Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009


Li hoje um poema medido a pulso
dentro de mim. Sede pousada no labirinto
e, no centro, aquele conhecido verso
secreto que amanhece nas açoteias.
Disponível para o sexo e para as cousas d'alma.
Ah li-o, e era um bicho exasperado
por sair à caça
com o sol a dar-lhe no dorso alquímico dos sonhos.
Dum vigésimo andar pode partir-se
com botijas de oxigénio
ou de binóculos. Precário, insubmisso
ao Estado das coisas.
São outros, porém, os cravos
da moderna paixão:
casamentos, relógios de ponto,
habitação própria domesticam
o horizonte, e o horizonte
basta.



Paulo da Costa Domingos, in Campo de Tílias, publicado em sintonia com as Figurações, de Carlos Ferreiro, Frenesi, Janeiro de 1991, s/p.

OS SENTIMENTOS DAS ESTÁTUAS

A humidade das noites não respeita a secura dos dias. Salvam-se as nuvens, que descidas à terra encontram seus pássaros. Por dentro das nuvens, fazemos o ninho, misturamos o fumo do cigarro com o vapor da terra, reabrimos um livro na página errada, descansamos um pouco do trabalho que nos ocupa até ao ponto de não termos vida. Hoje, disfarço a morte com uma canção de David Grubbs, a descrição de uma fotografia, os sentimentos das estátuas:

PRECISA-SE TRADUTOR



A declaração sem sentido do Presidente da República (PR) deixou-me em sentido. A meio tempo, tal era o nonsense das palavras escutadas, pensei que sua excelência fosse bocejar um pouco de água e cuspisse para o chão. Mas afinal ele trazia bolo-rei entalado na garganta. O mais que conseguiu foi dançar hula hoop ao som da sua própria atonalidade. Ouvidos todos os intervenientes, lembrei-me dos irmãos Lucas e Marcos num conto de William Saroyan. Lucas era o mais velho, gostava de atazanar a cabeça de Marcos dizendo que este estava apaixonado pela Alice Small. Era verdade, mas Marcos, na sua solitária timidez, detestava que o irmão o dissesse. Acabavam sempre em algaraviada, até que o pai chegava e colocava termo à discussão obrigando cada um deles a pedir desculpa ao outro. No final, perante as desculpas de Lucas, Marcos pensava de si para si: «Eu lamentava o que dissera quando lhe disse que lamentava o que tinha dito, mas eu sabia que ele não lamentava nada do que dissera quando me disse que lamentava o que tinha dito». Entre a história do professor e esta história, há uma única diferença: não há pai para a primeira.

Atenhamo-nos, então, aos factos. Cavaco resolveu omitir por completo a notícia do Público que dava conta da sua preocupação quanto à eventualidade de estar a ser escutado. Numa postura tipicamente portuguesa, Cavaco omitiu a causa do problema, preferindo concentrar-se na consequência do mesmo. Quanto a isto, limitou-se a uma confissão: «confesso que não consigo ver bem onde está o crime de um cidadão, mesmo que seja membro do staff da casa civil do Presidente, ter sentimentos de desconfiança ou de outra natureza em relação a atitudes de outras pessoas». Cavaco não vê onde está o crime, mas resolveu “demitir” o “criminoso”. O simples facto de não ver onde está o crime é já um enorme problema. Cavaco afastou Fernando Lima agindo em conformidade com o que ele julga ser uma manipulação, uma mentira, Cavaco é PR e deixa-se pressionar por notícias supostamente manipuladoras. Cavaco não vê onde está o problema em alguém ter falado em seu nome para um jornal, sendo que o Público se encarrega de lembrar: o Presidente nunca desautorizou as desconfianças manifestadas em surdina, ampliando desse modo a sua estridência mediática. Ou seja, Fernando Lima criou-lhe um problema que ele não consegue ver onde está e, por isso... afastou-o.

Cavaco prefere fazer-se esquecido da notícia que tudo gerou, a notícia do Público, concentrando-se na notícia que tudo ilustrou, a notícia do Diário de Notícias. Lembremos: o Diário de Notícias tornou público um e-mail que tinha circulado na redacção do Público ─ repetimos, um e-mail que tinha circulado na redacção do Público ─ onde se garantia a ligação de Fernando Lima à notícia avançada por este jornal sobre eventuais escutas na Presidência da República. Ora bem, sobre isto, Cavaco interroga-se: «será possível alguém do exterior entrar no meu computador e conhecer os meus e-mails?» Mas a propósito de quê vem esta interrogação? Desde quando esteve em causa o e-mail do PR? O próprio director do Público confirmou a inexistência de qualquer invasão do sistema informático do jornal. Por que vem agora o PR falar em «vulnerabilidades na segurança» do seu e-mail? Isto seria ridículo, não contribuísse ainda mais para um clima de suspeição e de manipulação que Cavaco ao mesmo tempo critica e alimenta.

As conclusões que Cavaco retirou da sua interpretação dos factos ─ encostar o Presidente ao PSD e desviar as atenções do debate eleitoral ─, denotam uma parcialidade política que não combina com o cargo para o qual foi eleito. A terem sido esses os objectivos das notícias lançadas pelo Público e pelo Diário de Notícias ─ o que seria, no mínimo, de um maquiavelismo sem precedentes ─, convinha esclarecer o seguinte: quem são as «destacadas personalidades do partido do Governo» que exigiram ao PR que interrompesse as férias e viesse falar sobre a participação de membros da sua casa civil na elaboração do programa do PSD? Serão Vitalino Canas, Vítor Ramalho, José Junqueiro? Mas quem conhece esta gente? São deputados? O PR deixa-se intimidar pelas opiniões dos deputados, considera que essas opiniões (livres e legítimas) são um ultimato gravíssimo, ao mesmo tempo que não vê onde está o problema em alguém da sua casa Civil bufar a um jornal hipotéticas desconfianças sobre o Governo. Em suma: no que Cavaco considera gravíssimo, ninguém vê gravidade alguma; onde Cavaco não vê crimes, toda a gente vê problemas. Isto é ainda mais estranho quando um PR se deixa intimidar por algo que, na sua opinião, não tem mal algum: «Mas onde está o crime de alguém, a título pessoal, se interrogar sobre a razão das declarações políticas de outrem?» É isso mesmo, não está, só mesmo um PR incompetente pode ver nesse exercício da liberdade política uma qualquer forma de manipulação.

Na imagem: How to prune a rose, de Nigel Holmes.

QUEIXAS DE UM UTENTE


Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.



José Miguel Silva, in Ulisses Já Não Mora Aqui, &etc., Março de 2002, p.28.

Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

OLHANDO O MURO



E assim ficava olhando o muro. Não atentava então na claridade em que a casa e a terra a essa hora faleciam, nos fragmentos vários do horizonte de que a luz fazia um jogo insuportável. Tão pouco em como a sublevação das paisagens é matéria da linguagem, tão pouco nisso ele atentava ao colocar o olhar no muro, outro suporte procurando, a ele idêntico, no leite à superfície do qual pequeninos nó de fezes eclodiam, nós que com uma vara ele agitava e perturbava com fascínio. Metade do seu rosto entrava pelas paisagens, era prisioneira da fabulação de que apenas os animais o libertavam contra a face lhe quebrando imagens fortes ─ as fezes imiscuindo-se no muro, a luz uma infecção que alastra pelo leite, a vara de agitá-lo desviada desse ofício. Estranhos actos cometia ele então, deles o mais minucioso sendo a introdução de mínimos calhaus nos intestinos.

Luís Miguel Nava, in Poesia Completa 1979-1994, pref. Fernando Pinto do Amaral, org. Gastão Cruz, Publicações Dom Quixote, Março de 2002, p. 51.

UM FATALISTA QUE CONTAVA HISTÓRIAS ENGRAÇADAS


No dia em que o Presidente da República vai falar à nação, lembro os portugueses de assuntos bem mais prementes: Luís Miguel [de Oliveira Perry] Nava nasceu em Viseu, precisamente a 29 de Setembro de 1957. Se fosse vivo, cumpriria hoje 52 anos de idade. Tal não se verificará, porque no dia 10 de Maio de 1995 alguém o assassinou no apartamento de Bruxelas onde o poeta residia. Pouco sei sobre esta história funesta. Dizem que foi degolado, mas nunca liguei muito ao assunto. Neste caso, a curiosidade tem sido desfeita por uma egoísta recorrência à obra. «Terei eu vivido desde que nasci?» ─ questionava-se Nava quando não podia sequer imaginar ser outra a questão que agora se impõe: estará o poeta vivo desde que morreu? Não só julgo que sim, como faço questão de o sublinhar. Uma das razões que o justifica é simples de entender. «Grande parte dos poemas de Luís Miguel Nava (embora sejam também o contrário disso, como veremos) constituem pequenas ficções que simulam a introspecção» (Silvina Rodrigues Lopes), são aquilo a que outrora se chamou poema em prosa e agora aparece, por vezes, confundido com a estória ou, nos casos mais limite, com a micronarrativa. Como bem notou Fernando J. B. Martinho, os textos em prosa de Nava, ou as suas «breves e perturbantes narrativas», «parecem deliberadamente jogar com a fluidez das fronteiras entre géneros». E este é, sem margem para dúvidas, um dos aspectos que mais admiro na obra poética de Luís Miguel Nava. Segundo me consta, essa obra começou a desenhar-se em 1974 com um livro, O Perdão da Puberdade, posteriormente rasurado da bibliografia activa. Um livro da juventude, pois claro. 1974 é o ano em que o autor de Vulcão (1994) conclui o ensino secundário, partindo no ano seguinte para Lisboa, onde se inscreve no curso de Filologia Românica. Casa-se em 1975, mas o casamento dura apenas três meses. Foi por essa altura que se deu um encontro determinante com Eugénio de Andrade. Nava destrói toda a sua obra inicial. Em 1978, ainda antes de terminar a licenciatura, recebe, pela obra Películas (Moraes, 1979), o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores. Seguem-se um mestrado de Literatura Francesa, colaborações como crítico literário em jornais e revistas, A Inércia da Deserção ( &etc., 1981) e Como Alguém Disse (Contexto, 1982), assistência no Departamento de Literaturas Românicas da Faculdade de Letras. Em 1983, parte para Oxford. Aí permanecerá, durante três anos, como Leitor de Português. Em 1984, a &etc. publica-lhe mais um livro: Rebentação. Passa a residir em Bruxelas a partir de 1986, ocupando o lugar de tradutor no Conselho das Comunidades Europeias. Viaja pela Europa, Marrocos, Tunísia, México, etc.. «O Luís Miguel ficava atento aos pormenores do quotidiano das pessoas amigas. E do México ou doutro sítio qualquer inquietava-se com as dificuldades minhas, cá em Bruxelas. Mandava postais de todos os lados, com palavras bem sentidas. O Luís Miguel tinha um jeito especial para contar histórias engraçadas. Mas, no fundo, era pessimista, ou melhor, fatalista» ─ conta Marie Claire Vromans. Deixou livros de ensaio, uma Antologia de Poesia Portuguesa ─ 1960/1990, uma Fundação com o seu nome, que publica, desde 1997, a revista Relâmpago, vários livros de poemas e colaboração dispersa por jornais e revistas. Em Março de 2002, foi editada, pela Dom Quixote, a sua Poesia Completa. Todas as evocações aqui citadas, assim como a imagem do poeta ao alto, foram copiadas do n.º 1 da revista de poesia Relâmpago, publicada em Outubro de 1997.

MEDICINA

Entrou a pedir medicina védica, saiu com o Poema do Senhor debaixo do braço.

ODE DO CORTE E COSTURA




não tenhas a aspiração do trovão no corpo
nem o sangue grosso com pressa de se desmanchar
na articulação de um amor que teima em não chegar
ou a vir de diversas maneiras por diferentes rostos.
nenhum deles tem a coragem de me enfrentar,
talvez porque não valha o esforço
do equilíbrio das lamparinas no rio.

enquanto durmo, não há quem se venha tornar incrédulo
nem se submeter a uma insónia para depois poder dizer
“sabes, honey, estive a noite toda a olhar para ti,
não preguei olho. amo-te, entendes?”

eu sou muito chata, escrevo poemas de pantufas
e com pratas de chocolates espalhadas pela escrivaninha
que dentro do esófago incentivam: “escreve, aninha”
e a aninha escreve feita doida
nas suas luas e maus humores.

mas as pantufas são quentes e há que se estar confortável
na hora do poema. é um pensamento terrivelmente burguês,
de quem se preocupa em engordar mas nada faz para contrariar.
o caso é ainda mais grave quando as cáries dos chocolates
se alojam no poema e a dentição dá lugar à dentadura,
abjecta põe-se no copo sem rasgo de luar.

(mais um pouco e tenho cem anos.)

enquanto durmo não há quem me traga lavanda
nem me engome os pés nem as mãos
nem me faça ficar amuada por mais um século
à procura de um beijo com o dedo debaixo do queixo
“vá, lá.. biduh biduh”.

não há quem me parta o coração
é péssimo para a qualidade literária
como é possível verificar
nesta criatura com cem versos.

consta ainda que toda a poeta deveria saber dar o nó
em gravatas de poetas, e costurar buracos de meias
e até mesmo fazer os poemas por eles
em caso de emergência.

consta que toda a poeta deveria saber dar o nó
no seu próprio poema e rematar sem deixar pesponto.


Ana Salomé, in Odes, Canto Escuro, Outubro de 2008, pp. 30-31.

MIAU, MIAU

Já no tempo do Fialho era assim: «O resultado é este: em cima, o país gozado por dez ou doze charlatães, de parceria com dez ou doze bandidos, o todo fazendo permutações de infâmias e jiga-jogas de negociatas, que lhes permitam aguentarem-se alguns meses mais no tombadilho: em baixo a massa avulsa, morrinhenta, sórdida, sem força, desiludida de tudo, irrespeitosa de tudo, insultando-se como bêbedos, sofrendo o azorrague como cães, vendo passar as afrontas indiferente, e deixando-se cair afim no próprio vómito, onde a letargia a açovaca, até que uma chicotada nova faça outra vez estrebuchar!» (de Crítica à Sociedade Portuguesa). Não há salve-se quem puder porque ninguém pode salvar-se num país de coutos, estão todos por baixo de alguém que se está a cagar para quem está mais abaixo, estão todos galinhas, franganotes depenados na brasa da imbecilidade. Eu, com eles, curiosamente ausente de mim próprio, arrecado 4 litros de vinho, um para cada elemento essencial ─ Terra, Água, Ar e Fogo ─ e venho fazer notícia do assunto, enquanto cavo a ruína com mais um cigarro aceso e ecos de um povo incivilizado. Correu tudo muito democraticamente. Já no tempo do Fialho era assim: «A democracia é como as outras febres; um bacilo propaga-a, e do cérebro de cada afectado que o despotismo sequestra à liberdade, milhares de gérmenes se evolam, a contaminar outros tantos reputados imunes, horas antes» (de Há vinte dias que o país não faz senão gritar viva a República!). Regresso desequilibradamente a estes prados porque há dias o José escrevia-me a dizer que apesar de uma forte costela anarca, tem uma noção algo contraditória sobre o voto útil. Há anos a minha ossatura anarca convenceu-se de que a vidinha imprime em cada osso o código digital da desgraça. Fiz-me às armas, com os barões assinalados, e cumpri com os meus deveres. Vou cumprindo. Tenho, porém, a noção de que os galinheiros estão atolados na porcaria das galinhas. E como nasci depenado, sou bípede sem penas, adoptei a metáfora como recurso. Tal qual os marinheiros que adoptam pequenas embarcações no alto mar da finança. Nunca joguei na bolsa, não tenho PPR, tudo o que ganho é para gastar. Tive a sorte de umas costas largas que vou aguentando à custa de demasiado prurido. Mas já sei, de antemão, onde isto me vai levar: mais dia, menos dia, ensandeço, e depois direi como a avó do Victor: nosso senhor nos dê descanso. O Victor diz: «Nunca percebi porque a minha avó dizia: NOSSO senhor!» Eu também não percebo porque a minha avó não tomava banho, nem acreditava que o homem tinha pisado a lua, não percebo porque devorava ela pacotes de manteiga como se fossem iogurtes, nem percebo porque morreu das cataratas a ler mezinhas para todos os efeitos. A questão é: a santa da ladeira morreu, estamos desamparados na profissão de sermos, o nosso último recurso é o desaforo das circunstâncias. Pois bem, já no tempo do Fialho era assim: «Este nefando sistema tem enchido os quadros, de sobrinhos e irmãos de ministros e directores gerais, quase tudo criaturinhas de gozo e de deboche, incapazes de estudo, sem vislumbre de cérebro, nem capacidade alguma de trabalho, e apenas dispostas a fazerem dos lugares que lhes dão, conezias rendosas e inactivas. Enquanto a política só aproveitou essa cambada de desfrutadores, para mobilar com ela os lugares ínfimos e médios das secretarias e da alfândega, bem foi a coisa: mas preenchida a corredoira burocrática, de bestas, houve que se desonrar a envergadura moral de certos cargos altos, de se pôr em jogo a dignidade e a seriedade de certos serviços, para dar comida às restantes» (de Crítica aos altos funcionários do estado. Por que mãos anda a dignidade do país, modo de prover os altos cargos.). É isto, irmãos, poderão não concordar com o meu desespero alegre, como um dia o Lage que agora resume séculos num tijolo sem fervura, mas é só isto o que nos resta, cuspir na ilustre cretinice das famílias que vão fazendo a cama aos nascidos sem valência. Por mim, podem continuar a torcer os bigodes e a vincar as fardas do Papão, mas, tanto quanto me for possível, à distância. Que a pátria se arruíne no “comedouro” da carneirada é o meu último desejo no corredor da morte. Voto útil, nesta casa, é só um: o das tintas para a classe, o das tintas para a costela, o das tintas para a puta que os pariu, o das tintas para um Estado que há-de sempre abusar, por coacção ou subtileza, de quem não convier aos seus teatros. Pago o meu preço, tenho os meus exemplos. Não são para aqui chamados.

Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

NOVAS OPORTUNIDADES

Eis um deputado com um currículo exemplar: Michael Lothar Mendes Seufert com 26 anos, antigo Coordenador do Gabinete de Estudos Gonçalo Begonha, foi eleito Presidente da Juventude Popular no passado dia 24 de Maio, no XVII Congresso Nacional da Juventude Popular em Guimarães. E pronto, mais um rapaz com experiência de vida, um homem de trabalho, que chega à Assembleia da República para pôr toda a sua experiência ao serviço da nação.

ASPIRINA

Um desconfiado desconfia que ninguém leu Ulisses de uma ponta a outra, mas eu li. Foi no Verão de 2003. Li-o, sublinhei-o, anotei-o, apontei-o, e só ia dando em mais doido do que sou porque a tradução pôs-me a falar brasilês. Fora isso, tudo bem. Uma aspirina Bolanõ, que é o contrário de uma febre Bolaño, está em marcha. Ainda ontem, apareceu uma na livraria a perguntar se tínhamos alguma biografia da escritora Mia Couto.

MANUAL DE COMO DESCALÇAR SABRINAS A MENINAS


Quando descalçares sabrinas terá de ser com procedimentos cinderélicos. Terás de amar os pés, mesmo que partidos ao meio, na destruição dramática dos seus vinte e seis ossos. Todos os pés de vento. Toda a sua minuciosa anatomia de quem quer andar como quem canta. Prever o mais breve e inútil movimento no sistema esquelético. Encontrar-lhe os lírios nas sequelas dos músculos. Dar-lhes corda. Pô-los a tocar sob ameaça de tempestade. Sentar-te na margem dos rios sinoviais e atirar-lhes as pedras. Pô-los a pensar sobre os caminhos ─ dar-Ihes caminhos. Encontrar-lhes as faces e beijá-las nas suas destrezas. Retirar com cuidado e deixar pousar o pé sobre o chão.

Ana Salomé, in Anáfora, Pena Perfeita, Julho de 2006, p. 16.

CADERNO DE ENCARGOS




Ganhou a família Portas. Perderam a TVI de Moura Guedes, o Público da Sonae, o assessor do PR (pela boca morreu o peixe), a asfixia democrática, o cavaquistão. O PS elegeu gente fina com apelidos estranhos: Luís António Pita Ameixa, Pedro Farmhouse e José João Pinhanços Bianchi são apenas três exemplos. A Inês de Medeiros foi eleita por Lisboa, o que só abona em favor da beleza do Parlamento. Entre outros, o PSD vai sentar na AR o transparente António Preto, esse exemplo de democracia que é Alberto João Jardim, a congruente Maria José Nogueira Pinto e José Pacheco Pereira. O CDS-PauloPortas, depois de quase ter morrido, mereceu a confiança dos portugueses que não gostam de ver gente a sobreviver do rendimento mínimo garantido (ou lá como a chucha se chama). Elegeram um deputado chamado Camello (com duas bossas). Eu cá estou ansioso para saber quem é o deputado Michael Lothar Mendes Seufert. O BE está mais gordo. Ninguém conhece metade daquela gente, assim como estou certo de que a maioria dos eleitores que votaram no programa de Louçã e C.ª não o leu. Enxotaram a Joana Amaral Dias e vão acabar com os “rodeos”. Cambada de puritanos. Por fim, a CDU. A CDU ganha sempre, mesmo quando fica em último. Acho que devem assumir as suas responsabilidades e continuar a organizar a Festa do Avante. Uma palavra para os mais pequenos: o POUS teve um excelente resultado, com mais um esforço e a Carmelinda Pereira não tinha sequer sujado os saltos na pocilga da grande porca. 11614 portugueses votaram no PNR, o partido dos olhos azuis que é contra a imigração. 11614 foram livres de o fazer. E pronto, amanhã lá estarei, das 10 às 19, a ser explorado pelo Grande Capital.

Domingo, 27 de Setembro de 2009

OS AMORES DE BALTAZAR

Outro tesouro que Baltazar conservava era os seus amores. Neste particular, não teve biografia distinta da maioria dos ociosos. Sabemos que quando elas o pretendiam, ele não as queria. Em boa verdade, nem sequer se apercebia das pretensões. Ao aperceber-se, elas tinham fugido para outros colos. Comecemos a digressão pela moçoila de Casal de Água de Todo o Ano. Por esta, Baltazar mudou de vida. Ela queixou-se-lhe dos álcoois, que ele bebia muito e depois fazia-se esquecido. Estava equivocada. Baltazar não se fazia, era. Ainda assim, mudou de vida. Largou o álcool e passou a fumar hidroerva. A mudança não surtiu efeito no coração da moçoila, que preferiu a boca seca de um sucateiro lá da terra à flexibilidade do nosso Baltazar. Seguiu-se rapariga de Cama da Porca. Ela dançou para ele, mas ele não via nada. Até que ela se lhe chegou como um picador de gelo: quando é que te resolves a meter conversa? Baltazar não era propriamente um tímido com as mulheres, mas a cada abordagem correspondia com um tiro no pé. E o que lhe saiu como resposta foi: estou a ver que contigo um mudo não tinha hipótese. Ainda trocaram bagaços e impressões beijoqueiras. Foram muito felizes até ao dia seguinte, quando ela lhe apresentou um moço forcado com quem namorava para casório certo. Depois cruzou-se com a preta de Hospícios. Quando esta deu por eles, espantou-se da devassa. Já vamos aqui? - questionou-se. E onde iam eles? A lado algum. Baltazar pendurou-se numa varanda a imitar Tarzan, ela assustou-se e foi caçar outro macaco. Resta um último grande amor na vida de Baltazar: a Beatriz do Fim do Mundo. Foi um amor platónico que os ligou. Ao contrário do que se julga, o amor platónico não se define pela distância. É antes amor idealista de muito diálogo sem proveito. Ela perguntava: que pensas do amor? Ele respondia que não pensava nada. Ela acusava-o de niilismo. Ele mostrava-se preocupado, e perguntava se era crime. Ela explicava-lhe que não. E então ele queria saber para que servia chamarem-lhe um nome que nada resolveria. E ela dizia que não servia para nada. Então, ele chamava-lhe niilista. E ela mostrava-se preocupada, perguntava-lhe se era crime. Andaram nisto durante meses, até resolverem partir para outra.

Escrito para O Indesmentível.

SEM TÍTULO

− Tem o livro do Correio da Manhã?

OpTIMISMO ESTÓRICO


Em 2666, o Joãozinho fará um trabalho sobre o combate ao terrorismo pós-9/11. Os resumos da história norte-americana dirão: e nesse dia os EUA mais os seus aliados entraram no Iraque para libertar um povo da tirania e o mundo do terrorismo; nos resumos da história britânica, o Joãozinho lerá sobre o mesmo acontecimento: e, com o apoio de outras nações, a Inglaterra juntou-se aos EUA para enfrentar a mais séria ameaça à paz mundial - o terrorismo; porém, nos resumos da história espanhola a versão será: foi na Península Ibérica que Espanha, Inglaterra e outras nações se aliaram aos EUA em mais um combate contra as forças obscuras do terrorismo internacional; já nos resumos da história de Portugal, a versão que o Joãozinho encontrará ditará o seguinte: convencidos pelos americanos da existência de uma ameaça terrorista global, os portugueses apoiaram os seus eternos aliados em mais uma cruzada contra os inimigos da liberdade. Com sorte, o Joãozinho ficará a saber que era tudo mentira. Mas o mais provável é a verdade cair no esquecimento.

Sábado, 26 de Setembro de 2009

VIVIENNE & EMILY


Há 10 anos ainda valia a pena comprar jornais. Um deles era O Independente, do qual coleccionei, entre outras pérolas, uma revista de traduções chamada Best Of. O texto que se segue é um fragmento de um artigo de Barbara Everett, originalmente publicado no The Times Literary Suppplement, intitulado Que ansiedade maior continua a provocar o poema do século XX? A tradução é de Vasco Corisco. Os sublinhados são meus.

Tendo sido uma paixão de juventude de Eliot ─ a princípio através de cartas (em 1927 e 1930) ─, Emily Hale, de Boston, voltou a surgir completamente na vida de um homem que em meados dos anos trinta estava definitivamente separado da mulher neurótica e extremamente difícil com quem tinha estado casado muito tempo. Durante 1934-5, Emily chegou da América com as suas figuras paternais, o tio e a tia, o Reverendo John e a Sra. Perkins, para ficar em Chipping Campden, em Gloucestershire, onde Eliot os visitou.
Como homem solitário e complexo, capaz de um romantismo intenso, Eliot escreveu quase mil cartas a Emily. Mais tarde, veio a admitir ter estado apaixonado por ela. Contra isto tem de ser dito que, sempre que Eliot quis casar com uma mulher, fê-lo: a primeira vez com uma infelicidade amarga, se bem que criativa, a segunda vez com uma enorme felicidade (se bem que menos criativa). Não sabemos o que realmente aconteceu em "Burnt Norton", nem mesmo a altura em que o poeta terá visitado o local com Emily. A Sra. Perkins era jardineira e fotógrafa de jardins. Quando apresentou os seus diapositivos à Sociedade Real de Horticultura, em 1948, Eliot escreveu-lhe, recordando e relembrando que, de todos esses jardins, Hidcote Manor (presumivelmente visitado na sua companhia) "foi do que mais gostei".
An Imperfect Life cita outra frase bastante útil, sem parecer saber exactamente o que fazer com ela, que também nos deixa a pensar, na qual Eliot observa "sinistramente" (acerca dos Perkins) "que bem que Campden assenta aos dois, com a sua atmosfera do velho mundo, empestada de morte". (…)
"Burnt Norton" é um poema. Não é uma autobiografia, nem uma biografia, nem uma topografia ou história. Se tivermos de o ler e, por assim dizer, precisarmos, façamo-lo pelo seu valor humano. Esse valor não consiste num encontro teórico com uma mulher sombria. Respeitamos as biografias, que tentam trazer nova luz a uma figura pública, explorando histórias privadas; para além disso, mulheres como Emily Hale e Mary Trevelyan (que teve um papel comparável, embora mais pequeno, na existência diária de Eliot) suscitam simpatia, bem como interesse. Mas não há dúvida que Eliot trouxe às suas vidas uma excitação e concentração emocional que, supostamente, nunca teria existido para elas sob qualquer outra forma. Ele alegrou vidas que de outro modo seriam vazias, e a satisfação pode ter-se misturado com a amargura triste que atingiu as duas quando casou, dado que tornara claro a ambas que casar com elas estaria fora de questão. Deve ser claro para observadores objectivos que existiam limites à amizade leal do poeta por elas. Na minha opinião, existem limites semelhantes ao protagonismo da profundamente nostálgica afeição romântica que o poeta sentiu por Emily na sua obra. "Burnt Norton" pode ser melhor lido se afastarmos dele a legenda de Emily.
Num pequeno livro sobre Eliot, o eminente crítico Northrop Frye queixou-se uma vez com vivacidade:

Burnt Norton é, segundo nos dizem, o nome de uma casa de campo em Gloucester [sic] que ardeu no século XVIII. A sua relação com o poema, em palavras eufemísticas, não salta à vista, para além de uma sugestão muito vaga da casa de um “milionário arruinado”.

O leitor só pode apreciar esta frontalidade, nem sempre frequente entre os estudiosos de Eliot. Não estou certa se algum outro crítico se questionou precisamente sobre o que Burnt Norton tem a ver com "Burnt Norton". E, de facto, o leitor pode ver a utilidade da noção de um ditoso encontro com Emily (que pode nunca ter visitado o jardim).
Mas se Emily for afastada do sentido humano do poema, que nos resta?
(…)
Talvez Eliot tenha reconhecido, no nome de Burnt Norton, um paradoxo ao mesmo tempo irónico, secular e espiritual. Era um homem de consciência pública devotadamente interessado na tradição. Mas estava plenamente consciente, na década de trinta, antes e depois, que a tradição depende de uma consciência individual empenhada. A tradição inglesa, tal como as suas casas, é feita de ruinosas continuidades particulares. O amor, esse construtor de casas, é com demasiada frequência, para o ser humano, fogo e destruição (
The Fire Sermon: "Arder, arder, arder, arder".). A alma é uma Burnt Norton que não consegue escapar ao fogo, mas consegue aprender a viver perpetuada pela sua chama.


Na imagem: Vivienne Eliot, a neurótica.

HISTERIA


Enquanto ela ria, tive a noção de ficar enredado nesse riso e de fazer parte dele, até os dentes dela não passarem de estrelas casuais, aptas para exercícios de pelotão. Com inspirações curtas, ela sorveu-me, inalado em cada recobro momentâneo, finalmente perdido nas cavernas sombrias da garganta, ferido nas pregas de músculos invisíveis. Um criado de mesa já idoso, trémulo das mãos, estendia à pressa uma toalha de quadrados vermelhos e brancos sobre a mesa de ferro, esverdeada e ferrugenta, e dizia: «Se a senhora e o cavalheiro desejarem tomar o chá no jardim...» Decidi que, se fosse possível parar nela a vibração dos seios, talvez se pudessem recuperar alguns fragmentos da tarde e, com cuidado subtil, concentrei as atenções em tal objectivo.

T. S. Eliot, in Prufrock e Outras Observações, trad. João Almeida Flor, Assírio & Alvim, Maio de 2005, p. 59.

CALÇA DE FLANELA BRANCA


T. S. Eliot nasceu no Missouri a 26 de Setembro de 1888. Foi o mais novo de sete irmãos. Os pais eram gente esclarecida e bem instalada, tendo apenas o pequeno Eliot sido importunado na infância por uma hérnia. Estudou, estudou, estudou e não mais parou de estudar. Chegou a Harvard em 1906, onde conheceu Emily Hale. Sabemos mais da importância da descoberta de um livro, The Symbolist Movement in Literature, do que da descoberta de um primeiro amor. Mas com Emily voltará a encontrar-se muitos anos mais tarde, em Burnt Norton. Só mesmo a escarlatina ia conseguindo interromper-lhe a vocação intelectual. Passou um ano na Sorbonne, e em 1911 deu por concluída uma versão de The Love Song of J. Alfred Prufrock: «E se eu puxar atrás o risco do cabelo? Arrisco-me a trincar um pêssego? / Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia» (trad. João Almeida Flor). Mas antes de se fazer às praias, regressou a Harvard para estudar filosofia. Disserta sobre Bergson, inclina-se para o pensamento oriental, volta à Europa. É neste regresso, em 1914, que trava conhecimento com Ezra Pound. Pound há-de criticar-lhe os versos e rasurar-lhes os poemas, manterão estreita e profícua colaboração: «A obra de Eliot não se confunde com a dos muitos escritores novos que não souberam tirar partido das liberdades do presente, que não adquiriram novos rigores de linguagem nem variedade na sua cadência». Não sabemos a que novos se referia Pound, mas estamos certos de que eram muitos e de que deles não reza a história. E porque um homem não é só livros, Eliot casa abruptamente, em 1915, com a dançarina Vivienne Haigh-Wood. Os pais do poeta ficam em estado de choque quando recebem a notícia, o próprio Eliot ficará em estado de choque a breve trecho. Bertrand Russell, que não era flor que se cheirasse, dá-lhes de guarida e torna-se muito chegado da bela Vivienne. Lá está novamente o Sr. Eliot imerso nos estudos. Agora é Bradley o alvo das reflexões. Não pára. Ganha a vida como professor e, posteriormente, como banqueiro no Lloyds Bank. Prufrock & Outras Observações é publicado em 1917 com o suporte financeiro de Ezra and Dorothy Pound: «Não sabes quanto eu prezo os meus amigos / E como é raro e estranho encontrar, / Nesta vida, tão feita de tanta bugiganga, / (Não amo a vida, não… sabias já? Os olhos tens abertos! / E como tu és perspicaz!) / Encontrar um amigo que tem tais qualidades, / Que possui e oferece / Qualidades que nutrem a amizade» (in Retrato de Uma Senhora, trad. João Almeida Flor). São anos de afirmação literária, de reuniões e de conhecimentos, a reputação a crescer junto das luminárias da época. Ainda assim, uma edição de 500 exemplares do primeiro livro demorará 5 anos a esgotar. O pai morre-lhe em 1919, a saúde de Vivienne deteriora-se, Eliot tem um esgotamento. The Waste Land aparece em 1922, com Pound a reduzir «os perto de mil versos dos manuscritos originais a menos de metade na sua configuração final» (ver edição portuguesa, na Relógio D’Água). O poema é amplamente elogiado, a vida é que se afunda na desgraça. Eliot sente-se esgotado. Os achaques de Vivienne não lhe dão sossego. Abandona a vida de banqueiro e começa a bulir como editor na Faber and Gwyer (Faber and Faber). Aproxima-se a grande tempestade. O poeta converte-se e ingressa na Igreja Anglicana, adquire a nacionalidade britânica, faz votos de celibato e, como dificilmente poderia deixar de ser, separa-se de Vivienne. Reencontra-se então com Emily Hale. Vivienne vai parar a um hospício, acabando por falecer em Janeiro de 1947. Entretanto, em 1943, Eliot juntara, sob o título Four Quartets, quatro longos poemas anteriormente publicados separadamente. Publicou muito, ensaios, poemas, dramas, e a sua carreira mereceu a mais alta consagração com a atribuição do Prémio Nobel em 1948. Acabada a Segunda Grande Guerra, acabou-se a grande poesia. Restavam dramas e ensaios. Acusações de anti-semitismo ocasional iam dando à costa na voz dos críticos. Mas Eliot já havia vestido as calças de flanela branca. Em 1957 voltou a casar, com Valerie Fletcher. Morreu em Londres, no ano de 1965, e as suas cinzas foram largadas em East Coker : «As casas vivem e morrem: há um tempo para edificar / E um tempo para viver e para procriar / E um tempo para o vento quebrar a vidraça solta / E abanar o lambril onde se apressa o rato do campo / E abanar o arrás em farrapos lavrado com uma divisa silenciosa» (trad. Gualter Cunha).

Ao alto: Eliot e Valerie.

Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

ENSAIO SOBRE A LOUCURA


Um pacifista inveterado, um anarquista invertebrado, um tropa apanhado com a boca no canhão. Foi inspeccionado na ronda dos alunos, ia de ressaca. Andou até às tantas pelo Bairro Alto, mergulhou no miradouro de São Pedro de Alcântara e só não caiu de nariz nos Restauradores porque o fontanário não tinha fundura suficiente. Lisboa não é como Caldas da Rainha, onde os putos mergulham nos lagos e vão parar à Lagoa de Óbidos. Em Lisboa, o mais que te pode acontecer é acabares perseguido por um vendedor de hamburgers a quem não pagaste todos os molhos. E foi isso que aconteceu. Apresentou-se no quartel com o rabo escondido e o resto à mostra. Chamaram-no ao altifalante para que toda a gente soubesse da sua loucura. O número tantos de tal que se apresente para consulta psicológica. Os psicotécnicos haviam revelado descompensações graves, urgia apurar o estado de alma das tropas, impunham-se exames de consciência. A ele e a mais dois: um platinado dos pés à cabeça que tinha mergulhado de um sexto andar em plena obra, um freak com os ossos em obras (antes tivesse mergulhado no miradouro de São Pedro de Alcântara); o restante era um viciado da perfuração, as orelhas pesavam-lhe quilos, tinha alfinetes por tudo quanto era chicha e tatuagens a rodos, um anormal. Chegado à consulta, prontamente foi descansado. Afinal o psicólogo de serviço pretendia apenas discutir filosofia deleuziana e o problema da desconstrução. Ele não era versado em teorias anafadas, mas saiu-se competentemente. Acabou dispensado da tropa, o que importava. Mas desde então não se livrou de outras guerras. Tem por inimigos todos os que o julgam louco, até os viciados em substâncias simpatomiméticas, os escravos do haldol, as prostitutas do cavalo, amigos mortos no ressaque do êxtase. A vida não está fácil para quem pretenda uma vida simples, meia dúzia de cadernos fatigados escritos nas horas vagas, algumas cervejas ao balcão do descanso e boas histórias, histórias de quem saiba vivê-las. A vida simples não é vida para ninguém. Veja-se o caso do arrumador de carros a quem a imaginação nunca pediu esmola. Tem a mulher com uma infecção urinária crónica, a filha padece de meningite a tempo inteiro, e ele arruma carros porque nunca consegui arrumar com a vida. A família faltou-lhe na hora h. Nunca soube de pai nem de mãe. Foi criado pelo avô viúvo. Esse sim, arrumou com a vida de uns tantos e com a dele próprio. Diz-se que era esquizofrénico e que não aguentou a pressão da vida normal. Explodiu-lhe a mona com uma caçadeira enfiada no garganteio. Segundo consta, e toda a gente acredita que sim, foi enterrado no quintal. Pelo menos, nenhuma lápide no cemitério lhe atesta a morte. Toda a gente acredita que sim. Até o Lucas, que garante ter nascido na cova improvisada um limoeiro que dá laranjas.

─ Mas laranjas, laranjas? ─ pergunta o incrédulo.
─ Ácidas como limões. ─ responde o crente.
─ Nesse caso, talvez sejam mesmo limões. Ou toranjas. ─ prossegue o incrédulo.
─ Não senhor, são mesmo laranjas. ─ assevera o crente.
─ Mas como é que sabes? ─ indaga o incrédulo.
─ Porque são cor de laranja. ─ explica-se o crente.
─ Mas as toranjas também são cor de laranja. ─ rebate o incrédulo.
─ O quintal é meu, o avô é meu, a árvore é minha, o fruto é meu, eu é que sei. São laranjas ácidas como limões. ─ conclui o crente.

Laranjas ácidas como limões podem fazer excelentes limonadas. A gente colhe-as, espreme-as e nem se lembra que o suco é o sangue convertido de um diabólico avô. Levamos os mortos à boca, levamos a cinza à boca, resta-nos lavar a boca. O tempo prega-nos as partidas dos mortos, os vivos nem se lembram que entre uma consulta a despachar e o caso arrumado está a única receita possível: esperar pela nossa hora. E se alguém disser que o tempo sara tudo, isso é: «Mentira. E reles. Não sara nada. Nem se sabe ao certo quando sara, isto é, quando começa a criar bolor na alma» (Luiz Pacheco).

Na imagem: Man Lying With Branch (1971), de Anselm Kiefer, copiado de Anselm Kiefer: Works on Paper in The Metropolitan Museum of Art, por Nan Rosenthal, The Metropolitan Museum of Art, New York, 1998.

DE PAI PARA FILHO III


William Saroyan: ─ Não se preocupe com o estilo. Desate a escrever conforme as ideias lhe vierem à cabeça e verificará que o que escreveu está cheio de estilo.
Aram Saroyan: ─ uma ostra / não pode / ler isto.


Ao alto, O Índio do Packard, de William Saroyan, Guimarães Editores, Outubro de 1961. Mais um da estante Rui Almeida.

SIGNIFICAÇÃO DE MARIJUANA


os meus olhos ─
de volta
no espelho
onde os deixara


Aram Saroyan, in Antologia da Novíssima Poesia Norte-Americana, selecção, tradução, prefácio e notas de Manuel Seabra, Editorial Futura, 1973.

2666

Hoje encontrei um grilo e metade de um xanax na livraria. Tal era a moca do grilo, que não me custa acreditar ter o saltarico engolido a metade em falta do xanax. Estava escondido atrás de uma moldura electrónica onde passa um vídeo promocional do 2666. É bem provável que não tenha aguentado a pressão. Ter ali o romance do Bolaño às patas e ainda não poder comprá-lo dá cabo dos nervos a um grilo.

P.S.: Pela primeira vez na vida, vou na onda. Já tenho o meu exemplar reservado. Até espreitei as primeiras páginas. Se me arrepender, dou com o tijolo na cabeça de certo e determinado crítico.

Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

AUTOBIOGRAFIA SUMÁRIA DE ADÍLIA LOPES


Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas.


Adília Lopes, in Obra, Mariposa Azual, Dezembro de 2000, p. 80.

O LIVRO DO FIM


Nasci num bairro pobre. O meu pai era o que sempre foi, comerciante, a minha mãe era doméstica. Mais tarde fez-se costureira. Tínhamos uma pocilga, galinhas poedeiras, uma coelheira, éramos razoavelmente felizes. Não posso dizer que me tenha faltado alguma coisa, mas lembro-me de querer uma Canada Dry e a minha mãe não me poder satisfazer a gulodice. Já mais crescido, para aí com 10 anos, cheguei a roubar-lhe moedas de 25$ para comprar uma revista chamada Coquete. Trazia uns posters em formato A4 de bandas que eu gostava de ouvir na altura. Os Dire Straits, por exemplo. No pátio de casa havia uma pereira que eu adorava trepar. Ficava lá em cima a imaginar-me o Tom Sawer na companhia de Huckleberry Finn. Foram estes os meus amigos imaginários. Basicamente, tive uma infância feliz. Podia brincar na rua até às tantas, escapulia-me para o rio, roubava maçãs, fumava barba de milho, andava à porrada, caçava sardaniscas, brincava aos pais e às mães. Aprendi cedo o prazer de andar descalço e de mergulhar as mãos na terra. Mas o bairro era pobre. Haja saúde, hei-de enterrá-lo naquilo que for escrevendo.

De momento, quero recordar duas figuras que me marcaram muito: o Quim Mimi e o Pé-descalço. Eram dois vagabundos com características distintas. O primeiro destacava-se pela expansividade dos comportamentos. Dirigia-se às madames de pirilau em riste, dormia em caixotes do lixo, andava pelas ruas como um cão vadio, a sobreviver de biscates. O segundo era mais circunspecto. Usava um barrete negro e caminhava sempre descalço, com os olhos postos nas pedras e em absoluto silêncio. Provocavam-me ambos sensações de fascínio e de espanto. Quando passavam por mim, recolhia-me em casa. A isso era obrigado. Mas ficava sempre a vê-los do outro lado da cerca. Não me lembro de ter imaginado ou pensado o que quer que fosse acerca daquelas personagens. Sei hoje que me marcaram, pois nunca mais as esqueci (marcar é um verbo muito importante, marcante o mais nobre dos adjectivos). Nasci e fui criado numa província extremamente conservadora, claustrofóbica, cristalizante. Aqueles dois vagabundos foram talvez o primeiro impulso de uma inquietude em crescimento, um estímulo que desenvolveu dentro de mim uma enorme vontade de partir cristais. Sempre gostei da vagabundagem, dos homens sem lei, dos atentados ao pudor. Escondia-me atrás dos reposteiros à espera dos filmes de cowboys que passavam na televisão. Os meus pais iam deitar-se e eu ficava a assistir aos filmes à socapa. Nunca me fiei no respeitinho, sempre apreciei mais as estradas sinuosas do que as linhas rectas. Ainda hoje, só retiro prazer da condução quando me perco por caminhos de terra batida ou quando desafio as curvas e as contracurvas de alguma serra. Enfim, julgo as "pessoas saudáveis" pouco interessantes.

A solidão do Pé-descalço parecia-me admirável, assim como a obstinação do Mimi me causava um espanto tremendo. Olhá-los era como presenciar algo invulgar. Eles eram o meu fenómeno paranormal. Mais do que a santinha da ladeira ou as aparições na Asseiceira, aqueles dois incarnavam uma trindade espiritual que me inspirava fé e da qual nunca mais me livrei: liberdade, provocação - num sentido muito particular que explicarei posteriormente - e, claro está, a inevitável solidão a cobrar por uma refeição destas. Mais tarde, muito mais tarde, lembrei-me deles ao sublinhar um epigrama de Goethe: «Não me posso admirar de Cristo Nosso Senhor ter gostado / De viver com putas e pecadores. Pois o mesmo se passa comigo!» (trad. João Barrento) E foi deles que me lembrei quando li num conto do Bukowski chamado Fibra: «Com os vagabundos sinto-me eu à vontade, pois sou também um vagabundo, mas não gosto de leis, de morais, de religiões e de regras» (trad. Manuel Resende). E é deles que agora me lembro. Já morreram os dois. O Pé-descalço desapareceu sem deixar rasto. O Mimi morreu depois de suportar vários acidentes em casa, ou seja, nos contentores do lixo onde dormia. Da última vez que soube dele, contaram-me que alguém tentou interná-lo num lar mas que ele sempre recusou. Julgo que chegou mesmo a fugir uma ou duas vezes. Fez ele senão bem.

O Pé-descalço tinha adoptado como moradia uma casa abandonada perto das Três Bicas. Sei disso porque uma vez segui-o até lá. Três Bicas era o nome que dávamos a uma nascente onde por vezes íamos buscar água e apanhar amoras. Também roubávamos maçãs pelo caminho. Existiam vários canais naquelas bandas, o Açude, as Escadinhas, entre outros cujo nome não me ocorre agora. Mas uma vez deu-me para seguir o Pé-descalço. Fiquei então a saber que ele morava numa casa abandonada, sem portas nem janelas, no alto de um montículo. O fascínio pelas casas abandonadas, pelos edifícios decrépitos, pelas ruínas, também vem de muito cedo. As casas abandonadas são lugares ambíguos, melancólicos e belos, são corpos que explodiram de liberdade, não são esqueletos, são aquilo que o Al Berto definiu muito bem ao falar de um corpo usado até ao limite suportável, para que a morte nada encontre dele quando vier.

Mais tarde, os meus pais mudaram de bairro. Eu frequentava, salvo erro, o segundo ano do Ciclo Preparatório. Os primeiros livros que me lembro de ter lido, de uma ponta a outra, datam desses tempos. Não sei se a minha irmã mais velha já tinha terminado o curso de Direito. Julgo que não. Sei que lhe devo as estantes onde fui encontrar, entre outros, Jorge de Sena e Mário de Sá-Carneiro. Havia um livrinho que me era especialmente querido, o livro do António Aleixo. Eu sabia que o António Aleixo era analfabeto e julgava extraordinário que alguém analfabeto pudesse escrever um livro. Punha-me a magicar como seriam os livros do Mimi e do Pé-descalço se lhes desse para escrever. Talvez como as quadras do Aleixo, que, apesar de tudo, denotavam uma inteligência natural fora do comum. Li-as numa varanda com vista para um eucaliptal onde vivia, numa barraca, uma outra personagem: um cigano que fazia artigos em verga e que, de quando em vez, nos batia à porta a pedir comida. A minha mãe chegou a encomendar-lhe uma mesa e umas cadeiras, que ele se aprontou a concretizar com uma arte irrepreensível. O Aleixo nas quadras e o cigano na verga, foram dois mestres para a vida. Eram homens incultos com muita sabedoria. Sobretudo, pareciam-me livres, não tinham nada que ver com gente cursada e enfadonha que passa a vida a respirar citações.

Nesse bairro morava também um tipo com quem travei amizade. Éramos homónimos. Ele tinha uma irmã, uma espécie de neo-hippie rural, que ouvia música excelente. Foi graças a esse encontro que cheguei à música dos The Doors. Lembro-me de ficar tardes inteiras a ouvir os vinis dos The Doors e a tentar traduzir os textos que acompanhavam An American Prayer. Mais tarde, em 1990, quando fiz 16 anos, a minha irmã Leonor ofereceu-me a edição da Assírio & Alvim. Mas antes eu já tinha descoberto a biografia do Jim Morrison na mesma colecção. Acresce que em 1989, quando fiz 15 anos, a minha irmã Manuela ofereceu-me O Papalagui (trad. Luiza Neto Jorge). Ora bem, entre os vagabundos da infância, o índio dos Mares do Sul e o Jim Morrison parecia-me haver uma extraordinária ligação. Eram, cada um à sua maneira, mitos de uma certa liberdade, de um modo diferente de se estar no mundo, de vidas arriscadas e marginais, não no sentido comummente atribuído à palavra, mas no sentido de rasto (vide Kenneth White). Todos eles eram igualmente nómadas mais ou menos evidentes, vagabundos de pé-descalço, gente sem caixa postal, habitantes da deriva que deixaram pelo caminho um rasto de palavras a testemunhar as experiências da vida. Ora, foi sempre o rasto daqueles que me pareciam viver para lá da normalidade, foi sempre esse rasto o rasto que eu procurei seguir, sem pretender ser como, mas tentando ser, à minha maneira, com.

Fartei-me de sublinhar O Papalagui porque encontrei nele uma perspectiva crítica do modus vivendi ocidental, aquele que serviu de base à minha educação e que acabou por me motivar mais dúvidas que certezas. Redescobri em Artaud essa mesma lucidez crítica, com a qual me identifiquei de imediato. De resto, o meu primeiro livreco não foi senão um modo pueril e precipitado de o expressar. Mas voltando àqueles tempos, devo reforçar o sentido dos rastos que fui descobrindo. Havia pouco para fazer, naqueles tempos. Seguir o rasto dos vagabundos era a única opção apetecível. A Internet era uma ficção, o cinema ficava longe, livrarias não havia. Na infância, houve uma itinerante da Gulbenkian que estacionava no jardim. Na adolescência, houve o Círculo de Leitores. Comecei a vadiar pelos livros, foram eles que me ajudaram a sobreviver à agonia que o conservadorismo saloio da zona me impingia. Fugi com os supraditos e com outros de autores que me eram apresentados pela mão do Morrison: Nietzsche, Rimbaud, Baudelaire e os mais acessíveis da Geração Beat. Também havia o Escritório, uma taberna onde comecei a ensaiar valentes bebedeiras. E havia discussões intermináveis com alguns amigos de sempre. Mas pouco mais havia.

A minha relação com os livros cresceu neste ambiente de "perseguição". Tal como persegui vagabundos na infância, continuei a perseguir nos livros essa mesma vagabundagem. Procurava algo que me libertasse das amarras sociais em que fui crescendo, procurava as minhas antígonas e os meus promoteus de papel, ciente, desde muito cedo, de que seriam pouquíssimos os corpos de palavras tão livres quanto esses corpos errantes dos miseráveis que se me apresentavam como espantosos exemplos de liberdade. Há um dado aqui que não pode deixar de ser confessado. Sou filho de escravos do trabalho, cresci odiando serões e horas extraordinárias, raramente senti o afecto do meu pai, que passou toda a vida a trabalhar para que eu e as minhas irmãs pudéssemos ter o conforto que lhe faltou desde que nasceu. A admiração pelos vadios, pelos marginais, está ligada a estes sentimentos numa extrema cadeia de íntimas frustrações. À falta de afecto, à ausência, à distância, respondi com um ódio irracional ao trabalho doméstico que transforma em escravas as pessoas com ambições materiais mais ou menos exigentes. Por isso, nunca estranhei que um dos preços a pagar pela liberdade fosse quase invariavelmente a dificuldade económica, a penúria, as privações, a miséria, o isolamento, a solidão, a exclusão social.

Mas como disse, nunca me faltou nada de materialmente importante. Devo ter sido, de alguma forma, carente de uma independência com a qual ia contactando através da leitura e da escrita. Ter começado a escrever foi um acto de revolta, a busca de um lugar onde eu pudesse ser e assumir tudo o que as condições materiais não permitiam. Daí que o gosto pendesse sempre para uma escrita de confronto, nunca para uma escrita instalada, daí que o gosto se inclinasse para o «terrorismo poético», para o combate às academias e aos vendilhões do templo, para uma acérrima intransigência relativamente a tudo o que cedesse ao facilitismo das forças estabelecidas. A palavra cânone causa-me calafrios, chega a meter-me nojo, porque cheira a mofo e tem aquele aspecto asqueroso dos tectos corroídos de bolor e salitre. A minha norma era, pois, encontrar-me com tudo o que minasse a norma, não com o que fugisse à norma, mas com o que a dinamitasse sem qualquer tipo de concessão. Os primeiros poetas que li iam todos, de alguma maneira, nesse sentido: Jorge de Sena, Mário de Sá-Carneiro, Rimbaud, Baudelaire e, claro está, Pessoa, o fustigado, adulterado, tão maltratado por todos os péssimos professores de português que tive, Pessoa.

Mas em 1991, pouco antes da deriva lisboeta, descobri a poesia de Al Berto. Comprei O Medo através do Círculo de Leitores. E aquela descoberta foi o princípio de um grande e inesperado encontro com o diverso, porque, naquele livro, eu fui encontrar uma outra escrita e outros escritores. Certo dia, já na Universidade, tive a oportunidade de perguntar ao autor de À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto por que tinha ele incluído n’O Medo esse seu primeiro livro, um livro outrora retirado do mercado. Recordo-me que ele fugiu à pergunta, mas ainda bem que inclui. Porque esse livro foi-me companhia absolutamente marcante, um encontro comigo próprio do qual só muito mais tarde me desfiz: «conheço o meu próprio vómito», «e no abismo das insónias reinventar-te-ei», «sei que darei ao meu corpo os prazeres que ele me exigir», «não sou escritor pertencendo a qualquer turva academia de café», «caminhávamos dentro do nosso próprio eco». Quando fui estudar para Lisboa, levava O Medo debaixo do braço, levava Jorge de Sena e Ruy Belo, que era lá da terra, levava Pessoa, Sá-Carneiro. Fui procurar Al Berto e outros como ele, pequenos rimbauds do meu século, poetas que não se assoassem à gravata, poetas cuja poesia me assombrasse como sempre me assombraram os vagabundos e as casas abandonadas. Descobri editoras como a &etc. e a Frenesi, onde encontrei muita dessa literatura vagabunda e abandonada. Descobri uma antologia chamada Sião. E foi nessa antologia que reparei, pela primeira vez, nas palavras do Jorge Fallorca.

Aqui chegado, convém não avançar muito mais. Não quero entrar pelo Livro do Fim adentro. Contudo, impõem-se algumas notas. O que ficou para trás nunca ficou realmente para trás, vai-me acompanhando com o voluntarismo da memória. Felizmente, nunca fui desmemoriado. Só esqueço o que não quero lembrar. Depois d’O Medo, Sião foi importante pelas múltiplas pistas que lançou. Continuei a perseguir. Ainda hoje sinto um certo revoluteio quando repasso os olhos por aquela linha de clivagem: rua/doméstico. No fundo, foi sempre este o meu dilema. Está patente nas Estórias, e não foi por acaso que chamei à liça uma epígrafe do Fallorca. Digamos que pretendi apenas, como sempre tenho pretendido, manifestar a minha gratidão. Quem souber dos Animais Domésticos, uma das sequências de Água Tatuada (&etc., Março de 1999), percebe ainda melhor por que linhas se cosem certos processos de identificação. Não é que ande por aí a procurar-me espelhado por aquilo que vou lendo. Mas não sou de ferro, o que me toca só me toca por me trazer à tona as forças recalcadas, por me provocar um diálogo, mais desconfortável que consolador, entre o que se é na intimidade e o que se pode ser na realidade. Julgo ser essa a única lição a retirar da palavra escrita.

Quando falo de provocação, faço-o precisamente neste sentido, não com a ilusão de uma gratuitidade que nada fica a dever à pieguice e ao sentimentalismo, mas com a convicção de que provocar é estimular encontros, porque ao ser provocado eu estou a ser incitado a libertar-me da minha apática normalidade. Para mim, os grandes escritores são aqueles que nos oferecem uma experiência de leitura que se compara a um encontro, porque nesses escritores não existe uma cisão explícita entre a palavra escrita e a vida por eles vivida, não existe uma construção artificial a maquilhar o texto tanto quanto eleva o ideal de autor, não existe sequer autor, existe um corpo único, sólido e coerente, uma «unidade total entre o homem e a obra» (Aníbal Fernandes sobre Artaud). Para mim, os grandes escritores são aqueles que conseguem oferecer-se no texto, ao mesmo tempo que recriam a linguagem na exacta medida em que ela aparece adaptada ao que cada um é. Não se trata de automatismo nem de confessionalismo, conceitos que resultam já de uma sistematização destrutiva da tal vagabundagem, da tal liberdade, do tal despojamento que está na origem de uma força autêntica que não se explica. O texto acaba sempre por ser depurado, a espontaneidade pode até ser viciosa, assim como a patranha de uma inspiração que apenas serve aos preguiçosos. O que se pede é que, mais depuração, menos depuração, o texto nos torne presente um corpo com o qual apetece dialogar, um «homem de palavras», «uma existência de papel».

É isto que sinto quando volto a algumas pistas lançadas por Sião, quando me ponho a dialogar com «doidos mesmo doidos, com quem se possa aprender alguma coisa», agora que me apanho com um Livro do Fim nas mãos. E porque são raros estes momentos, porque ao contrário do Pé-descalço e do Mimi não posso apenas fazer o que me apetece sem dar satisfações a ninguém, porque apenas na escrita isso me é, para já, possível, vou cultivando o espaço como se fosse a minha pequena horta, uma pequena horta onde colho outra espécie de alimento para uma outra espécie de dieta. Quem quiser, que entenda. Quem não quiser,


Na imagem: Mimi fotografado por Luciano Rodrigues.

PRINCESAS DIANAS & ANTI-HERÓIS


Simpatizamos com Princesas Dianas & Anti-heróis (Junho de 2009), uma edição do autor Luís Pedroso a pedir 250 leitores. Aqueles que se aventurarem, depararão com dois conjuntos de poemas ─ O Caso BPN e O Caso Freeport ─ onde a memória tropeça na imaginação, onde a lucidez se afirma por uma saudável cuspidela na seriedade e no auto-convencimento. Em cada uma das partes, 11 poemas travestidos de um humorismo ligeiro sem grande pachorra para melancolias plásticas e reflexões de pacotilha. Por vezes, as estórias têm graça; outras vezes, nem por isso. Há até momentos em que a língua sai sofrível, o ritmo não respira, o remate leva o esférico à trave. Mas a seriedade destes versos reside precisamente em não pretenderem levar-se demasiado a sério, folgam-nos de uma «certa importanticidade sumamente ridícula» (Alexandre O’Neill):

ULISSES 2: A FÚRIA DO HERÓI

Uma multidão enraivecida mas muito cordial
Insistia em que eu auferisse por conta deles
e com todos os melhores cumprimentos
uma épica carga de porrada

Hesitei, porque me apetecia declinar essa atenção
Mas estava embevecido por toda aquela deferência
E uma oferta destas não nos cai no guarda-pó
todos os dias, uma turba cega por um ódio quase
inquisimal

Mas afinal qual o motivo de tão obstinada ira?, balbuciei
a um senhor engomado cuja cabeça meneava
ao balanço do relógio de bolso que até era bem bonito
E cujo bigode sidonista me remetia para o tráfico
de pólvora

Não podes ter o melhor de dois mundos, fazer a síntese
oportunista da Maria e da Manuela
O teu menor problema de hoje em diante
será o fato de alcatrão e penas

Ao que parece
fui apanhado no Largo do Pelourinho
com o Jornal de Letras numa mão
e A Bola na outra


Luís Pedroso, in Princesas Dianas & Anti-Heróis, Edição do Autor, Junho de 2009, pp.32-33.

VERME


Eu, abaixo alucinado por um gene instalado num verme anónimo, venho por esta via declarar ao povo que dele não faço parte. Sou um bodo aos pobres, um desvio da natureza, um tapete macio por onde podem andar. Sou o tal que não tem talco no rabo, nem creme hidratante nas palavras, nem mel nos canudos que conduzem que nem ginjas à verdade.

Por verdade, adoptei apenas a mentira, mas a mentira inteira, jazzística, asfixiante, ritmada, sensacional. Adoptei-a como quem adopta um cão, mas sem ter medo: com medo, os cães compram-se, e eu não estou à venda.

Estou sim, para alugar: tenho espaço interior, muitas assoalhadas, sou confortável, só ataco à traição. Quando mordo, transmito no mínimo duas doenças: uma venérea, outra não. É por isso que evito, dentro do possível, morder. Não há, aliás, nesta passagem de século para vacas demoradas, carne ao meu gosto. Vou por isso mastigando umas palhinhas.

De ruminante, transformei-me em ruminado: mas como sou indigesto, nunca me conseguem comer. Sou por isso, para quem saiba lamber nas entrelinhas, o el esse dê do cacarejo, o charro da falta de pachorra, o extasy do olàzinho prima, adeus.

E que se fodam os camafeus.

Manuel Cintra, in Alçapão, &etc., Maio de 2009, pp. 60-61.

Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

ALÇAPÃO

Há tempos fiquei a saber que o primeiro livro de Manuel Cintra (n. 1956) foi publicado na Colecção Forma, da Editorial Presença, após sugestão de Ruy Belo. Soube-o porque o próprio o afirmou, num gesto espontâneo de homenagem ao poeta de O Problema da Habitação, durante a cerimónia de entrega do Prémio Nacional Poeta Ruy Belo. Do Lado de Dentro (1981) marcou o início de um percurso literário – Manuel Cintra também tem estado ligado à representação teatral – com o qual nos voltámos a cruzar em folhetos editados pelo autor, dos quais é exemplo Tangerina (1990), ou em livros de recepção díspar, de que Não Sei Nunca por Onde (2004) é talvez o exemplo mais flagrante. Reaparece agora esta voz do vento, com um conjunto de poemas em prosa intitulado de Alçapão (&etc., Maio de 2009). Antes de mais, importa salientar a inclinação para o poema em prosa que vem marcando a poesia de Manuel Cintra desde o início. Os seus melhores poemas são textos onde a escrita se liberta de artimanhas formais e de subterfúgios que tantas vezes procuram disfarçar um prosaísmo mais que evidente. De resto, há na poesia actual uma tendência algo snob para disfarçar o indisfarçável. Uma imensa maioria dos poemas que por aí se lêem só merece a designação de poemas porque quem os escreveu resolveu partir em verso as pequenas histórias que saltaram para a página. Caso contrário, seriam estórias ou aforismos. Em Alçapão ninguém se arrisca a comer gato por lebre, o petit poème en prose, de raiz baudelairiana, dá corpo à voz nada ficando a dever à poesia.

Desengane-se igualmente quem espere destes poemas narrativas lineares, pautadas por situações mais ou menos dramáticas, onde personagens diversas representem a tragédia humana com mais ou menos humor, com mais ou menos melancolia, com mais ou menos erosão. O que se propõe neste livro não é uma escrita de leitura fácil, o que se propõe é uma caça à convencionalidade discursiva, uma permanente armadilha da lógica dicotómica que nos rege os dias. O primeiro texto, intitulado Nada, introduz-nos numa espécie de patologia íntima que logo passará a subverter a realidade, por vezes através de caóticas associações de imagens, outras vezes apelando a um erotismo algo decadente, que se mistura com uma sensação de crise e de doença, ou ainda apelando a fábulas de teor abjeccionista para melhor transgredir as regras que sufocam a realidade: «Olha, o escaravelho. Adora merda. Procria em merda. Transporta merda. É orgulhoso da merda que transporta. Eu também. Terei entrado na fase escaravelho, ou é apenas uma questão de idade?» (p. 5) A única regra parece ser a de resistir à normalidade testemunhando os absurdos do mundo, afirmando a loucura e o delírio como condições que explicam uma constante inversão do real, desnudando-o para melhor revelar a sua índole contraditória. Mas esta tentativa de minar a realidade não escapa a um certo fastio nos primeiros textos, os quais se distinguem dos últimos por neles estar mais em evidência o sujeito poético. Perpassam impressões de solidão, abandono, vazio: «O nada reproduz-se, ocupa, vegeta, resiste, alastra e instala-se» (p. 19).

Direi que os melhores momentos de Alçapão foram guardados para o fim, onde as deambulações por Utrecht, Barcelona, Londres, uma Lisboa nocturna de muitos conhecida – veja-se o poema D’arta −, confrontam a ausência do outro com o mundo que resta a quem fica: «O telefone tocava e eras tu, e eu chorava como se tivesse o pacífico inteiro nos olhos. E sorria e chorava, e quanto mais notícias me davas e mais loucuras me dizias mais eu sorria e mais eu chorava. Abracei-te de longe, abracei-te com estes dois braços que ainda hás-de fazer crescer. Porque tu és como o adubo dos cometas. Passas, e deixas no teu rasto um brilho que quase ninguém vê. Dizem que sim, e aproveitam-se, mas não percebem nada. Nunca perceberam nada. Chegam, vandalizam e partem» (p. 37). E segue-se um programa crítico, por vezes corrosivo, já de lágrimas secas, revolta e forças retemperadas, que tanto pode ter por objecto os modos informáticos de viver como o estado geral de um mundo virado do avesso. No poema Noticiário inventariam-se notícias, não importa se ficcionadas, que dão um aspecto geral do estado caótico do mundo. E quase a terminar, o poema Verme declara a voluntariedade da excepção, isto é, a determinação em não pertencer a esse mundo senão por consequência da condição de se estar vivo. Mas também se pode estar vivo optando por caminhar à margem, exausto, «batendo punhetas à dor», escrevendo sobre isso. Alçapão prova-o.

Escrito para o Rascunho.

EM SUMA

Há quem procure A Verdade da Mentira convencido de que o livro valorizará após ter sido proibida a sua venda. Quem o faz, vai votar… esclarecidamente. Um cliente entra e pergunta se vendemos romances. Até aposto que vai votar… esclarecidamente. Outro procura mesas para misturar som. Até aposto que vai votar… esclarecidamente. A miúda gótica quer o Mein Kampf ou, em alternativa, uma biografia de Hitler mais em conta do que as que temos à mão. Vai votar… esclarecidamente. A professora de português pretende livros de poesia que possam ser analisados, ou seja, que contem uma história com princípio, meio e fim. Ela vai votar… esclarecidamente. E dezenas de jovens procuram o livro d’Os Maias. Hão-de votar… esclarecidamente. Quando se deparam com o Queirós, pedem resumos do Eça. Estamos esclarecidos?

E-MAIL

amigo ausente,

se tiveres aí microcoisas que me possas enviar ficarei mt grato. como a biblioteca está fechada para obras resolvi colocar uma por dia num dos vidros da mesma para os putos e graúdos lerem (nada de porcaria e tendências suicidas, n quero ser excomungado no 1º mês)

abraço

INTELECTUAL DE ESQUERDA

A partir de Antonio Gramsci

O intelectual de origem popular trabalhou uma vida inteira para fintar o destino.

Veio do povo. Ninguém sabe para onde foi.

Continuou ligado às origens pela retórica, que é um elo muito semelhante ao cordão umbilical. Com o tempo, apodrece. Resta o umbigo.

Ele sentia no umbigo as necessidades do povo, ele sentia no umbigo as aspirações do povo, ele sentia no umbigo os sentimentos do povo. Mas a barriga cresceu-lhe tanto, que o umbigo dilatado deixou de sentir o que quer que fosse.

O intelectual de origem popular é uma casta rara. Como todas as castas raras, este de que vos falo acabou por ser tragado por quem o pôde pagar.

MÃE NÓS SOMOS BONS?



Sim, gosto de leite em garrafas escuras
mas faz-me a adivinha das mãos
fechadas e que lá de dentro saia
um soporífero para a cavalaria
que me fazes comandar
e aceito ser pequeno rei das seis ao deitar
mas tapa-me os olhos adivinhos
e que dessas portelas de arma detergentadas
avance o agrafo para a ressaca do método
que me fazes cartilhar
e prometo desdobrar a cola do bafo
antes que um favor de sangue te gire
num avessar mas lança-me a bola
e que do seu manso traço de cera
caia doce o arroz-doce dos beijos
para na maré do escorrega
na gaiola dos grandes
ter onde me enforcar
e ir ser bem melhor.

Nuno Moura, in Soluções do Problema Anterior, &etc., Abril de 1996, p. 32.

DESENGANOS

A opção pelo não-voto inspira geralmente os seguintes contra-argumentos: 1) o voto é um direito/dever que importa preservar; 2) quem não vota, depois não se pode queixar; 3) a abstenção favorece os grandes partidos. O primeiro argumento é comovente. Vejamos: votar é um direito. E não votar, não é também um direito? Parece-me que não votar também é um direito, até mais natural do que votar. Ademais, se quem não quer votar tem esse direito, como justificar que o direito ao voto seja igualmente um dever? Falem-me de deveres morais. Já sei, a conquista do direito ao voto merece o nosso respeito. Afinal de contas, é o princípio político da democracia que está em causa. Mas o direito ao voto, por si só, de nada vale. Sobretudo num país onde reina uma oligarquia disfarçada de democracia. Uma oligarquia que de quatro em quatro anos oferece a um povo inculto e deseducado, um povo clubista e desinformado, o rebuçado da pronunciação. Portanto, a luta pelo direito ao voto, luta essa bastante respeitável, deve ser acompanhada por uma luta pela seriedade do voto. O voto não é sério enquanto não traduzir esclarecimento, quer da parte do eleitorado, quer da parte dos eleitos. Escutem-se as arruadas e observem-se os arraiais, praticamente ninguém vota esclarecidamente num circo destes. Os políticos apelam ao voto como um feirante do Mercado de Santana apela ao consumo. Tudo é negociável à partida, nada será respeitado a posteriori. E isto leva-me ao segundo dos três argumentos supracitados. O segundo argumento é absurdo, até por não prever que a abstenção não resulta necessariamente da indiferença. Afirmar que quem não vota, depois não se pode queixar, equivale a dizer que quem não conduz, não se pode queixar da insegurança rodoviária. Ora, se eu não voto, não é por indiferença, desleixo ou complacência. É precisamente pelo contrário. Não estando a liberdade de voto em causa, a abstenção pode denunciar descrença no sistema político, num sistema que dá de guarida a dezenas de imbecis que nunca fizeram nada na vida e chegam à Assembleia da República simplesmente por terem sido competentes na imitação dos carneiros. Espera-os ordenados chorudos e grandes reformas. Este sistema não responsabiliza o eleito, não o obriga a respeitar o programa que lhe mereceu a confiança do eleitor, não o sujeita às promessas vomitadas em campanha eleitoral. Ora, não só isto não acontece, como o sistema ainda permite que, estando no poder, possa “o salvador da pátria” zarpar do cargo para o qual foi designado quando lhe der na real gana, ou seja, quando lhe botarem no fogão tacho mais apetecível. Perante tal cenário: quem vota, depois só se pode queixar de ter sido condescendente com a mentira, de ter acreditado cega e asnaticamente nas balelas de um sistema que perpetua em cargos de mando os aldrabões de sempre, um sistema que se organiza a partir de um princípio de domesticação da liberdade tendo em vista a engorda de uma minoria de poderosos que vão crescendo à custa de sacrifícios alheios. A abstenção pode mesmo tornar ilegítimo qualquer Governo, assim como provocar uma revisão de todo o sistema eleitoral. Imaginemos que nas próximas eleições se verificava uma abstenção na ordem dos 60%. Para que eleitores estaria a governar um Governo eleito por uma minoria? Poderia a fé de uma minoria sobrepor-se à descrença da maioria? Dito isto, afirmar que a abstenção favorece os grandes partidos vale tanto quanto afirmar que o voto, seja ele em branco ou nulo, favorece um sistema mentiroso, uma ilusão que precisa de ser desmascarada. Sejamos honestos: num sistema assim, a diferença entre estar no Governo PS ou PSD é apenas de cosmética; a diferença entre estarem estes no Governo, mais ou menos pressionados pelos partidos de menor representatividade, é apenas de gestão na distribuição do bolo. Ou ainda esperam vossas excelências que aquela gente se preocupe com o bem-estar das populações?

2


O susto viaduta os olhos, débeis lâminas, foscas cinzas ─ enquanto os dias desmaiam no colchão de pregos. Não adianta lavar a cara, as aranhas invadiram o espelho traste. Põe-se a mão no bolso: sai um osso sem tutano. De madrugada, o coração desfalece: levou um murro unipreço, cheira a verde podre. A polícia lima os dentes no trottoir, entre pulgas e asilos de infância. Um homem esconde-se no miolo de um livro de horas. As vulvas escancaram-se, arremete a peste negra.. «Que é isto? que sucede?» O pulmão transpira, amanhã é sempre dia-sem-rede. As ruas apinham-se de fotografias delirantes: moscas in? lesmas snobs? No relógio da estação espirra o tempo de vidro, utentes deslizam para o estômago azedo. Soa um riso, alguém roubou o número certo, zune a violência no apeadeiro do socorro. Não há gabardina à prova de facturas. Em pleno asfalto, o cilindro esmaga resmas de papéis manuscritos, talvez cartas de amor, talvez versos coléricos. A morgue arrota sob o céu metálico. Na rádio, notícias detergentes: o senhor ministro palitou um decreto-dente, a oposição alveja o hemiciclo com zarabatanas Iilases. Quem não refoga a fogo lento toma o comboio fantasma e parte directo ao vómito rilhando uma canção desesperada. Já nos astros a tontura alcoólica, já nos pés os patins do ácido. As paredes do quarto afunilam para um olho ávido: será a salvação, o templo rui. A luz fluorescente a caveira zomba, transmitida depois via satélite aos remotos confins de andrómeda. Aqui, ao som do hino nacional, racionam-se as unhas. «Um cigarro no inferno!», crava o papa arrependido suspirando pelo vale postal. Mas não dá: as frágiles criaturas reservaram todo o ar intransponível. A própria cobra empenha a dentadura e o lacrau requer subsídio de aleitação. Parece que se ouve uma ode à alegria: é o hamburguer gestor a suar liofilias. «Nada está perdido», opina um esófago suplente. Na radiografia fosforesce a glândula poética, travestida em jota bê. Afirma o senhor doutor que amanhã estará pior. «Amada», disse o chefe zeloso, «há lugares marcados?» E foi-se, balão murcho, rumo ao santíssimo réptil. Ficou um cheiro a torresmos alugados à hora. Viu-se mesmo: era só uma forma de cortar a garganta, tão legítima como nascer retroactivo. Todos os sábados, no baile dos bombeiros, desaparecem pernas, diz-se que trituradas pelo crocodilo americano. A bruxa desmente, diplomada em parapsicologia macrobiótica. Nos jardins infantis ninhos de larvas artilham-se para a militância: é a bomba mística a espalhar confetti. Nem um esgar na câmara de vácuo. O laboratório incha como a rã da fábula, as máquinas registadoras vêm-se. «Não há leite!», manifa a mulher do bom rapaz trabalhador. O sol ameaça abortar, os poetas líricos desunham um abaixo-assinado. PAVOR ─ lê-se nos muros periféricos. As bolsas marsupiais escancaram goelas, venha a nós. Nenhum deus cai assassinado, à falta de invenção. Só o pacemaker literário pulsa a compasso de espera. «Sufoca-se, nesta escrita ácida» (sic). Mas o menino arrancou a cara e fez com ela um papagaio de papel que o tufão nuclear levou para ontem. «Adeus! Adeus!», acenaram as meninges ─ e um arroto a cerveja empestou o palácio de sonho. Veio nas palavras cruzadas dos jornais, logo transformadas em gotas de glicerina. Como sair do túnel se este não passa de fotolito à prova de bafo? Ah! as multidões fazem bicha para lugar sentado na cauda do cometa incendiário. «Boa viagem!», crucitam os locutores trincando sanduíches de venéreo asséptico. «Já tenho a minha cassette!», grila o grilo da internacional zombie ─ e o marechal desfaz-se polissaturado na frigideira da frente recuada. «Serpentes no sapato, vamos à dança!», gorgulham os poucos loucos do serviço nocturno. O 115 toma o freio no acelerador, a cidade arqueia a espinha e espalha-se no centro da pista, desfeita em marmelada televisiva. Mergulhados na placenta ritual namorados viciam-se num beijo tóxico: a prazo curto e com juro bonificado eis o passe social para a morte biodegradável. Segue a procissão armadilhada, apetece cada vez menos pôr o pé direito à frente do ventrículo esquerdo. Agrafam-se as línguas terra-ar e os arquivos imploram pensão de reforma. Nas camas mais secretas o ofício de amar apita sinal horário: é tempo de pus em banho-maria. Como sair desta electrónica? como artesanar um edredão de agulhas? O horóscopo teclagácésar: legiões de arcanjos desviam saturno para a má vida, o apocalipse chega no comboio das sete. Só que por dentro da camisa «escorre ácido sulfúrico» ─ eis o tema musical da semana. «Clik», o meu kodak não me deixa ficar mal: nos vales da cárie pululam cogumelos. «Chuva de anjos!», vociferam os profetas garantindo o part-time. E os sinais da grande apoteose trespassam o que resta do resto de fígado dos desobedientes civis. Puf! Fim de excitação.

JANEIRO 1984

Vitor Silva Tavares, in ARA, com textos de Rui Baião, Vitor Silva Tavares e Paulo da Costa Domingos, Frenesi, Fevereiro de 1984.

Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

NA CORRENTE


E eu queria ser um cossaco a desabrochar nas estepes da monotonia, queria ter a coragem dos cavaleiros de infantaria, queria orar Sun Tzu todas as noites, antes de lavar as feridas dos pés com os teus braços à volta do meu pescoço, a asfixiar a democracia do meu coração, queria Ramon Llull a atravessar as paisagens do antigo oeste, com um coldre de prata e balas nos joelhos, queria esses tempos sombrios da medieva idade, a selvajaria das pestes, a crueldade dos homens, todo o imaginário que nos permitiu reescrever a história da fealdade à luz das trevas. Eu queria ser como o Leonard Cohen naquela fotografia, a olhar a página na máquina de escrever, braços debruçados sobre a mesa e a cabeça da guitarra espreitando por cima do tampo, queria ser a luz que entra pela janela do fundo, um interruptor numa parede depilada, o vento a soprar dentro de um pesadelo, a paz que se mistura com a guerra, uma cabeça entre os joelhos e a solidão de Van Gogh, os afagadores de soalho, com os músculos rasgados pelo suor, eu queria. E ver nascer na página um texto muito belo, muito simples, que ninguém percebesse, porque só as árvores percebem a chama que as consome, só o coelho percebe o farol que o encandeia e o para-choques que o estropia, só a voz agoniada percebe a voz juvenil de Claretta Petacci. «Eu queria uma mulher que / estivesse numa companhia de dança» (Nuno Moura), uma ópera em pleno século XXI, a maquinaria de guerra troando dentro de teatros nacionais, palácios, castelos, auditórios, troando dentro da asfixia democrática, queria a farda de um soldado tingida pelo sangue de boi do vestido nocturno, Roy Orbison a dizer que chora e Scott Walker de óculos escuros, em plena noite surrealista, eu queria, queria a colecção de sabonetes da personagem dos Belos Vencidos, porque eu «quero morder para sempre a almofada quente e densa da terra / quero só isso nem isso quero» (Ruy Belo).

Mas um homem não pode ter tudo. Tenho um movimento no pulmão esquerdo que me mete as costelas a dançar, tenho um impulso no sangue que obriga as veias a ajoelharem-se sempre que as rosas amarelas abrem, tenho pássaros de asas longas dentro da cabeça, asas que varrem o chão como uma longa cabeleira, tenho o caudal de um rio a arrastar-me pela terra, tenho um corpo leve que o vento leva, tenho uma coisa levada da breca, tenho uma certa inclinação para a tristeza e sempre que o Outono começa largo cada um dos meus poros, como se os meus poros fossem folhas secas de árvores obedientes às estações. Eu abro a janela da fotografia do Leonard Cohen e espreito lá para fora, que, de onde estou, estou dentro, espreito lá para fora e vejo um adorável fim de tarde, com andorinhas a flutuar no destino, o chão vincado pelas pernas da cadeira, uma orquestra inteira na voz deprimida do poeta. Mas a música, a música é outra. É uma valsa tocada por mãos gélidas, imóveis, a eternidade arrumada num único segundo. A música é outra. Ele canta com a garganta cheia de medo, tem anjos depredadores que o perseguem pela sombra, não tem assessores que possa despedir se lhe fizerem mal os recados. Olhamo-lo nos olhos como Artaud olhou Van Gogh, alguém a bater à porta da loucura, os punhos esmurrando a porta da loucura, os nós dos dedos rompendo a carne, o sangue a escorrer pelas mãos, um sofrimento silenciado pela primavera dos barbitúricos, um pesadelo zumbido nas cordas dos violinos. A música é outra, vem dos nervos que emaranham a psique, vem dos germes que o vento arrasta, polvilhando os campos onde semeamos o alimento. É uma música que vem de um corpo forçado, de uma dor, porque ele canta como se tivesse o medo na garganta, e aquele medo é uma audiência silenciosa, uma plateia vazia, o mijo escorrendo pelas pernas abaixo da criança em pânico. É o terror, já não o que desejas, o que queres, já não o que tens, mas tudo o que podes esperar de um mundo em colapso.

Bem podes querer ser um cossaco a desabrochar nas estepes da monotonia, bem podes ter pássaros de asas longas dentro da cabeça, bem podes esperar que isso te sirva para alguma coisa. Quando as garras do poder nos rapinam os nervos, de nada serve o que desejamos. O mundo é deles, as canções são nossas. Calçamos óculos escuros, caminhamos sobre os olhos, trauteamos Roy Orbison, Johnny Cash, Leonard Cohen, Nick Drake, Neil Young, Bob Dylan… Scott Walker, de quando ainda era trauteável. E só isso nos salva.

QUERIA


10. Sempre quis ser amado pelo Partido Comunista e pela Santa Madre Igreja. Queria viver numa canção folk, como o Joe Hill. Queria chorar pelas pessoas inocentes que a minha bomba deixaria necessariamente estropiadas. Queria agradecer ao velho camponês que nos daria de comer na nossa fuga. Queria usar a minha manga vazia arregaçada até cima, ver as pessoas sorrir quando eu fizesse a continência com a mão errada. Queria ser contra os ricos, mesmo que alguns deles conhecessem Dante; momentos antes da derrocada um deles ficaria a sabe que também eu conhecia Dante. Queria que levassem o meu busto pelas ruas de Pequim, com um poema escrito no meu ombro. Queria poder sorrir aos dogmas, e apesar de tudo deixar que estes me distorcessem a personalidade. Queria defrontar as máquinas da Broadway. Queria que a Quinta Avenida recordasse os atalhos índios que por lá passavam. Queria sair de uma cidade mineira com maus modos e convicções incutidos por um tio ateu e bêbedo, ovelha negra da família. Queria atravessar a América num comboio blindado, ser o único branco aceite pelos negros na convenção. Queria ir a cocktails de metralhadora ao ombro. Queria dizer a uma velha namorada escandalizada pelos meus métodos que as revoluções não se fazem nos buffets, que não podemos ser selectivos, e ver o seu vestido de noite prateado molhar-se no sítio da cona. Queria lutar contra o golpe de estado da polícia secreta, mas de dentro do partido. Queria que uma velha a quem morreram os filhos se lembrasse de mim nas suas orações, numa igreja de adobe, e que os filhos me garantissem que o fizera. Queria persignar-me quando ouvisse palavrões. Queria ser tolerante para com os vestígios de paganismo numa festa de aldeia, condenando a Cúria. Queria envolver-me em negócios obscuros de imobiliário, ser o agente de um bilionário sem nome e sem idade. Queria escrever bem dos Judeus. Queria ser alvejado entre os Bascos por transportar a eucaristia para o campo da batalha contra Franco. Queria pregar sobre o casamento com a indiscutível autoridade de uma virgem, espreitando os pêlos negros das pernas das noivas. Queria escrever um manifesto contra o controlo de natalidade num inglês muito claro, um panfleto que se vendesse nas salas de espera, ilustrado a duas cores com desenhos de estrelas cadentes e da eternidade. Queria proibir a dança durante uns tempos. Queria ser um padre drogado que gravasse um disco para a Folkways. Queria ser deportado por razões políticas. Acabo de descobrir que o cardeal... recebeu um avultado suborno de uma revista feminina, fui alvo de propostas desonestas por parte do meu confessor, vi os camponeses serem traídos por razões necessárias, mas os sinos tocam esta noite, outra noite no mundo de Deus, e há muitos que precisam de alimento, muitos joelhos ansiosos por se vergarem, subo os degraus gastos enrolado na velha pele de arminho.

Leonard Cohen, in Belos Vencidos, trad. Margarida Vale de Gato, Relógio D’Água, Novembro de 1997, pp. 30-32.

MILAGRE

Senhora simpática procura literatura de espírita desaparecido. Na ausência de um nome que certifique a lebre, lá vai soletrando um tal Fer-gu-som que o livreiro, pouco esclarecido em matéria mediúnica, fica a saber tratar-se de um tal de Dr. Ferguson, homem de poderes incalculáveis que não só falava com os espíritos como ainda os metia a dançar em salas presidenciais. Talvez Dr. Ferguson fizesse jeito ao professor carranca. Adiante. Descoberto o espírito no limbo do Google, averigua-se a inexistência de literatura disponível. A simpática senhora mostra-se desapontada, mas não desarma. Recita-me ao balcão uma oração do médium, benze-me com olhos de exorcista, purifica-me com a doçura das palavras e ainda me oferece a história de um milagre: «Quando ouvi falar do Dr. Ferguson pela primeira vez, nem queria acreditar. Tinha acabado de ler um livro dele quando o telefone tocou. Era alguém que dizia ligar-me dos Estados Unidos. E agora diga lá o senhor, se isto é ou não é um milagre?» Se a senhora o crê, respondi-lhe. No entanto, fiquei curioso. Terá o espírito milagreiro falado em americanês ou em português? E qual será a taxação prevista para chamadas milagrosas?