O Da Literatura transformado em apêndice do Simplex. Tenho pena.
Domingo, 30 de Agosto de 2009
YOU'RE THE ONE THAT I'VE BEEN WAITING FOR

Com dois bilhetes para o carrossel na carteira, oferta da Alice e do Pedro à Matilde e à Beatriz, resolvemos tirar o dia para uma investidura cultural por terras de Lagos. Comemoram-se 250 anos sobre aquela que ficou para a história como a “Batalha de Lagos”, um episódio da Guerra dos Sete Anos, que opunha a França à Grã-Bretanha, entre outros implicados, na disputa pelo «controle comercial e marítimo das colónias além-mar». O apontamento histórico cai que nem ginjas nestes dias em que procurei desintoxicar a Matilde dos efeitos narcóticos das Winx com uma BD sobre a história de Portugal. Expliquei-lhe, em jeito de intróito, que Aljezur fora noutros tempos terra das arábias, um dos últimos redutos do Gharb al-Andalus. Ontem, depois de uma abordagem às Invasões Francesas, ela mostrava-se espantada com a valentia dos seus antepassados, capazes de desancar em árabes, espanhóis e franceses, conquistando terras que, para o bem e para o mal, são as que nos foram outorgadas. São as mesmas terras onde franceses, espanhóis, ingleses e alemães vêm agora emborrachar-se, avermelhar a pele, mostrar as mamas com vestidos de noite absolutamente pindéricos e desapropriados (a moda das t-shirts com legendas provocatórias e convidativas deu lugar a decotes absolutamente óbvios e, em muitos casos, tão competentes com um certo espantalho que servia de pouso a vários estorninhos numa horta do Rogil). Também se vêem árabes, fazem comércio de peles e tatuagens de Henna. E mulheres “das Áfricas”, enrolando tranças nas cabeleiras vaidosas das turistas. Há ainda os indianos, distribuídos por vários restaurantes que deixam uma cosmopolita fragrância a caril nas ruas da cidade. Na BD que vou lendo à Matilde, os versos de Luís de Camões aparecem truncados. O povo vil é rico e prosperado, o caril uma ardente especiaria de cheiro suave. Entramos no antigo edifício dos Paços do Concelho, onde passamos vistoria a parte de um evento intitulado MALA – Mostra de Artistas de Lagos. Tanta abstracção confunde as crianças. A páginas tantas, a Matilde olha para o quadro da electricidade e pergunta o que aquilo quer dizer. Nada, provavelmente como muitas das obras ali expostas. Forma, forma e mais forma, o conteúdo reduzido a estilo, um estilo cativo de mordaças niilistas que tudo metamorfoseiam em pose. Mas nem tudo é nada, sejamos justos. Gosto de alguns trabalhos que denotam uma vontade de intervir e de denunciar, que alertam para as consequências nefastas de um progresso tão opulento quão criminoso. Fotografias de animais esborrachados por símbolos de marcas de automóveis transformados em balas fatídicas, certeiras. «Pessoalmente, não sei mesmo o que é belo, mas sei do que gosto, e acho isso amplamente suficiente» (Boris Vian). E gosto destes crimes em trânsito, destes poemas. A ironia faz milagres, como as Winx e os heróis da História de Portugal. Subimos até ao Centro Cultural de Lagos, onde vamos encontrar trabalhos de Julião Sarmento, João Louro, entre outros, como um tal de Paulo Nazolino (vide 5entidos – Agenda de Eventos de Lagos). O espaço do CCL é muito agradável, a mostra, intitulada Entre o Céu e o Mar, é breve mas pertinente, está bem organizada, deixa-nos respirar e provoca-nos sensações diversas. Agrada-me o trabalho de Paulo Brighenti (pormenor ao alto), uma espécie de mural em carvão vegetal onde se combinam vários elementos. O desenho invertido na parede toma o seu sentido quando olhamos o espelho colocado no chão. Às vezes é o que basta, olhar o mundo do avesso para melhor o compreendermos. Nada de fusões, que apenas geram confusões. Nada de oposições, que apenas demarcam fronteiras artificiais. Optemos pela Simpatia, «a alma a passar sem atavios, a passar a pé, não sendo mais do que ela própria» (D. H. Lawrence). Descemos à Praça do Infante, onde deparamos com os poderes mágicos de uma lamparina. Apelamos ao génio da lâmpada: duas doses de ostras ao natural e uma de conquilhas. Desejos satisfeitos. Na verdade, momentos antes tinha-me ajoelhado no interior da Igrejas de Santa Maria, solicitando à boa vontade do omnipresente e omnipotente bom Deus um belo prato de ostras ao natural. E o Senhor ouviu as minhas preces. De novo na Praça Gil Eanes, depois de atravessarmos a “feira dos cafés e dos restaurantes”, entramos no carrossel dos artistas de rua. Várias tribos ali se reúnem, vendendo o que sabem e o que têm em troco de uma forma de sobrevivência provavelmente inspirada na cultura ‘hippie’ dos idos sessentas e setentas. Momentos antes, tinha lido no Courrier o retrato de Milo Kurtis, um músico polaco, hippie e anarquista, que esteve quase a candidatar-se às eleições europeias. Não resisto a algumas comparações. As “fatiotas multicoloridas” de outrora deram lugar a trapos velhos geralmente negros, os “pendentes com símbolos pacifistas e cruzes” foram substituídos por tatuagens com motivos tribais e piercings de todos os tipos, duvido que alguém ainda ouça Joan Baez. Mantêm-se as baforadas de haxixe como elo de ligação a um passado não tão desaparecido quanto às vezes possa parecer. E um certo estar. Compro um CD a um trio de “dance music orgânica” (didgeridoo, bateria e multipercussões) chamado Olive Tree Dance, a Ana e a Matilde entretêm-se com os malabaristas, ofereço dois cigarros a uns punks que tocam numa flauta uma melodia que me parece ser a Oliveirinha da Serra e fazem bolas de sabão, a Beatriz quer regressar ao carrossel. Talvez um dia venha a perceber que nunca o abandonou. Mais que um circo, a vida é este carrossel de partir e de voltar para de novo partir até novamente regressar para definitivamente partir quando a morte nos leva para esse algures insondável e imprevisível. São voltas e voltas… Existir não como um palhaço que entretém o público anónimo com malabarismos imbecis, mas como alguém que dá mais uma volta no carrossel da vida, que ganha balanço, que se diverte sem outra intenção que não seja divertir-se, mesmo que por vezes a diversão seja acometida pela tristeza e à tristeza se imponha o direito e o dever de nomear o que corre no sangue - a revolta, o medo, a solidão, o ódio, o amor, o amoródio - porque mais que tudo escrever é um acto livre e a poesia a «antimatéria da sociedade de consumo». Sem heróis pelo caminho, sem fadas, sem poderes mágicos, sem Winx.
Sábado, 29 de Agosto de 2009
UM RELÓGIO AVARIADO
Quando Benjamim pousou na janela de Baltazar, não ocorreu na consciência deste qualquer cisão entre o mundo da fantasia projectado no ecrã e a imagem real de uma ave aterrando numa janela. Ficção e realidade eram exactamente a mesma coisa, pelo que o pombo acabara de pousar não na vida de Baltazar mas no episódio de Uma Casa na Pradaria a que este assistia. O nosso herói estancou os olhos no pombo durante três quartos de hora. Nos seus cronómetros internos três quartos de hora significavam pouco mais que dois minutos. Sabe o leitor que um dos efeitos da hidroerva consiste na adulteração da experiência temporal: uma hora transforma-se num minuto e um segundo parece a eternidade. Constatamos inclusive que a humanidade anda toda ela sob o efeito de uma curiosa alucinação temporal, não se distinguindo de um relógio avariado. A história vai-se repetindo como se nunca tivesse acontecido, o presente cumpre-se sem pedir explicações ao passado, o futuro é uma incerteza sem rede. O que para uns é um longo atraso, para outros é a mais inglesa das pontualidades. Dizem-nos que a refeição demorará cinco minutos. Esperamos uma hora e nada acontece, os acepipes continuam nas mãos de um cozinheiro alucinado. Pedem-nos hoje o que é sempre para ontem, e sempre que nós solicitamos alguma coisa para ontem é como se estivéssemos a pedir para amanhã. Baltazar conhecia bem esta sensação da velocidade parada do tempo, ou, se preferirem, do estacionamento em marcha dos ponteiros. Por vezes, sucedia-lhe esperar horas pelos episódios de Uma Casa na Pradaria, consecutivamente programadas para uma espécie de hiato temporal, uma hora riscada da programação. Quando o episódio iniciava, logo se assistia ao seu fim. Parecia não ter durado mais que cinco minutos. Eis uma das leis irrevogáveis da vida: o prazer é efémero, a dor é interminável. Por isso duram tão pouco tempo os orgasmos e demoram tanto tempo as feridas a sarar. A hidroerva ajudava a inverter esta cadência, transformando o perene em efémero e vice-versa. Explica-se desta forma que Baltazar apenas tenha caído em si quando começou a sentir a falta de Michael Landon no monitor. Aquele pombo estava mesmo pousado na janela da sua casa. A janela da sua casa, ainda que fosse uma janela aberta para o mundo, dificilmente viria a revolucionar o que quer que fosse. Ou nem tanto.
Escrito para O Indesmentível.
«QUANDO A MORTE CHEGA, DEIXA DE HAVER ESPAÇO PARA NÓS»
«Conheço a morte, sou um velho funcionário ao seu serviço, temos tendência a sobrevalorizá-la, acredite no que lhe digo! Posso assegurar-lhe que ela não vale nada. Tudo aquilo que a precede e que, em certas situações, pode assumir contornos ultrajantes não pode ser imputado à morte: são circunstâncias que fazem parte da vida mais activa e que podem conduzir à cura e à sobrevivência. Ninguém que regressasse do reino dos mortos lhe poderia relatar qualquer coisa de concreto sobre a morte, porque ninguém a experiencia. Nascemos das trevas e é nelas que nos afundamos. Entre um pólo e o outro vivem-se experiências, é certo, mas a verdade é que não experienciamos nem o princípio nem o fim, nem o nascimento nem a morte, o que significa que eles não têm carácter subjectivo. Enquanto fenómenos, pertencem exclusivamente à esfera do objectivo, é o que é.
Era desta maneira que o conselheiro consolava os vivos.»
Thomas Mann, A Montanha Mágica, trad. Gilda Lopes Encarnação, Dom Quixote, p. 606.
Acabámos de receber por SMS a notícia da morte do Victor. Sucumbiu um ano depois de lhe terem diagnosticado um cancro no pulmão. Resistiu enquanto pôde. Guardo-lhe boas memórias, de um fim-de-semana passado na Lousã em 2004, de alguns encontros no Porto e outros pelas vias modernas dos encontros e dos desencontros. Depois de ter sabido da doença, tentei escrever-lhe algumas vezes. Manifestei uma intenção que nunca consegui concretizar. O que dizer? «Enquanto nós existirmos, não há espaço para a morte». O Victor é o da esquerda, de cigarro na mão.
UM LAMENTO

Desci até Sagres atraído pelo desejo das ostras. Acabei traído pelo bandido a quem as tinha encomendado. Ninguém me manda confiar. Há anos que vamos ali abastecer a despensa de peixe fresco, comprávamos conquilhas quando as havia, aprendemos o prazer afrodisíaco dos moluscos. Havia, digamos, uma relação estabelecida. Já não há. Ao lado da peixaria, o que foi outrora um bar com livros, ligação internética, boa música, um ecrã gigante onde eram projectados filmes, está transformado numa loja dos chineses. Ora toma lá o «esmeril do progresso» na sua máxima decadência. Com futuros assim, não admira que a simpatia se vá desfigurando em assaloiada soberba. Meti-me em marcha até ao Cabo de São Vicente, retemperei as forças com um bolinho de figo e amêndoa, fumei um cigarro, deixei a ventania levar as mágoas. Isto é um negócio pobre - queixa-se o vendedor. Mas eu estou mais para perscrutar as escarpas com o coração, que é a melhor forma de as perscrutar. O sangue para-se-nos nas veias, as veias tropeçam umas nas outras, o coração palpita e não esmorece. Somos infinitamente ínfimos. E belos. E feios. Somos uma felicidade a ser gozada pelo despropósito das musas (grande tirada!). Novamente em Aljezur, levanto as órbitas até às ruínas do castelo e relembro um poema revoltado que ali escrevi há um ano. Essa revolta acabou, deu lugar a um estranho comprazimento, agora sou como um caracol transportado pela sua própria casa. Afinal, «as dores são um sonho mau de que se acorda na sepultura» (Camilo Castelo Branco). Compro carapaus para as visitas, o Courrier para mim. Levo gelo para as feridas. Não me posso esquecer de mandar o episódio da semana d’A Cidade a Tossir para O Indesmentível, é a única obrigação que me liga de momento ao mundo dos obrigados (também me obrigo a olhar pela liamba, como uma criança que olha pelo seu animal de estimação). Explico à Matilde o significado da expressão temer por alguém. Enquanto descemos à Carreagem o verbo adquire um sentido fantasioso, temer por alguém não é ter medo de, nem sequer ter medo por, é querer o bem de, é dar tudo por tudo para evitar que o mal se abata sobre as cabeças de quem amamos. Larga-me a braguilha, diz a Ana. E diz muito bem. Regressemos ao lume, as visitas estão para chegar. Há carapaus assados na brasa, salada de tomate colhido na horta, pimentos assados, batatas cozidas, há vinho branco gelado, pão do Rogil, há bolinhos de amêndoa para acompanhar o café, há melão, melancia, uvas tintas e brancas. A conversa é agradável, passa depressa e é quase como se não tivesse passado nem presente nem futuro. Digamos que ajuda a iludir a maresia, o gelo que já anuncia o Outono, a partida, o regresso. Os petizes vêem filmes, pintam-se, inventam-se. A Beatriz quer fazer festas ao Basquiat. Acaba a fazer um poema quando eu a desaconselho de se aproximar do “mutante “: Mas eu tenho festinhas na minha mão. É um lamento, como quase sempre são os melhores poemas. Poemas também são mãos carregadas de festinhas para distribuir pelo mundo. E são murros, e são simplesmente mãos. Adormeço no sofá com a televisão ligada. Acordo como se não tivesse adormecido. Batem à porta, é o Vivaldo com um saco de amendoins.
Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009
O LIVRO DAS CASAS ABANDONADAS

Acordei melancólico, começo a projectar o fim da ópera de grilos e cigarras que me tem vindo a embalar noite dentro. Aproxima-se vertiginosamente, com ele a angústia do regresso e de mais um ano a contar os dias que faltam para a partida. A mesa do alpendre onde vou conquistando quilómetros de frases à “montanha mágica” e escrevinho estes apontamentos está decorada com tomates (coração de boi?), pimentos, uma melancia e uma couve enorme. A couve alberga algumas joaninhas, o que é bom sinal. Que ninguém tome as joaninhas por parvas. É uma boa couve, só não sabemos o que fazer com ela. Talvez venha connosco para cima, talvez se converta em sopa, talvez. Há alguns excessos que vão ter de conhecer a via verde do progresso. Falta-nos a porca Rosita para dar cabo dos restos, uma gorda e voraz porca preta que vivia nas traseiras da mansão. É provável que tenha sido transformada em bifes e em enchidos. Resta-nos uma pocilga, outra casa abandonada, ocupada agora por aranhas que formam rigorosos padrões geométricos nas paredes mais claras. Vou-me entretendo no encalço das vacas, apanho amoras, pico as pernas, afasto as vespas, coço as picadas dos mosquitos, escrevo O Livro das Casas Abandonadas. Passei a noite a sonhar com enxames de abelhas, colmeias pontapeadas inadvertidamente, terramotos, perseguições. Enfim, acordei melancólico. Vingo-me nas leituras. As Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco, começam bem: «o estreme espírito português, por mais que o afiem e agucem, é sempre rombo e lerdo»; o Bill Bryson apresenta-me um reverendo que acreditava que «o consumo de carne conduziria a uma espécie de desequilíbrio hormonal que levaria os homens a aproveitarem-se das mulheres dóceis»; Henry David Thoreau lembra-me que «as nossas boas maneiras corromperam-se com os santos»; Boris Vian arranca-me um sorriso: «As palavras e os peidos têm em comum o facto de serem volumes de ar que saem das extremidades do tubo digestivo»; em Edgar Allan Poe busco o consolo dos mestres: «E não me importa o tempo que se esgota / Porque bebo cerveja todo o dia». E as aventuras de Hans Castorp, esse inquieto filho da civilização, ficaram muito mais estimulantes depois da entrada em cena do professor Naphta. As intermináveis contendas com Settembrini, o maçon, revigoram a narrativa. Desconfio que as descrições no subcapítulo intitulado Neve poderão ser-me úteis dentro em breve, repleto que está de referências a desfiladeiros, escarpas, socalcos, fragas, promontórios, enseadas, penhascos, falésias e arribas, colinas, vales, regatos, declives. A «vontade de estar só com os [meus] pensamentos» empurra-me para uma caminhada junto à costa. Há dois anos tive companhia. Este ano irei sem guia, perdido para Sul, até onde os músculos aguentarem e a Natureza permitir. Mas antes há que ir a Sagres comprar ostras. Amanhã temos visitas ao jantar.
Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
HORTAS

Enquanto degustava os percebes arrancados à rocha pelo mestre Vivaldo, ocorreram-me intermitentemente algumas imagens da primeira incursão pela Praia da Amália. Devo a aventura a um grande amigo, o Mário Pedro. Eu tinha acabado de tirar a carta de condução, pedi a 4L emprestada ao meu pai e parti com o Mário para o Sudoeste. Quem conhece, sabe que conduzir um bólide daquele calibre é já uma aventura. Imaginem o que não será se o motor ceder sempre que param o carro. Era o que acontecia. Nos semáforos, nos cruzamentos, nos entroncamentos, nos stops, nos pára-arranca das filas de trânsito, o camelo amochava. Fui mais tarde informado de que bastava apertar um parafuso no alternador para o problema ficar resolvido. Ainda assim, conseguimos ir e voltar, dormimos uma noite dentro da carripana, não perdemos nenhum banho no canal, desbravando quase invariavelmente caminhos de ovelhas e vacas. Também fomos perseguidos por um enxame de mosquitos e, numa tarde em que chovia torrencialmente, descemos à praia da Zambujeira, estendemos as toalhas e o céu abriu-se fazendo vénias aos raios de sol. Mas essas são outras histórias, que apenas aqui aparecem porque ontem voltei à Amália.

Hoje, enquanto caminhava para mais uma visita aos Três Arquinhos, também eu saudei a luz que iluminava a paisagem. Voltei a pôr os olhos nas pequenas hortas, nos milheirais, numa manada de vacas que pastava ali perto, nas casas abandonadas cuja poesia sempre me encantou, mais ainda depois de ter lido O Livro das Igrejas Abandonadas de Tonino Guerra. Imagino que antes de terem sido entregues aos caprichos da natureza, estas paredes gravaram existências, protegeram vidas, imagino que mais tarde ou mais cedo alguém voltará a oferecer-lhes a história anónima da sua passagem pela Terra. Histórias como as que se escutam involuntariamente numa mesa dos Três Arquinhos, narradas ora por quem as testemunhou, ora por quem nelas interveio como actor principal ou secundário: o galego das três mulheres, o caçador de javalis, o condutor sem carta, o incansável combatente, o retardado que imita galinhas, um cigano vestido de negro dos pés à cabeça, com umas barbas a roçarem-lhe o peito e o cabelo pelos ombros. São histórias que, muito provavelmente, não ficarão na História. A não ser que alguém venha um dia a escrever um Made in Rogil para relatar, entre outros factos imporováveis, a passagem por aqui de um alemão extravagante que quis povoar estas pastagens com «todas as aves mencionadas nas obras de Shakespeare». Como duvido dessa possibilidade, concentro-me na horta. Este ano, não tão abundante como nos anos precedentes, deu-nos várias saladas de tomate, esse venenoso hortofrutícola «utilizado durante séculos enquanto curiosidade decorativa», pimentos grelhados, sopa de feijão verde… A dieta já era suficientemente rica, não contávamos, nem sequer imaginávamos, que pudéssemos agora condimentar as sobremesas com estas ervas encantadoras:

Terça-feira, 25 de Agosto de 2009
A VIDA

Aqui estamos, patético Hans, debaixo de três mil ínfimos anos transformados em tudo quanto podemos almejar. Mas protejamos o nosso «coração com três couraças críticas» (p. 463). Nem tudo são conversas espirituais, as sanefas das janelas deverão permanecer contidas, a aquilégia que por todo o lado brota pode provocar reacções alérgicas. Descemos à planície com a certeza de em breve virmos a retomar a vida no sanatório. O clima da montanha entope-nos o pulmão. Estamos condenados ao pulmão entupido. Até lá, cumpra-se a vida. Sem stresses. Mestre Vivaldo apareceu pela manhã a desafiar-me para os percebes. Por aqui escrevem perceves nas ementas. Infelizmente, tive que negar-me. Havia prometido às miúdas pizza na Taska da Saska, Odeceixe. Demos com as portas cerradas, invertemos a marcha, estancámos no Quintal dos Sabores. Local simpático, manjares atraentes, as miúdas à-vontade nos escorregas, muitas moscas. Pedi uma feijoada de búzios, metamorfoseada em feijoada de chocos por ser demasiado demorada a cozedura das trombetas marítimas. Reguei o pitéu com uma garrafa de Tinoco, colheita de 2007. A Ana investiu nas amêijoas. Rematei a refeição com um café, cheio, como sempre, e uma fatia avantajada de Delícia do Algarve, uma magnífica espécie de tarte à base de amêndoas e de figo, guarnecida com canela. Ora aí está um prazer, que até aos meus mais aplicados detractores sugiro com benevolência. Barriguinhas aconchegadas, breve passeio pelo centro. Sem Ventil no Mercado, nem trocos no Alisuper – quer-me parecer que os supermercados do toldo verde estão a dar as últimas −, libertei-me da nota numa caixa de incenso que entretanto já perfuma a mansão. Odeceixe tem vindo a perder o encanto que tinha quando aqui chegámos pela primeira vez, há treze anos. Muita coisa mudou, e essa mudança, que noutros casos fica latente, patenteia-se nos estilos, nas formas e nas cores, nos trajes, nos comportamentos e nos sotaques da maioria dos actuais forasteiros. Pode ser preconceito meu, admito. Mas também pode não ser. Há treze anos, recordo-o agora, montámos tenda no quintal de uma casa que tinha sido alugada pelo Pedro e pela Carmen. Ainda lá está, no topo da vila (?). Tínhamos a visita assídua de um cão que baptizámos com o nome de Artur. Fumámos muito, bebemos mais, fizemos amor no terraço da casa, debaixo de três mil ínfimos anos transformados em tudo quanto podemos almejar. Também me recordo de um chuveiro antigo armado no pinhal, um daqueles baldes com torneira, onde libertávamos o corpo do sal que trazíamos da praia. Agora somos outros, o tempo mudou e mudou-nos. Mantêm-se intactas, como uma espécie de elo entre o presente e o passado, algumas carismáticas figuras. Volto a avistar na praça central o velho da boina preta que desenhei há treze anos. Não está sentado no banco onde estava quando o rabisquei num pequeno caderno preto, mas continua por aqui, vivo, com a mesma boina e o mesmo perfil de doninha. A nostalgia impeliu-me para o volante. Regressei à Praia da Amália. A paisagem mantém-se encantadora, com várias estufas onde agora se cultivam framboesas e algo que me pareceu ser – seria? – folha de tabaco. O girassol metálico que nos aponta a praia também se mantém de pé, ao contrário dos pinheiros que por ali havia. Mas o regresso foi bem mais aconchegante do que a última visita. Da última vez que tinha descido à Amália, fiquei indignado com a quantidade de porcaria dispersa pelo percurso pedonal. Resquícios das hordas festivaleiras, que por ali andaram a dar cabo de tudo quanto era belo: a fonte invadida por pensos higiénicos, latas de cerveja, sacos de plástico, um cheiro insuportável a mijo e a merda… A vegetação adensou-se, camuflou a nascente, o carreiro está coberto de plantas, cria-nos a ilusão de estarmos a atravessar uma floresta densa e enigmática. Já com os pés no areal, levámos os corpos à queda de água doce, aquecemo-nos deitados nas rochas, fomos beijar as ondas com vagar e cuidadinho. Estava saciada a nostalgia. Ao chegarmos a casa, tínhamos um saco de percebes pendurado na porta com um manuscrito do Vivaldo: Senhor Henreque, esta aqui a sua prenda desculpe ser pequena mas pede ser que para a prexema seja milhor Adeus até Logo Vivaldo. Este vai directamente para a carteira, há-de acompanhar-me durante muitos anos. A vida é mais ou menos isto, jovem Castorp.
Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009
O NOME DOS CORPOS
Perguntam-nos a que praia costumamos ir. Não sabemos responder. Arrifana, Vale dos Homens, Odeceixe, Amoreira, Monte Clérigo, Zavial, Carriagem. Ainda não repetimos uma beira-mar desde que aportámos na mansão da Esteveira. Gostava de saber a origem destes nomes, particularmente de Monte Clérigo e de Vale dos Homens. Também há uma terriola aqui perto que se chama Azia. Como se chamarão os seus habitantes? Lá para as nossas bandas, despertam-me a curiosidade lugarejos tais como o Imaginário, Poesias, A-dos-Negros, A-dos-Francos, Guisado, etc.. As revelações do Bill Bryson, que leio para desenfadar da vida no Sanatório Internacional Berghof, estimulam-me estes interesses. Conta o autor de Made in America que quando se iniciou o processo de atribuição de nomes nos states, surgiram vilas com designações tão enigmáticas como Delirium Tremens, Dead Mule, Dead Bastard Peak, Two Tits ou Shit-House Mountain. Mas a curiosa imaginação dos colonizadores primogénitos não se ficou por aqui. Já na “era dourada” da escravatura, David Hackett Fischer relata como um visitante de Virgínia «ficou em choque ao ver senhoras a comprarem escravos negros do sexo masculino, examinando cuidadosamente os seus órgãos genitais». Por estas bandas, não se compram escravos negros mas examinam-se discretamente alguns órgãos. A nudez dos corpos purifica as almas, atrai algumas atenções cujo desconforto é compensado por uma sensação de liberdade que nos envia para a infância, quando nenhum preconceito moral, nenhum puritanismo delimitava os gestos. É a mesma liberdade que cai sobre a terra quando a noite desnuda o céu e nos brinda com um transparente festival de constelações. O céu estrelado de ontem à noite não deixava antever o manto de nuvens que hoje se interpôs entre os nossos corpos descascados e os raios solares. Como a temperatura estava óptima, resistimos ao céu cinzento e estendemos as toalhas nas rochas até a praia ficar à nossa mercê. Quando chegámos, viam-se apenas três pescadores, meia dúzia de famílias, dois casais de estrangeiros, uma senhora idosa a apanhar banhos de céu nublado perto da nascente de água doce onde, de vez em quando, refrescava os pés. Enquanto a preia-mar não atingiu o zénite, a Beatriz improvisou mergulhos originais em poças minúsculas e a Matilde entreteve-se numa espécie de piscinas formadas por formações rochosas em círculo que caracterizam o local. As escarpas íngremes protegiam-nos do vento, entretido a pentear os cactos e outras plantas disseminadas por toda a costa. Dentro em breve, ficaríamos apenas na companhia das gaivotas cujo cântico arrebatado me entusiasma se os espécimes fizerem o obséquio de bater as asas à distância. Não gosto de aves, tenho-lhes pavor, invejo-lhes o voo tanto quanto lhes abomino as penas. Só as suporto já depenadas, como o frango que deixámos a descongelar para começar a ser assado assim eu termine este breve apontamento. Ou seja, agora mesmo.
Domingo, 23 de Agosto de 2009
CLÁSSICOS

Acordei sobressaltado no sofá onde havia adormecido a ver o Sporting levar duas pancadas do Braga. Um ruído estranho na janela da sala fez-me levantar. Abri os postigos de madeira e deparei com uma vaca a lamber os vidros da janela. Olhei-a nos olhos e vi uns olhos melancolicamente humanos, quebrantados, tudo na vaca era melancolicamente humano, até as quatro patas se assemelhavam à mais humana das condições. Tenho tido sonhos mais estranhos, ainda assim não posso negar que a imagem da vaca me perturbou. Puxei d’A Montanha Mágica e escalei mais uns metros de texto. Hans Castorp irrita-me, o primo Joachim é-me indiferente, Settembrini diverte-me, o conselheiro Behrens intriga-me, mas o ambiente vivido no sanatório entedia-me. Dou, por isso, passos breves, matando o tempo com divagações mudas e outras que trago à página. Quando o sol caiu sobre a horta, fui abastecer-me de limas. Parei nos Três Arquinhos para beber um café e um bagaço. Antes, tinha parado numa estação de serviço onde comprei o Público. Erro crasso. Enquanto folheava o jornal assaltou-me uma agitação que pensava ter deixado em Caldas da Rainha. As notícias do mundo, mais ainda as notícias deste pedaço de terra que somos obrigados a chamar de nosso país, deixam-me deprimido, melancólico como os olhos da vaca onírica que me tinha acordado de madrugada. Vejo nas páginas centrais uma fotografia de alguém que tira uma fotografia. O modelo pousa em posição de ex-combatente junto as umas rochas fatídicas, o lugar da tragédia transformado em peregrinação veranista. Na revista do periódico, passo fugazmente os olhos pela jornalista que se desligou do mundo. Devem ter-lhe pago para o efeito. Eu pagava, não para oito dias, mas para o resto da vida desligado do mundo. Quem não perceber que compre um dicionário. Os weblogs têm-me sido um escape, um pretexto para não pensar no que dói concentrando os dedos no que fere, uma forma de matar o tempo, uma manobra de diversão, uma fuga para a frente, têm sido um modo de suportar o mundo denunciando-o, testemunhando-o. Na realidade, preferia não sentir qualquer vontade de escrever sobre o que quer que seja. Preferia, sobretudo, não sentir qualquer vontade de partilhar com os outros o olhar ferido das musas, as vacas que se nos chegam em sonhos e abortam o descanso. Não é defeito, é feitio. E a Ana sabe disso como ninguém. Olha-me e diz: não devias ter comprado o jornal. Depois sugere passeio para sul, até ao Zavial, no encalço de uma paisagem apaziguadora. Ela sabe. A Beatriz bem pode queixar-se do vento, a mim já ninguém tira a pele rachada pelo sol, os “olhos estriados de sangue”, a areia enfiando-se em cada poro enquanto o coração adopta o ritmo dos menires. Perguntam-me: qual é o ritmo dos menires? É um ritmo lento, calmo, sereno, é um ritmo antigo, talvez “fora do mundo”, um ritmo ultrapassado pelo tempo, ou o ritmo próprio do tempo que passa sem ser preciso matar o tempo, porque até as pedras envelhecem, mas mais lentamente que os homens. Recordo que acabei por ali os Cem Anos de Solidão. Há muito que tenho por hábito fazer-me acompanhar por clássicos nas férias. Na casa da Esteveira li, entre outros, O Vermelho e o Negro, Debaixo do Vulcão, Moby Dick, autênticos menires da literatura, livros que são um tempo sem tempo a envelhecer mais lentamente que a maioria dos livros. Outrora acampei em Sagres. Já lá vão uns sete ou oito anos antes da última vez, antes das praias terem sido invadidas por idiotas à procura de outros idiotas que as revistas de gente idiota gostam de promover. E agora ocorre-me: ermida de Nossa Senhora da Guadalupe, um mistério templário por resolver, o sol a nascer e a pôr-se na mesma direcção, um mirone na zona nudista, a anatomia das pedras organizada em cores, o viandante, o vermelho ferrugíneo das figuras vibrantes, vasta e seca panorâmica, rochas douradas, planície, um cão de guarda ao monumento megalítico, um clássico.
Sábado, 22 de Agosto de 2009
UM POUCO DE BIOGRAFIA
Chegados a este ponto, impõe-se que percamos algum tempo com alguns elementos biográficos do nosso bom Baltazar. Tanto quanto pudemos apurar, o pai era um modesto produtor de azeite que perdia no jogo praticamente tudo quanto ganhava. O primeiro bem que perdeu acabou por ser a mulher. Farta de cantigas, partiu para Nenhures deixando para trás marido e filhos. O pai de Baltazar ia morrendo de desgosto, mas como o desgosto não mata intentou suicídio com a pretensão de reconquistar a mulher à custa de piedade e aflição. A dose de veneno acabou por ser fatal. O pai do nosso herói faleceu espumando da boca com os filhos em redor. No momento em que perdia o seu segundo bem, a própria vida, escutaram-lhe uma derradeira confissão: era só para saber se ela ainda me amava. Não amava mas regressou, para criar os filhos até estes se espalharem pelas sete caudas do mundo. Baltazar ficou-se pela cauda mais pequena, tendo passado a maior parte dos anos de juventude a ouvir os The Doors, a seguir séries televisivas e a fumar charros de hidroerva. Além disto, pouco mais sabemos. O negócio dos pombos surgiu-lhe após várias incursões desditosas pelo mundo do trabalho. Para onde quer que se virasse, o azar perseguia-o como uma doméstica fatalidade. Seria lícito perguntar o que fez para viver. Seria, tivesse ele vivido. Podemos apenas afiançar que durante vários anos falhou em todas as actividades em que se metera, desde elaborar signos em jornais locais a vender produtos de beleza por telemarketing. Foi-lhe reconhecido mérito com os signos, até alguém ter descoberto que as previsões não passavam de colagens de trechos recortados de outras páginas de signos publicadas em variadíssimos jornais e revistas de diversas épocas. O negócio dos pombos surgiu-lhe por mero acaso, depois do pombo Benjamim ter poisado no beiral da janela da sala onde Baltazar assistia a um episódio de Uma Casa na Pradaria. Conta-se que o pombo Benjamim desertara do antigo pombal depois de lhe terem chamado Colombo da orientação. Ora, todos sabemos das imprecisões geográficas de Colombo e se há característica que não lhe pode ser gabada é o sentido de orientação. Não admira, pois, que o pombo-correio tivesse tomado por insulto o que era para ser um elogio. E deste equívoco veio a nascer o ganha-pão de Baltazar.
Escrito para O Indesmentível.
BASQUIAT

Aproveito as manhãs para avançar algumas páginas n’A Montanha Mágica: «Quem não apresenta os vinhos mais caros e distintos nos banquetes, perde os convivas e não consegue casar as filhas» (p. 227). É o que me aconteceria se continuasse a presentear as visitas com a pomada do Rogil, este ano substituída por outros néctares mais em conta para o fígado. Reparo que o tanque é visitado amiúde por rolas turcas e pegas de rabo azul. À noite, em conjunto com grilos e cigarras, mais o mugido ocasional das vacas, produzem uma banda sonora bastante agradável, uma poesia que escapa aos desalojados da cidade. O Basquiat anda sempre com as antenas em riste, entretém-se a mascar ervas e a espantar os gatos que se aproximam atraídos pelo cheiro do peixe grelhado. Ontem pregou-nos uma partida. Antes de irmos para a Amoreira, uma das praias cuja paisagem perdeu quase todo o encanto com a chegada em massa dos “amigos do ambiente”, passámos por casa da dona Lurdes para reclamar de um cano entupido na casa de banho. Estávamos na praia, quando a Ana recebeu um telefonema aflito dando conta do desaparecimento do “mutante canídeo” enquanto o cano era reparado. O valente, deve ter estranhado os invasores e pôs-se a milhas. Meti-me no carro e acelerei o mais que pude, de olhos bem abertos a ver se via algum novelo de pêlo branco saltitante. Era pouco provável que o fosse encontrar muito distante da mansão, mas qual não foi o meu espanto quando o avistei vindo do lugar das vacas, junto a uns estábulos abandonados, quase junto ao cruzamento que apanha a estrada principal do Rogil. Ora, entre a Esteveira e o cruzamento ainda vão, pelo menos, uns três quilómetros. Tendo em conta que o cachorro zarpou na direcção contrária ao percurso viário, para os lados de Maria Vinagre, só pode ter vindo ali parar atravessando os campos de pasto das vacas, as pequenas hortas e os milheirais que compõem a paisagem. Tê-lo encontrado foi uma sorte. Quando o vi, contei-lhe que aquele acto de traição merecia o mesmo castigo que os colonos da América do Norte infligiam aos traidores no séc. XVIII: «O castigo por traição era ser enforcado, cortarem-lhe a corda vivo, estriparem-no, forçá-lo a ver as próprias entranhas a serem queimadas diante de si, e por fim ser decapitado e esquartejado» (Bill Bryson). Mas depois pensei melhor e verifiquei que não havia traição na fuga. Afinal, assim que eu buzinei o quadrúpede correu felicíssimo na direcção do carro. Até acabei por sentir um certo orgulho na aventura do cão. Fez-me lembrar os tempos em que eu fugia de casa na Nazaré quando ia bazar o lixo. O espírito deve ser mais ou menos o mesmo, essa necessidade de aventura e de liberdade que força a partir quem pondera menos do que age. Estou agora a imaginá-lo de roda das vacas, calcorreando tomateiros e atravessando milheirais, farejando a terra na direcção de alguma coisa que ele lá saberiaa o quê, provavelmente os donos, provavelmente uma cadela que lhe meteu as necessidades em alvoroço. Imagino-o perdido na paisagem e invejo-o.
Quinta-feira, 20 de Agosto de 2009
MAR

Tanta conversa sobre provisões de guerra, e quase me esquecia do essencial: o mar. Sobre o mar já muitas e belas páginas foram escritas, não posso senão proferir banalidades, redundâncias, lugares-comuns. Tenho-lhe respeito. Sinto pela força do oceano algo semelhante ao que os nómadas do deserto sentem pelas tempestades de areia, o mesmo tipo de respeito e admiração que alguns povos declaram pelas erupções vulcânicas, pelas monções, pelos tornados. Sabemo-lo traiçoeiro, perigoso, inexorável, mas não resistimos ao seu apelo. A beleza dos grandiosos elementos da natureza reside na capacidade com que nos reduzem à insignificância que ao longo dos tempos procurámos iludir com supostas conquistas e engenhosas invenções. Ao pé desses elementos, somos animais de talentos muito limitados, tudo se torna ínfimo e insignificante. Que podemos almejar de um mergulho no Mar Oceano? Se formos sensíveis e honestos, uma expurgação da arrogância com que enfrentamos a vidinha quotidiana. É interessante notar que essa mesma expurgação pode ser experienciada com uma simples caminhada matinal. Hoje, por exemplo, levantei-me às 8 da manhã, meti A Montanha Mágica às costas e fui até ao Rogil. Levava fisgados um café e uma aguardente de medronho nos Três Arquinhos, na companhia de uma fauna à qual sacamos diálogos tão estimulantes como este: − Precisas de serventes? − De cervejas? − Também gosto. E entre vários tirinhos a conversa vai fazendo caminho, numa mesa repleta de velhas glórias do mar convertidas à construção civil. O mundo está a mudar. Exemplos: a aguardente de medronho foi substituída por bagaço, os pescadores transformaram-se em pedreiros, a vizinhança desapareceu (a velhota que vivia 150 metros a sul atirou-se para dentro de um poço, ao velhote que vivia 100 metros a norte, produtor de uma aguardente de aroma e textura inigualáveis, falhou o coração). No mar só se vêem turistas de fato de mergulho e um ou outro resistente da pesca à linha. Só o escaravelho americano, que dá cabo de tudo, veio para não mais partir. Não me censurem, pois, por ceder à caipirinha enquanto abano a brasa. Muito antes das minhas fraquezas, um senhor chamado Scieffelin povoou a América com estorninhos e milhões de elementos das tribos Cheyenne, Comanche, Apache, Navajo, etc., foram esquartejados por causa do comércio das peles e do tabaco. É óbvio que não deixo o meu paladar ser colonizado sem regras. As caipirinhas que bebo, sou eu ou os amigos que as fazem. Devo ao Álvaro a iniciação. Raspo as limas, esmago-as o mais possível enquanto misturo o suco com açúcar louro; despejo o xarope para um shaker com gelo bem picado e uma dose considerável de cachaça; misturados os elementos, verto o líquido para um copo com mais gelo e polvilho tudo no final com as aparas das limas. A vantagem da caipirinha relativamente ao vodka 7, que durante vários anos imitei do Bukowski, é o ácido das limas, que evita enjoos indesejáveis e oferece ressacas mais facilmente recuperáveis. Para dizer a verdade, nunca ressaquei de caipirinhas. Acompanho o peixe grelhado ou as carnes, os polvos ou outro petisco qualquer, com vinho ou cerveja. Portanto, ressaco das misturas. Nunca de uma coisa só. Mas julgo que dá me adiantei demasiado num texto que deveria ser apenas sobre o mar, essa auto-estrada de colonizações que muito recentemente começou a vingar-se da unilateralidade.
PRAIA

Quero aqui dar graças ao Dr. Gambino pela receita de Formoterol e Miflonide, que me tem permitido fumar sem quaisquer constrangimentos. Neste aspecto, sinto-me em perfeita sintonia com Hans Castorp, que não conseguia perceber como há pessoas que não fumam. Não vou ao ponto de asseverar que não teria coragem para me levantar se soubesse que não tinha tabaco para o dia, mas agrada-me a comparação que a personagem de Thomas Mann faz entre o acto de fumar e estar na praia: «estamos simplesmente na praia e não precisamos de mais nada, nem de trabalho nem de diversão». Durante muito tempo fugi da praia como o diabo da cruz. Foi a Ana quem me pegou o vício. Hoje em dia, não passo sem um mergulho na água salgada, o corpo enrolado na areia, um passeio à beira-mar. A vantagem da maioria das praias que frequentamos por aqui é a dificuldade do acesso. Os promontórios, as altas falésias, abrigam-nos de ventos indesejáveis e das hordas turísticas que invadem as praias rasas de dunas e de areais relativamente extensos. Em algumas delas, sentiria falta de uma esplanada não fosse o caso de me ter artilhado de uma geleira com doses de minis suficientes para uma tarde bem passada. Dispenso assim esplanadas e cafés à beira-mar, costumam ser caros, sujos e demorados no atendimento. Com a geleira à mão, estica-se o braço e regala-se a garganta. Intercalo mergulhos de sol e de mar, com algumas leituras e brincadeiras na areia. A Beatriz tem receio das ondas, mas a Matilde é afoita. Quando a maré vaza, um espectáculo de flora outrora submersa dá à costa. É como se as rochas se levantassem do sono e ali viessem entreter-nos com indescritíveis arco-íris de algas, limos e outros tipos de vegetação cujo nome desconheço nem faço questão de conhecer. Prefiro deixar os olhos regalarem-se nas cores sem buscar nomes para o regalo, prefiro sentir o gozo sem o nomear, prefiro andar pelas rochas, avistando uma estrela-do-mar ou um viveiro de lesmas sem mexericar nesses incríveis fenómenos com as antenas dos dicionários. Noutros anos, quando me levantava às seis da manhã para ir aos polvos na companhia do Vivaldo e do Luís, aprendi muitas palavras novas que não fazem justiça ao prazer proporcionado por andar entre essas coisas sem lhes saber o nome. O espanto de as visitar anonimamente é muito mais agradável. De resto, ninguém apanha polvos por saber que se chamam polvos. E quase sempre regressámos a casa com pouco mais do que um balde cheio de percebes e meia dúzia de santolas.
Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009
A CHAMA

Antes de uma tarde inteira de papo para o ar na Arrifana, parámos numa mercearia junto ao mercado de Aljezur para comprar limas, pão e alho com fartura para os polvos. A Ana tinha combinado jantarada na mansão com um casal amigo. Quando vi as tropas chegarem, ia-me dando uma coisinha. Depois de uma manhã em que passaram por aqui, vá lá, um homem e uma mula, cinco putos e dois casais e meio é muita fruta. Quase certo que me vão espantar os grilos. Tudo bem contado, éramos 7 adultos e 7 crianças, 14 bocas famintas e sedentas. Despachámos primeiro os pequenos, para depois darmos ao dente livre e descansadamente. Já com os polvos cozidos, a Ana chamou-me para o bico do fogão enquanto descascava batatas. Enchi uma frigideira de azeite, descarreguei para lá alho em doses generosas e, já com o lume desligado, embebi os coentros naquele magnífico aroma que serviu para regar os tentáculos da bicharada. Ficou um chorar por mais. No entanto, confesso que não me desajeitando ao fogão sinto-me muito mais à vontade na grelha. É de volta da brasa, com uma caipirinha por companhia, que os meus olhos brilham. Ainda ontem, quando ateava o lume para as febras que as visitas trouxeram, lembrei-me dos olhos da Adília Lopes fixados no lume enquanto eu e o Moura assávamos um chouriço no Clandestino, ao Bairro Alto. Estou convencido de que o meu olhar não há-de ser muito diferente quando meto a mão na grelha, borrifo as brasas, viro as carnes, espreito a gordura dos peixes a escorrer sobre o fogo. É um olhar dividido entre o fascínio e a alucinação, um olhar primitivo, de um espanto infantil. Fico a olhar as brasas, atento às chamas que o carvão possa cuspir contra as carnes, como se olhasse uma paisagem dos primórdios do mundo. É para lá que viajo, para os primórdios do mundo, sempre que ateio as pinhas e meço o calor às brasas.
Terça-feira, 18 de Agosto de 2009
CRISE DE LIMAS

Entre Caldas da Rainha e a Esteveira, uma breve paragem na Sonega para voltar a experimentar as costeletas d’A Casinha. Chegámos a boa hora. Casa vazia, uma sala só para nós, as miúdas à vontade depois do enfado de uma viagem que a Beatriz vingou aos pontapés no Basquiat, o Basquiat ultrapassou assaltando o colo dos donos e a Matilde ocupou com dúvidas imensas sobre o reinado da fantasia. A Ana acompanhou-me no tinto, deixando claro ao segundo copo que a partir dali iria eu ao volante. Até então, tinha vindo de pendura a regalar os olhos com as vistas e páginas muito a propósito do Fallorca: «A tradição ainda tem muita força e, em muitos casos, manifesta-se pela boca» (Entre Chipiona e Tarifa, 2002). O nosso “mutante canídeo” é que não teve a mesma sorte dos nossos estômagos. Nem de um osso de costeleta nos lembrámos para o pobre desgraçado, que vai ter de se aguentar o resto da viagem com as biqueiradas da Beatriz. Regresso à mansão da Esteveira sabendo que daqui terei de partir para voltar ao meu sótão das Caldas, mas sobre idas e voltas não teço quaisquer considerações. Prefiro aproveitar o estar a perder-me no e depois. Garanto apenas que não me importaria nada de vir experimentar a solidão para aqui durante uns tempos. É certo que as férias oferecem-me um conforto que não existiria se tivesse que fazer a vidinha sem contar com os simpáticos aconchegos da dona Lurdes e do mestre Vivaldo, que nos brindam à chegada com 50Kg de batatas, uma dúzia de ovos, 3 polvos, um saco com tomates e pimentos. Este ano também não nos deixámos ficar atrás: roupa para a neta mais nova, pão-de-ló do Landal e ginja de Óbidos. Seja como for, antes de atearmos o lume das elucubrações melancólicas é preciso atestar o frigorifico. Descemos a Lagos e, atestada a bagagem de víveres, espantamo-nos com a ausência de limas. Temos a cachaça, o açúcar louro, o gelo, faltam as limas. Nem no Modelo, nem no Lidl, nem no Pão de Açúcar. O país atravessa uma crise de limas. A minha sede também.
Segunda-feira, 17 de Agosto de 2009
NARRATIVA
«Lembro-me, como se fosse agora, do esquecimento.»
À medida que ia avançando, vinham-me à memória algumas páginas do Panegírico (Antígona, 1995), de Guy Debord (n. 1931 – m. 1994). Nesse documento final, o pensador situacionista deixou-nos um testemunho de vida que não se esgota no mero relato biográfico. Nele, podemos encontrar a um mesmo nível a agudeza de um olhar reflexivo sobre as circunstâncias experienciadas e a exposição arriscada sobre o que motiva as acções de quem se inclina mais para a vagabundagem inconformista do que para a quietude dos conformados. Haverá muitos motivos para agir desta ou daquela maneira, e o homem é tão determinado quão determinante nas decisões que toma. Panegírico era, também por isso, um título contaminado de ironia, sobretudo quando mais do que auto-elogio o que estava em causa era o sentido autocrítico que apenas serve aos melhores.
Optar por trazer objectivamente a vida à página é, pois, uma opção arriscada. A nossa vida extravasa os limites da página e pode interessar a pouco mais que a nós próprios. Outro problema, lembrado por Debord, surge da necessidade de aquele que opta por se dizer estar consciente do «seu próprio lugar no fluir do tempo, e também na sociedade». Pode, no entanto, sem à página se circunscrever, o homem dizer-se pondo em causa «a lógica do testemunho» (Jacques Rancière), ou seja, já não apenas como aquele que presenciou os factos, mas também como aquele que interveio e continua a intervir sobre os factos. Quando assim é, a testemunha transforma-se igualmente em réu. Dêmos folga às vítimas. Testemunha e réu são, neste caso, figuras do mais implacável dos tribunais: a memória.
As primeiras frases de Narrativa (Frenesi, Junho de 2009), o mais recente livro de Paulo da Costa Domingos (n. 1953), abrem-nos a porta desse terrível tribunal: «Nem me lembro de ter nascido. Estou aqui desde sempre. Faça-se de conta que nada disto aconteceu. Há quem julgue o imaginário menos cruel que a vida quotidiana. Talvez menos que a memória; mesmo a memória sumária» (p. 7). Sublinhe-se a ironia do discurso, um fazer de conta empurrando-nos para supostas ficções, aponte-se o uso do verbo julgar, talvez mais no sentido de supor, separando as águas do imaginário das inquietações da vida quotidiana. As memórias sumárias que agora arrancam, serão um inventário de recordações debatendo-se constantemente com as feridas do presente: dantes era a «tortura fascista dissimulada», «hoje, é esta coisa amorfa sem rosto».
Contudo, estas páginas são também atravessadas pelo gume da des-ilusão. Não confundamos a negação das ilusões com o abatimento dos arrependidos. O que não se esquece de outrora, acentua-nos o desconforto de um agora esquecido, desmemoriado, desinteressado, apático e indiferente, um agora agónico que não sabe aprender com o passado por julgar idos os tempos que nunca foram. Sendo assim, na primeira viagem deste livro somos guiados pelos olhos de um miúdo lisboeta, pela solidão de um autodidacta vindo do nada a crescer para qualquer coisa: «Claro que desde logo surgiram as rãs críticas numa áspera cacofonia. Invejas, confirmei posteriormente. Eu vinha do nada, nem nome de família, uma avô jardineiro e ferozmente anticlerical, outro virado às estradas a abrir caboucos. Doutores não se via lá por casa; só quando alguém ficava doente… desses doutores» (p. 19). Um bom nome de família dá sempre muito jeito em terra como a nossa, estruturada em torno de oligarquias empenhadas contra tudo o que poça ameaçar, nem que seja de raspão, os seus mais ordinários interesses.
Foi o poeta Paulo da Costa Domingos recebendo os exemplos do «não-alinhamento sistemático», guardando para si, como um tesouro inalienável, os frutos da amizade. Entre outras, destaque-se a amizade mantida com o editor Vitor Silva Tavares. Certo é que a vida literária não esgota a vida. Narrativa lembra a família, as partidas, as ausências, os desaparecimentos, algumas estórias domésticas, felizes vizinhanças, deambulações. E, perdoe-se-me a vulgaridade da expressão, mas o melhor elogio que consigo fazer a este livro raro é o de que nos narra uma vida com o coração nas mãos. Passados os verdes anos, a história prolonga-se até 1995 e anos seguintes. Convém também esclarecer que os planos se interligam. De outra forma seria atentar contra a verdade. O plano da vida privada cruza-se com o da vida literária, ambos com a vida social e política.
A divisão do texto em períodos ajuda-nos a situar historicamente as reflexões de carácter sociopolítico, a descortinar nas mais diversificadas experiências algo que afasta fatalmente o testemunho do poeta de Asfalto do testemunho de Debord. Se o segundo pôde dar-se ao luxo de afirmar que «a época presente pouco se pode comparar às do passado», o primeiro opta por compará-las no que mantêm inalterável: um conservadorismo atroz, uma irremediável tendência para a «domesticação colectiva» (p. 76). Contra tais vícios: firmeza ética, acção po-ética. Os livros vão surgindo e são recordados, fundamentados à luz dos tempos em que foram aparecendo. Fica claro e dá gozo ler um poeta a falar assim do seu trabalho. Mais do que consequência do lugar, a poesia de Paulo da Costa Domingos foi sempre uma sabotagem do lugar, uma espécie de acto terrorista contra as senhas da Cultura.
Neste auto-retrato sobressaem as rugas das épocas pré e a pós-revolucionária, alguns conflitos estéticos, a experiência editorial à margem do sistema instalado. Em anexo, dá-se por terminada a narrativa com a história de um caso de censura na democracia «deste nosso tempo miserável». O caso d’O Bispo de Beja é pertinentemente lembrado quando são mais que muitos os exemplos de censura astuciosa a proliferarem no país. Mas ainda antes do fim, e deixando antever continuação, três recomendações finais: «Recomendo o trajecto contrário à amargura pessoana. Recomendo o abandono do fado e do que se diz em surdina. Recomendo, ainda, que cultivem o desprezo por quantos intermediários se infiltrem entre o homem livre e a vida» (pp. 114-115).
Escrito para o Rascunho.
Domingo, 16 de Agosto de 2009
DRS E BALÕES
Uma cliente mostrou-se espantada com uma estante inteira dedicada ao esoterismo, contrastando com duas prateleiras dedicadas à filosofia. A verdade é que no esoterismo misturam-se várias temáticas, havendo um pormenor que distingue os autores de ambos os campos. Estou em crer que uma das razões que explica parte do sucesso dos livros de esoterismo, assim como os de auto-ajuda, se deve ao facto dos seus autores serem, regra geral, Drs. Exemplifiquemos: Dr. Joseph Murphy, Dr. Brian Weiss, Dr. David Posen, Dr. Phill McGraw, Dr. Wayne Dyer, etc.. Ora, se os filósofos começassem a puxar dos títulos, teriam muito mais sucesso. Um Dr. Zizek venderia muito mais do que um mero Slavoj Zizek, um Dr. Sloterdijk é mais apelativo que um Peter Sloterdijk, um Dr. Singer canta melhor que um Peter Singer, um Dr. Gil seria muito mais convincente que um vulgaríssimo José Gil. Não tenham dúvidas acerca da viabilidade comercial dos Drs. Estamos a falar de um país onde as pessoas olham para o balcão, vêem balões e perguntam se são oferta. Nós respondemos que sim, e elas, com o ar mais cândido deste mundo, logo solicitam:
─ Importa-se de me embrulhar três balõezinhos para eu oferecer aos meninos que tenho lá em casa?
─ Importa-se de me embrulhar três balõezinhos para eu oferecer aos meninos que tenho lá em casa?
BEIJAR
Beijar é muito mais íntimo do que foder. É por isso que nunca gostei que as minhas namoradas beijassem outros homens. Preferia que fodessem com eles.
Charles Bukowski, in Mulheres, trad. Fernando Luís, Publicações Dom Quixote, 1992, p. 157.
Há tantos tipos de beijar como de pessoas ou das suas variantes e combinações à face da Terra. Não há duas pessoas que beijem da mesma maneira nem duas pessoas que fodam da mesma maneira ─ mas de certo modo, beijar é ainda mais pessoal e individualizado do que foder.
Diane di Prima, in Memórias de uma Beatnik, trad. Maria Augusta Júdice, Teorema, 1999, p. 9.
Charles Bukowski, in Mulheres, trad. Fernando Luís, Publicações Dom Quixote, 1992, p. 157.
Há tantos tipos de beijar como de pessoas ou das suas variantes e combinações à face da Terra. Não há duas pessoas que beijem da mesma maneira nem duas pessoas que fodam da mesma maneira ─ mas de certo modo, beijar é ainda mais pessoal e individualizado do que foder.
Diane di Prima, in Memórias de uma Beatnik, trad. Maria Augusta Júdice, Teorema, 1999, p. 9.
O QUE NOS TIRA O SONO?
Porque não basta o bom senso ser a coisa do mundo mais bem distribuída, eis a mais metódica das dúvidas: o que nos tira o sono? Descartes deveria ter começado por aqui se pretendesse uma filosofia útil. Por exemplo, pensava Baltazar, saber que passamos 1/3 das nossas vidas a dormir tira-nos o sono. Ao sabermos deste número somos imediatamente tomados pelo sentimento de que passamos 1/3 da nossa rica vida como se estivéssemos mortos. Juntemos a este facto fatídico as 8 horas de trabalho diárias, mais o tempo dispendido em tarefas domésticas, entre outros afazeres só muito doentiamente classificáveis de vida, tais como preencher impressos das finanças, esperar nas filas dos supermercados, restaurantes, caixas de multibanco, engarrafamentos, juntemos-lhe o tempo dispendido com todo o tipo de indecisões, e restam-nos 2,5% de vida, tanta quanto é a água doce no planeta. Quando alguém vos responder é a vida, lembrem-se destes 2,5%. Saber que uma vida inteira pode ser matematicamente reduzida a 2,5% de vida tira-nos o sono. Mais vale pouco do que nada, dirão os optimistas; pior seria se tivéssemos nascido mortos, acrescentarão. Mas os optimistas guardam sempre debaixo da manga o pior dos cenários, isso protege-os do lado trágico da realidade. E a realidade é esta: 2,5%. Consideremos com carácter de urgência a rentabilização das insónias. Nada de ficar a olhar para o tecto perdido em conjecturas vazias, nada de permanecer especado na brancura do silêncio. Corremos o risco de redobrar a nossa incomensurável estupidez, convencidos de uma sapiência que não possuímos. 2,5% de vida a pensar em 2,5% de vida não é vida para ninguém. É o que sucede com os poetas melancólicos, dormem à beira da sua própria sombra e depois suicidam-se. Experimentemos outros remédios. É mister que o tempo perdido a dormir não se converta igualmente em tempo perdido a vigilar. O pombo Benjamim, que sabia destas elucubrações de Baltazar, julgava que o criador falava de barriga cheia. Mas sejamos justos com Baltazar: considerando que um pombo-correio não faz na vida outra coisa senão ser pombo-correio, 8 anos de vida é um luxo que praticamente nenhum ser humano logra experimentar.
Escrito para O Indesmentível.
ÉRAMOS COBARDES PORQUE QUERÍAMOS VIVER
Ontem vendi um livro de Charles Bukowski. Foi quase como se estivesse sentado ao balcão com Henry Chinaski, brindando à vida sem grande coisa para brindar. 89 anos sempre são 89 anos. Bukowski nasceu na Alemanha a 16 de Agosto de 1920 e faleceu em Los Angeles no dia 9 de Março de 1994, tinha 74 violenta e porcamente bem vividos anos de vida. Aportou nos states com três anos de idade, e foi ficando pela cidade dos anjos iniciando-se na pancadaria, na bebedeira, na foda, nas máquinas de escrever. «Quanto menos acreditássemos na vida, menos tínhamos a perder» (A Sul de Nenhum Norte, p. 53). Discípulo informal de John Fante, tinha no rosto a deformação que atingiu o mestre nas pernas. Cá por mim, há sempre uma certa dor a alimentar estes modos físicos de escrever, esta violência verbal que resulta, ao mesmo tempo, numa espécie de vingança e hino contra e à vida. Antes de se dedicar inteiramente à escrita, o nosso herói foi carteiro, camionista, etc. Um escritor camionista em Portugal seria, no mínimo, motivo de gozo. Por cá é tudo doutor e engenheiro, filho, primo, afilhado de. Publicou a primeira estória em 1944, tinha 24 anos. A poesia aconteceu-lhe em livro mais tarde, por volta dos 35. Publicou em vida mais de 45 livros, entre os quais o romance Mulheres (1978) e a colectânea de contos A Sul de Nenhum Norte (1973) estão traduzidos para português e editados, respectivamente, pela Dom Quixote (1992) e Relógio D’Água (1997). Bukowski está hoje traduzido em mais de 12 línguas, a sua prosa violenta e obscena tornou-se motivo de culto em todo o mundo. Por trás dessa prosa, uma vida nada prosaica: muito jogo, muito álcool, a choldra, as mulheres, a solidão. «A pior coisa para um escritor é conhecer outro escritor, e pior que isso, conhecer muitos escritores. São como moscas em cima da merda» (Mulheres, p. 55). Quiseram rotulá-lo de beat, mas ele nunca quis nada com Buda e só foi nómada naquele modo estático de não conseguir deixar de estar à deriva sem sair do mesmo lugar. Estava mais interessado nas mulheres, nas canções de Randy Newman e nas corridas de cavalos do que no Papa Burroughs. Basicamente, nunca quis nada com nada, nunca quis agarrar-se a qualquer coisa para esperar pela morte. Talvez o álcool: «Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa» (Mulheres, p. 172). E as mulheres… Viveu vários anos e ter-se-á mesmo casado com Janet Cooney Baker, dez anos mais velha e dez vezes mais bêbeda. Jane faleceu em 1962. Casou-se com Barbara Frye, editora da revista Harlequin. O casamento durou dois anos. Viveu uns tempos com Frances Smith, de quem teve uma filha. E em 1985 casou com Linda Lee Beighle, 25 anos mais nova, já ao volante de um BMW, a viver numa casa com piscina e a escrever para um computador. Um selvagem, dirão; um louco, dirão; poeta menor, dirão… Há-de haver sempre quem prefira fazer da passagem pela terra um mero dizer. «Podem perguntar a quem quiserem: eu não sou pessoa muito simpática, nem sequer conheço a palavra. Sempre admirei o mau da fita, o fora-da-lei, o filho da puta. Não gosto daquele tipo de gajos que andam sempre de barba bem feita e têm gravata e um bom emprego. Gosto de homens desesperados, homens de dentes estragados, de alma estragada e de modos estragados. São gajos que me interessam. Despertam-me interesse. São gajos cheios de surpresas e de explosões. Também gosto de mulheres ruins, dessas putas bêbadas e sempre a praguejar, que andam com as meias torcidas e a maquilhagem borrada. Interessam-me mais os perversos do que os santos. Com os vagabundos sinto-me eu à vontade, pois sou também um vagabundo, não gosto de leis, de morais, de religiões e de regras. Não gosto de me deixar moldar pela sociedade» (A Sul de Nenhum Norte, p. 209).
Sábado, 15 de Agosto de 2009
GERAÇÃO RASCA
Aposto que alguns dos estudantes captados na fotografia de Ilídio Teixeira se tornaram professores. Aposto que alguns deles vão agora votar em Manuela Ferreira Leite, outrora tratada em cartaz como acima se ilustra. A fotografia data de 1994, foi publicada no semanário Expresso, com a legenda que a seguir se reproduz:
«1994 ─ Ano Louco na Educação» foi o filme. Estes, os artistas. Cenário: S. Bento. Realizador: o SIS. A crítica disse: «Geração rasca!» Contestação esgotada? Ou sessões contínuas para breve?
Foi há 15 anos. Já ninguém se lembra.
POETA NO SUPERMERCADO
1
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.
Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.
2
Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.
Fernando Assis Pacheco, in A Musa Irregular, de Cuidar dos Vivos (1963), Edições Asa, 3.ª edição, Outubro de 1997, pp. 20-22.
GESTOS REVOLUCIONÁRIOS
Os actos rebeldes devem ser julgados a posteriori, ou seja, é na forma como se reage a uma acção que se averigua o grau de rebeldia da mesma. Conforme a verticalidade perante as consequências, os actos rebeldes podem tornar-se gestos admiravelmente revolucionários. Não há gestos revolucionários gratuitos, elaborados por graça e sem ponta de seriedade. Os gestos revolucionários não só prevêem como resistem às consequências. Isto vale apenas para os países consequentes.
CASE STUDY
A multiplicação de fenómenos a poderem servir de case study é proporcional à vulgarização da expressão case study. Logo, os indivíduos que em tudo vêem um potencial case study deviam ser objecto de um case study.
CARTA AO JOVEM POETA
Meu caro jovem poeta
Pedem-me que lhe escreva, como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim ─ embora isso não seja dito ─ que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas. Creio que é pedir demasiado.
De um modo geral, os poetas de reputação firmada, ou que se julgam ou são julgados tais (ninguém tem a sua reputação firmada em literatura, nem depois de séculos de ninguém nos ler e de todos repetirem que somos génios, a não ser que isso importe aos interesses ou desinteresses de alguns professores e críticos), costumam receber poemas ou poetas jovens que solicitam opinião. O poeta "velho" toma tal facto como uma vénia, um reconhecimento, que ele teme perder, por parte da juventude. Mas o que o poeta jovem na verdade procura não é bem uma opinião de alguém mais experiente (qual o poeta jovem que, no fundo, se não sente superior a qualquer mesmo admirado poeta "velho"?), mas sim uma oportunidade de entrar, pela mão de alguém, naquele mundo maravilhoso dos poetas vivos, da poesia pessoalmente, etc., que ele descobrirá ser um sórdido e torpe mundo, inteiramente igual, se não pior (porque se sustenta de uma importância que realmente não tem), àquele, tão comum e familiar, que, nas suas frustrações juvenis, o poeta jovem julga que detesta. Instintivamente, ele sabe que, se não pedir a bênção de alguém, dificilmente fará sem amarguras o seu caminho. Porque a vida literária é uma maçonaria como qualquer outra, onde é escusado imaginar-se que alguém entra forçando as portas. Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos.
Se um conselho, ab initio, se pode e deve dar a um jovem poeta, é o de que perca a inocência juvenil, se venda, se prostitua (o próprio corpo, se necessário for, porque às vezes lho cobiçarão), se dedique à adulação da mediocridade triunfante, ouça respeitosamente as opiniões dos críticos mais influentes porque mais cretinos, e receba em troca a paz triunfal dos sucessos mundanos e literários. Se, depois disto, puder continuar a ser o poeta que havia nele ou que ele sonhava que seria, é um outro caso ─ mas, por esse segredo, poderá estar certo que ninguém perguntará. Forçar as portas, com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrância dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos ─ não rende. Nem em vida, nem na morte. Porque as histórias literárias, com raras excepções arquivo de tudo o que a mediocridade alguma vez disse sem ter lido, guardarão longamente, em benefício da posteridade, todo o veneno que os contemporâneos lançaram sobre aquele que, por pretender ser uma pessoa, e um poeta, Ihes ameaçava, só por isso, a segurança. Ao jovem poeta, é preciso dizer-se que desconfie do grande poeta vivo que receba consagração geral. Se a recebe, é porque algo está podre naquele reino da Dinamarca.
(…)
Jorge de Sena, in Poesia e Cultura, Edições Caixotim, Outubro de 2005, pp. 11-12. Na imagem: O poeta (1985), de Roman Scheidl, copiado do catálogo A Década da Pintura 1080-1990 – Pintura Austríaca Contemporânea, Colecção Schömer, Palácio das Galveias, Lisboa, Março-Abril de 1996.
Pedem-me que lhe escreva, como se o amigo tivesse começado por enviar-me poemas seus, solicitando a minha opinião. Pedem-me também que o considere o jovem poeta ideal, aquele que imaginamos o certo para escutar-nos. Pedem-me enfim ─ embora isso não seja dito ─ que eu me suponha o Rilke escrevendo a um jovem que não seja o medíocre a quem ele dizia tão belas coisas. Creio que é pedir demasiado.
De um modo geral, os poetas de reputação firmada, ou que se julgam ou são julgados tais (ninguém tem a sua reputação firmada em literatura, nem depois de séculos de ninguém nos ler e de todos repetirem que somos génios, a não ser que isso importe aos interesses ou desinteresses de alguns professores e críticos), costumam receber poemas ou poetas jovens que solicitam opinião. O poeta "velho" toma tal facto como uma vénia, um reconhecimento, que ele teme perder, por parte da juventude. Mas o que o poeta jovem na verdade procura não é bem uma opinião de alguém mais experiente (qual o poeta jovem que, no fundo, se não sente superior a qualquer mesmo admirado poeta "velho"?), mas sim uma oportunidade de entrar, pela mão de alguém, naquele mundo maravilhoso dos poetas vivos, da poesia pessoalmente, etc., que ele descobrirá ser um sórdido e torpe mundo, inteiramente igual, se não pior (porque se sustenta de uma importância que realmente não tem), àquele, tão comum e familiar, que, nas suas frustrações juvenis, o poeta jovem julga que detesta. Instintivamente, ele sabe que, se não pedir a bênção de alguém, dificilmente fará sem amarguras o seu caminho. Porque a vida literária é uma maçonaria como qualquer outra, onde é escusado imaginar-se que alguém entra forçando as portas. Tudo, na vida, funciona por camarilhas que oferecem a seus membros a tranquilidade de se imaginarem importantes ou, mais ainda, a ilusão de que estão vivos.
Se um conselho, ab initio, se pode e deve dar a um jovem poeta, é o de que perca a inocência juvenil, se venda, se prostitua (o próprio corpo, se necessário for, porque às vezes lho cobiçarão), se dedique à adulação da mediocridade triunfante, ouça respeitosamente as opiniões dos críticos mais influentes porque mais cretinos, e receba em troca a paz triunfal dos sucessos mundanos e literários. Se, depois disto, puder continuar a ser o poeta que havia nele ou que ele sonhava que seria, é um outro caso ─ mas, por esse segredo, poderá estar certo que ninguém perguntará. Forçar as portas, com um livro, dois livros, uma crítica, duas, muitas, dirigidas contra a infecta pesporrância dos estabelecidos; pedir justiça, em vez de amabilidade; exigir inteligência, em lugar de um comércio de retribuições; procurar a camaradagem limpa, e não aceitar os gestos dúbios; enfim, tudo o que diz respeito à dignidade humana e da poesia, em vez da complacência com tudo e todos ─ não rende. Nem em vida, nem na morte. Porque as histórias literárias, com raras excepções arquivo de tudo o que a mediocridade alguma vez disse sem ter lido, guardarão longamente, em benefício da posteridade, todo o veneno que os contemporâneos lançaram sobre aquele que, por pretender ser uma pessoa, e um poeta, Ihes ameaçava, só por isso, a segurança. Ao jovem poeta, é preciso dizer-se que desconfie do grande poeta vivo que receba consagração geral. Se a recebe, é porque algo está podre naquele reino da Dinamarca.
(…)
Jorge de Sena, in Poesia e Cultura, Edições Caixotim, Outubro de 2005, pp. 11-12. Na imagem: O poeta (1985), de Roman Scheidl, copiado do catálogo A Década da Pintura 1080-1990 – Pintura Austríaca Contemporânea, Colecção Schömer, Palácio das Galveias, Lisboa, Março-Abril de 1996.
Sexta-feira, 14 de Agosto de 2009
CANCRO
Está visto que a ignorância não basta como pomadinha contra a comichão, pode inclusive agravar reacções alérgicas com resultados inultrapassáveis. O melhor é mesmo o aperto de mão cínico, o fazer de conta, já que a técnica de assobiar para o lado tem contra si o ónus de poder haver alguém no lado para onde se assobia. De resto, em certas circunstâncias fica-se mesmo sem lado para onde assobiar. Pavese escrevia a 16 de Outubro de 1935: «À fava esta necessidade infantil de companhia e de barulho». É preciso saber ler Pavese, que não foi muito sensato e acabou a suicidar-se. Recordo-me dos encarregados de educação quando me solicitavam informações sobre os queridos filhos. Eles pretendiam ouvir boas informações dos dependentes, que tudo corria bem, lindo e maravilhoso. Leve como uma pluma. Era isso que pretendiam ouvir, independentemente de ser óbvia a falsidade dos cenários idílicos. Mal puséssemos algum defeito no retrato - o dedo na ferida -, faziam do defeito uma tragédia. Há gente assim: olha para um arranhão e vê uma chaga. Ora: «As mesmas coisas (odiar, foder, preguiçar, maltratar, humilhar-se, envaidecer-se) são pecados nuns, noutros não» - conclui igualmente o malogrado poeta italiano. Portanto: «Todos os homens têm um cancro que os rói, um excremento quotidiano, um mal que vem periodicamente: a insatisfação; o ponto de encontro entre o seu ser real, esquelético, e a infinita complexidade da vida». Logo, melhor que olhar o cancro como se ele não existisse, melhor que ignorar o cancro, é cumprimentar o cancro com galhardia e etiqueta. Não sendo possível, escreve-se e ri-se sobre o assunto. Daqui a nada a morte chega e nada mais triste neste mundo do que uma vida de gozos desperdiçados.
MARRAQUEXE
Desçamos ao subterrâneo dos palácios em ruínas, secas torres onde as cegonhas fazem ninho, desçamos aos jardins afundados pela sombra, o calor não nos mata a sede, desçamos. Debaixo da cidade vermelha, os tesouros afundados da história. É sempre assim: por mais que nos comova, o passado não mata a fome.

Apáticos como as serpentes, respondemos à música dos encantadores. Das sirenes surdem cânticos que não entendemos, mas param por breves instantes o sangue derrotado pela azáfama sem horas. À hora certa, como a serpente numa masmorra, deixamo-nos cativar pela oração do muezzin. Não quero compreender este fascínio. Compreendê-lo, seria o mesmo que dar cabo dele.

Mas que pensar da criança que nos pede os restos das tajines, lambuzando-se num osso que julgaríamos apenas osso não fosse a satisfação daquelas lambidelas? Haverá pobreza nesta pobreza? Haverá dor nos dentes expostos como se fossem parafusos sem gengiva? Um sumo de laranja, a perna temporariamente tatuada com hena, como temporário será o gosto da laranja escorregando na garganta. Que perdure então a memória da criança, lambuzando-se num osso como se fosse um cão.

Para tudo haverá uma cura, uma pedra, um chá, uma pomada, para tudo haverá um cheiro, uma cor, para tudo haverá um frasco contendo segredos ancestrais. Na praça, os contadores de histórias logram imensa audiência. O povo reúne-se em torno da voz antiga. Ora ri, ora espanta fantasmas com a boca aberta de quem está compenetrado. Com menos audiência, escutamos nós em língua inteligível a explicação das ervas. E seguimos duplamente perfumados: o corpo lustrado de âmbar, a alma perfumada de ouvir.

Descansa, mergulha por instantes na calmaria das águas o teu corpo tenso. Logo se agitarão com promessas, dúvidas, dívidas, os músculos que agora relaxam. Se algum dia pensares no sol, lembra-te: é debaixo de uma sombra que ele mais embeleza o mundo.
AL-KHAÏMA
Jemaâ EI Fna, sagrada praça onde nenhum contador de histórias me contou esta lenda que li ou ouvi não sei onde, mas sei que me foi repetida pelo olhar dos pedintes, o ritmo hipnótico das shebaba e karkabat dos djin gnaoua que me habitam:
Marrakech é um oásis nascido das lanças dos guerreiros de Alá, que desceram do Atlas para criar um país, Marrocos. Passaram a noite em volta de um poço, onde acenderam as fogueiras, assaram cordeiros e comeram tâmaras. Para segurarem as tendas usaram as próprias lanças, que espetaram na terra virgem.
Quando partiram, o vento arrastou as sementes das tâmaras para dentro dos buracos abertos pelas lanças. Só Deus sabia que debaixo daquele deserto pedregoso havia um imenso lago de água doce.
Quando os exércitos, com a ajuda de Alá, regressaram vitoriosos do Al Andalus aos vales do Atlas, encontraram um oásis onde antes havia um baldio. Deram graças a Deus pelo dom recebido e decidiram transformar aquele jardim divino na sua morada.
Jorge Fallorca, in Al-Khaïma, Editorial Teorema, Janeiro de 2004, pp. 53-54.
MISTÉRIOS

Dos mistérios por explicar no negócio dos livros, um dos que mais me intriga é o dos livros que chegam com selos de segunda edição ainda antes de terem sido colocados à venda. A caixa aporta no cais com o respectivo aviso: não colocar à venda antes de 20 de Agosto de 2009 (a data é fictícia e pouco importa para o exemplo). Nós abrimos a caixa e deparamo-nos com uma segunda edição sem nunca termos posto olho na primeira. Mistério: a quem terá sido vendida a primeira edição? Outro mistério, não tão intrigante quanto o primeiro, é o da imensa quantidade de títulos com selos informando dos aspectos mais diversos: grande livro do ano, best-seller internacional, autora sensação, sugerido pela Oprah, Braveheart no Feminino (na imagem), etc. Tudo bem, não fosse o caso de serem tantos os grandes livros do ano. São mais os grandes livros do ano do que as mães, o que faz do grande livro do ano apenas um dos grandes livros do ano. Só não sabemos para quem.
O ALMORÁVIDA
Conheci um dentista em Marraquexe,
na Praça Djmaa EI Fnaa.
Ostentava o ar seguro
que os mil dentes lhe davam,
expostos numa banca
como trunfo ou diploma.
Era velho de seis séculos, o almorávida,
do tempo do duque de Viseu
e do Infante Santo, assim chamado
nos compêndios da escola.
Guardo uma foto dele, hierático.
Não me arrancou um dente,
mas levou dois dirhams
pela foto com suas presas
e o medonho alicate,
e, muito embora a paga,
de portugueses não se recordava,
conquanto ali tivesse
alguns queixais de gente
que andara na batalha de Quibir.
Nuno Dempster, in Dispersão – Poesia Reunida, Edições Sempre-em-Pé, colecção Galáxia-2, Novembro de 2008, p. 28.
na Praça Djmaa EI Fnaa.
Ostentava o ar seguro
que os mil dentes lhe davam,
expostos numa banca
como trunfo ou diploma.
Era velho de seis séculos, o almorávida,
do tempo do duque de Viseu
e do Infante Santo, assim chamado
nos compêndios da escola.
Guardo uma foto dele, hierático.
Não me arrancou um dente,
mas levou dois dirhams
pela foto com suas presas
e o medonho alicate,
e, muito embora a paga,
de portugueses não se recordava,
conquanto ali tivesse
alguns queixais de gente
que andara na batalha de Quibir.
Nuno Dempster, in Dispersão – Poesia Reunida, Edições Sempre-em-Pé, colecção Galáxia-2, Novembro de 2008, p. 28.
SITUAÇÃO E ASPECTO DA PRAÇA DJEMAÂ EL-FNA & OUTRAS VARIAÇÕES
limpam a
gordura da noite
no rectângulo da manhã
a praça os terraços
enigmáticos comerciantes
de constelações no olhar vestidos de
luxuosa sujidade
onde foi o banquete passam agora
vassouras água atirada de baldes negros
o sonoro céu de Allah
subo ao terraço
penso num enigmático
tratado de adivinhação ainda por escrever
algo para lá dos textos
orações e cânticos do saltério
médio-oriental
recuperar o sentido oculto
dos velhos mapas astrológicos e astronómicos
a persecutória influência dos planetas
eu tinha assistido
ao chamamento dos muezins
desde os minaretes das mesquitas
a voz bonita de uns
a rouca e menos melodiosa
de outros
Allahu Akbar
Allahu Akbar
reparam acaso os fiéis na história dos exércitos
do Faraó e do povo de Samud?
na aperfeiçoada manhã deste século de decesso
no acto manuscrito dos poetas
calígrafos arquitectos ourives
cultos sibaristas das oficinas de Serrallo?
julguei então ter entrado no sono da palavra
a manhã subiu nas horas de um pequeno livro de rezas
que estava na mão distraída de um rei
de outra latitude cármica
ainda assim havia laranjas no sumo da praça
rezo falsamente num terraço sem flores
a multidão consente viver outro dia com as mãos
num comércio importuno
a areia do deserto alastra dentro
e fora de mim
Glorioso Alcorão Contemporary
flemish book painter ─ guache sobre
a memória poderoso e laudabilíssimo
deus
lapidar cirurgia das paixões seculares
a minha mão segura o vidro escaldado do chá
(açucarado céu do
dia prometido)
verte o líquido fervido para um
outro copo alguém acende um cigarro estranho na
mesa junto às escadas um grito uma ave no
no meu olhar em estuário
depois elevo a presença do caderno ao
plano da mesa ─ sim, o cigarro tem um
orgulhoso perfume que passeia em
toda a extensão olfáctica
do lugar
abro na página
de uma outra noite de uma outra
cidade
apontamentos sobre vexilologia
um poema para Murad III, outro poema para os
103 filhos de Ustad' Osman
dos quais sobreviveram apenas 74
Miguel-Manso, in Contra a Manhã Burra, Edição do Autor, Lisboa, Maio de 2008, pp. 25-27.
gordura da noite
no rectângulo da manhã
a praça os terraços
enigmáticos comerciantes
de constelações no olhar vestidos de
luxuosa sujidade
onde foi o banquete passam agora
vassouras água atirada de baldes negros
o sonoro céu de Allah
subo ao terraço
penso num enigmático
tratado de adivinhação ainda por escrever
algo para lá dos textos
orações e cânticos do saltério
médio-oriental
recuperar o sentido oculto
dos velhos mapas astrológicos e astronómicos
a persecutória influência dos planetas
eu tinha assistido
ao chamamento dos muezins
desde os minaretes das mesquitas
a voz bonita de uns
a rouca e menos melodiosa
de outros
Allahu Akbar
Allahu Akbar
reparam acaso os fiéis na história dos exércitos
do Faraó e do povo de Samud?
na aperfeiçoada manhã deste século de decesso
no acto manuscrito dos poetas
calígrafos arquitectos ourives
cultos sibaristas das oficinas de Serrallo?
julguei então ter entrado no sono da palavra
a manhã subiu nas horas de um pequeno livro de rezas
que estava na mão distraída de um rei
de outra latitude cármica
ainda assim havia laranjas no sumo da praça
rezo falsamente num terraço sem flores
a multidão consente viver outro dia com as mãos
num comércio importuno
a areia do deserto alastra dentro
e fora de mim
Glorioso Alcorão Contemporary
flemish book painter ─ guache sobre
a memória poderoso e laudabilíssimo
deus
lapidar cirurgia das paixões seculares
a minha mão segura o vidro escaldado do chá
(açucarado céu do
dia prometido)
verte o líquido fervido para um
outro copo alguém acende um cigarro estranho na
mesa junto às escadas um grito uma ave no
no meu olhar em estuário
depois elevo a presença do caderno ao
plano da mesa ─ sim, o cigarro tem um
orgulhoso perfume que passeia em
toda a extensão olfáctica
do lugar
abro na página
de uma outra noite de uma outra
cidade
apontamentos sobre vexilologia
um poema para Murad III, outro poema para os
103 filhos de Ustad' Osman
dos quais sobreviveram apenas 74
Miguel-Manso, in Contra a Manhã Burra, Edição do Autor, Lisboa, Maio de 2008, pp. 25-27.
Quinta-feira, 13 de Agosto de 2009
BURN AFTER READING
Sei de gente obcecada com nenhures, convencida de uma importância que não tem nem nunca terá, gente paranoicamente consumida pelo estímulo da perseguição, que a toda a hora projecta nos outros os seus mais recalcados vícios, sei de gente que, vista de perto, é como um imenso lago visto da estratosfera, ou seja, nada, gente que se julga mais gente do que na realidade é. Sei de gente que anda sempre à procura de alguma coisa com os olhos no horizonte, gente que olha tanto para a frente que nem repara na merda de cão que pisa enquanto anda, porque é gente que não olha para os próprios pés nem nunca os traz descalços, é gente que passa a vida a tentar olhar o mundo por cima dos ombros de outra gente, arrastando consigo o caos dos equívocos que matam e ferem e deixam cicatrizes impossíveis de sarar. Os departamentos de estado devem rebentar pelas paredes de gente assim, gente que olha para tudo com um terceiro olho e procura no vazio alguma coisa que possa estar cheia, uma coisa que não se sabe bem o quê, gente que paga e despende, gente que desperdiça os dedos sem olhar as unhas, gente com garras de borracha e vestidos de organdi. Os departamentos de estado simpatizam com gente assim. Esta gente é o sexo dos anjos, um sexo murcho e cobarde a agir por antecipação, um orgasmo precoce que não tem escrúpulos na traição porque é gente que desde pequena se trai a si própria. Por alguma coisa, todos queremos alguma coisa. Ansiamos pelo nosso dia, pela hora h, pelo momento de sorte que até aos nascidos sem cu causa excitação. Mas não nos excitemos em demasia. Quando menos esperamos, o que julgávamos grande torna-se pequeno. Nestas coisas é preciso ter o olho da demora. Não vale a pena querer ver a Terra da lua se nem para a vermos dentro da nossa própria casa temos olhos. Pousemos a cabeça sobre a nação. As conspirações apenas nos ensinam que nada temos a aprender.
TESTEMUNHAS
Aqui estou eu, sentado na esplanada do oceano a ler poemas e a beber imperais, depois de me terem buzinado os miolos por causa de um mau estacionamento. Tu telefonas e queres saber onde estou, com quem estou, para onde vou. Eis-me estacionado nas buzinas do teu telefonema. Sou um entre trezentos leitores de poesia num país de nababos dominadores e putas finas, um entre trezentos num país de convincentes estatísticas, um entre trezentos a sentir todos os dias o calhau da burocracia. Eis-me, aqui estou, um entre trezentos, entre dez milhões num medíocre país europeu. Eis-me formiga respondendo aos teus apelos, ágil como o nevoeiro que circula dentro do calor de Agosto. Por cima de mim, uma câmara fixa todos os movimentos porque um burocrata qualquer num departamento qualquer de burocratas se entretém a justificar a existência da burocracia com ameaças que não passam de equívocos. Aqui estamos, simplificados, à espera que a campainha toque, à espera das testemunhas de Jeová.
V. MESCALITO, POR FAVOR
Mescalito, por favor ─ é este provavelmente, a par do irónico-trágico no se puede vivir sin amar, o mote que mais insistentemente resistirá na memória de quem leu Under the Volcano, a obra-prima de Malcolm Lowry. Assim se traduz, nas cantinas que frequenta, o amargurado grito de revolta (ou de resignação?) do cônsul Geoffrey Firmin, protagonista do romance de Lowry.
(…)
A obra é concebida como uma descida ao Inferno, não sendo de modo algum gratuito que tudo comece no Casino de La selva. Como explica Lowry ao seu potencial editor Jonathan Cape (a quem devemos, para além da recusa editorial, o facto de ter proporcionado a primeira grande exegese do romance), "Selva quer dizer floresta, e assim é percutido o primeiro acorde do lnferno”. Fica-nos a suspeita de que Jonathan Cape seria fraco leitor de Dante, mas, para regressarmos à nossa "selva oscura", é ainda importante recordar que a morte de Yvonne, ex-mulher do cônsul, ocorre em plena floresta. É aí, volta a explicar Lowry, que "a floresta se faz verdadeira e sombria".
Abutres, vulcões e barranco são no texto lowryano, por metáfora ou por metonímia, sinalizações da morte para a qual Yvonne e o cônsul caminham inescapavelmente. Após ter sido baleado, o cônsul Firmin é lançado para um barranco ("ravine"), concluindo-se o romance com a lapidar notícia de que "somebody threw a dead dog after him down the ravine". Esta frase, a que Carlos de Oliveira não ficará indiferente, será também recuperada por Al Berto para epígrafe do seu livro A Seguir o Deserto. Note-se, porém, que a última edição d'O Medo preparada pelo autor suprime todas as epígrafes e dedicatórias (excepção feita aos excertos funcionais da Viagem de Francisco Pyrard de Laval em Três Cartas da Memória das Índias).
(…)
O exemplo do cônsul (que pouco difere, afinal, do não menos trágico exemplo de Lowry, estilhaçando-se sob o furor de Stravinsky) prova-nos, contudo, que o álcool pode ser o caminho para uma lucidez tenebrosa, sem serenidade alguma, o que evidentemente não quer dizer que por isso deixe de beber. A única justificação, se de uma justificação se trata, que Geoffrey Firmin sugere para a sua necessidade de beber traduz-se em fazê-lo "contra a morte". E para a morte, acrescente-se, na medida em que subscrevo sem qualquer embaraço o diagnóstico de Paulo da Costa Domingos: "Lowry matou-se com o cáustico da lucidez". Mas voltemos ao cônsul, que tem (como se viu já...) o dom demoníaco de nos arrastar para o autor que sombriamente o sonhou. Para Geoffrey Firmin, apenas o amor (irrealizável) poderia impedir o total abandono à sede e ao extermínio do desejo. Ora é em termos muito semelhantes que a necessidade do álcool nos surge em vários dos fragmentos diarísticos que Al Berto intitulou O Medo:
levantava-me dali e caminhava até à vila, percorria-a sem destino, ia de taberna em taberna, esquecendo os possíveis regressos a casa. deixava o vinho turvar o desejo, era a única maneira de calar a sede terrível do coração.
bebo para que as remotas cicatrizes doutros corpos não desatem a doer. bato o pé ao ritmo frenético dum rock, abandono o olhar pelos bilhares, pelos flippers , silencio o desejo neste copo de vinho. ouço-me latejar, ao cair do dia, sentado, bebo, perdido a um canto duma sala de jogos na província.
e o inferno está aqui, no verde do pano dos bilhares onde a agonia e a solidão têm forma de bolas. bebo mais e mais, para que as noites felizes não voltem sem ti, nunca mais.
Muito mais se poderia dizer sobre a presença do álcool nesta poesia, destacando, por exemplo, o seu carácter infernal e expiatório. Mas cedo cairíamos em contradições e ambiguidades, na medida em que o álcool ─ tal como o México de Lowry ─ "é paradisíaco: é incontestavelmente infernal".
(…)
A obra é concebida como uma descida ao Inferno, não sendo de modo algum gratuito que tudo comece no Casino de La selva. Como explica Lowry ao seu potencial editor Jonathan Cape (a quem devemos, para além da recusa editorial, o facto de ter proporcionado a primeira grande exegese do romance), "Selva quer dizer floresta, e assim é percutido o primeiro acorde do lnferno”. Fica-nos a suspeita de que Jonathan Cape seria fraco leitor de Dante, mas, para regressarmos à nossa "selva oscura", é ainda importante recordar que a morte de Yvonne, ex-mulher do cônsul, ocorre em plena floresta. É aí, volta a explicar Lowry, que "a floresta se faz verdadeira e sombria".
Abutres, vulcões e barranco são no texto lowryano, por metáfora ou por metonímia, sinalizações da morte para a qual Yvonne e o cônsul caminham inescapavelmente. Após ter sido baleado, o cônsul Firmin é lançado para um barranco ("ravine"), concluindo-se o romance com a lapidar notícia de que "somebody threw a dead dog after him down the ravine". Esta frase, a que Carlos de Oliveira não ficará indiferente, será também recuperada por Al Berto para epígrafe do seu livro A Seguir o Deserto. Note-se, porém, que a última edição d'O Medo preparada pelo autor suprime todas as epígrafes e dedicatórias (excepção feita aos excertos funcionais da Viagem de Francisco Pyrard de Laval em Três Cartas da Memória das Índias).
(…)
O exemplo do cônsul (que pouco difere, afinal, do não menos trágico exemplo de Lowry, estilhaçando-se sob o furor de Stravinsky) prova-nos, contudo, que o álcool pode ser o caminho para uma lucidez tenebrosa, sem serenidade alguma, o que evidentemente não quer dizer que por isso deixe de beber. A única justificação, se de uma justificação se trata, que Geoffrey Firmin sugere para a sua necessidade de beber traduz-se em fazê-lo "contra a morte". E para a morte, acrescente-se, na medida em que subscrevo sem qualquer embaraço o diagnóstico de Paulo da Costa Domingos: "Lowry matou-se com o cáustico da lucidez". Mas voltemos ao cônsul, que tem (como se viu já...) o dom demoníaco de nos arrastar para o autor que sombriamente o sonhou. Para Geoffrey Firmin, apenas o amor (irrealizável) poderia impedir o total abandono à sede e ao extermínio do desejo. Ora é em termos muito semelhantes que a necessidade do álcool nos surge em vários dos fragmentos diarísticos que Al Berto intitulou O Medo:
levantava-me dali e caminhava até à vila, percorria-a sem destino, ia de taberna em taberna, esquecendo os possíveis regressos a casa. deixava o vinho turvar o desejo, era a única maneira de calar a sede terrível do coração.
bebo para que as remotas cicatrizes doutros corpos não desatem a doer. bato o pé ao ritmo frenético dum rock, abandono o olhar pelos bilhares, pelos flippers , silencio o desejo neste copo de vinho. ouço-me latejar, ao cair do dia, sentado, bebo, perdido a um canto duma sala de jogos na província.
e o inferno está aqui, no verde do pano dos bilhares onde a agonia e a solidão têm forma de bolas. bebo mais e mais, para que as noites felizes não voltem sem ti, nunca mais.
Muito mais se poderia dizer sobre a presença do álcool nesta poesia, destacando, por exemplo, o seu carácter infernal e expiatório. Mas cedo cairíamos em contradições e ambiguidades, na medida em que o álcool ─ tal como o México de Lowry ─ "é paradisíaco: é incontestavelmente infernal".
Manuel de Freitas, in A Noite dos Espelhos - Modelos e Desvios Culturais na Poesia de Al Berto, frenesi, Janeiro de 1999, pp. 34-39.
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