terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

MALDITO INVERNO

Ah, como gostava de escrever coisas altamente polémicas. Penso, penso, penso, mas nada sai de altamente polémico. Se eu fosse altamente polémico, ah, como eu seria realizado. Assim, neste estertor de banalidades rasteiras, o mais que consigo é ser vulgar, um trapo esquecido numa gaveta quase vazia. Ninguém gosta de mim, ninguém me debate nem partilha, ninguém me desamiga para que eu possa dizer coisas ainda mais polémicas do que as coisas que não digo. Um dicionário inteiro para todo este silêncio. Nada em mim suscita controvérsia, serei esquecido ainda antes de me esquecerem e queira deus que morra ainda antes de morrer se morto não estou já. Um pensamento todo ele composto por ossadas, nada que vivo possa ser executado. Tudo pó sobre pó e uma alergia intratável aos ácaros. Atchim. Ah, como eu sonho com ruído à minha volta, um foguetório de impropérios e insultos. O mais que almejo é isto, um nariz a fungar com pingo na ponta, falta de ar, dores nas costas. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

[ESPERA]

 


Esperarei sem ter fim na espera
mesmo que tudo desmorone
e o meu corpo não seja mais do que poeira
em torno de uma cadeira vazia

Mesmo que os rios deixem de correr
e as nuvens sequem no céu despejado
de deuses e de trovões
eu permanecerei entre paredes

à espera de que algo ou alguém se aproxime
e me acorde do torpor em que caí
desde que comecei a esperar
não sei se por mim
não sei se por ti

domingo, 26 de fevereiro de 2023

DEBAIXO DE FOGO

 


Uma mãe procura o filho
debaixo de fogo
 
Sobre ela as chamas
dos projécteis cruzados
iluminam a noite escura
 
Debaixo de fogo
ela busca o filho perdido
 
 
Um filho procura o pai
debaixo de fogo
 
Sobre ele as chamas
dos projécteis cruzados
iluminam a noite sombria
 
Debaixo de fogo
ele busca o pai perdido
 
 
Um pai procura a mãe
debaixo de fogo
 
Sobre si as chamas
dos projécteis cruzados
iluminam a noite obscura
 
Debaixo de fogo
ele busca a mãe perdida
 
 
Debaixo de fogo
a cinza encontra-os a todos
para sempre perdidos
uns dos outros
 
Debaixo de fogo
as sombras
as cinzas
 
Nota: imagem captado durante um ensaio de "Ajax Regresso(s)", de Jean-Pierre Sarrazac, que estreará dia 16 de Março no Teatro da Rainha com encenação de Fernando Mora Ramos. O texto foi escrito a 23 de Fevereiro, depois de, no mesmo dia, ter visto o documentário "As sombras de Mariupol" e revisto o filme "Quo Vadis, Aida?", de Jasmila Žbanić.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

OLIVENÇA É NOSSA

 
Quitéria acha que a OTAN devia apoiar o Movimento Patriótico Pró-Olivença. "Pela libertação de Olivença, pela devolução da Olivença roubada aos portugueses, contra o invasor espanhol, marchar, marchar." Diz ela.

PESADELO ERÓTICO

 
Esta noite sonhei que a Zita Seabra andava com o José Milhazes. Ela lambuzava-se num corneto de morango, ele enterrava os dedos em latas de caviar bielorrusso. Acordei num sobressalto, com suores frios e uma forte indisposição. Preocupada com a agitação, a Ana perguntou-me o que se passava. Respondi-lhe muito atrapalhado que acabara de experimentar um pesadelo erótico, variante que nunca me passara pela cabeça ser possível. Terá Freud estudado tamanha disrupção do erotismo onírico?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

POPULARUCHO & POPULAR

Quando digo que “Fifty Shades of Grey” é um livro vulgar, desinteressante, estupidificante, um produto meramente comercial cujo principal interesse nada tem que ver com literatura, cultura, arte, não o faço na base de preconceitos. Digo-o porque li vários livros que são exactamente o oposto. Preconceito é partir-se do princípio de que a exigência, o rigor, a cultura da qualidade são elitistas e preconceituosos, princípio que assenta numa confusão muito comum entre popular e popularucho. O popularucho tem o valor da pastilha elástica, é mero entretenimento para consumir e deitar fora. O popular é outra coisa. Um exemplo fácil de perceber, suponho, é este: o Emanuel do pimba faz música popularucha, a música do Zeca era música popular. O segundo será ouvido, reinterpretado, estudado, pensado, copiado, durante décadas e mias décadas. O primeiro rapidamente será esquecido. Bem sabemos que o povo gosta muito do popularucho, pois o povo gosta do que lhe dão, seja o Big Brother, a Feira das Tasquinhas ou pornografia, o povo abranda a marcha para espreitar o acidente, o povo vê “Quem quer casar com o agricultor”. Mas há uma coisa que se chama serviço público e está para lá do que o povo papa se lho derem a papar, é uma coisa muito simples chamada compromisso, a obrigação de quem dá em dar o melhor, o dever de fazer chegar ao povo, às pessoas, aquilo que não será esquecido, aquilo que contribuirá para o debate, a reflexão e essa coisa raríssima, mas maravilhosa, a que podemos chamar alegria do pensamento. Lembrei-me hoje destas coisas porque vivemos um período tão estranho que a hegemonia do sensacionalismo, do popularucho, do entretenimento mais desprovido de pensamento, leva à espectacularização do sentimento em todos os domínios da nossa vida. E isso reflecte-se, por exemplo, em coisas tão simples como essa de vulgarizarmos a destruição provocada pela guerra, banalizarmos a violência e a crueldade com a sua exibição constante, a ponto de já tudo nos ser indiferente. Que haja jovens a filmar cenas de bullying para as exibir nas redes sociais não me admira, pois se os adultos que os geram e são responsáveis pela sua educação insistem em render-se ao popularucho sem se esforçarem minimamente para elevarem cada vez mais o nível do popular.

BALADA DA BÓSNIA

 


 

Enquanto te serves de um uísque,
esmagas uma barata, olhas para o relógio,
enquanto compões a gravata,
há pessoas a morrer.
 
Em cidades com nomes curiosos,
atingidas por balas, apanhadas pelas chamas,
em regra sem saberem porquê,
as pessoas morrem.
 
Em pequenas localidades desconhecidas,
porém vastas, que não deixam hipótese
de gritar ou dizer adeus,
há pessoas a morrer.
 
As pessoas morrem enquanto eleges
novos apóstolos da incúria,
do autodomínio, etc. — pelos quais
as pessoas morrem.
 
Demasiado longe para o amor
pelo vizinho/irmão eslavo,
onde os querubins temem voar,
há pessoas a morrer.
 
Enquanto observas a pontuação dos atletas,
verificas o último extracto, ou
cantas uma canção de embalar ao teu filho,
há pessoas a morrer.
 
O tempo, cuja cortante sede de sangue separa
os mortos daqueles que matam,
anunciará a tribo derradeira
como o teu grupo sanguíneo.
 
Joseph Brodsky
 
Versão de HMBF, a partir de “American War Poetry”, Columbia University Press, 2006, pp. 340-341.

9 ANOS

 
«Senti que a guerra começou quando a Ucrânia bombardeou o Donbass em Maio de 2014. Na altura, a comunidade internacional não quis saber de nós para nada.»
Professora de ucraniano no Donbass, ouvido na Antena 1.
 
A guerra não começou há 1 ano, o que começou há 1 ano foi a invasão da Ucrânia pela Federação Russa. A narrativa de que a guerra começou há 1 ano é mais uma forma de branquear o que se passa naquela região há 9 anos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

MISSIVA

 
Estimados senhores jornalistas, esta guerra é muito má, esta guerra é horrível, esta guerra é mesmo do pior que pode haver, mas não digam, por favor, que é a maior na Europa depois da Segunda Grande Guerra. Pelo meio houve a Bósnia, não foi assim há muito tempo para que seja esquecida como se não tivesse acontecido. Os melhores cumprimentos, Henrique Manuel Bento Fialho.

CORAGEM

 
Hoje falou-se de coragem no Jornal da Noite. A SIC mantém há 1 ano, num dos espaços que devia ser dos mais nobres da informação portuguesa, dois comentadores a entreter os telespectadores com anedotas sobre uma guerra onde morrem diariamente mulheres, crianças, idosos. Hospitais e teatros destruídos, valas comuns, e Milhazes e Rogeiro brindam o público diariamente com momentos de humor, precedidos invariavelmente do desculpabilizador "se não fosse trágico, teria graça". Depois mostram e riem, sorriem, enquanto os ucranianos continuam a enterrar e desenterrar mortos. É isto a guerra agora, uma comédia em pleno Jornal da Noite. E falam estes pulhas de coragem. Cuspo-lhes na cara, nojentos.

ESTÁTUAS NA PRAÇA

 


   “Estátuas na Praça” (Apuro Edições, Setembro de 2022) é o quinto livro de poesia de João Habitualmente, pseudónimo literário do psicólogo Luís Fernandes (Porto, 1961), autor de um ensaio, “As Lentas Lições do Corpo” (Contraponto, 2021), que nos desafia a pensar relações possíveis entre a linguagem poética e domínios geralmente reservados ao discurso científico. Lá iremos. Por ora, são estas “estátuas” o centro da nossa atenção.
   Não deixemos passar despercebida a apresentação constante na primeira badana do livro. Diz assim, acerca do autor em causa: «Um poeta lento em tempos de fast food e de fast thinking; um poeta que ri em tempos de distopias; um poeta que sofre em tempos de frivolidade à solta nas redes. A poesia não salva — não salva nem vende. Mas é preciso continuar a fazê-la, é preciso continuar a gritá-la.» Nestas palavras simples vislumbramos um manifesto a favor da poesia contra a voragem característica das sociedades consumistas e aparatosas (as do espectáculo). O poético enquanto oposição ao frívolo, ao efémero, ao descartável, pela defesa de uma lentidão que é a da acção pensada, ao contrário da acção imediata e irreflectida promovida por ritmos existenciais hiperacelerados que as redes sociais vieram incrementar.
   Há uma tomada de posição nesta narrativa que poderá parecer paradoxal a alguns leitores de João Habitualmente, sobretudo àqueles que desprevenidamente se deixam encantar pela aparente superficialidade de uma linguagem atreita ao riso, ao humor, à ironia, à sátira, ao irrisório, dimensões facilmente confundíveis com ligeireza e com o óbvio. Acontece que esta é desde o início uma poesia de subtilezas e de paradoxos, como bem detectou António Guerreiro ao escrever sobre ela aquando da publicação de “Os Animais Antigos”: «é urbana, ainda que privilegiando os motivos rurais» (Expresso, 22 de Abril de 2006). “Saudável bucolismo”, o título da recensão de Guerreiro, era, porém, lacónico e induzia em erro por associar esta poesia ao bucolismo. Dos três conjuntos que compõem “Estátuas na Praça”, destacaria o verso inicial do poema “A Minha Rua de Cartão” como desmentido desse “saudável bucolismo”: «Gosto da cidade, é o sítio onde toda a gente passa. (p. 61).
   Esta é antes uma poesia que se presta a equívocos, lúdica na linha de um O’Neill, até pelas contradições a que não foge e explora convenientemente. Comparem-se os poemas “Mosaico”, de “Os Animais Antigos”, e “Palavras Próprias para Poemas”, do livro mais recente. No primeiro, diz João Habitualmente: «Basta de palavras como pássaro, orvalho ou madrugada / basta de cartas de amor.» No segundo, por outro lado, afirma: «Só gosto de certas palavras / Por exemplo ave / no poema // Fora disso prefiro outras / Por exemplo pássaro.» O que está em causa, antes de mais, é a certeza e o axioma enquanto material poético. Para ser autêntica, a poesia tem inevitavelmente de entrar em contradição consigo mesma. Não se trata tanto de um postulado como de uma percepção que advém do modo como entendemos o diálogo entre razão e emoção que está na fundação do discurso poético.
    Três conjuntos, separados por dois poemas soltos, constituem então o presente volume. No primeiro, intitulado “Circulação da Seiva”, deparamos com versos de um erotismo multicelular, ou seja, assaz diversificado na origem e no propósito. É o corpo enquanto tópico, o corpo desejante e sexuado, «infindo ir e vir / entre a filosofia e a carne» (p. 11), a matéria moldável dos versos. “Sal no Sol”, o segundo conjunto, colige maioritariamente poemas em prosa ou próximos disso. Micronarrativas, se preferirem. O verso alarga-se à prosa dos dias correntes, quotidianos, sem se desviar por um momento da dimensão lúdica das palavras. Há quatro poemas em verso — “Meteorologia”, “Anatomia”, “Biologia”, “Matemática” — que são um belo exemplo desse lugar de confluência entre o poético e o científico na obra de João Habitualmente. Por fim, no conjunto denominado “Faróis na Duna” somos encaminhados para o campo da arte poética. A palavra farol envia-nos para o poema de Baudelaire dedicado aos guias da sua arte, mas nada está explícito no livro sobre o facto de assim ser. De resto, se há algo que me agrada nesta poesia é o seu comedimento referencial. Tudo nela se subentende, nada se explícita, ficando em aberto o campo de possibilidades que permite ao leitor imaginar para lá do que está escrito. É a vantagem da distância:
 
DISTÂNCIA
 
Cansei-me das pequenas glórias.
A minha glória é o sol
a haste em riste
 
duma flor
 
Cansei-me de me dizerem quem sou.
Sou este
no chão descalço
a nada mais aspiro
do que à distância
 
lugares longe
num para lá tão afastado
que não haja
o que a silhueta fátua e o
aplauso
me andaram a roubar
 
João Habitualmente, in “Estátuas na Praça”, Apuro Edições, Setembro de 2022, p. 56.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

BELA SEM SENÃO

 
Deixei de ver o Jornal da Noite e passei a ver o Telejornal. Sinto-me como quando Marcelo se seguiu a Cavaco. Este fora tão mau que o outro até parecia bom.

TOUPEIRA

 

O antigo assessor jurídico do Benfica Paulo Gonçalves foi esta quarta-feira condenado a dois anos e seis meses de prisão, com pena suspensa, por um crime de corrupção ativa, no âmbito do processo E-toupeira.

O que é uma pena suspensa? É ser preso para andar à solta. No fundo, é uma espécie de matrimónio. Portanto, parabéns ao senhor Gonçalves. Votos de felicidades no casamento.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

FEIRA DO LIVRA-TE

 
Esta noite sonhei com uma feira do livro ao rubro, a maior de sempre em stands, eventos, espaço e tempo. Eram só acontecimentos, essas coisas que passam com água oxigenada e mercúrio. Entre os mais disputados, um livro da Maria do Rosário Pedreira apresentado pela Joana Emídio Marques, uma conversa sobre zeladores de Deus com João Pedro George e Richard Zenith, uma entrevista a Diogo Vaz Pinto por Carlos Vaz Marques, um debate sobre pedofilia na Igreja com José Tolentino Mendonça, Manuel Clemente e Padre Frederico, moderado por Bibi, momentos de entretenimento por José Milhazes e Nuno Rogeiro, animação garantida pelos convidados de honra José Rodrigues dos Santos (que fez um número com as orelhas e olhos a piscar) e Rodrigo Guedes de Carvalho (especialista em sermões moralistas). Clara de Sousa servia bolinhos, Cristina Ferreira dava aulas de inglês aos patos. E olhem que eles aprendiam, em vez de quá-quá diziam quack quack. Também havia uma barraca de farturas do rei Zênite Zandavalli. O José Dias de Souza andava por lá, na companhia da Menina Odete e do Guilherme Von Pepper a apanhar caracóis. Mas nada superou as competitivas sessões de autógrafos de Ricardo Araújo Pereira versus André Ventura. Quem dava mais? O livro mais vendido foi mesmo "Um cagalhão na tola", do Prof. Herrero.

CORO DOS INDIGNADOS

 
Na sequência do terramoto na Síria, Israel bombardeou Damasco. O Público diz que o ataque matou pelo menos 5 pessoas, a CNN fala em pelo menos 15 mortos. Sentem o coro dos indignados?

CULTURA DO CANCELAMENTO

 
Também os livros do Roald Dahl não escaparam à ira dos teólogos da linguagem inclusiva. Estão a ser reescritos para proteger as crianças da má influência do chocolate. Preparem-se, em breve teremos uma "Ilíada" revista pela Associação de Coninhas e uma "Bíblia" totalmente reescrita pelos zeladores da linguagem neutra. Camões bem pode perder o olho que lhe resta lá onde estiver, nem "Os Lusíadas" escaparão aos parabolanos filhos da pessoa lactante.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

NÁUFRAGO

 
Conhecem a história daquela pessoa que, não fosse afogar-se, atirou-se à água? Não? É assim: era uma vez uma pessoa que ia num barquinho. O barquinho começou a meter água. Com medo de que o barquinho afundasse, a pessoa atirou-se à água. Espero que tenham gostado, isto é, apreciado e aprendido algo de enriquecedor com esta história.

ASTIGMATIZAÇÃO

 
A estigmatização é uma forma de astigmatismo cada vez mais difícil de tratar, pois as pessoas que sofrem de estigmatizar tendem a cerrar-se no seu mundo de certezas sobre o mundo dos outros. Não lhes passa pela cabeça que o mundo dos outros possa não ser exactamente o que julgam ver com clareza, mas na verdade, por causa das irregularidades da curvatura da córnea transparente, vêem de modo deturpado.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

PENSAMENTOS DE QUITÉRIA

Grower ou shower pouco importa, desde que seja lavadinho.

BOTS

 
Não me preocupam minimamente os bots que se comportam como seres humanos. Preocupante é haver cada vez mais pessoas a comportarem-se como bots.

VÍTIMAS

 
"Matei uma galinha. Quase nem a conseguia comer, tais eram os remorsos que sentia. Pobre de mim, tão fragilizado com a morte da galinha por mim degolada." A retórica da vitimização é muito comum, nomeadamente entre padres, bispos e cardeais.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

DEIXAI A ILÍADA EM PAZ

 

Não compreendo a cólera de Aquiles, a desonra que o motiva é de um ressentimento insuportável.  Nada deve à ganância de Agamémnon. Mais do que as virtudes, o que define estes heróis é o vício. São invejosos e deixam-se tomar pela ira sem mostrarem o mínimo escrúpulo diante da arrogância que causa vítimas. Apossavam-se das mulheres dos inimigos e trocavam-nas por resgates como quem vende gado. Se por vezes se tomam de boas intenções, são quase sempre insensatos e estupidamente orgulhosos. Passam o tempo em banquetes e sacrifícios a deuses completamente arbitrários que se divertem com as pelejas dos mortais, deuses pândegos, jocosos, marionetando os humanos que se comportam como títeres: «Aos Troianos incitava Ares, aos Aqueus, Atenas de olhos garços.» Incitados, manipulados, eles guerreiam uns com os outros em refregas e liças sem fim. Só a posteridade lhes interessa. «Assim como a linhagem das folhas, assim é a dos homens. Às folhas, atira-as o vento ao chão; mas a floresta no seu viço faz nascer outras, quando sobrevém a estação da primavera: assim nasce uma geração de homens; e outra deixa de existir.» Mas os deuses não aceitam todas as preces, são caprichosos, zelosos da fama, traem-se uns aos outros com homens e mulheres semidivinos, jogam xadrez com humanos de membros deslassados, emaranham-se em ambivalências iludindo-se uns aos outros, são prestidigitadores. Sendo imortais, não são omniscientes. Sendo omniscienteS, não são omnipresentes. Têm ofícios humanos tais como forjar escudos e lanças e elmos. Mas quase tudo neles é lúdico, mesmo quando obnubilam o espírito dos imortais para os iludirem. Os Deuses gregos são fantasmas. Nisso, nunca foram diferentes de nós.

A ALEGRIA ENQUANTO TORTURA

 
Na infância fui coagido a mascarar-me de índio e de cowboy, de nazareno, de Charlot e certamente de outras coisas mais entretanto recalcadas. Desse modo me iniciaram na tortura da alegria.

PALAVRAS APETRECHADAS DE ASAS

 
Minha mãe, as armas que deus ofereceu
estavam todas avariadas. Levou-as o vento
deixando-nos depenados por terra. Agora
restam-nos fogachos de coragem
para idear a paz que ponha termo à guerra.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

AJAX, REGRESSO(S)

 


   Penso em Ruy Belo, na problemática do regresso explorada logo em “Aquele Grande Rio Eufrates” (1961), tão belamente revelada em dois versos de “Segunda Infância”: «Regresso recém-nascido ao teu regaço / minha mais funda infância meu paul». No poeta, o regresso é a constatação de uma impossibilidade. Nem o passado volta, nem nós o retomamos a não ser pela memória, estômago do tempo que tudo converte em meras representações, em reflexos. O regresso de Ruy Belo é à aldeia que não existe, ele viaja na barcaça da nostalgia rumo ao irrecuperável. Está, de certa forma, nos antípodas do regresso heróico de Odisseu a Ítaca. Porque Ítaca ainda o espera. O regresso dos heróis implica uma viagem no espaço, não é apenas uma viagem no tempo.
   Mas e se nem espaço nem tempo determinassem as coordenadas da jornada? Poderá haver um outro tipo de regresso que não se cinja às demarcações determinadas pelo tempo e pelo espaço? Creio ser este um dos desafios mais estimulantes que nos é feito por uma peça como “Ajax, Regresso(s)” (Companhia das Ilhas/Teatro da Rainha, Março de 2023), pensarmos a hipótese do retorno para lá de um tempo e de um espaço concretos, históricos, definíveis.
   Na primeira badana fala-se de um texto inédito que tem aqui a sua primeira edição, segundo volume de Jean-Pierre Sarrazac a constar na série mundo da colecção azulcobalto. O primeiro reunia as peças “A Paixão do Jardineiro” e “Neo, Três Painéis de Apocalipse”. Tanto quanto sabemos, o texto de “Ajax, Regresso(s)” foi concebido durante a Guerra da Bósnia. Podia ser hoje, a propósito da Ucrânia ou do Iémen. Podia ser, desde há vários anos, a propósito da Palestina. A guerra não nos larga, está na fundação do ocidente na epopeia homérica, está no mais antigo poema épico da Mesopotâmia, o “Épico de Gilgameš”, está em sânscrito no “Poema do Senhor”, a “Bhagavad-Guitá”. Daqui se vê quanto de universal há no tema, universal no tempo e universal no espaço.
   O nome de Ajax é-nos, no entanto, familiar. Cruzámo-nos com ele na “Ilíada”. Filho de Télamon que de Salamina conduziu doze naus, Ájax é o melhor dos comandantes a combater ao lado de Odisseu e de Agamémnon. Na peça de Sarrazac ele é já outra coisa. Se quisermos pensar esta peça à luz de uma revisitação fragmentária da epopeia, incorremos no erro crasso de lhe usurpar a dimensão expiatória e elegíaca que recusa qualquer tipo de heroísmo num cenário de ruínas geradas pela guerra. Este Ajax que tenta regressar à sua aldeia, curiosamente também uma aldeia que já não existe, embora por razões diferentes das que asseveram a inexistência da aldeia de Ruy Belo, este Ajax não tem uma mulher à sua espera nem um cão que o reconheça. Antes pelo contrário. O que ele vai encontrar é um leito de cinzas e uma paisagem de desolação exterior que materializa a sua íntima desumanização, a sua identidade estilhaçada a ponto de nem o próprio nome conseguir pronunciar. Também o seu nome  são estilhaços.
   Portanto, durante toda a peça Ajax é “o homem jovem”. E com ele interage “a mulher jovem”. E entre ambos escutam-se vozes, omnipresentes como os deuses na epopeia, mas já não omniscientes, também elas ecos de um Olimpo devastado. Vozes da consciência? Certamente. Mas mais do que isso, são a dor fantasma que na realidade existe e pela ficção adquire substância. Neste sentido, o Ajax do título pode muito bem ser interpretado como as sobras de uma matriz civilizacional, cultural, que séculos de conflitos e de guerras vêm relegando a uma condição de miséria. Isso mesmo depreendemos de uma das falas iniciais da Mulher Jovem: «Será que ignoras que esta é uma aldeia morta, que esta região é uma região morta, que neste país feito há séculos e séculos de pedaços desunidos já nada está de pé?» (p. 28)
   Não deixa de ser curioso o facto de as duas personagens serem sinalizadas pela sua juventude. Talvez isso se deva a um sinal de esperança que não é alheio ao texto, pois tanto no militar que regressa à aldeia como na mulher que na aldeia se encontra isolada existe esse desejo de regressar a uma vida comum. Os regressos são tanto o dele, que procura retomar a vida que deixou para trás, libertando-se da loucura que o aniquila (tão sabiamente explorada por Sófocles na tragédia “Ájax”), como o dela, vítima de uma guerra que a legou ao abandono e lhe incrustou as dores do medo na carne. Perseguidos pelo passado, buscam motivos para um projecto de futuro.
      Afirma Fernando Mora Ramos, no prefácio, haver em Sarrazac uma «predilecção pelo íntimo», algo que nesta peça me parece paradoxalmente sublinhado pelo recurso às vozes como uma espécie de terceira personagem, um terceiro que são múltiplos terceiros metamorfoseando-se, pois as vozes exigirão ressonâncias e tons diversos. É nesse coro de vozes que melhor se consubstancia, a meu ver, a intimidade do Homem Jovem e da Mulher Jovem, uma intimidade que nos chega como um eco, pois se há característica que define as duas personagens é a sua despersonalização. Neste sentido em que (a)parecem num limbo, isto é, num lugar intermédio entre a condição dos mortais e a dos deuses. Os regressos que aqui se jogam abrem pois duas possibilidades: o do regresso à morte e o do regresso à vida. O que pessoalmente me toca mais é o facto de em ambos os casos, não a memória, mas o esquecimento, surgir como condição sine qua non para o regresso. Diz ele: «Quero dormir. Dormir. Esquecer» (p. 58). Diz ela: «A minha memória impedia-me de existir» (p. 68).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

SOMBRA


 

A sombra que nos persegue e por vezes de nós se liberta, amedrontando-nos como um fantasma irreconhecível, é o nosso próprio rosto desfigurado. Espreita, observa. Fôssemos água em que se visse reflectida, jamais se reconheceria. Diria que aquele ali espelhado é outro, não o próprio, não o mesmo, coisa transformada pela dor, pelo ódio, pelo medo, pela crueldade. Talvez um rosto pintado por Francis Bacon. Talvez.

SEM FUGA

 

Quitéria diz que se houver uma guerra nuclear na Europa, então emigra para a Madeira.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

COMISSÕES

 
Querem apostar que em Maio Fátima estará cheia de peregrinos a acender velinhas? E que as televisões por lá andarão a fazer directos? E que as Jornadas da Juventude serão um sucesso inigualável no país? E que nada, absolutamente nada, mudará na relação dos tugas com a ICAR depois das notícias de hoje? E que o Presidente da Câmara de Rio Maior continuará a oferecer cheques à paróquia? E que a padralhada continuará a ser convidada de honra em cerimónias oficiais? E que a Universidade Católica continuará a beneficiar de privilégios que mais nenhuma universidade privada beneficia? Querem apostar que os males deste país continuarão a ser os ciganos e a Festa do Avante? Não apostem que eu ganho.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

PERGUNTAR NÃO OFENDE

 
Quitéria anseia pelos comentários do Dr. Ventura à pedofilia na Igreja. É para castrar? Estes portugueses de bem merecem perdão? Fogueira? Alguém que lhe pergunte, por favor. A comunicação social que faça o seu trabalho. Já que gostam tanto da criatura, ao menos façam-lhe perguntas pertinentes no momento certo.

PARA MAIS TARDE RECORDAR

 


Lembram-se da Festa criminosa, em plena pandemia? Lembram-se da Clara de Sousa a noticiar no Jornal da Noite uma capa falsa do New York Times? Não se lembram, pois claro. Já passou. Foi há muito tempo. Também estou certo de que não viram esta notícia no mesmo Jornal da Noite, o Rodrigo não lhe dedicou nenhum dos seus discursos moralistas, o Ferrão não abordou o tema no Polígrafo. Nada. Estão todos ocupados com o Ventura, que ontem apareceu só 6 vezes no tal Jornal da Noite. É uma excitação. O jornalixo sensacionalista adora o sound bite, tem sonhos húmidos com o sound bite, alimenta-se de orgasmos que não seriam notícia se não causassem sensação. Como esta, tão desinteressante, tão "e nós com isso?", tão "ó pá, deixa lá isso", sai mais um Milhazes.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

ZEC (1956)

 


Escrevi colos onde devia ter escrito solos. Acto falhado. Estava a pensar na última vez que amei e me senti amado. Tive medo. Fugi. Não ostensivamente, mas como fogem os cobardes. Fui-me distanciando, afastando, imaginando como seria se tivesse sido diferente. Sempre temi o amor, julgo, agora que penso nisso. Nunca o entendi sem paixão e é esse predomínio da paixão sobre a racionalidade que me atemoriza e prende e tortura e massacra. Se eu fosse Descartes, começaria por aqui: «Penso. Logo, sofro.» É este o começo de tudo. Gostava de conseguir dizer adeus à razão antes de ser ela a abandonar-me, deixando-me a sós com a loucura das suposições. Houve uma altura em que não chorava. Ou chorava para dentro, em silêncio, como quem deglute a própria dor. Por vezes comovo-me, mas é raro. Cada vez mais raro. E a pessoas cansam-me tanto que prefiro imaginá-las irracionais quando as tenho por perto. A minha casa é o labirinto onde me encerrei voluntariamente. Sei a saída, conheço os recantos, posso saltar pela varanda com asas de cera. Por enquanto não, ainda não chegou a minha hora. O que foi feito do amor que então sentia? Devo tê-lo arrumado como a uma peça de roupa velha, bem dobrado, no fundo de uma gaveta com bolas de naftalina. Por vezes sacudo-o para ver se as traças o mantêm intacto. Depois volto a dobrá-lo e a arrumá-lo e nada sinto. Transformei o amor numa dessas tarefas quotidianas que facilmente negligenciamos. Sou muito mais cuidadoso com as horas de levar a cadela à rua do que com o amor.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

UM SELO DE ALBERTO PIMENTA

 


um selo da República Portuguesa de 1997, da colecção dedicada às gravuras de Foz-Coa. o rio Douro e os seus afluentes têm tal beleza que bem mereciam mais colecções, onde as paisagens naturais e as criadas pelo homem tivessem o merecido realce. hei-de escrever uma carta a esse respeito ao respectivo ministro. só não sei é se o respectivo ministro é o dos transportes, o do comércio, o da cultura, o das finanças ou o dos restos mortais, ou ainda da reencarnação. Mas hei-de informar-me.

In Solos de Valdemar Santos (com selos de Alberto Pimenta), desenhos de Valdemar Santos, textos de Alberto Pimenta e apresentação de Manuel Portela, Edições ÉteroGémeas, s/d, s/p.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

CORPOS NUMA SALA

 


É verdade o que dizem, não há duas iguais. A vantagem de estarmos na presença uns dos outros é poder sentir melhor o nosso próprio corpo a partir de sensações induzidas pela proximidade da respiração alheia. Ninguém se compreende verdadeiramente, suponho, sem essa partilha de um espaço comum, numa espécie de assembleia orientada por silêncios, pequenos gestos, acasos, momentos inesperados num guião várias vezes repetido, visto, ouvido, percepcionado. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

INSECTOS

 
Germinam insectos
na cartilagem das orelhas.
Ouvem-se zunidos, como ecos
chegam aos tímpanos,
fazem ricochete.
Expelidos no vazio,
são casulos de mau cheiro,
bombinhas de carnaval,
crisálidas com a forma
de balas inofensivas.
Bzzzzzz... arreliam os bichos.
E a gente enxota
até que se faça sossego
no pórtico dos ouvidos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

PEDRAS

 


Penso nas pedras, no que perdura para lá de um tempo que dizemos nosso. O corpo leva-nos cicatrizes, ossos desfeitos em pó. As pedras permanecem sob nuvens passageiras, tempestades efémeras, a brevidade conserva-as. Podem derruir como castelos antigos, afundar-se nas crostas do Inferno que, de quando em vez, se abate sobre os homens como um temporal. O tempo de vida das pedras é infinitamente superior ao tempo de vida de cada um de nós. De mim, de ti, das palavras que, não fossem as pedras, jamais teriam sido pensadas. E no entanto também as pedras se esvaem em sangue, também elas se esgotam e perecem, adormecendo num tempo que foi seu e não volta a ser por mais que o procuremos e persigamos.

REELS

 
Descobri os reels com cães no Instagram. Finalmente algo de jeito nas redes sociais.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

CANCELADO

 
O ridículo tomou conta de nós, estamos a viver numa distopia enredados em nuvens de absurdo e estultícia. Já não há espaço para a dúvida, é isso camarada. O espírito crítico e o sentido estético foram substituídos por algoritmos neuronais que determinam juízos, eximindo-nos do pensamento, desviando-nos da reflexão, atirando-nos para um fosso obscurantista de tipo medieval. Quem está disponível para pensar o belo na sua relação com o bem? E a beleza na sua relação com o feio? Agora um Beckett cancelado por só ter homens no elenco, respeitando desse modo as indicações do dramaturgo. Ora vão para a mãezinha que vos pariu. Se isto não é o cúmulo da estupidificação em nome do politicamente correcto, então o que é? Notícia aqui: Encenação de peça de Beckett cancelada por só ter homens no elenco.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

SE TENS OLHOS PÁRA

 
As televisões descobriram ontem que André Pestana, dirigente do STOP, afinal não é assim tão apartidário quanto o próprio sindicato apregoa: "Sindicato não sectário, apartidário e realmente democrático." Os stôres que vão na cantiga do apartidarismo devem estar a modos que abananados, nomeadamente as tias que nas últimas semanas aprenderam a vociferar slogans revolucionários com as devidas adaptações. Pois bem, Pestana andou pela JCP, pelo BE, pela CGTP e, cansado de sindicalismo manso, foi parar ao Movimento Alternativa Socialista. Estamos todos com a luta mais do que justa dos stôres, mas, vá lá, deixem isso do apartidarismo para o Chega. É que vos fica mesmo mal, mais um retrato da hipocrisia que tomou conta de nós.

domingo, 5 de fevereiro de 2023

SACUDIR CONSCIÊNCIAS

 

O comovente abraço de Marcelo a um imigrante agredido em Olhão, depois de menosprezar milhares de migrantes mortos na construção de estádios no Qatar, pode impressionar-vos muito. Para mim, está ao nível da consciência sacudida de Santos Silva. Vale zero. É tudo farinha da mesma hipocrisia. Damos abraços, sacudimos consciências, e os problemas perduram, ficam por resolver, adiam-se até nova tragédia. É como as cheias em Lisboa, é como tanta porcaria neste país de hipócritas satisfeitíssimos com pensos rápidos em cancros fétidos. As jornadas da juventude não tardam, novos e velhos podem recorrer ao parque do perdão e aligeirar consciências. Não mudem a telha, tapem a racha com tela, disfarcem a ferida. O pão de Rio Maior agradece.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

TACO A TACO

 


   Lá na terra, nos idos da adolescência, tinha outra designação aquilo a que na escócia chamam square-go e os Artistas Unidos traduziram por “Taco a Taco”. Para ser exacto, não era uma designação. Era antes a expressão de um código subentendido no modo de dizer. Alguém dizia “lá fora falamos” e toda a gente compreendia a promessa de porrada. Também havia ajuntamentos, como sempre sucede nestas situações, malta reunida em círculo para assistir à luta de galos (homens são bípedes sem penas, não é Diógenes?). Hoje, estamos cansados de o ver, acrescentam-se aos incentivos vindos da plateia os telemóveis apontados à contenda. O público da pancadaria grava e partilha no YouTube ou noutra rede social qualquer, pelo que a bulha adquire um significado de espectáculo que ultrapassa as fronteiras do happening localizado.
   Lá fora falávamos aos murros e pontapés e a coisa ficava por ali. Fora da escola, para evitar processos disciplinares e trabalhos com auxiliares de acção educativa, contínuos, etc. Agora não fica por ali, o ajuste de contas sugerido pelo square-go alcança uma animação quase cinematográfica. Vemos os vídeos e repugnam-nos mais os tipos que filmam e nada fazem do que a medida de forças entre agressores e vítimas. Nestas coisas tem sempre de haver um agressor e uma vítima.
   No bullying, outra palavra muito moderna para traduzir formas continuadas de humilhação, há aquele que humilha, o agressor, e o que é humilhado, a vítima, pelo que extravasamos o terreno de guerra onde quem está dá e leva. Na peça que ontem vi, este terreno tem a configuração de um wrestling ring. Bem sabemos quanto há de encenação nesses espectáculos com heróis de carne transfigurada em borracha. Lembram-se do filme de Darren Aronofsky, com Mickey Rourke?
   Pois bem, a peça dos escoceses Kieran Hurley e Gary McNair que Pedro Carraca encenou transporta-nos directamente para o lugar mais repugnante, o do público da violência, cheerleaders da crueldade, o das claques. Somos chamados a intervir, a participar num jogo que sabemos inofensivo, sem escapar a dado momento ao desconforto de nos vermos na pele de bullies. Creio ser este o ponto em que o espectáculo ganha uma força inesperada, uma força que não se reduz à energia física até então observada nos diálogos entre Max e o seu melhor amigo.
   Max vai iniciar-se no square-go, o segundo é o comparsa onde buscamos coragem para enfrentar o inimigo. No meio da conversa viva, tingida de provocações, bocas, piadas que a espaços resvalam para a comédia stand-up, ficamos a saber do passado e do presente das personagens. Todas elas têm um passado que explica o presente, o que não as isenta de responsabilidade por serem quem e o que são. O passado condiciona, não determina. Podemos inflectir, escolher outros rumos, mudar. A liberdade tem as suas dores de parto.
   Excelente trabalho dos actores Marco Mendonça e Tiago Dinis, alternando registos mais vigorosos com as fragilidades inerentes a quem sabe ter poucas chances de sucesso no problema em que se apanha envolvido. Mas fiquei a pensar nessa força inesperada que está para lá da energia física dividida entre ambos, a força que sobrevém da deslocação do público de um lugar de passividade para o lugar activo de agressor. É como se fôssemos chamados a calçar umas botas que julgávamos não nos servirem. Extrapolando os limites do palco de wrestling, a dúvida que se me impõe é sobre essa condição de espectador da violência. Um espectador inesperadamente promotor e, por isso mesmo, ele próprio violento. Fala-se hoje muito de empatia. Talvez “Taco a Taco” seja mais sobre isso do que qualquer outra coisa. Um desafio à empatia do espectador.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

UM POEMA DE EDUARDO QUINA

 


VIDA E OBRA DE UM POETA
levava tudo para a retrete

olhar
a mais impura das criações
para fundamentar a existência
criar a realidade
a obra
o conhecimento
a sabedoria
as dionisíacas intérpretes de deus
o silêncio obscuro e sagrado do mundo
no isolamento
                       de uma retrete


Eduardo Quina, in No Princípio era a a Morte [Exercícios sobre Os passos em volta], Officium Lectionis, 2022, p. 30. Diz Luís Maffei no posfácio: «Sem ambicionar a salvação, no entanto, a conversação de Quina com Herberto não deixa de lembrar o que no barroco se chamava de comentário, aquele gênero através do qual muitos leitores lidaram Camões no XVII. Um desses é Faria de Sousa, que, segundo Jorge de Sena, leu Os Lusíadas como se lê um texto sagrado. Eduardo Quina faz gesto (não há aqui metáfora) semelhante, com a diferença de que, em seu livro, há é o «terror da salvação», ou seja, «quem salva quem [...]», ou, palavras de Herberto em «Teorema», «matei-a para salvar o amor do rei». A morte salva o amor? Então o amor  está perdido, o que equivale a dizer que só existe amor de perdição. Herberto e Quina são autores românticos» (p. 40).

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

QUEM QUISER QUE TRADUZA

 


TROPPA GRAZIA, SANT' ANTONIO!

E. P. is fond of an extra inch
Whenever the 'ell it's found.
But wasn't J. J. the son of a binch
To send him an extra pound?

James Joyce, numa carta a Ezra Pound datada de 1927. In Poems and Shorter Writings, organização de Richard Ellmann, A. Walton Litz e John Whittier-Ferguson, Faber and Faber, 1991, p. 135.

KLEENEX

Esta noite sonhei que me encontrava no lançamento de um livro da Rosarinho. Apresentava a Joana . Decorria a cerimónia numa sala que me pareceu ser a Aula Magna, só que em vez de cadeiras e de cadeirões havia sanitas. Um auditório cheio de gente disposta em sanitas, com calças e saias e calções descaídos. Exactamente como se estivessem a fazer as necessidades. Quando a Joana terminou a apresentação, as pessoas em vez de baterem palmas limpavam o cu. Sentadas, a limpar o cu como se batessem palmas. A única pessoa a levantar-se foi o Valente. O auditório completo olhou para ele. Não tinha pilinha. Acordei sobressalto, incrédulo. Porra, pensei, acabei de sonhar com um Valente sem pilinha. Se não estou doente, devo estar a ficar.