No dia em que o Presidente da República vai falar à nação, lembro os portugueses de assuntos bem mais prementes: Luís Miguel [de Oliveira Perry] Nava nasceu em Viseu, precisamente a 29 de Setembro de 1957. Se fosse vivo, cumpriria hoje 52 anos de idade. Tal não se verificará, porque no dia 10 de Maio de 1995 alguém o assassinou no apartamento de Bruxelas onde o poeta residia. Pouco sei sobre esta história funesta. Dizem que foi degolado, mas nunca liguei muito ao assunto. Neste caso, a curiosidade tem sido desfeita por uma egoísta recorrência à obra. «Terei eu vivido desde que nasci?» ─ questionava-se Nava quando não podia sequer imaginar ser outra a questão que agora se impõe: estará o poeta vivo desde que morreu? Não só julgo que sim, como faço questão de o sublinhar. Uma das razões que o justifica é simples de entender. «Grande parte dos poemas de Luís Miguel Nava (embora sejam também o contrário disso, como veremos) constituem pequenas ficções que simulam a introspecção» (Silvina Rodrigues Lopes), são aquilo a que outrora se chamou poema em prosa e agora aparece, por vezes, confundido com a estória ou, nos casos mais limite, com a micronarrativa. Como bem notou Fernando J. B. Martinho, os textos em prosa de Nava, ou as suas «breves e perturbantes narrativas», «parecem deliberadamente jogar com a fluidez das fronteiras entre géneros». E este é, sem margem para dúvidas, um dos aspectos que mais admiro na obra poética de Luís Miguel Nava. Segundo me consta, essa obra começou a desenhar-se em 1974 com um livro, O Perdão da Puberdade, posteriormente rasurado da bibliografia activa. Um livro da juventude, pois claro. 1974 é o ano em que o autor de Vulcão (1994) conclui o ensino secundário, partindo no ano seguinte para Lisboa, onde se inscreve no curso de Filologia Românica. Casa-se em 1975, mas o casamento dura apenas três meses. Foi por essa altura que se deu um encontro determinante com Eugénio de Andrade. Nava destrói toda a sua obra inicial. Em 1978, ainda antes de terminar a licenciatura, recebe, pela obra Películas (Moraes, 1979), o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. Seguem-se um mestrado de Literatura Francesa, colaborações como crítico literário em jornais e revistas, A Inércia da Deserção ( &etc., 1981) e Como Alguém Disse (Contexto, 1982), assistência no Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras. Em 1983, parte para Oxford. Aí permanecerá, durante três anos, como Leitor de Português. Em 1984, a &etc. publica-lhe mais um livro: Rebentação. Passa a residir em Bruxelas a partir de 1986, ocupando o lugar de tradutor no Conselho das Comunidades Europeias. Viaja pela Europa, Marrocos, Tunísia, México, etc.. «O Luís Miguel ficava atento aos pormenores do quotidiano das pessoas amigas. E do México ou doutro sítio qualquer inquietava-se com as dificuldades minhas, cá em Bruxelas. Mandava postais de todos os lados, com palavras bem sentidas. O Luís Miguel tinha um jeito especial para contar histórias engraçadas. Mas, no fundo, era pessimista, ou melhor, fatalista» ─ conta Marie Claire Vromans. Deixou livros de ensaio, uma Antologia de Poesia Portuguesa ─ 1960/1990, uma Fundação com o seu nome, que publica, desde 1997, a revista Relâmpago, vários livros de poemas e colaboração dispersa por jornais e revistas. Em Março de 2002, foi editada, pela Dom Quixote, a sua Poesia Completa. Todas as evocações aqui citadas, assim como a imagem do poeta ao alto, foram copiadas do n.º 1 da revista de poesia Relâmpago, publicada em Outubro de 1997.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
MIAU, MIAU
sábado, 26 de setembro de 2009
VIVIENNE & EMILY
Há 10 anos ainda valia a pena comprar jornais. Um deles era O Independente, do qual coleccionei, entre outras pérolas, uma revista de traduções chamada Best Of. O texto que se segue é um fragmento de um artigo de Barbara Everett, originalmente publicado no The Times Literary Suppplement, intitulado Que ansiedade maior continua a provocar o poema do século XX? A tradução é de Vasco Corisco. Os sublinhados são meus.
Tendo sido uma paixão de juventude de Eliot ─ a princípio através de cartas (em 1927 e 1930) ─, Emily Hale, de Boston, voltou a surgir completamente na vida de um homem que em meados dos anos trinta estava definitivamente separado da mulher neurótica e extremamente difícil com quem tinha estado casado muito tempo. Durante 1934-5, Emily chegou da América com as suas figuras paternais, o tio e a tia, o Reverendo John e a Sra. Perkins, para ficar em Chipping Campden, em Gloucestershire, onde Eliot os visitou.
Como homem solitário e complexo, capaz de um romantismo intenso, Eliot escreveu quase mil cartas a Emily. Mais tarde, veio a admitir ter estado apaixonado por ela. Contra isto tem de ser dito que, sempre que Eliot quis casar com uma mulher, fê-lo: a primeira vez com uma infelicidade amarga, se bem que criativa, a segunda vez com uma enorme felicidade (se bem que menos criativa). Não sabemos o que realmente aconteceu em "Burnt Norton", nem mesmo a altura em que o poeta terá visitado o local com Emily. A Sra. Perkins era jardineira e fotógrafa de jardins. Quando apresentou os seus diapositivos à Sociedade Real de Horticultura, em 1948, Eliot escreveu-lhe, recordando e relembrando que, de todos esses jardins, Hidcote Manor (presumivelmente visitado na sua companhia) "foi do que mais gostei". An Imperfect Life cita outra frase bastante útil, sem parecer saber exactamente o que fazer com ela, que também nos deixa a pensar, na qual Eliot observa "sinistramente" (acerca dos Perkins) "que bem que Campden assenta aos dois, com a sua atmosfera do velho mundo, empestada de morte". (…)
"Burnt Norton" é um poema. Não é uma autobiografia, nem uma biografia, nem uma topografia ou história. Se tivermos de o ler e, por assim dizer, precisarmos, façamo-lo pelo seu valor humano. Esse valor não consiste num encontro teórico com uma mulher sombria. Respeitamos as biografias, que tentam trazer nova luz a uma figura pública, explorando histórias privadas; para além disso, mulheres como Emily Hale e Mary Trevelyan (que teve um papel comparável, embora mais pequeno, na existência diária de Eliot) suscitam simpatia, bem como interesse. Mas não há dúvida que Eliot trouxe às suas vidas uma excitação e concentração emocional que, supostamente, nunca teria existido para elas sob qualquer outra forma. Ele alegrou vidas que de outro modo seriam vazias, e a satisfação pode ter-se misturado com a amargura triste que atingiu as duas quando casou, dado que tornara claro a ambas que casar com elas estaria fora de questão. Deve ser claro para observadores objectivos que existiam limites à amizade leal do poeta por elas. Na minha opinião, existem limites semelhantes ao protagonismo da profundamente nostálgica afeição romântica que o poeta sentiu por Emily na sua obra. "Burnt Norton" pode ser melhor lido se afastarmos dele a legenda de Emily.
Num pequeno livro sobre Eliot, o eminente crítico Northrop Frye queixou-se uma vez com vivacidade:
Burnt Norton é, segundo nos dizem, o nome de uma casa de campo em Gloucester [sic] que ardeu no século XVIII. A sua relação com o poema, em palavras eufemísticas, não salta à vista, para além de uma sugestão muito vaga da casa de um “milionário arruinado”.
O leitor só pode apreciar esta frontalidade, nem sempre frequente entre os estudiosos de Eliot. Não estou certa se algum outro crítico se questionou precisamente sobre o que Burnt Norton tem a ver com "Burnt Norton". E, de facto, o leitor pode ver a utilidade da noção de um ditoso encontro com Emily (que pode nunca ter visitado o jardim). Mas se Emily for afastada do sentido humano do poema, que nos resta?
(…)
Talvez Eliot tenha reconhecido, no nome de Burnt Norton, um paradoxo ao mesmo tempo irónico, secular e espiritual. Era um homem de consciência pública devotadamente interessado na tradição. Mas estava plenamente consciente, na década de trinta, antes e depois, que a tradição depende de uma consciência individual empenhada. A tradição inglesa, tal como as suas casas, é feita de ruinosas continuidades particulares. O amor, esse construtor de casas, é com demasiada frequência, para o ser humano, fogo e destruição (The Fire Sermon: "Arder, arder, arder, arder".). A alma é uma Burnt Norton que não consegue escapar ao fogo, mas consegue aprender a viver perpetuada pela sua chama.
Na imagem: Vivienne Eliot, a neurótica.
Tendo sido uma paixão de juventude de Eliot ─ a princípio através de cartas (em 1927 e 1930) ─, Emily Hale, de Boston, voltou a surgir completamente na vida de um homem que em meados dos anos trinta estava definitivamente separado da mulher neurótica e extremamente difícil com quem tinha estado casado muito tempo. Durante 1934-5, Emily chegou da América com as suas figuras paternais, o tio e a tia, o Reverendo John e a Sra. Perkins, para ficar em Chipping Campden, em Gloucestershire, onde Eliot os visitou.
Como homem solitário e complexo, capaz de um romantismo intenso, Eliot escreveu quase mil cartas a Emily. Mais tarde, veio a admitir ter estado apaixonado por ela. Contra isto tem de ser dito que, sempre que Eliot quis casar com uma mulher, fê-lo: a primeira vez com uma infelicidade amarga, se bem que criativa, a segunda vez com uma enorme felicidade (se bem que menos criativa). Não sabemos o que realmente aconteceu em "Burnt Norton", nem mesmo a altura em que o poeta terá visitado o local com Emily. A Sra. Perkins era jardineira e fotógrafa de jardins. Quando apresentou os seus diapositivos à Sociedade Real de Horticultura, em 1948, Eliot escreveu-lhe, recordando e relembrando que, de todos esses jardins, Hidcote Manor (presumivelmente visitado na sua companhia) "foi do que mais gostei". An Imperfect Life cita outra frase bastante útil, sem parecer saber exactamente o que fazer com ela, que também nos deixa a pensar, na qual Eliot observa "sinistramente" (acerca dos Perkins) "que bem que Campden assenta aos dois, com a sua atmosfera do velho mundo, empestada de morte". (…)
"Burnt Norton" é um poema. Não é uma autobiografia, nem uma biografia, nem uma topografia ou história. Se tivermos de o ler e, por assim dizer, precisarmos, façamo-lo pelo seu valor humano. Esse valor não consiste num encontro teórico com uma mulher sombria. Respeitamos as biografias, que tentam trazer nova luz a uma figura pública, explorando histórias privadas; para além disso, mulheres como Emily Hale e Mary Trevelyan (que teve um papel comparável, embora mais pequeno, na existência diária de Eliot) suscitam simpatia, bem como interesse. Mas não há dúvida que Eliot trouxe às suas vidas uma excitação e concentração emocional que, supostamente, nunca teria existido para elas sob qualquer outra forma. Ele alegrou vidas que de outro modo seriam vazias, e a satisfação pode ter-se misturado com a amargura triste que atingiu as duas quando casou, dado que tornara claro a ambas que casar com elas estaria fora de questão. Deve ser claro para observadores objectivos que existiam limites à amizade leal do poeta por elas. Na minha opinião, existem limites semelhantes ao protagonismo da profundamente nostálgica afeição romântica que o poeta sentiu por Emily na sua obra. "Burnt Norton" pode ser melhor lido se afastarmos dele a legenda de Emily.
Num pequeno livro sobre Eliot, o eminente crítico Northrop Frye queixou-se uma vez com vivacidade:
Burnt Norton é, segundo nos dizem, o nome de uma casa de campo em Gloucester [sic] que ardeu no século XVIII. A sua relação com o poema, em palavras eufemísticas, não salta à vista, para além de uma sugestão muito vaga da casa de um “milionário arruinado”.
O leitor só pode apreciar esta frontalidade, nem sempre frequente entre os estudiosos de Eliot. Não estou certa se algum outro crítico se questionou precisamente sobre o que Burnt Norton tem a ver com "Burnt Norton". E, de facto, o leitor pode ver a utilidade da noção de um ditoso encontro com Emily (que pode nunca ter visitado o jardim). Mas se Emily for afastada do sentido humano do poema, que nos resta?
(…)
Talvez Eliot tenha reconhecido, no nome de Burnt Norton, um paradoxo ao mesmo tempo irónico, secular e espiritual. Era um homem de consciência pública devotadamente interessado na tradição. Mas estava plenamente consciente, na década de trinta, antes e depois, que a tradição depende de uma consciência individual empenhada. A tradição inglesa, tal como as suas casas, é feita de ruinosas continuidades particulares. O amor, esse construtor de casas, é com demasiada frequência, para o ser humano, fogo e destruição (The Fire Sermon: "Arder, arder, arder, arder".). A alma é uma Burnt Norton que não consegue escapar ao fogo, mas consegue aprender a viver perpetuada pela sua chama.
Na imagem: Vivienne Eliot, a neurótica.
CALÇA DE FLANELA BRANCA
T. S. Eliot nasceu no Missouri a 26 de Setembro de 1888. Foi o mais novo de sete irmãos. Os pais eram gente esclarecida e bem instalada, tendo apenas o pequeno Eliot sido importunado na infância por uma hérnia. Estudou, estudou, estudou e não mais parou de estudar. Chegou a Harvard em 1906, onde conheceu Emily Hale. Sabemos mais da importância da descoberta de um livro, The Symbolist Movement in Literature, do que da descoberta de um primeiro amor. Mas com Emily voltará a encontrar-se muitos anos mais tarde, em Burnt Norton. Só mesmo a escarlatina ia conseguindo interromper-lhe a vocação intelectual. Passou um ano na Sorbonne, e em 1911 deu por concluída uma versão de The Love Song of J. Alfred Prufrock: «E se eu puxar atrás o risco do cabelo? Arrisco-me a trincar um pêssego? / Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia» (trad. João Almeida Flor). Mas antes de se fazer às praias, regressou a Harvard para estudar filosofia. Disserta sobre Bergson, inclina-se para o pensamento oriental, volta à Europa. É neste regresso, em 1914, que trava conhecimento com Ezra Pound. Pound há-de criticar-lhe os versos e rasurar-lhes os poemas, manterão estreita e profícua colaboração: «A obra de Eliot não se confunde com a dos muitos escritores novos que não souberam tirar partido das liberdades do presente, que não adquiriram novos rigores de linguagem nem variedade na sua cadência». Não sabemos a que novos se referia Pound, mas estamos certos de que eram muitos e de que deles não reza a história. E porque um homem não é só livros, Eliot casa abruptamente, em 1915, com a dançarina Vivienne Haigh-Wood. Os pais do poeta ficam em estado de choque quando recebem a notícia, o próprio Eliot ficará em estado de choque a breve trecho. Bertrand Russell, que não era flor que se cheirasse, dá-lhes de guarida e torna-se muito chegado da bela Vivienne. Lá está novamente o Sr. Eliot imerso nos estudos. Agora é Bradley o alvo das reflexões. Não pára. Ganha a vida como professor e, posteriormente, como banqueiro no Lloyds Bank. Prufrock & Outras Observações é publicado em 1917 com o suporte financeiro de Ezra and Dorothy Pound: «Não sabes quanto eu prezo os meus amigos / E como é raro e estranho encontrar, / Nesta vida, tão feita de tanta bugiganga, / (Não amo a vida, não… sabias já? Os olhos tens abertos! / E como tu és perspicaz!) / Encontrar um amigo que tem tais qualidades, / Que possui e oferece / Qualidades que nutrem a amizade» (in Retrato de Uma Senhora, trad. João Almeida Flor). São anos de afirmação literária, de reuniões e de conhecimentos, a reputação a crescer junto das luminárias da época. Ainda assim, uma edição de 500 exemplares do primeiro livro demorará 5 anos a esgotar. O pai morre-lhe em 1919, a saúde de Vivienne deteriora-se, Eliot tem um esgotamento. The Waste Land aparece em 1922, com Pound a reduzir «os perto de mil versos dos manuscritos originais a menos de metade na sua configuração final» (ver edição portuguesa, na Relógio D’Água). O poema é amplamente elogiado, a vida é que se afunda na desgraça. Eliot sente-se esgotado. Os achaques de Vivienne não lhe dão sossego. Abandona a vida de banqueiro e começa a bulir como editor na Faber and Gwyer (Faber and Faber). Aproxima-se a grande tempestade. O poeta converte-se e ingressa na Igreja Anglicana, adquire a nacionalidade britânica, faz votos de celibato e, como dificilmente poderia deixar de ser, separa-se de Vivienne. Reencontra-se então com Emily Hale. Vivienne vai parar a um hospício, acabando por falecer em Janeiro de 1947. Entretanto, em 1943, Eliot juntara, sob o título Four Quartets, quatro longos poemas anteriormente publicados separadamente. Publicou muito, ensaios, poemas, dramas, e a sua carreira mereceu a mais alta consagração com a atribuição do Prémio Nobel em 1948. Acabada a Segunda Grande Guerra, acabou-se a grande poesia. Restavam dramas e ensaios. Acusações de anti-semitismo ocasional iam dando à costa na voz dos críticos. Mas Eliot já havia vestido as calças de flanela branca. Em 1957 voltou a casar, com Valerie Fletcher. Morreu em Londres, no ano de 1965, e as suas cinzas foram largadas em East Coker : «As casas vivem e morrem: há um tempo para edificar / E um tempo para viver e para procriar / E um tempo para o vento quebrar a vidraça solta / E abanar o lambril onde se apressa o rato do campo / E abanar o arrás em farrapos lavrado com uma divisa silenciosa» (trad. Gualter Cunha).
Ao alto: Eliot e Valerie.
Ao alto: Eliot e Valerie.
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
DE PAI PARA FILHO III
William Saroyan: ─ Não se preocupe com o estilo. Desate a escrever conforme as ideias lhe vierem à cabeça e verificará que o que escreveu está cheio de estilo.
Aram Saroyan: ─ uma ostra / não pode / ler isto.
Ao alto, O Índio do Packard, de William Saroyan, Guimarães Editores, Outubro de 1961. Mais um da estante Rui Almeida.
Aram Saroyan: ─ uma ostra / não pode / ler isto.
Ao alto, O Índio do Packard, de William Saroyan, Guimarães Editores, Outubro de 1961. Mais um da estante Rui Almeida.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
PRINCESAS DIANAS & ANTI-HERÓIS
Simpatizamos com Princesas Dianas & Anti-heróis (Junho de 2009), uma edição do autor Luís Pedroso a pedir 250 leitores. Aqueles que se aventurarem, depararão com dois conjuntos de poemas ─ O Caso BPN e O Caso Freeport ─ onde a memória tropeça na imaginação, onde a lucidez se afirma por uma saudável cuspidela na seriedade e no auto-convencimento. Em cada uma das partes, 11 poemas travestidos de um humorismo ligeiro sem grande pachorra para melancolias plásticas e reflexões de pacotilha. Por vezes, as estórias têm graça; outras vezes, nem por isso. Há até momentos em que a língua sai sofrível, o ritmo não respira, o remate leva o esférico à trave. Mas a seriedade destes versos reside precisamente em não pretenderem levar-se demasiado a sério, folgam-nos de uma «certa importanticidade sumamente ridícula» (Alexandre O’Neill):
ULISSES 2: A FÚRIA DO HERÓI
Uma multidão enraivecida mas muito cordial
Insistia em que eu auferisse por conta deles
e com todos os melhores cumprimentos
uma épica carga de porrada
Hesitei, porque me apetecia declinar essa atenção
Mas estava embevecido por toda aquela deferência
E uma oferta destas não nos cai no guarda-pó
todos os dias, uma turba cega por um ódio quase
inquisimal
Mas afinal qual o motivo de tão obstinada ira?, balbuciei
a um senhor engomado cuja cabeça meneava
ao balanço do relógio de bolso que até era bem bonito
E cujo bigode sidonista me remetia para o tráfico
de pólvora
Não podes ter o melhor de dois mundos, fazer a síntese
oportunista da Maria e da Manuela
O teu menor problema de hoje em diante
será o fato de alcatrão e penas
Ao que parece
fui apanhado no Largo do Pelourinho
com o Jornal de Letras numa mão
e A Bola na outra
Luís Pedroso, in Princesas Dianas & Anti-Heróis, Edição do Autor, Junho de 2009, pp.32-33.
ULISSES 2: A FÚRIA DO HERÓI
Uma multidão enraivecida mas muito cordial
Insistia em que eu auferisse por conta deles
e com todos os melhores cumprimentos
uma épica carga de porrada
Hesitei, porque me apetecia declinar essa atenção
Mas estava embevecido por toda aquela deferência
E uma oferta destas não nos cai no guarda-pó
todos os dias, uma turba cega por um ódio quase
inquisimal
Mas afinal qual o motivo de tão obstinada ira?, balbuciei
a um senhor engomado cuja cabeça meneava
ao balanço do relógio de bolso que até era bem bonito
E cujo bigode sidonista me remetia para o tráfico
de pólvora
Não podes ter o melhor de dois mundos, fazer a síntese
oportunista da Maria e da Manuela
O teu menor problema de hoje em diante
será o fato de alcatrão e penas
Ao que parece
fui apanhado no Largo do Pelourinho
com o Jornal de Letras numa mão
e A Bola na outra
Luís Pedroso, in Princesas Dianas & Anti-Heróis, Edição do Autor, Junho de 2009, pp.32-33.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
ALÇAPÃO
Há tempos fiquei a saber que o primeiro livro de Manuel Cintra (n. 1956) foi publicado na Colecção Forma, da Editorial Presença, após sugestão de Ruy Belo. Soube-o porque o próprio o afirmou, num gesto espontâneo de homenagem ao poeta de O Problema da Habitação, durante a cerimónia de entrega do Prémio Nacional Poeta Ruy Belo. Do Lado de Dentro (1981) marcou o início de um percurso literário – Manuel Cintra também tem estado ligado à representação teatral – com o qual nos voltámos a cruzar em folhetos editados pelo autor, dos quais é exemplo Tangerina (1990), ou em livros de recepção díspar, de que Não Sei Nunca por Onde (2004) é talvez o exemplo mais flagrante. Reaparece agora esta voz do vento, com um conjunto de poemas em prosa intitulado de Alçapão (&etc., Maio de 2009). Antes de mais, importa salientar a inclinação para o poema em prosa que vem marcando a poesia de Manuel Cintra desde o início. Os seus melhores poemas são textos onde a escrita se liberta de artimanhas formais e de subterfúgios que tantas vezes procuram disfarçar um prosaísmo mais que evidente. De resto, há na poesia actual uma tendência algo snob para disfarçar o indisfarçável. Uma imensa maioria dos poemas que por aí se lêem só merece a designação de poemas porque quem os escreveu resolveu partir em verso as pequenas histórias que saltaram para a página. Caso contrário, seriam estórias ou aforismos. Em Alçapão ninguém se arrisca a comer gato por lebre, o petit poème en prose, de raiz baudelairiana, dá corpo à voz nada ficando a dever à poesia.
Desengane-se igualmente quem espere destes poemas narrativas lineares, pautadas por situações mais ou menos dramáticas, onde personagens diversas representem a tragédia humana com mais ou menos humor, com mais ou menos melancolia, com mais ou menos erosão. O que se propõe neste livro não é uma escrita de leitura fácil, o que se propõe é uma caça à convencionalidade discursiva, uma permanente armadilha da lógica dicotómica que nos rege os dias. O primeiro texto, intitulado Nada, introduz-nos numa espécie de patologia íntima que logo passará a subverter a realidade, por vezes através de caóticas associações de imagens, outras vezes apelando a um erotismo algo decadente, que se mistura com uma sensação de crise e de doença, ou ainda apelando a fábulas de teor abjeccionista para melhor transgredir as regras que sufocam a realidade: «Olha, o escaravelho. Adora merda. Procria em merda. Transporta merda. É orgulhoso da merda que transporta. Eu também. Terei entrado na fase escaravelho, ou é apenas uma questão de idade?» (p. 5) A única regra parece ser a de resistir à normalidade testemunhando os absurdos do mundo, afirmando a loucura e o delírio como condições que explicam uma constante inversão do real, desnudando-o para melhor revelar a sua índole contraditória. Mas esta tentativa de minar a realidade não escapa a um certo fastio nos primeiros textos, os quais se distinguem dos últimos por neles estar mais em evidência o sujeito poético. Perpassam impressões de solidão, abandono, vazio: «O nada reproduz-se, ocupa, vegeta, resiste, alastra e instala-se» (p. 19).
Direi que os melhores momentos de Alçapão foram guardados para o fim, onde as deambulações por Utrecht, Barcelona, Londres, uma Lisboa nocturna de muitos conhecida – veja-se o poema D’arta −, confrontam a ausência do outro com o mundo que resta a quem fica: «O telefone tocava e eras tu, e eu chorava como se tivesse o pacífico inteiro nos olhos. E sorria e chorava, e quanto mais notícias me davas e mais loucuras me dizias mais eu sorria e mais eu chorava. Abracei-te de longe, abracei-te com estes dois braços que ainda hás-de fazer crescer. Porque tu és como o adubo dos cometas. Passas, e deixas no teu rasto um brilho que quase ninguém vê. Dizem que sim, e aproveitam-se, mas não percebem nada. Nunca perceberam nada. Chegam, vandalizam e partem» (p. 37). E segue-se um programa crítico, por vezes corrosivo, já de lágrimas secas, revolta e forças retemperadas, que tanto pode ter por objecto os modos informáticos de viver como o estado geral de um mundo virado do avesso. No poema Noticiário inventariam-se notícias, não importa se ficcionadas, que dão um aspecto geral do estado caótico do mundo. E quase a terminar, o poema Verme declara a voluntariedade da excepção, isto é, a determinação em não pertencer a esse mundo senão por consequência da condição de se estar vivo. Mas também se pode estar vivo optando por caminhar à margem, exausto, «batendo punhetas à dor», escrevendo sobre isso. Alçapão prova-o.
Desengane-se igualmente quem espere destes poemas narrativas lineares, pautadas por situações mais ou menos dramáticas, onde personagens diversas representem a tragédia humana com mais ou menos humor, com mais ou menos melancolia, com mais ou menos erosão. O que se propõe neste livro não é uma escrita de leitura fácil, o que se propõe é uma caça à convencionalidade discursiva, uma permanente armadilha da lógica dicotómica que nos rege os dias. O primeiro texto, intitulado Nada, introduz-nos numa espécie de patologia íntima que logo passará a subverter a realidade, por vezes através de caóticas associações de imagens, outras vezes apelando a um erotismo algo decadente, que se mistura com uma sensação de crise e de doença, ou ainda apelando a fábulas de teor abjeccionista para melhor transgredir as regras que sufocam a realidade: «Olha, o escaravelho. Adora merda. Procria em merda. Transporta merda. É orgulhoso da merda que transporta. Eu também. Terei entrado na fase escaravelho, ou é apenas uma questão de idade?» (p. 5) A única regra parece ser a de resistir à normalidade testemunhando os absurdos do mundo, afirmando a loucura e o delírio como condições que explicam uma constante inversão do real, desnudando-o para melhor revelar a sua índole contraditória. Mas esta tentativa de minar a realidade não escapa a um certo fastio nos primeiros textos, os quais se distinguem dos últimos por neles estar mais em evidência o sujeito poético. Perpassam impressões de solidão, abandono, vazio: «O nada reproduz-se, ocupa, vegeta, resiste, alastra e instala-se» (p. 19).
Direi que os melhores momentos de Alçapão foram guardados para o fim, onde as deambulações por Utrecht, Barcelona, Londres, uma Lisboa nocturna de muitos conhecida – veja-se o poema D’arta −, confrontam a ausência do outro com o mundo que resta a quem fica: «O telefone tocava e eras tu, e eu chorava como se tivesse o pacífico inteiro nos olhos. E sorria e chorava, e quanto mais notícias me davas e mais loucuras me dizias mais eu sorria e mais eu chorava. Abracei-te de longe, abracei-te com estes dois braços que ainda hás-de fazer crescer. Porque tu és como o adubo dos cometas. Passas, e deixas no teu rasto um brilho que quase ninguém vê. Dizem que sim, e aproveitam-se, mas não percebem nada. Nunca perceberam nada. Chegam, vandalizam e partem» (p. 37). E segue-se um programa crítico, por vezes corrosivo, já de lágrimas secas, revolta e forças retemperadas, que tanto pode ter por objecto os modos informáticos de viver como o estado geral de um mundo virado do avesso. No poema Noticiário inventariam-se notícias, não importa se ficcionadas, que dão um aspecto geral do estado caótico do mundo. E quase a terminar, o poema Verme declara a voluntariedade da excepção, isto é, a determinação em não pertencer a esse mundo senão por consequência da condição de se estar vivo. Mas também se pode estar vivo optando por caminhar à margem, exausto, «batendo punhetas à dor», escrevendo sobre isso. Alçapão prova-o.
Escrito para o Rascunho.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
terça-feira, 15 de setembro de 2009
UM ECO VAZIO
Dez anos passados sobre o terramoto de Lisboa, assistiu-se em Setúbal a um abalo sísmico sem precedentes. Nascia Manuel Maria, a 15 de Setembro de 1765, filho de José Luís Soares de Barbosa, bacharel de Coimbra com veia poética reconhecida, e D. Mariana Joaquina Xavier Lestof du Bocage, filha de militar francês. Também a mãe trazia poesia nos genes, pelo lado de uma tia tradutora de Milton e autora de um aclamado poema épico. Criado em clima de ascendência poética, coube ao quarto de seis filhos a desgraçada herança dos versos. A morte da mãe aos dez anos instaura o transtorno familiar. O dinheiro não abundava, os filhos eram muitos, Gil Francisco, três anos mais velho que Bocage, merecia todas as atenções paternas. Impossibilitado de frequentar a Universidade, Manuel Maria optou pela carreira militar. A 22 de Setembro de 1781 apresentou-se no Regimento de Infantaria de Setúbal. Tinha dezasseis anos e assentou praça como soldado. Mais tarde, entrará na Academia dos Guardas Marinhas, habitado pelo sonho das grandes viagens e da vida lisboeta. Aporta na capital em 1783, com dezoito anos. Supõe-se que tenha sido aluno mediano, pendendo o seu interesse mais para os botequins e para os outeiros, cultor incansável que foi da boémia e da cavaqueira literária. Conhece então o amor da sua vida, Gertrudes, irmã de um camarada de curso. Gertrudes tornou-se uma tal obsessão, que o poeta se viu na necessidade de um posto que o libertasse do estigma da poesia. Naquele como neste tempo, a poesia não sustentava famílias e cultivava-se como toalhinhas de renda. Poeta era estatuto para malucos. Vislumbrou na Índia possibilidades que Portugal não lhe dava. Partiu a 14 de Abril de 1786, deixando para trás a amada em posto de espera. O guarda-marinha Manuel Maria Barbosa Hedois du Bocage viaja numa nau sombria, atravessa temporais que o levam ao Brasil. A 2 de Setembro de 1786, pisa Moçambique, desembarcando em Goa, finalmente, a 29 de Outubro de 1786. São tempos de profunda solidão, faltam-lhe amigos, admiradores, amores. Sente-se isolado. Tudo o que recebe é o cruel silêncio de Gertrudes, chegado de longe como um eco vazio. Matricula-se na Aula Real de Marinha de Goa, recebe a notícia da traição de Gertrúria, pensa suicidar-se, adoece de amor. Sarado o golpe da traição, procurará desforrar-se o resto da vida. Episódio caricato leva-o a combate, transforma-se num herói, e rapidamente se acha o poeta investido no posto de tenente de infantaria e despachado para Damão. Partiu para esta cidade a 8 de Março de 1789. Se Goa lhe foi odiosa, Damão parecia a morte. Com vinte e três anos de idade, sente o apelo da liberdade e deserta. Começa a vaguear à toa, embriagado de liberdade e com novas paixões na calha. Está em Surrate, apaixona-se por D. Ana, uma rameira fina a quem dedica vários versos. Mas ela preferia satisfazer-se com um negro robusto, o qual deixou a fatalista numa aflição incompreensível para Manuel Maria depois de o negro dar de frosques. Como podia ela chorar por um preto quando não mostrava lágrima que fosse pelos versos pungentes do poeta? Vexado, parte este para Macau. Aí deambula em confrangedora situação, sendo acolhido por um abastado negociante que admirava o seu estro. Em 1790 regressa a Portugal, para receber a notícia de que Gertrudes de Eça, a sua Gertrúria, o havia traído com seu irmão Gil Francisco. Estavam casados. Bocage regressa à metrópole com a saúde bastante debilitada, vindo recompor-se para Óbidos, terra de imensos e inconstantes amores (lendários?). Novamente em Lisboa, vive mais pobre do que nunca - dorme em camas emprestadas, veste fatos alheios – mas feliz de liberdade. Elmano Sadino persegue muitas e novas paixões, por vezes interrompidas pela morte das musas. Corta relações com a família, convive com a escória da Sociedade, perde-se nas ruelas do Bairro Alto, Mouraria, Alfama, entra ao despique com outros poetas, ganha nome, dá nas vistas, e, em 1791, materializa um velho sonho: publica o seu volume de estreia, intitulado Rimas. O livro é um sucesso. Frei José Agostinho de Macedo, amigo de todas as horas, persuade Bocage a ingressar na Nova Arcádia (Academia de Belas-Artes), uma agremiação de gente formalista que pouco tinha que ver com o talento boémio de Bocage. Várias trocas de galhardetes entre poetas na Academia inspiraram sátiras escandalosas e extravagantes ao poeta das Rimas, aplicando-se este rapidamente na demolição da Nova Arcádia. A Revolução Francesa inspira-lhe versos contraditórios, embora o elogio da liberdade seja uma constante. Conta 32 anos e uma vida repleta de paixões. Sem tento na língua nem freio no espírito revolucionário, acaba encarcerado à ordem de Pina Manique. Passou 89 dias no Limoeiro, ficando posteriormente à conta do Tribunal do Santo Ofício. Vítima da Sociedade do seu tempo, foi parar a um Hospício. A liberdade e o amor pareciam arredados da nova vida. Dedicava-se quase exclusivamente ao trabalho, pingando amores para desenfastiar. Em 1804, a notícia de um aneurisma condena-o à morte. Ainda publicou alguns folhetos durante o período de doença. Redige o seu epitáfio a 21 de Dezembro de 1805:
De Elmano eis sobre o mármore sagrado
A lira em que chorava ou ria amores.
Ser deles, ser das Musas foi seu Fado:
Honrem-lhe a lira vates e amadores.
De Elmano eis sobre o mármore sagrado
A lira em que chorava ou ria amores.
Ser deles, ser das Musas foi seu Fado:
Honrem-lhe a lira vates e amadores.
NINFAS
Não se pode dizer que Bocage tenha tido azar com as mulheres - tendo mais para a hipótese inversa, elas é que tiveram azar com Bocage -, mas a verdade é que nunca soube escolhê-las pelo nome. Vejamos: Gertrúria (Gertrudes além versos) trocou-o pelo irmão, chutando-o para Óbidos; longe dos botequins lisboetas, apagou Gertrúria do pensamento com Ismene; Ismene ganhou juízo e fez-se à vida, procurando o poeta conforto no requinte de Tirsea; mas porque desgostos não matam, fugida Tirsea agarrou-se Manuel Maria aos encantos de Fílis; ainda em Óbidos, surge-lhe pela sombra uma tal de Anália, tuberculosa de olhar melancólico e palidez doentia (pudera, estava tuberculosa); sepultada a enferma, o poeta regressa a Lisboa. Elmano Sadino ensoneta-se por Natércia, Flérida, Tirsália, Isbela, Anarda, Alcina, etc. e tal. Cada tiro, cada melro.
domingo, 13 de setembro de 2009
SANGUE
A escola está quase a começar. Enquanto não começa, os incêndios alastram. A Beatriz pergunta: E deita sangue?
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
JUVENTUDE VIRGEM
Às vezes
A vida que olha através dos meus olhos
E freme em palavras através da minha boca,
E me impele como ao resto dos homens,
Esquiva-se, e fico atónito.
E então
Meu peito insondável começa
A despertar, e ao longo de ténues
Ondas sob a carne, desencadeia-se
Um ritmo brusco, e o mudo ventre sonolento
Acorda de súbito.
O meu doce ventre no sono
Vibra e desperta numa vontade,
Enquanto por bem ou mal
Um baixo eu se levanta e me saúda;
Homúnculo que se anima desde a raiz
E, erguido, bate em mim.
Levanta-se, e eu tremo diante dele.
─ Quem és tu? ─
Ele é mudo, mas ardente e longo,
E não o desdenho.
─ Quem és tu? Que intentas
Fazer de mim, tu, brilhante, iconoclasta? ─
Como é belo! silencioso,
Sem olhos, sem mãos;
Mas a chama de barro vivo
Ergue-se, a coluna de fogo na noite.
E, vindo das profundezas, ele sabe; por si próprio,
Ele sabe.
Por si próprio, sozinho,
Compreende e sabe.
Brilhante, confiante, misterioso,
Surgiu do nada.
Tremo à sua sombra, enquanto ele arde
Para atingir o alvo sombrio.
Ergue-se como um farol, a noite ferve
À volta do seu fundamento, a luz sombria roda
Dentro da sombra, e sombriamente regressa.
Lança um apelo, o solitário? O fundo
Do silêncio ressoa com o apelo?
Move-se invisivelmente? A sua abrupta
Curva procura a curva de uma mulher?
Viajante, coluna de fogo,
Tudo é vão.
O calor do teu túmido desejo
Transforma-se em dor.
Vermelho, sombrio pilar, perdoa-me.
Estou agrilhoado
Ao rochedo da virgindade.
Não ouço a tua voz estranha.
Clamamos no deserto. Perdoa
Que desenvoltamente me tenha estendido
No vale feminino, e tenha dançado
A tua dupla dança.
Obscura, orgulhosa, curva beleza!
Gostaria de abandonar-me ao movimento das ancas.
Mas numa só voz as hordas humanas recusam
O meu desejo.
Arrancaram as portas aos gonzos,
Atulharam o caminho. Saúdo-te
Apenas para arrancar-te a flor. A tua torre
Enfrenta o nada. Perdoa.
Poema mudado para português por Herberto Helder.

Filho de uma professora primária com inclinações poéticas e de um mineiro deprimido que afogava as mágoas em álcool, nasceu D. H. Lawrence a 11 de Setembro de 1885 na localidade mineira de Eastwood, Inglaterra. Privações e discussões familiares serão o estigma da infância. A sua formação foi sustentada à custa de bolsas de estudo. Primeiro, na Nottingham High School. Depois, na University College Nottingham. Entre a “escola” e o “colégio”, várias ocupações. Era o que hoje classificaríamos de trabalhador estudante. Portador de fracos pulmões, impunha-se resolver os problemas respiratórios. A poesia e a viagem serão terapias permanentes. Publicou os primeiros poemas na English Review, era então editor Ford Madax Ford. Em 1910, Lawrence ajudou a mãe a ver-se livre de um cancro ao administrar-lhe uma overdose de comprimidos para dormir. No mesmo ano, desfez uma relação que mantinha com uma tal de Jessie Chambers, responsável pela partilha de um gosto comum: os livros. Publica o primeiro de vários romances, The White Peacock, apanhando assim o comboio da alta literatura. Diz-se que sexualmente pendia para o lado masculino, mas conhece-se-lhe ainda uma outra relação, com Louie Burrows, anterior à paixão de uma vida: Frieda von Richthofen. Frieda era casada com o professor Ernest Weekly. Abandonou o marido, os três filhos e fugiu com o poeta no barco do amor. Andaram pela Alemanha, Suíça, França, Itália, antes de se casarem em 1914. Por esta altura, o casal manteve uma estimulante relação com Katherine Mansfield e John Middleton, editores da revista Rhythm, e testemunhas no casamento dos Lawrence. Resumindo: Katherine sentia-se atraída por D. H. Lawrence, Lawrence sentia-se atraído por John, John sentia-se atraído por Frieda. Os dois casais viveram muito proximamente durante alguns anos, mas a Primeira Grande Guerra impôs outras preocupações. Frieda e Lawrence são acusados de espionagem e impedidos de emigrar para os states. Deixam a Inglaterra em 1922, partindo para a Nova Zelândia, Austrália, Sri Lanka, e regressando posteriormente aos EUA. Lawrence decide então mudar-se para o México, onde pretendia fundar uma utópica comunidade de intelectuais. Adquiriu uma propriedade perto de Taos, em 1924, e aí permaneceu durante dois anos. Aldous Huxley foi visita assídua. Mas o verme da errância continuava a corroer o pulmão do poeta. Regressa à Europa em 1926. Lady Chatterly's Lover é publicado em 1928. O Reino Unido e a América censuram o romance por o considerarem pornográfico. Os últimos anos foram passados em exclusiva dedicação à literatura… e à viagem. D. H. Lawrence veio a morrer, vítima de tuberculose, no dia 2 de Março de 1930, em Vence, no sul de França. Tinha 44 anos.
A vida que olha através dos meus olhos
E freme em palavras através da minha boca,
E me impele como ao resto dos homens,
Esquiva-se, e fico atónito.
E então
Meu peito insondável começa
A despertar, e ao longo de ténues
Ondas sob a carne, desencadeia-se
Um ritmo brusco, e o mudo ventre sonolento
Acorda de súbito.
O meu doce ventre no sono
Vibra e desperta numa vontade,
Enquanto por bem ou mal
Um baixo eu se levanta e me saúda;
Homúnculo que se anima desde a raiz
E, erguido, bate em mim.
Levanta-se, e eu tremo diante dele.
─ Quem és tu? ─
Ele é mudo, mas ardente e longo,
E não o desdenho.
─ Quem és tu? Que intentas
Fazer de mim, tu, brilhante, iconoclasta? ─
Como é belo! silencioso,
Sem olhos, sem mãos;
Mas a chama de barro vivo
Ergue-se, a coluna de fogo na noite.
E, vindo das profundezas, ele sabe; por si próprio,
Ele sabe.
Por si próprio, sozinho,
Compreende e sabe.
Brilhante, confiante, misterioso,
Surgiu do nada.
Tremo à sua sombra, enquanto ele arde
Para atingir o alvo sombrio.
Ergue-se como um farol, a noite ferve
À volta do seu fundamento, a luz sombria roda
Dentro da sombra, e sombriamente regressa.
Lança um apelo, o solitário? O fundo
Do silêncio ressoa com o apelo?
Move-se invisivelmente? A sua abrupta
Curva procura a curva de uma mulher?
Viajante, coluna de fogo,
Tudo é vão.
O calor do teu túmido desejo
Transforma-se em dor.
Vermelho, sombrio pilar, perdoa-me.
Estou agrilhoado
Ao rochedo da virgindade.
Não ouço a tua voz estranha.
Clamamos no deserto. Perdoa
Que desenvoltamente me tenha estendido
No vale feminino, e tenha dançado
A tua dupla dança.
Obscura, orgulhosa, curva beleza!
Gostaria de abandonar-me ao movimento das ancas.
Mas numa só voz as hordas humanas recusam
O meu desejo.
Arrancaram as portas aos gonzos,
Atulharam o caminho. Saúdo-te
Apenas para arrancar-te a flor. A tua torre
Enfrenta o nada. Perdoa.
Poema mudado para português por Herberto Helder.
Filho de uma professora primária com inclinações poéticas e de um mineiro deprimido que afogava as mágoas em álcool, nasceu D. H. Lawrence a 11 de Setembro de 1885 na localidade mineira de Eastwood, Inglaterra. Privações e discussões familiares serão o estigma da infância. A sua formação foi sustentada à custa de bolsas de estudo. Primeiro, na Nottingham High School. Depois, na University College Nottingham. Entre a “escola” e o “colégio”, várias ocupações. Era o que hoje classificaríamos de trabalhador estudante. Portador de fracos pulmões, impunha-se resolver os problemas respiratórios. A poesia e a viagem serão terapias permanentes. Publicou os primeiros poemas na English Review, era então editor Ford Madax Ford. Em 1910, Lawrence ajudou a mãe a ver-se livre de um cancro ao administrar-lhe uma overdose de comprimidos para dormir. No mesmo ano, desfez uma relação que mantinha com uma tal de Jessie Chambers, responsável pela partilha de um gosto comum: os livros. Publica o primeiro de vários romances, The White Peacock, apanhando assim o comboio da alta literatura. Diz-se que sexualmente pendia para o lado masculino, mas conhece-se-lhe ainda uma outra relação, com Louie Burrows, anterior à paixão de uma vida: Frieda von Richthofen. Frieda era casada com o professor Ernest Weekly. Abandonou o marido, os três filhos e fugiu com o poeta no barco do amor. Andaram pela Alemanha, Suíça, França, Itália, antes de se casarem em 1914. Por esta altura, o casal manteve uma estimulante relação com Katherine Mansfield e John Middleton, editores da revista Rhythm, e testemunhas no casamento dos Lawrence. Resumindo: Katherine sentia-se atraída por D. H. Lawrence, Lawrence sentia-se atraído por John, John sentia-se atraído por Frieda. Os dois casais viveram muito proximamente durante alguns anos, mas a Primeira Grande Guerra impôs outras preocupações. Frieda e Lawrence são acusados de espionagem e impedidos de emigrar para os states. Deixam a Inglaterra em 1922, partindo para a Nova Zelândia, Austrália, Sri Lanka, e regressando posteriormente aos EUA. Lawrence decide então mudar-se para o México, onde pretendia fundar uma utópica comunidade de intelectuais. Adquiriu uma propriedade perto de Taos, em 1924, e aí permaneceu durante dois anos. Aldous Huxley foi visita assídua. Mas o verme da errância continuava a corroer o pulmão do poeta. Regressa à Europa em 1926. Lady Chatterly's Lover é publicado em 1928. O Reino Unido e a América censuram o romance por o considerarem pornográfico. Os últimos anos foram passados em exclusiva dedicação à literatura… e à viagem. D. H. Lawrence veio a morrer, vítima de tuberculose, no dia 2 de Março de 1930, em Vence, no sul de França. Tinha 44 anos.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
DESVIAR
Um colombiano desviou um avião. Ao ser capturado, confessou ter três cúmplices: o pai, o filho e o espírito santo. Foram todos presos.
Nota: plagiado do sem-se-ver.
Nota: plagiado do sem-se-ver.
CONVERSA DE CAFÉ
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
ENIGMA
O caso Pavese é um enigma fascinante. Tina Pizzardo era uma mulher da lógica. Este pormenor, aliado à sua condição de comunista na clandestinidade, leva-nos a supor que se regesse segundo raciocínios pragmáticos. A primeira impressão é a de que terá usado Pavese, ter-se-á servido dele para chegar a Altiero Spinelli. Nada nos garante que ela alguma vez tenha amado ou sentido qualquer resquício de paixão pelo poeta. Pavese ajudou-a por amor. Foi um intermediário voluntário. Ela serviu-se do amor de Pavese por amor a Spinelli. Sendo assim, a segunda impressão é a de que Cesare Pavese terá sido ingénuo, diria mesmo infantil, ao supor que ela esperaria por ele após 3 anos de reclusão. O que terá levado Pavese a pensar que Tina estaria à sua espera? Em que se fundamentava a esperança do poeta? É verdade que Tina acabaria por casar com um outro homem, o polaco Henek Rieser. Provavelmente foi este pormenor que arrasou Pavese. Tivesse ela casado com Spinelli, Pavese teria sido, certamente, um outro poeta. Igualmente só, mas sem o sentimento de ter sido traído. Na imagem: Constance Dowling e Cesar Pavese.
UM GESTO
A 9 de Setembro, nasceu Pavese. Decorria o ano da graça de 1908. Nasceu entre vinhas, numa quinta de Santo Stefano Belbo, terra natal de seu pai e destino de férias da família. O pai era funcionário judicial em Turim, mas Cesare conviverá pouco com ele. Morreu com um tumor cerebral quando o poeta ainda era uma criança de seis primaveras mal contadas. Consolina, a mãe, também não terá sido uma presença muito forte na vida do filho, vendo-o crescer de mão dada com uma profunda solidão. Pavese viveu praticamente toda a sua vida em Turim, a cidade onde Nietzsche procurou asilo para a loucura: «Turim é verdadeiramente a minha residência; ah, com que distinção sou aqui tratado!» Nesta cidade se formou o poeta de Lavor estanca (Trabalhar Cansa, Cotovia) com uma tese sobre a poesia de Walt Whitman. Porém, começa a escrever os primeiros poemas ainda nos tempos de liceu, motivado por Augusto Monti, um professor que se opôs publicamente ao regime de Mussolini. Fortemente influenciado pela literatura norte-americana, veio a traduzir imensas obras de autores de expressão inglesa, tais como Melville, Joyce, Dickens, entre muitos outros. Contactos precoces com os movimentos antifascistas proporcionar-lhe-ão o encontro de uma vida: Tina Pizzardo. Tina era professora de Matemática e militante clandestina do Partido Comunista. Estamos em 1929. Tina convence Pavese a receber em sua casa cartas do amante Altiero Spinelli, um antifascista que se encontrava preso. Pavese, para agradar a Tina, aceita receber as cartas que depois faz chegar às mãos da amada. Em Maio de 1935, a polícia encontra cartas de Spinelli na casa de Pavese. O poeta é condenado a três anos de prisão. Quando regressa de Brancaleone Calabro, Tina está casada. «O choque é tremendo. Nunca conseguirá compreender Tina, do mesmo modo que não compreenderá nenhuma das mulheres que amou e que se fundem na recordação desta: a primeira, a única» (Margarida Periquito). Entretanto, a primeira edição de Trabalhar Cansa, livro de poemas com que o autor se estreou, fora publicado em 1936. O diário publicado postumamente com o título O Ofício de Viver começara a ser escrito na prisão em Outubro de 1935. Depois de sair do cárcere, esteve três anos sem publicar o que quer que fosse da sua autoria. Mas, de certo modo, Pavese nunca foi desencarcerado. Os originais iam-se acumulando longe das montras e da censura. Pavese era uma espécie de conselheiro editorial da Einaudi, uma editora fundada pelo amigo de juventude Giulio Einaudi. O silêncio será quebrado com dois romances publicados em 1941. Refugiado no campo durante a guerra, acaba por inscrever-se no Partido Comunista quando os cestos sangrentos do fascismo já estavam a ser lavados. Em 1947 publica Dialoghi con Leucò , diálogos filosóficos mantidos entre figuras da Grécia antiga. Dois anos depois conhece a actriz norte-americana Constance Dowling, mas os ecos da experiência Pizzardo ainda se faziam escutar com cruel agitação. Ao longo dos tempos, Pavese foi formando uma afamada personalidade misógina. Para ele, todas as mulheres eram idênticas, «seres incapazes de corresponder aos seus anseios e expectativas, seres interesseiros, calculistas, traiçoeiros, que servem apenas para alimentar um masoquismo que ele parece cultivar» (idem). Deixará de cultivar o masoquismo a 18 de Agosto de 1950, depois de ingerir uma quantidade fatal de barbitúricos. Pouco tempo antes, tinha-lhe sido atribuído o Prémia Strega de Ficção pela colectânea La bella estate. Na última entrada do seu diário, escreveu:
A coisa mais secretamente temida acaba sempre por acontecer.
Escrevo: ó Tu, tem piedade. E depois?
Basta um pouco de coragem.
Quanto mais a dor é determinada e exacta, tanto mais o instinto de vida se revolta e a ideia de suicido tomba.
Quando em tal pensava, parecia fácil fazê-lo. No entanto, há pobres mulheres que o fizeram. O que se requer é humildade, não orgulho.
Tudo isto é asqueroso.
Palavras, não. Um gesto. Não escreverei mais.
A coisa mais secretamente temida acaba sempre por acontecer.
Escrevo: ó Tu, tem piedade. E depois?
Basta um pouco de coragem.
Quanto mais a dor é determinada e exacta, tanto mais o instinto de vida se revolta e a ideia de suicido tomba.
Quando em tal pensava, parecia fácil fazê-lo. No entanto, há pobres mulheres que o fizeram. O que se requer é humildade, não orgulho.
Tudo isto é asqueroso.
Palavras, não. Um gesto. Não escreverei mais.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
BASTARDOS
Entre Pulp Fiction (1994) e Inglourious Basterds (1999), dois filmes de génio, Quentin Tarantino filmou o melhor e o pior. O melhor é Jackie Brown (1997), o pior é Death Proof (2007). Estamos a falar de um realizador cheio de estilo, um pintas, um argumentista com um sentido de humor que foi estrumado pelo melhor cinismo norte-americano. As pessoas cultas diriam que Tarantino tem wit. Como sou uma pessoa culta, digo isso mesmo: Tarantino tem wit. Sentei-me a ver Inglourious Basterds na fila da frente, a pior, e rapidamente me esqueci que sou contra as pipocas e copos de Pepsi durante o cinema. Na verdade, apeteceu-me saltar para dentro da tela e fazer parte daquela comédia negra, daquele negrismo rasgado que arranca sorrisos desconfortáveis de mão na testa. Algumas pessoas soltavam um credo ou um ai nossa senhora, aquele ai nossa senhora incrédulo que um ateu solta quando vê peregrinos de joelhos e crentes a imitarem Jesus crucificado. Ora bem, Inglourious Basterds é um fdp de filme genial. Um exemplo: Hitler morre num cinema em chamas durante a exibição da obra-prima de Goebbels. Outro exemplo: os Bastardos (sacanas na tradução oficial) são americanos de origem judaica. Ninguém se lembraria de uma façanha destas, o cinema ao serviço das grandes causas, de um modo directo e objectivo, película facilmente inflamável convertida em arma de arremesso, a genealogia americana cuspida, nua e crua. Se pensam que este é um filme sobre um tema, desenredem-se. Se pensam que o tema é a II Grande Guerra, então desenmerdem-se. Numa tramóia com os pés no lugar da cabeça e a cabeça dividida pelos cinco dedos de cada mão, o absurdo, digo o nonsense, vai dando lugar a um enredo cadenciado pelo sentimento de vingança. Mas a vingança também não morre solteira. Por isso mesmo, praticamente ninguém escapa. Honra ao líder dos Bastardos, um grupo de operacionais composto essencialmente por americanos-judeus cuja missão consistirá em matar o maior número possível de nazis e ficar-lhes com os escalpes (topam a ironia?). A cowboyada tem lugar na França ocupada, pouco antes do Dia D (concretizado no supradito episódio de uma sala de cinema literalmente em chamas). Podemos divagar sobre os intentos metafóricos do filme, sobre a possibilidade de uma parábola onde a violência do mundo se cruza com o entretenimento cinematográfico. Deixo considerações do género para quem de direito, mas chamo a atenção para alguns magníficos contrastes - tais como um ambiente pastoral a servir de fundo numa execução nazi ou as natas em grande plano numa cena de tortura psicológica. Há uma atenção nos pormenores decorativos, nos sotaques, na caracterização das personagens, que provoca uma espécie de deleite macabro, desconcertante, qualquer coisa do género: a sensualidade da violência, o requinte da vingança. Repare-se no sotaque sulista do Lt. Aldo Raine, um militar norte-americano com genes de índio guerreiro, a dar corda ao riso com uma postura ao mesmo tempo brutal e picaresca. A História do Cinema está toda ali, do western ao experimentalismo da nouvelle vague, passando pela famosa luminosidade dos orientes e pela pura estética do entretém. Brad Pitt não pode continuar a ser reduzido a uma carinha larocas. Recapitulemos: The Curious Case of Benjamin Button, Fight Club e Se7en, sob comando de David Fincher; The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, ao serviço de Andrew Dominik; Babel (Alejandro González Iñárritu); Ocean's Eleven, Twelve e Thirteen, pela mão de Steven Soderbergh… De que estão à espera para oscarizar uma versatilidade destas?
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
PROFESSOR ELÁSTICO
O professor Elástico era reconhecido de todos pela sua excelente capacidade de descer ao nível mais baixo de todos os níveis. Mas quando era necessário esticar para cima, o fio rompia. Ficava sempre aquém das expectativas.
domingo, 6 de setembro de 2009
UMA MULHER DE PAIXÕES
Li algures que Marina Ivanovna Tsvetáeva, nascida em Moscovo no dia 6 de Setembro de 1892, era uma mulher de paixões. Filha de um professor universitário e de uma pianista de origem polaca, foi forçada com a irmã mais nova, Anastassia, a sacar das teclas do piano uma música que acabou por transportar para a poesia. Após a morte da mãe, vitimada de tuberculose em 1906, estudou em alguns liceus de Moscovo... Começa a publicar em revistas e, logo em 1910, edita o seu primeiro livro: Álbum Nocturno (que também aparece, por vezes, traduzido como Álbum Vespertino ou Álbum da Tarde). Começa a conviver com a malta da cultura, entre os quais aquele com quem viria a casar-se em 1911: Serguei Iakovlevitch Efron. No entanto, o casamento não a impediu de outros convívios apaixonados com gente tão diversa como Sofia Parnok, Ossip Mandelstam, Serguei Esenin, Konstantin Rodzevitch, Rainer Maria Rilke e Boris Pasternak. Mãe de dois filhos, de seus nomes Ariana e Gueórgui (Irene, a segunda filha, morreu de fome num asilo), Marina manteve com Serguei uma relação bastante liberal. Efron explicava as necessidades de Tsvetáeva recorrendo a metáforas meteorológicas: «A man is invented and the hurrican begins. If the insignificance and narrowness of the hurricane's arouser is quickly revealed, then Marina gives way to a hurricane of despair». Uma vida completamente livre parecia ser o objectivo. Quem a pode censurar? Talvez a revolução de 1917, que atropelará esta vida livre como um comboio a passar por cima de um corpo inofensivo. Efron alista-se no Exército Branco e deixa Marina sozinha em Moscovo. A autora de Lanterna Mágica procura combater a solidão e algumas privações com a escrita de poemas-contos, peças de teatro, ensaios, poemas, diários. Em 1921 parte para Praga ao encontro de Serguei. As relações entre ambos começam a deteriorar-se depois do affaire entre Marina e Konstantin Rodzevitch. Efron preocupa-se com a forma como a poeta se aproveita das paixões na obra que vai erguendo. Mudam-se para Paris em Novembro de 1925. Em 1926, ao longo do Verão, Marina mantém uma correspondência triangular com Pasternak e Rilke, «que constitui uma das relações amorosas mais fecundas no universo da escritora, onde muitas vezes quase não se distinguem a realidade e a imaginação» (Fernando Pinto do Amaral, in prefácio a O Poeta e o Tempo). Publica Depois da Rússia, o seu último livro dado à estampa em vida, em 1928: «extensa recolha de 186 poemas, (…) [que] engloba muita da poesia de Tsvetáeva escrita na emigração: Berlim e Praga principalmente. Trata-se de uma poesia do depois, logo de ruptura e de perda, de desencontro e de busca» (Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio D’água, Novembro de 2001). Incompatibilizada com os russos exilados, regressa à URSS, em 1939, num gesto de cumplicidade para com Efron, aí embrenhado numa série de complicações políticas. «Mas a Rússia a que Marina Tsvetayeva voltou era já uma Rússia de guerra e esperavam-na novas privações, a evacuação, e todo aquele grande sofrimento» (Manuel de Seabra, Antologia da Poesia Soviética). Vive com a família numa pequena casa nos arredores de Moscovo. Ariana é internada num campo de concentração, Efron acaba por ser detido e Marina fica novamente sozinha com o filho. Sobrevive de traduções até lhe ser suportável o mundo em que então existia. Serguei Iakovlevitch Efron é fuzilado em Outubro de 1941, Ariana é condenada a 8 anos de trabalhos forçados, Marina é evacuada para Elábuga com Gueórgui. Aproveitando a ausência deste numa jornada de trabalho forçado, «enforca-se, vindo provavelmente a ser sepultada numa vala comum». A 31 de Agosto de 1941 uma mulher apaixonada morreu pendurada numa corda, deixando a balançar num corpo inerte as paixões que lhe deram vida, ou seja, liberdade. Tanto Efron, o executado, como Marina, a suicidada, foram vítimas de uma cultura ocidental que vota ao ostracismo e tortura e mata aqueles que arriscam ser algo mais que uma existência ao serviço da LEI. Gueórgui, o filho, morrerá na frente de combate em 1944.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
UMA CAMISA LIMPA
A 4 de Setembro de 1896 ocorreu em Marselha um fenómeno do Entroncamento: nasceu Antonin Artaud. Corria sangue grego na família, mas não era grande coisa: escaparam três de nove filhos. Aos 4 anos, Artaud foi atingido pela meningite, um vírus que certo bom senso científico considerou estar na origem das nevroses que o acompanharam ao longo da vida. Na adolescência voltou a ser atingido, mas pela faca de um proxeneta. Inconformados com um filho sonâmbulo, os pais arrumaram-no num sanatório. Aí teve por companhias literárias Rimbaud, Baudelaire, Edgar Poe. Tudo bons rapazes. Em 1920, um médico receita-lhe 40 gotas de láudano ao pequeno-almoço, o princípio de uma dieta à base de opiáceos que Artaud fez questão de experimentar várias vezes ao longo da vida. Deixa Marselha e parte para Paris, quando o eco Dadá fazia escutar-se em qualquer esquina vanguardista. André Breton afirma: «Dadá é o livre pensamento artístico». Mas Breton pouco sabia de liberdade. Rompe com Dadá e engendra o primeiro manifesto do surrealismo. Entretanto, Artaud tentava publicar poemas em revistas que o rejeitavam. Envia alguns para a Nouvelle Revue Française, que Jacques Rivière recusa. No entanto, Artaud inicia uma profícua troca de correspondência com Rivière. Publica Tric Trac du Ciel, posteriormente renegado. No mesmo ano em que adere ao surrealismo, aparece L’Ombilic des Limbes. Artaud dedica-se ao cinema e ao teatro, é actor, encenador, funda o teatro Alfred Jarry, escreve argumentos para filmes. Em 1926, acaba por ser expulso do movimento surrealista. A la Grand Nuit ou le Bluff Surréaliste consagra a ruptura com a orientação do movimento. Desenvolve uma forte inclinação para a performance teatral, aprofunda as suas teorias acerca do teatro da crueldade, profere palestras, redige manifestos. A 6 de Abril de 1933, «propôs-se ao público com um título estranho: O Teatro e a Peste. (…) Anaïs Nin estava lá (….): «não há palavras para descrever o que Artaud interpretava no estrado da Sorbonne. (…) Tinha o rosto em convulsões de agonia e os cabelos ensopados em suor. Os olhos dilatavam-se, enrijava os músculos, os dedos lutavam para conservar a flexibilidade. Transmitia-nos a secura e o ardor da sua garganta, o sofrimento, a febre, o fogo das suas entranhas. Estava em plena tortura. Berrava. Delirava. Representava a sua própria morte, a sua própria crucificação. As pessoas começaram por ficar de respiração cortada. Depois desataram a rir. Toda a gente ria! Assobiava, por fim, as pessoas foram saindo uma a uma, no meio de um grande ruído, a falar alto, a protestar». Ao lado de Artaud estava a actriz Génica Athanasiou, vítima de uma relação tumultuosa, da qual restaram várias cartas, com o autor de Heliogabalo. O fracasso arrasta Artaud até ao México, onde trava conhecimento com os índios Tarahumaras. Dirige-se à Irlanda para restituir aos irlandeses uma vara que, dizia ele, pertencera a S. Patrício, mas também a Lúcifer e a Jesus Cristo. Expulsam-no do país. No regresso a França, é detido e recambiado para um asilo. Estávamos em 1937. Atravessa um período de exílio de nove anos, transportado de asilo para asilo até estancar em Rodez, à custa de electrochoques e outras suaves terapias. São tempos marcados, sobretudo, pela sobrevivência. Escreve cartas para não se esquecer de que estava vivo. Os seus poemas-carta são célebres, nomeadamente a carta a Pierre Loeb, intitulada O Homem-Árvore, escrita em 1947: «Quem foi Baudelaire? / Quem foram Edgar Poe, Nietzsche, Gérard de Nerval? / Corpos / que comeram, / digeriram, / dormiram, / ressonaram uma vez por noite, / cagaram / entre 25 e 30 000 vezes, / em face de 30 ou 40 000 refeições, / 40 mil sonos, / 40 mil roncos, / 40 mil bocas acres e azedas ao despertar, / tem cada qual de apresentar 50 poemas, / o que realmente não é de mais, / e o equilíbrio entre a produção mágica e a produção automática está muito longe de ser mantido, / está todo ele desfeito, / mas a realidade humana, Pierre Loeb, não é isto. / Nós somos 50 poemas, / o resto não somos nós mas o nada que nos veste, / se ri para começar de nós, / vive de nós a seguir». É recuperado de Rodez pela mão de alguns amigos, que o homenageiam no Teatro Sarah Bernhardt. Estávamos em 1946, a Segunda Grande Guerra havia terminado e Artaud regressava do seu campo de concentração. Publica algumas obras fundamentais, realiza gravações de rádio cuja transmissão era cancelada, tenta publicar as suas obras completas. Este homem que um dia representou o papel do judeu errante, foi ele próprio, em carne e osso, a errância incarnada. Encontraram-no morto, no dia 4 de Março de 1948, sentado numa cadeira, depois de haver ingerido um frasco quase cheio de hidrato de cloral. Havia uma nota no espelho do quarto: vestir amanhã uma camisa limpa para o encontro com o Pierre Loeb.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
A MONTANHA MÁGICA
Quando saiu a primeira edição de A Montanha Mágica (1924), Thomas Mann (n. 1875 – m. 1955) já tinha publicado, entre outros, Os Buddenbrook (1901) e Morte em Veneza (1912), dois dos seus livros mais conhecidos. A Montanha Mágica marca um momento de consagração que conhecerá o ponto mais alto com a conquista do Prémio Nobel da Literatura em 1929. A obra começa a ser escrita na sequência do internamento de Katja Mann, mulher do autor, num sanatório situado em Davos, como uma «espécie de equivalente humorístico da novela Morte em Veneza». O que deveria resultar num pequeno romance, redundou numa obra com mais de 800 páginas (na edição portuguesa) levada a cabo durante doze anos. Apesar da extensão e das dificuldades de leitura inerentes a um estilo tão reflexivo quão minuciosamente descritivo, A Montanha Mágica mereceu um acolhimento excepcional do público, sendo imediatamente traduzida para quase todas as línguas europeias. Durante vários anos, os leitores portugueses tiveram acesso a este clássico através de uma edição da Livros do Brasil. A Dom Quixote colocou à nossa disposição, em Maio passado, uma versão traduzida directamente da língua alemã por Gilda Lopes Encarnação, autora também de um breve posfácio onde nos são oferecidas algumas pistas para a compreensão de um livro de pormenor que alia a «qualidade autobiográfica» à «riqueza do factual».
A narrativa decorre, na sua quase totalidade, no interior do Sanatório Internacional Berghof, onde o jovem burguês Hans Castorp vai visitar o primo, Joachim Ziemben, que aí se encontra internado recuperando de problemas pulmonares. Dos sete capítulos que dão forma ao monumento, cada um deles dividido em diversos subcapítulos, o primeiro é meramente introdutório e relata a chegada de Castorp ao sanatório; o segundo apresenta-nos o herói desta história, mostrando-nos as suas origens familiares e uma educação burguesa, descrita com um forte sentido autocrítico, em clara sintonia com a juventude de Thomas Mann: «Hans Castorp não era um génio nem um idiota, e se evitamos o termo «mediano» na sua caracterização não é, de modo algum, por razões que se prendem com a sua inteligência ou com a simplicidade da sua pessoa, mas sim por respeito para com o seu destino, que, assim nos julgamos inclinados a acreditar, comporta um determinado sentido sobre-individual» (p. 44-45)». Estas alusões à ausência de um carácter excepcional na personagem central do romance são bastante frequentes, e expõem com elegância, rigor, e bastante fundura a personalidade e a psicologia de Hans Castorp. O que possa haver de excepcional neste jovem não é tanto do inato como parece ser do adquirido, ou, dito de outra forma, provém de uma fenomenologia da percepção que o vai transformando sem que ele estabeleça quaisquer compromissos redutores das experiências pessoais. Hans Castorp é «um filho traquinas da vida» em processo de transformação.
No terceiro capítulo encontramo-lo em contacto com o ambiente respirado no Sanatório, entrando numa nova sociedade, com as suas regras e idiossincrasias específicas, estabelecendo pontes de relação com os seus habitantes, constituindo elos mais ou menos fortes com alguns deles. A postura séria e formal de Hans Castorp, a sua «inclinação para tudo o que é triste e edificante» (p. 213), choca com o ambiente vivido no Sanatório e adquire um contraponto essencial quando este trava conhecimento com o senhor Settembrini, um espirituoso maçon cujo sentido pedagógico não mais deixará de zelar pela formação do nosso herói. O mesmo sucederá quando Castorp se cruzar com Leo Naphta, no sexto capítulo, um jesuíta «simultaneamente revolucionário e aristocrata, simultaneamente socialista e obcecado pelo sonho de tomar parte em formas de vida elevadas e distintas, exclusivas e organizadas» (p. 500). As contendas entre Settembrini e Naphta, como que reivindicando para si a formação de Castorp, marcarão indelevelmente a natureza especulativa da narrativa, que, bem vistas as coisas, não deixa de ser o traço principal do jovem Hans, em contraste com o rigor militar de Joachim. Acrescente-se às inquietações do espírito a febre do amor experienciado por Madame Chauchat, cujos olhos o remetem para uma paixão antiga sentida pelo colega Pribislav Hippe. Chauchat desperta em Castorp amores oprimidos, paixões fleumáticas, um ambivalente sentido do tempo pautado pelo fenómeno da espera.
Com o avançar das páginas e a sucessão de capítulos, aclara-se uma das intenções centrais do romance: indagar acerca do tempo. São imensas as dissertações sobre o tema, os envios e as chamadas de atenção para pormenores que fazem deste um romance onde as «antinomias espirituais» (Kalus Schröter) confluem para uma mesma questão: a problemática temporal, a morte e a vida no imo de um movimento de espera. O início do último capítulo é explícito: «Será possível narrar o tempo, o tempo em si e por si, o tempo como tal? Claro que não, isso seria uma perfeita loucura! (…) E se soa exagerado afirmar que se pode «narrar o tempo», não parecerá, contudo, uma perfeita loucura, como se nos afigurava de início, querer narrar acerca do tempo, de modo que o epíteto de «romance do tempo» se pode revestir de um duplo sentido, singular e mágico» (pp. 611-612). Neste sentido, Thomas Mann parece fazer coincidir a consciência do tempo com a experiência dos dados da natureza. Já no termo do romance, distingue o tempo medido pelos relógios de um «tempo comparável ao crescimento da relva, que nenhum olho humano vislumbra, mas que todavia não pára secretamente de suceder» (p. 806). É no interior deste tempo objectivo que «o nosso sonhador em hibernação» se transforma. A magia da montanha não é outra senão a de nos mostrar esse tempo objectivo que Edmund Husserl classificava de transcendental e Thomas Mann faz descer à planície.
A narrativa decorre, na sua quase totalidade, no interior do Sanatório Internacional Berghof, onde o jovem burguês Hans Castorp vai visitar o primo, Joachim Ziemben, que aí se encontra internado recuperando de problemas pulmonares. Dos sete capítulos que dão forma ao monumento, cada um deles dividido em diversos subcapítulos, o primeiro é meramente introdutório e relata a chegada de Castorp ao sanatório; o segundo apresenta-nos o herói desta história, mostrando-nos as suas origens familiares e uma educação burguesa, descrita com um forte sentido autocrítico, em clara sintonia com a juventude de Thomas Mann: «Hans Castorp não era um génio nem um idiota, e se evitamos o termo «mediano» na sua caracterização não é, de modo algum, por razões que se prendem com a sua inteligência ou com a simplicidade da sua pessoa, mas sim por respeito para com o seu destino, que, assim nos julgamos inclinados a acreditar, comporta um determinado sentido sobre-individual» (p. 44-45)». Estas alusões à ausência de um carácter excepcional na personagem central do romance são bastante frequentes, e expõem com elegância, rigor, e bastante fundura a personalidade e a psicologia de Hans Castorp. O que possa haver de excepcional neste jovem não é tanto do inato como parece ser do adquirido, ou, dito de outra forma, provém de uma fenomenologia da percepção que o vai transformando sem que ele estabeleça quaisquer compromissos redutores das experiências pessoais. Hans Castorp é «um filho traquinas da vida» em processo de transformação.
No terceiro capítulo encontramo-lo em contacto com o ambiente respirado no Sanatório, entrando numa nova sociedade, com as suas regras e idiossincrasias específicas, estabelecendo pontes de relação com os seus habitantes, constituindo elos mais ou menos fortes com alguns deles. A postura séria e formal de Hans Castorp, a sua «inclinação para tudo o que é triste e edificante» (p. 213), choca com o ambiente vivido no Sanatório e adquire um contraponto essencial quando este trava conhecimento com o senhor Settembrini, um espirituoso maçon cujo sentido pedagógico não mais deixará de zelar pela formação do nosso herói. O mesmo sucederá quando Castorp se cruzar com Leo Naphta, no sexto capítulo, um jesuíta «simultaneamente revolucionário e aristocrata, simultaneamente socialista e obcecado pelo sonho de tomar parte em formas de vida elevadas e distintas, exclusivas e organizadas» (p. 500). As contendas entre Settembrini e Naphta, como que reivindicando para si a formação de Castorp, marcarão indelevelmente a natureza especulativa da narrativa, que, bem vistas as coisas, não deixa de ser o traço principal do jovem Hans, em contraste com o rigor militar de Joachim. Acrescente-se às inquietações do espírito a febre do amor experienciado por Madame Chauchat, cujos olhos o remetem para uma paixão antiga sentida pelo colega Pribislav Hippe. Chauchat desperta em Castorp amores oprimidos, paixões fleumáticas, um ambivalente sentido do tempo pautado pelo fenómeno da espera.
Com o avançar das páginas e a sucessão de capítulos, aclara-se uma das intenções centrais do romance: indagar acerca do tempo. São imensas as dissertações sobre o tema, os envios e as chamadas de atenção para pormenores que fazem deste um romance onde as «antinomias espirituais» (Kalus Schröter) confluem para uma mesma questão: a problemática temporal, a morte e a vida no imo de um movimento de espera. O início do último capítulo é explícito: «Será possível narrar o tempo, o tempo em si e por si, o tempo como tal? Claro que não, isso seria uma perfeita loucura! (…) E se soa exagerado afirmar que se pode «narrar o tempo», não parecerá, contudo, uma perfeita loucura, como se nos afigurava de início, querer narrar acerca do tempo, de modo que o epíteto de «romance do tempo» se pode revestir de um duplo sentido, singular e mágico» (pp. 611-612). Neste sentido, Thomas Mann parece fazer coincidir a consciência do tempo com a experiência dos dados da natureza. Já no termo do romance, distingue o tempo medido pelos relógios de um «tempo comparável ao crescimento da relva, que nenhum olho humano vislumbra, mas que todavia não pára secretamente de suceder» (p. 806). É no interior deste tempo objectivo que «o nosso sonhador em hibernação» se transforma. A magia da montanha não é outra senão a de nos mostrar esse tempo objectivo que Edmund Husserl classificava de transcendental e Thomas Mann faz descer à planície.
Escrito para o Rascunho.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
A FUNÇÃO DO GEÓGRAFO
23.
Não há lugares, nunca houve, nem mesmo antigos.
Há o que olhamos neles, a sua marca de pó de tijolo que os faz sumir.
Só assim conseguimos chegar. Só brandamente, para lembrarmos.
Não para tocar as colunas lilases ou fazer a travessia no veleiro das tangerinas.
Só vagamente andamos. Não caminhamos, debaixo do sol.
Os pés dos nómadas não enegrecem com as areias e as águas de pequenos portos.
São os ulmeiros que nos protegem e não os seus terraços.
A marca de pó fere-nos numa gota desmaiada,
podemos entretê-la mesmo entre os dedos que não petrifica.
Nada mudou desde o primeiro queixume, foi
com os olhos que partimos na linha do mediterrâneo
e são as oliveiras o seu diurno limite.

Não há lugares, nunca houve, nem mesmo antigos.
Há o que olhamos neles, a sua marca de pó de tijolo que os faz sumir.
Só assim conseguimos chegar. Só brandamente, para lembrarmos.
Não para tocar as colunas lilases ou fazer a travessia no veleiro das tangerinas.
Só vagamente andamos. Não caminhamos, debaixo do sol.
Os pés dos nómadas não enegrecem com as areias e as águas de pequenos portos.
São os ulmeiros que nos protegem e não os seus terraços.
A marca de pó fere-nos numa gota desmaiada,
podemos entretê-la mesmo entre os dedos que não petrifica.
Nada mudou desde o primeiro queixume, foi
com os olhos que partimos na linha do mediterrâneo
e são as oliveiras o seu diurno limite.
Ainda antes da publicação de A Função do Geógrafo (Dezembro de 2000) e de A Ordem do Mundo (Setembro de 2005), ambos pela Quasi Edições e com óptimas recepções críticas, a poesia de Rui Coias apareceu no n.º 10 dos Cadernos de Poesia Hífen (Maio de 1997), dedicado à poesia portuguesa dos famigerados anos 90. Na nota biobibliográfica que acompanhou a edição destes poemas, fomos informados de que Rui Penote Coias – assim assinava, à época, o poeta – nasceu em Lisboa, no dia 2 de Setembro de 1966, e ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cidade onde descobriu a paixão pela poesia. Cumprida a licenciatura em 1991, seguiu-se um estágio na sociedade de advogados PLMJ, o exercício da advocacia numa empresa petrolífera espanhola, pós-graduação em assessoria jurídica de empresas e assessoria na Cepsa. Um currículo, convenhamos, nada convencional para poeta. Sucede que a vida é um percurso sinuoso. E o poético nunca se coadunou com convencionalidades. Coias regressou à escola para estudar Filosofia e passou a investir mais tempo nas viagens. Fundamentos de Passagem dá conta dessa vocação, é um excelente weblog sobre a experiência da viagem e as aventuras dos viajantes. Num post recente, cita-se Maurice Blanchot a propósito do "caso Rimbaud": «O escândalo de Rimbaud tomou múltiplas formas: em primeiro lugar, escreve obras-primas, renuncia a escrever outras enquanto parece capaz de continuar a produzi-las. Renunciar a escrever, quando se deu conta que se era um grande escritor, não passa sem constituir mistério absoluto. Tal mistério aumenta quando se descobre o que Rimbaud pede à poesia: não que produza belas obras, nem que responda a um ideal estético, mas que ajude o homem a partir para algures, a ser mais ele próprio, a ver mais do que pode ver, a conhecer o que não pode conhecer - numa palavra, fazer da literatura uma experiência que engloba o todo da vida e o todo do homem» (sublinhado nosso). Sobre a poesia de Rui Coias, escreveu Joaquim Manuel Magalhães: «Um dos pendores dos seus livros é a configuração memoriosa do que entende dar-nos do seu passado, sobretudo viagens a lugares que podem ter ficado entretecidos de sentimento ou de registo de anotações paisagísticas ou de um tempo perdido ainda que ganho em relação à fundura da interioridade» (Expresso, 4 de Março de 2006). Rui Coias é autor de dois excelentes livros de poemas que apenas se ligam ao agora na medida em que atravessam todos os tempos, projectando-nos para um algures emocional que nos deixa à deriva e obriga a questionar todo e qualquer preconceito que possa ainda existir acerca do que vamos designando de poético. Digamos que não é uma poesia que dê nas vistas por aspectos meramente caricaturais, mas é uma poesia das vistas, das paisagens – interiores e exteriores -, que se vai fazendo ouvir pausadamente, com uma coerência e qualidade raras.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
PRECIPITAÇÃO
Só muito esforçadamente podemos aceitar que o psicopata John Doe pudesse invejar a vida do detective Mills. Este vivia num apartamento que vibrava a cada passagem do metropolitano, tinha um trabalho de merda numa cidade inóspita, uma mulherzinha bonita, é certo, mas com quem raramente estava, e que ainda por cima lhe omitia pormenores fundamentais da vida conjugal. Mills não é invejável, até porque sucumbirá à ira com monótona previsibilidade. A passagem que Sommerset lê do diário de Doe mostra-nos uma mente que repugna a vida normal e previsível de um homem como o detective Mills. Afinal, John Doe não contém o vómito quando um indivíduo banal tenta meter conversa consigo no Metro. E ri-se enquanto vomita, enjoado com tanta trivialidade. O detective Mills é vulgar e frívolo, um palerma armado em mauzão, produto típico de uma sociedade, como muito bem diagnostica Sommerset, a rebentar de apatia. Mills apenas merecia a mesma repugnância que é dedicada às outras vítimas. A sua vida não merecia ser invejada. Mas a vida do detective Sommerset sim, essa poderia merecer a inveja de uma mente como a de John Doe. Sommerset é inteligente e solitário, é um homem em ruptura com a sua sociedade, um espírito crítico, culto, sofredor, um melancólico (em tempos, a melancolia foi considerada pecado capital) que consegue manter-se integrado à custa de um invejável autodomínio. As insónias são uma prova das inquietações que o atormentavam. Era muito mais coerente que John Doe matasse, por inveja, o detective Sommerset. Jamais a mulher de Mills, cuja vida denota uma vulgaridade atroz, a mesma vulgaridade sobre a qual Doe vomitava. John Doe não venceu. Quis completar em horas uma obra pensada, engendrada, preparada durante anos. Precipitou-se perante a sua própria ansiedade. E neste caso, como noutros, a precipitação acabou por ser o pecado capital do artista.
BRAÇO DIREITO
Nem de propósito. Encontrei Blaise Cendrars sentado numa tradução de Herberto Helder, o mágico das palavras que recusa bustos de pedra. «Ei-los ao homem e à mulher / Ambos feios ambos nus». Os versos transportaram-me para a Bíblia Sagrada. Ao Génesis, «tanto o homem como a mulher andavam nus, sem sentirem vergonha por isso». Depois deram ouvidos à serpente, comeram o fruto da árvore que estava no meio do jardim, abriram os olhos e taparam as partes baixas. Fizeram-se à Vida. Desde então, andamos à procura do Éden. Sempre que nos aproximamos, somos colhidos por uma espada de fogo que nos incendeia e desfaz em cinzas. Nasceu a 1 de Setembro de 1887, esse que ficaria desconhecido da maioria, mas conhecedor do mundo, pelo pseudónimo de Blaise Cendrars. Filho de homem de negócios suíço, errou de nação em nação arrastado pelos braços familiares. Fecharam-no de castigo num quarto após lhe terem diagnosticado malfeitorias na escola de Neuchâtel. A criança nada queria com as escolas e não nascera para menino do papá. Gamou-lhe os cigarros e escapuliu-se para a Rússia, onde foi sobrevivendo miseravelmente do fabrico de relógios. Miseravelmente livre, acrescente-se. Fique também claro que tocou vários instrumentos: homem de negócios, jornalista, crítico, agricultor, ia tudo dar ao mesmo. Eram modos de ganhar a vida, de conquistá-la. Apaixona-se por Hélène, «que morre tragicamente queimada». Casa com a polaca Féla Poznanska em 1914. Viaja incansavelmente pelo mundo, calcorreia os lugares mais exóticos, experimenta, parte, regressa, volta a partir. De novo em Paris, é preso ao tentar roubar um livro de Apollinaire numa livraria. Não sabemos se o facto terá contribuído para que travassem conhecimento, o que aconteceu em Novembro de 1912 após a publicação de Les Pâques à New York (escrito de um jorro após a audição de A Criação, de Haydn, na igreja de Saint Bartholomew, em Nova Iorque, onde o poeta se recolhia do desespero e da fadiga): «Enormes barcos negros chegam dos horizontes / E desembarcam-nos, a esmo, nos pontões. // Há italianos, gregos, espanhóis, / Russos, búlgaros, persas, mongóis. // São animais de circo que saltam os meridianos. / Atiram-lhes com um pedaço de carne como a cães. // Essa sórdida ração é para eles uma felicidade. / Senhor, tende piedade dos povos que sofrem» (Poesia em Viagem, trad. Liberto Cruz, Assírio & Alvim, Março de 2005). Prose du transsibérien et de la petite Jehanne de France aparece em 1913, publicado em folhas de 2 metros de altura, numa tiragem de 150 exemplares, com pinturas abstractas de Sonia Delaunay. Uma Torre Eiffel de poesia acabara de ser dada à estampa. «Porém, eu era muito mau poeta. / Não sabia ir ao fundo das coisas. / Tinha fome» (idem). E prosseguiu caminho, o andarilho. Na sequência de ferimentos durante uma participação na Primeira Grande Guerra, perde o braço direito e, sem ele, começa a perder Féla Poznanska, de quem teve três filhos: Odilon, Remy e Miriam. Casará posteriormente com a actriz Raymone Duchateau. Mas antes ainda, viagens pela Inglaterra, Brasil, África, Portugal, Espanha, serão apenas interrompidas para largar manuscritos nos editores. Conhece meio mundo literário e aventura-se pelo cinema e pela rádio. Deixa de publicar poesia em meados da década de 1920. Encontramo-lo a habitar um castelo, a percorrer 100 000 km num Alfa-Romeo conduzido com uma só mão (Braque desenhou-lhe a carroçaria), a escrever prosas inspiradas por uma vida verdadeiramente alucinante. Os anos posteriores serão da prosa, do cinema, das memórias. O filho Remy morreu-lhe durante a Segunda Grande Guerra. Malraux, então Ministre des Affaires Culturelles, condecora Blaise Cendrars, em 1958. De coração enfraquecido por sucessivos ataques, o nómada morre a 20 de Janeiro de 1961 - mais cheio de vida que a maioria dos vivos:
Et il y avait encore quelque chose
La tristesse
Et le mal du pays.
Et il y avait encore quelque chose
La tristesse
Et le mal du pays.
BANDA SONORA

Por vezes esmoreço. É esta coisa absurda de começar a contar os minutos, de enterrar os pés na areia enquanto uma onda vem e vai, os olhos postos no horizonte, num barquito que o atravessa, nas gaivotas que adejam a sombra de um céu ligeiramente nublado, enquanto na esplanada bebo a última imperial daquela vista, passando pelo corpo, como se o corpo fosse uma tela, os negativos que nos trazem de volta os ausentes. A memória não ressuscita os mortos, alivia-nos como se por intermediações mediúnicas fosse possível voltar a estar com quem já se esteve. De certa forma, estamos sempre com quem já estivemos. Penso nisto enquanto olho a Ana deitada na praia, a Beatriz ao lado amansando o sono, a Matilde a compor inspiradas instalações contemporâneas com baldes, ancinhos, formas, pás, regadores, chinelos. São as últimas brasas de um lume petiscado há duas semanas. Já me despedi dos 286 degraus de Vale dos Homens, dos discos rochosos da Carreagem, da casa do mocho, que ali permanece e nos saúda enquanto passamos levantando poeira. Despeço-me agora da Arrifana, onde é costume o vento pousar quando nós nos preparamos para levantar voo. Antes ainda, porém, passo por Odeceixe. Espreito o Sporting num monitor estrategicamente pendurado na esplanada, bebo mais uma para a despedida, fumo alguns cigarros enquanto as pizzas são amassadas. Serão o último banquete servido na mansão. E são boas, picantes, adornadas com malaguetas e pickles que resmungam pelo fim da cachaça. Não há-de ficar nada que se beba… já que não nos livramos de um carro atolado com melancias, abóboras, amendoins, três dúzias de ovos, couves, tomates, pimentos, batatas, et voilà, cinco litros da pomada do Rogil. Enquanto despejamos a garrafa sob céu sarapintado, um foguetório de estrelas a perder de vista, dançamos lentamente ao som de grilos, cigarras, pardais, rolas, o coaxar tímido de um sapo, o mugido das vacas ao longe. Este ano não trouxe a guitarra, apeteceu-me guardar os dedos para outros dedilhados. Trouxe Haley Bonar, Rosie Thomas, Laura Veirs, Mojave 3, Red House Painters, Bonnie Prince Billy, Cat Power, Andrew Bird, Brendan Benson, Ryan Adams, Damien Jurado, Tom Waits, Jeff Hanson, Neko Case, entre outros que seria injusto mencionar. Também não foram imprescindíveis, convenhamos. À noite, dêem-me uma ópera de insectos. Ao dia, as gargalhadas das crianças. Regressemos então ao sanatório. À nossa espera, numa taverna improvisada em sótão caótico, Leopold Bloom discute «o turismo viageiro moderno» e pergunta a um marinheiro manhoso se ele já viu o Rochedo de Gibraltar, ao que este responde estar «cansado de todos esses rochedos do mar»; o Cônsul Geoffrey Firmin cai para dentro de um vulcão de mescal ao som de Bach; Ismael recorda as aventuras passadas a bordo do Pequod, e todos o escutam com iniludível interesse; especialmente Julien Sorel, que ali veio rir, já depois de morto, sobre as feridas hipócritas dos amores impossíveis. E Hans Castorp? Que é feito do filho traquinas da vida? Partiu para a guerra, enquanto nós regressamos ao sanatório, a nossa guerra de contas para pagar com horas a menos que os dias. Neste sótão onde escrevo as últimas linhas de umas férias caminhando para o abismo, recordo a casa colonica de Bruce Chatwin, esse «andarilho compulsivo», e sigo caminho, sem peregrinar, como se entrasse novamente num deserto que mais do que me consolar me impõe a consciência de um limite: o regresso a casa é o limite, a necessidade de um abrigo para o riso, a taverna improvisada onde me vou cruzando com personagens de outras vidas para melhor poder pensar a minha própria vida, porque nenhuma experiência experienciada nos abandonará definitivamente, inscrita que fica nos genes, na pele, nas rugas, no sangue. «Voltar para é também regressar de» (Michel Onfray). Regresso, então, das palavras do Fallorca com um sublinhado: «Porque também gosto de regressar a casa, à nossa casa, de reencontrar essa segurança e tranquilidade, que nada impede ou contradiz a necessidade de errância, na medida em que a considero um prazer, e nunca a aceitaria como uma devoção, um compromisso, e muito menos um fado» (Entre Chipiona e Tarifa). Dito de outro modo: considero o regresso um prazer porque sei existir nele, in crescendo, uma vontade de voltar. Mas por vezes emoreço. Que as aves migratórias, talvez um certo pombo-correio, entendam esta forma de solidão é tanto quanto me basta. Tenho uma na manga: zonas autónomas temporárias, terrorismo poético. «Agora é viver ou morrer!» Finis Operis.
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