Marcar na agenda: Assunção Cristas, Pedro Santana Lopes, Paulo Portas...
terça-feira, 30 de outubro de 2018
NOTÍCIAS DO MEU PAÍS
Outras notícias recentes:
Portugal é o país da Europa com a taxa de depressão mais
elevada e o segundo no mundo (só ultrapassado pelos Estados Unidos da América);
Em quatro anos, entre 2013 a 2016, o consumo de
embalagens de antidepressivos duplicou em Portugal;
Os portugueses continuam entre os povos
mais tristes da União Europeia (UE);
Portugueses são os mais insatisfeitos com a vida…
Quem julgar que nada disto está relacionado, pode já
marcar consulta no psiquiatra. Ou emigrar para o Brasil.
segunda-feira, 29 de outubro de 2018
UM POEMA DE AMALIA BAUTISTA
FAÇAMOS UMA LIMPEZA GERAL
Façamos uma limpeza geral
e deitemos fora todas as coisas
que não nos servem para nada, essas
coisas que nós já não usamos, essas
coisas que ficam a apanhar pó,
as que evitamos encontrar porque
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos magoam, ocupam espaço
ou nunca quisemos ter junto a nós.
Façamos uma limpeza geral
ou, melhor ainda, uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
deixando-as onde sempre estiveram;
e vamos nós embora, vida minha,
para começar de novo a acumular.
Ou então deitemos fogo a tudo
e fiquemos em paz, com essa imagem
das chamas do mundo perante os olhos
e com o coração desabitado.
Amalia Bautista (n. 1962, Madrid), in Coração Desabitado, selecção e tradução de Inês Dias, desenhos de Débora Figueiredo, Averno, Maio de 2018, p. 55.
MEMÓRIA SELECTIVA
Uma das realidades com que vamos ter de aprender a lidar
nos próximos tempos, embora ainda não perceba bem como, é a pulverização da
estupidez pelas redes sociais. Qualquer imbecil gosta de se fazer passar por
inteligente, perorando sobre tudo e mais alguma coisa sem nunca ter lido um
livro sequer sobre o assunto, sem nunca ter estudado, simplesmente assimilando
letras gordas de sítios obscuros, tendenciosos, facciosos, revisionistas. Ao
final do dia, para o imbecil valerá apenas a quantidade de likes que amealhou
com a propaganda que fez. Discussão não existe, está minada à partida pela
impossibilidade de comunicação. Há apenas exibicionismo. As últimas eleições no
Brasil tornaram isto claro, fazendo de novo emergir vetustos discursos de ódio
contra uma doutrina política em concreto: o comunismo. A fórmula usada pelas
máquinas de Bolsonaro fizeram valer a equação PT=Comunismo=Mal.
E isto, como sempre sucede com todas as equações simplistas cujo único objectivo
é estereotipar, leva-nos directamente aos fantasmas do passado.
Colocam-se lado a lado as imagens de Mao, Estaline, Pol Pot, como se
representassem uma e a mesma coisa, e toca de espalhar aos ventos a semente do
ódio ao comunismo. No caso presente, se os líderes do PT fossem como Mao,
Estaline e Pol Pot foram, Lula jamais teria sido preso, Dilma jamais teria sido
afastada, Temer jamais teria servido de ponte para Bolsonaro chegar ao poder. A
ideia de que a democracia estava em risco com o PT, mas não estará com
Bolsonaro, é não só risível como comprovativa da imbecilidade acima denunciada.
A História encarregar-se-á de mostrar quanto vale o novo Messias do povo
brasileiro, mas a História já mostrou algumas coisas que certa gente teima em
olvidar com conveniente capacidade selectiva. Tomemos como ponto de partida a
Revolução de Outubro de 1917, para não termos que recordar novamente as mãos
sujas da Igreja durante toda a Idade Média, as fogueiras da Inquisição e a
imaginação sem fim dos torturadores católicos. Depois da Revolução Bolchevique,
o mundo conheceu aquela que pelas suas características específicas foi a Guerra
mais letal de todos os tempos. Tendemos a esquecer que Hitler não era
comunista, fazendo como Pilatos na hora de nos decidirmos sobre as figuras do
Mal Absoluto. Duas bombas atómicas foram largadas no mundo, em Hiroshima e
Nagasaki. Nenhuma delas era comunista. As Veias Abertas da América Latina, de
Eduardo Galeano, mostra-nos com factos algumas das consequências da influência
norte-americana por toda a América do Sul. Sempre contra a ascensão do
comunismo no mundo, vá-se lá saber porquê. Foi neste campo minado da influência internacional, para
favorecer o capitalismo global, que um tipo chamado Osama bin Laden foi educado
pelos americanos para combater os soviéticos. Enfim, se alguém quiser avaliar os
custos de uma doutrina política no mundo através das mortes que causou, por
favor não se esqueça dos regimes colonialistas que por todo o mundo espalharam
escravatura, morte, caos. Não se esqueça do que o estado de Israel tem feito
aos palestinianos, nem do gérmen que produziu aberrações como o Daesh. Os
senhores do ódio do momento, chamem-se Duterte, que se compara a Hitler, ou
Orbán ou Erdoğan, nada têm que ver com o comunismo. É bom lembrá-lo, para que
no futuro, quando tivermos de discutir o início do século XXI, não virem com
Maduro e a Venezuela como exemplo maior dos efeitos negativos do populismo na
história da humanidade. O comunismo, em matéria de discussão política, é como os ciganos, serve sempre para disfarçar lobos com peles de cordeiro.
IDADE MÉDIA
Depois das cenas do impeachment, julgava eu já ter visto
tudo. Acabei agora de ver isto. Andamos todos enganados. Em pleno século XXI, o
Brasil é a prova provada de que não saímos da Idade Média. O Brasil...
domingo, 28 de outubro de 2018
DESMONTAR BOLSONARO FALANDO COMO BOLSONARO
“O maior erro da governação PT foi não ter torturado e
matado fascistas como Bolsonaro”.
“Lula devia ter matado tantos como Pinochet, que até matou
poucos”.
“Seria incapaz de amar um filho fascista. Prefiro que um
filho meu morra num acidente do que apareça com uma t-shirt do Bolsonaro por aí”.
“Não te vou ao cu à moda medieval, Bolsonaro, só porque não
mereces”.
“Não corro o risco de uma filha minha se apaixonar por um
fascista, foram muito bem educadas”.
“A PM devia ter matado 1000 fascistas e não 111 presos”.
“Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois
fascistas abraçados na rua, vou bater”.
“Você é um idiota. Você é um analfabeto. Está censurado!”
“Parlamentar só deve andar de ônibus para sentir o cheiro do
suor de quem trabalha”.
“Homens devem ganhar salário menor porque não lavam loiça,
não limpam pó, não mudam fraldas, não fazem jantar, não passam a ferro, não
lavam roupa, não estendem roupa…”
Foi nisto que vossas excelências votaram. Aproveitem.
UMA VOZ ENTRE VOZES
No dia 13 de Outubro de 1968, Portugal perdeu abruptamente
um dos seus melhores e mais promissores poetas. Francisco António Lhmeyer
Flores Bugalho, nascido a 7 de Outubro de 1933, atirou-se para debaixo de um
comboio legando à posteridade um único livro, simplesmente intitulado 35 Poemas
(1959), que assinou com o pseudónimo Cristovam Pavia. Cinquenta anos passados
sobre tão trágico desaparecimento, José Carlos Costa Marques (n. 1945) lembra o
poeta e homenageia-o em Uma Voz Entre Vozes (Edições Afrontamento, Maio de
2018). Dos também 35 poemas coligidos agora neste volume, António Cândido
Franco sublinha em prefácio a presença da morte e da infância, mas também da
natureza não humana. Por diversas razões que não têm apenas que ver com a
homenagem assumida, o tema da morte é sem dúvida aquele que mais se evidencia
ao longo do livro. No entanto, essa evidência surge invariavelmente acompanhada da
valorização de um enigma acerca da vida que logo na primeira estrofe coloca
lado a lado «o nada de onde viemos» e «o nada onde entraremos», o «clarão» e a
«escuridão», a «luz» e a «sombra», o «verão» e o «outono». Assim sendo, mais do
que a presença da morte nestes poemas parece-me justo sublinhar neles a
presença da vida.
As muitas dedicatórias reforçam
esse vínculo à experiência vivida enquanto raiz a partir da qual o poema progride, preferencialmente por direcções contrastantes que de um modo muito simples destacam os paradoxos
da existência: «Levaram-nos os sapatos aonde eles quiseram / Na luz e no azul
buscando sinais // A beleza do mundo A estranheza do mundo» (p. 18). O uso de
maiúsculas para pontuar os versos, expurgados de sinais gráficos, gera efeitos rítmicos
que apelam a leituras pausadas, descobrindo-se entre pausas uma respiração
muito própria que faz com que os poemas se liguem uns aos outros apesar do
hiato temporal que os separa. O mais antigo data de 2010, o mais recente é de
2013. Por vezes, os poemas ligam-se também pela repetição de vocábulos e de
imagens sugestivas, tais como a da tristeza que cai tal o pano no termo de uma
peça. O fim a que se alude compreende o drama de uma vida feita de
lutas e de cansaços na busca de repouso. Colocado em cena isoladamente, o
actor sabe que não está só. Sentir a perda do outro faz disso prova. Da
constatação desta alteridade surgem as antíteses que expressam a verdadeira
essência do mundo e da vida: «O mundo só no meio das trevas luminoso», «E a
alegria suavemente nascendo da tristeza» (p. 20). Ou ainda «A terra onde os
vivos e os mortos um só corpo são» (p. 22).
Outro atributo deste livro é a inclusão singela, em
alguns poemas, de factos sociais, aproximando-se aí o discurso de um tom que
tenderíamos a declarar mais interventivo, porventura menos interessante do que
quando remetem para campos de reflexão onde o ar livre da serra contrasta com a
vida na cidade. Como que denunciada pelo enaltecimento de uma pureza apenas
vislumbrável no mundo natural, esta dimensão telúrica que encontramos mais
intensamente nos poemas 8, 10, 32, coloca-nos também face às perplexidades do
mundo moderno, nomeadamente consciencializando quão parca se mantém a nossa
condição a despeito de um progresso científico que não só não nos libertou do
mal como acabou, a espaços, por provocá-lo em escalas inimagináveis. Daí que se
recordem as vítimas de Chernobil e Fukuxima com intuitos menos sentimentais do
que reflexivos, pois o que importa salvaguardar nesses poemas é a memória de um
facto que projecta os mecanismos contraditórios do progresso e, como disse, a débil
condição dos homens no seio de uma Natureza que os transcende.
«Morte e vida confundidas» (p. 34), a infância surge,
então, a partir de lembranças provocadas por sensações inusitadas, como quando
do cheiro de um pano de cozinha a arder a memória envia o sujeito poético a uma
cena do passado, ou a observação de edifícios antigos na cidade leva a
recordações desse «outrora de onde viemos» (p. 33). O que parece estar aqui em
causa não é a sublimação de um hipotético paraíso perdido, mas antes a noção da
vida enquanto «espera». Podemos dizer que esta espera acusa na caminhada
exercida entre vida e morte «a única ciência» legitimada pela experiência: «Um
dia morreremos / Um dia a cada dia um dia mais próximo / E a cada dia o espanto
é o mesmo de viver / É o mesmo espanto da morte um dia mais próxima» (p. 56). A
clareza da linguagem utilizada convém ao que o poema trespassa do pensamento,
sendo de todos os tempos os temas contemplados por esta poesia. Essa clareza
torna o poema cativante, por libertá-lo de ornamentos supérfluos concentrando
em breves mas certeiras palavras «uma voz entre vozes».
MÁ TEORIA E MAU IMPULSO
Num poema seu, anterior, leio: “Detesto a poesia. Essa
tarefa/ debruada de troca social.” Detesta? O que acha mesmo sobre a poesia? O
que lhe apetece dizer sobre ela?
Repare. Embora a fonética da palavra “detesto” me mostre que está a referir
poemas que me desagradam já, afirmo-lhe que continuo a pensar que detesto a
poesia. Aquela que surge para ser poesia, a que se afirma antes de tudo o mais
como cartão-de-visita, a que apressadamente procura de imediato um pedestal.
Escrevem-se várias coisas que o tempo se encarregará de esquecer ou a que o
tempo (dizendo melhor, o contínuo refazer dos gostos pelas várias épocas) lhes
atribuirá um sentido. Querer ver para além disto, no imediato, sempre me
pareceu má teoria (não sei se existe alguma boa sobre este assunto) e mau
impulso. Sempre combati as imensas teorias com que me fui defrontando (tenho o
testemunho de imensas pessoas de que nunca me ouviram defender nenhuma, pelo contrário
sempre procurei desligar delas a sua atenção aos versos — é o acaso de se ser
professor. Sempre me ri dos que se punham em bicos de pés para serem avistados
com papéis agitados ao vento dos leitores. Isso mesmo em que me pareço tornar
agora, não é?
Joaquim Manuel Magalhães, aqui.
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
UM POEMA DE JUDE STÉFAN
ENVIO
Eles passam através dos nossos anos
eles perscrutam o fundo dos poços
eles sabem que estão mortos
e vão contemplar o mar
eles exilam-se nos animais
prestam atenção às coisas
e fazem falar as pedras
do seu posto de vigia
eles descrevem as batalhas
e acusam o tempo
eles cantam a loucura
a sua ciência é inovar
eles usam a irrisão
eles sofrem solidão
eles criticam a morte
eles abreviam a sua vida
quando se esgotam as palavras
inclinam-se no ventre das mulheres
têm inveja das nuvens
que se dispersam
e não colhem as flores
convivem com as estações
e saboreiam cada mês
eles procuram o poema
e bebem o vinho novo
eles amam o olvido, a sombra
e estão longe dos amigos
percorrendo as rotas de sede
visitando as divindades
eles assombram outros lugares
e desenham a chuva,
mostrando a vaidade do bem
surpreendem-se, abandonam-se
abraçam a preguiça sobre as camas
afirmam em vez de dizerem
eles contemplam os ratos sob a lua
e naufragam na última manhã
Jude Stéfan (n. 1 de Julho de 1930, Pont-Audemer, França), de À la Vieille Parque (1989), in Sud-Express - Poesia Francesa de Hoje, trad. Gastão Cruz, Relógio D'Água, 1993, pp. 251-252.
O PROBLEMA DA ABSTENÇÃO
“Se for preciso tapem a cara [de Soares no boletim de
voto] com uma mão e votem com a outra”, pediu Álvaro Cunhal.
Uma das maiores fraquezas dos regimes democráticos está estampada na notícia acima. Entre um democrata e um antidemocrata, Cristas não consegue escolher. Abre assim a porta ao antidemocrata. Em tempos, esse terrorista de apelido Cunhal escolheu engolir um sapo. Cristas não está para isso, o seu facciosismo tolda-lhe as vistas. Não ver diferença entre um democrata e um fascista é o primeiro passo para se ser fascista.
terça-feira, 23 de outubro de 2018
A PRÁTICA DA NATUREZA SELVAGEM
Microplásticos detectados nas fezes de indivíduos de oito
países, é o título de uma notícia de hoje. Não é preciso ir mais longe, todos
os dias somos confrontados com notícias destas que obrigam a repensar a relação
do homem com a Natureza. Podíamos aludir, em contraponto, às teses de lunáticos
governantes do mundo para quem o progresso se confunde com destruição do meio
ambiente, ainda que neguem os efeitos nefastos da poluição na atmosfera, da
destruição das florestas, da indústria desgovernada a favor do capital. Todos os
dias ao balcão de uma loja há quem reclame pelo preço dos sacos de plástico,
que não deviam ser pagos, que é tudo jogada para meter dinheiro ao bolso.
Ora aí têm a primeira página do dia: microplásticos detectados nas fezes de
indivíduos de oito países, o que significa, trocado por miúdos, que andamos a
ingerir plástico. Não deve ser alimento que faça bem à saúde, como à saúde do
planeta presumo também não faça bem a desflorestação recentemente denunciada,
mais uma vez, por Ailton Krenak, líder da resistência indígena no Brasil.
Em A
Prática da Natureza Selvagem (Antígona, Julho de 2018), Gary Snyder (n. 1930)
oferece-nos nove ensaios onde se prova ser possível pensar estas questões com
serenidade e sem extremar posições. Resta saber a quem chegará a mensagem.
Snyder é um activista da chamada Ecologia Profunda, movimento filosófico com
vista à promoção da vida na Terra independentemente da sua utilidade imediata
para os seres humanos. O problema da utilidade, aliás, é facilmente desmontável
observando as práticas consumistas das sociedades desenvolvidas, que varrem
para o lixo toneladas de alimentos sem valor comercial, promovem uma cultura do
supérfluo e do desperdício, hipotecando ecossistemas e aniquilando diversas
formas de vida.
Poeta frequentemente associado à Beat Generation, o autor de
Turtle Island trabalhou na floresta, viajou, contactou com vários povos pelo
mundo inteiro, dedicou-se ao budismo, concebeu uma perspectiva acerca da
natureza selvagem com raízes nos ensinamentos de Ralph Waldo Emerson (n. 1803 –
m. 1882) e Henry David Thoreau (n. 1817 – m. 1862), desafiando-nos a viajar pelo interior do Eu em busca do que em nós permanece de selvagem e nos liga ao Todo
de que somos parte integrante. Um dos aspectos mais curiosos da sua filosofia consiste
na superação de uma perspectiva meramente contemplativa e ingénua da Natureza,
a qual compreende tanto uma dimensão bela quão ameaçadora. «Para sermos
verdadeiramente livres, temos de aceitar as condições fundamentais tal como são
—
dolorosas, impermanentes, abertas, imperfeitas — e de nos mostrarmos depois
gratos pela impermanência e liberdade que elas nos concedem» (p. 13), afirma
logo a abrir. 130 páginas depois apela a uma ecologia profunda que se debruce
sobre o lado negro da natureza, acrescentando: «Os seres humanos
sobrevalorizaram a pureza e repugna-lhes o sangue, a poluição, a putrefacção»
(p. 148).
Esta desmontagem de uma narrativa purificadora, que não tem em conta
o lado nocturno e canibalesco da natureza selvagem, é uma das suas propostas
mais enriquecedoras, já que apela a uma panorâmica alargada do nosso próprio
papel no mundo natural. Neste sentido, a sua prática da natureza selvagem
resulta num exercício de autoconhecimento, o Eu é o seu próprio objecto de
estudo enquanto parte integrante de um Todo mais vasto, nada está fora de nada,
tudo faz parte de tudo: «O meio selvagem não pode ser tornado sujeito ou
objecto do mesmo modo; tem de ser abordado a parir de dentro, enquanto
qualidade intrínseca àquilo que somos» (p. 237). Este deve ser o princípio da
discussão, o ponto a partir do qual toda a questão ambiental deve ser
discutida, pois não podemos continuar a olhar para a Natureza como estando
apartados dela, como sendo exteriores a ela com a missão ancestral de a dominarmos e dela
sorvermos tudo quanto seja proveitoso às nossas desmesuradas ambições materiais.
Próximo de certas formas de panteísmo, a filosofia de Gary Snyder
procura recuperar uma ideia aglutinadora do corpo e da alma, ambos considerados
como inerentemente selvagens, inseparáveis: «Para resolver esta dicotomia do
civilizado e do selvagem, primeiro temos de decidir ser inteiros» (p. 35). Ser
inteiros significa aceitar a nossa própria natureza sem a tentação de separá-la dos
outros seres, sem a tentação de nos colocar num patamar de superioridade que
mais tarde ou mais cedo revelar-se-á não só incorrecto, como infrutífero,
contraproducente e, no limite, suicida. A lista dos valores inupiaques,
enunciados a páginas 78, com o Humor no topo, talvez fosse suficiente para uma
urgentíssima mudança de mentalidades.
Parte fundamental do nosso mundo está a
desaparecer rapidamente, não sendo provável a sua recuperação. Este processo
acelerado de extinção, impelido pela ganância, pela arrogância, obriga a uma
perspectiva cultural que recupere ensinamentos antigos, primitivos, e deles
retire o proveito de uma relação pacífica do homem com a sua natureza selvagem.
«A natureza selvagem encontra-se inextricavelmente ligada à trama do eu e da
cultura» (pp. 93-94). Se a nem todos convém o eremitismo viajante no espaço, a
todos ele parece fazer falta interiormente. Em busca precisamente do misterioso
elo que leva ao respeito pelo outro, seja ele uma montanha, um oceano, um urso,
uma árvore ou uma simples pedra.
Não deixa de ser paradoxal que a luta dos
chamados “povos nativos” contra a avidez de multinacionais que exploram
madeiras, petróleo ou outros recursos naturais, seja uma luta em nosso favor,
mesmo que muitos de nós não o entendamos, cegos que ficámos com alucinadas
visões de progresso e evolução. Benefícios e malefícios têm várias ordens de medida. A proposta é, pois, a de produzir com a
natureza em vez de contra ela. O mal pode ser-nos natural, mas não tem de acabar
com o bem:
Todos podemos concordar que há um problema com o egoísmo
do eu humano. Será este um reflexo do meio selvagem e da natureza? Penso que
não, pois a própria civilização consiste na destruição e institucionalização do
ego sob a forma do Estado, tanto no Oriente como Ocidente. Não é o caos da
natureza que nos ameaça, mas a presunção por parte do Estado de que foi ele que
criou a ordem. Além disso, uma ignorância quase autocomplacente no que toca ao
mundo natural permeia os círculos empresariais, políticos e religiosos
euro-americanos. A natureza é ordenada. O que na natureza parece ser caótico é
apenas um tipo de ordem mais complexa.
Gary Snyder, in A Prática da Natureza Selvagem, trad.
José Miguel Silva, Antígona, Julho de 2018, p. 125.
AUTOESTRADA DA INDIFERENÇA
(...) Vladimir Safatle, professor de Filosofia na Universidade
de São Paulo, assinala que da parte de Bolsonaro existiu uma anticampanha, que
se deslocou para o ambiente virtual, baseada no esvaziamento do espaço
político, através de provocações e insultos preconceituosos às minorias —
negros, mulheres, LGBT — e a transmissão de notícias falsas, em substituição do
jornalismo. Safatle realça ainda o potencial fascista mais ou menos recalcado
que está a ganhar direito de existência, não só porque “vários sectores da
sociedade brasileira expressam um padrão racista e preconceituoso”, como porque
a ditadura militar nunca deixou de ter apoiantes. Relativamente a esta, o
“Brasil fracassou redondamente em conseguir superar seu passado ditatorial, que
o volta a assombrar agora” e, por isso, Vladimir Safatle avisa: “Logo, o que
está explodindo hoje era uma bomba-relógio que ninguém quis ver.”
Será expectável que se assista a um longo e duro processo
de resistência à agenda de Bolsonaro e dos seus apoiantes, mas convém desde já
assinalar a demissão dos políticos do centrão que nada fazem para se erguerem —
apoiando Fernando Haddad — contra a catástrofe anunciada, mesmo se serão eles
próprios vítimas desta. Já agora, para quem acha que a esquerda é a grande
responsável pela ascensão da extrema-direita e desresponsabiliza os votantes em
Trump ou Bolsonaro, chamando a atenção para o facto de se não dever
insultá-los, posso dizer que os responsabilizo, sem precisar de os insultar. A
não ser que se sintam insultados por serem considerados egoístas, xenófobos, de
extrema-direita ou fascistas ou cúmplices destes. O historiador do nazismo Ian
Kershaw já alertou há anos para o facto de a estrada para o Holocausto ter sido
construída pelos nazis, mas pavimentada pela indiferença.
Irene Flunser Pimentel, no Público.
"PÔR O CORAÇÃO NO RITMO DA TERRA"
Ailton Krenak não se esquece de um texto de 1865,
atribuído a um chefe indígena da América do Norte quando abordado por um
representante do governo de Washington, avisando que queriam comprar as terras
dos índios. Não se esquece também de que a resposta do chefe Seatle foi de que
os índios não podiam vender a terra porque a terra é maior do que os índios, é
a mãe deles. “Disse aos brancos que, se algum dia eles herdassem aquela terra,
que a pisassem suavemente, porque se não aprenderem a respeitar, vão acumular
detritos sobre detritos até que vão acordar enterrados no próprio vómito.”
Reconhece aquele texto como o primeiro manifesto ambiental do século XX, “uma
ideia partilhada pelos povos que vivem nas ilhas do Pacífico, nos Andes, nas
montanhas dos Himalaias, porque estes povos originários têm isso no coração,
antes de ter na cabeça”. Para completar: “Talvez o que as nossas crianças
aprendem desde cedo é a pôr o coração no ritmo da terra.”
Para ler, ver, ouvir: aqui.
CANDIDATO ANTICORRUPÇÃO
Vamos acabar com a corrupção? Vamos. Então, toca a votar num escroque que recusa debater, fecha-se em casa, corrompe tudo o que é democracia com uma campanha suja e vigarista. É este o candidato anticorrupção. Burrice! Ontem, entre a turba, um apoiante envergava um cartaz que colocava Jesus como defensor de armas. O que deu a outra face, o que propagava o amor, é na cabeça desta gente um defensor da lei da bala. Vamos acabar com a corrupção? Vamos. Comecemos por corromper as ideias.
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
GATOS NO QUINTAL
Que o mundo é um lugar estranho, há muito sabemos. Mas
que a época em que vivemos seja essencialmente diferente das anteriores, é
matéria discutível. Sob o manto flutuante dos factos permanece intacto o ácido desoxirribonucleico
dos homens, constatação que leva a eternas e infindáveis dúvidas acerca dos ínvios
caminhos da evolução e do progresso. Para onde tendemos? Uns dirão que para o
céu, outros garantirão que para o inferno. Certo é tendermos para algo
diferente do que somos, pelo menos em aparência. É da substância do tempo que
assim seja. Em essência mantemo-nos selvagens mais ou menos adestrados pelas
ferramentas da civilização. Quando menos esperamos, damos por nós brutos que
nem nos imaginamos noutras eras. Se as fogueiras medievais parecem ter sido há
muito, o holocausto foi ontem. E o Daesh anda por aí usufruindo das mesmíssimas
ferramentas para recrutar que os fascistas emergentes. Em tempos, apedrejámos
pessoas na rua. Agora damos cabo delas na praça pública com palavras e insultos
que pesam tanto quanto pedras. Pode parecer estranho tal intróito para a
leitura de um livro com gatinhos na capa, mas a culpa é do autor. Gatos no
Quintal é o livro de estreia, em matéria de poesia, de José Pedro Moreira (n.
1983). Se lhe atribuo a culpa do intróito não é para assacar responsabilidades.
No limite, a culpa de sermos bestas é de toda a sociedade que não conseguiu desviar-nos
da bestialidade. E essa é matéria que podemos adivinhar em poemas com gatinhos
dentro, pouco dados, porém, às maciezas do exibível em contexto de rede social:
Francisco
dava de comer aos gatos no quintal
e eles vinham o pior era quando
as gatas escolhiam o quintal para dar à luz
a minha mãe enchia um balde com água
e metia lá os pequeninos até eles deixarem
de miar eles já não miavam e depois
atirava-os para o caixote do lixo
não dês de comer à merda dos gatos
já estou farta de te dizer para
não dares de comer à merda dos gatos
e a gata miava à volta do limoeiro
miava debaixo do tanque
a gata miava até a minha mãe a enxotar
a gata fugia da minha mãe a minha
mãe com a vassoura não voltes
gata de merda nunca mais te quero aqui ver
e a gata fugia mas voltava mais tarde
e eu dava-lhe de comer e quando
a minha mãe me apanhava batia-me
estou farta de te dizer
para não dares de comer à merda dos gatos
Ora aí está um poema pedagógico, educativo. Educar para a
sensibilidade, para os afectos, é isto mesmo, como podia ser a memória do porco
a guinchar durante a matança ou a avó a lambuzar-nos com beijos. Mas aqui temos
uma confrontação de maternidades — a mãe que mata as crias da gata — e
de certo modo filial — o filho que assiste ao gaticídio e contra ele actua, alimentando
os gatos, como se actuasse pela sua própria sobrevivência. Na primeira de três
partes, intitulada Rua da igreja, é quase sempre essa memória da infância que
se intromete no sentido de compreender os princípios pelos quais se rege a
educação do ser humano. A linguagem dos poemas como que coloca em cena o pensamento de
uma criança face aos gestos dos adultos, gestos quotidianos como o do avô a
caiar os muros do quintal, ou as queimadas, ou experiências mais ou menos
traumáticas que levam à conclusão: «é complicada / a vida dos adultos». Confirmamos.
O segundo conjunto de poemas reunidos neste livro intitula-se Uma cerveja na
Grécia, jogo de palavras com Uma Cerveja no Inferno (tradução de Cesariny para Une
saison en enfer, de Rimbaud). A cerveja, como sabiamente viu Cesariny,
relativiza o tempo. No acto de bebê-la há toda uma época que se degusta e
desaparece, porque o tempo é esse borbulhar efémero do gás. Pode parecer estúpido afirmá-lo, será estúpido afirmá-lo, mas menos estúpida é a ideia de justapor a Grécia ao Inferno, como que desmistificando estereótipos culturais vindos de há muito (leiam-se os românticos alemães, por exemplo, e o modo como ansiavam por uma "nova antiguidade"). As epígrafes
gregas, os envios, as citações, deslocam-nos para um tempo comparativo. Alguns
poemas são sequências, outros parecem fragmentários. No prefácio de Simão
Valente diz-se que tal como no primeiro conjunto se abordavam diferenças de
idade, neste colocam-se em cena diferenças culturais. É uma leitura possível.
Não desfazendo, prefiro insistir na relativa matéria do tempo. A morte
intromete-se em todos os poemas por oposição à vida, deixando no ar do
pensamento um sabor existencial que define limites:
outrora havia os mestres obreiros
erguiam catedrais de beleza a partir da pedra
dos anos para admiração de todos
tanto do vulgo como do senhor
quando calhava fechavam-nos numa caixa
e eles apodreciam no chão
nós os seus netos arrepiámos caminho
sabemos que entre nós e a morte
só há isto
erguer muros e sebes
para que os possamos derrubar
sabemos que esta é uma forma tão válida
como outra qualquer
de medir o tempo
Outrora agora, título de tão grande quanto esquecido
livro, a dúvida persiste, a degeneração prossegue, a corrupção continua, como
nós a fingir (o verbo surge a páginas 67) que tudo pode ser mais doce e
tolerável. Alegres canibais, então, por fim, recordando Montaigne, sábio entre
os sábios. Nos poemas do último conjunto todas estas questões ressurgem num tom
mais irónico, como o desse poema que coloca Aquiles numa partida de ténis com a
tartaruga. Talvez não se resolva a aporia de Zenão, mas a hipótese serve-se de
um nonsense capaz de ser solução para tudo isto. Ao lermos o poema
Aula de filosofia, escrito na perspectiva do aluno, lembrámo-nos do poema
Durante um exercício de filosofia, de João Miguel Fernandes Jorge, escrito na
perspectiva do professor. Mais uma vez o conflito geracional, por assim dizer,
a impelir-nos para comparações infrutíferas do antes com o depois. Sobre este,
há que denunciá-lo no que tem de turístico, patético até, e é isso que José
Pedro Moreira faz na desafiante sequência de cinco poemas intitulada Depois de
Kaprow. O tema é a arte e no que ela deu. Ou melhor, o tema é a relação que
contemporaneamente temos com isso em que deu a arte. Excelente. É destes jogos
entre o outrora e o agora que vivem os poemas de Gatos no Quintal, questionando
a vida ao mesmo tempo que procuram relativizar a morte, isto é, retirar-lhe
toda a gravidade que nos impede de viver por respeito à igreja na rua onde
fomos educados.
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
segunda-feira, 15 de outubro de 2018
domingo, 14 de outubro de 2018
«O GRANDE URSO-PARDO CAMINHA CONNOSCO»
O sagrado refere-se àquilo que nos eleva (não apenas aos seres humanos) dos nossos pequenos eus para o vasto universo mandala de montanhas-e-rios. A inspiração, a exaltação e a compreensão não terminam à porta da igreja. Enquanto templo, a natureza selvagem é apenas um começo. Não devemos insistir na singularidade da experiência extraordinária, nem esperar abandonar o pântano político e entrar num perpétuo estado de compreensão superior. O melhor propósito de tais estudos e caminhadas é podermos regressar às terras baixas e ver toda a paisagem à nossa volta — agrícola, suburbana, urbana — como parte do mesmo território — nunca inteiramente destruída, nem jamais inteiramente desnaturada. A terra pode ser restaurada, e os seres humanos podiam viver dela em números consideráveis. Enquanto caminhamos pelas ruas de uma cidade, o Grande Urso-Pardo caminha connosco, o Salmão sobe connosco o rio.
Gary Snyder, in A Prática da Natureza Selvagem, trad. José Miguel Silva, Antígona, Julho de 2018, p. 127.
DOIS POEMAS DE LUÍS FALCÃO
Ocupei o dia com pequenas tarefas
Para silenciar um pedido uma súplica
Pintei o velho alpendre consertei a cancela do jardim
Libertei o cão para que perseguisse os pássaros pelo
bosque
Recusou-se a partir
Persiste onde não existe caminho
Ao meu lado
Esperando que um vento frio
Dispa de folhas todos os ramos.
In Pétalas Negras Ardem Nos Teus Olhos, Assírio &
Alvim, Março de 2007, p. 9.
O táxi à espera
acendendo e desligando os faróis
depois das sebes de azevinho
o cão impondo-se num latido
impregnado de queixumes
a mala aberta, o nó da gravata
ainda por fazer
optas pela simetria perfeita
pelo equilíbrio elegante do hanôver
selando
numa indiferença discreta
a tua queda no esquecimento
In Bruma Luminosíssima, Artefacto, Maio de 2016, p. 23.
Luís Falcão (n. 1975 – m. 2015). Com uma estreia auspiciosa
em 2007, acabaria por publicar apenas dois conjuntos de poemas. O
desaparecimento precoce levou a que o segundo volume fosse já edição póstuma.
Poemas curtos, marcados por uma linguagem depuradíssima onde sobressaem certo
questionamento existencial e interpelações do sagrado. Os versos abrem janelas
para panorâmicas onde as ideias de extinção, abandono, perda, destroço, falha,
despedida, ausência, restos, apodrecimento, colocam em diálogo o
«corpo arruinado» com um princípio de sagrado a desfazer-se. A antítese no
título Bruma Luminosíssima é reveladora dos contrastes nesta poesia onde a
consciência de finitude (passagem do tempo, morte) impele a uma ideia de infinito/eternidade
(«essência sagrada das coisas»). Elementos naturais, mormente a neve, surgem
como signos decifráveis de um devir na direcção do silêncio e da obscuridade, mas
de onde advêm instantes de clareza e de iluminação.
sexta-feira, 12 de outubro de 2018
PESSOAS MUITO INTERESSANTES
Na cidade, o pensamento reflectiu uma espécie de competição: o modo de ver poético e mítico, comum nas aldeias, versus a argumentação e reportagem diárias que dominam a vida urbana. No fundo, era uma competição entre economias de subsistência e economias excedentárias — os mercadores centralizados. Assim, os filósofos — os sofistas — ensinavam os jovens abastados a argumentarem eficazmente em público. Fizeram um excelente trabalho. São os mestres fundadores de toda a linhagem intelectual do Ocidente. Noventa por cento de tudo o que os chamados «humanistas» fizeram ao longo da história foi perder tempo com a linguagem: gramática e retórica, e depois filologia. Durante dois mil e quinhentos anos, os humanistas acreditaram não só na Palavra, mas num formato correcto para ela. E se alguns franceses tentam hoje desarticular a Palavra, é porque pertencem a essa mesma tradição e são dominados por igual obsessão. Mas houve pessoas muito interessantes nessa tradição: Hipátia, com o seu paganismo intelectual e matemático, e Petrarca, o primeiro montanhista moderno e primeiro poeta lírico em língua vernácula, para referir apenas dois.
Gary Snyder, in A Prática da Natureza Selvagem, trad. José Miguel Silva, Antígona, Julho de 2018, pp. 103-104.
Nota: refira-e que Hipátia morreu na sequência de um ataque perpetrado por cristãos em fúria, zeladores da palavra do Senhor. Arrastada pelas ruas da cidade, foi violentamente torturada. E o corpo lançado a uma fogueira.
ESPIÃO NA PRIMEIRA PESSOA
Não sei ao certo quando vi pela primeira vez Paris, Texas
(1984), o filme de Wim Wenders. Mas tenho a certeza de que cheguei ao filme
através da banda sonora de Ry Cooder. Agora que penso no assunto talvez nunca
uma guitarra me tenha aberto portas para tanta coisa boa, entre as quais o
primeiro contacto com o nome de Sam Shepard (1943-2017) foi definitivamente uma
delas. Argumentista de Paris, Texas, Shepard assinou alguns livros de histórias
que entraram directamente para a estante que reservo aos imprescindíveis na
minha biblioteca pessoal. Crónicas Americanas (Difel,
2002) é definitivamente um deles.
Julgo que a última vez que me cruzei com o nome de Sam
Shepard foi no magnífico western de Andrew Dominik, The Assassination of Jesse
James by the Coward Robert Ford (2007). Actor, dramaturgo, argumentista,
ficcionista, poeta, realizador (são dele Far North, de 1988, e Silent Tongue,
de 1993), o autor de Atravessando o Paraíso (Difel, 1997) não quis deixar este
mundo sem lhe oferecer um derradeiro testemunho das últimas horas. Espião Na Primeira
Pessoa (Quetzal, Agosto de 2018) é isso mesmo. Vítima de Esclerose Lateral
Amiotrófica, o autor trabalhou no livro até ao último suspiro. À medida que foi
perdendo autonomia, socorreu-se da família e da amiga Patti Smith para
finalizar o manuscrito. A edição final aí está, numa belíssima edição com
tradução de Salvato Telles de Menezes.
Em capítulos muito curtos, o espião desta narrativa olha
para dentro como se olhasse para o outro lado da rua. Vê um homem sentado numa
cadeira de baloiço, «limita-se a baloiçar o dia inteiro», e questiona-se sobre
quem será esse homem, que fará ele naquela cadeira o dia inteiro. O jogo sugere
uma projecção de identidades, podendo aqui a cadeira de baloiço ter exactamente
o mesmo efeito que reconhecemos na peça Rockaby (1981), de Samuel Beckett, o
efeito hipnótico e repetitivo da passagem do tempo que resta, a caminho de um
vazio —
«Aliás, já estou vazio. Do género de uma concha» (p. 86) —, tendendo
para a morte de que são símbolo por excelência os corvos, «passarões maus»,
aludidos logo no final do primeiro capítulo.
A consciência da aproximação da morte é, pois, motivo
para uma viagem testemunhal pelos labirintos da memória. O que o espião espia
não lhe é exterior, mas sim interior. Ele espia o passado, a memória, a
primeira pessoa, ele observa os «Raios X. Imagens fantasmáticas» de um memória
urgente, reconstruída em fogachos, oferecida aos que ficam como uma espécie de
testamento sobre as origens, sobre o que é possível saber/dizer/revelar acerca
das origens. «Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que
o presente é o lugar para se estar. Foi sempre o lugar para se estar. Sei que
me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o
mais possível, mas o passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem
sempre em partes» (p. 58).
Comoventes manifestações de desamparo, num texto que é
todo ele uma comovente manifestação, como que levam a um distanciamento do ser face
a si próprio ao mesmo tempo que assistimos a alguém falando de si para si. Projectando-se
num outro aparente, o ser como que deixa de se reconhecer. A doença é esse
processo a partir do qual o ser deixa de se reconhecer a si mesmo, olha-se e vê
outra coisa, algo diferente da ideia que tinha de si, a doença é o ser a
perder-se. Como pode ele reencontrar-se? Como pode ele voltar a se reconhecer
como quando se via ao espelho?
Partindo em busca de si mesmo nas memórias que retém, nos
resquícios de épocas passadas onde perduram lugares, pessoas, sons, a família,
moradas, cheiros, o ser afasta-se da sua fragilizada condição existencial e
como que recupera parte da autonomia perdida. O paradoxo está em que sendo um
exercício de abstracção, este acto de espionagem é altamente físico, material,
corporal, pois processa-se no corpo a partir de um acto de resistência à degeneração
do corpo. «Tudo está na minha cabeça», diz. Mas é como se dissesse «tudo está no
meu corpo». A cadeira de baloiço é também esse lugar estático em movimento que
simboliza a relação do ser com a memória, a noção de uma vida confinada a um
período temporal.
Espião na Primeira Pessoa é um daqueles livros capazes de nos
colocar, com extrema simplicidade, no lugar limite da consciência, não propriamente como um exame mas mais
como um exercício derradeiro de compreensão da vida. Do sentido da vida. E
desse sentido guardamos nós um horizonte porventura melancólico, mas ao mesmo
tempo apaziguador. Afinal pouco mais podemos exigir à vida do que um legado de
experiências mais ou menos memoráveis. Que no momento derradeiro, ao olharmos
para dentro, não vislumbremos apenas vácuo, é sinal de sucesso. Talvez o maior
que possamos almejar. E ainda que a palavra sucesso pouco sentido faça no
último texto de Sam Shepard, é ela que ecoa dentro do fracasso óbvio que a
morte determina. Como água no meio do deserto.
terça-feira, 9 de outubro de 2018
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
domingo, 7 de outubro de 2018
TETRALOGIA DA ASSOMBRAÇÃO
A palavra assombração sugere-nos, desde logo, um
território fantasmagórico, povoado por entidades sobrenaturais e imaginárias. É terreno onde os mitos fertilizam, causando estranheza e deslumbramento,
provocando espanto, obrigando a um esforço de decifração que mais não é do que tentativa,
tantas vezes gorada, de trazer à luz a realidade própria das sombras. Assombrar
pode também assumir esse significado porventura mais literal de tornar sombrio.
Nesse caso é verbo, e enquanto tal consiste em obscurecer. Do obscuro nasce o
fascínio, já que obscuro é tudo quanto carece de explicação. E nada mais
fascina do que aquilo que carece de explicação.
A poesia de Jaime Rocha (n. 1949) inscreve-se neste
território contra tudo quanto é habitual encontrarmos na poesia portuguesa (não
só contemporânea), nomeadamente se tivermos em conta os quatro livros que compõem
a tetralogia denominada da assombração: Os Que Vão Morrer (Relógio D’Água,
Junho de 2000), Zona de Caça (Relógio D’Água, Setembro de 2002), Lacrimatória (Relógio
D’Água, Novembro de 2005), Necrophilia (Relógio D’ Água, Março de 2010). São
poemas-sequência, compostos geralmente por 50 fragmentos, onde vamos
reencontrando diversas personagens e entidades em torno da relação central de
um homem com uma mulher: «O homem quase perdeu / o medo, porque o que ele fazia era explicar-lhe / as diversas formas de morrer antes do amor» (Os Que Vão Morrer, p. 17)
Mais ajuizado seria, porventura, aconselhar a excelente
leitura para esta tetralogia proposta por João Barrento no prefácio a
Necrophilia, ou sugerir a leitura do ensaio de Joaquim Manuel Magalhães que
serviu de prefácio à reedição do livro Do Extermínio (Relógio D’ Água, Novembro
de 2003; 1.ª edição, Black Sun Editores, 1995). Nada do que aqui possa dizer-se
irá acrescentar o que quer que seja ao que nesses prefácios foi dito, ainda que
as pistas de leitura para uma obra ao mesmo tempo tão complexa e fascinante
sejam inesgotáveis. Há algo, porém, que liga estes livros e deve ser reforçado
enquanto exercício de compreensão das formas possíveis de construção de um
poema.
Jaime Rocha inicia a tetralogia com um conjunto de poemas
a que deu o título de visões. Neste sentido, ele legitima a perspectiva demiúrgica
do poeta. A visão, neste contexto, não tem um significado meramente técnico,
ela remete para o campo das alucinações, das revelações xamânicas, ou seja,
remete para um campo extra-sensorial, onírico, profético. A visão pode ser sonho,
o que aproximaria esta poesia da aventura surrealista. Sucede que na torrente
de imagens justapostas, aglutinadas em cada um dos fragmentos destes livros, essa
dimensão surrealista é superada por uma disposição formal que pouco tem que ver
com automatismos, tornando-se muito mais provável a sua ligação a uma imagética
proveniente de leituras clássicas, fundadoras, originárias, como seja a
mitologia de onde o poeta resgata Ártemis e Aqueronte para Zona de Caça, ou
Pentesileia e Perséfone para Lacrimatória. Noutras ocasiões, as imagens surgem de dentro de pinturas (ver poema 17 de Zona de Caça), sugerindo uma relação do poema com a pintura que a breve trecho ficará esclarecida.
Estas visões/assombrações partem da apropriação de
figuras fundadoras de um imaginário que o poeta penetra e procura entender,
mormente no que possam ter de embrionário esforço de explicação do "grande tema" aqui retratado: o da relação entre o amor e a morte, o da relação entre as
forças criadoras e a tendência para a destruição de tudo quanto vive, Eros e Thanatos. Nunca
devemos perder de vista os últimos versos do Poema inicial, em Os Que Vão
Morrer: «dois homens / matam-se num anfiteatro / e dos seus gritos nascem / as
visões do mundo» (p. 8). Da violência do gesto surgem as visões, o mundo que
surge é já não apenas o mundo real de coisas vivas tendendo para a morte, mas
de coisas ao mesmo tempo vivas e mortas, porque vivem na morte como fantasmas, almas perdidas, espíritos vagueantes.
Como na Ofélia de John Everett Millais, a modelo que
representa a morta não está morta: «Lizzie anda pela humidade com as / veias expostas ao calor» (Lacrimatória, p. 60). A violência a que foi sujeita, passando
horas dentro de uma banheira, provocar-lhe-á uma doença que o quadro não
revela, pois a natureza dos detalhes favorece apenas a representação de uma
cena literária. Desta aproximação ao universo pré-rafaelita colhe a poesia de
Jaime Rocha a riqueza de um onirismo medievalista, com figuras típicas tais os
cavaleiros arturianos de Edward Burne-Jones, figuras pálidas, andróginas, como
o anjo, ou uma paisagem fortemente enraizada no mundo natural que nos permite
observar «criaturas / cobertas de musgo» (Os Que Vão Morrer, p. 24), bandos de
corvos, cavalos florescendo no meio de árvores, colmeias, javalis, «cães de
caça» (Zona de Caça, p. 22), sacrifícios de cordeiros, ilhas, falésias, garças,
«pássaros cegos» (Lacrimatória, p. 32), abutres engolindo outros abutres,
urtigas, campos de juncos, peixes…
«Mas o homem ouve uma outra voz, uma voz / que vem da
terra como um hino. O céu / abre-se como se uma enxurrada o tivesse / cortado
em dois. E todas as outras figuras / do poema saltam desse espaço e se juntam /
de novo para cantá-lo, o pedreiro, o cavaleiro, / o guerreiro, o homem da
montanha» (Necrophilia, p. 39). E é como se ao longo dos quatro livros todas
estas figuras cumprissem um ritual iniciático, talvez de iniciação à morte,
talvez de iniciação ao silêncio, ao qual corresponde a sua própria desmaterialização.
Tanto a mulher como o homem em torno dos quais a acção se desenrola, numa
catadupa de imagens e cortes e cruzamentos difíceis de acompanhar, surgem frequentemente
num estado de descorporalização que é talvez a sua principal característica. São fantasmas, daí que provoquem assombrações. Neles, o corpo já não é a prisão que os afasta da verdade. Porque neles o corpo
já não é, a sua verdade é uma verdade obscura, sombria, é pura assombração.
Não será despropositado falar de discurso alegórico a
propósito destes poemas. Mas alegoria de quê? Do amor? Da morte? Dos ciclos que
confinam a existência? Do real? Repare-se como os quatro títulos nos colocam em
relação directa com o problema da morte, sendo o último aquele onde a morte
mais se aproxima de uma ideia de amor. Com a Tetralogia da Assombração, Jaime
Rocha ofereceu-nos uma paisagem complexa que possibilita a especulação acerca
da própria germinação do poema. Deste modo, esta poderá ser uma alegoria da
criação. Trata-se de exemplo raro. Raras vezes os poetas portugueses
arriscam uma cosmologia própria, singular, preferindo concentrar o discurso na
observação do real, na expressão do sentimento, ou na fulguração da linguagem.
Nada disso vamos encontrar nestes livros desprovidos de eu, distantes tanto do
lirismo como de ornamentações vocabulares, mas cúmplices de um sentido da
criação enraizado em fontes que apesar de serem identificáveis não esgotam a
singularidade do poema.
A FACE NOJENTA DE UM PAÍS
Uma semana depois de a Der Spiegel ter
publicado uma investigação jornalisticamente irrepreensível (talvez
muita gente tenha falado sem a ter lido), muitos intelectuais portugueses
expuseram à luz do sol a sua cabeça cavernícola, habitualmente disfarçada por
uns livros e umas citações, mas muito a fazer pendant com a cabeça do
juiz da Relação do Porto autor do famoso acórdão da “sedução mútua”.
Se Henrique Monteiro, ex-director do Expresso,
manifestou que a queixosa, por ter aceitado subir a um quarto de hotel de um
homem, “não é nenhuma santa”, Raquel Varela prontamente desqualificou a
acusação de Mayorga por ela ser uma “prostituta”, o que não está provado em
nenhuma parte do texto da Der Spiegel. Apesar de insistir que “a violação
é um crime de enorme gravidade”, o ponto de argumentação de Varela é que
Mayorga recebeu dinheiro e que ela, Varela, nunca recebeu dinheiro de “um homem
com quem tivesse tido uma relação”: “Jamais andarei lado a lado numa
manifestação ao lado destas tipas [sic].”
O problema com este discurso desta professora
universitária é a reprodução fidelíssima, de uma forma maquilhada para o século
XXI, da tese de que as “mulheres sérias” não podem ser vistas ao lado das prostitutas,
sob pena de perderem o seu estatuto social. Se fosse só Raquel Varela a debitar
estas alarvidades, estaríamos todos bem. Mas as redes sociais encheram-se nos
últimos dias de mulheres (algumas intelectuais, como Teresa Rita Lopes, que
refere “os azares de Ronaldo de que os seus advogados hão-de tratar”) a
reproduzirem ipsis verbis o mesmo.
Ana Sá Lopes, aqui.
BOLSONARO E RONALDO
Como dizê-lo? Talvez o problema esteja no tempo. Quero dizer, não no clima, mas
na nossa relação com o tempo, isto é, com a forma que damos ao tempo. As
"altercações climáticas" também estarão relacionadas com o mesmo
problema, mas concentremo-nos nisso do tempo. Imaginemos que estamos na sala de
espera de um consultório, pegamos numa revista, pode ser a Maria, e
começamos a folheá-la. Fazemo-lo para passar o tempo, para que o tempo passe
depressa, para nos mantermos entretidos enquanto a assistente do médico não
chama por nós. Acontece que ultimamente, de há uns tempos a esta parte, grande
parte da nossa vida é passada a folhear revistas ao acaso, como a Maria ou
a Nova Gente, para passar o tempo. Grande parte do tempo de que
dispomos é ocupado a folhear revistas, a passar os dedos pelas imagens, a ver
fotografias, a ler títulos, letras grossas desprovidas de nutrientes básicos,
apenas gordura e mais gordura e mais gordura.
Não
duvido que este modus vivendi seja de algum modo responsável
pela ascensão do chamado populismo, que mais não é do que entretenimento para
quem passa a vida a folhear revistas no consultório. A guerra passa a ser entre
o entretenimento e a ideia de fake news, que mais não é do que um eufemismo
para desligar. Sim, desligar. Desligar o pensamento, isto é, aceitar qualquer
frase, imagem, notícia como sendo um retrato da realidade, como sendo possível.
A guerra já não é entre o verdadeiro e o falso, pois o verdadeiro saiu do mapa.
A guerra é mero entretenimento. O que está em causa é termos deixado de parar,
termos abdicado do ócio, aquele ócio que levava ao pensamento e do pensamento
nos levava à crítica e da crítica à desconfiança. Hoje não desconfiamos de nada
porque desconfiamos de tudo, passamos uma grande parte, uma enorme parte, a
maior parte do tempo de que disporíamos para pensar a evitar o pensamento,
folheando revistas, esfregando os monitores onde a ilusão medra e o falso
desafia. Evitamos o pensamento e a reflexão para andarmos entretidos.
Trump
é o fenómeno dos fenómenos nesta espécie de novo mundo, Bolsonaro há-de
seguir-se. Qualquer pessoa que o ouça, isto é, qualquer pessoa que
pare para o ouvir, facilmente reconhece um burgesso a debitar preconceitos,
estereótipos, lugares comuns. O que ele diz é o que dizem muitas pessoas sem a
responsabilidade de governar países inteiros. Às pessoas a gente habitua-se a
dar desconto, andam pelas caixas de comentários dos weblogs, dos
jornais, das revistas, das televisões, dos órgãos de comunicação social, como
podiam andar na taberna onde exibem o machismo, o racismo, a xenofobia e, hélas,
a ausência de pensamento crítico, isto é, de tempo, porque todo o tempo de que
dispõem é ocupado a fintar o pensamento, a distraí-lo, a “espetacularizar” em
vez de especular.
A
tal horda de gente vem juntar-se uma outra, supostamente mais esclarecida, com
a obrigação de ser mais esclarecida porque, supostamente, teria tempo para
pensar. Supostamente. Sucede que essa gente, a que damos o nome de fazedores de
opinião ou, como agora se diz noutros contextos, influenciadores,
ou simplesmente comentadores, essa gente é de tal forma chamada a perorar sobre
tudo e mais alguma coisa que fica sem tempo para pensar os assuntos acerca dos
quais se vê na obrigação de opinar. Depois damos no triste espectáculo da
realidade, onde o mundo se assemelha a um abrigo de alucinados, quero dizer, a
um lugar de alucinados à solta dizendo coisas incompreensíveis, corrijo, coisas
compreensíveis à luz dos tais taberneiros que por não terem tempo para pensar
sempre têm alguma desculpa.
Exemplo:
como desculpar essa gente que perante o actual caso Ronaldo se mete a
sentenciar com argumentos que a gente julgava perdidos numa qualquer lixeira
medieval? Tipo: pôs-se a jeito (o que, já de si, aceita a tese da violação,
desprezando-a por ter a vítima estimulado o crime); ou: é puta (como se por
alguém ter a mais velha profissão do mundo devesse estar disponível para todo o
tipo de atentados, o que, aliás, seria uma forma de justificar a tortura).
Talvez devêssemos começar por fazer notar que Ronaldo é um jovem jogador de
futebol que ganha muito dinheiro, que o dinheiro por vezes sobe às cabeças, que
nem sempre as duas cabeças de um homem estão devidamente equilibradas. Ou
talvez nem seja necessário penetrarmos esses territórios dúbios da psicanálise,
mandando alguma, apenas um poucochinho de prudência que concedamos à queixosa o
benefício da dúvida como ao acusado a presunção de inocência. Isto de não
resistirmos a colocar-nos logo de um lado é um pouco como a conversa supra
acerca do equilíbrio entre cabeças.
Em
suma, não vos admireis que Bolsonaro, o tal que defende a tortura, exibe tiques
racistas, fala de estupro como quem fala de direitos, acha que a
homossexualidade se cura à reguada, julga que as mulheres provêm de
espermatozóides débeis, é favorável à pena de morte e etc, etc, etc, não vos
admireis que esse indivíduo chegue a presidente do Brasil. Não estais lembrados
do triste espectáculo que foi o processo de impeachment de Dilma
Rousseff? Julgais improvável que um burgesso chegue ao poder naquele país?
Então andais a desperdiçar demasiado tempo folheando revistas. Quando à nossa
volta é tudo espectáculo mediático, quando as regras desse espectáculo são a
urgência da opinião, o tempo para reflectir foi-se. E quando o tempo para
reflectir se foi, tudo é possível. Até um homem ser acusado de violar uma
mulher e haver mulheres que o desculpem porque a violada quis deitar-se com o
homem numa cama. Trump e Bolsonaro não são, pois, a origem do mal, são a
consequência de um mal que é anterior a eles. E esse mal é simples de
identificar quando ligamos televisões, percorremos o feed de
notícias, lemos os mais populares fazedores de opinião.
Subscrever:
Comentários (Atom)



















