domingo, 13 de janeiro de 2013

VENDEDORES DE TAPETES

 
 
Camarada Van Zeller, antes de mais permita-me felicitá-lo pela sagacidade com que olha o mundo actual. É óbvio que o estudo do FMI sobre a reforma do Estado, encomenda de Gaspar e companhia, chegou à comunicação social pela mão do próprio Governo. A táctica não é nova. Chamam-lhe técnica do vendedor de tapetes, e consiste em propor o mais elevado dos preços para se chegar a um acordo razoável. Pratica-se muito nos souks árabes e no governo de Coelho, Relvas e Gaspar, os três reis magos que seguem caminho montados num camelo de apelido Portas. Sucede que neste caso não há razoabilidade possível, o preço a pagar é já o preço da catástrofe em que estamos metidos. Na semana em que se anunciou o pior dos cenários, os temas que entusiasmaram as hostes foram uma mala da Chanel e o abate de um cão. Ora, eu gosto muito de estudos. Venham eles do FMI ou de um instituto californiano qualquer. Gosto deles porque nos permitem brincar com os números como se por detrás dos números não existissem vidas, pessoas, famílias, gente interessada numa mala da Chanel e no abate de um cão. Por isso me interrogo se dos 100 mil milhões de planetas descobertos pelos cientistas do Caltech não haverá pelo menos um, por ínfimo que seja, onde eu possa montar a tenda para me ver livre desta gente toda. Não desejo mal a ninguém, como vossa excelência perceberá, mas também não o quero para mim. E neste momento, perdoe-me o tom confessional, sinto-me uma autêntica aberração numa república das putas, para utilizar a certeira terminologia do João Magueijo. Saberão quem é João Magueijo os milhares de humilhados e ofendidos que passaram a semana a discutir o putativo abate do cão Zico? Será, para essa gente, tão familiar o apelido Magueijo como o nome Zico? Duvido. Por isso lhe sugiro, camarada Van Zeller, a atenta leitura do artigo que o físico português publicou no Público da passada sexta-feira. A República das Putas é o título, recorda a célebre Dona Branca e aposta que, fosse hoje, a banqueira do povo mereceria um bónus de milhões e teria uma posição de topo na Wall Street. Ora, não é precisamente isto que constatamos todos os dias? Perguntem ao Jardim Gonçalves. Cito Magueijo, interesse o discurso a quem deseja malas Chanel ou não: «Os jogos financeiros contemporâneos são tão abstractos e auto-referenciais que trocando a coisa por miúdos mais não são do que comprar e vender dinheiro, como fazia a Dona Branca. Por razões que nunca entendi, muitas das galinhas dos ovos de ouro, em Londres e Nova Iorque, são físicos teóricos e matemáticos falhados, ex-colegas meus em alguns casos. Temos tido acesas discussões, mas numa coisa concordamos: a teoria do caos e o Lema de Ito que se lixe, aquilo é simplesmente jogar na lotaria. Como é que trocar acções por computador ao microssegundo, como se tem vindo a propor, pode corresponder a alguma operação económica? Aquilo é verdadeiramente a Dona Branca: uma pescadinha de rabo na boca financeira, “financiar o financiamento das finanças financiadas”, num jogo bem enterrado no umbigo da Wall Steet e da City de Londres, um totoloto mundial mas com um belo seguro contra perdas: quando se ganha, ganham eles; quando se perde, pagamos todos, em cascata». Matéria demasiado abstracta, quiçá, para quem se coloca ao nível de um cão. Discutamos, pois, tourada. É assunto por todos facilmente dominado. Que importa que uma instituição financeira como o FMI venha propor uma redução de 15% nas pensões de reforma ou um corte em 3 a 7% nos vencimentos dos funcionários públicos ou a redução de 10 a 20% dos actuais trabalhadores do Estado ou o despedimento de 50 mil trabalhadores na área da educação, etc, etc, etc? Nada disto tem qualquer importância no país das Pêpas e dos Zicos. Bem pode o Camilo Lourenço pedir que o FMI se mantenha em Portugal mais uns quatro ou cinco anos, a austeridade não fere os portugueses, não os atinge, não os indigna tanto quanto os direitos do Zico. Os eleitores não se queixam da tortura. Podem ser massacrados, roubados, vigarizados, lapidados que o seu comportamento será como o de um homem a quem cortam um braço e ele fica feliz por lhe restar outro, cortam-lhe o outro e ele agradece a Deus ter as duas pernas, cortam-lhe uma das pernas e ele sente-se grato pela que ainda tem, cortam-lhe a perna que resta e ele suspira de alívio por ainda ter cabeça, cortam-lhe a cabeça e ele pergunta-se onde raio a meteu. São altíssimos os juros que andamos a pagar pelos empréstimos contraídos, mas mais grave é esta amorfia social que já não pode ser considerada meramente indiferente. Sendo vítima, não deixa também de ser cúmplice dos seus criminosos. Vejam bem o paradoxo em que estamos metidos.
 
Ao alto: Samuel Fuller e... Zico?

sábado, 12 de janeiro de 2013

O MENTIROSO


Escritor prolixo, com mais de cem contos escritos num tempo em que os contos não se resumiam a meia dúzia de linhas, o nova-iorquino Henry James (1843-1916) foi durante largos anos desconsiderado pelos seus pares europeus. Não admira. Filho de Henry James Sr., que era amigo de Thoreau e Emerson, James tinha uma ideia do Velho Mundo e do seu puritanismo que, à época, dificilmente seria aceite sem reservas. Um dos temas implícito em muitas das suas obras é, precisamente, a oposição entre o Velho e o Novo Mundos, tendo este, aos olhos de James, tanto de rude e inocente quanto aquele tinha (tem?) de hipócrita e sofisticado. As origens eruditas permitiram-lhe estudar com tutores nas mais importantes cidades europeias, por cá permanecendo grande parte da vida. Em 1915 chegou mesmo a adoptar nacionalidade britânica, como forma de protesto contra a posição adoptada pelos Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial. Em termos identitários, podemos dizer que Henry James viveu numa espécie de limbo. Sem ser europeu, também não se reconhecia como americano. Na apresentação de O Mentiroso (Sistema Solar, Outubro de 2012), o tradutor Aníbal Fernandes refere que Henry James se ressentia «com a objecção de vozes bem instaladas nos seus prestígios». Exemplos? H. G. Wells, Oscar Wilde, André Gide… Ainda assim, teve os seus admiradores. E o tempo impô-lo como um dos maiores escritores de língua inglesa. A novela O Mentiroso (115 pp.), escrita no ano da graça em que Pessoa nasceu, não o desmente. Oliver Lyon é um pintor que se desloca a uma localidade chamada Stayes para pintar o retrato de um tal Sir David. Aí se cruza com várias personalidades, entre as quais Everina Brant, antigo amor ainda por sarar, e o coronel Capadose, com quem Everina está agora casada. A trama da novela desenrolar-se-á, essencialmente, entre estas três personagens, com as suas características psicológicas bem delineadas e os vícios e virtudes de cada uma por determinar. Nada é óbvio em cada uma delas, por tudo parecer discutível. Esse é um dos grandes méritos de Henry James, saber reproduzir a realidade sem a esgotar numa única perspectiva, admitindo-lhe nuances diversas, dúvidas, sombras. A consciência que Oliver tem de si, por exemplo, não é a mais exacta. Denota alguma insegurança na avaliação que faz de si próprio e isso acaba por reflectir-se no modo como observa quem está à sua volta. Mr. Capadose é o mentiroso compulsivo que oferece pretexto à obra; e Everina, Mrs Capadose, a personagem ambígua que tanto o leitor como Oliver parecem querer desvelar. A natureza feminina, não sendo central neste texto, acaba por conferir à narrativa uma dimensão metafórica bastante subtil. Porque a questão central nesta obra, mais do que esse aspecto caricatural da mentira inofensiva, ainda que compulsiva, é a da natureza da arte. Oliver é pintor, um retratista célebre que consegue reproduzir na tela os ângulos menos evidentes da alma humana. Só assim entenderemos a atitude de Everina quando vê o retrato que Oliver fez do coronel Capadose. As mentiras do marido, disfarçadas com uma incensurável cumplicidade, sobem-lhe à superfície do rosto, os vícios da sua personalidade como que ficam evidentes, explícitos ao olhar humano. E isso é deveras perturbador. Esta leitura concorda com a fé que Henry James colocava na arte, cuja função seria fintar a hipocrisia do mundo dizendo a verdade. Mas esta verdade, paradoxalmente, só parece ser possível traindo a realidade. Daí que o famigerado realismo de Henry James seja tão questionável como qualquer outro ismo, não circunscreve uma leitura unívoca da arte e, muito menos, do mundo. É um realismo perturbado pela constatação de que representar é trair, embora esta traição se revele o caminho mais eficaz na direcção da verdade. Perigoso caminho, é certo, mas livre, imune ao amestramento que a mentira almeja quando resulta da conveniência. O período que atravessamos, não sendo especialmente vitoriano, tem muito desta ambiguidade. Note-se como cada vez mais a realidade se confunde com o universo virtual onde ganha expressão e adquire sentido na vida das pessoas, obrigando-nos, tantas vezes, a desmenti-la se pretendemos chegar à verdade do que quer que seja. É preciso desmentir a realidade para chegar à verdade. Caso contrário, abre-se a porta ao equívoco, ao mito, ao boato, por ser muito mais conveniente acreditar no preconceito e no estereótipo do que desmontá-lo com o sentido crítico de quem admite as várias faces de um mesmo objecto. Eis o reino da hipocrisia que apenas a arte logra desconstruir, isto quando também ela, institucionalizada, não se transforma em mais um elemento dessa hipocrisia.

HUMANO


Com o homem começa o invisível.
O que se diz é o que se esconde, os olhos
giram para bem longe da sua fome.
O homem enche a sua fome de poemas,
os seus poemas de sonhos de amor,
os seus sonhos de amor de coisas impossíveis,
como a eternidade ou o lugar perfeito
onde nos deitaremos a ouvir o pensamento
dos pássaros, a água que corre aflita
com medo de ser pouca no chão tanto,
com a loucura do mundo a crescer no
nosso sexo, no nosso pensamento,
com o mundo a crescer vibrante a cada instante,
por dentro de nós, em nós, por fora de nós,
sem parar, sem memória, sempre,
sem fim, sem infinito, para lá das coisas que nos vencem,
para lá do sonho, nesse lugar além de tudo quanto
pode ser dito, de tudo quanto foi dito, além da história
do que somos, da vida que vivemos, todos, incluindo os mortos,
os que ainda não nasceram, os que se vendem, por dinheiro
ou excesso de tristeza, os que acreditam na vida, na beleza,
na utilidade prática da arte, na invencibilidade do amor,
na irmandade dos homens que constroem um mundo melhor,
homens e mulheres que estão aqui, ou que porventura
chegarão amanhã, quando nós e eles formos outros,
maiores que o dia que passou, que a noite que nos guarda,
quando o invisível for mais perto do braço que nos toca,
dos olhos onde revemos a história do mundo,
deste momento onde parimos a luz


Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Prémio Daniel Faria 2005, Quasi Edições, Maio de 2005, pp. 35-36.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

HANG ‘EM HIGH (1968)





A sequência do enforcamento público que acompanha a chegada de Mattie Ross a Fort Smith, Arkansas, remeteu-me para um western do praticamente desconhecido Ted Post (1918). Hang ‘em High foi o seu terceiro filme para cinema e conta com Clint Eastwood no papel principal. Eastwood é um ex-agente da lei, convertido em cowboy, apanhado por engano no centro de um linchamento, depois do homem a quem tinha comprado uma manada de vacas ter sido assassinado com toda a sua família. Já pendurado pelo pescoço, Eastwood, isto é, Jed Cooper, é salvo da morte por um Marshal de passagem naquela zona. O Marshal chama-se Dave Bliss (Ben Johnson) e trabalha para o juiz Fenton (Pat Hingle) num suposto Fort Grant, na região do Oklahoma.
Na realidade, trata-se exactamente de Fort Smith e o juiz Fenton é, nada mais, nada menos, do que o impiedoso Isaac Charles Parker, que ficou conhecido para a história dos EUA como o juiz dos enforcamentos. Esta realidade histórica, que em True Grit aparece referida lateralmente, é o pano de fundo do filme de Ted Post. Mas Hang ‘em High tem um outro elo, simplesmente caricato, com o True Grit de Henry Hathaway. Em ambos Dennis Hopper surge para ser assassinado na única cena em que aparece. Um outro actor que reencontramos em Hang ‘em High é Ben Johnson, o Chris Calloway de Shane. Pormenores do elenco que, sem serem fundamentais, estabelecem algumas ligações curiosas na história do western.
O que é essencial, neste caso, é a recriação do ambiente justicialista que encontramos em múltiplos destes filmes. Lembram-se do linchamento popular de Johnny Guitar? Realista ou caricatural, este ambiente ajudou a estereotipar uma imagem do antigo Oeste que está longe de ser pacífica. Inegável parece ser a evolução de uma humanidade que, afinal, já passou e, de certo modo, continua a passar por coliseus romanos, torturas públicas, lapidações, vias-sacras, fogueiras medievais, caças às bruxas e ao homem, fábricas de morte como campos de concentração e “gulags”. A história da justiça, ao contrário desta, não é cega; esquece-se, por vezes, de que entre o crime, a condenação e a pena há a vontade popular.
Ora, este filme de Ted Post questiona, precisamente, uma justiça desenhada à imagem e semelhança da vontade popular. Opondo-se a esta vontade (a missão do Marshal Jed Cooper será levar à justiça os homens que o lincharam), contrariando esse conceito de “justiça pelas próprias mãos”, acaba por a ela sucumbir sempre que se transforma em espectáculo. A caracterização de Fort Smith, convertido em Fort Grant, é inclemente, tendo Post carregado nas cores que nem Hathaway, nem mesmo os irmãos Coen, quiseram repetir. O aspecto moralmente sórdido da execução pública é transformado num espectáculo deplorável, com o povo a consumir cerveja gelada e doces enquanto aguarda o enforcamento. Algumas mensagens finais dos condenados são abafadas pela multidão expectante, mas animada. E um deles, já com a corda ao pescoço, afirma reconhecer na plateia gente bem pior do que ele. Não duvidamos.
O que o Marshal Jed Cooper vem a descobrir, ele que foi vítima da pior das injustiças, é o que o juiz Fenton pretende disfarçar. Não há justiça onde apenas reside um mórbido desejo de vingança. A inclemência do juiz, assistindo às execuções de um lugar privilegiado, surge-nos assim tão ou mais criminosa do que os crimes cometidos por alguns daqueles condenados, como os dois jovens que Jed Cooper tenta absolver depondo em seu favor. É o próprio Jed Cooper quem perdoa um dos seus executores, reconhecendo nele uma inocência que a lei cega do juiz Fenton não quer ver. E quando toma conhecimento dos fantasmas que perseguem Rachel (Inger Stevens), a misteriosa mulher que espreita cada um dos prisioneiros chegados à cidade, ele questiona-se: e se nunca chegarmos a encontrar os nossos fantasmas?
Panfleto contra a pena de morte ou não, este filme tem o mérito de nos fazer pensar alguns dos mais repetidos lugares-comuns sobre o desinteresse da lei e a “cegueira” da justiça. Impressionante que se mantenha tão actual.

domingo, 6 de janeiro de 2013

UMA BARRAGEM CONTRA A ETERNIDADE.

Ponta Delgada, Açores. 2012.

VELHOS / 5

Aceita as suas próprias mãos
sobre os seus próprios joelhos.

Donde vieram elas até ali?
De que fundotempo se apuraram as ossudas?

Armas - da guerra por travar.
Instrumentos - do trabalho saqueado.
Signos - placidamente expostos.

As que foram blandiciosas ou rudes
repousam, caligráficas, nas dobradiças
dumas pernas tão alheias a ele, o velho,
que o velho começa e acaba nessas mãos pousadas,
dentro da visão que dele tenho
(lugar-comum a outro sobreposto,
a outro que é o velho no jardim?).


Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Alexandre O'Neill.

Um poema de Hans Børli

A Machada (øksa)
 
A machada
aquela machada de aço nu
é o atributo do rapaz da floresta
tão imprescindível
como chave na mão de San Pedro.
Esgotei muitas machadas,
machadas Mustad, Machadas Finstad, machadas Suecas,
muitas –
Algumas serviram-me fiéis
em dias perfumados de árvores
outras iradas em acendalhas
e em pragas rogadas
à cabeça inválida do ferreiro.
Mas todas –
as falsas tanto quanto as fiéis –
tinham seu rosto
O seu austero perfil de aço
diferente de todas as outras.

Notas assim que brandes a machada,
o linguarejar próprio
a promessa vou encontrar-te
muitas manhãs,
durar nos teus sonhos
como recordação silenciosa.

E quando rodas a machada nova
ao primeiro golpe ensejado,
é como se os músculos ouvissem –

Se não aprendes a conhecer a tua machada
a amigares-te com ela,
então acontece: dar-te lembrança
das tradições sangrentas do aço.

(originalmente publicado em Ser Jeg en blomme i skogen, 1954)


Respigado aqui. Mais poemas de Hans Børli aqui. E mais, aqui.

sábado, 5 de janeiro de 2013

WE OWN THE FORESTS


Informa a Wikipédia que Eidskog é um município do condado de Hedmark, na Noruega. Etimologicamente, o nome da região junta palavras que remetem para as suas características físicas: um caminho entre dois lagos e bosques. Foi aqui, entre lagos e bosques, que nasceu o poeta norueguês Hans Børli (1918-1989). A sua origem é uma família pobre, de madeireiros, fortemente enraizada no árduo labor da floresta. Leitor insaciável, começou a escrever poesia no termo da jorna. À noite, enquanto os camaradas de trabalho descansavam, Hans Børli escrevia poemas. Muitos. A sua poesia reflecte com clareza a influência quer do lugar geográfico que ocupa, quer da sua condição social, resvalando por vezes para um tom crítico que acaba disfarçado por uma frequente postura contemplativa. We Own the Forests and Other Poems (Norvik Press, 2ª edição, 2007) recolhe alguns dos seus poemas, em edição bilingue, com versão inglesa de Louis Muinzer. Uma breve mas cativante amostra de uma poesia transparente, mas não óbvia, que estabelece uma relação com a natureza tão devota quanto intimista, colocando o poeta num espaço intermédio entre a voz e o silêncio. Os poemas de Børli coleccionam silêncios, as melodias da floresta, o restolhar do vento e a dança das árvores à sua passagem, descobrindo mensagens secretas na paisagem e sugerindo linguagens, vozes, mistérios nos rios, na fauna, na flora, no ambiente dos bosques. Um certo tom reflexivo relembra-nos autores como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, mas mais que transcendentalista Hans Børli é um humanista refugiado na solidão da floresta. Não se trata de uma poesia insensível ao mundo. São múltiplos os exemplos em que se torna política e até social, como nesses dois poemas que evocam Louis Armstrong (p. 71) e a sul-africana Miriam Makeba (p. 79) ou no poema Muro da Vergonha, publicado em 1984. No poema Louis Armstrong podemos ler a seguinte estrofe: «Vês todas as mãos brancas, Satchmo? / Estão a aplaudir. / Mãos que ferem, mãos que enforcam, mãos / que dividem uma escuridão suave e fértil / com a cruz incendiada do ódio. / Agora aplaudem. / E tu tocas, meu velho. Cantas / Uncle Satchmo’s Lullaby. O teu suor escorrendo, a tua respiração / pesando. Um sol recolhendo-se rapidamente / na boca brilhante da tua trompete. / Como as lágrimas numa garganta. // …the trouble I’ve seen» (p. 71). Não obstante, estas inclinações impõem-se enquanto manifestação de solidariedade para com os mais fracos, os humilhados e oprimidos, sem qualquer intuito que não seja o de exprimir um autêntico sentimento de fraternidade. No poema que oferece título à recolha, um dos mais conhecidos do poeta, os ricos opõem-se às suas gentes, aos homens e mulheres que têm a floresta como uma criança tem a mãe. Os ricos podem adquirir vários acres de floresta, mas jamais possuirão o murmúrio do vento ou o pôr-do-sol. Jamais escutarão a música da fogueira ateada numa noite solitária, jamais sentirão o perfume da terra ou compreenderão as mensagens que correm no silêncio das águas de um rio. A riqueza da vida numa gloriosa solidão, que tem por companhia a simplicidade, é a mensagem silenciosa que o leitor se sente convidado a ler nestes poemas. Longe dos ruídos urbanos, de uma ruína plástica enfadonha ou da torrencialidade de escritório, mas próximo dos homens que aí sobrevivem por não ser indiferente às suas dores. Não têm escola estas imagens, são poderosas porque vêm de onde vem toda a boa poesia, ou seja, da vida:

POESIA

Eu era inculto, grosseiro e monótono,
não tinha os modos dos bem-falantes,
guardei-me para as palavras ásperas
que se usam nos trabalhos grosseiros.
Mas por momentos o meu coração foi uma pedra
no monte ensolarado da vida: a Poesia da Borboleta Apolo
nela pousou casualmente,
aí ficando a bater as suas asas em flor.

 (de The Day is a Letter, 1981)

TRUE GRIT (2010)




Em 2010, os irmãos Joel & Ethan Coen fizeram um remake do western que valeu a John Wayne o Oscar por melhor interpretação masculina em papel principal. Agora exibido nas terras de Zé do Telhado com o título Indomável, o True Grit dos irmãos Coen partilha apenas com o filme de Henry Hathaway a mesma base narrativa, ou seja, o romance de Charles Portis. Quanto ao resto, são filmes substancialmente diferentes. Uma diferença perceptível logo à partida tem que ver com a atmosfera que serve de cenário à acção. A Primavera de Hathaway dá lugar ao Inverno dos irmãos Coen, à neve, ao frio, aos vapores e à respiração ofegante dos animais. Os Coen dispensam grande parte dos elementos emotivos que tornam a primeira versão algo sentimentalista, concentrando-se na personalidade determinada e firme da jovem Mattie Ross (Hailee Steinfeld). 
Deste modo, o filme parece desenvolver-se muito mais a partir dessa personagem que é a da jovem com um objectivo definido: vingar a morte do seu pai. A sua relação com o implacável Marshal Rooster Cogburn (Jeff Bridges) mantém-se, mas este deixa de ser uma figura paternalista para passar a ser, juntamente com o ranger LaBoeuf (Matt Damon), objecto de sedução no interior de uma personalidade adolescente desbravando caminho na direcção da maturidade. Mattie encontra-se, assim, entre dois pesos e duas medidas de avaliação da realidade. A sua determinação apenas vacila quando confrontada com a necessidade de optar. De um lado, o pragmático e informal Rooster Cogburn. A sua coragem é inegável, tanto quanto a determinação de Mattie em capturar o assassino de seu pai. Do outro lado, o formal e orgulhoso LaBoeuf, talvez mais metódico e previdente. 
Não se opondo um ao outro, Cogburn e LaBoeuf actuam de modo diverso. Se na versão de 1969 aparecem sempre juntos, intervindo em equipa, agora são separados, seguem trilhos diferentes, não divergentes, reencontram-se, separam-se novamente, distanciam-se, reaproximam-se. Este duelo sem balas mantido entre ambos, esta espécie de jogo que tem na sua origem personalidades distintas, oferece a Mattie o que há de essencial na construção de uma personalidade: o choque de valores. Cogburn e La Boeuf acabam por se constituir como o pai ideal para Mattie depois de o pai real haver sido assassinado. Não é acidental o discurso derradeiro de um dos condenados na cena de enforcamento, dirigindo-se aos filhos e à importância das boas companhias. É uma subtileza humorística que se compreende no desenrolar da história. 
Mas esta história aceita também uma outra perspectiva. Se é verdade que a interacção entre Cogburn e LaBoeuf amadurece Mattie, também não deixa de ser verdade que é a resolução desta jovem que transporta aqueles homens para uma outra dimensão, talvez heróica, onde as hesitações humanas que quase os levam a desistir do objectivo inicial acabam por ser superadas pela necessidade de intervir. Lembremo-nos de que LaBoeuf morre no filme de Hathaway. Os Coen mantêm-no vivo porque isso se torna indiferente. Não há aqui nenhuma necessidade de exaltar o papel de Cogburn. Há, antes, uma vontade clara de nos fazer perceber que é Mattie quem está no centro das atenções. E esta recolocação da narrativa sobre os ombros de uma personagem obriga-nos a uma pergunta essencial, afinal onde reside essa valentia, essa firmeza, essa coragem que dá título ao filme na expressão de true grit? 
Joana d’Arc do velho Oeste, sem a componente mística e muito mais realista do que a própria realidade, esta Mattie Ross não pode ser apenas ficção. É uma energia que advém do desejo, personalização daquilo a que Nietzsche em tempos chamou vontade de poder e alguns interpretaram, maldosamente, como “vã glória de mandar”. Ela é uma força porventura incomensurável e indeterminável cientificamente, que não se resume apenas à coragem desmedida de Cogburn nem à bravura deontológica de LaBoeuf. É uma força íntima, inerente ao ser, que desabrochará subjectivamente em cada um de nós sempre que formos confrontados com o que não pode deixar de ser feito, sob pena de, não sendo feito, roubar-nos a nossa própria identidade.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

PROJECTO ANDRESA



Camarada Van Zeller, tenho uma meta para 2013: viver com a Andresa Salgueiro. Não, camarada, não há aqui nenhum equívoco. Eu quero mesmo dizer viver com a Andresa. Não é como, é com. Para tal, conto ir até Marrocos dar a minha mulher para troca. Basta-me um camelo para a viagem de regresso. Pelo caminho, deixo as filhas numa qualquer instituição católica. Estou certo de que carecem de criancinhas frescas como o estômago do Passos Coelho carece de vegetais. Depois, juntar-me-ei à Andresa no projecto Believe. Podia ser Acreditar, mas em inglês a coisa fica mais internacional. Com sorte, chegaremos à Serra Leoa com estas ideias fantásticas. Se não chegarmos à Serra Leoa, talvez cheguemos a Marrocos (onde a minha mulher estará, rodeada de camelos). Quem diz Believe diz Croire. O que interessa é chegarmos lá fora, patentearmos a ideia, faremos do terceiro mundo o nosso porto de abrigo. Descobri neste início de ano que há em mim um profundo desejo de mudança. Já deixei de fumar, comecei a correr e comprei o livro de receitas do Pedro Passos Coelho. O Jamie Oliver que se amanhe, com as receitas do Passos Coelho e uma alimentação saudável, à base de sementes, a felicidade sorrir-nos-á a cada segundo das nossas vidas. Desde há muito que, tal como a Andresa, eu quero ser eu próprio, seguir a minha missão de elo entre várias pessoas e grupos. Pensei em orgias, sanduíches e outras variantes, meti-me no facebook, licenciei-me em Messianismo e Profecias na Universidade do Relvas, mas agora a Andresa desbravou-me o caminho e iluminou-me o futuro. Eu hei-de sobreviver trocando aquilo de que preciso pelo que de melhor posso dar. A Andresa espera não ter de gastar 1111 euros durante um ano, eu tenho a certeza de que não gastarei um tostão. Só se for para comprar palha para o camelo. As despesas mais formais estão garantidas pela frugalidade do consumo. Não preciso de água porque não tomarei banho, excepto se a Andresa me o exigir quando vivermos juntos. Beberei o que o céu me oferecer e a terra me proporcionar. Tenho um livro que explica como se fazem estas coisas. E como já o li, bem que o posso trocar, sei lá, por uma dúzia de suculentas tangerinas. A minha luz será a Andresa, de nenhuma outra luz carecerei para ser feliz. De gases estou bem servido e o seguro e o selo do carro deixarão de ser necessários, pois venderei o carro para poder ir até Marrocos trocar a minha mulher pelo camelo com o qual começarei a deslocar-me para todo o lado. Para pagar a Internet, farei uma troca com a Andresa: ela dar-me-á a sua palavra passe e eu dar-lhe-ei muitos beijinhos e palmadinhas no rabo. Como em Fevereiro ou Março estaremos a partilhar casa, ela disponibilizar-me-á o quarto em troca do meu entusiasmo. Nenhuma adversidade me fará baixar os braços neste objectivo. Depois de recentemente me terem assaltado o carro, levando-me os telemóveis (tinha um para cada orelha, como os brincos), as chaves de casa, os cartões de identificação, incluindo o de aderente FNAC, e até a placa dentária e a máquina de enrolar charros, mantive o espírito positivo e recorri a trocas para resolver quase tudo. Troquei o vidro partido do carro por um saco plástico do Modelo, deixei de usar orelhas, pelo que já não precisarei de telemóveis, tenho a porta cá de casa sempre aberta, estou à espera do meu novo passaporte russo e marquei consulta com um curandeiro de Djemaa el-Fna para dentes novos a troco de muito amor e carinho. Desistir está, portanto, fora de questão. Deixei-me seduzir pelo conceito Believe a ponto de estar seriamente empenhado em seduzir o conceito Andresa Salgueiro. Sinto neste momento uma energia nova a obsidiar a minha vida, sinto isto desde que o projecto da Andresa deixou de ser o meu projecto para passar a ser o meu projecto a própria Andresa. Tem sido uma experiência hipergratificante e a minha vida deu uma volta de 360 graus e mais alguns centímetros. Há pessoas que me deixam sacos com comida à porta (acho que é comida, a fome não regateia), a Quitéria trocou comigo 21Kg de batatas por um par de estalos (eu dei as batatas) e no bairro pressente-se já todo um futuro mais ecológico, saudável e feliz. Os ciganos vão à lenha, ateiam o lume, eu contribuo com os gases. Os meus consumos são muito baixos, estão mais ou menos ao nível das solas, o que faz com que me comece a alimentar de forma mais saudável com alimentos da terra. Dantes só comia porcarias caídas do céu. Também não compro coisas desnecessárias, tais como brincos e lenços de pescoço Jonet ou mesmo roupa. Prefiro andar roto e nu, apesar do frio, mas muito dignamente roto e nu. A roupa só me servia para encher o ego, não a alma. A alma, eu encho-a de Andresa. Acho que num futuro a médio longo prazo deixarei de usar dinheiro e serei sustentável, ecológico, saudável e feliz. Sempre que visito os meus avós no cemitério verifico que será essa a minha realidade. Por enquanto, camarada Van Zeller, quero apenas deixar uma mensagem para quem ambicionar seguir-me o exemplo: estamos sempre a tempo de mudar as nossas vidas, de mudar a nossa família, de mudar a nossa cidade, de mudar o nosso país, de mudar o nosso mundo… Qualquer cidadão da Eritreia sabe que isto é verdade. Mas tudo começa apenas e só quando começamos a acreditar em nós. Eu comecei a acreditar muito em mim desde que comecei a acreditar muito na Andresa. Não tenho dúvidas de que vale a pena acreditar na Andresa, no Pai Natal, nas fadas e nos querubins.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

CERTO DA MINHA VIDA E DA MINHA MORTE, OLHO OS AMBICIOSOS E QUERIA ENTENDÊ-LOS.

R. Maria da Fonte, Lisboa. 2012.


(...)
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, rápido ao atacar.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes da mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um ganido de guitarra, alguns retratos e uma velha espada,
a clara prece do salgueiral nos entardeceres.
O tempo está a viver-me.

(...)

Fotografia: Jorge Aguiar Oliveira.
Texto: Jorge Luis Borges.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

UMA ATRÁS DAS OUTRAS


Camarada Van Zeller, o Governo de Miguel Relvas resolveu baixar, mais uma vez, as indemnizações por despedimento. Fê-lo sem dar cavaco a ninguém. A CGTP fala em vigarice, a UGT queixa-se de violação. É provável que o camarada Ulrich venha a terreno sugerir vaselina no rabinho da UGT, com o camarada Borges a sorrir de boca fechada, como fazem as almas aristocráticas, enquanto o Arménio berra e ninguém liga. Este país de orelhas moucas tem no presidente Cavaco a coisa que merece. Cavaco chegou a primeiro-ministro em 1985, conseguindo posteriormente duas maiorias absolutas (87 e 91). Ao todo, foram 10 anos de governação. Do seu legado, basta lembrar esse lupanar de putas finas e grossos proxenetas conhecido por BPN. O povo, sempre atento ao essencial, aguentou, aguentou, aguentou o cavaquismo durante 10 anos. Não satisfeito com tamanha empreitada, resolveu dar-lhe mais 10 no poleiro da República. E vão 20, de Cavaco, em 38 de democracia. Não fosse o planeta dos macacos ideia dos sessentas, acreditaríamos ter Pierre Boulle encontrado inspiração nesta república de bananas. Só mesmo um povo primata para aguentar tanto tempo nos mais altos cargos do poder tal abocanhador de bolo-rei, com seus tabus e históricos silêncios. Mas não se julgue, camarada Van Zeller, que esta fava que raramente se enganava e nunca tinha dúvidas não evolui como qualquer criatura à face da terra. Darwin poderia mesmo, fosse vivo, iniciar aqui, neste alucinante couto de chimpanzés, uma nova teoria sobre a evolução. Cavaco agora tem dúvidas, está mais próximo de qualquer ser humano dito normal. Qualquer dia ainda se lembra de começar a elogiar a quietude das vacas no momento da ordenha. Para já, pediu ao Tribunal Constitucional a vigilância da inconstitucionalidade de um Orçamento de Estado. Porque a realidade, por mais que o pobrezinho da reforma que não lhe dá para as despesas sugira o contrário, é clara e óbvia como o cogito, ergo sum: na esfera do poder político, já ninguém liga puto à Constituição da República Portuguesa, um texto sucessivamente desrespeitado pelas práticas políticas de quem lhe jura respeito e lealdade. Por mim, caro coiso, bem podes dedicar-te a deliciar vacas:
 


sábado, 29 de dezembro de 2012

TRUE GRIT (1969)


Em 1969, John Wayne tinha 62 anos e contava com centenas de participações em filmes de sucesso e de interesse desigual. A sua reputação como actor estava estabelecida, confundindo-se em grande parte com a figura de herói do Oeste consolidada por inúmeros papéis em westerns de relevo. Realizadores como John Ford ou Howard Hawks foram alguns dos melhores com quem trabalhou. Não tão reconhecido como estes, Henry Hathaway (1898-1985) também deu cartas no género. True Grit, adaptação do romance de Charles Portis, foi o derradeiro dos seus westerns e um dos últimos filmes que realizou. A escolha não podia ter sido melhor, valendo a John Wayne um Oscar pelo desempenho como melhor actor principal.
Exibido por cá com o título A Velha Raposa, True Grit mistura numa só história vários elementos típicos do western: a caça ao homem, o contraste entre o território selvagem onde decorre a maior parte da acção e as cenas iniciais em Fort Smith, as relações de confiança/desconfiança entre as várias personagens, a problematização de uma justiça demasiado personalizada. Podemos mesmo dividir o filme em duas partes. Uma primeira concentrada na cidade, com as suas instituições e formalidades. A outra, no território selvagem para onde a jovem Mattie Ross, o Marshall Rooster Cogburn e o ranger do Texas La Boeuf se deslocam no encalço de um assassino em fuga.
Esta deslocação permite-nos acompanhar duas realidades distintas, a da cidade com as suas formalidades e a de um mundo onde a coragem se sobrepõe às formalidades na consecução da justiça. Contraste tanto mais importante quanto se revela claro o retrato de Fort Smith traçado nas cenas iniciais, com um triplo enforcamento público e o juiz a assistir à execução na varanda do tribunal. Na pensão onde Mattie e La Boeuf estão instalados, este tem de tirar as esporas, quando se senta à mesa, para não riscar as cadeiras. Mas a Mattie Ross (Kim Darby) não convêm tais formalidades. Para vingar a morte do pai e capturar o seu assassino, Mattie contrata o mais duro e rijo dos oficiais de justiça.
É o velho e sórdido Marshall Rooster Cogburn (John Wayne), alcoólico, zarolho e nada formal, quem ela contrata. A ambos junta-se La Boeuf (o cantor Glen Campbell), que também anda no encalço do mesmo fugitivo por razões diversas mas com o mesmo propósito. Tom Chaney, o assassino em fuga, abrigou-se no bando de Ned Pepper (Robert Duvall) em território índio. É por lá que se desenrolará grande parte da acção, quiçá a mais relevante. O contraste entre Fort Smith, com os seus tribunais, advogados, com as suas prisões e enforcamentos públicos, com as suas negociatas e o seu convencionalismo social emergente, e o comportamento destas personagens em território selvagem é deveras elucidativo de um distanciamento (ou de uma aproximação) dos valores essenciais que constroem os grandes seres humanos.
Daí que o elemento essencial neste filme acabe por se revelar apenas no final, quando vimos desabrochar na personalidade pedregosa de Rooster Cogburn um comovente paternalismo para com Mattie Ross. Dentro do velho Cogburn ainda florescem sentimentos e emoções. Torna-se fácil de entender o quão emblemático é este papel na carreira de um actor como John Wayne, desmascarado aos 62 anos pela interpretação de um velho Marshal de reputação duvidosa. O lado sentimental e afectuoso da personagem confere-lhe uma dimensão humana que já não é apenas a do herói implacável e algo sobre-humano, é a de um indivíduo com as suas fragilidades ocultadas pelo manto da coragem e da determinação.

CONTRIBUTO PARA UMA HISTÓRIA DO MODERNISMO

Pré-Modernismo:

Je est un autre.
Jean Arthur Rimbaud

Modernismo:

Eu-Próprio o Outro.
Mário de Sá-Carneiro

Pós-Modernismo:

Nós não somos duas pessoas.
Pedro Passos Coelho

COMBOIO DAS CINCO

 
Luís Afonso (1965) é um conhecido cartunista português cujo talento pode ser facilmente comprovado, por exemplo, nas páginas do Público. Recentemente, a editora Abysmo publicou-lhe O Comboio das Cinco (Outubro de 2012). Não é um livro de cartoons, embora o género esteja presente à laia de separadores que acompanham uma novela dividida em seis capítulos. Cada capítulo corresponde a uma cena no argumento de um filme que o escritor pós-moderno Lopes tenta escrever. Partindo do princípio amplamente reiterado de que os livros são sempre melhores do que os filmes, Lopes entrega o seu livro, ainda por escrever, ao realizador do filme que o adaptará. A ideia pode parecer algo rebuscada, mas revela uma indubitável argúcia nos métodos do escritor pós-moderno: fazer um filme baseado num livro que será influenciado pelo filme. Sentimo-nos tentados a parafrasear o realizador a quem Lopes entrega o seu livro inacabado, afirmando que há aqui muita coisa por analisar. A primeira coisa que nos vem à tona, sem pretensões hermenêuticas escusadas, é a de que este "pretexto diegético" introduz-nos no muito português universo da chico-espertice. De resto, o ambiente conjugal que caracteriza a primeira cena pode muito bem ser lido como uma parábola introdutória da relação que os portugueses mantêm com a pátria. Fugir, nem que seja para Espanha, é solução que não está fora de questão, fugir de um país onde os neologistas se revoltam contra acordos ortográficos num arrobo nacionalista que nunca penalizou o mau uso da língua; fugir deste clima onde todos são maus, horríveis, péssimos, excepto nós próprios e quem nos ouve dizer que todos são maus, horríveis, péssimos; fugir de uma sociedade que se despreza e maltrata diariamente, mas não suporta ver-se acusada do que diz de si própria por quem a olha do outro lado da fronteira. Mas isto sou eu em pleno delírio, armado em escritor pós-moderno, sem indicadores de qualidade literária nas margens do post (ou deverei dizer entrada?). O livro de Luís Afonso não é sobre nada disto, é uma mera paródia a um país com gente parada numa estação onde jamais chegará o comboio por quem todos esperam. Chame-se Dom Sebastião ao comboio e temos aqui uma versão pós-moderna do messianismo português, com alguns desvios nada inocentes como o facto de toda a gente fazer de conta muito a sério que o comboio chegará e que a estação funciona. País do faz de conta, talvez, estação do faz de conta,  quem sabe, mas de um faz de conta que se leva suficientemente a sério para que todos os actores possam negar a si próprios a condição de actores. Como o putativo suicida que se deita na linha do comboio sabendo que ali não passará comboio algum. O que importa, afinal, é a intenção. O logro não advém da mentira, como nos prova o recente caso do presumível burlão Artur Baptista da Silva. O logro advém da verdade não ter a sustentá-la os pergaminhos que a tornam credível. Ou seja, o pregão nunca é tão valoroso quanto o pregador. Por isso tão facilmente resvalamos, neste país de faz de conta, numa espécie de esquizofrenia atrofiante que nos inviabiliza toda e qualquer compreensão da realidade. Porque a realidade já se confunde de tal modo com a aparência que a aparência ameaça tornar-se na única realidade. Paradigma da esquizofrenia é a cena IV d'O Comboio das Cinco, onde o presidente de um clube entra em conflito com o presidente da Junta de Freguesia local por causa da cedência de terrenos. Tudo muito banal não se desse o caso de ambos, presidente do clube e presidente da Junta, serem uma e a mesma pessoa. A dimensão hilariante deste conflito pode muito bem servir de exemplo, neste país ziguezagueante onde toda a gente conhece toda a gente sem que ninguém se conheça a si próprio. E esse talvez seja o verdadeiro problema de quem espera pelo comboio das cinco: saber que ele não vem e, no entanto, continuar à espera. Como se nada fosse.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

BONDADE, CARIDADE, SOLIDARIEDADE


Amigo Pedro, hoje dirijo-me a ti. O camarada Van Zeller foi passar o ano nas Maldivas, está demasiado longe para que a minha voz lhe chegue. Acabei agora mesmo de ler a tua mensagem de Natal no Facebook e só posso dizer-te que me sinto profundamente desiludido. Afinal, Pedro, és tão piegas quanto a maioria dos portugueses. A época natalícia desmascarou-te, despiu-te da armadura de ferro, amoleceu-te. Falas-nos como se fosses um convidado da Oprah ou um entrevistado do Alta Definição, esvaindo-se em lágrimas de menino pendurado numa qualquer parede de um qualquer solar português. Dizes, ó Pedro, que este Natal não foi o Natal que merecíamos. Reconhece-lo depois de teres acabado com essa gordura social do décimo terceiro salário. Convenceste-nos de que precisávamos de fazer dieta, e agora vens vender-nos a banha da cobra em que terás banhado as azevias da Laura. Lamentas que muitas famílias não tenham gozado na Consoada “os pratos que se habituaram”, como se os pratos tivessem hábitos. E que muitos não conseguiram ter a família toda à mesma mesa, como se isso fosse um problema para quem já nem mesa tem. Quanto mais família! Deves pensar que andamos todos a cultivar afectos, estimulados quiçá pela literatura da E. L. James. Mas tu não vês, ó Pedro, que os velhos foram abandonados, as criancinhas deglutidas e os gérmenes secados que nem figos? Não andas a escutar com atenção o Presidente da República. Se escutasses, também tu questionar-te-ias sobre o que mais é preciso fazer para que nasçam crianças em Portugal. E também tu ficarias fascinado com a mungidura das vacas e os méritos do bolo-rei em bocas amordaçadas. Os portugueses que não puderam dar aos filhos um simples presente deviam dar os filhos a este Pedro. Ele que os crie com pratos de Sacavém. Ó Pedro, tu não és assim. Tu és outra coisa qualquer, tu és um Trinitá da política portuguesa. Resta-me a esperança de que esta tua metamorfose não seja, em boa verdade, tão piegas quanto aparenta. Talvez sejas um menino da lágrima a verter crocodilos pelos olhos. Afirmas, numa sintaxe elíptica de fazer inveja aos maiores poetas da língua portuguesa, que “já aqui estivemos antes”. Interrogo-me sobre onde será o aqui em que estivemos, tu e eu, Pedro, os dois, antes. A comida que então esticava para todos lembrou-me a sardinha para três de que tantas vezes me falou meu pai, mas nesse tempo não havia presentes maiores nem menores, as pessoas não lavavam os dentes e poupavam no banho. Não havia presentes, nem solas nos sapatos. Ponto final parágrafo. Este ano que para muitos foi um ano cheio de sacrifícios, Pedro, não foi “apenas” mais um ano. Foi o ano em que vimos a excelência administrativa de um Oliveira e Costa a ser premiada com mesas exíguas na Consoada das famílias portuguesas. Pergunta ao José Oliveira e Costa de que tamanho era a mesa dele, e que prendas deu à filha Iolanda, e pergunta ao Caprichoso que pratos lhe levaram à mesa, e ao Monteverde se dividiu as sardinhas, e ao Duarte Lima se comeu bacalhau ou se partilhou com o filho uma lata de atum, pergunta ao Arlindo Carvalho e ao Almerindo Duarte e ao Dias Loureiro, e ao Aprígio e ao Joaquim Coimbra e ao Fernando Fantasia e ao Catum, que conhecerás bem melhor do que qualquer um de nós, pergunta-lhes, Pedro, os sacrifícios que têm feito. Pergunto-te eu, Pedro, se é neles que pensas quando pensas nos que estão a sofrer. Se não é, devia ser. Devias pensar mais neles e noutros como eles, como esses a quem vais dando abrigo nas tuas lágrimas de Pedro. Pergunta ao Relvas se dividiu o bacalhau com os angolanos. Ou então aprende com o César das Neves e deixa de ser piegas, varre essas mensagens de facebook para debaixo do tapete como fizeste com todas as promessas que te trouxeram ao poder. Emigra, ó Pedro, faz desta crise uma oportunidade, desperta o que de melhor há em ti, mata-te, emigra, enclausura-te num mosteiro, faz qualquer coisa de útil para todos nós. Leva a Laura a passear à Sibéria e não regresses. Porque não é com orgulho que fazemos sacrifícios, estimado Pedro, muito menos supondo que esses sacrifícios trarão aos nossos filhos um futuro melhor. Mas qual futuro, ó Pedro? Tu, que ainda vês futuro onde já só se avista desesperança, explica-nos como alegrar os dias num país onde a morte ultrapassa a vida. Tu não percebes, Pedro, que estás a falar para 900 mil desempregados e outros tantos perto de o serem? Ou julgarás que só a Jonet e o César das Neves fazem um país inteiro? Pedro, ao pé de ti o embuste Artur da Silva é uma anedota para entreter meninos, uma piada de mau gosto, um número de stand-up comedy. Tu sim, Pedro, tu és o grande embuste que nos saiu na rifa, tu mais as tuas garantias e a alegria misericordiosa das Jonet e dos César das Neves, o vaselina Ulrich e o Relvas da consciência tranquila. Tenho a certeza de que caberão todos a uma mesma mesa, a mesa dos caras-de-pau. À bondade, caridade e solidariedade da tua estirpe, eu continuo a preferir sentar-me à mesa da liberdade, da igualdade e da fraternidade… Pedro.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O BARRETE DO PAI NATAL


Camarada Van Zeller, este Natal ficará marcado pela decomposição do mito. Perdoe-me a sofisticação do discurso, mas estou em crer que também eu, com algum treino, podia ser especialista em alguma coisa. Podia ser entrevistado em jornais de referência, podia ser convidado para programas de informação de referência, podia ser citado por jornalistas de referência, podia transformar-me numa referência para opinantes vários, disseminados pelos mais diversos canais onde a opinião circula como bosta no esgoto. Ficámos então a saber que o Pai Natal existe, chama-se Artur Baptista da Silva. No país dos Silva, este Artur podia ser um alto destacado das Nações Unidas para um putativo centro de estudos, podia ser consultor do Banco Mundial, podia ser professor numa universidade norte-americana. É óbvio que no país dos Silva tudo é sempre o que não parece e o que parece nunca é, pelo que este Artur, afinal, foi antes parte do Conselho de Fiscalização do Sporting nos gloriosos tempos de Jorge Gonçalves, o bigodes, esteve preso por burla, abuso de confiança, emissão de cheques sem cobertura, é um tonto com perfeito domínio dos dossiers. Quem lhe deu cobertura, e não foi pouca, foram os media portugueses, sempre exigentíssimos na averiguação das fontes e criteriosos no aprofundamento e na investigação das notícias. Mas num tempo em que a notícia se confunde com a opinião, sem rede protectora a proteger os trapezistas da doxa que não seja o mero acto de aparecer - porque, como sabemos, neste mundo de auto-estradas informativas quem não aparece não existe -, ser um Silva com lábia é tudo quanto basta para apanhar o Expresso da Meia-Noite. "Vai-se a ver", as auto-estradas são carreiros de cabras, o expresso uma carroça puxada por dois burros, o mundo uma ilusão. Camarada Van Zeller, o Noel existe e chama-se Artur. Esta história é linda porque torna clara e inequívoca, cartesianamente evidente, a debilidade da opinião publicada. Muitas vezes nos interrogamos sobre o que saberão aqueles que aparecem canal sim, canal não, programa sim, programa não, a proferir banalidades em retórica bem ou mal articulada. Interrogamo-nos sobre se terão tido tempo para estudar os assuntos sobre os quais proferem as mais convincentes asserções, já que é tanto o tempo que passam a saltar de canal em canal repetindo teses e argumentos. Se gastam tanto tempo a opinar, que tempo lhes restará para estudar? Ora aí está mais um Silva a dar conta da superficialidade de tudo isto, do chamado universo mediático e das suas constelações. Ora aí está a mais perfeita ilustração de um reino onde o vago, o fútil, o laxismo, a vaidade, a ausência de espírito crítico, em suma a incompetência e, pior, a promoção dessa mesma incompetência ao serviço da MENTIRA, dita regras e precipita um burlão na parangona dos homens que merecem ser escutados. O barrete do Pai Natal só o enfia quem quer. Não fosse trágico, isto seria cómico. Porque isto é, afinal, da mesma ordem daquilo que mete Relvas no poder e os livros do Camilo Lourenço no top de vendas das livrarias nacionais. Isto é mais um sintoma de uma sociedade alicerçada no facilitismo sem o mínimo sentido da exigência que a verdade reclama. Isto é Portugal, o país dos Silva, dos messias, do nevoeiro, das aparições. Isto é todo um povo sumariado.

domingo, 23 de dezembro de 2012

O CANIL DOS CÃES ZAROLHOS

para o António Cabrita

 

 

desgraçadamente ladram mas não mordem

buscam nas urnas os donos
e estes passando a mão pelo pêlo
roubam-lhes a ração da boca
logo à boca das urnas

sempre fiéis e de beiços arreganhados
basta um açoite no traseiro
para ficarem mais obedientes e servis

os cães afiam os dentes
temendo as garras e os bicos dos abutres
numa ilusão - rasante às ciladas
da vida - gretada de palavras febris

uns ousam ladrar mais acirrados
correndo o risco de serem encarcerados
enquanto outros saltam a cerca
antes da manhã derramelar as hienas

e há os que se atiram contra o arame
farpado
             esfarrapando-se em massa
num mimetismo desesperante

subalimentados ladram docinho
roçando as pernas dos donos
para ganhar um osso
na praia dos trompetes em chamas
à beira-mar da noite espezinhada
pelo terror das hienas
enquanto anónimos suicidam-se
no sussurro da infâmia
defronte aos que mastigam bolores
para sobreviverem

a caridade vai derramando asfixiante
misturando-se a um crude solidário
                                                        legal
e é legal ladrarem um poucochinho
manifestando a ira de açaime sindical

cães velhos corroídos de crostas infecciosas
e respiração barbitúrica
rosnam aos espelhos do requiem
sabendo serem um enfarte de trabalhos
aos tratadores do canil

os veterinários vão ministrando remédios
contra-indicados corroborando
na deterioração lenta das carnes
embebidas em minutos sem sangue
cozinhando a ração para ser distribuída
aos da lista de espera que teimosamente restam
entre restos de lixo e lixos da fé

colocam açaimes controlando a informação
e uma coleira de mecânicas palavras escolhidas
repetidas até à exaustão

a imprensa tornou-se parasita e
os jornalistas uns piolhos de salão
alimentando-se de noticias tosquiadas
                                                              ocultam
a incómoda realidade para as hienas

os comentadores do regime viraram coveiros

e dentro das valas vão-se babando
as carraças que gravitam ao seu redor
vendendo-se para se sentarem à mesa
dum ficcionado banquete do real

com pedigree romano/nazi
tem o canil uma nova dona que vem
descaracterizando os sinais únicos
do âmago duma pátria
 
aos peixes saquearam as espinhas
aos frutos os caroços
e um temporal não se levantou

caminhantes dos atalhos moribundos
lançam ao passar pelos dias de esgoto
sementes bolorentas sabendo de antemão
ser o seu gesto inútil
                                  ser e nada brotar

rosnam trovões sob a morte das searas

lembranças do purgatório ateiam fogo
às papoilas
                   ao redor jovens cachorros
arregaçam os caninos aos escaravelhos
que esperneiam nos subúrbios do planeta
                                                                    em agonia
entrançando de nuances uma existência aziaga

nocturnos eram os rostos
diurnos os sonhos improváveis

improvável era encontrar os teus dizeres
guardados numa gaveta de nuvens
prenhas de anjinhos com açaimes  
percorrendo lentamente o vazio
onde ao centro um fedelho agrafa
penas de toutinegra nas asas do vento
a raspar a saudade
                                apunhalando os rostos
no enterro do pensar porque
                                               pensar é um veneno
e os retratos ardem nos lugares alertando
ser o amor um tumor de pó e cinza

perseguem estrada fora os da paz
                                                        uma antiguidade

mão de fogo outra de água espelhando o vulcão
cuspindo cadáveres enforcados
depositando a lava para os olhos
dos tempos que hão-de vir
                                            cegando de pavor

pela estrada paralela caminham os da guerra
seguindo por agora no contrário dos outros
reacendendo um sangue no peito

ao fundo a encruzilhada

assim chegámos assim chegaremos
à roda a um fim de mínimos de tudo
onde o todo é um nada

aos cães bastaria
alimentarem-se bem na infância

daí para a frente o cagado seria o alimento
continuado num circulo rotineiro
até a morte aparecer para se alimentar da luz
e cuspir a carcaça

o mundo
               mal cheiroso
confluindo merdas de vendáveis ilusões

como não é meu designo governar
fazer curriculum perpetuar a espécie
nem mesmo proferir oratórias
com estandartes bordados de lambidelas
a um qualquer regime
uso por hora as letras
                                    para dinamitar
o covil das hienas eleitas
com um cante ao desafio

é escusado irem ver a barca bela 
pois já não se faz ao mar 
a treta nunca foi nela
e os escravos é que iam a remar

santa Merkel é o piloto 
o FMI o general 
que nojento trapo levam
o fado de Portugal

as palavras sempre pertenceram à morte

um dia um cachorro das últimas ninhadas
ladrará bem alto pela libertação do canil
ferrando os dentes nas contorções das hienas
até o veneno fritar-lhes o cérebro no parapeito
da janela defronte à estrada muralhada
de cadáveres em vinagre e nadas

nesse tempo de nova rotina doméstica
eu já não andarei por estas bandas

nesse tempo os homens voltarão
por algum tempo de novo a ler
nos remoinhos do saber mais além
enquanto lá longe vou minguando
em busca dos meus olhos laminados
por gente vil que conseguiu tornar-me
na dor que lhes convém

cego seguirei para voltar ao sofrimento da terra
onde todos os trajectos de
                                           todos
os lugares vão sempre dar à morte

por hora
por hora volto
                       ao aconchego dos braços

o pouco que me resta


 

Jorge Aguiar Oliveira
Inédito. Cacilhas, Dezembro de 2012

PRESENTE DE NATAL PARA MIGUEL RELVAS