terça-feira, 31 de maio de 2016

POETA DO POVO


Foram lidos poemas dos livros "A Nuvem Prateada das Pessoas Graves" (2005), "O pequeno-almoço de Carla Bruni" (2008), "As Limitações do Amor São Infinitas" (2009) e "Breve Ensaio Sobre a Potência" (2012). Eu e a Margarida Vale de Gato lemos ainda alguns inéditos, em verso e em prosa. Alex e o pessoal do Povo receberam-nos, Nuno Miguel Guedes apresentou, Luís Carmelo convidou e leu. Juntaram-se ainda à celebração o escritor Nuno Camarneiro e o músico Luís Bastos. Já mais para o final, Joaquim Paulo Nogueira também se juntou à festa evocando os tempos de Punta Umbría. Estiveram muitos e bons amigos. Ao fundo da sala, pendurada numa parede, uma mulher com um lenço na cabeça assistiu a tudo com um sorriso no rosto. 

UM POEMA BREVE

BREVE

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom  dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.



Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Prémio Daniel Faria 2005, Quasi Edições, Maio de 2005, p. 16.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

POSTAIS PORTUGUESES #2

O que seria de Portugal sem os seus betos? Se há fauna distintiva por terras lusas, essa fauna é a dos betos. Em mais lugar nenhum do mundo os betos podem ser mandatários de candidaturas socialistas. Isso verificou-se por cá, com a célebre Carolina dos caroços. Assim ficou conhecida depois de ter afirmado numa entrevista que só comia cerejas quando a empregada lhe tirava os caroços, passando-se o mesmo com as grainhas das uvas. É uma trabalheira, concluiu. Mais recentemente, a mesma Carolina patrocinou o país no estrangeiro ao ser notícia pela forma física exibida nas redes sociais durante a gravidez. Betos como a Carolina podem constituir um extraordinário postal turístico. Desde logo por serem betos à nossa escala, ou seja, em comparação com os betos ingleses ou os congéneres americanos não são bem betos, são uma espécie de impostores. Talvez por isso alcancem tanto sucesso no mundo da representação, pululando por telenovelas e séries de mau gosto. Não sei por onde andam os betos do meu país, até porque não ando atrás deles. Presumo que facilmente se encontrem exemplares dignos de apreço nas praças de touros da nação, na Praia da Comporta ou no Rock in Rio. Agora é vê-los, para espanto de muitos, em manifestações revolucionárias, vestidos de amarelo, reivindicando apoios do estado para a educação dos seus, filhos. Ou talvez não. Beto que é beto manda para as manifestações a mulher-a-dias, a caseira, a ama, o explicador, a tutora, não se mete nessas coisas do povo quando tem hora marcada com o personal trainer. A cena dos colégios é mais típica de aspirantes a betos, aqueles que depois das licenciaturas em Direito ou Economia ou Relações Internais acabam nos cargos directivos das empresas amigas de familiares e conhecidos. De vez em quando, encontro-os nos escaparates dos quiosques em revistas boas para treinar origamis. No Verão, há deles e delas que gostam de experimentar indumentárias neo-hippie e dão um saltinho até ao Sudoeste. Outros preferem as noites brancas de Sagres e de Vilamoura. Em torno da “betaria”, o país podia promover lá fora todo um fantástico mundo de ginásios, spas, restaurantes gourmet, gins sem álcool… É natural que provocássemos algum riso, mas o turismo do riso também conta. Cite-se, a título de exemplo, a proliferação de uma literatura beta, que inclui não só romances ditos light (os de pendor histórico estão definitivamente em alta) como também ensaios de auto-ajuda, inúmeros volumes de culinária, livros práticos sobre dietas e vida saudável, híbridos sem género com um pouco de tudo e muito de nada. A pergunta é: por que hão-de interessar lá fora os nossos betos? Ora, exactamente pela mesma razão que interessam cá dentro. Símbolos de uma alegria plástica, tresandam a escândalo nas páginas das tais revistas que dão imenso que falar a betos comentadores versados em futebol, cartomancia e outras artes divinatórias. Em si mesmos, são produto de um admirável esoterismo social, o das aparências fúteis, o de um existencialismo superficial que importa observar como no deserto se observa o vazio. Há quem sonhe a olhar para eta gente sem se dar conta de que está a olhar para um pesadelo. Mas é assim a vida. Basta descer do Café A Brasileira ao Rossio para perceber que os nossos betos estão à altura dos requisitos, são a prova provada de que a humanidade pula e avança. Se não percebemos a caminho de quê, é precisamente porque eles cumprem o seu papel. 

UMA FRASE PARA O DIA

Não se pode confiar em quem não sabe arrancar o adesivo da pele num gesto firme.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

O MUNDO MÁGICO DE FREUD

A cerca de 150 páginas do fim, talvez não seja má ideia iniciar um inventário dos epítetos com que Michel Onfray brinda o pai da psicanálise no seu Anti-Freud (Objectiva, Outubro de 2012). Apoiando-se numa vasta bibliografia, Onfray começa por desmistificar a genealogia da psicanálise:

Pela leitura dos historiadores críticos, descobre-se por fim: que Freud organiza o mito da invenção genial e solitária da psicanálise quando ele, na verdade, foi um leitor voraz que se apropriou de numerosas teses de autores hoje desconhecidos, cujas descobertas são agora tomadas como suas; que Freud não inventou a psicanálise, palavra usada antes dele por Auguste Forel, pois, na verdade, Freud falava de psicoanálise…; que, ao invés da versão lendária e hagiográfica, existe uma genealogia histórica e livresca do pensamento de Sigmund Freud — mas que, ainda em vida dele até aos nossos dias, tudo foi feito para evitar uma leitura histórica da génese da sua obra, da produção dos seus conceitos, da genealogia da sua disciplina.

Em certo sentido, é precisamente isto que o filósofo francês propõe. Entenda-se plágio, no entanto, onde se fala de apropriação. A acusação é fundamentada, seguindo-se uma desmontagem do carácter de Freud que inclui acusações de egocentrismo, arrivismo e ambição desmesurada. Na sua origem, traumas de infância oferecidos por uma relação complexa com a mãe. Quem pretender encontrar aqui uma leitura psicanalizante do visado, sinta-se à vontade. Em suma:

Freud não é um cientista, não produziu nada de universal, a sua doutrina é uma criação existencial feita sob medida para viver com os seus fantasmas, as suas obsessões, o seu mundo interior atormentado e devastado pelo incesto.

Ou seja, a psicanálise esgota-se no caso Freud. O caso Freud é o único caso relevante para a compreensão da psicanálise. O que dizer, então, sobre o caso Freud? Que, no fundo e à superfície, ele é aquilo que se nega: um artista, na melhor das hipóteses um filósofo. Cientista é que não. Orgulhoso e megalómano, pretende dinheiro e celebridade, trai por diversas vezes o segredo profissional ao longo da sua carreira, adormece durante as sessões, é um homem de má fé, ambicioso, ganancioso, supersticioso e ingénuo, ciclotímico (sic), depressivo, angustiado e fóbico, cocainómano. O seu método:

Eis assim desmascarado o método de Freud: partir de si próprio, teorizar para a totalidade dos homens mas, ao fazê-lo, voltar a si próprio de onde, ao fim de contas, nunca saiu.

A crer na versão de Onfray, e não nos restam muitas razões para descrer, temos que pelo menos dar o benefício da dúvida. Dinheiro e fama foram objectivos alcançados. Quanto ao «Freud de má-fé, oportunista, invejoso, interessado, intratável, hesitante, seguro de si, ávido de sucesso, de notoriedade e de dinheiro, correndo atrás do reconhecimento universitário, neurótico, somático, crente na numerologia e no ocultismo», não está muito distante dos traços de personalidade que reconhecemos em inúmeros exemplares do vasto universo das pessoas geniais, as quais se caracterizam, precisamente, por tamanhas e tais excentricidades. Acontece que no caso de Freud a genialidade vem associada a obsessões que o impelem a deslocar para o domínio do científico matérias que consideraríamos mitológicas, adoptando como metodologia práticas que não podem senão ser tomadas como actualizações de um xamanismo ancestral. 
As conclusões a que chegou acerca dos seus casos mais mediáticos podem ser risíveis à luz de uma mente iluminista, mas são deveras inspiradoras de um ponto de vista metafórico e alegórico, são literárias no mais nobre dos sentidos, são pura arte. Freud pode não ter curado ninguém, a psicanálise pode ser uma «disciplina inventada por um homem para poder viver com a sua parte sombria», mas reconheçamos ao artista a concretização dos dois objectivos principais: dinheiro e fama. A utilização abusiva de oximoros é típica de um poeta, poeta é o que o putativo cientista nunca deixou de ser. Freud mente, mente tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. As ficções, a irracionalidade, as efabulações, a insensibilidade para com os seus pacientes, os postulados, as contradições, são partes integrantes de uma mesma criação: o mundo mágico de Freud. Não exclui o espiritismo do seu mundo encantado, era supersticioso, para ele o fortuito não existia, «só há pura necessidade mágica»:

A psicanálise é activada dentro da caverna platónica, ela disserta sobre ideias, ela volta costas à verdade dos objectos do mundo. O seu universo é um contra-mundo, um anti-mundo, um mundo invertido, um teatro no qual os chapéus são pénis, as fechaduras vaginas, as caixas úteros, o dinheiro matérias fecais, um dente que cai é um desejo de onanismo, a queda de cabelo castração…

Em matéria de dinheiro podemos olhar para o divã de Freud como olhamos para um penico e para Freud como quem olha para um coprófilo:

Freud manifesta um cinismo sem nome ao teorizar o seu menosprezo pelo povo: primeiro, a análise é demasiado cara para os seus bolsos vazios… Nem pensar em favores pecuniários pois, como se verá, pagar quantias elevadas = pagar com a sua pessoa, e portanto assegurar a rapidez da cura! O que não poderiam assegurar os operários, os mendigos, os desempregados, os proletários, tanto mais que Freud subscreve a ideia comum de que os pobres, obrigados a ganhar a sua vida, dispõem de menos tempo para incorrer na neurose!


Assim sendo, a psicanálise de Freud, no seu elitismo declarado, recria não só a indigência enquanto terapia (daí, talvez, o fazer-se pagar tão bem), como eleva o trabalho árduo à condição de via para a saúde mental. Onde é que já ouvimos isto? Quem foi que nos disse que o trabalho salvava? Para Freud, segundo Onfray, o trabalho tinha um lado lúdico, a função de nos distrair de nós próprios e, por consequência, das maleitas que trazemos dentro. É uma perspectiva razoável do problema, conquanto a razoabilidade possa ela mesma ser já problemática. Do mesmo modo que também a cura mata, pode o trabalho acelerar o sofrimento. Quanto a isso nada a fazer, contra isso nada a declarar. Talvez a solução esteja em vestirmos camisolas amarelas e começarmos a reivindicar nas ruas o direito à psicanálise, em nome dos nossos filhos, em nome da liberdade, em nome de nós próprios, psicanálise grátis para todos, já!

terça-feira, 24 de maio de 2016

POSTAIS PORTUGUESES #1


Com a aproximação do Verão intensifica-se a propaganda turística. Há muito que venho apontando a necessidade de readequarmos o nosso discurso a quem nos pretenda visitar, um discurso que tem sido pouco motivante, nada sedutor e lacónico em termos de atractividade. Tomemos, então, a iniciativa. Estes postais portugueses têm o objectivo declarado de chamar a atenção para essas mesmas lacunas, podendo entrever-se neles alguma tentativa de humor falhado. Seria um erro, porém, julgar humorístico o discurso de quem quer ser sério, pelo que não espero dos leitores senão que aceitem a seriedade e a honestidade do meu pensamento e das minhas palavras para posteriormente, se for caso disso, poderem contraditá-las como bem entendam. 
Começo por acusar na nossa propaganda turística uma grave falha, não promovemos os nossos assassinos com a acuidade que o tema merece. Portugal tem os melhores assassinos do mundo. Toda a gente sabe que este é um postal turístico com imenso potencial. Observemos o que de melhor foi feito ao longo dos anos em torno do assassino dos assassinos. A Alemanha soube organizar-se turisticamente em torno do nazismo e da figura de Hitler, com visitas guiadas a campos de extermínio e museus devidamente apetrechados. A popularidade de Hitler está comprovada, basta termos em conta o sucesso comercial das recentes reedições de Mein Kampf. Já os ingleses, ao elevarem Jack the Ripper a figura nacional, souberam capitalizar um dos seus mais famosos assassinos. Facilmente encontramos pela cidade de Londres uma The Jack The Ripper Tour e o Jack the Ripper Museum é visita obrigatória em qualquer guia turístico. Neste domínio, ninguém bate os norte-americanos. É possível atravessar a América seguindo as pegadas dos seus serial killers mais famosos. De resto, esta é uma bandeira que nenhum americano decente enjeita. Só a dupla Bonnie & Clyde merece museus no Louisiana e em Vegas, não faltando musicais para celebrarem os feitos  deste romântico par de assassinos. Têm a sua memória assegurada entre casais com um forte sentido do romantismo. Associado ao nome de Charles Manson encontramos o Museum of Death em Hollywood e New Orleans. Sugerimos uma visita ao sítio do Crime Museum, com toda uma panóplia deveras atractiva sobre os mais variadíssimos crimes e suas vítimas, com direito a exposições, visitas guiadas, eventos, galerias. Ideal para visitar em família. Nota: o Washington, DC Crime Museum fechou as portas físicas a 30 de Setembro de 2015, mas está previsto para este ano a abertura do Alcatraz East, um novo Museu do Crime em Pigeon Forge com a possibilidade aos seus visitantes de permanecerem presos, de graça, e experimentarem simulações em vetustas cadeiras eléctricas. Quem não o desejaria?
São exemplos destes, simples mas eficazes, que revelam uma boa estrutura turística em torno do crime. Ora, tendo Portugal os melhores criminosos do mundo é incompreensível a inexistência de um turismo focado na exploração destas boas figuras. Duas características são por demais evidentes nos nossos melhores criminosos: a primeira é que vão cometer os seus crimes bem longe, nomeadamente em países estrangeiros; a segunda é o serem aplaudidos pelas populações. Tomemos de exemplo os casos de Luís Militão, que ao praticar os seus crimes em Fortaleza deixou-nos a possibilidade, inclusive, de estabelecer uma parceria com essa localidade no sentido de potenciar pontes lusófonas com direito a passeios turísticos, sempre muitos apreciados, entre Portugal e o Brasil. O caso de Manuel Palito, o mais simpático e popular dos assassinos portugueses, permitiria todo um desenvolvimento do turismo rural em torno da sua figura. Manuel Palito esteve fugido 34 dias, os mesmos 34 poderiam servir como referência para um pacote especial que incluísse acampamento selvagem, técnicas de sobrevivência, desportos radicais, um museu em Valongo dos Azeites, simulações de violência doméstica… São só ideias. Enfim, o melhor que Portugal tem. 

sábado, 21 de maio de 2016

O PÁSSARO DA HIPERLITERATURA

Portugal mudou, somos mais cosmopolitas, há mais gente com educação superior, lemos em várias línguas, somos mais igualitários. Aliás, a primeira vez que vi Rentes de Carvalho numa feira do livro em Lisboa, nem ele se lembrará já, o escritor consagrado e o professor que nos chega da universidade de Amsterdam estava a fazer algo de muito invulgar em Portugal: estava a deixar que uma funcionária da editora, cinquenta ou sessenta anos mais nova que ele, o tratasse por «tu».

Penso que é por causa disso, não por causa da hiperliteratura, pássaro, aliás, que poucos avistam e menos acham no fricassé.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A VIDA NO CAMPUS

O pasquim da nação teve acesso a umas imagens onde podemos apreciar os dotes improváveis de algumas funcionárias do Campus da Justiça a ensaiar uma dança do varão. O pasquim publica as imagens com a intenção óbvia de meter meio mundo a comentar o sucedido, esperando da população em geral mais uma série de ejaculações precoce de indignação inconsequente. É assim que se vendem jornais, tal como se podia vender pornografia ou outra coisa qualquer: vai-se ao encontro das ambições mais básicas do público-alvo. 
Não censuro o pasquim, faz com inquestionável mérito o seu trabalho de escaravelho. Muito menos censuro as funcionárias do Campus. Quanto a estas, só tenho elogios para expressar e muito me agradaria poder apreciar in loco tais dotes (com toga e martelo na mão). Sim, reconheço ter fantasias eróticas algo estranhas. É a vida. Também não censuro o cidadão indignado, pois dele não há que esperar outra coisa senão que se indigne, que aproveite a sua vida a indignar-se, que se revolte contra este e contra todos os momentos de descontracção no trabalho, que reivindique o mundo sisudo, cinzento, orwelliano que por certo repousa recalcado no seu íntimo. O cidadão indignado é boa pessoa, merece-me respeito. 
Devo, no entanto, expressar a minha tristeza por não estar ao alcance do pasquim mostrar-nos a vida do tipo ou da tipa que lhe fez chegar tais imagens. A minha curiosidade mórbida recai sempre sobre os bufos. Tenho para mim que a vida dos bufos é exemplar, seria óptima de se ver e de se partilhar, de se comentar, tenho para mim que a vida da pessoa que filmou aquele momento de descontracção laboral e a fez chegar ao pasquim tem no seu íntimo um superego deveras eficiente, não se mete nestas poucas vergonhas, é funcionário exemplar e aplicado, vive a sua existência entre a casa e o trabalho carregando para casa trabalhos que não foi capaz de concretizar durante o dia tal a balbúrdia no Campus. Ou então é um voyeur encapotado, tipo os mirones que vão espreitar praias de naturistas e praticam a bela arte do onanismo com vergonha de si próprios. 
Não quero fazer psicologia, não está ao meu alcance compreender tais mentes. Mas gostaria de ter oportunidade de assistir à vida de um cabotino do género como posso hoje deliciar-me com as funcionárias do Campus. Seria de elementar justiça. Daqui, pois, o meu sincero, honesto e cúmplice agradecimento às bailarinas. Que não se envergonhem de ser humanas e dancem e bebam e sejam felizes. Já aos bufos, desejo apenas que continuem a ter vergonha de si próprios. Terão, por certo, lugar reservado nos céus.

CÉU NUBLADO COM BOAS ABERTAS

Apesar de se tratar de um primeiro romance, Céu Nublado com Boas Abertas (Quetzal, Fevereiro de 2016) não é o romance de um estreante. Nuno Costa Santos (n. 1974) tem uma vasta prática literária enquanto cronista, dramaturgo, guionista, poeta, aforista. De entre os livros que publicou anteriormente, destacaria precisamente um nesse domínio da frase curta: Melancómico – aforismos de pastelaria (Produções Fictícias/Guerra & Paz, 2007). O destaque justifica-se por duas razões. Primeiro, por de algum modo esse livro sintetizar uma perspectiva ética e estética acerca do mundo, eivada pela conjugação de dois estados de alma num só conceito: melancómico. É nesta conjugação entre a melancolia e o cómico que podemos observar uma espécie de suporte para os ambientes explorados por Nuno Costa Santos, os quais são preenchidos por personagens que nunca chegam a ser trágicas nem se esvaziam por completo num humorismo absurdizante. O que têm de cómico revela-se nas preocupações com que se martirizam em insones monólogos interiores, apesar da consciência que manifestam da inutilidade última de toda e qualquer preocupação. O que têm de melancólico relaciona-se com esta consciência, acabando ela por ter o poder de transformar o quotidiano num palco de pequenos e sucessivos episódios onde o drama, a perda e a derrota são superados por um paradoxal gosto de ir cumprindo a existência. Em certo sentido, o título Céu Nublado com Boas Abertas, no que tem de usual e de banal, capta e sintetiza na perfeição essa mesma postura perante a vida que as personagens principais do livro exteriorizam ao longo de 250 páginas. Mas há um segundo motivo pelo qual se justifica aqui falar de um livro de aforismos. Está ele relacionado com a prática de uma escrita onde a frase curta e objectiva pode ser já considerada imagem de marca. Não obstante tal evidência, importa referir que, com esforço ou sem ele, Nuno Costa Santos procurou resistir ao efeito aforístico nas páginas do seu primeiro romance, sendo raríssimas as vezes em que lhe vislumbramos um paradoxo, uma frase esforçada de belo efeito, um trocadilho. Parece haver neste caso um trabalho de linguagem inverso, ou seja, aquilo que tenderíamos a considerar pobre em termos de labor alegórico e metafórico é ultrapassado por um controle dos recursos que tem o claro propósito de fazer as situações valerem pelo que possam ter de explicitamente instigador do pensamento e da reflexão. As duas histórias que se cruzam ao longo do romance, tanto a do avô materno a braços com uma grave doença pulmonar, como a do neto que regressa às origens açorianas para aí cumprir um último desejo do seu avô, valem por si mesmas enquanto testemunhos existenciais. Há nisto tudo uma grande ilusão que não pode ser negligenciada, e essa grande ilusão é a da possibilidade de um regresso ao passado. Essa possibilidade revela-se ineficaz tanto na viagem física aos Açores, com a sua paisagem humana radicalmente transformada, como na viagem intelectual através dos diários deixados pelo avô. Se podemos falar de herança neste contexto específico, essa herança é a da tal consciência de que, apesar das pequenas conquistas, no final sobra-nos o fracasso, apesar das boas abertas, o céu mantém-se nublado. Que não se enfatize nem um nem o outro dos estados é revelador de uma busca de equilíbrio que marca o sentido da existência do narrador. Este não é um romance perfeito. Há referências escusadas que nada acrescentam à narrativa, por vezes tendemos a julgar excessivas as citações do diário do avô, a história quase policial que se intromete no decorrer da viagem aos Açores talvez pudesse ter sido trabalhada de outro modo, aprofundando o potencial dramático de algumas daquelas personagens insulares. Apesar disto, há algo de bastante sedutor na articulação exercida entre o passado e o presente, na caracterização social e cultural da vida açoriana, na forma como se explora a relação espiritual entre avô e neto, no modo depurado e sintético com que se enunciam reflexões que são, no final de contas, o magma da vida: «Não penso o que é que vai ser o pós-morte. Em vez disso, quero ficar. Quero saber o que é que ainda pode ser a vida, uma existência com engulhos mas ainda assim habitável e — por mais que a literatura a pinte com justiça num negro monocromático — é atravessada aqui e ali por pequenos milagres, alentos solares» (p. 177). 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

UMA ORAÇÃO DE RAINER MARIA RILKE

O LIVRO DA POBREZA E DA MORTE
(1903)

8.

Senhor: mais pobres do que os pobres animais somos,
que com sua morte acabam, mesmo com cegueira,
porque todos nós ainda não morremos.
Dá-nos aquela que a ciência conhece
de atar a vida a uma latada inteira
à volta da qual Maio mais cedo comece.

Pois o que a morte estranha e difícil faz,
é ela não ser a nossa morte; uma qualquer, escura,
que finalmente nos toma por nenhuma estar em nós madura.
Por isso passa uma tempestade que nos desfaz.

Ano após ano no teu jardim estamos
e somos as árvores que suave morte deviam dar;
mas nos dias da colheita envelhecemos,
e como mulheres que acabaste por castigar,
inúteis e estéreis nos fechamos.

Ou o meu orgulho de ser não tem razão:
serão as árvores melhores? Somos nós só reprodução
e colo de mulheres que muito dão?
Com a eternidade tivemos relação
e quando chega a hora do parto, nasce sem sorte
o aborto da nossa morte;
curvo e aflito embrião
cobriu as ínfimas pupilas com a mão
(como se algo horrível o horrorizasse)
e na fronte já formada apareceu
sobretudo o medo do que não sofreu,
e como jovem mulher que passou sem danos
por dores de parto e cesariana, nos fechamos.


Rainer Maria Rilke (n. Praga, 4 de Dezembro de 1875 - m. Montreux, Suíça, 29 de Dezembro de 1926), in O Livro de Horas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Assírio & Alvim, Maio de 2009, pp. 301-303.

terça-feira, 17 de maio de 2016

NOTA

Por motivos técnicos — o velho Pentium foi à vida e não me apetece reanimá-lo —, as actualizações da Antologia têm andado aos solavancos, nomeadamente as que implicavam “scanear” imagens para dar continuidade a algumas séries. Tentarei encontrar uma solução prática para em breve retomar as actividades ordinárias. Até lá, tudo como dantes no quartel de Abrantes.

VIVER

No romance Céu Nublado com Boas Abertas (Quetzal, Fevereiro de 2016), Nuno Costa Santos (n. 1974) evoca a páginas 101 um episódio caricato que ter-se-á passado com Samuel Beckett:

Um dia um homem encontrou Beckett na rua e bateu-lhe com violência. O escritor foi à prisão perguntar-lhe porque é que havia tido essa atitude. O homem deu a mais esclarecedora das respostas: «Não sei.»

35 páginas depois, o mesmo episódio volta a ser convocado:

Viver é isso: não encontrar um motivo concreto. Ou encontrá-lo por um instante nalguma tradição, que se esfuma depressa, arrasada ao primeiro dichote. Cristianismo, budismo, estoicismo, solidariedade, bondade. Pergunto se o motivo estará algures no interior desta poeira espiritual. Não sei, como o homem que bateu em Beckett.

Se alguém quiser acrescentar alguma coisa, faça favor.

sábado, 14 de maio de 2016

JOE KIDD (1972)



Não é por acaso que John Sturges (1910-1992) aparece tão representado nesta lista de westerns que deve ver antes de morrer. Dos 83 filmes até agora evocados, 6 são da sua autoria: Escape from Fort Bravo (1953), Backlash (1956), Gunfight at the O.K. Corral (1957), The Law and Jake Wade (1958), Last Train from Gun Hill (1959) e The Magnificent Seven (1960). Antes de lhes juntarmos Joe Kidd/A Crista do Diabo (1972), justifiquemo-nos com a mestria de Sturges na gestão das tensões, na capacidade para abordar temas clássicos sem resvalar para a banalidade, na ousadia que sempre manifestou quer na escolha de actores, quer na aposta em elementos técnicos fundamentais como sejam a fotografia e a banda sonora. 
John Eliot Sturges tinha a escola dos denominados filmes de série B, sabia fazer render os recursos. Não lhe deram nenhum Oscar, mas bem o merecia. Mais que não fosse por Bad Day at Black Rock (1955), extraordinária aproximação do western ao film noir. Em suma um thriller original e fundador. No que respeita a westerns, fez incursões pela Guerra Civil e pelas Indian Wars, abordou episódios míticos como o do tiroteio em Ok Corral que tornou famosos Wyatt Earp e o seu extravagante amigo Doc Holliday, explorou conflitos morais e sociais. A perspectiva do mundo que nos oferece não está isenta de paradoxos, não é linear, mas rejeita igualmente qualquer tipo de niilismo castrador da liberdade humana e da capacidade que os homens têm de transformar o mundo à sua volta. 
Joe Kidd foi um dos últimos filmes que assinou, porventura o derradeiro dos seus westerns propriamente ditos. Longe de ser excepcional, tem desde logo o interesse de colocar em contracena dois míticos actores como o são/foram Clint Eastwood e Robert Duvall. Além disso, refira-se a bela banda sonora de Lalo Schifrin ao melhor estilo Morricone. E há ainda o argumento de Elmore Leonard, autor de, entre outros, O Comboio das 3 e 10 ou o romance que deu origem a Jackie Brown, de Quentin Tarantino (a Teodolito publicou há não muito, entre nós, o romance Djibouti). Colhemos da conjugação de todos estes elementos motivos justificadores de uma revisita. 
A cidade de Sinola, no Novo México, é o palco de um conflito entre os interesses do grande capital e das populações locais oprimidas. Não é de espantar o assalto às questões sociais e políticas nesta filmografia, conquanto saibamos perspectivar o tema da justiça enquanto horizonte final de uma obra onde a temática ideológica nunca se sobrepôs à vertente filosófica. Entre a figura do latifundiário representado por Robert Duvall, acompanhado por um exército de capangas, e o revolucionário Luis Chama (John Saxon) não há nenhuma configuração do bem e do mal. No fundo, querem ambos sobrepor-se à justiça por nenhum deles acreditar que seja essa a via pela qual poderão alcançar os seus objectivos. Os revolucionários mexicanos reivindicam o direito à propriedade que lhes foi usurpada, o empresário americano defende o seu negócio sem olhar a meios. 
Entre os dois opositores algo ambivalentes emerge a figura de Joe Kidd, papel à medida do Eastwood justiceiro, mas não justicialista, que conhecemos de inúmeros outros filmes. Começa por ser contratado por um dos lados como pisteiro, mas acaba no outro lado quase como guarda-costas. Não há oscilações de carácter na sua figura, não se vislumbram laivos de oportunismo. São-nos oferecidas pistas que permitem construir a índole do personagem sem lhe determinarmos o fio condutor, tornando-se claro o carácter pragmático com sentido de justiça. Neste sentido, Joe Kidd talvez resulte como uma espécie de elogio ao pragmatismo norte-americano, a uma espécie de fé no bom senso e na moral natural que não encontra eco nas instituições e nas convenções humanas. 
Com este filme exalta-se a capacidade do indivíduo não em fazer justiça pelas próprias mãos, mas em apelar a uma consciência moral anterior a qualquer tribunal de quatro paredes - sendo certo que no termo da acção é precisamente para essas quatro paredes que todos tendem. Aspecto irónico da narrativa, ser o mais desregrado e até impetuoso dos intervenientes a refrear os ânimos e a impor as regras. Eis mais uma das belas contradições humanas que dão forma ao cinema de Sturges,

sexta-feira, 13 de maio de 2016

APARIÇÕES


Desde criança que falo com os mortos. A minha mãe chegou a pensar que eu tinha poderes mediúnicos, levou-me à bruxa, benzeu-me já depois de me ter baptizado e de eu ter feito a primeira comunhão a contragosto. Tenho aparições frequentes, nunca me foi detectado nenhum problema de saúde mental. É uma questão de feitio. Ou de educação.



Comecei a ouvir falar em aparições desde que sei pronunciar as primeiras palavras, devo ter dito luz antes de aprender a dizer papá e mamã, sou filho de Deus, filho abençoado, porque me deram como morto à nascença antes de me ouvirem a primeira lamentação. Chorei, recordo-o hoje após anos de terapias regressivas, porque me estavam a dar como morto.



Era um recém-nascido e não percebia porque tinha de chorar assim que cheguei a este belo mundo, apesar da cara feia da parteira e das dores horrorosas que fiz minha mãe passar. Só quando me apercebi que estavam a dar-me como nado morto é que desatei a chorar. E de morto passei a vivo. Foi o primeiro milagre da minha vida, uma vida rica em milagres, diga-se de passagem.



Sou de uma terra onde é frequente Jesus e Nossa Senhora aparecem aos fiéis. E aos infiéis também. Só nunca aparecem aos ricos, pois os ricos não precisam de sentir a presença de Deus. Têm contas recheadas, podem meter os filhos em colégios e pagar clínicas privadas.


Deus aparece aos pobres, aos pastorinhos, aos cegos, aos mendigos, aparece às pessoas doentes e desviadas, Deus aparece a quem precisa dele, das suas aparições. Falo com Deus como falo com os mortos, aos cochichos. 



Perto da aldeia dos meus pais houve um dia uma aparição famosa. Felizmente a Nossa Senhora da Asseiceira não causou tanto furor como a de Fátima, seria arrepiante imaginar naquela bela terra um santuário tão de mau gosto como aquele que foi erigido em Fátima.



Não compreendo, nunca compreendi, as peregrinações a Fátima. O caminho é feio, a localidade é medonha, o negócio em torno dos pastorinhos é a prova de que Deus não aparece aos ricos, tudo ali é um embuste, Fátima é o local sagrado dos vendilhões do templo, não gosto de nada do que se passa em Fátima e sempre que vejo peregrinos a caminho daquele Inferno peço a Deus que os reencaminhe na direcção da Nazaré.


Para mim, o único e verdadeiro lugar sagrado fica na Nazaré.


Não me admira que D. Fuas Roupinho ali tenha sido surpreendido por uma aparição do Sagrado. Nossa Senhora da Nazaré merece todos os cultos que as virgens merecem. Não há nada de lendário naquela terra, basta lá ir para o verificar.


Sempre que vou à Nazaré olho para o céu e vejo Deus, baixo os olhos na direcção do mar e a imagem de Deus acompanha-me, perco-me no horizonte e é Deus que lá está, Deus num barco a lançar redes ao mar. 


Deus não era pastor de rebanhos, era pescador. Muitos dos fiéis que hoje em dia se curvam aos pastorinhos são incapazes de perceber a diferença. Andar no mar a lançar redes é completamente diferente de guardar rebanhos. No primeiro caso, pesca-se. No segundo, guarda-se. É a diferença entre atrair, seduzir, conquistar e impor a ordem pela força de um cajado.



Eu só gosto dos pescadores, não gosto dos pastores. E gosto de ver as mulheres dos pescadores a orarem por eles em terra.



Deus é todo aquele peixe seco espalhado pela praia, é o lamento das carpideiras aquando do naufrágio, é cada um dos edifícios construídos ao longo da marginal, as instalações eléctricas num emaranhado de fios desconexos com a sua organização muito própria e funcional.



Deus é cada uma das montras onde se anunciam bonecas e barquinhos. Nada de velas. Odeio velas. Aquelas velas de cera mal cheirosa que toda a gente ateia lá para os lados de Fátima poluindo o ar. Ainda se ateassem incenso.


Nenhuma vela de cera pode chegar a Deus como chegam as velas dos barcos na Nazaré e como chegam os remos e as saias das nazarenas e os pregões. Cada pregão é uma oração, os pregões da Nazaré são divinais, são eles próprios manifestações do sagrado, são hierofanias.



Compreendo peregrinações à Nazaré, lamento profundamente os falsos cultos que atraem peregrinos para Fátima.



Bem sei que a descentralização também é importante nos negócios de Deus, embora neste caso estejamos mais perante um negócio da Igreja.


Compreendo as necessidades do interior face à abastança do litoral, mas a mim não me distraem do que é verdadeiramente relevante.


Deus aparece-me onde me sinto bem. Para procurá-lo no interior, prefiro as Grutas de Mira de Aire. Infelizmente, não se chega lá por mar.


quarta-feira, 11 de maio de 2016

CORPO DO(C)ENTE

Recordo este postal de 10 de Dezembro de 2012. A TVI exibia uma reportagem onde ficava claro a quem servia o financiamento de inúmeros colégios privados espalhados pelo país. Em causa estava um grupo em concreto, mas uma investigação mais profunda poderá levar-nos a concluir que a prática de financiar o negócio privado da educação com dinheiros públicos é um cancro há muito instalado no corpo do(c)ente deste país. Bastaria pensar na promiscuidade raramente posta em causa entre Igreja Católica Apostólica Romana e Estado português. Adiante. 
Quando a reportagem da TVI foi exibida, foram inúmeras as vozes indignadas que se levantaram do silêncio. Algumas delas surpreendentemente. Era preciso acabar com aquela pouca vergonha. Ficou tudo como quase sempre fica neste país, ou seja, em águas de bacalhau. Entretanto, há um ministro da educação de um governo que parece apostado em fazer o óbvio. Estranhamente, as vozes silenciosas voltam a fazer-se ouvir. Estão contra o ministro. Os ministros da educação são como os árbitros de futebol, colocam-se sempre a jeito dos mais variados impropérios. 
Quando meio país se queixa da fraqueza dos sucessivos governos da nação face aos lobbies instalados, estranha-se no mínimo que quem afronte esses lobbies receba tão pouca solidariedade e comece logo a comer porrada vinda de todos os lados. É a imagem que fica porque é a imagem que passa, nomeadamente através de quem, lá está, sobrevive de mãos dadas com os lobistas. Afinal, são estes quem mexe os cordelinhos do poder com a sua, como se diz, capacidade de investimento. Acrescente-se que nem sequer está em causa medir forças entre público e privado. Está em causa meter as coisas no seu devido lugar, o privado ao que é privado, o público ao que é público. 
É claro como a mais pura das águas que o ministro da Educação do actual governo está cheio de razão nesta contenda. Se é privado, privado seja. O que é isso de negócio privado financiado por dinheiros públicos? Ora, bardamerda mais o oportunismo. Se é para fazer cortes, pois que se comece precisamente pelas partes cancerígenas. Esta é uma delas. 

terça-feira, 10 de maio de 2016

UM POEMA DE W. B. YEATS

TUDO PODE TENTAR-ME

Tudo pode tentar-me a que me afaste deste ofício do verso:
Outrora foi o rosto de uma mulher, ou pior —
As aparentes exigências do meu país regido por tolos;
Agora nada melhor vem à minha mão
Do que este trabalho habitual. Quando jovem,
Não daria um centavo por uma canção
Que o poeta não cantasse de tal maneira
Que parecesse ter uma espada nos seus aposentos;
Mas hoje seria, cumprido fosse o meu desejo,
Mais frio e mudo e surdo que um peixe.


William Butler Yeats (n. 13 de Junho de 1865, Dublin, Irlanda - m. Menton, França, 28 de Janeiro de 1939), in Uma Antologia, trad. José Agostinho Baptista, Assírio & Alvim, Setembro de 1996, p. 57.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

VER NO ESCURO

Cláudia R. Sampaio (n. 1981) é uma das vozes poéticas mais promissoras da sua geração. Reconhecê-lo é uma redundância que não deve distrair-nos de uma leitura exigente do que vem publicando, muito menos depois de dois primeiros livros com boas indicações: Os Dias da Corja (do lado esquerdo, 2014) e A Primeira Urina da Manhã (Douda Correria, 2015). Ao terceiro livro, integrada numa colecção que lhe permite chegar a leitores provavelmente alheados da obra anterior, por razão de espaços de distribuição desiguais e exposições mediáticas distintas entre os três editores, a poesia de Cláudia R. Sampaio denota algumas debilidades que não podem deixar de ser apontadas. 
Ver no Escuro (Tinta-da-China, Março de 2016) não é um mau livro, consideração que seria injusta face à força inegável de alguns dos seus poemas. Podemos, contudo, lamentar que nem todos eles estejam ao nível do primeiro e do último, momentos altos de um conjunto onde os vícios, ao contrário das virtudes, se encontram no meio. Por vícios entenda-se aqui tiques, manias, soluções fáceis que prejudicam o conjunto no seu todo. Um dos mais evidentes é a utilização abusiva de sufixos diminutivos e aumentativos. No caso dos diminutivos a tendência chega a ser obsessiva, ficando os poemas prejudicados pela sugestão de uma sentimentalidade à qual se opõem nos seus melhores momentos.
Exemplos: «camisolinha de gelo» (p. 10), «quartinho-ilha» (p. 11), «abelhinhas doidas» (p. 13), «vem devagarinho» (p. 16), «existindo de mansinho» (p. 23), «mansinhos» (p. 37), «mãozinhas cheias» (p. 40), «devagarinho» e «tardinha» e «laguinho» (p. 43), «miudinhas» (p. 46), «orelhinhas» e «cabecinha» (p. 48), «rendinha antiga» (p. 49), «tiros de migalhinhas» (p. 55) — neste caso, o sufixo é ainda menos aceitável por já serem suficientemente diminutas as migalhas elas mesmas —, «larguinho» (p. 64), «Fininhos» (65), «dois pezinhos» (p. 70). Por vezes, os diminutivos dividem o protagonismo com os aumentativos num mesmo poema. Noutras ocasiões, aparecem sozinhos a trair o poder de uma linguagem suficientemente sugestiva. 
Num mesmo poema encontramos um «passado passadíssimo» (p. 32), um «violentíssimo eco» e uma «violência lindíssima» (p. 33) completamente escusados, pois ao contrário de oferecerem ênfase às imagens em evidência acabam por manchar o poema com uma dispensável afetação. Em sentido contrário, note-se como é possível ser-se hiperbólico sem cair na armadilha de uma linguagem afectada: «Sabemos que vamos de encorrilhadas faces na procissão / de milhões de peitos ao abandono / de milhões de fomes escancaradas / e que de lá voltaremos desmaiados em mais vultos / e seremos muitos, muitos ombros erguidos / debaixo do desmanchar das febres altas / debaixo dos canteiros em janelas maternas / e das coisas irreparáveis para além do cuspo» (p. 54). 
Ora, se no início do século passado um dos nossos grandes cultores do modernismo, a saber Mário de Sá-Carneiro, lamentava a ausência de um golpe de asa para atingir qualquer coisa de superior — «Um pouco mais de sol – eu era brasa» (in Quase) —, cem anos depois Cláudia R. Sampaio vem responder a esta carência com uma espécie de apelo ao excesso: «Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita / mais a vento de sul ou de norte, / mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!» (p. 7) Algumas páginas depois, num dos melhores poemas deste livro, podemos também ler o seguinte verso: «Hei-de morrer como um todo, nunca por partes». É o primeiro verso de uma estrofe que procura responder ao verso isolado que a precede: «Onde estão os Poetas que morrem a cada verso?» (p. 73) A maiúscula não é ingénua e faz sentido (assim como, diga-se, o malfadado ponto de exclamação da página 7), demarca uma diferenciação na mesma medida em que assume uma posição no universo da poesia. 
Tanto Mário de Sá-Carneiro como Luís de Camões — «Amor é um fogo que arde sem se ver» — parecem ecoar no imo dos versos da autora de Ver no Escuro, respondendo-lhes esta também com jogos semânticos onde sobressai uma incontenção verbal capaz de desorientar a leitura e instaurar uma espécie de incomunicabilidade. Os sublinhados são meus: «Explicar que é nas tuas mãos que / se alastram erupções a peito e bala / que é nas costas do teu hálito que / balança a minha crença oblíqua / meu cavalo de Tróia / meu átomo alucinado // que perigosa andança pela / tua linha de comboio incendiado / perigosíssima fonte de / arrebatamento diurno esfinge / perigosíssima chicotada arcebispal / na pata de um sonho morto» (p. 26). Estou em crer que um poema com tal densidade metafórica só teria a ganhar, quer em termos rítmicos, quer em potencializações do significado, com uma outra contenção lexical, tomando-se por excessivo o que está a sublinhado. 
Há a espaços uma adjectivação na poesia de Cláudia R. Sampaio que me parece desnecessária e prejudicial à leitura, sobretudo quando se pretende abordar certas temáticas com um tom cruel, em sentido artaudiano, exibindo a tal excessividade reivindicada ao longo de um livro cujo título é, por si mesmo, uma arte poética. Sublinhe-se, para terminar, que alguns dos melhores poemas do conjunto acabam por recorrer a uma metodologia poética clássica tal como o é a anáfora. São disso exemplo os poemas «Não há nenhum pássaro sobre a /minha cabeça» (p. 24) — evocação de Manuel António Pina? —, «Tragam-me um homem que me levante com / os olhos» (p. 39), «Não adianta procurar por procurar» (p. 58) ou «Estou viva.» (p. 62) — dada a ausência de títulos, socorro-me dos primeiros versos. Também exemplo do que há de melhor nesta colectânea é o poema que transcreverei de seguida, o qual, lá está, não precisa de ser incontido para ser excessivo, nem carece de truques para produzir efeitos agitadores:

Quando partes a loiça toda
e não tens um copo para beber água
e pegas na garrafa que está no frigorífico
mas quando vai à boca cheira ao bafio
do dia de ontem
por isso fazes as mãos em concha para
levares a água à boca
e deixas escorrer gotas de novo dia
e a concha de mãos é a barriga da tua mãe
e a barriga da tua mãe é a tua miséria
e a água na boca, o teu coração com novo
atestado
e a artéria aorta é o cano que te liga ao esgoto
e no esgoto está o teu cérebro de braçadeiras,
criança nova de sorriso estridente a
chafurdar numa poça arrítmica,
à espera de ser coroado.



Cláudia R. Sampaio, Ver no Escuro, Tinta-da-China, Março de 2016, p. 45.

domingo, 8 de maio de 2016

AVENIDA DO MENTIROSO



Desde que me conheço que vejo à minha volta políticos a inaugurarem coisas. Nunca achei mal, embora por vezes tenha considerado o fenómeno embaraçoso ou ridículo. Enfim, não me alongarei. Posso apenas afirmar que o nojo que sinto pela figura do padre a benzer alcatrão não está ao mesmo nível daquele que experimento quando vejo um político, de fato e gravata, a tentar abrir um buraco no chão com uma pá. São números diferentes do mesmo circo, terão de ser contemplados à sua escala. O que já transcende todos esses números é ouvir a um ex-primeiro ministro que não gosta nem vai nem nunca foi a inaugurações, quando é por todos sabido e pode ser facilmente comprovado que o homem se fartou de pousar para a fotografia. Em alguns casos com resultados desastrosos. O que há nisto de relevante não é o assunto em si. É, mais uma vez, a dimensão patológica da personagem Passos Coelho. Repare-se que neste caso não havia sequer necessidade para mentir, ninguém lhe levaria a mal que simplesmente não fosse ao Marão. Ninguém esperaria sequer que fosse ou deixasse de ir. Mas o tipo não se conteve e lá se lhe escapou mais uma mentirinha. Passos Coelho é um mentiroso compulsivo, não se contém, aquilo é pura incontinência verbal, sempre que fala a gente fica a olhar para ele na expectativa e questiona-se: o que haverá nisto de verdade? Mente, mente, mente, mente e volta a mentir e, muito provavelmente, ele próprio vive a maior mentira de todas, a sua própria existência. Alguém lhe devia sugerir uma qualquer terapia, psicanálise, o que seja. Quando se for deste mundo, inauguremos-lhe a avenida do mentiroso.

sábado, 7 de maio de 2016

MURPHY

Explicam os manuais que o absurdo se refere a tudo quanto escapa às leis da razão, é o que não tem lógica e, por isso, se considera dissonante, anormal. Samuel Beckett (n. 1906 – m. 1989) é um dos autores mais vulgarmente associados a uma corrente que poderíamos chamar do absurdo, na qual cabem obras tão distintas tais como a de Ionesco ou os contos de Kafka. Os existencialistas apropriaram-se do conceito para expressarem um sentimento de impotência face à morte, ou seja, o absurdo é o efeito produzido pela ausência de resposta para uma interrogação acerca do sentido da vida. Os textos de Beckett não participam de uma ilógica que nos permita considerá-los absurdos mediante os padrões supracitados. Antes pelo contrário, são de uma plausibilidade e de uma verosimilhança, para utilizar uma terminologia típica da epistemologia, quase científicos.
No fundo, assemelham-se a jogadas de xadrez num tabuleiro onde o pensamento defronta a realidade. Tomemos de exemplo um romance como Murphy, publicado pela primeira vez em 1938, obra onde vislumbramos uma espécie de disposição das peças que irão compor toda a posterior enciclopédia beckettiana. Como interpretar as relações estabelecidas entre as personagens? Quais os estados de alma que assomam os intervenientes? Sejam quais forem as respostas, e poderíamos elaborar tabelas exaustivas sobre o assunto, nada encontraremos de verdadeiramente extraordinário no sentido em que possa transcender a nossa concepção de um real conforme as leis da racionalidade. Murphy, o protagonista, caracteriza-se por um solipsismo vulgar e apático, procura desligar-se do mundo que o rodeia sentado numa cadeira de baloiço, cede à pressão da amada e encontra trabalho num sanatório. Que a espaços o possamos confundir com os loucos entre os quais faz pela vida, o que significa, em absoluto, não mais do que escapar à loucura dos que sobrevivem fora do sanatório, é um problema nosso, de leitores.
Se Murphy nos incute empatia é porque o compreendemos, tanto quando aceitamos as razões de Célia em busca do que na cabeça dela pudesse ser uma vida normal. O que será uma vida normal na cabeça de uma prostituta? «E que pensaria ele quando pensava nela?» — questiona-se. É neste jogo de suposições e de conjecturas, de interrogações silenciosas e de gestos solitários, que as personagens se relacionam entre si, como elementos singulares, individuais, isolados, porventura irremediavelmente isolados, cuja convivência se processa a partir de uma brutal consciência da inutilidade e de uma claríssima ideia dos limites que no fundo dão forma à tese segundo a qual o homem é um ser aberto ao mundo. Será, mas na exacta medida em que o mundo lhe é inacessível e vice-versa.
As intenções de Célia são simples, não quer voltar à prostituição e quer fazer de Murphy um homem; a profecia de Murphy é ainda mais simples e revelar-se-á correcta, ama Célia tanto quanto Célia o ama, sabe que o trabalho será o fim dos dois. Este ex-estudante de teologia que se embala numa cadeira de baloiço à espera «em vão pelo sono, noite após noite», tem uma visão do mundo e da existência, a sua indolência é a melhor forma de expressar essa visão, sonha com sonhar, não defrauda quem nele procure, e muitos o procuram, respostas para as mais complexas questões acerca do sentido da vida, responde-lhes com uma clareza cartesiana invejável:

   «— Desde Junho — continuou Murphy — que é sempre a mesma conversa: trabalho, trabalho, trabalho. Não há nada que aconteça no universo que não se destine a entusiasmar-me a procurar trabalho. Eu digo que um trabalho vai ser o nosso fim, ou pelo menos, o meu. Tu dizes que não, que vai ser o começo. Eu serei um novo homem, tu serás uma nova mulher, o excremento sublunar transformar-se-á todo em almíscar, haverá mais alegria no céu por um Murphy que arranja trabalho do que por todos os biliões de mangas de alpaca que nunca tiveram outra coisa. Tu tens um fraquinho por mim, eu preciso de ti, tens a faca e o queijo na mão, e ganhas.
   Calou-se, esgotado. A fúria que lhe tinha fornecido os meios para começar desaparecera quase de repente. Consumida por meia dúzia de palavras. Era sempre assim, e não só com a fúria, não só com as palavras.»


Repare-se no movimento que neste raro momento de explosão verbal leva da fúria às palavras e destas ao silêncio, um movimento onde a banalidade, a rotina e a monotonia traduzem um estado de espírito que é o de inúmeras personagens posteriormente exploradas por Beckett, seja por nelas pressentirmos uma atitude de desistência, uma posição de espera inconsequente, uma falência da vontade ou até uma certa castração do desejo que fica implícita na frase derradeira. 
Podemos, contudo, questionar-nos sobre o que leva Murphy a ter tanta certeza  sobre o fim que o aguarda caso encontre trabalho. Esta criatura, que encontrará trabalho onde lhe exigem que seja «uma criatura sem iniciativa», um trabalho num asilo psiquiátrico a tratar de doentes mentais, vê-se assim arrastada para o que poderíamos adivinhar ser um fatídico exílio. A sua empatia com os loucos é da mesma ordem da que sentimos por ele, não tanto porque ele seja louco, muito mais por nos fazer pensar o quão semelhantes somos a ele. Exilados nos nossos sanatórios laborais, também nós sabemos que demos cabo da música quando aceitámos ser instrumentos sem vibração. Não é mal de tédio que a poucos afecte, é uma espécie de condição existencial que esmaga o amor, o desejo e a paixão com o cansaço, com a saturação, e nos transforma em lixo. Lixo como as cinzas do corpo de Murphy, espalhadas pelo chão de um bar, varridas para o esgoto universal com todo o tipo de dejectos. 

- Samuel Beckett, Murphy, trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Assírio & Alvim, Junho de 2003.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

PAULO PARATY (1962-2016)


A morte de um ex-árbitro de futebol pode não ser notícia que importe a quem leia estes arabescos, sempre tão dedicados a quem faz das artes modo de vida. Mas Paraty era um artista, e eu chamei-lhe todos os nomes imagináveis. Hoje fiquei chocado ao deparar com a notícia do seu desaparecimento e com o silêncio que sobre essa notícia se abate. Afinal, este homem foi parte integrante do espectáculo, marcou uma geração, quem admire o jogo e acompanhe desafios deverá estar-lhe grato, mais que não seja por ter dado azo a todo o tipo de impropérios catárticos. Para que serve um árbitro de futebol senão para que descarreguemos sobre ele as dores das nossas perdas e frustrações? Este ano tem sido useiro e vezeiro em usurpações, parece querer dizer aos da minha geração que estamos a ficar velhos, que isto das idades é de um relativismo atroz e que a morte a todos espera no caminho. Retiremos da mensagem a urgente lição do hedonismo, é preciso viver a vida quanto antes, gastar o corpo e as palavras, é preciso embebedar de sensações, de todas as sensações e emoções, medos e fobias, ódios, raivas, amores, paixões, este espírito que nos habita a respiração. É preciso quanto antes ser livre e fazer merda e deixar que o corpo se arrependa de arrepender-se. Há uma urgência nisto tudo a gritar como uma sirene no centro da cabeça, enquanto paramos para escrever desabafos, partilhá-los, tragar mais um copo de vinho ao som de Serge Gainsbourg. Este post é para ti Paraty, é em tua memória. Quem diria, hein?!