sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

TALVEZ SEJA ESSA CERTEZA

O que se esconde por detrás das palavras? Será que se esconde alguma coisa? Presumimos um corpo, ideias, memórias, imagens, ilusões, sentimentos, emoções, tudo isso presumimos por detrás das palavras, mas por vezes elas parecem não revelar mais do que a sua ténue compostura. Muita da poesia portuguesa contemporânea nasce de uma relação reverencial com as palavras, parecendo não haver por detrás delas mais do que elas próprias. Poemas sólidos como corpos sem sementes, onde tudo é rosto e superfície. Nenhum sentido oculto senão os significados das palavras elas mesmas em articulação umas com as outras, provocando na leitura a estranheza de uma vazio que uns dirão elíptico, outros definirão sóbrio e por certo alguém simplesmente deixará prevalecer sem necessidade de o questionar. Talvez Seja Essa Certeza (Medula, Dezembro de 2014), de António Amaral Tavares (n. 1964), reúne três conjuntos de poemas, aos quais se segue um remate aparentemente isolado, onde o respeito pelo poder impressivo da palavra resulta numa poesia despojada de artifícios imagéticos, sem estratagemas rítmicos nem ardis metafóricos. São poemas descarnados, porém estranhamente confortáveis, onde o tema da morte surge em relação com o tempo debaixo do toldo melancólico da ruína. Partindo deste princípio, podemos afirmar que esta poesia se inscreve numa ampla tendência da sua contemporaneidade. No primeiro conjunto, a tal toada elíptica da maioria dos poemas contrasta com o fraseado discursivo do poema Silêncio: «Danada esta tua morte sem coisa que a supusesse / a não ser um pequeno nó estúpido que preferias / não tão íntimo a crescer na cabeça» (p. 24). Trata-se de um poema brutalmente revelador, cuja principal força reside tanto na assessoria dos poemas antecedentes que para ele preparam o caminho como na emotividade expressa sem cedências ao floreado sentimental que o tema tantas vezes reclama. A morte, pois, o medo da morte, sem falsos pudores, retomam no segundo conjunto uma reflexividade existencial que tem na experiência da morte do outro o ponto de partida para uma interrogação sobre o sentido da vida. Heidegger dizia que «não se deve confundir a angústia com a morte com o temor de deixar de viver». A angústia é a consciência do fim para o qual tende a existência. É neste sentido que a cidade surge amiúde enquanto palco onde a ruína, vestígio da morte, mais se evidencia. A cidade acelera o tempo, nela as transformações são mais evidentes, o rosto das cidades envelhece com outra clarividência, a mesma que encontramos nas rugas do nosso próprio rosto. Mas algures entre a latência e o rigor do discurso surge a figura do cão como a mais recorrente, ora num registo estranho e invulgar — «um cão em lume lento» (p. 14), «os seus cães de areia» (p. 20) —, ora num contexto afectivo mais ou menos auto-referencial — «esse cão que corre sem / raça nem nome a abrigar-se do temporal» (p. 34), «Acaricio assim por hábito / o pêlo a este cão que a meu lado se deita» (p. 44). Mas também «os cães hão-de lamber o sangue / da ferida que acorda» (p. 39), apesar de «que nunca chegará esse cão / para lamber os pés magoados nos seixos da tarde / sabendo que só tu moras aí nessa // cidade onde morri clandestino» (p. 49). Animal de companhia, o cão é também aqui figura de substituição. Preenche o espaço deixado vazio pelo perecimento e consequente desaparecimento de quem e do que foi apanhado nas teias da morte. É objecto de afectos e refúgio sentimental, tal como a poesia. Ausência, distância e silêncio não são propriamente superados pela presença canina, a qual se revela lenitiva embora insuficiente. Podemos então falar de uma patologia da morte que o poema final, isolado dos três conjuntos essenciais, induz num colorido inesperada e agradavelmente irónico:

Doutor eu tenho uma guerra tremenda dentro da minha cabeça
um euro e trinta e cinco cêntimos 16 de Agosto de 2011
não dá para o tabaco. Quero lembrá-lo que o verão está a acabar

e eu já ouço passos nos caminhos da lama e do medo
e há coisas que só no verão se fazem e eu ainda não fiz
como ouvir o rumorejar do mar nos meus pulsos.

Os seus medicamentos doutor deixam-me sem mim
o meu pai disse-me que a minha doença só lhe traz problemas
doutor há uma pedra intraduzível entre nós dois

quero dizer-lhe que há pessoas muito pobres que querem
o meu rim esquerdo doutor o mundo não é perfeito
e não me diga para lhe contar tudo como a um  padre

eu não quero morrer outra vez essa frase fá-lo muito feio.
Acredite que vi gente morrer porque era maior que o corpo
tenho a impressão que o corpo não sabe o que tem dentro

acredite que consigo fundir uma lâmpada só com o olhar
já fundi muitas lâmpadas só com o olhar
e que vi um anjo atravessar os muros de um hospício

rasante e belo como uma garça.
Doutor há muito pouco tempo para a poesia.
Isto que lhe digo é verdade todos os dias doutor.

AMERICAN SNIPER (2014)

 
Fui ontem ver American Sniper, filme de Clint Eastwood baseado na autobiografia de Chris Kyle — o mais letal dos snipers norte-americanos na história das forças armadas daquele país. Estávamos quatro pessoas na sala, nenhuma morreu. Por breves instantes pareceu-me ouvir alguém ressonar, provavelmente atingido por uma letal bala de tédio. Este herói americano tem, porém, uma particularidade. Depois de quatro proveitosas missões no Iraque, regressou a casa com naturais traumas de guerra. O imperturbável militar não se aflige tanto com as 160 pessoas que matou (incluindo mulheres e crianças), nem com o Inferno a que assistiu, como parece incomodar-se com os camaradas que por lá ficaram e ele não pode ajudar. Dedica-se, pois então, a ajudar veteranos que regressaram muito mais feridos do que ele. Ironia das ironias, acabará assassinado por um desses veteranos. Kyle, a lenda, parece saído de uma história de ficção. Mas é tudo real, e Eastwood confere-lhe esse realismo. O pior do filme é não haver nele nada de surpreendente, mera biografia, quase documentário. Estão lá a competência de um grande cineasta, um dos maiores, e seus respectivos valores. Estão os belos desempenhos de Bradley Cooper e Sienna Miller, casal exemplar num país onde o quotidiano militar está a milhas de ser compreendido por qualquer um de nós. Não estão a dúvida, o dilema, o paradoxo, as ambiguidades que outros filmes do realizador de Gran Torino tão bem estimularam. Neste caso, aflora-se a contradição através das personalidades dos irmãos Kyle. Mas a quase ausência de Jeff torna-o irrelevante e assessório. É tudo minuciosamente preciso neste Sniper, o que acaba por legitimar a ressonadela a meio do filme.

RUTH MAIER (1920-1942)

JULHO 1936, BRNO
As pessoas andam às voltas
sem saberem para quê.
As pessoas andam às voltas
sem saberem porquê.
As pessoas ficam cansadas.
Pois têm pó nos pulmões.
As pessoas ficam tristes.
Os seus filhos não estão bem.
As pessoas ficam tão sombrias.
Não conhecem o sol.
As pessoas ficam zangadas.
Pois há muito anseiam por luz.
Entrada no diário de Ruth Maier, copiado de Ruth Maier's Diary - A Jewish Girl's Life in Nazi Europe, editado por Jan Erik Vold, traduzido do alemão por Jamie Bulloch, Vintage Books, 2010, p. 26. Versão de HMBF. Ruth Maier nasceu em Viena no ano de 1920, emigrou para a Noruega e foi deportada para Auschwitz em Novembro de 1942. Foi assassinada à chegada, tinha apenas 22 anos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

MEMÓRIA DE ELEFANTE

Não é difícil simpatizar com o psiquiatra de Memória de Elefante (1979), livro de estreia de António Lobo Antunes (n. 1942). Pai de duas filhas, separado da mulher, ex-combatente em África, carrega pelos lugares de Lisboa e arredores a sua solidão. Olha para si próprio sem ponta de autocomiseração — «merda sobre a merda de que sou feito» (p. 110)—, ao mesmo tempo que lança sobre os outros uma certa sobranceria. São assim as almas mais frágeis: indigentes dentro de si próprias, rainhas do universo na relação com os outros. A sua solidão, maior das dores, vem de uma incapacidade para agir em conformidade com o pensamento. Ama a mulher, mas é incapaz de dizê-lo. Quer mandar à merda o grupo com quem faz análise, mas acaba por cumprimentar todos com convencional deferência. A páginas 123 (5.ª edição, Vega, 1980), como que se diagnostica: «quando eu conseguir vencer a minha cobardia, o meu egoísmo, esta lama de merda que me impede de dar-te e de me dar» (p. 123). Tolhido por recalcamentos vários, ele tropeça amiúde em obstáculos que o impedem de se afirmar e de ser livre. Mas censura permanentemente o mundo à sua volta, sobretudo quando esse mundo mais se lhe assemelha. Os obstáculos estão todos dentro dele, e a sua maior solidão será, precisamente, o combate a travar consigo próprio. Logo no início, p. 26, o seu drama é resumido num curtíssimo diálogo: «— Deolinda, informou-a ele, estou a tocar no fundo. / Ela abanou o rosto em bico de tartaruga bondosa: / — Nunca mais tem fim essa descida?» A resposta, em forma de pergunta, é certeira. O fundo deste homem é a sua própria natureza, a sua insatisfação advém de uma incompatibilidade entre o que sabe ser, ou julga saber, e o que é capaz de ser. A descida não tem fundo porque é uma descida íntima, interior. Não é uma descida aos infernos do mundo, mas sim ao inferno da pessoa humana. As dores do psiquiatra não configuram os aspectos depressivos de uma vulgar separação, não têm na sua origem traumas de guerra. Todos esses elementos biográficos perdem força quando lhe escutamos a memória de uma frase (p. 49): «Cada vez mais detestava emocionar-me: sinal de que envelheço, verificou, dando cumprimento à frase da mãe atirada ao ar da sala com profética solenidade: / — Com um feitio assim hás-de acabar sozinho como um cão»Ora, diz o povo e com razão, que o que não é defeito é de feitio. O psiquiatra é o seu maior problema, ele é para si próprio o mais exigente dos desafios, por não poder ser um desafio profissional, por ser ele próprio a ter que conviver com as contradições da relação entre aquele que observa e aquele que é observado. A escrita, enquanto projecto, acaba por ter na sua vida uma dimensão claramente terapêutica, embora ele, mais uma vez, hesite em aceitá-la como tal com considerações que aparentam autocríticas: «— Estava cá a magicar que escrever é um bocado fazer respiração artificial ao dicionário de Moraes, à gramática da 4.ª classe e aos restantes jazigos de palavras defuntas, e eu ora cheio ora vazio de oxigénio, aparvalhado de dúvidas» (p. 59)E, de um modo talvez menos enviesado, questiona-se: «E porque é que só sei gostar, perguntou-se examinando as bolhas de gás pegadas à parede do vidro, porque é que só sei dizer que gosto através dos rodriguinhos de perífrases e metáforas e imagens, da preocupação de alindar, de pôr franjas de crochet nos sentimentos, de verter a exaltação e a angústia na cadência pindérica do fado menor, alma a gingar, piegas, à Correia de Oliveira de samarra, se tudo isto é limpo, claro, directo, sem precisão de bonitezas, enxuto como um Giacometi (sic) numa sala vazia e tão simplesmente eloquente como ele: depor palavras aos pés de uma escultura equivale às flores inúteis que se entregam aos mortos ou à dança da chuva em torno de um poço cheio: chiça para mim e para o romantismo meloso que me corre nas veias, minha eterna dificuldade em proferir palavras secas e exactas como pedras» (p. 101). Justifica-se a citação por estarmos naquele domínio em que a personagem assume o papel de criticar o seu autor. Há uma certa honestidade no facto, podemos até sublinhar a autenticidade do processo, mas a verdade é que para o leitor fica difícil, em tão poucas páginas, ter de lidar com tantas comparações onde entram nomes de pintores, poetas, músicos, cineastas. É como se o autor fosse incapaz de escrever sem recorrer à biblioteca. Dito de outro modo, é como se fosse incapaz de existir sem tipificar o mundo a partir das suas referências literárias. Talvez esse seja o lado menos simpático do psiquiatra que Lobo Antunes nos ofereceu no seu primeiro livro, conquanto nos seja possível vislumbrar oscilações de empatia numa narrativa feita à base de «cegos de Brueghel a tactear» (p. 146).

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

BESTA ESFÉRICA

Através do Malomil chego às palavras da besta esférica, todo ele besta, sem ângulos nem arestas, besta total, sem lado nem faces. Há quem admire a besta, há quem se entusiasme com a sua demagogia mais que desmascarada, há quem vote na besta, há quem se masturbe a ver a besta masturbar-se, há quem simplesmente se empolgue e excite com o populismo inconsequente da besta. Agora a besta fala: «O que mais preocupa os epígonos do PS é que não se possam disponibilizar crianças para satisfazer os caprichos onanísticos e preconceitos heterofóbicos dos gays e das lésbicas.» E o que têm a dizer os fãs da besta? Deixar-se-ão ficar pelo grunhido enervante do animal? Olharão para o lado? Fingirão que não leram, que não sabem, que não ouviram? Por mim vou já dizendo que me sinto ofendido nos meus sentimentos mais íntimos e profundos. Não me ofendem riscos e rabiscos, pois claro, não me ofendem garatujas, mas as eructações do burgesso são para mim uma ofensa. Alarve é pouco. O homem merecia uma chuva de processos na secretária, uma enxurrada infindável de processos que, pelo menos, o obrigassem a gastar parte considerável do pecúlio amealhado com o tacho europeu. Burgessos destes, grunhos destes, bestas destas sentam-se todos os dias nos sofás do poder onde se decidem importantes matérias sobre as nossas vidas. E isto é aflitivo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

LAREIRAS


Estendi o braço, apaguei a luz,
senti os seus lábios cercados de rendição.

Do meio de uma tristeza que não podia findar
abraçámo-nos e, no centro mais cego do pavor,
de novo nos encontrávamos. Mais perdidos,
mais perto, tão perto que chorávamos as mesmas lágrimas.

Vivia na rede de ruas ao alto da vila
sobre o porto. Numa casa de tinta nova
com a entrada confusa, nunca
soubemos lá ir dar.
Certas vezes tinha o rosto coberto de sangue.
Nós e a noite cortávamos de beijos a sua dor.

Primeiro o lume salta, bate nos tijolos,
destrói o fumo que sobe na chaminé.
Depois os toros estalam, abre-se o calor
para dentro da sala, a nossa pele
encontra a tua pele, esquece
a realidade: o teu pequeno emprego, o tempo
que não tens, o dédalo
sexual da situação de classe.
Por fim as chamas começam a tombar
em brasas, em cordões de cinza.

O seu rosto cintilava nos fins de tarde
em que seguíamos para nossa casa.
Mas quando tirava a samarra e abria,
um por um, os fechos do blusão,
ninguém se lembrava desse rosto, o acetilene
dos dedos corria-nos sobre o peito,
o mundo inteiro parecia incendiar-se.

Estavam envolvidos num manto,
sentados no chão de pedra, as labaredas
roubavam sombras nos seus corpos.
Nas horas de depois dos bares,
um pouco antes do amanhecer.

Um rapaz nos últimos anos da juventude.
Confirmava do amor a rápida colheita,
o cansaço tardio, a maldição
de me ter dado e ter perdido. E voltar a perder-te
quando for a tua vez de achares quem te receba,
quem te faça pagar-me, faca por faca,
o preço das trocas tão desertas dos outros amores.

Outras vezes, ao beijares os seus olhos
verás como se fecham a fugir. Dantes
temiam reabrir-se e encontrar os teus
fixos na parede, em busca doutro corpo
que não sabias quem viria a ser.

A testa de altura moderada,
o nariz rectilíneo, os olhos
cor dos ouriços vivos, o lábio inferior
tenso e sem sorrir e os cabelos
iluminados, abertos à solidão.

Vai crescendo com o dia a dia a saudade.
Os dois príncipes melancólicos
aguardam o mensageiro.
O trovador, o mar, cobre-se da segura tempestade,
canta de encontro às rochas uma exaltação.
Aprendo a viver o sofrimento da espera,
a despedida, a chegada do temível triunfo.

Duas braçadas de lenha dão para uma noite
de repouso e ouvimos um do outro
o silêncio de muitos anos de conflito.
Outras vezes a triaga do ciúme agita-se
ao vento peregrino das dunas. As jóinas
não tardam a reabrir e os cardos roxos,
ouve, os cães a ladrar enquanto chove
nesta primavera que não devia voltar.

Posso sentar-me junto de ti?
Pegar na tua mão?


Joaquim Manuel Magalhães (n. 1945), in Segredos, Sebes, Aluviões (1981). «O mais importante crítico da poesia consagrada nos anos 70-90 (...), Joaquim Manuel Magalhães (...) é, desde 1974, autor e co-autor de cerca de uma quinzena de obras de poesia (...). A orientação que nele prevalece contrasta com poetas do seu grupo de idade e colaboração por um realismo flagrante, a certo nível, de percepções urbanas, suburbanas ou de à beira-mar, e que em pormenores evocativos de certa experiência rural nortenha vai até à minúcia de um léxico regional. Este realismo fragmentário de J. M. Magalhães surpreende pela elipse, pelo microrrigor referencial nas suas relações de complexa ou conflitual coincidência, ou de focagem-desfocagem com o motivo mais plausivelmente condutor: o de breves, precários encontros-desencontros eróticos. É sensível o contraste entre a agressividade quase feroz com que estigmatiza circunstâncias mais ou menos citadinas de degradação (e o ridículo de notoriedades poéticas ou literárias) e a densa bucólica, mais ou menos erotizada e em geral erguida sobre incidências de memória infantil, que fazem de Segredos, Sebes, Aluviões um dos melhores livros da poesia actual» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

DEMIS ROUSSOS (1946-2015)

 
Lá em casa ouvia-se muito quando as manas faziam limpezas. We shall dance.

CATECISMO

Desconheço os argumentos que impelem os nossos deputados a censurar a adopção de crianças por casais homossexuais, mas fazendo uma pesquisa no Google com as chaves padre+condenado+pedofilia julgo ser da máxima urgência votar-se uma lei que proíba as criancinhas de irem à catequese.

MULHERES E TABACO

 
Nos seus acessos de misoginia o médico costumava classificar as mulheres consoante o tabaco que usavam: a raça Marlboro-sem-ser-de-contrabando lia Gore Vidal, passava o verão em Ibiza, achava Giscard d'Estaing e o príncipe Filipe muito pêssegos e a inteligência uma maçada esquisita; o tipo Marlboro-de-contrabando interessava-se por design, bridge e Agatha Christie (em inglês), frequentava a piscina do Muxaxo e considerava a cultura um fenómeno vagamente divertido quando acompanhado do amor do golf; o género SG-Gigante apreciava Jean Ferrat, Truffaut e o Nouvel Observateur, votava Socialista e mantinha com os homens relações ao mesmo tempo emancipadas e iconoclastas; a classe SG-Filtro tinha o poster de Chr Guevara na parede do quarto, nutria-se espiritualmente de Reich e de revistas de decoração, não conseguia dormir sem comprimidos e acampava aos fins de semana na lagoa de Albufeira conspirando acerca da criação de um núcleo de estudos marxistas; o estilo Português-Suave não se pintava, cortava as unhas rentes, estudava Anti-Psiquiatria e agonizava de paixões oblíquas por cantores de intervenção feios, de camisa da Nazaré desabotoada e noções sociais peremptórias e esquemáticas; por fim, o lúmpen do tabaco de mortalha enlanguescia ao som dos Pink Floyd em gira-discos de pilhas junto à Suzuki do amigo de ocasião, adolescentes fazendo reclame aos amortecedores Koni nas costas dos blusões de plástico. À margem desta taxonomia simplificada situava-se o grupo da Boquilha, menopáusicas donas de boutiques, de antiquários e de restaurantes em Alfama, tilintantes de pulseiras marroquinas, saídas directamente dos esforços dos institutos de beleza para os braços de homens demasiado novos ou demasiado velhos, que lhes ajardinavam as melancolias e as exigências em duplexes a Campo de Ourique, inundados da voz de Ferré e dos bonecos de Rosa Ramalho, e onde as lâmpadas indirectas tingiam os seios gastos de uma penumbra púdica e favorável.
 
António Lobo Antunes, in Memória de Elefante, Vega, 5.ª edição, Julho de 1980, pp. 75-76.
 
À época, entenda-se, ainda não tinha surgido a casta dos cigarros electrónicos, praticante de Reiki aos fins-de-semana, amante de sushi e especialmente interessada em tudo o que seja gadjet, para quem a noite perfeita é um passeio pelo Facebook a espreitar a felicidade alheia, enquanto afaga o smartphone ao lado do balde de pipocas, prefere a higiene do dildo a qualquer relação humana, evitando especialmente homens para quem a tecnologia seja sinónimo de distância; Monica Lewinsky também não tinha experimentado os charutos de Bill Clinton, agradável história de estagiários que terá de ficar para outra altura.

domingo, 25 de janeiro de 2015

BRANDOS COSTUMES

Os jornalistas insistem em referir-se ao Syriza como partido extremista e radical. O que é ser extremista e radical? Talvez defender ideias, conceitos e políticas diferentes dos defendidos por quem paga aos jornalistas portugueses. O extremismo e o radicalismo do Syriza rivaliza com quê? Sendo extremistas e radicais, onde devemos colocar os neonazis da Aurora Dourada? No banco dos réus. Talvez não fosse má ideia sermos menos radicais e extremistas nesta vulgar radicalização dos partidos políticos. Por exemplo, em Portugal o PS, o PPD-PSD e o CDS-PP têm sido radicalmente vampíricos da coisa pública e extremamente nocivos para a sociedade portuguesa. À sua maneira, o chamado arco do poder português é extremista e radical. Além de ser oligárquico, nepotista e burrocrático. A gente aguenta, aguenta, para deleite de ulriches e quejandos.

SORRIA, ESTÁ A SER VIGIADO

 
De onde vêm os leitores? Quem são? O que fazem?
Onde estão? O que procuram?

sábado, 24 de janeiro de 2015

O VISITANTE DA NOITE

É natural que o mistério alimentado em torno da identidade de B. Traven aguce o apetite pela sua obra, se bem que, entre nós, esse mistério permaneça quase incógnito. Com a publicação de O Visitante da Noite & Outros Contos (Antígona, Dezembro de 2014) os leitores portugueses têm fortes motivos para se interessarem por esta fascinante personagem. Num documentário a que temos acesso através do Youtube (aqui a primeira parte), sugere-se que a verdadeira identidade de B. Traven era Otto Feige, nascido na Polónia em 1882, filho ilegítimo de um casal alemão. No entanto, são imensos os rumores sobre as suas origens. Incluem ligações ao Kaiser Willhelm II, a um pescador norueguês ou até a pseudónimos de escritores tais como Jack London e Ambrose Bierce, mas talvez tudo seja apenas como nos diz a personagem central de O Visitante da Noite: «A minha terra era onde eu estava, e em mais parte alguma» (p. 57). A viúva daquele que hoje se julga ter sido B. Traven revelou, após a morte do escritor, ter este iniciado a sua misteriosa trajectória como Ret Marut, actor revolucionário que escreveu para a publicação anarquista Der Ziegelbrenner no início do séc. XX. Do mesmo se conhece uma novela intitulada To the Honourable Miss S… (1916). Complicações com as autoridades acabaram por exilá-lo no México, depois de uma passagem por Inglaterra onde tentou, sem sucesso, obter documentos americanos. O México será, daí em diante, o palco eleito de uma obra onde se notam as preocupações com a justiça social e as condições de vida dos povos oprimidos que marcaram a primeira encarnação. Na obra que a Antígona traz a lume, com tradução de Manuela Gomes, os índios aparecem quase sempre como personagens centrais. São onze os contos coligidos, sendo O Visitante da Noite e Macario aqueles de maior fôlego e, curiosamente, aqueles onde melhor se nota a inclinação alegórica. Experiências fantasiosas e alucinantes, propiciadas, sobretudo, pela imersão no mundo enigmático da floresta, transportam os intervenientes para situações onde o choque da descida à realidade se torna mais cruel, sendo que nessas situações consta invariavelmente um movimento de afastamento da civilização e da sua mecânica mais básica: «Viver sozinho na selva torna-nos silenciosos, embora o pensamento fervilhe» (p. 49). Porém, tudo nos parece estranhamente plausível. Isto apesar de ser possível encontrar nestes contos um humilde lenhador em diálogo - literal - com a morte enquanto partilham um peru. The Treasure of the Sierra Madre (1927), romance levado à tela por John Huston em 1948, conta-se entre os maiores sucessos de B. Traven. Também aí o que encontramos é uma transfiguração da humanidade através de uma espécie de deformação moral das personagens, deformação impelida pela ganância a partir de pontos onde a ambição excede a consciência dos factos. Esta parece ser uma das marcas essenciais do autor, ou seja, as suas personagens perdem o controlo moral sobre as suas acções. São simples e humildes, mas deixam-se levar pela ambição, pelo ódio, pela vaidade, pela doença do estatuto social, tornam-se vítimas da sua própria natureza. Há nisto uma certa desconfiança acerca das virtudes da humanidade, ou, pelo menos, uma clara negação dos méritos da sociedade. Esta aparece como corruptora do indivíduo, o qual se apresenta vulnerável, instável, frágil, volúvel, contraditório. O orgulho de um mineiro no seu relógio de bolso, o lenhador sacristão que fica a tomar conta da igreja na ausência do padre, o índio artesão que recusa o negócio de uma vida para não deixar de pôr a sua alma e as suas canções em cada um dos cestos que produz, são elementos que Traven respiga nas aldeias de camponeses índios para compor a sua manta de retalhos sobre a natureza humana, tão propensa à maldade como a solidarizar-se com o seu semelhante. Não há optimismo nem pessimismo nestas histórias, há o humano na sua essência paradoxal, ambivalente, contraditória. Mais que a verdade biográfica, o verdadeiro mistério reside na autenticidade das palavras quando discorrem sobre circunstâncias aparentemente oníricas. Há nisto uma verdade porventura impenetrável: o que nos liga, enquanto contas do rosário humano, é mais o termos experimentado viver do que o nome que se atribui a uma vida.

PRIMEIRAS PÁGINAS

Ainda agora comecei, vou ver se me aguento:
 
...aquele Júpiter de sucessivas faces...
...cento e vinte e cinco anos de idiotia pinamaniquesca...
...halo de anjo medieval apaziguante...
...quadros de Cimabue...
...mulheres de Delvaux...
...reinventando as leis de Mendel...
...um seio de Delvaux a esfumar-se no canto da ideia...
...futuro Mozart do cassetete...
...os poemas de Eliot que conhecia de cor...
...no seu gabinete de Dr. Mabuse...
...com a majestade de Napoleão coroando-se a si mesmo...
...Deus rive-gauche do catecismo...
...a cabeleira fíblica de um Ginsber eterno...
...rugas, que lhe lembravam as misteriosas redes de fendas dos quadros de Ver Meer...
...vagabundos antecipados de um katmandu celeste...
...como a bandeira remota do capitão Scott nos gelos do polo Sul...
...camisa a flutuar em torno do corpo como o espectro de Charlotte Brontë vogando no escuro...
 
Deve ser a isto que chamam "um armário de adjectivos". Isto é descrever por comparação. Não dar um passo sem correr à biblioteca. Fica chato.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

COMUNIDADES CIGANAS

O Público divulga aqui um estudo interessante sobre as comunidades ciganas em Portugal. Preparem-se para os comentários.

IDIOTISMO



 
Está tudo mais ou menos aqui, com sentido de humor e inteligência. Mais uma vez, fica o registo da miséria em que estamos. A tacanhez de pensamento era provável, mas constatá-la assim tão de perto é medonho. Um Salazar em cada ministério, ainda ontem tive que ouvir. Onde ir buscar esperança quando se tem de lidar com tamanho idiotismo?


Em última instância, quem julga que os cartunistas do Charlie Hebdo estavam a pedi-las também terá de aceitar, nem que seja no mínimo dos mínimos, a validade da Santa Inquisição. Quero dizer: condenamos a tortura e a pena de morte, mas conseguimos encontrar alguma razoabilidade ou compensação ou equilíbrio no assassinato dos jornalistas. Que equilíbrio haverá no extermínio das aldeias nigerianas? Talvez também esses tenham o que estavam a pedir com a sua... infidelidade. Enfim, para estas pessoas que justificam actos terroristas Abu Ghraib foi um tribunal onde se repôs a justiça no mundo. Meteram-se com os americanos? Ora tomem lá que é para aprenderem. Os campos de concentração nazi? E os gulag da antiga União Soviética? E a PIDE? E o Tarrafal? E Gaza? Quem manda a todas essas pessoas que foram presas, torturadas, assassinadas nesses lugares de morte meterem-se com a sensibilidade e as crenças mais profundas e íntimas dos ditadores? Nelson Mandela estava a pedi-las quando foi preso. Ah pois estava. E Mahatma Gandhi, tivesse ficado caladinho, jamais teria sido assassinado.
Há algo de positivo no que aconteceu recentemente em Paris. A gente consegue sempre retirar algo positivo da maior das tragédias. Esta evidência cartesiana de estarmos rodeados de cretinos que mais facilmente baixam as calças do que dão o peito às balas. Não se trata de medo ou cobardia, é mesmo escolher o lugar em função das conveniências. Chama-se oportunismo. Um oportunismo que, misturado com ignorância e hipocrisia, dá nesta defesa do indefensável. Saberão estas pessoas preocupadas com a sensibilidade e as convicções mais íntimas dos terroristas o que esses tipos fazem às mulheres acusadas de adultério? Saberão do tratamento que se dá a essas mulheres e aos homossexuais? Até sabem, mas não têm nada que ver com isso. Eles que se entendam que nós por cá vamos bem. São mais putinistas que Putin, estes indiferentes da pós-modernidade. Na Arábia Saudita andam a chicotear um blogger porque insultou o islão. Chama-se o terrível herege Raef Badawi. Imaginemos que por cá dávamos o mesmo tratamento a quem, dos nossos, insultasse o catolicismo. Mil chibatadas no cartunista António por ter posto um preservativo no nariz do Papa. Chega? Ou matamo-lo com uma bala na nuca?
 
 
P.S.: Um texto a ler, do Lourenço Bray: aqui.
P.P.S.: E na revista Visão a notícia parece hilariante: "a polícia religiosa do Estado Islâmico foi filmada a bater em músicos e a destruir os seus instrumentos como castigo após terem sido descobertos a tocar um teclado não islâmico". Mas estes tipos merecem algum respeito?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

UM POEMA DE IBN 'ABDUN

Meu irmão, a aurora vem
Feita de luz e esplendor
Ofertando assim à noite o véu.
Sorve já a matutina
Bebida que a alva traz
E, como se presa fosse,
Toma a alegria do dia
Pois da tarde nada sabes...
Meu irmão, toca a erguer!
Olha a festa da manhã
No jardim gelando o vinho.
Não durmas, é hora de levantar.
E, como se presa fosse,
Toma a alegria do dia
Já que sob o pó da terra
Longo te será o sono.
 
 
Abu Muhammad 'Abd al-Majid ibn 'Abd Allah ibn Abdun al-Yaburi nasceu em Évora, em meados do século XI, tendo cedo iniciado os seus estudos em Badajoz sob a orientação de ilustres mestres, estudos esses que veio a completar em Córdova. Para além de esmerada formação clássica, ficou proverbial a extraordinária memória do nosso poeta, contando-se a esse propósito várias anedotas. Depois de uma vida algo atribulada, Ibn 'Abdun viria a morrer cerca de 1135, deixando um lugar aureolado no corpus da poesia árabe.
 
Adalberto Alves, in O Meu Coração é Árabe - A Poesia Luso-Árabe, Assírio & Alvim, Outubro de 1987, pp. 55-60.

domingo, 18 de janeiro de 2015

PROÍBAM-SE OS LUSÍADAS

A bem da coerência, e doutros valores cristãos que se alevantam, sugiro que se proíba, desde já, o ensino de Os Lusíadas, de Camões, nas escolas portuguesas. Mas não só. Sugiro também que se retire a obra do mercado, sob pena de ferirmos os sentimentos religiosos e mais íntimos de populações inteiras (nomeadamente as do bom Estado Islâmico). Como já aqui havia sido demonstrado, Dante cortou Maomé aos pedacinhos. Camões, o da raça lusa que celebramos em feriado nacional, não fez por menos. Vem logo no Canto I:
 
A versão ligeira na estrofe 64 (sublinhados meus):
 
Responde o valeroso Capitão
Por um que a língua escura bem sabia:
- «Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
De mi, da lei, das armas que trazia.
Não sou da terra, nem da geração
Das gentes enojosas da Turquia,
Mas sou da forte Europa belicosa;
Busco as terras da Índia tão famosa.
 
 
E na estrofe 99, em inegável blasfémia (sublinhados novamente meus):
 
O mesmo falso Mouro determina
Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
Que a ilha é possuída da malina
Gente que segue o torpe Mahamede.
Aqui o engano e morte lhe imagina,
Porque em poder e forças muito excede
À Moçambique, esta ilha que se chama
Quíloa, mui conhecida pola fama.
 
Queira Deus Nosso Senhor Jesus Cristo que os sábios do Estado Islâmico não leiam Camões. Caso contrário, lá teremos que, a bem do respeito pelas convicções mais íntimas dos crentes, banir a obra da nação. Isto, ao pé de inofensivos desenhos, é dinamite etnocêntrico, islamofóbico, racista. E no Canto II lá aparece novamente o profeta, sempre adjectivado a preceito (estrofe 50):

Vereis a inexpugnábil Dio forte
Que dous cercos terá, dos vossos sendo;
Ali se mostrará seu preço e sorte,
Feitos de armas grandíssimos fazendo;
Envejoso vereis o grão Mavorte
Do Peito Lusitano fero e horrendo;
Do Mouro ali verão que a voz extrema
Do falso Mahamede ao Céu blasfema.

E vejamos como, por intermédio de Gama, nos canta Camões o puro reino. Canto III, estrofe 20:

Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o céu justo que floreça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora; e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

Sobre as conquistas aos mouros, manda a prudência que fiquemos calados. São contas de outro rosário - «Uns caem meios mortos, e outros vão / A ajuda convocando ao Alcorão» (Canto III, estrofe 50). Há, no entanto, uma estrofe que se destaca (112). É sobre a aliança entre os Afonso de Castela e de Portugal na conquista do Reino ou Emirado nasrida de Granada:

Destarte o Mouro pérfido despreza
O poder dos Cristãos, e não entende
Que está ajudado da alta fortaleza
A quem o Inferno horrífico se rende.
Com ela o Castelhano, e com destreza,
De Marrocos o rei comete e ofende;
O Português, que tudo estima em nada,
Se faz temer ao reino de Granada.

Quanto aos meus caros leitores, nada sei. Eu, se fosse mouro, sentir-me-ia ofendido. Andar a educar as nossas criancinhas com tamanho desrespeito pela fé alheia?

sábado, 17 de janeiro de 2015

NÃO TE METAS COM MAOMÉ




Caso contrário, os zeladores de Maomé dão-te cabo dos budas. Insistem os imbecis no respeito pela fé alheia. Aí têm o respeito desta escumalha, que nada tem de religiosa, pela fé dos outros. A memória é curta, eu sei, mas nunca é de mais lembrar aos tontos, aos néscios, aos estúpidos que o fanatismo está-se nas tintas para Maomé e para o Islão. Querem recrutar, querem crescer, querem dominar para terem um mundo só deles. O mundo da intolerância, do machismo, da total ausência de liberdade. Não te metas com Maomé, com a fé dos outros não se brinca. Puta que os pariu e mais quem os respeita.
 
P.S.: a notícia é de 2001, mas vale a pena recordar aqui. Os incautos e irresponsáveis monges budistas que se cuidem.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

AS NOITES

A noite, pelo sinal de Vénus, vem.
Noite em dois astros, hoje, somente,
porque hoje olhamos a Terra apenas
e o astro que nos visita com o seu nome.
Aqui, noite para os homens que temem
a vida, a morte, a fuga em vão.
Ou os que trabalham na terra, e com a
própria terra em minas, campos,
ou em voos sobre a terra, imaginários
pássaros humanos. Os que se alimentam
de água, que têm a esperança posta
no movimento das águas: as rotas
dos rios e mares da crosta deste astro escuro.
Noite, que veio, se olharmos Vénus,
sobre o som das cidades, nos continentes,
ou o som das cigarras no Caos novo,
pois o caos já hoje regressa
a margens estéreis, insectos ressequidos,
ramos sem as brisas na folhagem.

Noite, em que não vemos os candeeiros acesos
nas estradas, mas Vénus altíssima de luz,
insone por todos os homens no desgosto,
na doença, no assassínio, no grito.
Para os traídos no amor, para o abandono
que, por todas as horas, dura diariamente
até ser noite. E os que trabalham
as pedras, os metais, já não na forja
mas nas máquinas abstractas, feitas
pelos cérebros que criam a nova realidade.
Também para o amor vivo que cresce
nos corpos, sem tempo, guiado
pelas humanas mãos. E é noite
para aqueles que sabem a geografia
das cidades actuais e as atravessam
em carros e em linhas férreas no espaço,
sob Vénus, o planeta da tarde. Mas também
os que esperam e estão sentados nas estações
velhas, nos velhos cais, nos interfaces
de onde vão para as sempiternas casas,
nas povoações dos homens. E todos
os artífices da madeira, hoje com ferramentas
que também moldam de novo a realidade.

E Vénus vem, para aqueles ofícios
diante de um ecrã, alucinados, com os olhos
abertos para os caligramas de luz.
Assim como para os magros corpos longínquos
que, sem remorsos, a Terra e outros homens
fazem escarvar no solo com os dedos de ossos.
Os que sobrevivem ainda à total perda
da terra, da água, do seu ar e, por fim,
dos próprios astros. E os que vão recuperá-los
com os foguetões dispersos entre os astros,
coisas humanas criadas pelo homem de hoje,
já sonhadas pelos arqui-sábios gregos.

E o homem das tão simples mágoas,
que sorri para o sol e para as rosas,
com o seu irmão na terra, que cultiva
a uva, a azeitona, o dióspiro, a ameixa.
Ficarão estes frutos como símbolos
da humildade do homem perante a noite,
pois quando sozinha Vénus sai no céu,
o agricultor, como eu, medita.

*

E Vénus vem, para as mulheres
que abrem o ventre aos mil girinos
humanos, nascidos nos desertos de África,
vertiginosamente sorvidos pelas moscas.
Para as mulheres, mães, como ela,
do Deus Amor, na noite astral.
Rostos que olham a noite, com a beleza
da treva perfumada dos pomares.

Mulheres que se refugiam do mal,
de guerras, com as longas mãos à espera
dos excedentes da vida. Solitárias
mulheres que não ouvem os ecos naturais
nem os chilreios. Mas vem, Vénus, com as
que tecem e com os fios dos novelos
cobrem o berço dos filhos. As que ordenham,
sob o voo dos morcegos ao fim da tarde,
junto à baba das aranhas de manhã.
Aquelas que nas vilas e nas cidades se vestem
de cassas e de sedas e cantam o seu riso.

É noite para as que nas enfermarias
acolhem os corpos mortos-vivos do Ocidente,
e os corpos também dos distantes jovens
que se inocularam, em inocência,
ou cobiça cruel de vida melhor nos sidatórios de Cuba.
Vem noite, por Vénus, no horror
e na piedade, há tantos séculos juntos,
nesta terra em que um ao outro se chamam.
Piedade, também nome de mulher, com o hálito
maternal nas noites e nas manhãs do Cosmos.

Hoje, Vénus entardeceu no céu claro,
sozinha, face a face com a Terra,
e a Lua só na noite plena se mostrou
e juntou  os seus raios ao amor e ao medo.
Ao cair da noite, estas mulheres, por ruas,
por janelas, olham as casas vagas,
as casas cheias, em que a vida diária
lhes dá algum lugar e um tempo.

*

São as crianças que vibram com as estrelas
e aceitam as noites, por haver manhãs
em que despertam ávidas do mundo.
Noites, em que correm nas cidades sem sombras,
entre árvores que se assomam às janelas
para verem os habitantes, que a noite aqui
desvela, imersos em sonhos reais.

As crianças espalham o puro riso,
ao amanhecer, entre paredes claras
das casas e ruas ainda sombrias.
Vivem no contraste entre luz e sombras,
crescem como plantas atraídas
pelo fascínio do clarão solar. E, quando
Vénus desponta, pelo fim das tardes,
as crianças vão em bando para a louvar
com os hinos antigos dos seus gritos de graças.
São vozes moduladas em agudos, uníssonos,
que já no berço cantavam o amor dos astros.

E as crianças, ao poente, sós, abandonadas
em recantos citadinos perdidos,
em plena miséria e dores que atraiçoam
o seu ser criança, e atraiçoam a Luz
que por elas desce. São as crianças
que inventam o silêncio e as palavras
e chamam à água luz e à noite sombra,
e aos frutos chamam o seu único pão.

Que se alimentam da terra, órfãos
das cidades sem ar. Abençoadas
por Vénus, elas são os eleitos, salvos
entre a perdição e o caos. São os benditos
que renovarão os seres que vivem
pelas leis da Natureza. Sob o signo de Vénus
vão reencontrar o amor, para molhar desertos,
a paz, para reflorir janelas vãs,
a vida das criaturas, para a cantarmos.

Outubro de 1997

Fiama Hasse Pais Brandão (n. 1938 - m. 2007), in Cenas Vivas (2000). «No centro da obra de Fiama, irradiando uma força poderosa que encontra a sua medida nas realizações mais elevadas da literatura portuguesa da segunda metade do século XX, está evidentemente a sua poesia» (António Guerreiro, in Expresso, Novembro de 2005). «Desde sempre identificada com o grupo de Poesia 61, não obstante dois livros anteriores - "Em Cada Pedra um Voo Imóvel", de 1958, que lhe valeu o Prémio Adolfo Casais Monteiro, e "O Aquário", de 1959, ambos expurgados da obra canónica -, Fiama construiu uma obra que associa poesia, ficção, dramaturgia e ensaio. Em 1991, quando a integral de poesia pela primeira vez se acolheu sob o signo de "Obra Breve", sublinhei o modo hierático de um discursivismo alheio a derrames líricos, resultado de um raciocínio analítico frio e determinado que tinha como consequência um "discursivismo outro" (cf. revista LER, n.º 18, Primavera de 1992). Mantenho o juízo, apesar de Fiama ter entretanto publicado quatro obras sem as quais a Obra teria diferente enfoque» (Eduardo Pitta, in Público, Julho de 2006). «Logo de início, associa, em verso, a precisão seca do traço descritivo com a própria emergência do texto;a seguir, num permanente renovo conjunto de percepções e de memórias, que entretanto se inserem com mestria crescente numa espécie de espaço-tempo, com estatutos e limiares incertos, para o que é ou se sente» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa).

ELEVAÇÃO DE LISBOA A CONDOMÍNIO FECHADO

Alguém que me explique por que pago um Imposto Único de Circulação (não só o pago como, esquecendo-me de o pagar a tempo e horas, suporto custos de mora acrescidos de multa injustificadamente elevada), alguém que me explique para que pago inspecção periódica obrigatória, alguém que me explique porque pago para ter um carro e, depois, sou confrontado com a impossibilidade de circular em certas zonas do meu país. Não é que vá muito a Lisboa ou tenha intenções de passar a ir. Gosto cada vez menos da nossa capital e raramente não regresso de lá profundamente deprimido. Tenho agora mais um motivo para a visitar menos, o facto de a transformarem gradualmente num condomínio fechado para moradores, visitantes com bons carros e turistas estrangeiros. Se querem fechar determinadas zonas da cidade ao trânsito, fechem. Acho bem, apoio, subscrevo. Mas impedir que pessoas com carros antigos, devidamente inspeccionados, circulem na baixa é pura discriminação. Só faz sentido enquanto dado revelador da mentalidade socialista que pretende chegar à governação.