Em Janeiro de 2013 iniciei neste espaço uma série de
textos com o propósito de revisitar 50 westerns. Dei-lhe o título genérico de
50 Westerns Que Deve Ver Antes de Morrer. Chegado aos 50, não consegui parar.
Acrescentei-lhe outros tantos. A lista, que pode ser directamente consultada
aqui, com link no título para cada um dos filmes revisitados, chegou
hoje aos 100. Percorro-a com raiva e desespero. Faltam títulos obrigatórios —Stagecoach
(1939), de John Ford, é a falha mais gritante, conquanto tenha dado atenção ao
remake por Gordon Douglas—, outros subjectivamente relevantes —Dances With Wolves (1990), de Kevin Costner, ou The Hunting Party (1971), de
Don Medford, foram marcantes na formação deste que vos escreve —, sendo que a
paixão pelo género tornaria esta lista interminável. Já não estamos numa
selecção restrita com um propósito pedagógico, a qual poderia incluir apenas
duas mãos cheias de filmes: Red River (1948), Rancho Notorious (1952), High
Noon (1952), Johnny Guitar (1954), Forty Guns (1957), Rio Bravo (1959), The Man
Who Shot Liberty Valance (1962), Once Upon a Time in the West (1968), Pat
Garrett & Billy the Kid (1973), Unforgiven (1992)… Assim sendo, como aceitar que deste grupo não
façam parte a trilogia da cavalaria de John Ford (Fort Apache, She Wore a
Yellow Ribbon, Rio Grande), o The Ranown Cycle que juntou o actor Randolph Scott
e o realizador Budd Boetticher em filmes extraordinários tais como Ride
Lonesome (1959) e Comanche Station (1960), ou a trilogia dos dólares com Clint
Eastwood a ser dirigido por Sergio Leone? Onde meter The Ox-Bow Incident
(1943), The Searchers (1956), Cheyenne Autumn (1964), True Grit (1969), The
Wild Bunch (1969) ou o mais recente The Assassination of Jesse James by the
Coward Robert Ford (2007)? Todas estas obras são excepcionais, é impossível
esquecê-las, omiti-las numa lista por mais pedagógica ou iniciática que ela
procure ser. Resolvi, portanto, criar na barra lateral uma etiqueta específica
para estes textos. Estão lá,
neste momento, 100 filmes do género western, típicos filmes de cowboys, spaghetti
western, neo-western, western revisionista, western moderno, anti-western,
western comedy (off-color western?). Sirvam-se à vontade.
sexta-feira, 30 de junho de 2017
O PEIDO
Calhou a certo músico conhecido encerrar um espectáculo
de beneficência. Contra todas as expectativas, começou por interpretar uma
belíssima canção de Joni Mitchell, sendo recebido com relativa indiferença,
passando depois para o tema que toda a gente esperava. Os aplausos foram estrondosos.
A meio do tema, o conhecido músico imitou com a voz o som de um trompete. A
plateia delirou. Perante o delírio, o intérprete ensaiou uma piada afirmando
que sentia que podia fazer qualquer coisa e as pessoas aplaudiriam. Ia
experimentar dar um peido. Continuou o seu número com a canção que todos
queriam. Mas o burburinho fez-se sentir na sala, antecipando o que era
previsível.
Vivemos numa sociedade cada vez mais previsível, pelo que
é bom ter tipos que façam piadas imprevisíveis em contextos inconvenientes.
Esta imprevisibilidade, esta improvisação, vai contra os tempos de condenações em massa,
tempos à sua maneira pudicos por fora, boçais por dentro. Uma sociedade que se
inquieta tanto com uma simples piada inofensiva pode esperar o quê de si mesma?
E tendo-se ofendido, ofendeu-se com o quê? Será que a piada não era assim tão inofensiva?
Outro não assunto recente tem como protagonista certo jovem
jogador da selecção nacional de futebol, o qual apareceu nas redes sociais a
exibir um monte de notas. Provavelmente de origens humildes, estrelou recentemente
numa das mais caras transferências de sempre envolvendo desportistas portugueses. De
um dia para o outro apanhou-se cheio de notas e resolveu exibi-las
publicamente, formando um leque sobre o rosto para logo aparecer com um sorriso
enorme estampado na cara. Brincava com as notas como uma criança brinca com o brinquedo favorito. Gesto infantil, palerma, pacóvio, mas altamente
previsível, vindo de uma personalidade de
quem só desprevenidamente poderíamos esperar comportamentos exemplares. Ele é o que é.
O jovem músico e o jovem jogador de futebol são a tese e
a antítese de uma síntese a que chamamos sociedade portuguesa, a qual reagirá
sempre pior ao improviso e à imprevisibilidade desafiadora de um artista do que
ao exibicionismo de um jogador da bola. Desde logo, porque são mais os pacóvios
do que os provocadores nesta nossa querida pátria. Assim sendo, para o jogador
da bola haverá sempre a complacência dos desejos materiais. O seu comportamento
não pôs em causa nenhum valor, não beliscou sequer a humildade que os
portugueses tanto prezam sem que percebam bem o que é. Aquele monte de notas é o símbolo de uma fachada, a mentira por detrás da qual se esconde o rosto. Ninguém vê mal na exibição da mentira, sobretudo deste tipo de mentiras que têm por base o dinheiro, o exibicionismo material, a fortuna.
Mas o artista pôs algo em causa, inquietou as massas. O valor que ele pôs em causa ao desafiar o seu público foi o valor da autenticidade. Ele soltou num comentário, como quem solta um traque, aquilo que lhe ia na alma. Em suma, foi autêntico, foi verdadeiro. Não sei se alguém reparou, mas o jovem artista não se limitou a ameaçar ou a sugerir. Ele saltou mesmo o peido ao dizer o que disse. Ora, numa sociedade de mentira poucos são os que toleram a verdade de um peido. Mesmo quando envolto na melodia de uma balada em espectáculo de beneficência. Agora imaginem se as notas do jogador da bola fossem para apoiar as vítimas dos incêndios.
Mas o artista pôs algo em causa, inquietou as massas. O valor que ele pôs em causa ao desafiar o seu público foi o valor da autenticidade. Ele soltou num comentário, como quem solta um traque, aquilo que lhe ia na alma. Em suma, foi autêntico, foi verdadeiro. Não sei se alguém reparou, mas o jovem artista não se limitou a ameaçar ou a sugerir. Ele saltou mesmo o peido ao dizer o que disse. Ora, numa sociedade de mentira poucos são os que toleram a verdade de um peido. Mesmo quando envolto na melodia de uma balada em espectáculo de beneficência. Agora imaginem se as notas do jogador da bola fossem para apoiar as vítimas dos incêndios.
SILVERADO (1985)
A década de 1980 foi uma quase nulidade para o western.
Dois filmes, curiosamente estreados no mesmo ano, justificam o advérbio: Pale
Rider, de Clint Eastwood, e Silverado (1985), de Lawrence Kasdan (n. 1949).
Argumentista com créditos firmados no domínio da ficção de aventura (Star
Wars, Os Salteadores da Arca Perdida…), Kasdan não assinou muitas obras. Mas
entre as que levam a sua assinatura encontramos dois westerns rodados com quase
uma década a separá-los. Em ambos, Kevin Costner, que viria a estrear-se como
realizador com Dances With Wolves (1990), é uma das estrelas da companhia.
Encarna um Wyatt Earp problemático no filme homónimo e dá corpo à cómica
e irreverente figura do jovem Jake em Silverado.
Típica figura dos livros de quadradinhos, Jake é o
malabarista de circo com coldre duplo, pontaria afinadíssima, atlético e ágil
com o cavalo como nenhum outro. De uma sobriedade incomparável, Scott Glenn interpreta
Emmett. É o irmão mais velho de Jake, protector a regressar de uma pena
injustamente aplicada. Homem de família, fiel aos seus, com um vigoroso sentido
de justiça, cruza-se na viagem com as personagens de Kevin Kline e Danny
Glover. O primeiro é o fora da lei arrependido, traído tanto pelos antigos
companheiros de quadrilha como pela própria consciência. Emmett encontra-o no
deserto praticamente desnudado, como se estivesse num retiro espiritual em
processo de renovação. Na personagem de Kevin Kline vislumbramos a metamorfose humana
que reconhecemos de inúmeros filmes congéneres. Já Mal, encarnação de Danny Glover, é o
filho extraviado que regressa a casa. Vem de Chicago, onde andou a trabalhar
nos matadouros, e não traz saudades. Regressa com esperança no horizonte, um
horizonte rapidamente redesenhado pela força das circunstâncias. É um negro
entre racistas.
Apoiado neste quarteto, Lawrence Kasdan desenhou uma
aventura que oscila entre o drama e a pura diversão. Na realidade, acaba por homenagear
o western fazendo-o reviver quando ele se encontrava moribundo. E fá-lo pelas
principais características de um género que, bem vistas as coisas, desde cedo
se afirmou enquanto formato onde o trágico e o dramático conhecem a sua
dimensão de entretenimento. Com um elenco luxuoso, ele oferece-nos ainda o
xerife corrupto na personagem de Brian Dennehy, o jogador desleal na personagem
de Jeff Goldblum, o ávido criador de gado, senhor das terras de Silverado, na
personagem de Ray Baker, a colona de fortes convicções e idealista na
personagem de Rosanna Arquette, o chefe de gangue na personagem de James
Gammon, o xerife cobarde e oportunista na personagem de John Cleese…
Nas histórias que se cruzam a caminho de Silverado desfila
todo um conjunto de personagens tipo fixadas pelos filmes que, ao longo de
décadas, retrataram o Velho Oeste, sendo esta a homenagem de que o western
necessitava para renascer das cinzas nos idos de 1980.
É muito provável que vários jovens da minha geração tenham entrado por esta
porta no mais clássico dos géneros cinematográficos, vindo posteriormente a
descobrir as raízes que permitiram florescer Paden, Emmett, Jake e Mal. Depois
de Silverado, o interesse pelo western fez-nos redescobrir um potencial algo
caído no esquecimento. Filmes como o supracitado Dances With Wolves (1990) — 7
óscares, entre os quais o de melhor filme — e Unforgiven (1992) — 4
óscares, entre os quais o de melhor filme —, acabaram por reconfirmar o
que já sabíamos desde os tempos de John Ford: estamos perante um dos géneros
maiores da sétima arte. Não é pura acção, não é acção pela acção, é acção no interior da qual o romantismo e a crueldade se encontram, a justiça e o livre arbítrio se conhecem, a consciência moral e a emoção se unem, o idealismo e o pragmatismo se justificam um ao outro, a tragédia e a comédia deixam de ter fronteiras a separá-las. É cinema.
terça-feira, 27 de junho de 2017
O CONTRÁRIO DE AZUL
De certa “notícia” e respectivo “rodapé” televisivo que
enunciava o «sangue comunista» de um político português, o mais que
se pode dizer é que se trata da questão sanguínea de uma Testemunha da
Ignorância. É bem verdade que a história não se repete – é uma impossibilidade,
teórica e de facto; mas, como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm,
se destituirmos a história do seu sentido pedagógico, isto é, se considerarmos
que a história nada nos ensina, é provável que soframos de algum desajustamento
psíquico. Todavia, escreveu o mesmo historiador, «infelizmente, se alguma coisa
a experiência histórica ensinou aos historiadores é que, aparentemente, com
ela, nunca seja quem for aprende seja o que for. Mas temos o dever de continuar
a tentar».
Jorge Muchagato, aqui.
"É FÁCIL TORCER O NARIZ DIANTE DO CADÁVER"
Quem escreve e emite juízos como se o mundo pertencesse apenas aos vivos, é um provinciano da História. E são sinal de tacanhez, tanto o seguidismo hipócrita do novo como o apego cego ao velho.
Ulla Hahn
O VERÃO DE ULLA HAHN
ESTE VERÃO
Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço
Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada
Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto
Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão
Este Verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade
Este Verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água
Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem
Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua
Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz
Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar
Este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus
Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha
Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.
Ulla Hahn (n. 30 de Abril de 1946, Kirchhundem, Alemanha), in A Sede Entre os Limites, trad. João Barrento, Relógio D'Água, 1992, pp. 109-111.
segunda-feira, 26 de junho de 2017
NÃO TEM EXPLICAÇÃO
A infelicidade deste homem não é um caso isolado. Se
fosse, as desculpas estariam aceites. Descuidos, lapsos linguae, afirmações
infelizes esporádicas, todos têm. Mas Pedrito Coelho, sem prejuízo para Beatrix
Potter, é useiro e vezeiro nestes momentos de triste memória.
Agora vem com esta de algumas vítimas da tragédia em
Pedrógão Grande terem posto termo à vida, em desespero. Pela primeira vez sinto
pena desta personagem. Há, sem dúvida, algo naquela cabeça que não vai bem. Para
mais no pior momento do governo de António Costa, este lunático atrai sobre si
as atenções deste modo suicidário.
Pode ter sido mal informado, pode ter sido
induzido em erro, mas por que carga de água vem falar de putativos suicídios neste momento
de luto? Este homem não tem explicação.
Adenda: leiam-se as contas aqui feitas: No quadriénio 2007-2010, suicidaram-se em média, por ano, em Portugal continental, 983 pessoas. No seguinte, 2011-2014, em que Passos Coelho foi primeiro-ministro, esse número subiu para 1031 mortes. O número médio de suicídios por ano no mandato de Passos foi de mais 48 em relação à média dos quatro anos anteriores. Tudo somado, 192 mortes. Terá Rui Ramos estes números em sua posse?
Adenda: leiam-se as contas aqui feitas: No quadriénio 2007-2010, suicidaram-se em média, por ano, em Portugal continental, 983 pessoas. No seguinte, 2011-2014, em que Passos Coelho foi primeiro-ministro, esse número subiu para 1031 mortes. O número médio de suicídios por ano no mandato de Passos foi de mais 48 em relação à média dos quatro anos anteriores. Tudo somado, 192 mortes. Terá Rui Ramos estes números em sua posse?
PORTUGAL LOCAL É SENSACIONAL*
José Pacheco Pereira é um homem fascinante. Alia ao semblante
de filósofo grego um pragmatismo deveras contemporâneo, tornando assim possível
e coerente manter-se num partido cuja governação lhe inspirou as mais acintosas
prosas. Não é por acaso que nos gloriosos tempos de Passos & Portas muitos acabaram
por atribuir a JPP a mais hábil das oposições, a qual trouxe pelos cabelos
certas figurinhas ridículas do PPD/PSD. Aí o temos, mais uma vez, ao lado de uma autarca
modelo, presumo, segundo padrões que só a elaborada teoria política do autor do
weblog Abrupto poderá explicar. À frente da Câmara Municipal de Rio Maior desde
2009, the woman in red conseguiu governar a três velocidades: parado,
paradinho, paradão. Não é para mim um mistério, que naquela terra nasci e daquela
terra parti, assistir ali à consagração da inoperância. Mais difícil de
entender é a simpatia de Pacheco Pereira por tais atributos. Ao tentar
compreendê-lo, ocorreu-me um caso hipotético explanado numa crónica do Público datada de
2012.
«Vejamos um caso hipotético e compósito de um político
tornado gestor. Começou por baixo, por um aparelho partidário local cujo
controlo assegurou, primeiro pessoalmente, depois através de homens de sua
confiança pessoal. Durante toda a sua vida política nunca deixará de manter um
controlo rigoroso sobre a sua zona de influência original, colocando lá homens
de mão, que mais tarde emprega, distribuindo benesses e lugares sempre em
primeira mão para o aparelho onde se iniciou e cresceu. Perder o controlo dessa
base original é um grande risco, porque é aí que as pessoas melhor o conhecem,
numa altura em que os seus primeiros passos de carreira ainda eram crus e pouco
sofisticados e deixaram rastro.
Iniciou-se a receber "avenças" dos empresários locais que conheceu no
processo de obter financiamentos para a actividade partidária. Começa a entrar
ou a fazer uma rede de "amigos", a que garante
"facilidades" junto do poder central e local, primeiro em coisas
simples e baratas e depois vai fazendo o upgrade para negócios mais sérios.
Quase toda a sua economia pessoal é feita à margem do fisco e da lei, mas isso
há uns anos atrás não era problema nenhum, porque o controlo fiscal dos
rendimentos era uma ficção e hoje também não é por que há offshores . Se havia
algum escândalo público, a explicação clássica era de que "ganhou na
bolsa", e se esse escândalo implicasse problemas com a justiça, o que era
raríssimo, pagavam-se de imediato os impostos em falta e esperava-se que a
máquina emperrasse nas prescrições ou numa tecnicalidade, como quase sempre
acontecia.
Nesta altura, o nosso político hipotético já dá uma grande atenção à
comunicação social e através de fugas de informações, que favorecem uma
carreira jornalística, ou através de favores, presentes, ou mesmo falsas
avenças ou empregos para familiares dos jornalistas no novo universo
empresarial em construção, já tem um círculo de jornalistas no seu bolso.
Nenhum, insisto, nenhum dos que fazem esta carreira hipotética o consegue fazer
sem relações privilegiadas com a comunicação social, umas vezes pessoais,
dominantes no passado, hoje através de agências de comunicação pagas a peso de
ouro. Esse ouro é pago por nós através de encomendas de serviços "de comunicação"
por uma autarquia ou um ministério "amigo", assegurados, como tudo,
pelo acesso ao poder político. Não existe hoje nenhuma destas microrredes de
poder que não esteja ligada à comunicação social e que não dê importância
decisiva a esse factor. No fundo, são políticos modernos, antes sabiam bem do
poder do telefone e dos almoços de negócios, antes de ter medo das escutas,
hoje exploram a fundo o spin e as redes sociais.
Se for esperto, e muitos são mesmo muito espertos, sai a tempo da política e dedica-se
"exclusivamente" aos negócios. Os seus negócios têm uma
característica comum - fazem-se todos na "área de negócios
politizados", todos dependem do acesso ao poder político e da decisão
política, seja através de informação privilegiada, seja através de facilidades
e escolhas de favor. Mas também por isso fica sempre com um pé, e um grande pé,
dentro da política. Emprega nas suas empresas os seus companheiros de partido,
e a sua família, cria laços sólidos no Estado e nas autarquias, recomendou e obteve
a colocação de muitas pessoas que lhe são fiéis, ajuda a obter créditos e
tratar de problemas com o fisco, ameaça quando é preciso e aparece quando é
preciso. Nalguns casos institucionaliza a sua microrrede ou em associações e
lobbies , ou, sempre deste retrato hipotético e compósito, entra numa maçonaria
e usa-a para novas relações e novos recrutamentos em áreas sensíveis de
decisão. Nos exemplos mais modernos recruta mesmo nos blogues alguns jovens
lobos sedentos de notoriedade, poder e influência e que precisam de
patrocinato, e a quem "enreda" para que não lhe venham a criar
problemas no futuro. O que vemos hoje in the making é uma nova geração,
preparada e escolhida pela anterior, de políticos deste tipo, uns na primeira
divisão, mas a maioria na segunda divisão, onde também se ganha muito dinheiro
com muito mais discrição.»
O nosso caso hipotético está longe de ser uma realidade,
é apenas hipótese académica surgida na cabeça de um bom professor. Pacheco
Pereira sabe como é, sabe como se faz, e é por isso que pensa por hipóteses, e
é por isso que, por hipótese, devemos sempre interrogar-nos onde pretenderá ele
chegar quando entre o que prega e o que faz achega-se ao poder local como o óleo
à aguarrás.
*Ao cuidado do Malomil.
sábado, 24 de junho de 2017
sexta-feira, 23 de junho de 2017
NAS NOSSAS ESTRADAS
(...)
Entre 2005 e 2015 morreram nas nossas estradas 6.694
pessoas, mais do dobro do número de vítimas do ataque às Twin Towers. Durante o
dia de amanhã, pela estatística, deverão acontecer pelo menos 87 acidentes, dos
quais resultarão pelo menos 112 feridos e pelo menos um morto. Não é decretado
luto nacional, não são exigidas cabeças de ministros, não há pronunciamento de
comentadores, não há notícias de abertura de telejornais nem pedidos de
inquérito.
(...)
Xilre, aqui.
quinta-feira, 22 de junho de 2017
BARRIGA CHEIA
Os especialistas portugueses amam problemas estruturais e
adoram fazer comparações com realidades externas, nomeadamente quando têm à mão
todo o tipo de números e de estatísticas. Tomemos de exemplo os hábitos de consumo de cultura. Não entendo como pode ser possível
falar de hábitos de consumo de cultura sem abordar um problema específico
associado ao consumo, seja este de que tipo for. Esse problema é o da tendência
portuguesa para fazer do salário mínimo nacional um salário médio. Que esperar
dos hábitos de consumo de cultura dos portugueses quando se lhes oferece um
salário mínimo de €557?
Imaginem-se a terem de pagar casa ou renda, água, gás, electricidade, imaginem-se com um filho para criar, a terem de comprar roupa e sapatos para se apresentarem decentes no trabalho, produtos de higiene básica, medicamentos, dentista, alimentação. Imaginem-se a terem que fazer uma vida básica, normal, decente com €557 por mês. Talvez não seja preciso imaginarem, talvez seja essa a vossa realidade. Que lugar nas vossas prioridades ocupam ou ocupariam livros, cinema, teatro, música, dança, afins? Não seriam relegados rapidamente para o plano dos luxos? E se há coisa que um salário mínimo português nos ensina é que a vida não está para luxos.
Imaginem-se a terem de pagar casa ou renda, água, gás, electricidade, imaginem-se com um filho para criar, a terem de comprar roupa e sapatos para se apresentarem decentes no trabalho, produtos de higiene básica, medicamentos, dentista, alimentação. Imaginem-se a terem que fazer uma vida básica, normal, decente com €557 por mês. Talvez não seja preciso imaginarem, talvez seja essa a vossa realidade. Que lugar nas vossas prioridades ocupam ou ocupariam livros, cinema, teatro, música, dança, afins? Não seriam relegados rapidamente para o plano dos luxos? E se há coisa que um salário mínimo português nos ensina é que a vida não está para luxos.
quarta-feira, 21 de junho de 2017
EPIFANIAS #23
23
Aquilo não é
dançar. Desce até àquelas pessoas, jovem rapaz, e mostra-lhes como se dança.
Ele esfola-se, sério e ágil, para dançar ante a multidão. Não há música para
ele. Começa a dançar lá em baixo no anfiteatro com um lento e flexível
movimento dos membros, passando de movimento para movimento, na graça total da
juventude e da distância, até parecer um corpo giratório, uma aranha a rodar no
meio do espaço, uma estrela. Desejo gritar-lhe palavras de louvor, gritar
arrogantemente sobre as cabeças da multidão ‘Vejam! Vejam!’ . . . . . A sua
forma de dançar não é como a das rameiras, não é como a dança das filhas de Herodias.
Emerge do meio das pessoas, súbita e jovem e masculina, e mergulha de novo na
terra em trémulos soluços para morrer triunfalmente.
James
Joyce, in Shorter Writings.
Versão
de HMBF
QUANDO OS BETOS SÃO O MENOS MAU
1. repórter da Antena 1 avança em directo para a RTP a
notícia da queda de um avião, eventualmente, baseando-se nos testemunhos de uma
velhota capaz de ver através de fumo denso, supostamente,
2. jornalista da TVI anuncia um alerta de frio em
Portugal com base numa suposta notícia na primeira página de um jornal,
supostamente, que, vista mais de perto, era anúncio da próxima temporada de uma
série fantástica, alegadamente,
3. as redes sociais andam excitadíssimas com uma bombeira
de Pampilhosa da Serra, a qual teve o azar de juntar à fotogenia a prática de
uma nobre actividade, possivelmente,
4. Marcelo quer mais leis, Judite quer demissões, o padre
Júlio quer mais padres…
As consequências de andar a chafurdar diariamente neste
lamaçal noticioso são imprevisíveis, sendo certo, contudo, que o melhor que
podemos esperar de uma sociedade assim fica plasmado no discurso da betinha que
teve acesso às matérias de um exame de português, por via de uma cunha junto
dos comunas do sindicato dos professores. Vai sair “Alberto Cairo”. Se não
sair, eu não tive nada “a ver” com isto.
terça-feira, 20 de junho de 2017
TRISTE CONCLUSÃO
De um lado o poder, do outro o saber. Afastados por
milhões de hectares queimados, centenas de vítimas e milhões de euros
consumidos. Quase incomunicáveis, apesar da cordialidade. Com o poder a mostrar quão insensível é aos apelos do conhecimento.
(…)
Há um problema de fundo com a prevenção. Ela impede os
negócios do combate, um pasto fértil que se renova ano após ano. Numa lógica
neoliberal o Estado deve ceder o passo aos negócios, ao Mercado, e deve
reservar-se meras funções de coordenação e de regulação. Para que tudo
funcione bem deve abster-se de adoptar políticas intervencionistas deixando às
empresas a intervenção reparadora e disponibilizando os fundos públicos - pagos
com o dinheiro dos contribuintes - de que elas se alimentam.
Quando o Mercado entender que retirará mais benefício da prevenção do que do
combate, a politica pública mudará e o cluster dos incêndios mudará de
orientação mantendo no essencial os mesmos protagonistas.
(…)
Que a citação não iniba a leitura integral do texto,
assim como de outros acerca do mesmo assunto: aqui. O sublinhado é meu. A imagem é do Pedro Vieira. Excelente, como sempre.
UMA ROSA DE PAUL CELAN
QUIMICAMENTE
Silêncio, fundido como ouro, em
mãos
carbonizadas.
Grande, cinzenta,
forma-irmã
próxima como tudo o que se perdeu:
Todos os nomes, todos aqueles
nomes queimados
juntamente. Tanta
cinza por abençoar. Tanta
terra ganha
sobre
os leves, tão leves
anéis
da alma.
Grande. Cinzenta. Sem
escórias.
Tu, outrora.
Tu com a flor
pálida, mordida.
Tu na torrente de vinho.
(Não é verdade que também a nós
nos despediu este relógio?
Bom,
bom, como a tua palavra passando por aqui morreu.)
Silêncio, fundido como ouro, em
mãos carbonizadas,
carbonizadas.
Dedos, finos como fumo. Como coroas, coroas de ar
ao redor — —
Grande. Cinzenta. Sem
rasto.
Ré-
gia.
Paul Celan (n. 23 de Novembro de 1920, Czernowitz, Bucovina, Roménia - m. 20 de Abril de 1970, Paris), in Sete Rosas Mais Tarde, selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, Edições Cotovia. 2.ª edição, Abril de 1996, pp. 107-109.
DRONES
Sucedem-se as notícias de aviões sujeitos a manobras para evitar colisões com drones. Dispensam-se consultas ao professor Bambo para se adivinhar que, a breve trecho, os incidentes ascenderão à categoria de acidentes. Depois as televisões farão directos, os jornais dedicar-se-ão a emitir opiniões, o povo chorará as suas vítimas inocentes. Puta que pariu a merda dos drones. Não há quem meta açaimes nesses bichos? Não há quem responsabilize os "dronos"?
segunda-feira, 19 de junho de 2017
A CULPA
…a culpa, a culpa, de quem é a culpa, eu quero culpados,
exijo culpados, exijo para os culpados a mesma pena das vítimas, quero novas
vítimas, quem fez, quem foi, quem não fez, o quê, quem, como, quando, eu sei,
eu sabia, eu já tinha dito, eu previ, não me quiseram dar ouvidos, agora olha,
aí têm, casa roubada trancas na porta, floresta queimada, lixo no chão, lixo,
lixo, lixo, opinião pública, a culpa, o ordenamento, opinião pública, andaram a
construir à parva, não há ordenamento do território, a nossa floresta é um
caos, medidas, queremos medidas, queremos leis, mais leis, decretos, queremos
sobretudo muita burocracia, muitas leis que ninguém cumprirá, tenho pinhais lá
para a terra dos meus pais que nem sei onde ficam, nem sei o que tenho, tenho
coisas, se calhar queimadas, se calhar as coisas arderam, se calhar não tenho
nada, os bombeiros, eu sabia, quando é para festas, onde andam os bombeiros, os
aviões, onde anda a protecção civil, a ministra é uma incompetente, isto é tudo negócio, as madeiras, os aviões, às vezes até são os bombeiros que põem os fogos, a ministra não sabe
prevenir incêndios nem trovoadas secas nem fúrias, o primeiro-ministro nem
sequer foi eleito primeiro-ministro, o presidente da república é só abraços, e
que tudo foi feito, bem feito, perguntem aos mortos, culpados, se calhar, se tivessem
ficado nos rios, dentro de água, como aquela família num tanque, se não se tivessem
metido à estrada, a culpa foi da GNR, a GNR é que os atirou para a estrada da
morte, que inferno, este inferno, ai jesus, meu deus, que inferno, a culpa é do
tempo, a culpa é das condições adversas, sim, das condições adversas, esta
adversidade de sermos como somos, desleixados, desinteressados, esquecidos,
depois de amanhã já ninguém se lembrará do ordenamento, da paisagem, que bela
paisagem, deixa-me tirar uma fotografia para partilhar no Instagram, ai ter
aqui uma casa, ai, não se pode construir, a gente constrói e paga a multa,
agora não posso mexer naquilo que é meu, lá para a terra dos meus pais, eu sei
lá as coisas que eles para lá tinham, são eles os culpados, os culpados são os
outros, a culpa é dos outros, dos outros, dos outros, a culpa…
EPIFANIAS #22
22
[Dublin: na Biblioteca Nacional]
Skeffington — Fiquei triste ao ouvir da morte do
seu irmão. . . .lamento não o termos
sabido a tempo. . . . .de irmos ao
funeral. . . . .
Joyce — Ó, ele era muito novo. . . .um rapaz.
. . .
Skeffington — Ainda assim. . . . .dói. . . .
James
Joyce, in Shorter Writings.
Versão
de HMBF.
PERDI UM LEITOR
São muitas as pessoas com as quais nos vamos cruzando ao
longo da vida, mas poucas as que nos marcam por razões tantas vezes
incompreensíveis. Nem elas nem nós saberemos dessas marcas, por serem como que
invisíveis e imperscrutáveis. Tantas são as pessoas com quem nos cruzamos ao
longo da vida, pessoas anónimas, pessoas de quem não sabemos mais do que um
nome, quando sabemos, uma característica, quando as têm especiais, peculiares. Damos
por elas quando nos faltam, quando desaparecem do nosso alcance, quando
deixamos de as ver. Perguntamo-nos que será feito desta pessoa, deste homem,
daquela mulher, que tantas vezes apareciam e deixaram de se ver? Questionamo-nos
por que terão desaparecido, por onde andarão, estarão doentes, terão emigrado,
zangaram-se com o nosso perfil?
Hoje, ao folhear um jornal local, dei com uma dessas
pessoas. Não conheci este homem senão naquela formalidade do trabalho que obriga
a distâncias relativas. Lembro-me dele desde um dos meus primeiros dias de
trabalho numa livraria, por me ter encomendado um livro do Bruce Chatwin e
assim ter ajudado o fustigado livreiro a ganhar o dia. Com o passar dos meses,
dos anos, lá ia aparecendo de quando em vez, metendo conversa sobre colecções
como A Biblioteca de Babel, da Editorial Presença, ou a Miniatura, da Livros do
Brasil, a que dedicava atenção de coleccionador. Sugeri-lhe imensos livros,
alguns deles objecto de uma troca de impressões que me parecia sempre benfazeja. Muito discreto, consegui ficar a saber-lhe de um
weblog de culto, uma espécie de arquivo, como o próprio escreveu, «em homenagem
à minha própria vida de leitor». Mil e Um Livros, aqui. A determinada altura,
foi uma honra sabê-lo seguidor da Antologia do Esquecimento. Ainda é, presumo
que continue a ser. Pelo menos enquanto a memória da sua passagem perdurar por aqui. Reencontrei-o hoje na página de um jornal, a página onde se coleccionam rostos,
passagens, partidas.
Perdi um leitor. Não de palavras inúteis como estas, mas um leitor a quem sugerir livros, bons livros, aqueles livros de que gostamos e sugerimos na esperança de que alguém possa encontrar neles o que nós vislumbrámos. Foi um desses leitores que eu perdi.
EPIFANIAS #21
21
Duas carpideiras empurram-se através da multidão. A
rapariga, com uma mão a puxar a saia da mulher, corre à frente. Tem a cara de
um peixe, sem cor e de olhar oblíquo; a mulher tem um rosto pequeno e anguloso,
o rosto de um vendedor. A rapariga, com a boca distorcida, olha para a mulher
tentando perceber se é o momento certo para chorar; a mulher, ajustando um
gorro liso, apressa-se em direcção à capela mortuária.
James
Joyce, in Shorter Writings.
Versão
de HMBF.
PAISAGEM
“Todos pensam que quem percebe de cozinha são os gordos e não os cozinheiros. Com os incêndios florestais passa-se o mesmo”, resume
Henrique Pereira dos Santos, arquitecto paisagista.
domingo, 18 de junho de 2017
EPIFANIAS #20
20
Estão todos a
dormir. Vou subir agora . . . . . Ele está deitado na minha cama, onde ontem à
noite descansei: cobriram-no com um lençol a fecharam-lhe os olhos com moedas.
. . . Pobre companheirinho! Rimos juntos amiúde – ele furou o seu corpo muito
levianamente. . . . Lamento muito que tenha morrido. Não posso rezar por ele
como os outros rezam . . . . . . Pobre companheirinho! Tudo o mais é tão
incerto!
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.
LUTO EM CHAMAS
1. Acordar assim, com a cabeça redemoinhando imagens e
notícias. Um parque de merendas coberto de lixo, entulho espalhado pelas matas,
matagais que são acendalhas a céu aberto. Trovoada, calor, vento, a tempestade
perfeita. A mãe Natureza reivindicará o atentado, o nosso desleixo será seu
cúmplice.
2. Demorou quatro linhas até que o número aumentasse de 39 para 43. Contam-se os mortos.
3. Os portugueses das caixas de comentários eximem-se de responsabilidades insultando a ministra da Administração Interna. Chamam-lhe incompetente. Os portugueses das caixas de comentários são gente perfeita, inteligente, competente, são nobre povo. Dizem que este é um governo de assassinos. Exigem cabeças sem demoras, querem culpados, pretendem o gozo público da expiação. Estes portugueses medievos também passeiam em dias de folga, não largam lixo apenas nas caixas de comentários. Ontem, num simples passeio pelo Bacalhôa Buddha Eden, deu para perceber o civismo das nossas gentes no lixo que se ia encontrando abandonado pelas bermas.
4. Na televisão contam-se 57 mortos e 59 feridos. O cenário é difícil de imaginar. A origem criminosa está afastada, pelo que não vale a pena especular sobre negócio das madeiras, pirómanos e outros maníacos que a raiva e a fúria dos incautos gostava de atirar às chamas.
5. O tema dos próximos dias será o ordenamento florestal. De quando em vez, estes temas vêm à baila. Depois ficam na penumbra. Temos neste momento 57 razões para dar definitivamente mais voz a quem se preocupa com estas matérias.
6. A contagem continua. Não tenho memória de uma tragédia destas no meu país. A ideia dos corpos carbonizados, presos entre chamas, confere-lhe um horror impronunciável. Leio no Jardim de Luz: «É tão frágil o que nos sustém».
2. Demorou quatro linhas até que o número aumentasse de 39 para 43. Contam-se os mortos.
3. Os portugueses das caixas de comentários eximem-se de responsabilidades insultando a ministra da Administração Interna. Chamam-lhe incompetente. Os portugueses das caixas de comentários são gente perfeita, inteligente, competente, são nobre povo. Dizem que este é um governo de assassinos. Exigem cabeças sem demoras, querem culpados, pretendem o gozo público da expiação. Estes portugueses medievos também passeiam em dias de folga, não largam lixo apenas nas caixas de comentários. Ontem, num simples passeio pelo Bacalhôa Buddha Eden, deu para perceber o civismo das nossas gentes no lixo que se ia encontrando abandonado pelas bermas.
5. O tema dos próximos dias será o ordenamento florestal. De quando em vez, estes temas vêm à baila. Depois ficam na penumbra. Temos neste momento 57 razões para dar definitivamente mais voz a quem se preocupa com estas matérias.
6. A contagem continua. Não tenho memória de uma tragédia destas no meu país. A ideia dos corpos carbonizados, presos entre chamas, confere-lhe um horror impronunciável. Leio no Jardim de Luz: «É tão frágil o que nos sustém».
sábado, 17 de junho de 2017
EPIFANIAS #19
19
[Dublin: na casa de
Glengariff Parade: tarde]
Mrs Joyce — (enrubescida, tremendo, surge à
porta da sala de estar)… Jim!
Joyce — (ao piano)… Sim?
Mrs Joyce — Percebe alguma coisa do
corpo? … Que deverei fazer? … Está
qualquer coisa a sair do
buraco no estômago do pequeno George…
Alguma vez ouviu algo sobre isto?
Joyce — (surpreso)… Não sei….
Mrs Joyce — Deverei mandá-lo ao médico? O que
pensa?
Joyce — Não sei…… Que buraco?
Mrs Joyce — (impaciente)… O buraco que todos temos
….. aqui (aponta).
Joyce – (levanta-se)
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.
NOVELA DE XADREZ
A história de Stefan Zweig (n. 1881 – m. 1942) é
conhecida, embora nunca seja pleonástico relembrar alguns pormenores que
acabaram por condicionar a obra publicada. Nascido no seio de uma abastada
família vienense de origem judaica, estudou nas melhores escolas. Os primeiros
poemas apareceram publicados quando tinha apenas dezasseis anos de idade.
Estudou Filosofia e Ciências Literárias, tendo vindo a afirmar-se como um dos
maiores intelectuais do seu tempo. A vastíssima obra inclui poesia, contos,
teatro, ensaios, biografias, praticamente todos os géneros que possamos
imaginar. O interesse pelos autores modernos levou-o à tradução de Baudelaire e
a monografias sobre Verlaine e Rimbaud, demarcando-se assim de formas literárias mais tradicionais. Apesar de ter viajado muito, mantendo uma intensa
actividade criativa no decorrer das digressões, será em 1933, na sequência das
fogueiras nazis onde os seus livros serão desfeitos em cinza, que resolverá
abandonar definitivamente a Viena Natal, deslocando-se de França até Itália e fixando-se, posteriormente,
em Inglaterra. Viagens ao Brasil e a Portugal levaram-no a interessar-se pela
figura de Fernão de Magalhães, a quem dedicará uma das suas famosas obras
biográficas. Em 1940 adquiriu cidadania britânica, mas no ano seguinte exilou-se
no Brasil. No dia 22 de Fevereiro de 1942 acabou por se suicidar, deixando para
a posteridade uma declaração de despedida onde agradece a hospitalidade
brasileira. Não obstante, a depressão, a saturação e a desesperança levaram a
melhor: «Depois dos meus sessenta anos seriam necessárias forças especiais para
começar novamente tudo de novo».
Sobre esta Novela de Xadrez (Livros do Brasil/Porto
Editora, Março de 2017) recai a curiosidade de haver sido um dos seus escritos
derradeiros, pressentindo-se nas personagens algumas das características que
terão levado ao colapso de Zweig. Trata-se de uma pequena novela (cerca de 70
páginas nesta edição de bolso da muito recomendável Colecção Miniatura), aqui
enriquecida por um prefácio de Álvaro Gonçalves e por uma cronologia
biográfica. Narrada na primeira pessoa, Novela de Xadrez relata o inesperado
encontro, numa viagem de navio entre Nova Iorque e Buenos Aires, com escala no Rio
de Janeiro, entre um campeão mundial de xadrez e uma misteriosa criatura. A
determinada altura, o narrador desloca o protagonismo para um monólogo desta
estranha criatura. Temos, deste modo, dois narradores no interior de uma mesma
narrativa, como teremos dois adversários à volta de um tabuleiro de xadrez.
O
primeiro, de origens muito humildes, provém da Eslávia do Sul (antiga Jugoslávia) e
tornou-se campeão de xadrez acidentalmente. Passivo, lento, algo imbecil e
fleumático, pouco inteligente, descobre, porém, um talento inigualável e inato
para o xadrez. Esta descoberta torná-lo-á um rapaz-prodígio, daquelas
personalidades em quem a natureza parece comandar todo o destino e o instinto
todas as acções. Completamente diferente, a estranha criatura que se irá opor a
este campeão é um indivíduo absolutamente cerebral. Saberemos da voz do próprio
a sua história, enquanto a relata ao narrador que nos guia pelas particularidades
de um jogo capaz de produzir as estrelas mais singulares. Capturado pelos
nazis, experienciou a pior das torturas: «Não nos faziam nada – éramos colocados
simplesmente no mais absoluto nada, pois, como se sabe, não há nada no mundo
que produza uma semelhante pressão sobre a psique humana como o próprio nada»
(p. 64). Esta pressão do nada, o vazio , a espera e a solidão, esta rotina do
nada absoluto, a «maldosa tortura desta solidão», ele conseguirá superar
decorando as jogadas de xadrez fixadas num livro que lhe virá parar às mãos.
Do nada absoluto à obsessão total, a mente da estranha criatura transportá-la-á
para o limiar da loucura, para uma «intoxicação de xadrez» alienante, doentia.
O
interesse desta partida está mais nas características dos adversários do
que no jogo em si. Stefan Zweig coloca frente a frente, com o tabuleiro axadrezado
da vida a separá-los, o talento inato e a obsessão intelectual, ambas
características que facilmente reconhecemos na sua biografia. O nervosismo, a
impaciência, a saturação pontuam as jogadas. Cada um destes jogadores pode ser interpretado
como o “eu-brancas” e o “eu-pretas” de um mesmo intelecto, num desgastante desafio
disputado no interior da alma de um homem. Profundamente psicológica, esta
novela reflecte também uma leitura da Europa então destroçada por uma
estapafúrdica doutrina política incapaz de entender como num mesmo ser humano se
articulam de um modo conflituoso o inato e o adquirido. A maior derrota será ter de conviver com quem não o entenda, com quem se convença de uma
natureza maquinal do ser. Independentemente da sua previsibilidade, o ser de um homem será invariavelmente tão fruto dos acasos e dos acidentes como da herança que carrega no
sangue sem que o determine. Poucos meses antes de se ter suicidado, Stefan Zweig escreveu esta Schachnovelle e iniciou um estudo sobre Montaigne. E foi algures no meio destes dois projectos que terminou a sua autobiografia, literária e literalmente.
sexta-feira, 16 de junho de 2017
EPIFANIAS #18
18
[Dublin,
na North Circular
Road:
Natal]
Miss O’Callaghan — (cicia) — Disse-te o título,
The
Escaped Nun.
Dick Sheehy — (alto) — Ó, Jamais leria
um livro desses… Tenho de
questionar Joyce. Joyce, alguma
vez leu The Escaped
Nun?
Joyce — Reparo que certo
fenómeno acontece por
esta hora.
Dick Sheehy — Qual fenómeno?
Joyce — Ó… as estrelas aparecem.
Dick
Sheehy — (para Miss O’Callaghan) — Alguma
vez reparou como… as
estrelas aparecem na ponta
do nariz de Joyce por esta
hora?... (ela sorri). . Porque
eu reparo nesse fenómeno.
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.
UM POEMA DE TOMAS TRANSTRÖMER
PANFLETO
A fúria silenciosa garatuja no lado interior das paredes.
Árvores de fruto em flor, o cuco canta.
É a anestesia primaveril. Mas a fúria silenciosa
pinta slogans na garagem do fim para o princípio.
Vemos tudo e nada, bem direitos como periscópios
manobrados pela tímida tripulação dos infernos.
É a guerra dos minutos. O sol abrasador
cai sobre o hospital, silo de estacionamento da dor.
Nós, pregos vivos pregados na sociedade!
Um dia libertar-nos-emos de tudo.
Sentiremos a aragem da morte nas nossas asas
e seremos mais condescendentes e mais selvagens do que até aqui.
Tomas Transtömer (n. 15 de Abril de 1931, Estocolmo, Suécia - m. 26 de Março de 2015, idem), in 50 Poemas, tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água, Julho de 2012, p. 103.
quinta-feira, 15 de junho de 2017
DOIS POETAS DE ESPANHA
Tem tradição entre nós o interesse pela poesia vinda de Espanha,
patenteado desde há muito tanto no incansável trabalho de divulgação levado a
cabo por José Bento (n. 1932) como nas traduções de Joaquim Manuel Magalhães
(n. 1945). Pequenas editoras como a Averno, a extinta Ovni, a Língua Morta, a
Douda Correria, a Medula e a do lado esquerdo, para citar umas poucas entre
outras que por certo estarei a esquecer, deram e vão dando continuidade, conforme os casos e na medida das suas possibilidades, a esse esforço
de publicação de poetas herdeiros da língua de Cervantes. Dois livros recentes
são exemplo desse mesmo esforço, assim como de uma pluralidade que mantém viva
a poesia produzida por nuestros hermanos.
Comecemos por Carne de Leviatã (Douda Correria, Junho de
2016), de Chus Pato (n. 1955), poeta galega estreada em 1991 com um livro
intitulado Urania. Uma nota final informa-nos de que a obra traduzida por João
Paulo Esteves da Silva encerra a pentalogia Decrúa, iniciada com a publicação
de m-Tala (2000) e continuada com os livros Charenton (2004), Hordas de
escritura (2008) e Secesión (2009). É igualmente da autora um apontamento explicativo
do título Carne de Leviatã, o qual foi respigado em Giorgio Agamben numa passagem onde se alude à tradição judaica. Leviatã é um dos três animais
da origem que servirá de banquete aos justos nos dias do Messias. A poesia de
Chus Pato tinge-se de inúmeras alusões congéneres, provenientes tanto da
mitologia greco-romana como da tradição judaico-cristã.
Transgredindo as
convenções do lirismo focado no sujeito, assume uma tendência
reflexiva que aproxima amiúde o discurso poético do pensamento filosófico.
Neste contexto, o problema da linguagem, da relação entre as palavras e os
corpos nomeados, é uma das temáticas mais em evidência, ainda que reflectindo simbolicamente,
por meio de uma linguagem que privilegia o sentido metafórico das palavras,
certa dimensão ética de que o poema não abdica. Sirva de exemplo esta
Clareza
de Juízo
Entendo que a vida é o que vivemos: esta a tua a
minha a nossa
vida
entendo que um poema é pobreza comparado com a vida
entendo que é
pausa
que por um instante separa a vida de si
que pesa e faz balanço
aguça os sentidos
Entendo que é acesso ao intelecto
um vértice corpóreo
impróprio
Assim o entendo
que o poema indica a desconexão entre melodia e
sentido
Entendo que um poema só se escreve com versos finais
Desfunda o
idioma
desfunda a vida
Esta ideia de poema enquanto acesso ao
intelecto é o que mais sobressai na poesia de Chus Pato, jogando aqui com alegorias,
acolá com símbolos, por vezes aforística, outras vezes elíptica, no encalço de
um idioma capaz de traduzir a intensidade dos ritmos que pautam o andamento do
mundo. À imaterialidade da linguagem, a poesia responde com a ambiguidade do
verso: «escrevo a voz como um país estrangeiro». É este o seu poder alquímico, o seu assombro, a sua estimulante e desafiante proposta.
Bem diferente é a poética de Jesús Jiménez
Domínguez (n. 1970), natural de Saragoça. Ensinar o eco a falar (do lado
esquerdo, Abril de 2017) é uma antologia com poemas provenientes de três livros
do autor: Fundido en Negro (2007), Frecuencias (2012) e Contra las cosas
redondas (2016). A confiar na informação disponibilizada online, pois,
infelizmente, nenhuma nota explicativa acompanha esta edição, ficou de fora o poemário
de estreia Diario de la anemia / Fermentaciones (2000).
Inscrita nas tendências
dominantes do seu tempo, poder-se-ia dizer desta poesia o mesmo que se diz de
tanta outra arreigada aos pormenores do quotidiano. Nos primeiros poemas
sobressai o tom elegíaco proveniente de uma paisagem urbana com bares e
cemitérios em pano de fundo. A solidão, a melancolia, o tédio, são constantes
que atravessam poemas devedores de uma narratividade que o poema de Billy
Collins incluído no segundo conjunto bem sintetiza em cinco singelos versos da
segunda estrofe: «Sirvo-me dos detalhes mais simples / — um cão adormecido no chão, /
um pássaro que escapa por uma janela — / para me revoltar contra a tradição
literária / mais grandiloquente» (p. 27). Não enjeitamos, porém, a
possibilidade de no futuro ser esta a tradição contra a qual alguém escreverá,
por antever no prosaísmo discursivo, eivado aqui e acolá de referências
multiculturais e de uma ligeira ironia, a pose repetida do flâneur baudelairiano:
«A cidade por onde caminhamos é um sapato demasiado apertado» (p. 13).
O
existencialismo previsível que matiza grande parte destes poemas resulta em
cenas quotidianas e rotineiras, descontinuadas apenas pela capacidade que o
poeta demonstra em, a espaços, arriscar olhar para o mundo sem por ele ser absorvido.
É o caso do poema que deu título ao último dos livros contemplados nesta breve antologia traduzida por Maria Sousa:
CONTRA AS COISAS REDONDAS
Amamos as coisas redondas e pensamos
que vão ser eternas [e] amáveis e perfeitas:
a toranja debaixo do rotundo sol de agosto,
a pulseira que orbita em volta do pulso,
a moeda com duas caras e nenhuma cruz,
a bola de praia em cujo interior ainda se respira
um ar paciente [de] mil novecentos e oitenta e dois.
Há dias redondos em que tudo se encaixa
e a vida parece andar sobre rodas:
alguém, de lixa na mão, encarregou-se
de subtrair ao mundo todas as esquinas,
todas as arestas, todas as bordas.
Mas basta que atravesses um declive
ou que tudo se volte, de repente, para cima,
para verificar que são as coisas redondas
as primeiras a sair e a começar a correr:
a toranja, a pulseira, a moeda e a bola.
Eu recuso-me redondamente a aceitar tais desplantes.
Às formas esféricas eu oponho as coisas informes.
Escolho as imperfeitas, as imprecisas, as irregulares.
Aquelas cheias de defeitos, amolgadelas ou dobras.
Bonitas e originais, sem se sujeitarem a nenhum centro,
só elas permanecem e nos acompanham sempre.
Nota: tomei a liberdade de corrigir, entre parêntesis
rectos, o que me parecem ter sido lapsos na transcrição portuguesa do poema, os
quais são mais frequentes ao longo do livro do que seria desejável. Tratando-se
de uma edição bilingue, poderá o leitor confrontar ambas as versões.
Adenda: Alertaram-me por e-mail e na caixa de comentários para um facto que importa aqui
sublinhar, sem prejuízo do que acima se refere. A poeta Chus Pato escreve em
galego, pelo que não está correcto dizer-se que escreva na língua de Cervantes.
Ainda assim, a despeito das particularidades que caracterizam o território de
Espanha, não me parece incorrecto dizer-se que é uma poeta de Espanha,
admitindo que seja mais correcto dizer-se que é uma poeta galega.
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