domingo, 30 de agosto de 2009

YOU'RE THE ONE THAT I'VE BEEN WAITING FOR




Com dois bilhetes para o carrossel na carteira, oferta da Alice e do Pedro à Matilde e à Beatriz, resolvemos tirar o dia para uma investidura cultural por terras de Lagos. Comemoram-se 250 anos sobre aquela que ficou para a história como a “Batalha de Lagos”, um episódio da Guerra dos Sete Anos, que opunha a França à Grã-Bretanha, entre outros implicados, na disputa pelo «controle comercial e marítimo das colónias além-mar». O apontamento histórico cai que nem ginjas nestes dias em que procurei desintoxicar a Matilde dos efeitos narcóticos das Winx com uma BD sobre a história de Portugal. Expliquei-lhe, em jeito de intróito, que Aljezur fora noutros tempos terra das arábias, um dos últimos redutos do Gharb al-Andalus. Ontem, depois de uma abordagem às Invasões Francesas, ela mostrava-se espantada com a valentia dos seus antepassados, capazes de desancar em árabes, espanhóis e franceses, conquistando terras que, para o bem e para o mal, são as que nos foram outorgadas. São as mesmas terras onde franceses, espanhóis, ingleses e alemães vêm agora emborrachar-se, avermelhar a pele, mostrar as mamas com vestidos de noite absolutamente pindéricos e desapropriados (a moda das t-shirts com legendas provocatórias e convidativas deu lugar a decotes absolutamente óbvios e, em muitos casos, tão competentes com um certo espantalho que servia de pouso a vários estorninhos numa horta do Rogil). Também se vêem árabes, fazem comércio de peles e tatuagens de Henna. E mulheres “das Áfricas”, enrolando tranças nas cabeleiras vaidosas das turistas. Há ainda os indianos, distribuídos por vários restaurantes que deixam uma cosmopolita fragrância a caril nas ruas da cidade. Na BD que vou lendo à Matilde, os versos de Luís de Camões aparecem truncados. O povo vil é rico e prosperado, o caril uma ardente especiaria de cheiro suave. Entramos no antigo edifício dos Paços do Concelho, onde passamos vistoria a parte de um evento intitulado MALA – Mostra de Artistas de Lagos. Tanta abstracção confunde as crianças. A páginas tantas, a Matilde olha para o quadro da electricidade e pergunta o que aquilo quer dizer. Nada, provavelmente como muitas das obras ali expostas. Forma, forma e mais forma, o conteúdo reduzido a estilo, um estilo cativo de mordaças niilistas que tudo metamorfoseiam em pose. Mas nem tudo é nada, sejamos justos. Gosto de alguns trabalhos que denotam uma vontade de intervir e de denunciar, que alertam para as consequências nefastas de um progresso tão opulento quão criminoso. Fotografias de animais esborrachados por símbolos de marcas de automóveis transformados em balas fatídicas, certeiras. «Pessoalmente, não sei mesmo o que é belo, mas sei do que gosto, e acho isso amplamente suficiente» (Boris Vian). E gosto destes crimes em trânsito, destes poemas. A ironia faz milagres, como as Winx e os heróis da História de Portugal. Subimos até ao Centro Cultural de Lagos, onde vamos encontrar trabalhos de Julião Sarmento, João Louro, entre outros, como um tal de Paulo Nazolino (vide 5entidos – Agenda de Eventos de Lagos). O espaço do CCL é muito agradável, a mostra, intitulada Entre o Céu e o Mar, é breve mas pertinente, está bem organizada, deixa-nos respirar e provoca-nos sensações diversas. Agrada-me o trabalho de Paulo Brighenti (pormenor ao alto), uma espécie de mural em carvão vegetal onde se combinam vários elementos. O desenho invertido na parede toma o seu sentido quando olhamos o espelho colocado no chão. Às vezes é o que basta, olhar o mundo do avesso para melhor o compreendermos. Nada de fusões, que apenas geram confusões. Nada de oposições, que apenas demarcam fronteiras artificiais. Optemos pela Simpatia, «a alma a passar sem atavios, a passar a pé, não sendo mais do que ela própria» (D. H. Lawrence). Descemos à Praça do Infante, onde deparamos com os poderes mágicos de uma lamparina. Apelamos ao génio da lâmpada: duas doses de ostras ao natural e uma de conquilhas. Desejos satisfeitos. Na verdade, momentos antes tinha-me ajoelhado no interior da Igrejas de Santa Maria, solicitando à boa vontade do omnipresente e omnipotente bom Deus um belo prato de ostras ao natural. E o Senhor ouviu as minhas preces. De novo na Praça Gil Eanes, depois de atravessarmos a “feira dos cafés e dos restaurantes”, entramos no carrossel dos artistas de rua. Várias tribos ali se reúnem, vendendo o que sabem e o que têm em troco de uma forma de sobrevivência provavelmente inspirada na cultura ‘hippie’ dos idos sessentas e setentas. Momentos antes, tinha lido no Courrier o retrato de Milo Kurtis, um músico polaco, hippie e anarquista, que esteve quase a candidatar-se às eleições europeias. Não resisto a algumas comparações. As “fatiotas multicoloridas” de outrora deram lugar a trapos velhos geralmente negros, os “pendentes com símbolos pacifistas e cruzes” foram substituídos por tatuagens com motivos tribais e piercings de todos os tipos, duvido que alguém ainda ouça Joan Baez. Mantêm-se as baforadas de haxixe como elo de ligação a um passado não tão desaparecido quanto às vezes possa parecer. E um certo estar. Compro um CD a um trio de “dance music orgânica” (didgeridoo, bateria e multipercussões) chamado Olive Tree Dance, a Ana e a Matilde entretêm-se com os malabaristas, ofereço dois cigarros a uns punks que tocam numa flauta uma melodia que me parece ser a Oliveirinha da Serra e fazem bolas de sabão, a Beatriz quer regressar ao carrossel. Talvez um dia venha a perceber que nunca o abandonou. Mais que um circo, a vida é este carrossel de partir e de voltar para de novo partir até novamente regressar para definitivamente partir quando a morte nos leva para esse algures insondável e imprevisível. São voltas e voltas… Existir não como um palhaço que entretém o público anónimo com malabarismos imbecis, mas como alguém que dá mais uma volta no carrossel da vida, que ganha balanço, que se diverte sem outra intenção que não seja divertir-se, mesmo que por vezes a diversão seja acometida pela tristeza e à tristeza se imponha o direito e o dever de nomear o que corre no sangue - a revolta, o medo, a solidão, o ódio, o amor, o amoródio - porque mais que tudo escrever é um acto livre e a poesia a «antimatéria da sociedade de consumo». Sem heróis pelo caminho, sem fadas, sem poderes mágicos, sem Winx.

sábado, 29 de agosto de 2009

«QUANDO A MORTE CHEGA, DEIXA DE HAVER ESPAÇO PARA NÓS»




«Conheço a morte, sou um velho funcionário ao seu serviço, temos tendência a sobrevalorizá-la, acredite no que lhe digo! Posso assegurar-lhe que ela não vale nada. Tudo aquilo que a precede e que, em certas situações, pode assumir contornos ultrajantes não pode ser imputado à morte: são circunstâncias que fazem parte da vida mais activa e que podem conduzir à cura e à sobrevivência. Ninguém que regressasse do reino dos mortos lhe poderia relatar qualquer coisa de concreto sobre a morte, porque ninguém a experiencia. Nascemos das trevas e é nelas que nos afundamos. Entre um pólo e o outro vivem-se experiências, é certo, mas a verdade é que não experienciamos nem o princípio nem o fim, nem o nascimento nem a morte, o que significa que eles não têm carácter subjectivo. Enquanto fenómenos, pertencem exclusivamente à esfera do objectivo, é o que é.
Era desta maneira que o conselheiro consolava os vivos.»

Thomas Mann, A Montanha Mágica, trad. Gilda Lopes Encarnação, Dom Quixote, p. 606.

Acabámos de receber por SMS a notícia da morte do Victor. Sucumbiu um ano depois de lhe terem diagnosticado um cancro no pulmão. Resistiu enquanto pôde. Guardo-lhe boas memórias, de um fim-de-semana passado na Lousã em 2004, de alguns encontros no Porto e outros pelas vias modernas dos encontros e dos desencontros. Depois de ter sabido da doença, tentei escrever-lhe algumas vezes. Manifestei uma intenção que nunca consegui concretizar. O que dizer? «Enquanto nós existirmos, não há espaço para a morte». O Victor é o da esquerda, de cigarro na mão.

UM LAMENTO




Desci até Sagres atraído pelo desejo das ostras. Acabei traído pelo bandido a quem as tinha encomendado. Ninguém me manda confiar. Há anos que vamos ali abastecer a despensa de peixe fresco, comprávamos conquilhas quando as havia, aprendemos o prazer afrodisíaco dos moluscos. Havia, digamos, uma relação estabelecida. Já não há. Ao lado da peixaria, o que foi outrora um bar com livros, ligação internética, boa música, um ecrã gigante onde eram projectados filmes, está transformado numa loja dos chineses. Ora toma lá o «esmeril do progresso» na sua máxima decadência. Com futuros assim, não admira que a simpatia se vá desfigurando em assaloiada soberba. Meti-me em marcha até ao Cabo de São Vicente, retemperei as forças com um bolinho de figo e amêndoa, fumei um cigarro, deixei a ventania levar as mágoas. Isto é um negócio pobre - queixa-se o vendedor. Mas eu estou mais para perscrutar as escarpas com o coração, que é a melhor forma de as perscrutar. O sangue para-se-nos nas veias, as veias tropeçam umas nas outras, o coração palpita e não esmorece. Somos infinitamente ínfimos. E belos. E feios. Somos uma felicidade a ser gozada pelo despropósito das musas (grande tirada!). Novamente em Aljezur, levanto as órbitas até às ruínas do castelo e relembro um poema revoltado que ali escrevi há um ano. Essa revolta acabou, deu lugar a um estranho comprazimento, agora sou como um caracol transportado pela sua própria casa. Afinal, «as dores são um sonho mau de que se acorda na sepultura» (Camilo Castelo Branco). Compro carapaus para as visitas, o Courrier para mim. Levo gelo para as feridas. Não me posso esquecer de mandar o episódio da semana d’A Cidade a Tossir para O Indesmentível, é a única obrigação que me liga de momento ao mundo dos obrigados (também me obrigo a olhar pela liamba, como uma criança que olha pelo seu animal de estimação). Explico à Matilde o significado da expressão temer por alguém. Enquanto descemos à Carreagem o verbo adquire um sentido fantasioso, temer por alguém não é ter medo de, nem sequer ter medo por, é querer o bem de, é dar tudo por tudo para evitar que o mal se abata sobre as cabeças de quem amamos. Larga-me a braguilha, diz a Ana. E diz muito bem. Regressemos ao lume, as visitas estão para chegar. Há carapaus assados na brasa, salada de tomate colhido na horta, pimentos assados, batatas cozidas, há vinho branco gelado, pão do Rogil, há bolinhos de amêndoa para acompanhar o café, há melão, melancia, uvas tintas e brancas. A conversa é agradável, passa depressa e é quase como se não tivesse passado nem presente nem futuro. Digamos que ajuda a iludir a maresia, o gelo que já anuncia o Outono, a partida, o regresso. Os petizes vêem filmes, pintam-se, inventam-se. A Beatriz quer fazer festas ao Basquiat. Acaba a fazer um poema quando eu a desaconselho de se aproximar do “mutante “: Mas eu tenho festinhas na minha mão. É um lamento, como quase sempre são os melhores poemas. Poemas também são mãos carregadas de festinhas para distribuir pelo mundo. E são murros, e são simplesmente mãos. Adormeço no sofá com a televisão ligada. Acordo como se não tivesse adormecido. Batem à porta, é o Vivaldo com um saco de amendoins.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O LIVRO DAS CASAS ABANDONADAS




Acordei melancólico, começo a projectar o fim da ópera de grilos e cigarras que me tem vindo a embalar noite dentro. Aproxima-se vertiginosamente, com ele a angústia do regresso e de mais um ano a contar os dias que faltam para a partida. A mesa do alpendre onde vou conquistando quilómetros de frases à “montanha mágica” e escrevinho estes apontamentos está decorada com tomates (coração de boi?), pimentos, uma melancia e uma couve enorme. A couve alberga algumas joaninhas, o que é bom sinal. Que ninguém tome as joaninhas por parvas. É uma boa couve, só não sabemos o que fazer com ela. Talvez venha connosco para cima, talvez se converta em sopa, talvez. Há alguns excessos que vão ter de conhecer a via verde do progresso. Falta-nos a porca Rosita para dar cabo dos restos, uma gorda e voraz porca preta que vivia nas traseiras da mansão. É provável que tenha sido transformada em bifes e em enchidos. Resta-nos uma pocilga, outra casa abandonada, ocupada agora por aranhas que formam rigorosos padrões geométricos nas paredes mais claras. Vou-me entretendo no encalço das vacas, apanho amoras, pico as pernas, afasto as vespas, coço as picadas dos mosquitos, escrevo O Livro das Casas Abandonadas. Passei a noite a sonhar com enxames de abelhas, colmeias pontapeadas inadvertidamente, terramotos, perseguições. Enfim, acordei melancólico. Vingo-me nas leituras. As Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco, começam bem: «o estreme espírito português, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo»; o Bill Bryson apresenta-me um reverendo que acreditava que «o consumo de carne conduziria a uma espécie de desequilíbrio hormonal que levaria os homens a aproveitarem-se das mulheres dóceis»; Henry David Thoreau lembra-me que «as nossas boas maneiras corromperam-se com os santos»; Boris Vian arranca-me um sorriso: «As palavras e os peidos têm em comum o facto de serem volumes de ar que saem das extremidades do tubo digestivo»; em Edgar Allan Poe busco o consolo dos mestres: «E não me importa o tempo que se esgota / Porque bebo cerveja todo o dia». E as aventuras de Hans Castorp, esse inquieto filho da civilização, ficaram muito mais estimulantes depois da entrada em cena do professor Naphta. As intermináveis contendas com Settembrini, o maçon, revigoram a narrativa. Desconfio que as descrições no subcapítulo intitulado Neve poderão ser-me úteis dentro em breve, repleto que está de referências a desfiladeiros, escarpas, socalcos, fragas, promontórios, enseadas, penhascos, falésias e arribas, colinas, vales, regatos, declives. A «vontade de estar só com os [meus] pensamentos» empurra-me para uma caminhada junto à costa. Há dois anos tive companhia. Este ano irei sem guia, perdido para Sul, até onde os músculos aguentarem e a Natureza permitir. Mas antes há que ir a Sagres comprar ostras. Amanhã temos visitas ao jantar.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

HORTAS


Enquanto degustava os percebes arrancados à rocha pelo mestre Vivaldo, ocorreram-me intermitentemente algumas imagens da primeira incursão pela Praia da Amália. Devo a aventura a um grande amigo, o Mário Pedro. Eu tinha acabado de tirar a carta de condução, pedi a 4L emprestada ao meu pai e parti com o Mário para o Sudoeste. Quem conhece, sabe que conduzir um bólide daquele calibre é já uma aventura. Imaginem o que não será se o motor ceder sempre que param o carro. Era o que acontecia. Nos semáforos, nos cruzamentos, nos entroncamentos, nos stops, nos pára-arranca das filas de trânsito, o camelo amochava. Fui mais tarde informado de que bastava apertar um parafuso no alternador para o problema ficar resolvido. Ainda assim, conseguimos ir e voltar, dormimos uma noite dentro da carripana, não perdemos nenhum banho no canal, desbravando quase invariavelmente caminhos de ovelhas e vacas. Também fomos perseguidos por um enxame de mosquitos e, numa tarde em que chovia torrencialmente, descemos à praia da Zambujeira, estendemos as toalhas e o céu abriu-se fazendo vénias aos raios de sol. Mas essas são outras histórias, que apenas aqui aparecem porque ontem voltei à Amália.

Hoje, enquanto caminhava para mais uma visita aos Três Arquinhos, também eu saudei a luz que iluminava a paisagem. Voltei a pôr os olhos nas pequenas hortas, nos milheirais, numa manada de vacas que pastava ali perto, nas casas abandonadas cuja poesia sempre me encantou, mais ainda depois de ter lido O Livro das Igrejas Abandonadas de Tonino Guerra. Imagino que antes de terem sido entregues aos caprichos da natureza, estas paredes gravaram existências, protegeram vidas, imagino que mais tarde ou mais cedo alguém voltará a oferecer-lhes a história anónima da sua passagem pela Terra. Histórias como as que se escutam involuntariamente numa mesa dos Três Arquinhos, narradas ora por quem as testemunhou, ora por quem nelas interveio como actor principal ou secundário: o galego das três mulheres, o caçador de javalis, o condutor sem carta, o incansável combatente, o retardado que imita galinhas, um cigano vestido de negro dos pés à cabeça, com umas barbas a roçarem-lhe o peito e o cabelo pelos ombros. São histórias que, muito provavelmente, não ficarão na História. A não ser que alguém venha um dia a escrever um Made in Rogil para relatar, entre outros factos imporováveis, a passagem por aqui de um alemão extravagante que quis povoar estas pastagens com «todas as aves mencionadas nas obras de Shakespeare». Como duvido dessa possibilidade, concentro-me na horta. Este ano, não tão abundante como nos anos precedentes, deu-nos várias saladas de tomate, esse venenoso hortofrutícola «utilizado durante séculos enquanto curiosidade decorativa», pimentos grelhados, sopa de feijão verde… A dieta já era suficientemente rica, não contávamos, nem sequer imaginávamos, que pudéssemos agora condimentar as sobremesas com estas ervas encantadoras:

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A VIDA




Aqui estamos, patético Hans, debaixo de três mil ínfimos anos transformados em tudo quanto podemos almejar. Mas protejamos o nosso «coração com três couraças críticas» (p. 463). Nem tudo são conversas espirituais, as sanefas das janelas deverão permanecer contidas, a aquilégia que por todo o lado brota pode provocar reacções alérgicas. Descemos à planície com a certeza de em breve virmos a retomar a vida no sanatório. O clima da montanha entope-nos o pulmão. Estamos condenados ao pulmão entupido. Até lá, cumpra-se a vida. Sem stresses. Mestre Vivaldo apareceu pela manhã a desafiar-me para os percebes. Por aqui escrevem perceves nas ementas. Infelizmente, tive que negar-me. Havia prometido às miúdas pizza na Taska da Saska, Odeceixe. Demos com as portas cerradas, invertemos a marcha, estancámos no Quintal dos Sabores. Local simpático, manjares atraentes, as miúdas à-vontade nos escorregas, muitas moscas. Pedi uma feijoada de búzios, metamorfoseada em feijoada de chocos por ser demasiado demorada a cozedura das trombetas marítimas. Reguei o pitéu com uma garrafa de Tinoco, colheita de 2007. A Ana investiu nas amêijoas. Rematei a refeição com um café, cheio, como sempre, e uma fatia avantajada de Delícia do Algarve, uma magnífica espécie de tarte à base de amêndoas e de figo, guarnecida com canela. Ora aí está um prazer, que até aos meus mais aplicados detractores sugiro com benevolência. Barriguinhas aconchegadas, breve passeio pelo centro. Sem Ventil no Mercado, nem trocos no Alisuper – quer-me parecer que os supermercados do toldo verde estão a dar as últimas −, libertei-me da nota numa caixa de incenso que entretanto já perfuma a mansão. Odeceixe tem vindo a perder o encanto que tinha quando aqui chegámos pela primeira vez, há treze anos. Muita coisa mudou, e essa mudança, que noutros casos fica latente, patenteia-se nos estilos, nas formas e nas cores, nos trajes, nos comportamentos e nos sotaques da maioria dos actuais forasteiros. Pode ser preconceito meu, admito. Mas também pode não ser. Há treze anos, recordo-o agora, montámos tenda no quintal de uma casa que tinha sido alugada pelo Pedro e pela Carmen. Ainda lá está, no topo da vila (?). Tínhamos a visita assídua de um cão que baptizámos com o nome de Artur. Fumámos muito, bebemos mais, fizemos amor no terraço da casa, debaixo de três mil ínfimos anos transformados em tudo quanto podemos almejar. Também me recordo de um chuveiro antigo armado no pinhal, um daqueles baldes com torneira, onde libertávamos o corpo do sal que trazíamos da praia. Agora somos outros, o tempo mudou e mudou-nos. Mantêm-se intactas, como uma espécie de elo entre o presente e o passado, algumas carismáticas figuras. Volto a avistar na praça central o velho da boina preta que desenhei há treze anos. Não está sentado no banco onde estava quando o rabisquei num pequeno caderno preto, mas continua por aqui, vivo, com a mesma boina e o mesmo perfil de doninha. A nostalgia impeliu-me para o volante. Regressei à Praia da Amália. A paisagem mantém-se encantadora, com várias estufas onde agora se cultivam framboesas e algo que me pareceu ser – seria? – folha de tabaco. O girassol metálico que nos aponta a praia também se mantém de pé, ao contrário dos pinheiros que por ali havia. Mas o regresso foi bem mais aconchegante do que a última visita. Da última vez que tinha descido à Amália, fiquei indignado com a quantidade de porcaria dispersa pelo percurso pedonal. Resquícios das hordas festivaleiras, que por ali andaram a dar cabo de tudo quanto era belo: a fonte invadida por pensos higiénicos, latas de cerveja, sacos de plástico, um cheiro insuportável a mijo e a merda… A vegetação adensou-se, camuflou a nascente, o carreiro está coberto de plantas, cria-nos a ilusão de estarmos a atravessar uma floresta densa e enigmática. Já com os pés no areal, levámos os corpos à queda de água doce, aquecemo-nos deitados nas rochas, fomos beijar as ondas com vagar e cuidadinho. Estava saciada a nostalgia. Ao chegarmos a casa, tínhamos um saco de percebes pendurado na porta com um manuscrito do Vivaldo: Senhor Henreque, esta aqui a sua prenda desculpe ser pequena mas pede ser que para a prexema seja milhor Adeus até Logo Vivaldo. Este vai directamente para a carteira, há-de acompanhar-me durante muitos anos. A vida é mais ou menos isto, jovem Castorp.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O NOME DOS CORPOS


Perguntam-nos a que praia costumamos ir. Não sabemos responder. Arrifana, Vale dos Homens, Odeceixe, Amoreira, Monte Clérigo, Zavial, Carriagem. Ainda não repetimos uma beira-mar desde que aportámos na mansão da Esteveira. Gostava de saber a origem destes nomes, particularmente de Monte Clérigo e de Vale dos Homens. Também há uma terriola aqui perto que se chama Azia. Como se chamarão os seus habitantes? Lá para as nossas bandas, despertam-me a curiosidade lugarejos tais como o Imaginário, Poesias, A-dos-Negros, A-dos-Francos, Guisado, etc.. As revelações do Bill Bryson, que leio para desenfadar da vida no Sanatório Internacional Berghof, estimulam-me estes interesses. Conta o autor de Made in America que quando se iniciou o processo de atribuição de nomes nos states, surgiram vilas com designações tão enigmáticas como Delirium Tremens, Dead Mule, Dead Bastard Peak, Two Tits ou Shit-House Mountain. Mas a curiosa imaginação dos colonizadores primogénitos não se ficou por aqui. Já na “era dourada” da escravatura, David Hackett Fischer relata como um visitante de Virgínia «ficou em choque ao ver senhoras a comprarem escravos negros do sexo masculino, examinando cuidadosamente os seus órgãos genitais». Por estas bandas, não se compram escravos negros mas examinam-se discretamente alguns órgãos. A nudez dos corpos purifica as almas, atrai algumas atenções cujo desconforto é compensado por uma sensação de liberdade que nos envia para a infância, quando nenhum preconceito moral, nenhum puritanismo delimitava os gestos. É a mesma liberdade que cai sobre a terra quando a noite desnuda o céu e nos brinda com um transparente festival de constelações. O céu estrelado de ontem à noite não deixava antever o manto de nuvens que hoje se interpôs entre os nossos corpos descascados e os raios solares. Como a temperatura estava óptima, resistimos ao céu cinzento e estendemos as toalhas nas rochas até a praia ficar à nossa mercê. Quando chegámos, viam-se apenas três pescadores, meia dúzia de famílias, dois casais de estrangeiros, uma senhora idosa a apanhar banhos de céu nublado perto da nascente de água doce onde, de vez em quando, refrescava os pés. Enquanto a preia-mar não atingiu o zénite, a Beatriz improvisou mergulhos originais em poças minúsculas e a Matilde entreteve-se numa espécie de piscinas formadas por formações rochosas em círculo que caracterizam o local. As escarpas íngremes protegiam-nos do vento, entretido a pentear os cactos e outras plantas disseminadas por toda a costa. Dentro em breve, ficaríamos apenas na companhia das gaivotas cujo cântico arrebatado me entusiasma se os espécimes fizerem o obséquio de bater as asas à distância. Não gosto de aves, tenho-lhes pavor, invejo-lhes o voo tanto quanto lhes abomino as penas. Só as suporto já depenadas, como o frango que deixámos a descongelar para começar a ser assado assim eu termine este breve apontamento. Ou seja, agora mesmo.

domingo, 23 de agosto de 2009

CLÁSSICOS




Acordei sobressaltado no sofá onde havia adormecido a ver o Sporting levar duas pancadas do Braga. Um ruído estranho na janela da sala fez-me levantar. Abri os postigos de madeira e deparei com uma vaca a lamber os vidros da janela. Olhei-a nos olhos e vi uns olhos melancolicamente humanos, quebrantados, tudo na vaca era melancolicamente humano, até as quatro patas se assemelhavam à mais humana das condições. Tenho tido sonhos mais estranhos, ainda assim não posso negar que a imagem da vaca me perturbou. Puxei d’A Montanha Mágica e escalei mais uns metros de texto. Hans Castorp irrita-me, o primo Joachim é-me indiferente, Settembrini diverte-me, o conselheiro Behrens intriga-me, mas o ambiente vivido no sanatório entedia-me. Dou, por isso, passos breves, matando o tempo com divagações mudas e outras que trago à página. Quando o sol caiu sobre a horta, fui abastecer-me de limas. Parei nos Três Arquinhos para beber um café e um bagaço. Antes, tinha parado numa estação de serviço onde comprei o Público. Erro crasso. Enquanto folheava o jornal assaltou-me uma agitação que pensava ter deixado em Caldas da Rainha. As notícias do mundo, mais ainda as notícias deste pedaço de terra que somos obrigados a chamar de nosso país, deixam-me deprimido, melancólico como os olhos da vaca onírica que me tinha acordado de madrugada. Vejo nas páginas centrais uma fotografia de alguém que tira uma fotografia. O modelo pousa em posição de ex-combatente junto as umas rochas fatídicas, o lugar da tragédia transformado em peregrinação veranista. Na revista do periódico, passo fugazmente os olhos pela jornalista que se desligou do mundo. Devem ter-lhe pago para o efeito. Eu pagava, não para oito dias, mas para o resto da vida desligado do mundo. Quem não perceber que compre um dicionário. Os weblogs têm-me sido um escape, um pretexto para não pensar no que dói concentrando os dedos no que fere, uma forma de matar o tempo, uma manobra de diversão, uma fuga para a frente, têm sido um modo de suportar o mundo denunciando-o, testemunhando-o. Na realidade, preferia não sentir qualquer vontade de escrever sobre o que quer que seja. Preferia, sobretudo, não sentir qualquer vontade de partilhar com os outros o olhar ferido das musas, as vacas que se nos chegam em sonhos e abortam o descanso. Não é defeito, é feitio. E a Ana sabe disso como ninguém. Olha-me e diz: não devias ter comprado o jornal. Depois sugere passeio para sul, até ao Zavial, no encalço de uma paisagem apaziguadora. Ela sabe. A Beatriz bem pode queixar-se do vento, a mim já ninguém tira a pele rachada pelo sol, os “olhos estriados de sangue”, a areia enfiando-se em cada poro enquanto o coração adopta o ritmo dos menires. Perguntam-me: qual é o ritmo dos menires? É um ritmo lento, calmo, sereno, é um ritmo antigo, talvez “fora do mundo”, um ritmo ultrapassado pelo tempo, ou o ritmo próprio do tempo que passa sem ser preciso matar o tempo, porque até as pedras envelhecem, mas mais lentamente que os homens. Recordo que acabei por ali os Cem Anos de Solidão. Há muito que tenho por hábito fazer-me acompanhar por clássicos nas férias. Na casa da Esteveira li, entre outros, O Vermelho e o Negro, Debaixo do Vulcão, Moby Dick, autênticos menires da literatura, livros que são um tempo sem tempo a envelhecer mais lentamente que a maioria dos livros. Outrora acampei em Sagres. Já lá vão uns sete ou oito anos antes da última vez, antes das praias terem sido invadidas por idiotas à procura de outros idiotas que as revistas de gente idiota gostam de promover. E agora ocorre-me: ermida de Nossa Senhora da Guadalupe, um mistério templário por resolver, o sol a nascer e a pôr-se na mesma direcção, um mirone na zona nudista, a anatomia das pedras organizada em cores, o viandante, o vermelho ferrugíneo das figuras vibrantes, vasta e seca panorâmica, rochas douradas, planície, um cão de guarda ao monumento megalítico, um clássico.

sábado, 22 de agosto de 2009

BASQUIAT




Aproveito as manhãs para avançar algumas páginas n’A Montanha Mágica: «Quem não apresenta os vinhos mais caros e distintos nos banquetes, perde os convivas e não consegue casar as filhas» (p. 227). É o que me aconteceria se continuasse a presentear as visitas com a pomada do Rogil, este ano substituída por outros néctares mais em conta para o fígado. Reparo que o tanque é visitado amiúde por rolas turcas e pegas de rabo azul. À noite, em conjunto com grilos e cigarras, mais o mugido ocasional das vacas, produzem uma banda sonora bastante agradável, poesia que escapa aos desalojados da cidade. O Basquiat anda sempre com as antenas em riste, entretém-se a mascar ervas e a espantar os gatos que se aproximam atraídos pelo cheiro a peixe grelhado. Ontem pregou-nos uma partida. Antes de irmos para a Amoreira, uma das praias cuja paisagem perdeu quase todo o encanto com a chegada em massa dos “amigos do ambiente”, passámos por casa da dona Lurdes para reclamar de um cano entupido na casa de banho. Estávamos na praia, quando a Ana recebeu um telefonema aflito dando conta do desaparecimento do “mutante canídeo” enquanto o cano era reparado. O valente deve ter estranhado os invasores e pôs-se a milhas. Meti-me no carro e acelerei o mais que pude, de olhos bem abertos a ver se avistava algum novelo de pêlo branco saltitante. Era pouco provável que fosse encontrá-lo muito distanciado da mansão, mas qual não foi o meu espanto quando o avistei vindo do lugar das vacas, junto a uns estábulos abandonados, quase no cruzamento que apanha a estrada principal do Rogil. Ora, entre a Esteveira e o cruzamento ainda vão, pelo menos, uns três quilómetros. Tendo em conta que o cachorro zarpou na direcção contrária ao percurso viário, para os lados de Maria Vinagre, só pode ter vindo ali parar atravessando os campos de pasto das vacas, as pequenas hortas e os milheirais que compõem a paisagem. Tê-lo encontrado foi uma sorte. Quando o vi, contei-lhe que aquele acto de traição merecia o mesmo castigo que os colonos da América do Norte infligiam aos traidores no séc. XVIII: «O castigo por traição era ser enforcado, cortarem-lhe a corda vivo, estriparem-no, forçá-lo a ver as próprias entranhas a serem queimadas diante de si, e por fim ser decapitado e esquartejado» (Bill Bryson). Mas depois pensei melhor e verifiquei que não havia traição na fuga. Afinal, assim que eu buzinei o quadrúpede correu felicíssimo na direcção do carro. Até acabei por sentir um certo orgulho na aventura do cão. Fez-me lembrar os tempos em que eu fugia de casa quando ia vazar o lixo. O espírito deve ser mais ou menos o mesmo, essa necessidade de aventura e de liberdade que força a partir quem pondera menos do que age. Estou agora a imaginá-lo de roda das vacas, calcorreando tomateiros e atravessando milheirais, farejando a terra na direcção de alguma coisa que ele lá saberiaa o quê, provavelmente os donos, provavelmente uma cadela que lhe meteu as necessidades em alvoroço. Imagino-o perdido na paisagem e invejo-o.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

MAR




Tanta conversa sobre provisões de guerra, e quase me esquecia do essencial: o mar. Sobre o mar já muitas e belas páginas foram escritas, não posso senão proferir banalidades, redundâncias, lugares-comuns. Tenho-lhe respeito. Sinto pela força do oceano algo semelhante ao que os nómadas do deserto sentem pelas tempestades de areia, o mesmo tipo de respeito e admiração que alguns povos declaram pelas erupções vulcânicas, pelas monções, pelos tornados. Sabemo-lo traiçoeiro, perigoso, inexorável, mas não resistimos ao seu apelo. A beleza dos grandiosos elementos da natureza reside na capacidade com que nos reduzem à insignificância que ao longo dos tempos procurámos iludir com supostas conquistas e engenhosas invenções. Ao pé desses elementos, somos animais de talentos muito limitados, tudo se torna ínfimo e insignificante. Que podemos almejar de um mergulho no Mar Oceano? Se formos sensíveis e honestos, uma expurgação da arrogância com que enfrentamos a vidinha quotidiana. É interessante notar que essa mesma expurgação pode ser experienciada com uma simples caminhada matinal. Hoje, por exemplo, levantei-me às 8 da manhã, meti A Montanha Mágica às costas e fui até ao Rogil. Levava fisgados um café e uma aguardente de medronho nos Três Arquinhos, na companhia de uma fauna à qual sacamos diálogos tão estimulantes como este: − Precisas de serventes? − De cervejas? − Também gosto. E entre vários tirinhos a conversa vai fazendo caminho, numa mesa repleta de velhas glórias do mar convertidas à construção civil. O mundo está a mudar. Exemplos: a aguardente de medronho foi substituída por bagaço, os pescadores transformaram-se em pedreiros, a vizinhança desapareceu (a velhota que vivia 150 metros a sul atirou-se para dentro de um poço, ao velhote que vivia 100 metros a norte, produtor de uma aguardente de aroma e textura inigualáveis, falhou o coração). No mar só se vêem turistas de fato de mergulho e um ou outro resistente da pesca à linha. Só o escaravelho americano, que dá cabo de tudo, veio para não mais partir. Não me censurem, pois, por ceder à caipirinha enquanto abano a brasa. Muito antes das minhas fraquezas, um senhor chamado Scieffelin povoou a América com estorninhos e milhões de elementos das tribos Cheyenne, Comanche, Apache, Navajo, etc., foram esquartejados por causa do comércio das peles e do tabaco. É óbvio que não deixo o meu paladar ser colonizado sem regras. As caipirinhas que bebo, sou eu ou os amigos que as fazem. Devo ao Álvaro a iniciação. Raspo as limas, esmago-as o mais possível enquanto misturo o suco com açúcar louro; despejo o xarope para um shaker com gelo bem picado e uma dose considerável de cachaça; misturados os elementos, verto o líquido para um copo com mais gelo e polvilho tudo no final com as aparas das limas. A vantagem da caipirinha relativamente ao vodka 7, que durante vários anos imitei do Bukowski, é o ácido das limas, que evita enjoos indesejáveis e oferece ressacas mais facilmente recuperáveis. Para dizer a verdade, nunca ressaquei de caipirinhas. Acompanho o peixe grelhado ou as carnes, os polvos ou outro petisco qualquer, com vinho ou cerveja. Portanto, ressaco das misturas. Nunca de uma coisa só. Mas julgo que dá me adiantei demasiado num texto que deveria ser apenas sobre o mar, essa auto-estrada de colonizações que muito recentemente começou a vingar-se da unilateralidade.

PRAIA




Quero aqui dar graças ao Dr. Gambino pela receita de Formoterol e Miflonide, que me tem permitido fumar sem quaisquer constrangimentos. Neste aspecto, sinto-me em perfeita sintonia com Hans Castorp, que não conseguia perceber como há pessoas que não fumam. Não vou ao ponto de asseverar que não teria coragem para me levantar se soubesse que não tinha tabaco para o dia, mas agrada-me a comparação que a personagem de Thomas Mann faz entre o acto de fumar e estar na praia: «estamos simplesmente na praia e não precisamos de mais nada, nem de trabalho nem de diversão». Durante muito tempo fugi da praia como o diabo da cruz. Foi a Ana quem me pegou o vício. Hoje em dia, não passo sem um mergulho na água salgada, o corpo enrolado na areia, um passeio à beira-mar. A vantagem da maioria das praias que frequentamos por aqui é a dificuldade do acesso. Os promontórios, as altas falésias, abrigam-nos de ventos indesejáveis e das hordas turísticas que invadem as praias rasas de dunas e de areais relativamente extensos. Em algumas delas, sentiria falta de uma esplanada não fosse o caso de me ter artilhado de uma geleira com doses de minis suficientes para uma tarde bem passada. Dispenso assim esplanadas e cafés à beira-mar, costumam ser caros, sujos e demorados no atendimento. Com a geleira à mão, estica-se o braço e regala-se a garganta. Intercalo mergulhos de sol e de mar, com algumas leituras e brincadeiras na areia. A Beatriz tem receio das ondas, mas a Matilde é afoita. Quando a maré vaza, um espectáculo de flora outrora submersa dá à costa. É como se as rochas se levantassem do sono e ali viessem entreter-nos com indescritíveis arco-íris de algas, limos e outros tipos de vegetação cujo nome desconheço nem faço questão de conhecer. Prefiro deixar os olhos regalarem-se nas cores sem buscar nomes para o regalo, prefiro sentir o gozo sem o nomear, prefiro andar pelas rochas, avistando uma estrela-do-mar ou um viveiro de lesmas sem mexericar nesses incríveis fenómenos com as antenas dos dicionários. Noutros anos, quando me levantava às seis da manhã para ir aos polvos na companhia do Vivaldo e do Luís, aprendi muitas palavras novas que não fazem justiça ao prazer proporcionado por andar entre essas coisas sem lhes saber o nome. O espanto de as visitar anonimamente é muito mais agradável. De resto, ninguém apanha polvos por saber que se chamam polvos. E quase sempre regressámos a casa com pouco mais do que um balde cheio de percebes e meia dúzia de santolas.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A CHAMA





Antes de uma tarde inteira de papo para o ar na Arrifana, parámos numa mercearia junto ao mercado de Aljezur para comprar limas, pão e alho com fartura para os polvos. A Ana tinha combinado jantarada na mansão com um casal amigo. Quando vi as tropas chegarem, ia-me dando uma coisinha. Depois de uma manhã em que passaram por aqui, vá lá, um homem e uma mula, cinco putos e dois casais e meio é muita fruta. Quase certo que me vão espantar os grilos. Tudo bem contado, éramos 7 adultos e 7 crianças, 14 bocas famintas e sedentas. Despachámos primeiro os pequenos, para depois darmos ao dente livre e descansadamente. Já com os polvos cozidos, a Ana chamou-me para o bico do fogão enquanto descascava batatas. Enchi uma frigideira de azeite, descarreguei para lá alho em doses generosas e, já com o lume desligado, embebi os coentros naquele magnífico aroma que serviu para regar os tentáculos da bicharada. Ficou um chorar por mais. No entanto, confesso que não me desajeitando ao fogão sinto-me muito mais à vontade na grelha. É de volta da brasa, com uma caipirinha por companhia, que os meus olhos brilham. Ainda ontem, quando ateava o lume para as febras que as visitas trouxeram, lembrei-me dos olhos da Adília Lopes fixados no lume enquanto eu e o Moura assávamos um chouriço no Clandestino, ao Bairro Alto. Estou convencido de que o meu olhar não há-de ser muito diferente quando meto a mão na grelha, borrifo as brasas, viro as carnes, espreito a gordura dos peixes a escorrer sobre o fogo. É um olhar dividido entre o fascínio e a alucinação, um olhar primitivo, de um espanto infantil. Fico a olhar as brasas, atento às chamas que o carvão possa cuspir contra as carnes, como se olhasse uma paisagem dos primórdios do mundo. É para lá que viajo, para os primórdios do mundo, sempre que ateio as pinhas e meço o calor às brasas.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

CRISE DE LIMAS





Entre Caldas da Rainha e a Esteveira, uma breve paragem na Sonega para voltar a experimentar as costeletas d’A Casinha. Chegámos a boa hora. Casa vazia, uma sala só para nós, as miúdas à vontade depois do enfado de uma viagem que a Beatriz vingou aos pontapés no Basquiat, o Basquiat ultrapassou assaltando o colo dos donos e a Matilde ocupou com dúvidas imensas sobre o reinado da fantasia. A Ana acompanhou-me no tinto, deixando claro ao segundo copo que a partir dali iria eu ao volante. Até então, tinha vindo de pendura a regalar os olhos com as vistas e páginas muito a propósito do Fallorca: «A tradição ainda tem muita força e, em muitos casos, manifesta-se pela boca» (Entre Chipiona e Tarifa, 2002). O nosso “mutante canídeo” é que não teve a mesma sorte dos nossos estômagos. Nem de um osso de costeleta nos lembrámos para o pobre desgraçado, que vai ter de se aguentar o resto da viagem com as biqueiradas da Beatriz. Regresso à mansão da Esteveira sabendo que daqui terei de partir para voltar ao meu sótão das Caldas, mas sobre idas e voltas não teço quaisquer considerações. Prefiro aproveitar o estar a perder-me no e depois. Garanto apenas que não me importaria nada de vir experimentar a solidão para aqui durante uns tempos. É certo que as férias oferecem-me um conforto que não existiria se tivesse que fazer a vidinha sem contar com os simpáticos aconchegos da dona Lurdes e do mestre Vivaldo, que nos brindam à chegada com 50Kg de batatas, uma dúzia de ovos, 3 polvos, um saco com tomates e pimentos. Este ano também não nos deixámos ficar atrás: roupa para a neta mais nova, pão-de-ló do Landal e ginja de Óbidos. Seja como for, antes de atearmos o lume das elucubrações melancólicas é preciso atestar o frigorifico. Descemos a Lagos e, atestada a bagagem de víveres, espantamo-nos com a ausência de limas. Temos a cachaça, o açúcar louro, o gelo, faltam as limas. Nem no Modelo, nem no Lidl, nem no Pão de Açúcar. O país atravessa uma crise de limas. A minha sede também.

domingo, 16 de agosto de 2009

ÉRAMOS COBARDES PORQUE QUERÍAMOS VIVER


Ontem vendi um livro de Charles Bukowski. Foi quase como se estivesse sentado ao balcão com Henry Chinaski, brindando à vida sem grande coisa para brindar. 89 anos sempre são 89 anos. Bukowski nasceu na Alemanha a 16 de Agosto de 1920 e faleceu em Los Angeles no dia 9 de Março de 1994, tinha 74 violenta e porcamente bem vividos anos de vida. Aportou nos states com três anos de idade, e foi ficando pela cidade dos anjos iniciando-se na pancadaria, na bebedeira, na foda, nas máquinas de escrever. «Quanto menos acreditássemos na vida, menos tínhamos a perder» (A Sul de Nenhum Norte, p. 53). Discípulo informal de John Fante, tinha no rosto a deformação que atingiu o mestre nas pernas. Cá por mim, há sempre uma certa dor a alimentar estes modos físicos de escrever, esta violência verbal que resulta, ao mesmo tempo, numa espécie de vingança e hino contra e à vida. Antes de se dedicar inteiramente à escrita, o nosso herói foi carteiro, camionista, etc. Um escritor camionista em Portugal seria, no mínimo, motivo de gozo. Por cá é tudo doutor e engenheiro, filho, primo, afilhado de. Publicou a primeira estória em 1944, tinha 24 anos. A poesia aconteceu-lhe em livro mais tarde, por volta dos 35. Publicou em vida mais de 45 livros, entre os quais o romance Mulheres (1978) e a colectânea de contos A Sul de Nenhum Norte (1973) estão traduzidos para português e editados, respectivamente, pela Dom Quixote (1992) e Relógio D’Água (1997). Bukowski está hoje traduzido em mais de 12 línguas, a sua prosa violenta e obscena tornou-se motivo de culto em todo o mundo. Por trás dessa prosa, uma vida nada prosaica: muito jogo, muito álcool, a choldra, as mulheres, a solidão. «A pior coisa para um escritor é conhecer outro escritor, e pior que isso, conhecer muitos escritores. São como moscas em cima da merda» (Mulheres, p. 55). Quiseram rotulá-lo de beat, mas ele nunca quis nada com Buda e só foi nómada naquele modo estático de não conseguir deixar de estar à deriva sem sair do mesmo lugar. Estava mais interessado nas mulheres, nas canções de Randy Newman e nas corridas de cavalos do que no Papa Burroughs. Basicamente, nunca quis nada com nada, nunca quis agarrar-se a qualquer coisa para esperar pela morte. Talvez o álcool: «Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa» (Mulheres, p. 172). E as mulheres… Viveu vários anos e ter-se-á mesmo casado com Janet Cooney Baker, dez anos mais velha e dez vezes mais bêbeda. Jane faleceu em 1962. Casou-se com Barbara Frye, editora da revista Harlequin. O casamento durou dois anos. Viveu uns tempos com Frances Smith, de quem teve uma filha. E em 1985 casou com Linda Lee Beighle, 25 anos mais nova, já ao volante de um BMW, a viver numa casa com piscina e a escrever para um computador. Um selvagem, dirão; um louco, dirão; poeta menor, dirão… Há-de haver sempre quem prefira fazer da passagem pela terra um mero dizer. «Podem perguntar a quem quiserem: eu não sou pessoa muito simpática, nem sequer conheço a palavra. Sempre admirei o mau da fita, o fora-da-lei, o filho da puta. Não gosto daquele tipo de gajos que andam sempre de barba bem feita e têm gravata e um bom emprego. Gosto de homens desesperados, homens de dentes estragados, de alma estragada e de modos estragados. São gajos que me interessam. Despertam-me interesse. São gajos cheios de surpresas e de explosões. Também gosto de mulheres ruins, dessas putas bêbadas e sempre a praguejar, que andam com as meias torcidas e a maquilhagem borrada. Interessam-me mais os perversos do que os santos. Com os vagabundos sinto-me eu à vontade, pois sou também um vagabundo, não gosto de leis, de morais, de religiões e de regras. Não gosto de me deixar moldar pela sociedade» (A Sul de Nenhum Norte, p. 209).

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

MARRAQUEXE


Desçamos ao subterrâneo dos palácios em ruínas, secas torres onde as cegonhas fazem ninho, desçamos aos jardins afundados pela sombra, o calor não nos mata a sede, desçamos. Debaixo da cidade vermelha, os tesouros afundados da história. É sempre assim: por mais que nos comova, o passado não mata a fome.



Apáticos como as serpentes, respondemos à música dos encantadores. Das sirenes surdem cânticos que não entendemos, mas param por breves instantes o sangue derrotado pela azáfama sem horas. À hora certa, como a serpente numa masmorra, deixamo-nos cativar pela oração do muezzin. Não quero compreender este fascínio. Compreendê-lo, seria o mesmo que dar cabo dele.




Mas que pensar da criança que nos pede os restos das tajines, lambuzando-se num osso que julgaríamos apenas osso não fosse a satisfação daquelas lambidelas? Haverá pobreza nesta pobreza? Haverá dor nos dentes expostos como se fossem parafusos sem gengiva? Um sumo de laranja, a perna temporariamente tatuada com hena, como temporário será o gosto da laranja escorregando na garganta. Que perdure então a memória da criança, lambuzando-se num osso como se fosse um cão.




Para tudo haverá uma cura, uma pedra, um chá, uma pomada, para tudo haverá um cheiro, uma cor, para tudo haverá um frasco contendo segredos ancestrais. Na praça, os contadores de histórias logram imensa audiência. O povo reúne-se em torno da voz antiga. Ora ri, ora espanta fantasmas com a boca aberta de quem está compenetrado. Com menos audiência, escutamos nós em língua inteligível a explicação das ervas. E seguimos duplamente perfumados: o corpo lustrado de âmbar, a alma perfumada de ouvir.






Descansa, mergulha por instantes na calmaria das águas o teu corpo tenso. Logo se agitarão com promessas, dúvidas, dívidas, os músculos que agora relaxam. Se algum dia pensares no sol, lembra-te: é debaixo de uma sombra que ele mais embeleza o mundo.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

BURN AFTER READING




Sei de gente obcecada com nenhures, convencida de uma importância que não tem nem nunca terá, gente paranoicamente consumida pelo estímulo da perseguição, que a toda a hora projecta nos outros os seus mais recalcados vícios, sei de gente que, vista de perto, é como um imenso lago visto da estratosfera, ou seja, nada, gente que se julga mais gente do que na realidade é. Sei de gente que anda sempre à procura de alguma coisa com os olhos no horizonte, gente que olha tanto para a frente que nem repara na merda de cão que pisa enquanto anda, porque é gente que não olha para os próprios pés nem nunca os traz descalços, é gente que passa a vida a tentar olhar o mundo por cima dos ombros de outra gente, arrastando consigo o caos dos equívocos que matam e ferem e deixam cicatrizes impossíveis de sarar. Os departamentos de estado devem rebentar pelas paredes de gente assim, gente que olha para tudo com um terceiro olho e procura no vazio alguma coisa que possa estar cheia, uma coisa que não se sabe bem o quê, gente que paga e despende, gente que desperdiça os dedos sem olhar as unhas, gente com garras de borracha e vestidos de organdi. Os departamentos de estado simpatizam com gente assim. Esta gente é o sexo dos anjos, um sexo murcho e cobarde a agir por antecipação, um orgasmo precoce que não tem escrúpulos na traição porque é gente que desde pequena se trai a si própria. Por alguma coisa, todos queremos alguma coisa. Ansiamos pelo nosso dia, pela hora h, pelo momento de sorte que até aos nascidos sem cu causa excitação. Mas não nos excitemos em demasia. Quando menos esperamos, o que julgávamos grande torna-se pequeno. Nestas coisas é preciso ter o olho da demora. Não vale a pena querer ver a Terra da lua se nem para a vermos dentro da nossa própria casa temos olhos. Pousemos a cabeça sobre a nação. As conspirações apenas nos ensinam que nada temos a aprender.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

SIMPLEX

Resolvi expor o caso ao DSITARP, o qual reencaminhou a exposição do problema para o DSGCT. Na ausência de uma resposta do DSGCT, voltei a enviar o mesmo e-mail. O DSGCT respondeu-me:
Exmo. Sr. ou Sr.ª:
A exposição em causa, trata da restituição de valores pagos em execução fiscal de coima cujo processo de contra-ordenação foi anulado. O seu e-mail foi reencaminhado ao Serviço acima indicado, o qual deverá contactar para assuntos desta natureza.

Na qualidade de Sr.ª, fiquei a pensar qual dos Serviços acima indicados seria aquele que eu deveria contactar: se o DSJT, se o DSGCT-DGPCT, se o DSJT–AAI. Na qualidade de Sr., mandei-os à merda.

DE PAI PARA FILHO II

A. M. Pires Cabral: Os filhos dirão: o pai gostava de.
Rui Pires Cabral: Lembrar-me de ti significa / medir uma distância dentro de mim próprio.

DE PAI PARA FILHO I

Emanuel Jorge Botelho: podia sentar-te no meu colo.
Renata Correia Botelho: foi quando percebi que há colos onde vivemos / a vida inteira.

EMANUEL JORGE BOTELHO


Quando a revista LER era uma revista de jeito, dava-nos a conhecer poetas como Emanuel Jorge Botelho. Foi ao n.º 27 (Verão de 1994) e ainda hoje estou para perceber o quanto me terá marcado aquela entrevista. Estou certo de que me marcou, e a palavra marcante é de todas a mais importante. O autor açoriano comemora hoje 59 anos, nasceu a 11 de Agosto de 1950 em Ponta Delgada. Aos menos atentos, fique a notícia de um poeta estreado nos oitentas com pequenos livrinhos de circulação muito restrita. O primeiro, se não me enganam, intitulava-se Terra Mote ou a Destruição dos Búzios. Interrompeu a insularidade durante cinco anos passados na capital. Regressou a São Miguel, casou – é pai de Renata Correia Botelho, que publicou Avulsos, por causa em separata distribuída com o n.º0 da revista Magma e participa no n.º12 da revista Telhados de Vidro - leccionou, escreveu. Além das participações em revistas e das edições de autor, há a sublinhar, entre outros, os folhetos dados à estampa na colecção subterrâneo três da &etc. O primeiro, Full Auto Shut Off, data de 1981. António Sérgio Silva evocava-o nos seguintes modos: «Emanuel Jorge Botelho aproximava-se, então, da geração beat, do seu universo de referências, desde a música ao néon das noites citadinas, da vagabundagem até auma contracultura que englobava escritores como Ginsberg e Kerouac, aliás, citado pelo poeta. (…) Para além disso, o abjeccionismo que surge ao longo do discurso salienta a auto-exclusão social do poeta e critica as limitações do mundo burguês». Mas por esta altura os beat já levavam, pelo menos, 30 anos em cima dos costados. Mesmo tendo em conta a chegada tardia a Portugal de tudo o que foi vanguarda lá fora, o que importa salientar é uma afinidade poética que se constrói em relação com o espaço geográfico e as experiências vividas. Dos tempos lisboetas fique em acta as amizades com Paulo da Costa Domingos, Vítor Silva Tavares, Rui Baião, Luís Manuel Gaspar. Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião incluíram-no na antologia Sião (1987). Da entrevista à LER, 3 momentos:

Há pouco tempo estive em Lisboa e saí de lá completamente estúpido. Era incapaz, neste momento, de viver em Lisboa. Senti-me como se fosse perseguido constantemente por toda aquela gente…

O meio literário português é capaz de ter graça; eu sei que ele existe, as pessoas contam-me histórias mais ou menos divertidas, mas não me diz grande coisa, nem me faz falta, sinceramente. Tenho muitos amigos, conheço muita gente, mas faço uma selecção muito grande em relação àquilo que quero ouvir ou posso ouvir. E há um número infinito de pessoas que cumprimento mas a quem não dou grande importância. Não sinto falta desse meio literário de que toda a gente fala… Sei que existe e que mexe e que é maldoso, sim senhor, mas é lá com ele. Se me fizerem alguma coisa não me chateio nada, e podem ficar descansados que não me importo.

É um lugar-comum, mas parece-me que a poesia tenta negar à morte o direito ao branco, à brancura, ao mar. Poesia e morte são duas coisas opostas, unidas nisso que resta da página do poema e que cada leitor é capaz de transformar. É nessa medida, também, que a poesia está ligada ao sagrado.

A ver: estes vídeos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

SÓ VOTO SE ME PAGAREM

Após o 25/4/1974 e passados os tempos do PREC, este país foi governado por dois partidos: PS e PPD-PSD. Mário Soares foi Primeiro-Ministro durante dois anos. As rapidinhas sucessivas de Alfredo Nobre da Costa, Carlos Mota Pinto e Maria de Lurdes Pintasilgo terão a sua relativa importância. Seguiram-se Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e, novamente, Mário Soares. Os GNR vêem Portugal entrar na CEE e a consciência política de um jovem nascido em 1974 adquire finalmente alguma consistência, remetendo para segundo plano o impacto cinematográfico da morte de Sá Carneiro. À experiência deste facto histórico, cola-se o rosto entupido de Aníbal Cavaco Silva. O queixo-calçadeira começa a governar os destinos da nação em 1985, encalhando 10 anos depois numa sucessão de escândalos que ofereceram muitas primeiras páginas ao Independente. Há quem diga que foram tempos de auto-estradas e pouco mais. Talvez o balanço ainda esteja por fazer, talvez nunca venha a ser feito. A impressão que fica é a de tempos desperdiçados, o dinheiro que vinha de fora a servir os jipes da média burguesia e a patrocinar muitas casas com piscina.


Manuela Ferreira Leite, que agora quer ser o que Cavaco foi, fez parte da trupe que deu forma ao cavaquistão. Tal como Cavaco, sabe rodear-se da gente certa. A presença de António Preto nas listas do PSD diz tudo. E a formiga atómica acrescenta: nós vamos ter um deputado que no exacto dia em que tinha de se apresentar na Polícia Judiciária para um teste de caligrafia foi ter com um cunhado que é médico no Hospital de Santa Marta, no serviço de cirurgia vascular (!), para engessar um braço por completo, do ombro até ao pulso. (…) O que diriam Rui Rio ou Pacheco Pereira se tivessem sido Luís Filipe Menezes ou Santana Lopes a colocar António Preto nas listas quando está acusado de fraude fiscal e falsificação e vai a julgamento este ano? Não sabemos o que diriam, sabemos que não dizem nada, ou então dirão o óbvio: ninguém é culpado, mesmo de um braço estrategicamente engessado, até ser julgado. Pacheco Pereira vai sentar-se ao lado deste indivíduo como se nada fosse, serão convenientemente camaradas. Leram Maquiavel da primeira à última página, leram-no tanto e tão bem que já não sabemos se o que pensam e como pensam é fruto de alguma réstia de dignidade ou do mais hipócrita pretensiosismo. Não fossem sapos de papo cheio, dariam belos príncipes.

«Todos vêem o que parecemos, poucos sentem o que somos» (Maquiavel). E o que vê um jovem nascido em 1974, acordado para a política após as alegres passadas de Soares nos Jerónimos? Vê que não sabe o que sentir acerca desta gente que há tanto nos Governa. Raiva? Asco? Indiferença? É que a história não acaba aqui. Em 1995 chega ao governo António Guterres. São os anos do diálogo por cima da arrogância cavaquista, são os anos da patinagem artística, do coração e da emoção, da pouca razão, são os anos do entretém com Jorge Coelho (que é feito?) e José Sócrates a meterem alguma faísca na melopeia franciscana de Guterres. O país confessa-se ao padre Melícias, Guterres fica a gaguejar contas. Em 2002, já com um segundo Governo às costas, farta-se do forrobodó e aproveita uma derrota nas autárquicas para desopilar daqui para fora. Não tenho saudades. Durão Barroso aproveita a deixa e mete o pé no bailarico. Passados dois anos, volta a aproveitar a deixa de uma Comissão Europeia de mão estendida aos invasores americanos e desopila daqui para fora. Não tenho saudades. Pedro Santana Lopes, ex-violinista de Chopin, ex-presidente do Sporting, ex-leitor de Alface, ex-concorrente de show televisivo, ex-marido de Cinha Jardim, ex-autarca, etc. e tal, é chamado a governar de braço dado com o Paulinho das feiras. Portas mostra espanto ao ficar com os Assuntos do Mar – que coisa tão vaga! – e a deriva pouco dura. O capitão Sampaio abre os olhos e atira borda fora estes embarcadiços aprendizes de marinheiros. Aparece Sócrates como um tiro de esperança. Vai ser posta ordem na casa. Pirata com ares de reformador, anuncia muito e, mérito lhe seja reconhecido, mete o país a mexer: os professores saem finalmente à rua (acredito que seja preciso muito para lhes levantar o cu conformado), a malta das farmácias começa a coçar as barbas, a malta das pistolas lamenta o fim de algumas mordomias tomadas por conquistas, as finanças continuam a ir ao bolso dos cidadãos e é ponto assente que vão com mais eficácia (o aumento do IVA foi o primeiro tiro no pé da pirataria em marcha), a justiça queixa-se, entre outras coisas, da revisão do Código de Processo Penal (já ninguém vai preso, lamentam, o que talvez se justifique dada a escassez de prisões), o Ministro da Economia acaba a investir contra o capote vermelho dos deputados comunas, a saúde fica doente como nunca sob pretexto de vir a ficar mais saudável que alguma vez (não vejo nada)…

A verdade é esta: Sócrates pôs o país a mexer. Santola sem conteúdo? Veremos. O que é certo é que mexungou como há muito não se via. Que a alternativa a isto possa ser um rosto do antigo cavaquistão causa-me alguma espécie. Sabemos que «as minorias só se tornam poderosas quando as maiorias não têm onde apoiar-se» (Maquiavel). Votar numa minoria fica sempre bem. Mas o CDS já foi encosto e só serviu para se servir a si próprio, a CDU simpatiza com a Coreia do Norte e o Bloco… o Bloco, numa ânsia de crescimento, começa a apoiar peralvilhos pelo país adentro com o mesmo sentido de oportunidade e com o mesmo critério, que é critério nenhum, dos oportunistas do poder. Podemos votar em branco, podemos nem sequer ir votar, podemos manter-nos fiéis ao POUS porque gostamos do som que a sigla faz quando rebenta. Concluo, então, «que é melhor ser impetuoso do que circunspecto, porque a fortuna é mulher, e é necessário, se se quer dominá-la, bater-lhe e feri-la» (Maquiavel). Perante a má fortuna que é ter nascido português, resta-nos naturalizarmo-nos utopos e cagar para as urnas com a mesma convicção com que temos cagado a vida inteira.

sábado, 8 de agosto de 2009

RAUL SOLNADO (1929-2009)


Há dias em que o público não tem talento.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

TIPOS DE BEIJOS


Diane Di Prima (n. 1934) faz hoje anos. Vemo-la na foto ao lado de LeRoi Jones, com quem fundou a revista The Floating Bear. Mais tarde ele converter-se-ia ao islamismo, ela apaixonou-se pelo budismo Zen e nunca traiu a veia anarquista que o avô materno lhe deixou de herança. O preliminar de Memoirs of a Beatnik (1969) é esclarecedor: «alguns venderam-se e tornaram-se ‘hippies’. E alguns de nós conseguimos manter a integridade aceitando subsídios do governo, ou a escrever livros pornográficos. O John Wieners enlouqueceu e anda maquilhado de Buffalo, o Fred Herko atirou-se duma janela, o Gary Snyder tornou-se sacerdote Zen. As hipóteses são mais que muitas.» Tempos belos? «Para nada serve a beleza / sucumbida, com hálito bolorento / envelhecido» (LeRoi Jones). Diane dedicou-se à poesia, escreveu muito, publicou mais, correspondeu-se com Ezra Pound, criou cinco filhos, iniciou nos ofícios esotéricos os neófitos aspirantes a poetas, viu tudo isso premiado pelas academias. Um percurso, reconheçamo-lo, exemplar. Casou e divorciou-se com e de Alan Marlowe e Grant Fisher. Era mestre na arte de beijar.

SOBRE O TEATRO DE MARIONETAS

Abrir o peito, agarrar os pensamentos e colocá-los nas mãos do outro.


Das figuras de proa do romantismo alemão, raramente é citado o nome de Heinrich von Kleist (n. 1777 – m. 1811). Citam-se frequentemente Goethe (n. 1749 – m. 1832), Schiller (n. 1759 – m. 1805) ou mesmo Novalis (n. 1772 – m. 1801), entre outros. Autor de uma obra que se destacou no terreno da dramaturgia, Kleist é antes recordado por aspectos biográficos que pouco informam acerca da sua importância enquanto autor. Refiro-me, nomeadamente, ao episódio que marcou o termo da sua curta vida: um pacto de suicídio com a amante Henriette Vogel, levado a cabo numa estalagem do lago Wannsee, perto de Berlim. Deixou-nos poemas, contos, dramas e um conjunto bastante diversificado de textos, dos quais podemos agora reter uma amostra na selecção traduzida e apresentada por José Miranda Justo.

Sobre o Teatro de Marionetas e Outros Escritos (Antígona, Junho de 2009) reúne textos provenientes, na sua maioria, da participação de Heinrich von Kleist no jornal diário Berliner Abendbläter. Há ainda duas fábulas inicialmente publicadas na revista Phöbus, da qual se publicaram 12 números co-dirigidos por Kleist e Adam Heinrich Müller (n. 1779 – m. 1829), restando três ensaios nunca concluídos, incidindo sobre temas éticos numa perspectiva algo clássica, dirigidos a um amigo e a Wilhelmine von Zenge (noiva de Kleist durante dois anos). Interessam-me sobretudo os textos da última fase, aquela que corresponde à actividade de Kleist enquanto responsável pela redacção do jornal supracitado. São textos geralmente breves que nos dão conta de um espírito inquieto e irónico, preocupado com as temáticas filosóficas do seu tempo e empenhado na denúncia dos seus vícios: «Faz com que me penetre completamente, da cabeça aos pés, o sentimento da miséria em que esta nossa era se arrasta, e com que me seja dado inteligir todas as fraquezas, imperfeições, falsidades e hipocrisias das quais decorre essa miséria» (p. 90).

Há no discurso de quem assim escreve uma vontade de agir que transcende o pântano das meras ideias. A citação, retirada de uma provável «declaração de princípios», dá-nos conta de um romantismo inconformado, mesmo quando o tópico alude a uma filosofia da beleza projectada pelo ideal romântico. A subjectividade do artista vem superar o princípio mimético da arte, os românticos da Sturm und Drang insistem na valorização do lado emocional, a “intuição do artista” é sublinhada mas nunca se opõe totalmente à racionalidade. «Ser arrastado só pela emoção é sentimentalidade, não é arte», dirá Ernst Cassirer. O que afasta Kleist dos seus contemporâneos é talvez uma perspectiva divergente sobre a Natureza, ou, dito de outra forma, um optimismo mais vacilante que leva o autor a situar os seus valores estéticos «no domínio do grotesco e de formas com ele aparentáveis» (p. 28).

Está em causa o problema da beleza, já não apenas a tempestade que conferiu à expressão a mesma dignidade da harmonia imitativa. O retrato sai especialmente subversivo no texto intitulado Novíssimo plano educativo: «Para o egoísmo, a mediocridade, o menosprezo em face de tudo o que é grande e sublime, e vários outros defeitos que podem ser aprendidos em sociedade ou simplesmente na rua, não será necessário contratar professores. / No que toca à falta de asseio e de ordem, à mania da briga e da querela, bem como à maledicência, o ensino será ministrado pela minha mulher. / A devassidão, o jogo, a bebida, a preguiça e a gula ficar-me-ão reservados» (p. 114). Voltamos a sentir a mesma perversão no texto que oferece o título ao presente volume.

A revolução coperniciana que permitiu novas teorias sobre o conhecimento, unindo a diversidade dos dados da experiência aos dados da razão, adquire em Kleist uma singular e paradoxal dimensão estética: o belo provém da espontaneidade com que o instinto e a razão interagem no sentido da supressão das leis, «à medida que a reflexão se torna mais obscura e mais fraca, a graciosidade se apresenta cada vez mais radiosa e soberana» (p. 143). Fazer desaparecer «língua, ritmo, harmonia sonora, etc.», deverá ser, pois então, o intento da arte. Eis uma porta aberta a todas as vanguardas que marcarão os séculos subsequentes. Hoje em dia isto dirá pouco aos apaniguados de uma Realidade coxa, que é sempre aquela que nós julgamos ser toda a Realidade sem nos darmos conta de que mais do que experimentarmos os outros nós somos experimentados. Um pouco como acontece com as marionetas.
Escrito para o Rascunho.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

VAMOS MEXER O RABO

«Tinha uma televisão / Mas aborrecia-me / Virei-a / Ao contrário / Do outro lado é fascinante» (Boris Vian). Fiquei a olhá-la dessincronizada no avesso. Só me levantei para ir mexer o rabo às portas do oceano. Uma bifana e duas imperiais, com as nuvens carregadas sobre a falésia a fazerem-me pensar num fumo sem fogo hipotético, imaginário, marginal. Regressei para longe do Trópico, algumas páginas de Marquesas, mais uma cerveja, uma soneca. A Matilde já anda de bicicleta, é um orgulho, uma pequena conquista no templo da velocidade. As ratazanas andam a dar cabo dos patos. Já vão cinco. A Matilde pergunta: por que não fazem uma dieta de ervas, o raio das ratazanas? Volto a colocar a televisão no lugar, sofro até ao minuto 95. «Ah como a vida seria triste / Se não se pudesse cantar» (Boris Vian). Dançai e cantai, marias e manéis. Outros patos virão. Ratazanas nunca hão-de faltar. Brindemos com licor de tâmaras.

«UTOPIA REVOLUCIONÁRIA»


Sigo o excelente estudo de Hélène Fleury que serviu de prefácio à edição portuguesa de A Máscara da Anarquia: Shelley, Um Exilado Entre Nós, em tradução de Eduarda Dionísio. Faz hoje 217 anos, o poeta inglês a quem chamam romântico. Mas o que significa romantismo na vida de Percy Bysshe Shelley? Significa indignação, as entranhas revolvendo-se perante a submissão e a subordinação, significa essa vontade de subverter que começou bem cedo, na escola, ao recusar vergar-se às humilhações exercidas sobre os caloiros. A experiência de Oxford forneceu-lhe os primeiros motivos de insubordinação. Convidava os colegas para vinho e poesia a altas horas, desprezava todo o tipo de autoridade. Publica um panfleto com o título A Necessidade do ateísmo, valendo-lhe a imprudência uma exemplar expulsão de Oxford. Conta Fleury que esta expulsão marcou o início do exílio, «viveu toda a vida sob vigilância policial, perseguido pelos credores, importunado pelos proprietários». Casa com Harriet Westbrook, contra a vontade do pai da jovem cúmplice; desbrava o seu próprio caminho afastando para as margens toda a intelligentzia que cedia ao poder. Há espíritos assim, aos quais os conformados chamam rebeldes. Outros falam em compromisso, parecendo temer o uso de palavras tão em desuso num mundo de bananas moles: resistência, liberdade. Shelley fez literalmente da poesia uma arma contra a prepotência e a tirania, a melancolia e o desespero que ecoarão em alguns poemas mais aceitáveis à luz dos cativos da canonização resulta dessa solidão que se abate sobre todos os que ousam ser livres num mundo avesso à liberdade. Foi solidário com o ludismo, o mais radical dos movimentos sindicalistas que eclodiu nos primórdios da Inglaterra industrializada. Parte para a Irlanda munido de propaganda contra «magistrados, políticos, homens de negócios». Afixa poemas nas paredes, manda imprimir panfletos, é vítima do arrivismo dos reformistas. Engraçado verificar que desde sempre e ainda hoje ser-se reformista não passa de uma dissimulada forma de arrivismo, uma ilusão que se atira sobre a consciência dos desfavorecidos como um véu de esperança que logo desaparece assim sejam alcançadas as ambições dos promotores da reforma. «Desconfiai desses impostores de cara lisa que, é verdade, falam de liberdade, mas que, pelos seus embustes, vos conduzem à escravidão», aconselha Shelley. Parte para o campo. Com Harriet e alguns amigos, fabrica balões de seda que enche de «escritos rebeldes antes de os largar (…) no céu nocturno de Inglaterra». Eis uma bela forma de se fazer publicar, dando asas aos poemas que vagueando sobre a Terra hão-de por força de leis naturais cair algures aos pés de um leitor. Não durará muito mais a relação com Harriet. Percy B. conhece Mary Godwin, a qual se tornará a breve trecho Mary Shelley. Separa-se de Harriet e perde a custódia dos filhos, vindo mais tarde a sentir o gume do remorso quando recebe a notícia do suicídio de Harriet. Em 1816 conhece o poeta Lord Byron, outro exilado da hipocrisia social. «Se a reputação escandalosa de Byron deu mais que falar do que a de Shelley, foi menos no terreno das ideias do que pelo seu comportamento ostensivo, que ultraja os bem-pensantes. De facto, o verdadeiro sujeito de desordem, irredutível às convenções da época, não há dúvida que é Shelley, o ateu confesso, o amigo declarado do fraco nos conflitos sociais, enfim, aquele que reivindica ardentemente a libertação da mulher tanto como a do homem no amor livre» — conclui Hélène Fleury. Shelley prosseguirá o seu caminho revolucionário na companhia de Mary, perseguido constantemente por um poder que relegava o poeta para uma vida de escândalos sucessivos. Os poemas de combate e as sátiras políticas da sua lavra abriam feridas que só o ostracismo podia sanar. Em 1822, aquele que sempre viveu tempestuosamente foi literalmente colhido por uma violenta tempestade. Não conseguiram os homens o que a Natureza cumpriu: o corpo de Shelley deu à costa depois do veleiro onde tinha embarcado ter naufragado no golfo de La Spezia. Morreu aos 29 anos, com a mesma idade de uma imensa maioria que anda hoje entretida a alimentar-se do biberão conformista das famílias bem instaladas.