Há muito que a dúvida sobre a possibilidade da poesia ocupa
os poetas. Seria um erro julgar que ela surgiu com Adorno depois da II Grande
Guerra, da mesma forma que é um erro excluí-la das preocupações centrais que
ainda hoje se colocam a muitos autores. A segregação dos poetas na república ideal
de Platão também não explica o problema. O filósofo estava parcialmente certo
quando responsabilizava os poetas pela invenção de mitos, os quais condenava
por serem prejudiciais a uma educação para a verdade. Condenada a poesia,
deixou-se-lhe, no entanto, o benefício da dúvida quando se ocupasse de imitar o
homem de bem, o homem ideal, o homem bom segundo a terminologia platónica. Não é
por acaso que Hart Crane (n. 1899 – m. 1932) cita Platão no último poema do seu
mais importante livro, reivindicando para a poesia uma forma de conhecimento
que Platão atribuía à música: ritmo. Quis a ironia do destino que The Bridge
fosse publicado no ano em que Herberto Helder nasceu, esse ano de 1930 que
acolheu do outro lado do Atlântico a voz de um poeta também ele obscuro, também
ele órfico, também ele fazedor de mitos, também ele ocupado em viajar no tempo
através da linguagem. O corpo de Crane desapareceu prematuramente, diz-se que
no alto-mar algures entre o México e Nova Iorque. Era o dia 27 de Abril de
1932, dois anos passados sobre a publicação de um livro visionário. Na introdução
à edição que possuo, Waldo Frank informa que o barco estaria 300 milhas a norte
de Havana: «He took off his coat, quietly, and leaped». Desapareceu para sempre
no imo de uma força natural que os seus poemas cantam convenientemente, usando-a
como símbolo de uma unidade onde as fronteiras se apagam. Mas o mar é também
esse espaço de ninguém que se intromete entre o velho e o novo mundo, imagem transfiguradora
de uma distância ao mesmo tempo geográfica e histórica. The Bridge tem uma
estrutura rígida, comparável talvez à Mensagem (1934) do nosso Fernando Pessoa
(publicada, aliás, quase na mesma altura). Nele encontramos evocações das
figuras históricas centrais da América, do navegador Colombo a Pocahontas, de escritores fundadores
da literatura norte-americana, tais como Melville, Whitman ou Poe, aos
pioneiros que desbravaram territórios e erigiram uma nova civilização. Uma
civilização que, de resto, surge do aniquilamento do passado. No entanto, estas
evocações aparecem misturadas num panorama urbano que torna o presente época de
saturação e de declínio. A ponte é a estrutura urbana sólida que liga as duas
margens, é o ferro (modernidade) sob o qual o rio (tempo) corre imparável na
direcção do mar (absoluto). O poeta é quem atravessa a ponte, mas também é quem
desce ao inferno quando apanha o metro e se confronta com a multidão, “uma
serenata tranquila de sapatos e chapéus-de-chuva, cada olho a prestar atenção
ao seu sapato”. Ao contrário de Whitman, Hart Crane não se deixa contaminar pela
agitação. Não se entusiasma. Desconfia. Des-confia. Pressente-se nele uma agonia
que manifesta ausência de fé, motivada porventura por uma perspectiva de que o
tempo assume a forma de um distanciamento do “paraíso perdido” mitológico ou
que do futuro podemos esperar apenas o curso da decadência: «This was the
Promised Land, and still it is / To the persuasive suburban land agent / In
bootleg roadhouses where the gin fizz / Bubbles in time to Hollywood’s new
love-nest pageant» (do poema Quaker Hill). É precisamente neste contexto que o
poeta se interroga sobre qual dos olhares lhe pode convir mais: o olhar alto do
falcão ou o olhar rastejante do verme? Eis a dúvida que atormenta todos os poetas
pelo menos desde que Deus mandou o homem dominar a natureza e todas as suas criaturas
selvagens. Ora, o poeta é uma criatura selvagem. Como pode ele
dominar-se a si próprio? Como pode ele domesticar-se e cumprir o desígnio divino?
O grande dilema, a grande contradição, a ambiguidade central do poeta é precisamente esta. Num mundo industrializado, num mundo escravo da tecnologia, no mundo das "servidões", a poesia
como que desespera de um novo arco-íris, o arco-íris que Crane coloca, ele próprio,
no centro da sua poesia, elo com um sagrado anterior às grandes construções
religiosas, aos grandes edifícios tentaculares, anterior à cristalização dos
mitos. Thomas A. Vogler diz que Crane viu no problema do poeta um reflexo do
problema central da sociedade em que vivemos, e diz muito bem. Esse problema,
que os místicos resolvem com experiências de êxtase e visões/iluminações momentâneas,
é ainda mais lancinante no poeta des-esperançado. É ainda Waldo Frank quem nos
lembra que Crane era um místico num mundo anti-místico, tendo vivido entre o êxtase
e a exaustão. Como vimos, resolveu cedo a sua ambivalência. Não sem antes deixar como herança o testemunho da sua deriva: “antífona murmurada na agitação
do azul-celeste”.
terça-feira, 31 de março de 2015
segunda-feira, 30 de março de 2015
GOSTEI DE LER
A notícia é da semana passada mas, por ser uma raridade
mesmo rara – e neste caso a expressão não é pleonasmo, merece toda a atenção.
Uma empresa, a Lisnave, decidiu por iniciativa dos seus accionistas distribuir
pelos seus trabalhadores efectivos 18,5%
dos lucros líquidos do exercício de 2014, isto é, 1,2 de 6,47 milhões de
euros a título de gratificação. É assim, e não com pancadinhas nas costas que
não pagam as despesas lá de casa, que um trabalhador sente que o seu trabalho é
valorizado.
Filipe Tourais, aqui.
A minha experiência é outra. Diária, semanal ou mensalmente,
relatórios de objectivos cumpridos ou por cumprir merecem a mesma despesa e o
mesmo lucro: uma caderneta iconográfica de bonecos alegres ou zangados, com
parabéns e recriminações enviadas por e-mail. Vivo numa outra dimensão, algures
entre a escola primária do antigo regime e o cinismo oportunista das direcções.
Grato pela atenção, procuro regressar sempre a casa com a consciência de missão
cumprida e muito estômago. O recibo de vencimentos ditará a fortuna ou o infortúnio
do meu empenho sempre com a mesma e invariável eloquência.
METÁFORA INCESTUOSA
(...)
Numa das cartas comerciadas com Henry Miller sobre o tema insidiosamente desdobrável do Hamlet, Michael Fraenkel confidencia, com algum alarde e muito alarme, a impossibilidade de escrever sem um revólver em cima da secretária; e o próprio Miller diz, noutra parte, que «cada linha é um homicídio com premeditação ou um suicídio». Um arrepio sacrificial percorre desde sempre a literatura. Forçoso lê-lo bem, porque às vezes imprime a caligrafia subtil nos tigres incendiados de Blake, ou nos esplendores florias e submarinos ligeiramente roubados de Hart Crane, ou nas cortinas luminosas e ondulantes de Fitzgerald. Talvez nada exista que não seja uma metáfora incestuosa, agressiva, gloriosa.
(...)
Herberto Helder, in Photomaton & Vox, 3.ª edição, Assírio & Alvim, Outubro de 1995, p. 156.
IMPUNIDADE
Camarada Van Zeller, loas, loas à camarada Von Hafe. Contrariando a tendência para empregar licenciados com
propostas de remuneração a rondar os 500€ mensais, nomeou, a 19 de Janeiro do
corrente ano (idos de 2012), o licenciado Ricardo José Galo Negrão dos Santos,
para realizar estudos pelos quais auferirá uma remuneração mensal de 3892€,
acrescida de subsídios de férias e de Natal de igual montante, subsídio de
refeição, bem como despesas de representação fixadas para os adjuntos dos
gabinetes dos membros do Governo. Tinha dito. Com a camarada Von Hafe acabou-se a impunidade. Ela o disse,
ela o faz. Antes de ela surgir do nevoeiro era o regabofe geral, agora é apenas
o geral. Antes dela, todos os ministros da justiça foram cúmplices das
vigarices do sistema. Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz foi a primeira
Ministra da Justiça a admiti-lo, com ela tudo tem sido diferente. Hosanna! É verdade que as reformas absolutamente estruturais da
ministra Paula Maria von Hafe Teixeira da Cruz não ajudaram o
cidadão a compreender porque é que as multas dos banqueiros prescrevem e as
multas do cidadão acrescem de juros e penhoras. Mas isso é um pormenor. No país de Manuel Palito, o Citius foi a prova que faltava
ao crime. Os títulos são algodão: «Buraco negro no Citius: faltam milhares de
processos»; «Milagre do Citius: não há processos pendentes em Portugal». E tudo
acabou num pedido de desculpas escusadas pela incompetência, lá está, geral. Como
a culpa não pode morrer solteira, acusaram-se os técnicos de sabotagem e as águas
de bacalhau fizeram o resto. Descansemos em paz, em breve teremos à mão as listas dos
criminosos. Diz-se que Paula Teixeira da Cruz alegava que reincidência de pedófilos
era de 80%, mas esta não ultrapassa, afinal, os 18%. Falso. A ministra sofre de
dislexia, leu de trás para a frente. Falso. Os números foram sabotados e a
ministra já avançou com processos contra os técnicos. Falso. A ministra anda a
pagar caro a incompetência dos assessores, tipo o tal licenciado supradito. A dúvida
é: quanto tempo mais temos que aturar tamanha incompetência? Que mal fizemos para
sermos governados por gente tão medíocre? Pode a ministra ficar impune? Não se acabou a impunidade?
domingo, 29 de março de 2015
A PUTA E O CAROCHO
A puta diz: pensei que tinhas morrido.
O carocho responde: não, nada disso, estou cada vez mais
vivo.
A puta sorri e comenta: ainda bem, olha eu estou cada vez
mais contente por ter nascido.
O carocho baixa a cabeça, enfia os olhos na terra, lamenta:
olha, eu não.
sábado, 28 de março de 2015
TOMAS TRANSTRÖMER (1931-2015)
MEADOS DO INVERNO
Um rasto de luz azulada
irradia da minha roupa.
Decorrida está metade do inverno.
Música de choques de mil blocos de gelo.
Fecho os olhos.
Há um mundo sem ruídos,
uma fissura,
onde os mortos,
como contrabando, são passados para o além.
Tomas Tranströmer, in 50 Poemas, tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água, Julho de 2012. Sobre As minhas lembranças observam-me: aqui.
sexta-feira, 27 de março de 2015
TINHA UM SONHO: VOAR
Casa roubada, trancas à porta. Quem nunca ouviu dizê-lo?
Neste caso, nem as trancas evitaram a tragédia. A sequência de notícias na página
on-line do Público é espantosamente reveladora. Repare-se como onde se diz que
o co-piloto aproveitou medidas pós-11 de Setembro, diz-se também que o seu
gesto irá implicar novas medidas. Até quando? Talvez até dois tripulantes no
cockpit se envolverem à pancada e deixarem cair um avião carregado de pessoas. Andaremos eternamente nisto, a tratar chagas com pó de talco e algodão em rama. É de pessoas que estamos a falar. O tal Andreas Lubitz era uma
pessoa, estava doente e ocultou a sua doença. As pessoas deprimidas normalmente
fazem isso, tentam ocultar as suas depressões. Dizem os médicos que muitas são
especialistas na arte da ocultação. Até meterem uma corda ao pescoço, se
atirarem de uma ponta, deixarem o gás aberto, de fecharem numa garagem com o
motor do carro ligado, ingerirem montes de comprimidos, se atirarem para
debaixo de um comboio em andamento, enfiarem na boca o cano da caçadeira e dispararem
fatalmente, cortarem os pulsos, saltarem da varanda de casa. São assim as
pessoas, as pessoas que não nos interessam até fazerem essas coisas
inesperadas. Ninguém esperava que Andreas Lubitz fizesse o que dizem ter feito.
Os vizinhos dizem que era pacato, os amigos estão incrédulos, os conhecidos
teorizam sobre o assunto e lêem os jornais. Jornais interessados em explicar ao
mundo quem era Andreas. Mas será possível a alguém explicar ou compreender quem
era Andreas? Ninguém quereria saber deste jovem pacato não fosse a tragédia que
provocou. É natural. As pessoas, na generalidade, não interessam. O que as torna
especiais é, por exemplo, despenharem-se nos Alpes matando 149 criaturas
indefesas. O mundo é assim mesmo, está cheio de rapazes pacatos como Lubitz. Desses
que passam por nós incógnitos e acerca dos quais não temos o mínimo interesse. Trabalham
em companhias aéreas, em supermercados, em hospitais, nos bombeiros, na polícia,
ou estão desempregados, emigraram, são vagabundos, andam por aí, algures, uns
medicados, outros cuidando da tristeza com álcool barato e receitas fáceis. O Público
diz que Lubitz não foi o único, antes dele outros derrubaram aviões quando o
piloto se ausentou para ir à casa de banho. Há mijas que custam vidas, dores de
barriga mortais. Pode o piloto ser culpado por lhe doer a barriga? É uma pessoa, as pessoas têm as suas necessidades. Talvez não fosse má ideia pensar em medidas que evitassem estas ausências, tipo passar a urinar e a defecar no cockpit. Ou fazer como certas empresas fazem aos seus empregados (agora diz-se colaboradores), simplesmente impedir-lhes o acesso à casinha em hora de turno. Isto não tem piada, sobretudo não tem piada que
Andreas Lubitz tenha pais. E eles tenham agora que assistir a isto, a este
espectáculo triste à volta do nome do filho. Um nome que também é deles. O rapaz pacato que tinha o sonho de
voar. Andava deprimido. Ninguém sabia. Alguém quis saber?
A FUNÇÃO DO GEÓGRAFO
14.
Cubro toda a terra daqui.
Dizem que é efeito das ilhas, já o pressinto.
As nuvens enegrecem no canal enquanto te digo isto.
Há também algo de nocivo nisso, eu sei. Tu sabes.
Talvez venha a tornar-se a voz numa sombra - é o
que dizem, ao chegar a estação das beladonas.
Foi após embarcares que senti tudo isto,
que comecei a confundir a noção dos dias,
o tempo que trazemos nos relógios.
Chego a tremer com o silêncio no planalto,
com o cheiro a cânhamo das furnas e
da neblina limosa formando-se em torno delas.
Acontece-me ter perdido alguns nomes,
outros lugares parecem-me vagos,
ausentes noutro corpo talvez esquecido, em extinção.
Mas descansa não é por vontade, é mesmo assim, já tinha dito.
É talvez porque o que fomos se apagasse e
só pudéssemos esperar
e uma sombra nos cresça na voz, cada vez mais.
Tu dirás isso por aí à tua maneira, se
quiseres - já agora não o esqueças.
Vou ficando semanas seguidas cá em mim,
sem descer à costa.
Aqui aguardo me tragam as cartas, as tuas,
e não julgues que não dei conta dessa angústia.
Se soubesses como me parecem sempre um eco, o
presságio de um mal que está para acontecer.
Mas não são sempre elas isso mesmo,
uma voz sustendo-nos, um
medo na parte mais desconhecida da memória?
Agora enquanto te digo isto as nuvens enegrecem no canal,
a tarde ficou mais bela, como só aqui pode ficar
com o vento que sopra do norte, da graciosa.
Tu sabes como sempre estas coisas me impressionaram:
a ressonância do ar cá em cima, o mar
escuro longe da costa, além de todo o possível,
a rebentação das ondas nos baixios para depois invadir as praias.
Mas além de tudo este silêncio oferecido no caule das hortênsias,
esse silêncio impedindo a aproximação do
mar a toda a volta.
Já te disse como aprendi a desconfiar do mar.
Da sua deriva invisível de um ao outro lado da ilha
como um perigo,
e fosse preciso agarrarmo-nos ao cais para não cairmos.
Já te disse que não há outro lugar para se saber isso,
outro lugar de onde se cubra assim
toda a terra.
Tenho cuidado do viveiro, tal e qual ensinaste,
lá vou escrevendo uma ou outra coisa devagar, se a isso leva.
O lúcio passa de quando em vez de
caminho para o norte grande.
Vai ficando por um ou dois dias, quando insisto.
Fala-me muito das ilhas e das pequenas histórias,
das araucárias que chegaste a ver, da
urzelina e da vila que ficou submersa com a lava, menos a torre,
das pequenas baleias que se passeiam ao longo da costa
como no belíssimo livro do tabucchi, que te contei.
Tudo está aqui ligado, no fundo - mas isso já nós sabemos.
Por isso cubro toda a terra daqui.
Olha,
um barco vem descrevendo agora a sua rota no canal.
Conheço-o daqui tão bem no seu silêncio.
Foi nele que chegámos.
Foi nele que partiste.
E sabes, no que mais tenho pensado é nisso,
no significado das rotas,
no que elas têm a ver com tudo isto que te conto,
com o que nos conduz na vida e não sabemos.
Há um mistério nisso. Tu também sabes.
É o maior mistério e não podemos persegui-lo.
Como se nos afastássemos e só pudéssemos esperar
e fosse mesmo isso o que está certo.
Sim, cubro toda a terra daqui.
Outro dia abri a semente vermelha do café raro
e percebi que não quero sair nunca mais.
Talvez te custe saber isto, não sei. Se
calhar custa-me mais a mim.
Por isso quero dizer-te que não posso partir.
Acho que a vida encontrou-me na tranquilidade certa,
a verdadeira, a que nos cerca como um nevoeiro.
E podia contar-te mais, se quisesses.
Agora entendo como devíamos contar a nossa vida
sabias?
Contar o que ela tem a ver com tudo isto,
deambular por toda a nossa vida até aportarmos aqui,
vigiados pelas hortênsias,
cobrindo toda a terra.
Agora eu amo este planalto como não te amo a ti.
Porque amo-te apenas quando partiste.
Quando me deixaste na mão a certeza de te
esperar
e o dom de vigiar os navios e os cagarros.
Agora o vento cresce do mar pelo lado norte
e espero-te.
as nuvens enegrecem no canal, já tinha dito.
Assim ficarei até que chegues.
Até reconhecer o teu silêncio na inquietação das rotas.
Disseste que vinhas quando não esperasse a
tua carta.
E crê mais não ires pressentir do que a minha
sombra
lá pelo tempo das beladonas.
Rui Coias (n. 1966), in A Função do Geógrafo (2000). «Um dos pendores dos seus livros é a configuração memoriosa do que entende dar-nos do seu passado, sobretudo viagens a lugares que podem ter ficado entretecidos de sentimento ou de registo de anotações paisagísticas ou de um tempo perdido ainda que ganho em ralação à fundura da interioridade. (...) Afectos e atenção à superfície do mundo relatam-nos tanto as situações sentimentais (sempre revestidas de uma contenção expressiva muito notória) quanto as variações de lugares habitados, seguidos de registos de faunas e de flores e de acidentes peculiares dos terrenos por que passa, bem como algumas vezes nos traz alguma espécie de espírito local, de fantasia subtilmente captadas que criam uma aura que contribui para a dinamização do processo descritivo. (...) A lógica discursiva, mesmo nos momentos de ritmo mais marcado, conduz sempre, todavia, a sintaxe; a qual nunca se suspeita que não possa serenamente elaborar o declarado - as frases nunca se constroem em qualquer hermetismo (apesar do desapego à confessionalidade directa); tudo é envolvido em imagens e conceitos como que surpreendidos da própria sabedoria (o que é um processo conseguido da expressão)» (Joaquim Manuel Magalhães, Expresso, 4 de Março de 2006).
quinta-feira, 26 de março de 2015
“SERÁ QUE AINDA É POSSÍVEL A POESIA NUM MUNDO COMPLETAMENTE SECULARIZADO?”
A questão colocada por António Guerreiro enferma de um equívoco
muito comum, o da completa secularização do mundo. Torna-se ainda mais
confrangedora no contexto em que aparece, ou seja, numa crónica incluída no
destaque dedicado pelo jornal Público ao desaparecimento do poeta Herberto Helder.
Se a separação institucional dos poderes religioso e político se tornou uma
realidade, embora sempre discutível, no mundo ocidental, ela permanece latente
noutras latitudes. Ainda há pouco discutíamos a influência do religioso em
atentados abomináveis, sendo possível guardar desses debates uma ideia muito
concreta que extravasa toda e qualquer presunção de inocência das religiões no
que hoje se vai passando pelo “mundo completamente secularizado”: a relação das
pessoas com o sagrado mantém-se viva, a ponto de ser determinante nas opções
políticas que cada um faz. Só assim podemos compreender que jovens
secularizados optem por aderir a movimentos com uma base de sedução religiosa
fundamentalista. Mas se quisermos ser mais minuciosos nem precisamos dessas
situações limite, basta atentarmo-nos ao modo como ainda hoje, e até em
contextos sociais e políticos que julgaríamos imunes ao poder do religioso, as
maiorias esclarecidas do processo de secularização se vergam aos ditames
segregacionistas dos zeladores de Deus. Basta ler um indivíduo como João César
das Neves para perceber que evoluímos zero nesse domínio. A secularização do
mundo, ainda para mais completa, é um mito que exige uma certa vigilância
racionalista, sob pena de nos perdermos nos labirintos do espanto sempre que
Deus desce à terra para matar através de braços humanos. Afirmar que o
sentimento religioso nada tem que ver com fanatismos de origens suposta e exclusivamente
política e económica é uma ingénua manifestação de fé, sendo claro que neles
nada há de sagrado mas há muito de religioso. A questão, associada à poesia de
Herberto Helder, é tanto mais interessante quanto a poesia de Herberto
armadilha permanentemente os territórios da interpretação. A crítica oficial
colou-se demasiado a leituras que o tempo transformou em paradigmas,
nomeadamente a do “poeta órfico” que António Ramos Rosa sublinhou em “Poesia, Liberdade
Livre” (Morais Editora, 1962). Mas o que Ramos Rosa afirma nesse ensaio é
diferente do que o tempo se encarregou de repetir exaustivamente sem sentido crítico
e, por isso mesmo, acabou por desvirtuar. Ramos Rosa diz, e bem, que «os seus
temas se transcendem para um só tema ou num só acto de transcensão para o
originário, para esse ponto de extrema violência em que se anulam os contrários
e onde a eternidade se revela no instante». Ora, isto nada tem que ver com uma
putativa secularidade do mundo. Isto tem que ver com uma vivência do sagrado
que Mircea Eliade clarificou no seu “Tratado de História das Religiões” ao
concentrar-se no poder simbólico que emerge da relação primitiva entre o homem
e o espaço natural, sendo essa relação universal e sem tempo. A poesia de
Herberto, nas evocações circulares e cabalísticas desse simbolismo, é ela própria
bastante secular, na medida em que nos envia para um tempo anterior ao das
religiões propriamente ditas, o tempo dos mitos e das epifanias, o tempo das hierofanias
cósmicas e elementares, o tempo do “Corpus Hermeticum” onde os tais contrários
se anulam no encontro de uma vibração (ou ritmo, palavra fundamental na poesia
de Herberto Helder) comum. Deste modo, quando distinguimos e opomos o sagrado
(vida religiosa) ao profano (vida secular) devemos ter presente que fazendo
essa viagem às origens é no preço das bilhas de gás que o autor de "A Morte Sem Mestre" dará por concluída a sua obra. Portanto, a questão não é se a poesia é possível
num mundo completamente secularizado. Não só esse mundo não existe, como a
questão que, parece-me, há-de continuar a gerar poetas é a da própria
possibilidade da poesia no mundo. Herberto Helder tornou-a possível por não ter
compreendido nela um repto, mas sim um rapto (cf. "Photomaton & Vox"), ou
seja, um jogo de espelhos.
Nota: grato ao Público e aos seus jornalistas pelo
destaque e, sobretudo, pela excelente capa de 25 de Março de 2015.
quarta-feira, 25 de março de 2015
(ramificações autobiográficas)
Ao princípio era uma ilha. Em seguida o conhecimento de tudo: infância e adolescência. Depois venho por sobre as águas, caminhando em cima das águas sem me afundar. Chego a Lisboa. Portugal é um mapa: vou daqui para ali; não gosto. E a Espanha, a França, a Bélgica, a Holanda. E a Inglaterra? Dizem que sim, que Londres. Ora, ora. Vai-se ver e a Europa já não está. Na Espanha, oh não. Na França a mitologia literária fica para além das revelações. A Bélgica cheira a batatas fritas. (No entanto é bom chegar num comboio a Antuérpia, e depois haver muito frio, e se calhar tramarem-se coisas no nevoeiro. Não se sabe.) A Holanda é uma monarquia com vacas devagar para cá e para lá. De repente não se tem nada a ver com aquilo. Acabou-se. E a América do Sul? Lá iremos. É porque pode acontecer que um lugar qualquer esteja à espera. Não se deve deixar que o lugar envelheça. Muito bem.
Ora, em Paris, tive uma visão. Uma coisa formidável. Não estava bêbado nem drogado. Um bocado de solidão apenas. Uma visão prometida desde sempre. Subitamente desabrocha: é o sinal de que um ciclo se completou. Então a gente desta a escrever desaforadamente, publica livros. Um dia uma pessoa está num quarto, deitada de costas, olhando para o tecto, respirando pausadamente. Pensa: como será neste momento a minha cara? Sabe-se — e com que abalo! — que tem uma expressão de pânico. Envelhecemos ali, olhando para a cal do tecto. Lá para trás as páginas escritas apodreceram. A vida que se foi desenvolvendo em torno de um obscuro crime (ter conseguido não morrer muito depressa? e ter por isso recorrido ao jogo concêntrico das palavras?), a vida, essa vida que não dava paz, pelo próprio tremor desavindo da maravilha anunciada, sim, essa vida aglomerou-se em torno da festa essencial do crime, e as pequenas festas criminais desencadearam a forma em movimento, o filme vocabular.
Vamos amar a vida activa?, pergunto eu então. Sim, vamos entrar num barco que chegue de noite aos portos. Teremos horas e horas destinadas à preparação interior, ao apuramento das nossas melhores virtudes. Procuraremos nem sequer respirar. Vai ser bom. De manhã haverá a revelação de cidades que a luz equilibra ao alto. O lugar da acção. Vamos fazer coisas — coisas definitivas. Escrever, acabou-se. Agora, isto: mergulhar até ao fundo. Porque ficou assente: a literatura não é um facto, um acto a sério.
Pois o que acontece é a população, com uma quantidade de ruas e casas. Estou à espera dos milagres. Experimento ir ao encontro deles pelas ruas fora. Também experimento sentado. Há uma conversa com um tipo: ele diz que pendurou alguém de cabeça para baixo. Haverá também quem diga ter sido posto nessa posição e ter visto o mudo assim. Relativamente interessante. Pode ser que os anjos falem desta maneira, que se trate de um tema angélico. Conversa puxa conversa, e uma mulher elege a inocência, o dono de um bar informa como é a sabedoria. Aparece também o famoso esquizofrénico: eu tenho as pernas verdes. Mas a morte está no meio de tudo isto. E afinal respiramos, envelhecemos na cara, o crime não deu nada.
Sim, senhores: as pessoas pedem para eu ser mais claro. Como? O que espero é ver a metáfora apocalíptica ganhar um sentido literal. Entretanto desejam que eu conte anedotas. Decerto: vi uma vez um rapaz esfaquear outro. A multidão estava hipnotizada à volta; ninguém se mexia. Então o assassino disse: comigo é assim. Lá se vai a fascinação. Toda a gente salta para cima dele. Chama-se a polícia. Etc. É uma história. Gostam de histórias. E o sentido disto? Em mim é que ele está. Mas quem me pede significações? Não, não querem metáforas. Ponho-me a falar da beleza mortal dos espectáculos, de certos momentos extremos que regeneram a própria existência desde a origem. É uma coisa minha. Fala-se para estar só, ser contra os outros, limitar a invasão do mundo — dessas ruas e casas, dessa população de funcionários angélicos. Não me venham com inocências nem sabedorias.
Uma vez um rapaz disse-me: tenho aqui a fotografia do meu pai; está na Legião Estrangeira. Mostrou-me. Pobre rapaz devotado ao culto! Nunca seria um herói. Já nem há Legiões Estrangeiras para colocar um pai. É o desemprego por toda a parte. Percebem? A nota autobiográfica é: desempregado por dentro e por fora como um pai ou como um filho. O mundo não está para futuros.
Quanto ao comércio e à indústria, enfim: faz-se um objecto, é bonito, prático, oferece-se nos aniversários; vende-se para isso. E o mundo lá vai, chega cada vez mais longe. Ganhamos espaço para o vazio; gostamos muito da nossa morte; trabalhamos esplendidamente por conta dela. Vai haver uma festa com discursos, ramificações. Também isto é um tema angélico. E o pior é que tudo, espalhado por fora, se liga coerentemente por dentro: a minha, a nossa morte. Trata-se de uma anedota, claro, e de uma metáfora com sentidos muito precisos. A ilha, sim, essa era uma fábula cuja moralidade ignoro. Só havia água à volta, mais nada.
Herberto Helder, in Photomaton & Vox, 3.ª edição, Assírio & Alvim, Outubro de 1995, pp. 24-28.
A MORTE SEM MESTRE
há não sei quantos mil anos um canavial estremeceu na Assíria
e um douto poeta inscreveu esse tremor num curto poema lírico
lido agora por mim junto a um canavial nos subúrbios de Lisboa
e eu penso que os dois canaviais estremeceram igualmente
a tantos tempos e lugares de distância
e só se extinguirão devorados pelo fogo
quando o fogo devorar a terra inteira
Herberto Helder, in A Morte Sem Mestre, Porto Editora, Maio de 2014, p. 54.
terça-feira, 24 de março de 2015
HERBERTO HELDER (23 DE NOVEMBRO DE 1930 - 23 DE MARÇO DE 2015)
Supondo que a tua passagem seja este vento lá fora em turbulência: um apontamento biográfico (aqui), um poema seguido de nota biobibliográfica (aqui), um poema de A Máquina Lírica (aqui), um conto (aqui), um poema com cães dentro (aqui), leitura possível de A Faca Não Corta o Fogo (aqui), outro conto (aqui), um poema de Servidões (aqui), leitura possível de Servidões (aqui), um poema esquimó (aqui), o poema de uma vida e mais qualquer coisa (aqui), uma passagem de modelos (aqui).
POR CAUSA DE PHOTOMATON & VOX
Herberto Helder,
Eu nunca tomei uma bica consigo. Nos seculares passeios do nosso adro é difícil tal prestidigitação. É verdade que tenho um certo susto das suas palavras. Deve ser o único português de quem diria tal coisa. As razões são curtas e julgo que se resumem a uma: você escreve assim.
Poucas vezes o enredo de um fio me faz perder entre os seus nós. As meadas grossas são coisas fáceis de jogar nos dedos. Mas aquelas que nem parecem para tecer, que vêm de um torvelinho onde o ar ainda não chegou, abrem um espaço cego onde as crateras confundem a inexperiência do olhar.
Eu tinha, como lhe mandei dizer uma vez, dezasseis anos. Vila Real era um castigo de que ninguém cresce, a menos que dê volta à vida. Havia uma pastelaria diante da Sé. Li aí A Colher na Boca. Você foi culpado de quase tudo. Sabotou a mágoa adolescente de alguns sonetos. A Judite Beatriz de Sousa nem podia imaginar que as aulas de Literatura eram nessa esplanada e não onde ela me dizia as coisas de maior fascínio que começava a ouvir.
É evidente que não se tratava de Nossa Senhora de Fátima. As aparições já haviam começado mais cedo, quase sempre nos intervalos das aulas e com gente que não ia querer ver-me de joelhos. Mal sabiam que não esperavam os desejosos por outra coisa. Mas, lembro-me de vez, quando cheguei às «Musas Cegas» deixei de saber o que fazer com as palavras. Você não devia existir.
Quero dizer, comecei a julgar que escrever era fazer como você, de tal ordem a mudança ou transfiguração foi radical. Foram centenas de poemas, nos anos da Faculdade, em que não havia mais ninguém, nenhuma outra linguagem capaz de ensinamento. Era a peste, o contágio mortal.
Os advérbios de modo, os pronomes possessivos desencadeadores dasmetáforas, o desregramento imaginístico de um onirismo agressivo, a raridade visual ocupavam o centro que tentava a sua capacidade de visão, donde me cresciam as palavras. O desencadeamento da beleza tem destas facas. Atingem um coração desprotegido de saberes. Calcam as poças de terra donde ele julga subir. Andei com os seus poemas por muitos amores, por mais desamores, pelo sequestro de quartos alugados, pela papalvice de muitos professores. Lembro-me que tinha por critério poético para respeitar alguém que gostasse do que você escrevia.
Porque sou do tempo em que você era odiado. Nos primeiros anos dos anos 60 você não era neo-realista e atacava-os. Isto é, não havia foices e martelos escondidos na covardia de algumas imagens que só os da célula ou os mais atentos entendiam. Nem falava das madrugadas futuras. Nem, acima de tudo, cumpria a retórica de sacristia de um alentejo qualquer. A sua cor era o negro, ouvia-o dizer por detrás de muitas frases e um dia, de trombas, no prefácio a Edmundo Bettencourt.
Diziam que você era um idealista. Eu zangava-me, eles não queriam saber. Um dia atiraram-me uma recusa definitiva: você trabalhava na Emissora. Fosse verdade ou mentira, trabalhavam assim. Contavam a qualidade dos versos pelos anos de prisão. Nem deixavam supor que houvesse outras prisões e que você cantava de um suplício onde eles talvez nunca pudessem sofrer.
Alguns deles, de uma bronquidão imbatível, acabaram ministros, secretários e outros cargos. Era vê-los, ainda hoje se vão vendo, embora os mais antigos lhes tivessem recuperado os cadeirotes. Basta olhar para a cara da maioria dessa geração, iguais aos que desalojaram, mais liberaizitos, mas também de olhos moles: ouve-se logo crepitar a roupa interior enxovalhada. De quem haviam de gostar senão dos que faziam palavras prontas para balada?
Fui descobrindo outras razões para estar consigo ou ouvi-lo declarar extremos que eu também sentia. Num questionário do outro Proust, que divertia as minhas tardes de cervejaria, vi que respondia quando quiseram saber o que pensava da Literatura Portuguesa: Agustina Bessa Luís. Mais nada. Isso bastava-me, nesses anos já distantes em que ainda ninguém a queria transformar em possível herdeira do Torga, para me confirmar tudo. Saber caminhar entre os escolhos era uma arte que também eu andava a aprender.
Fui saindo do «pesadelo» da sua escrita a muito custo. Voltei atrás muito devagar, graças a grandes montes de papel rasgado. Primeiro riscava o que lhe fosse semelhante, voltava ao princípio, descobria que não ficava nada. Só quando me despedi de si, consegui perceber que podia tentar com as palavras sons e sentidos que fossem meus.
Não fui só eu, comecei a ver depois. Você é culpado de mais epígonos do que ninguém. Poucos se poderão sentir tão mal ao ler imensos que se lhe seguiram. Gente da minha idade, outros mais novos do que eu, devem a si nunca terem conseguido ser melhores. Também se não fossem de você, valha a verdade, seriam pigmeus de outro. Deve sentir, melhor do que ninguém, a praga que desencadeou à sua volta. Quase cada livro de um novo que surgia, e se ficava só por esse livro, de certeza que lhe causava a zanga de se sentir por lá.
A poesia portuguesa que se lhe seguiu só era interessante quando não estava colada a si. Nenhum poeta português do pós-guerra precisou tanto de se ver fugido. Leia muitos desses que aparecem por aí, entre o pós-surrealista e o pós-beatnik, leia mesmo os que fizeram poesia de comício à custa de banalização de imagens e processos seus e diga-me se não é assim.
Poucos podem ter a honra de ter mais inimigos do que você. Inimigos como eu, a considerá-lo um dos maiores, mas a fazer tudo por causa disso, por o combater naquilo que me leva à escrita. Aliás você é dos poucos que não anda atrás dos mais novos para lhes «sacar» o que de melhor vão conseguindo propor. Inimigos como outros, da geração que o antecedia, mais de raiva, ultrapassados pelo que você fazia, ou na bovina ignorância da sua escrita até terem acordado tarde demais (exceptuo alguns, dentre esses de quem já tenho tentado falar aqui). Inimigos como ainda outros, calados, dos que surgiram consigo nos inícios desses anos 60, ou dos que estavam já na sua linha de escrita, porque sentiam o vazio a fazer-se à volta dos seus pés. Muitos andavam de alma revirada. Eu era muito novo e podia observá-los com eles a julgarem-se impunes. Tinham entrado numa de poema curtinho, tudo bem escolhido e recatado, fácil de ser entendido na Outra Banda. Dizia-me uma delas, que depois deixou crescer os versos: «Tem demasiados violinos a entrarem por demasiadas janelas.» Veja lá o mal que faz aos ansiosos terem que fechar as janelas e, nessa falta de ar, ouvirem os ditos só na grafonola.
Quando penso no um ou dois poetas da minha geração, sei que eles são bons porque não se lhe assemelham, quase tanto como por possuírem uma veemência própria a reivindicar. Quando penso nos da sua geração, penso que são maus porque não atingiram o centro do tempo com a placidez do furacão em torno que você foi. Penso que, dos anos 60, só Ruy Belo pode competir consigo com o fôlego incomparável dos que ganham sem correr. Assim como penso que, dos livros que se seguiram à sua Colher na Boca, só Outro Nome de Gastão Cruz, poucos anos depois, e Crónica de João Miguel Fernandes Jorge, bastantes anos mais tarde, tocaram em algo de profundamente alterante e central entre os mais novos.
A maior homenagem que lhe quero prestar, porém, é esta: só consegui juntar verso para o ar livre quando soube, de certeza certa, que você não estava lá. Esse obscuro lugar, como você diria, tem percentagem de luta contra si. Ficou daí, talvez, esta barreira que nem a sangue sei como resolver: não sei falar de livros seus. Talvez seja esse susto de que falava ao princípio.
Por isso, sobre o seu Photomaton & Vox digo-lhe isto. E só acrescento uma certa surpresa por o ver referir americanos demasiado franceses, e ter lançado um piscar de olho cúmplice a um público fácil ao atirar-lhe com a Patti Smith. Mas que fará tal minúcia à grandeza persistente da sua deriva, isto é, da sua «deambulação»?
E já agora, em roca de algumas das suas magníficas histórias juntadas neste livro, deixe-me contar-lhe uma que li em Otto Jespersen. «Um camponês a quem o padre perguntou que significado tinha para ele a palavra felicidade e que respondeu: qualquer coisa dentro de um porco, mas não sei explicar melhor o que é.»
A moral é: no meio da miséria institucional que cerca a nossa cultura, da prostituição das editoras comerciais e das outras que só se dedicam às obras completas dos vendáveis, desses autores que lhes aceitam fazer o jogo, do desprezo a que a máquina política votou a difusão séria de obras mais significativas ou de autores mais novos para promover a mediocridade dos que se deixam enredar nas suas teias partidárias dominantes — no meio desse «porco» que é o nosso mercado cultural, a maioria das nossas editoras, os programas literários, a «felicidade» é que possam ainda, aqui um, além outro, aparecer livros como o seu. E que existam figuras de recusa exemplar como a sua é.
Joaquim Manuel Magalhães, in Os Dois Crepúsculos - sobre poesia portuguesa actual e outras crónicas, A Regra do Jogo, Julho de 1981, pp. 129-133.
segunda-feira, 23 de março de 2015
domingo, 22 de março de 2015
canção para uma andorinha escoteira
Esta canção é para ti, andorinha escoteira, que vieste inesperadamente pousar no peitoril molhado da janela. Para ti, friorenta e assustada, que és o anúncio precoce da Primavera escondida sob as dobras espessas da chuva. Canto o temporal nocturno que te revelou aos meus olhos, solitária e esquiva, enquanto te ofereço o coração florido de estranhas esperanças.
No líquido negrume, quase senti a tua fome de calor e abrigo. Só tenho para dar-te as mãos em concha e a certeza de compreender o apelo misterioso que te trouxe de terras soalheiras à cidade vestida de silêncio e de bruma. Não vieste enganada, como diriam os práticos que nada sabem das coisas, como tu, aladas e inquietas; vieste porque, talvez, um menino doente esperasse por ti para morrer tranquilo. Ou uma rosa temporã fiasse do teu regresso alacre a ordem soberana para desabrochar em cor. Vieste, andorinha, talvez porque um poeta olhava tristemente a lonjura da noite e aguardava a palavra, secreta e inviolável, inscrita na elegância do teu voo.
Que importam os barómetros, relógios, calendários?
Agradeço-te por mim, pelo menino, pela rosa temporâ desabrochada. Requeriam-te e vieste: por isso te agradeço, por isso celebro, cantando, a tua vinda inesperada.
Bem-vinda sejas, andorinha! Bem-vinda sejas! Pelo menino e pela rosa, pela cidade e por mim, ergo no ar esta canção que é para ti - para ti, friorenta e inquieta, nesga de céu estrelado entre nuvens de chumbo e temporal.
Daniel Filipe, in Discurso sobre a cidade - crónicas, Editorial Presença, colecção forma, n.º 8, Setembro de 1977, pp. 50-51.
sexta-feira, 20 de março de 2015
MARÇO
As consequências de muitos acontecimentos e o ressaibo
da canção que evitámos trautear, os becos que ladeámos
e podia ser lá, as horas dobradas que se enroscaram
na insónia até descobrirmos, em desespero,
que fumámos o último cigarro, vão deflagrar em Março,
quando as manhãs se tornarem quentes, uma razia
de maravilhas tão inesperadas, que a precessão poderá
azedar-nos a alma. Esperem para ver — se dois transeuntes de repente,
se contorcerem numa esquina, com as têmporas a escaldar
e pombos treparem pelo céu acima até queimarem
as asas, mesmo que tenham muito frio é dos corações
empedernidos, pois mintam os vossos calendários
o que mentirem, Março chegou. Na cidade,
condenada à alucinação dos ácidos, talvez simule
uma esperança ténue. Um cão correu-a de uma
ponta à outra, temendo começar a ganir. Espíritos
mais inquietos regressaram fascinados
pela irrealidade da luz, pela sedução do afastamento
e apenas por ser demais. Antes que caiam
nas valetas é certo que todos os acontecimentos
não vão ter consequências, que todos os estados mórbidos
são apenas um tendão que se finca no osso, o tédio até
dará vontade de rir tão evidente, descobre-se a paz
de odiar os outros e Março chegou. Os poentes são tão doces,
que se desejaria viver como se não acabassem e por uma vez,
em espanto tal submersa, que haveremos de preferir supor
que esquecemos, escrevêmo-los em cartas para um tenente francês.
José Alberto Oliveira (n. 1952), in O Que Vai Acontecer? (1997). Poeta tardio, estreou-se em livro com Por Alguns Dias (1992). Antes, havia sido revelado no Anuário de Poesia (1984) da editora Assírio & Alvim e no volume colectivo O Roubo da Fala (1982) - com Manuel Afonso Costa e António Paisana. «É interessante confrontar os poemas de José Alberto Oliveira com os dos poetas revelados nos anos 70 e 80 (gerações afins da sua). O exercício permite algumas conclusões como, por exemplo, a de que a sua escrita, vinculada quase sempre ao leitmotiv do regresso à narratividade (e ao fôlego expressionista, pese embora, mesmo entre poemas de uma sequência, a acentuada variação da intensidade do seu registo), nem por isso se afasta do apuro formalista que era timbre dos sixties» (Eduardo Pitta, in Colóquio/Letras). «Uma voz para quem falar é também esconjurar uma dor, um receio, certa nostalgia e que se serve da ironia como espelho do humano, onde se reflectem debilidades e certezas» (Carlos Bessa, in Expresso).
COFRES CHEIOS
A actual ministra das finanças ensaiou o seu tom mais pedagógico
para se dirigir a uma plateia de jovens, ai os jovens, com o seguinte apelo:
multipliquem-se. Quem não tenha assistido às imagens, poderá pensar que o
conseguiu fazer sem se rir. Mas riu. E se cometermos a maldade de parar a
imagem naquele sorriso encontraremos, sem margem para dúvidas, a face do diabo.
O governo começou por sugerir aos mais novos que procurassem soluções para a
vida noutros países, disse-lhes que emigrassem sem o mínimo de pejo ou um pingo
de sensibilidade. Acedendo ao convite, os jovens fizeram aquilo que as estatísticas
não desmentem. São mais os portugueses que partem do que aqueles que nascem. Perante
tal sangria, veio um secretário não sei de quê anunciar um programa de estímulo
ao regresso. O vem é agora reforçado pelo multipliquem-se da
ministra das finanças. Pois bem, antes que se venham e comecem a oferecer ao
mundo criancinhas a rodos, deixem-me que vos mostre o saldo da minha conta
corrente ao dia 20 de mês de Março: €35. É isto que vos espera, futuros pais e
futuras mães de países com listas de contribuintes vip e primeiros-ministros
ora detidos preventivamente, ora ilibados de dívidas ao fisco por esquecimento.
Não vos esqueceis vós, ó jovens, de juntar ao ramalhete um presidente da república
cuja catatonia se manifesta em beneficiar o infractor reiteradamente. Lembrem-se
que de cada vez que forem a um restaurante comer uma sopa, 23% do que pagam vai
directamente para os cofres do estado. Façam bem as contas antes de se virem.
Se calhar, sai mais barato o investimento em contraceptivos. Atentem-se aos
impostos directos e indirectos que vos sugarão salários miseráveis,
deixando-vos dependentes e fragilizados num território onde patrões pensam como
chefes e chefes como banqueiros cuja avidez eleva a valor sagrado a saúde dos
mercados, ou seja, das contas bancárias de quem manda. Porque quem trabalha o
mais que pode esperar é um saldo de €35 ao dia 20 do mês de Março, ou nem isso,
ou pouco mais do que isso. Orientem-se antes de se multiplicarem, porque à
vossa multiplicação corresponderá apenas o tesão de uma ministra que enche a
boca com os cofres cheios do estado enquanto os secretários dos secretários
fazem pela vida a vir-se com briefings e industriosas ideias congéneres.
quinta-feira, 19 de março de 2015
A MELHOR E A PIOR GARANTIA
Há efemérides que não fazem sentido algum, o dia do pai é
uma delas. Isto porque o pai não é em si mesmo um valor absoluto. Em dias
destes, como no dia da mãe ou no dia dos namorados, entre outros dias com
objectivos meramente comerciais, penso nas pessoas abandonadas pelos pais,
naquelas que aguentaram pais violentos, nos pais que mataram as suas mulheres e
deixaram os filhos para contar a história. Penso também no Édipo Rei de Sófocles
e na leitura freudiana da tragédia, simplificada por Jim Morrison nos versos de
The End: «Father? / Yes, son? / I want to kill you. / Mother, I want to…» O que
sentirão os tristes solitários que nunca tiveram namorado ou namorada no dia dos namorados? O que sentirão os filhos sem pai? O que lhes passará pela
cabeça? A maioria das pessoas simplesmente passa por cima disto como passa por
cima de tudo o que fira e magoe, mas a realidade é esta: ser pai não é, em si
mesmo, um valor absoluto. É um valor relativo que nenhuma fotografia de
momentos afectuosos consagra. Penso em René Crevel (n. 1900 – m. 1935), que aos
catorze anos de idade foi obrigado pela mãe a ver o pai enforcado. Sei de
pessoas cujos pais se mataram ou se deixaram morrer lentamente, vítimas de
doenças terminais como, por exemplo, depressões profundas. Sim, depressões
profundas. Deixem-me por um dia chamar-lhes doenças terminais, mortes lentas e
dolorosas, doenças prolongadas com seus mártires torturados. O próprio Crevel
foi uma dessas pessoas, acabou por se suicidar, a 18 de Junho de 1935, «fechando
a porta, fechando a janela e abrindo a torneira do gás. Ao forro do casaco
prendeu o bilhete destinado a marca derradeira do seu negro humor: Nojo,
pede-se o favor de incinerar» (Aníbal Fernandes). A imagem pode ser violenta,
mas a vida não o é menos. Não o deixei de fora dos meus suicidas por
esquecimento, mas porque ele quis fica só. E ficando só torna-se uma das
presenças mais fortes. Cito-o hoje, no dia do pai:
Por causa de um
suicídio a que me foi dado assistir, com um autor-actor que então era o ser
mais querido e que mais me acudia ao coração, desse suicídio que mais fez — à minha formação e à minha deformação — do
que qualquer outra tentativa posterior de amor ou ódio, senti desde o fim da
minha infância que o homem facilitador da sua própria morte é o instrumento de
uma força maiúscula (chamai-lhe Deus ou Natureza), que ao pôr-nos no meio das
mediocridades terrestres arrasta na sua trajectória, e para mais longe do que
este globo de expectativa, os únicos corajosos que nele existem.
Suicidamo-nos por
amor, por medo, por causa da sífilis, ao que se diz. Não é verdade. Toda a
gente ama ou julga amar, toda a gente tem medo, toda a gente é mais ou menos
sifilítica.
Mas por que não
posso, na verdade, ver no suicídio um meio de selecção?
Só se suicidam os
que não têm a quase universal cobardia de lutar contra esta já referida e tão
intensa sensação de alma que até nova ordem seremos obrigados a tomar por uma
sensação de verdade.
Não é verosímil que
nenhum amor, nenhum ódio sejam justos nem definitivos. No entanto, apesar de eu
ter tido uma educação moral e religiosa despótica, a estima que muito contra
vontade minha sou forçado a manter por qualquer pessoa que não tenha sentido medo nem limitado o seu
impulso, o impulso mortal, leva-me todos os dias a invejar ainda mais os que
sentiram uma angústia forte, ao ponto de não poderem continuar a aceitar os
divertimentos episódicos.
Os êxitos humanos são
moeda falsa, pura fancaria. Se a felicidade terrestre nos permite ter paciência,
fá-lo negativamente, à maneira de um soporífero. A vida que aceito é o mais
terrível argumento contra mim próprio. A morte que várias vezes me tentou
ultrapassava em beleza esse medo de morrer, na sua essência uma gíria, e ao
qual poderia também chamar tímido hábito.
Eu quis abrir a
porta e não me atrevi a fazê-lo. Não tive razão, sinto-o, acredito-o, quero
senti-lo, acreditá-lo; mas porque não encontrei nenhuma solução na vida, apesar
do meu esforço a procurá-la, teria força para fazer algumas tentativas se não
vislumbrasse no gesto definitivo, último, a solução?
Aliás, a obsessão
do suicídio permanecerá em mim, sem dúvida, como a melhor e a pior garantia
contra o suicídio.
René Crevel, in O Meu Corpo e Eu, tradução e apresentação de
Aníbal Fernandes, Sistema Solar, Outubro de 2014, pp. 79-80.
quarta-feira, 18 de março de 2015
BOFETADA
A bofetada era recorrente no azedume dos surrealistas franceses, central no seu código dos gestos correctores. Poder-se-ia escrever todo um texto sobre as bofetadas surrealistas coleccionando motivos e ocasiões em que A esbofeteou B, e B esbofeteou C. (Uma, tardia porque do Surrealismo do pós-guerra e já distante do seu período mais interventor, deu-a Breton à escritora Rachilde.)
Aníbal Fernandes, in A Dez Vozes, apresentação de O Meu Corpo e Eu, de René Crevel, Sistema Solar, Outubro de 2014, pp. 11-12.
SMELLS LIKE VIP SPIRIT
E isto, Cavaco, cheira a quê? Ao mofo dos arquivos da presidência? E já agora:
A fazer fé nas declarações ao “Público”, Passos Coelho teve
conhecimento da dívida em 2012. Segundo o próprio, não efectuou o pagamento de
imediato mas tencionaria fazê-lo assim que deixasse de ser primeiro-ministro –
considerando que não pensará perder as próximas eleições –, em 2019, vinte anos
depois de a contrair.
Entretanto o “Expresso” revelou mais informações sobre este
caso, designadamente, a cópia de extractos de conta que alertam para uma dívida
de 7534,82 €, contraída entre 1999 e 2004, aos quais teria tido acesso em 2012.
Escreve o jornal que, à época, recebeu do primeiro-ministro uma declaração de
não dívida emitida a 26-11-2012. Esta declaração bastou para que o “Expresso”
decidisse esquecer o assunto. Recordemos o que se passava em Portugal.
A 7 de Setembro de 2012 Pedro Passos Coelho anuncia o
aumento da TSU, a 15 há gigantescas manifestações contra a troika por todo o
país. A 21, dezenas de milhar de pessoas juntam--se à porta do Conselho de
Estado para exigir a demissão do governo e a 29 a CGTP enche o Terreiro do
Paço. A 13 de Outubro chega a Lisboa a marcha nacional da CGTP e acontece uma
manifestação cultural de protesto e a 26 há mais manifestações contra a
aprovação do OE2013. A 12 de Novembro há desfiles contra a presença de Merkel e
a 14 uma impressionante greve geral.
Sabe-se agora que, no decorrer destes dias, um jornal
detinha uma informação que teria derrubado a imagem de um primeiro-ministro
moralista, cumpridor e zeloso pagador de dívidas. O “Expresso” tomou a decisão
política de esquecer o assunto e Pedro Passos Coelho terá tido garantias que a
notícia não sairia. Só em 2015, quando percebeu que o escândalo ia rebentar nas
páginas do “Público”, se apressou a pagar a sua dívida à Segurança Social. Tiago Mota Saraiva, aqui.
PARA QUÊ?
Para quê todo este pranto que deixas cair
sobre os meus lenços de cambraia?
De onde vens?
Do reino do Senhor,
dos jardins fechados na bruma,
onde não rasgamos as nuvens com os arados da
nossa dor.
Por quem dobram os sinos nos templos desta
vida,
entoando a sua música de pesado timbre que
ecoa na alma,
porquê esta chuva que bate nos vidros,
nas janelas de uma cidade que não posso ver,
que não quero lembrar,
porquê o ofício de quem implora às tardes que
não se afastem,
para quê os sonhos que sonhámos em camas
desfeitas onde deixámos à deriva,
sem leme, sem âncora,
o corpo que não tem fulgor,
e nos viram partir depois,
preparados para a ausência e para a morte,
para quê estes gladíolos sobre a mesa onde
escrevemos todas as palavras dos condenados,
todas as formas de pedir perdão,
de dizer adeus,
para quê um último pensamento de
madrugadas frias,
de deslumbrantes cristais,
de estradas que sobrem para a exaltação dos
astros,
para quê esta canção de cinzas que alguém
atirou ao mar,
com o nome dos amigos por dentro,
com o seu lamento que nos traz o vento,
para quê o verso que fulmina o coração com a
febre dos seus raios,
dos seus relâmpagos mortais,
com o tumulto das terríveis paisagens do
ar,
para quê este ar que respiramos ao abrir as
portas dos salões de fumo e jasmim,
para quê o incenso,
o ópio,
as coisas que ardem como ardem os archotes nas
escarpas da nossa idade,
para quê o tesouro oculto,
a muralha cercada,
as celas com grades de aço temperado nas forjas da
saudade,
o sorriso da primeira infância, devastada pelos
vendavais,
para quê os lírios quebrados,
a mágoa das mães paradas no silêncio dos
quintais,
para quê tudo o que digo como se pedisse perdão?
José Agostinho Baptista (n. 1948), in Esta Voz é Quase o Vento (2004). «Com raízes fundas na poesia anglo-saxónica, uma reflexão imagética próxima da poesia das tradições índias, a vaga sugestão de tom orientalizante, Agostinho Baptista é uma das poucas vozes na poesia portuguesa actual que entendem a poesia como convocação, liturgia recriadora da memória, diálogo com o centro essencial e invisível do homem. Que a entendem como religação a uma natureza primacial e adormecida, mistério, sangue e inquietação» (Pedro Sena-Lino, Público, 8 de Outubro de 2005). «Numa poesia que se gera no movimento e na rejeição do real "os lugares são lugares de passagem e as figuras são figuras de passagem". As figuras femininas "que têm surgido ao longo dos livros são seres ambíguos, até porque são pouco definidos enquanto sexo". Surgem "da mesma forma que surgem os lugares: nunca têm contornos muito definidos". / Novo movimento (aparentemente) contraditório: a poesia oculta, mas isso não implica na sua feitura a vitória da (perdoem-nos a expressão) "cerebralidade": ao contrário, a poesia "aconteceu sempre dessa forma muito torrencial", é algo "que brota e brota sem qualquer programa prévio"» (João Bonifácio, Público, 1 de Julho de 2006).
LISTAS
Há pessoas que são viciadas em listas. Fazem listas de tudo,
listas dos livros que leram, dos filmes que viram, dos discos que ouviram. Ou
do que têm e do que pretendem ter. Outras, mais minuciosas, fazem listas
redondas, geralmente de 10, 50 ou 100 dos melhores livros que leram, dos
melhores filmes que viram, dos melhores concertos a que assistiram. Eu gosto de
listas, mas não sou viciado. As listas ajudam-me a organizar a memória, têm
também uma função selectiva que me parece útil. Raramente respeito os
pressupostos das listas que inicio, como nesta lista dos westerns que deve verantes de morrer. Eram para ser 50, mas dei-lhe continuidade. O trabalho de ter
que escolher apenas 50 tornava a lista cansativa, roubando-lhe a sua principal função: ser um
divertimento. Quando era miúdo acontecia-me o mesmo com as colecções, fazia colecção
de tudo sem fazer colecção de nada. Começava colecções umas por cima das
outras. As listas estão na moda, as listas vip, a lista swissleaks, a lista de
pedófilos… Sobre esta, muito se tem dito de acertado: é um atentado ao estado
de direito, conceito vago na cabeça dos actuais governantes, que
convida à justiça popular. Esta lista de pedófilos faz-me lembrar a estrela que
os nazis colocavam no peito dos judeus, um estigma que diminuía as pessoas
socialmente fazendo delas cidadãos de segunda. Trata-se de uma mentalidade
muito popular que não custa perceber, as massas actuam movidas por emoções, a
razão dos seus comportamentos é ínfima. É difícil ser-se homem em comunidade, a
comunidade transforma-nos em animais que agem por repetição, cópia, em
catadupa. As empresas também fazem as suas listas. Na empresa onde trabalho há
agora uma lista de incumpridores, ideia estapafúrdica por certo germinada na cabeça de
um qualquer professor primário do antigo regime que senta a um canto da sala, com
orelhas de burro, o aluno faltoso. É óbvio que nessa lista de incumpridores só
aparecem as galinhas na base do galinheiro, aquelas que passam a vida a limpar
da testa a merda que os galos e as galinhas do poleiro vão fazendo. Nessas
listas de incumpridores jamais constarão elementos da direcção comercial ou dos
departamentos centrais, porque esses não falham e cumprem escrupulosamente as suas
funções. Nas hierarquias do poder quem manda é sempre perfeito, só falha quem
obedece. Julgava eu que esta mentalidade, muito em voga nos dias que correm,
estava obsoleta. Infelizmente não é assim, continuamos entregues a pessoas cuja
mentalidade social equivale à de um gorila no seio do seu grupo. As
listas de pedófilos resultam disso mesmo, de uma vontade de excluir mais do que
de integrar, de censurar mais do que educar, de punir mais do que de tratar, são
uma marcha-atrás civilizacional que nos há-de levar ao tempo da caça às bruxas.
A dúvida que se impõe é: por que não ir mais longe na obsessão das listas
fazendo listas de cidadãos tóxicos, faltosos, listas de políticos
corruptos que os marcassem para a vida. Espetávamos com um letreiro na testa do actual Primeiro-ministro: mentiu, não pagou impostos, viveu de ajudas de custo. A
actual ministra da justiça, a ministra do caos, a ministra que ainda há pouco
pedia desculpas à nação pelas precipitações reformistas, a ministra que dizia
ter-se acabado o tempo da impunidade, não pode ficar impune a tal ideia. Como já
outros disseram, ao primeiro crime de justiça popular que ocorra na sequência
dessas listas estigmatizantes ela tem que sentar-se no banco dos réus. Sabemos
que isto nunca irá acontecer, porque neste país nunca um político se sentou ou
sentará no banco dos réus por medidas criminosas que tenha implementado. Não só são impunes, como irresponsáveis. São inimputáveis. Também
não admira que assim seja com um tecido social medíocre como o nosso, o qual se
revela estrondosamente nas audiências da televisão, nos tops das livrarias, nos
interesses partilhados em redes sociais, na demissão dos deveres cívicos que os
próprios políticos eleitos pelo povo promovem com os seus esquecimentos e
baixas atitudes.
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