável pelo que se passa à sua volta (por isso lhe terão levado pão e leite, mais um lanche reforçado), mas cabe interrogar-nos sobre o que fazer quando o vício nos bate à porta: alimentá-lo ou tentar corrigi-lo? Eu sou pela segunda opção, e por isso defendo um ensino verdadeiramente gratuito e público. Mas para que tal seja possível é fundamental que todos os cidadãos sejam responsáveis e sérios, o que está longe de se realizar muito por culpa, lá está, do estado degradante a que deixámos chegar a educação em Portugal. As redes sociais e o sensacionalismo fazem o resto.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

NO SENTIDO DA NOITE

A obra de Jean Genet é um daqueles casos onde a experiência do homem e a expressão dessa experiência se uniram para gerar um mito. Para tal, contribuiu fortemente o famoso ensaio que Jean-Paul Sartre lhe dedicou. Saint-Genet Comédien et Martyr (1952) chegou a ser determinante no percurso literário de Genet, provocando uma crise produtiva que apenas viria a ser interrompida com textos breves e peças de teatro. Filho ilegítimo de uma criada para todo o serviço, nasceu em Paris no ano de 1910. A mãe entregou-o aos cuidados de uma instituição pública, vindo a falecer em 1919. Acusado de roubar quando tinha apenas 10 anos, foi internado na casa de correcção de Mettray. Aí permaneceu praticamente até aos vinte anos. Essa experiência foi a matriz do primeiro dos textos coligidos No Sentido da Noite (Sistema Solar, Junho de 2012), volume que em boa hora recupera alguns dispersos de Jean Genet anteriormente publicados entre nós, na sua maioria, pela Hiena Editora. A Criança Criminosa (1948) foi escrito para ser lido no programa radiofónico Carte Blanche, onde também deveria ter sido transmitido Pour en Finir avec le Jugement de Dieu, de Antonin Artaud. A censura da emissão levou Fernand Pouey, então autor do programa, a demitir-se. Trata-se de um texto provocatório onde Genet se refere à função das casas de correcção desmascarando conceitos como os de mal e de (re)educação, para daí assumir uma tomada de posição veementemente refractária da moral vigente e seus sistemas de socialização: «Quanto a mim, escolhi: vou estar do lado do crime. E vou ajudar as crianças: não a voltar para as vossas casas, as vossas fábricas, as vossas escolas, as vossas leis e os vossos sacramentos, mas a violá-los» (p. 29). Esta noção de crime deve ser entendida em toda a sua amplitude estética, e não apenas moral, na medida em que configura uma visão da arte enquanto acção libertadora e, dito de outro modo, enquanto acto de sabotagem das leis, normas e regras que oprimem os indivíduos numa sociedade mais empenhada em castrar do que em deixar florescer. É impossível dissociar esta perspectiva da repressão sexual colocada sobre o pederasta assumido que era Jean Genet, mas ela deve ser também compreendida na dimensão mais complexa de quem procurou desvelar na sua obra, iniciada em 1939, uma relação explicitamente conflituosa com as instituições zeladoras de uma Sociedade hipócrita. Podemos pois afirmar sobre Genet o que o próprio afirma num texto dedicado a Jean Cocteau (1950): «Poemas, ensaios, romances, teatro, toda a obra abre fissuras; e pelas fissuras deixa descobrir a angústia. Um coração extremamente complexo e doloroso queria esconder-se e desabrochar, ao mesmo tempo» (p. 36). Os criminosos na obra do autor de Notre-Dame-des-Fleurs (1943) assumem, neste sentido, o papel ambíguo do criador que, na mesma medida em que se dá vida na sua criação, mata-se aí mais um pouco. A sua posição é de oposição, primeiro à Sociedade e, no limite, à Moral que dá forma a essa mesma Sociedade. Na Carta a Jean-Jacques Pauvert (1954) e no texto Como Interpretar Les Bonnes (1962), indissociáveis por ter sido Pauvert o editor das duas versões da peça em causa, fica patente esta consciência dramática da criação, ainda que a mesma deva admitir um jogo entre a verdade e a encenação dessa mesam verdade: «Uma das funções da arte é, sem dúvida, substituir a fé religiosa pela eficácia da beleza. Esta beleza deve ter, pelo menos, a força de um poema, quer dizer, de um crime» (p. 42). Desafio permanente à autoridade, esta obra, onde a brutalidade do crime se transforma em beleza e a sexualidade desviante faz tremer os alicerces de uma moral conservadora, parece estar enraizada numa percepção do artista enquanto actor cujo palco é a sua solidão intrínseca. Pelo menos, é essa solidão que mais vem à tona nos Fragmentos (1954), rascunhos para um poema escritos em torno da relação com o prostituto italiano Decimo Christiani que quase terá levado Genet ao suicídio, e em O Funâmbulo (1957), “carta poética” a Abdallah Bentaga, protegido de Genet que se suicidou após o corte de relações: «Para o poeta dispor da solidão absoluta, a que precisa se quiser realizar a sua obra – extraída de um nada que ela preencherá e fará ao mesmo tempo sensível – poderá expor-se numa atitude qualquer, que seja para ele a mais perigosa. Afasta cruelmente todos os curiosos, todos os amigos, qualquer solicitação que tratasse de lhe inclinar a obra para o mundo. Queira ele, pode proceder assim: espalhando à volta um cheiro tão pestilencial, tão negro, que ele próprio se perca nele e fique por causa dele meio asfixiado. As pessoas evitam-no. Permanece só. A maldição aparente vai permitir-lhe todas as audácias porque mais nenhum olhar o perturba. Vê-lo-emos mover-se num elemento parecido com a morte, o deserto. A sua palavra não levanta nenhum eco. E porque ela já não se dirige a ninguém, já não deve ser compreendida pelo que está vivo, deve enunciar uma necessidade não exigida pela vida mas pela morte, que a ordenará» (p. 78). A citação justifica-se pelo que parece conter de pedagógico relativamente ao processo criativo do próprio Jean Genet. Aqui, a solidão não é apenas condição essencial do poeta, é também método. É o método que coloca o autor num lugar privilegiado, ou seja, o lugar onde as convenções se afundam e o homem emerge, o lugar onde o olhar do outro se distancia para que o olhar próprio possa dançar sem quaisquer constrangimentos. No pequeno ensaio intitulado A Estranha Palavra Que…(1967), Genet aprofunda estas concepções tendo por objecto de análise o teatro. E aí fala de um «teatro entre túmulos», isto é, um teatro muito mais de acordo com a vida, afastado da ordem científica que tudo pretende iluminar, lançando sobre as coisas uma luz artificial, mas próximo das entranhas da terra, que tudo consome e faz renascer. Nesta capacidade paradoxal de dizer a vida mostrando a morte parece assentar, igualmente, a interpretação da obra de Rembrandt sobrada em dois textos fragmentários aqui coligidos: O Segredo de Rembrandt (1958) e O que sobrou de um Rembrandt rasgado em quadradinhos muito perfeitos e que foi à vida nas latrinas (1967). Tendo Rembrandt como pretexto são, como sempre acontece, textos sobre Jean Genet. Ou, pelo menos, textos onde quem os escreveu se dá a ver resguardando-se de quem o lê. Destes paradoxos se fez a obra e a vida de um homem, sendo provável que não apenas de um homem, mas, pelo menos, de parte do que existe em todos os homens que criam.

A QUEDA MAIS ALTA DE TODOS OS TEMPOS



Camarada Van Zeller, na mesma semana em que um austríaco, a viver acima das suas possibilidades, subiu 39 mil metros para dar o salto mais alto de todos os tempos, o Governo português apresentou o Orçamento de Estado 2013 para cair definitivamente no mais fundo abismo de que há memória. Esta semana de recordes é também a semana em que ficámos a saber o que move homens inteligentes como Vítor Gaspar no Governo. O ministro confessou que está a tentar retribuir o custo que o país teve com a sua educação, está a tentar devolver ao país esse custo. Como? Procurando arrecadar 70.589.600.000€ em impostos no próximo ano. Repare-se como nos saiu cara a educação de Gaspar, ainda ontem fotografado, ao lado de outro espécime cuja boa educação também nos tem sido tão onerosa, a oferecer um livro de anedotas a uma cocker spaniel reformada, aos 42 anos, por 10 anos de trabalho no TC que lhe valem 7255€ mensais.

 

Definitivamente, a educação está pela hora da morte em Portugal. Perante isto, restava-nos o blasfemo Abreu Amorim no Prós & Contras, abrindo os braços ao povo e suplicando: faltam apenas 20 meses, bom povo português, faltam apenas 20 meses para termos todas as nossas dívidas saldadas… Dezenas de anos de auto-estradas, estádios de futebol, CCBs e Expos, dezenas de anos de BPNs e práticas corrosivas legitimadas pelo silêncio oportunista do poder, trouxeram-nos aqui. E o que os Abreu Amorins têm para dizer é: faltam apenas 20 meses. 20 meses pra quê? Para podermos ficar todos miseráveis, desempregados, falidos, mas com as reformas da cocker spaniel e a boa educação do Gaspar pagas. 20 meses para que o viveiro de robalos do Dr. Vara possa continuar a dar ovas e o conselheiro de Estado Dias Loureiro possa continuar a passar férias. 20 meses de saque absolutamente cruel e desmedido, com consequências trágicas para a população, tendo por objectivo honrar os compromissos de Pedro Passos Coelho: 


domingo, 14 de outubro de 2012

GULAG FISCAL


Camarada Van Zeller, chegámos a uma fase da vida política em que cada um se esforça por encontrar a expressão mais potente e sensacionalista para caracterizar aquilo que até há pouco era visto por todos os que agora falam como uma necessidade absoluta do país, a famigerada austeridade. Políticas de contenção, um Presidente da República a acusar os portugueses de terem vivido acima das suas possibilidades como se nunca tivesse sido Primeiro-ministro, luminárias várias defendendo um ataque às gorduras do Estado e a senhora dona Christine Lagarde, com a austeridade estampada na indumentária, deram nisto:

O conselheiro de Estado e ex-presidente do PSD Marques Mendes classificou esta noite, em declarações à TVI 24, o aumento de IRS proposto pelo Governo como um "assalto à mão armada" aos contribuintes, que "mata" a classe média. "Isto é um assalto fiscal. Não é um agravamento fiscal, nem um aumento fiscal enorme como dizia o ministro das Finanças, isto é uma espécie de assalto à mão armada ao contribuinte", declarou na noite de quinta-feira ao canal de televisão.
Bagão Félix define como "napalm fiscal" as alterações ao IRS constantes da proposta de Orçamento de Estado para 2013. "Assim, não vale a pena trabalhar", disse o ex-ministro.
O PS acusou o governo de lançar uma bomba atómica fiscal sobre os portugueses. O Bloco de Esquerda fala em massacre e os Verdes em loucura do governo, mas Passos Coelho sublinhou que as medidas são necessárias para que o país se livre da troika.
 
Pois bem, caríssimo camarada, temos um assalto à mão armada aos contribuintes, temos napalm fiscal, temos uma bomba atómica fiscal, temos um massacre e a loucura do governo. Só nos falta alguém vir falar de um campo de concentração ou de um gulag fiscal. Enquanto não aparece ninguém com esse reforço retórico, convém lembrar uma coisa muito simples: este é um Governo do PSD em coligação com o CDS que sucede a dois governos do PS que, por sua vez, se seguiram a dois governos do PSD em coligação com o CDS, posteriores a dois governos do PS que, lá está, se seguiram a outros três do PSD e assim sucessivamente… Convém lembrar, que é para não esquecer. Agora vou ali com o meu SEAT de 1999 à inspecção.

MORTE DE UMA ESTAÇÃO

Está um dia perfeito de Outono. Céu bastante nublado, temperatura suportavelmente baixa, chuva miudinha. Avistam-se queimadas ao longe, o cheiro das lareiras já anda no ar e a terra atapeta-se de folhas secas. Um dia à medida de Antonia Pozzi, poetisa milanesa de malogrados outonos. Nascida em 1912 no seio de uma família burguesa, acabou por se suicidar, com apenas 26 anos, ingerindo uma quantidade fatal de barbitúricos. A sua poesia ficou praticamente inédita durante variadíssimos anos, sendo manipulada pelo pai como em vida terá sido a própria poeta. Ainda hoje se mantém uma desconfiança crítica perante a obra de Antonia Pozzi que a remete para uma certa marginalidade no contexto da poesia italiana. Morte de Uma Estação (Averno, Fevereiro de 2012), colige alguns poemas, com tradução de Inês Dias, prefácio de José Carlos Soares e posfácio de Matteo M. Vecchio. É precisamente no posfácio que encontramos uma síntese da controvérsia crítica que tem rodeado esta poesia, devendo ter-se em conta que as primeiras edições dos poemas de Antonia sofreram intervenções paternas que, em certa medida, deturparam o terreno existencial que deu azo aos versos. Refere Matteo M. Vecchio que «a vida de Pozzi põe-se exemplarmente no centro de problemáticas existenciais (…) como o dissídio Geist/Leben», assumindo a obra, «neste sentido, tonalidades – mas não se reduzindo a elas – testemunhais» (pp. 155-157). Erigida num clima existencial conflituoso, o corpo poético de Antonia Pozzi reflecte esse duelo permanente, e irresolúvel, entre as origens burguesas e a consciência social, entre a vida espiritual e as exigências da vida material. Acrescentem-se a estes antagonismos alguns factos biográficos e mais facilmente entenderemos a vertigem que se esconde por detrás da poesia de Antonia Pozzi. No prefácio, José Carlos Barros recorda um avô depressivo e uma tia que também se suicidaram, uma paixão precoce por um professor (ferozmente reprimida pelo pai da autora) e a importância decisiva do ambiente cultural vivido na Regia Università di Milano, nomeadamente em torno de Antonio Banfi, que aí leccionava Estética e História da Filosofia. A influência de Banfi sobre os seus alunos terá sido decisiva na vida de muitos, alguns dos quais se juntaram em publicações colectivas de cunho filosófico. No entanto, a filosofia de Antonia Pozzi assumia a forma vertical dos poemas. Foi na poesia que ela encontrou o melhor método para a expressão das suas reflexões, permitindo que para os poemas confluíssem sentimentos, estados de alma, conceitos e premissas filosóficas num só corpo onde a estética e a ética se uniam. José Carlos Soares refere que «há uma continuada luta em Antonia, um esforço de superação dos limites, na sua visada conquista de autenticidade: a elevada condição social a que pertence e lhe dá má consciência no confronto com a miséria dos bairros periféricos que visita e onde presta trabalho solidário; a opressão política do regime fascista; a distância dos seus amigos intelectuais perante a sua poesia que tomam como exercício de catarse e pouco mais» (pp. 18-19). Se é verdade que em muitos momentos encontramos nestes poemas vestígios de uma necessidade catártica, menos verdade não será que eles reflectem, também mas não só nesses vestígios, uma consciente intensificação do sentido último da vida. Daí que, muitas vezes, o que nos parece um retrato naturalista (Pôr do Sol Inquieto, Ameaças de Temporal, Regresso ao Crepúsculo, As Flores, etc.), se revele uma expressão profunda de um estado existencial com ligações directas quer à experiência do mundo, quer à reflexão que essa experiência do mundo exige:


PAUSA


Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.

Recorrendo amiúde a estas comparações entre estados de alma subjectivos e os exemplos da natureza, Antonia Pozzi logra estabelecer uma relação que lhe permite compreender, na sua essência, a inquietação, o desalento ou o desassossego que o mundo imprime no ser. Não são meras projecções sentimentais, são reflexos de uma consciência profunda desse domínio do tempo sobre as coisas (evidente em poemas como Novembro, Tempo, Precoce Outono ou Morte de Uma Estação) e do fim último que a tudo se reserva: a morte. É por isso que uma leitura superficial destes poemas pode induzir em erro aquele que neles leia apenas a expressão sentimental de um sujeito problemático, deixando na penumbra a revelação de um problema para o qual não se vislumbra solução por ser esse problema solução e sentido de si próprio:

CANTO DA MINHA NUDEZ


Olha para mim: estou nua. Da inquieta
languidez da minha cabeleira
até à tensão fina do meu pé,
sou toda de uma magreza amarga
envolta numa cor de marfim.
Olha: como é pálida a minha carne.
Dir-se-ia que o sangue não a percorre.
O vermelho não transparece. Apenas uma lânguida
pulsação azul se esbate no meio do peito.
Vê como tenho o ventre côncavo. Incerta
é a curva das ancas, mas os joelhos
e os tornozelos e todas as articulações
são escanzelados e duros como os de um puro-sangue.
Hoje, deito-me nua, na limpidez
da banheira branca e deitar-me-ei nua
amanhã sobre um leito, se alguém
me quiser. E um dia nua, só,
estendida de costas sob demasiada terra,
hei-de estar, quando a morte me tiver chamado.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

DO JORNAL TOPEKA WEEKLY DAILY, 1869

Lagos, Faro. 2012.

Os índios Sioux são os PATIFES mais miseráveis, sujos, piolhosos, ladrões, mentirosos, cínicos, cruéis e sem-vergonha que o Senhor permitiu que contaminassem a terra e todos os HOMENS, excepto os agentes para os assuntos índios e os comerciantes, deviam rezar pelo seu extermínio imediato e definitivo.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: citado por Bruce Chatwin.

ESCRITO EN «ANAHUAC» (TALITAS)

Torel, Lisboa. 2012.

Verde esencialmente reconcentrado en mis ojos que pintan la hieba que luego echa flores en la memoria de los animales.

Abrazada a la tierra. Tierra o madre o muerte, no me abandones aun si yo me he abandonado.


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Alejandra Pizarnik.

domingo, 7 de outubro de 2012

AS MINHAS LEMBRANÇAS OBSERVAM-ME

Passado um ano sobre a consagração com um tardio Prémio Nobel de Literatura, Tomas Tranströmer (n. 1931) chega finalmente às livrarias portuguesas. A Sextante edita-lhe o único livro em prosa que se lhe conhece: As minhas lembranças observam-me (Setembro de 2012), aqui acrescentado por uma dezena de primeiros poemas e por um posfácio saído da pena de Pedro Mexia, enquanto a Relógio d’Agua deita a mão a 50 Poemas (Julho de 2012) com tradução de Alexandre Pastor. Vamos ao primeiro. Escrito quando o autor contava sessenta anos, percorre os tempos da primeira infância até à juventude. Organizado em breves capítulos temáticos, pode ser lido como um livro de memórias (ou lembranças) onde mais do que reconstruir o passado se procura perceber o que terá havido nesse passado a contribuir decisivamente para aquilo em que o autor se tornou: poeta. As lembranças de Tranströmer estão, por isso, expurgadas de quaisquer aspectos superficiais, não deixando de parecer desinteressantes a quem busque nelas tudo o que elas resolvem omitir. Não há aqui grandes factos nem grandes feitos, nenhuma maldade confessada nem gestos terríveis, há uma ausência de êxtase que coloca o texto numa dimensão deveras paradoxal: buscando o essencial, revela-se banal. Isto percebe-se logo no primeiro texto: «A minha recordação datável mais antiga é a recordação de um sentimento. Um sentimento de orgulho. Fiz três anos, e disseram-me que isso era muito importante, que agora eu era grande. Estou deitado na cama, num quarto luminoso, e levanto-me, desço da cama, extraordinariamente consciente de que estou a ficar crescido. Tenho uma boneca a que pus o nome mais bonito que consegui inventar: KARIN SPINNA. Não a trato de uma forma maternal. Ela é uma amiguinha, ou uma paixão» (pp. 11-12). O que há de revelador nesta primeira recordação? Provavelmente nada, a não ser tratar-se da primeira recordação datável. A matéria da memória tem esta plasticidade, quanto mais lhe mexemos mais a deformamos e, desse modo, a adulteramos, tornando o passado mais numa construção abstracta do que num repositório de factos impossíveis de reconstruir. As aproximações tendem a deturpar a verdade se não formos cuidadosos, se não mantivermos aquela distância de nós próprios que se impõe sempre que procuramos autoavaliar-nos. A forma como o poeta descreve o ambiente familiar, marcado desde cedo pela separação dos pais e pelo proteccionismo materno, recordando pequenos episódios domésticos mais ou menos violentos (uma briga entre vizinhos ou o ter-se perdido nas ruas de Estocolmo), denota um ambiente onde não se empolam dramas e se ocultam tragédias por debaixo de uma capa de naturalidade alicerçada na norma e numa aparente ausência de emoções. Ora, quem leia com atenção estes textos, apercebe-se de que o poeta surgiu, precisamente, de uma espécie de reacção a este ambiente, primeiro através do fascínio provocado pelas figuras gigantescas do Museu de História Natural, a penetração nos grandes mistérios da natureza, depois a própria condição, anormal à época, de filho de pais divorciados, a consciência da diferença apontada quer por adultos, quer por colegas da escola, a inclinação para paisagens geográficas distantes, nomeadamente as de África, encontradas nos livros da biblioteca do centro cívico… São estas lembranças que nos levam aos primeiros anos do liceu Södra Latin, onde Tranströmer se iniciará na escrita de versos. Mas ainda antes disso ter acontecido, a angústia dos quinze anos materializada naquilo a que talvez chamássemos hoje uma crise de pânico: «A dimensão mais importante da existência era a Doença. O mundo era um imenso hospital. Via diante de mim pessoas de corpo e alma desfigurados. O candeeiro aceso esforçava-se por afastar os seus rostos pavorosos, mas às vezes eu dormitava, as pálpebras caíam, e aquelas faces medonhas tomavam-me de assalto» (p. 66). A sensibilidade que aqui emerge é uma sensibilidade acossada pelo medo, já anteriormente sugerida noutras experiências, embora nenhuma delas com a ênfase que o poeta coloca neste episódio em particular. É precisamente o último episódio antes da iniciação na escrita de poesia modernista, em contraposição às formas rígidas da poesia clássica. Uma escrita que surge, também, da experiência reveladora que a tradução proporciona: «Esta alternância entre o medíocre e trivial e o vigoroso e sublime ensinou-me muito. Era a condição da poesia. Era a condição da vida» (p. 74). No fundo, é esta condição o que mais se evidencia nestas pequenas lembranças e nos primeiros poemas coligidos neste agradável volume.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

MORTE LENTA




“Devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas e ter pena dos alunos, coitadinhos, que sofrem tanto para aprender”, ilustrou, considerando que só com “persistência”, “exigência” e “intransigência” o país terá “credibilidade”.



Questionado sobre se aconselharia os “professores excedentários que temos” a “abandonarem a sua zona de conforto e a “procurarem emprego noutro sítio”, Passos Coelho respondeu: “Em Angola e não só. O Brasil tem também uma grande necessidade ao nível do ensino básico e secundário”, disse durante uma entrevista com o Correio da Manhã, que foi publicada hoje.


"Se algum dia tiver de perder umas eleições em Portugal para salvar o país, como se diz, que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal", declarou ainda Pedro Passos Coelho, durante o jantar do grupo parlamentar do PSD para assinalar o fim desta sessão legislativa, na Assembleia da República.



Na homenagem a Adriano Moreira, Passos Coelho citou a estrofe 66 do Canto V da Epopeia Portuguesa, de Luís Vaz de Camões, a terminar a sua intervenção. "Camões fala-nos aqui de uma corrente que nos arrasta para trás e que é mais poderosa do que os ventos que nos impelem para a frente. Mas hoje em Portugal, se é certo que não podemos subestimar a corrente em que o navio português foi posto - até porque estamos todos os dias a sentir dolorosamente a sua força -, também temos de reconhecer que há ventos favoráveis a soprar nas nossas velas", defendeu. "E serão ventos mais favoráveis quanto mais firmes, quanto mais hasteadas, quanto mais resistentes forem as nossas velas: as velas da nossa economia, das nossas leis, das nossas instituições; mas também da nossa vontade e da nossa determinação", concluiu.


DE PERNAS PARA O AR


Camarada Van Zeller, hoje dirijo-me a si enquanto pai: você é completamente ignorante, não passaria no primeiro ano do meu curso e duvido que passasse no primeiro ano do curso do Relvas. Portugal deixou de ser uma república das bananas para se transformar numa república dos pentelhos, enquanto o Presidente hasteia a bandeira de pernas para o ar e o Pedro vai de scooter para Bratislava comemorar o que só ele sabe. Talvez tenha ido encontrar-se, secretamente, com o Catroga, um desaparecido em combate que se fartou de trabalhar para levar ao poder os alunos do António Borges. Já ninguém se ouve, já ninguém se escuta, e eu falo-lhe, camarada, enquanto pai. No Pátio da Galé, uma cidadã ainda tentou fazer-se ouvir. Sem efeito. Os seguranças do governo-pentelheira encarregaram-se de catar mais este chato elemento do melhor povo do mundo. É de facto uma chatice não poder comemorar em silêncio as porras da república, encher a boca de bolo-rei, mastigar a saliva e poder passar a noite na Quinta da Coelha ao som do vento e do mar. Não faço declarações, não tenho nada a declarar, não sei, não digo. Que saudades desses tempos. Agora, há sempre um chato por perto, um chato dispendioso a contribuir para a saúde financeira das agências de segurança. Bem-vindos ao país do “não me filmas a cara, pá”, esse onde o melhor povo do mundo até pode ser o melhor activo de Portugal mas não deixa de ser também um irritante empecilho às experiências do professor Gaspar. Daí que lhe sugiram a emigração, ao povo, enquanto Portas se fecha à coligação pela frente mas abre-se à coligação pelas traseiras. Desenganem-se, ó cigarras, nós não debandamos para França, Suíça ou Brasil em busca de futuro, debandamos porque ficámos convencidos de que esses países precisam do melhor povo do mundo, um povo de cigarras, enquanto por cá o Miguel Macedo se vai metamorfoseando num híbrido metade formiga outra metade barata. Um dia, olharemos para o presente e espantar-nos-emos com isto. Não estamos a viver uma anedota, é mesmo esta a nossa realidade caríssimos concidadãos.  E pior que isto eu não me recordo de alguma vez ter havido.

 

 

P.S.: reparai na imagem, é tudo de tal modo revelador que parece ter sido encenado. Custa acreditar na realidade quando a olhamos assim, com tanta clarividência. Um Presidente da República hasteia a bandeira do seu país, rodeado dos notáveis da nação, que com cara de parvos olham para uma bandeira do avesso. Na legenda, as comemorações do 5 de Outubro são acompanhadas das notícias que mais interessam ao melhor povo do mundo: Tottenham e Panathinaikos empatam a 1 Golo na Liga Europa. Isto é tão Portugal a entrar-nos pelos olhos adentro que apetece fechar os olhos e dormir uma eternidade.