
Nasci num bairro pobre. O meu pai era o que sempre foi, comerciante, a minha mãe era doméstica. Mais tarde fez-se costureira. Tínhamos uma pocilga, galinhas poedeiras, uma coelheira, éramos razoavelmente felizes. Não posso dizer que me tenha faltado alguma coisa, mas lembro-me de querer uma Canada Dry e a minha mãe não me poder satisfazer a gulodice. Já mais crescido, para aí com 10 anos, cheguei a roubar-lhe moedas de 25$ para comprar uma revista chamada Coquete. Trazia uns posters em formato A4 de bandas que eu gostava de ouvir na altura. Os Dire Straits, por exemplo. No pátio de casa havia uma pereira que eu adorava trepar. Ficava lá em cima a imaginar-me o Tom Sawer na companhia de Huckleberry Finn. Foram estes os meus amigos imaginários. Basicamente, tive uma infância feliz. Podia brincar na rua até às tantas, escapulia-me para o rio, roubava maçãs, fumava barba de milho, andava à porrada, caçava sardaniscas, brincava aos pais e às mães. Aprendi cedo o prazer de andar descalço e de mergulhar as mãos na terra. Mas o bairro era pobre. Haja saúde, hei-de enterrá-lo naquilo que for escrevendo.
De momento, quero recordar duas figuras que me marcaram muito: o Quim Mimi e o Pé-descalço. Eram dois vagabundos com características distintas. O primeiro destacava-se pela expansividade dos comportamentos. Dirigia-se às madames de pirilau em riste, dormia em caixotes do lixo, andava pelas ruas como um cão vadio, a sobreviver de biscates. O segundo era mais circunspecto. Usava um barrete negro e caminhava sempre descalço, com os olhos postos nas pedras e em absoluto silêncio. Provocavam-me ambos sensações de fascínio e de espanto. Quando passavam por mim, recolhia-me em casa. A isso era obrigado. Mas ficava sempre a vê-los do outro lado da cerca. Não me lembro de ter imaginado ou pensado o que quer que fosse acerca daquelas personagens. Sei hoje que me marcaram, pois nunca mais as esqueci (marcar é um verbo muito importante, marcante o mais nobre dos adjectivos). Nasci e fui criado numa província extremamente conservadora, claustrofóbica, cristalizante. Aqueles dois vagabundos foram talvez o primeiro impulso de uma inquietude em crescimento, um estímulo que desenvolveu dentro de mim uma enorme vontade de partir cristais. Sempre gostei da vagabundagem, dos homens sem lei, dos atentados ao pudor. Escondia-me atrás dos reposteiros à espera dos filmes de cowboys que passavam na televisão. Os meus pais iam deitar-se e eu ficava a assistir aos filmes à socapa. Nunca me fiei no respeitinho, sempre apreciei mais as estradas sinuosas do que as linhas rectas. Ainda hoje, só retiro prazer da condução quando me perco por caminhos de terra batida ou quando desafio as curvas e as contracurvas de alguma serra. Enfim, julgo as "pessoas saudáveis" pouco interessantes.
A solidão do Pé-descalço parecia-me admirável, assim como a obstinação do Mimi me causava um espanto tremendo. Olhá-los era como presenciar algo invulgar. Eles eram o meu fenómeno paranormal. Mais do que a santinha da ladeira ou as aparições na Asseiceira, aqueles dois incarnavam uma trindade espiritual que me inspirava fé e da qual nunca mais me livrei: liberdade, provocação - num sentido muito particular que explicarei posteriormente - e, claro está, a inevitável solidão a cobrar por uma refeição destas. Mais tarde, muito mais tarde, lembrei-me deles ao sublinhar um epigrama de Goethe: «Não me posso admirar de Cristo Nosso Senhor ter gostado / De viver com putas e pecadores. Pois o mesmo se passa comigo!» (trad. João Barrento) E foi deles que me lembrei quando li num conto do Bukowski chamado Fibra: «Com os vagabundos sinto-me eu à vontade, pois sou também um vagabundo, mas não gosto de leis, de morais, de religiões e de regras» (trad. Manuel Resende). E é deles que agora me lembro. Já morreram os dois. O Pé-descalço desapareceu sem deixar rasto. O Mimi morreu depois de suportar vários acidentes em casa, ou seja, nos contentores do lixo onde dormia. Da última vez que soube dele, contaram-me que alguém tentou interná-lo num lar mas que ele sempre recusou. Julgo que chegou mesmo a fugir uma ou duas vezes. Fez ele senão bem.
O Pé-descalço tinha adoptado como moradia uma casa abandonada perto das Três Bicas. Sei disso porque uma vez segui-o até lá. Três Bicas era o nome que dávamos a uma nascente onde por vezes íamos buscar água e apanhar amoras. Também roubávamos maçãs pelo caminho. Existiam vários canais naquelas bandas, o Açude, as Escadinhas, entre outros cujo nome não me ocorre agora. Mas uma vez deu-me para seguir o Pé-descalço. Fiquei então a saber que ele morava numa casa abandonada, sem portas nem janelas, no alto de um montículo. O fascínio pelas casas abandonadas, pelos edifícios decrépitos, pelas ruínas, também vem de muito cedo. As casas abandonadas são lugares ambíguos, melancólicos e belos, são corpos que explodiram de liberdade, não são esqueletos, são aquilo que o Al Berto definiu muito bem ao falar de um corpo usado até ao limite suportável, para que a morte nada encontre dele quando vier.
Mais tarde, os meus pais mudaram de bairro. Eu frequentava, salvo erro, o segundo ano do Ciclo Preparatório. Os primeiros livros que me lembro de ter lido, de uma ponta a outra, datam desses tempos. Não sei se a minha irmã mais velha já tinha terminado o curso de Direito. Julgo que não. Sei que lhe devo as estantes onde fui encontrar, entre outros, Jorge de Sena e Mário de Sá-Carneiro. Havia um livrinho que me era especialmente querido, o livro do António Aleixo. Eu sabia que o António Aleixo era analfabeto e julgava extraordinário que alguém analfabeto pudesse escrever um livro. Punha-me a magicar como seriam os livros do Mimi e do Pé-descalço se lhes desse para escrever. Talvez como as quadras do Aleixo, que, apesar de tudo, denotavam uma inteligência natural fora do comum. Li-as numa varanda com vista para um eucaliptal onde vivia, numa barraca, uma outra personagem: um cigano que fazia artigos em verga e que, de quando em vez, nos batia à porta a pedir comida. A minha mãe chegou a encomendar-lhe uma mesa e umas cadeiras, que ele se aprontou a concretizar com uma arte irrepreensível. O Aleixo nas quadras e o cigano na verga, foram dois mestres para a vida. Eram homens incultos com muita sabedoria. Sobretudo, pareciam-me livres, não tinham nada que ver com gente cursada e enfadonha que passa a vida a respirar citações.
Nesse bairro morava também um tipo com quem travei amizade. Éramos homónimos. Ele tinha uma irmã, uma espécie de neo-hippie rural, que ouvia música excelente. Foi graças a esse encontro que cheguei à música dos The Doors. Lembro-me de ficar tardes inteiras a ouvir os vinis dos The Doors e a tentar traduzir os textos que acompanhavam An American Prayer. Mais tarde, em 1990, quando fiz 16 anos, a minha irmã Leonor ofereceu-me a edição da Assírio & Alvim. Mas antes eu já tinha descoberto a biografia do Jim Morrison na mesma colecção. Acresce que em 1989, quando fiz 15 anos, a minha irmã Manuela ofereceu-me O Papalagui (trad. Luiza Neto Jorge). Ora bem, entre os vagabundos da infância, o índio dos Mares do Sul e o Jim Morrison parecia-me haver uma extraordinária ligação. Eram, cada um à sua maneira, mitos de uma certa liberdade, de um modo diferente de se estar no mundo, de vidas arriscadas e marginais, não no sentido comummente atribuído à palavra, mas no sentido de rasto (vide Kenneth White). Todos eles eram igualmente nómadas mais ou menos evidentes, vagabundos de pé-descalço, gente sem caixa postal, habitantes da deriva que deixaram pelo caminho um rasto de palavras a testemunhar as experiências da vida. Ora, foi sempre o rasto daqueles que me pareciam viver para lá da normalidade, foi sempre esse rasto o rasto que eu procurei seguir, sem pretender ser como, mas tentando ser, à minha maneira, com.
Fartei-me de sublinhar
O Papalagui porque encontrei nele uma perspectiva crítica do
modus vivendi ocidental, aquele que serviu de base à minha educação e que acabou por me motivar mais dúvidas que certezas. Redescobri em Artaud essa mesma lucidez crítica, com a qual me identifiquei de imediato. De resto, o meu primeiro livreco não foi senão um modo pueril e precipitado de o expressar. Mas voltando àqueles tempos, devo reforçar o sentido dos rastos que fui descobrindo. Havia pouco para fazer, naqueles tempos. Seguir o rasto dos vagabundos era a única opção apetecível. A Internet era uma ficção, o cinema ficava longe, livrarias não havia. Na infância, houve uma itinerante da Gulbenkian que estacionava no jardim. Na adolescência, houve o Círculo de Leitores. Comecei a vadiar pelos livros, foram eles que me ajudaram a sobreviver à agonia que o conservadorismo saloio da zona me impingia. Fugi com os supraditos e com outros de autores que me eram apresentados pela mão do Morrison: Nietzsche, Rimbaud, Baudelaire e os mais acessíveis da Geração Beat. Também havia o Escritório, uma taberna onde comecei a ensaiar valentes bebedeiras. E havia discussões intermináveis com
alguns amigos de sempre. Mas pouco mais havia.
A minha relação com os livros cresceu neste ambiente de "perseguição". Tal como persegui vagabundos na infância, continuei a perseguir nos livros essa mesma vagabundagem. Procurava algo que me libertasse das amarras sociais em que fui crescendo, procurava as minhas antígonas e os meus promoteus de papel, ciente, desde muito cedo, de que seriam pouquíssimos os corpos de palavras tão livres quanto esses corpos errantes dos miseráveis que se me apresentavam como espantosos exemplos de liberdade. Há um dado aqui que não pode deixar de ser confessado. Sou filho de escravos do trabalho, cresci odiando serões e horas extraordinárias, raramente senti o afecto do meu pai, que passou toda a vida a trabalhar para que eu e as minhas irmãs pudéssemos ter o conforto que lhe faltou desde que nasceu. A admiração pelos vadios, pelos marginais, está ligada a estes sentimentos numa extrema cadeia de íntimas frustrações. À falta de afecto, à ausência, à distância, respondi com um ódio irracional ao trabalho doméstico que transforma em escravas as pessoas com ambições materiais mais ou menos exigentes. Por isso, nunca estranhei que um dos preços a pagar pela liberdade fosse quase invariavelmente a dificuldade económica, a penúria, as privações, a miséria, o isolamento, a solidão, a exclusão social.
Mas como disse, nunca me faltou nada de materialmente importante. Devo ter sido, de alguma forma, carente de uma independência com a qual ia contactando através da leitura e da escrita. Ter começado a escrever foi um acto de revolta, a busca de um lugar onde eu pudesse ser e assumir tudo o que as condições materiais não permitiam. Daí que o gosto pendesse sempre para uma escrita de confronto, nunca para uma escrita instalada, daí que o gosto se inclinasse para o «terrorismo poético», para o combate às academias e aos vendilhões do templo, para uma acérrima intransigência relativamente a tudo o que cedesse ao facilitismo das forças estabelecidas. A palavra cânone causa-me calafrios, chega a meter-me nojo, porque cheira a mofo e tem aquele aspecto asqueroso dos tectos corroídos de bolor e salitre. A minha norma era, pois, encontrar-me com tudo o que minasse a norma, não com o que fugisse à norma, mas com o que a dinamitasse sem qualquer tipo de concessão. Os primeiros poetas que li iam todos, de alguma maneira, nesse sentido: Jorge de Sena, Mário de Sá-Carneiro, Rimbaud, Baudelaire e, claro está, Pessoa, o fustigado, adulterado, tão maltratado por todos os péssimos professores de português que tive, Pessoa.
Mas em 1991, pouco antes da deriva lisboeta, descobri a poesia de Al Berto. Comprei O Medo através do Círculo de Leitores. E aquela descoberta foi o princípio de um grande e inesperado encontro com o diverso, porque, naquele livro, eu fui encontrar uma outra escrita e outros escritores. Certo dia, já na Universidade, tive a oportunidade de perguntar ao autor de À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto por que tinha ele incluído n’O Medo esse seu primeiro livro, um livro outrora retirado do mercado. Recordo-me que ele fugiu à pergunta, mas ainda bem que inclui. Porque esse livro foi-me companhia absolutamente marcante, um encontro comigo próprio do qual só muito mais tarde me desfiz: «conheço o meu próprio vómito», «e no abismo das insónias reinventar-te-ei», «sei que darei ao meu corpo os prazeres que ele me exigir», «não sou escritor pertencendo a qualquer turva academia de café», «caminhávamos dentro do nosso próprio eco». Quando fui estudar para Lisboa, levava O Medo debaixo do braço, levava Jorge de Sena e Ruy Belo, que era lá da terra, levava Pessoa, Sá-Carneiro. Fui procurar Al Berto e outros como ele, pequenos rimbauds do meu século, poetas que não se assoassem à gravata, poetas cuja poesia me assombrasse como sempre me assombraram os vagabundos e as casas abandonadas. Descobri editoras como a &etc. e a Frenesi, onde encontrei muita dessa literatura vagabunda e abandonada. Descobri uma antologia chamada Sião. E foi nessa antologia que reparei, pela primeira vez, nas palavras do Jorge Fallorca.
Aqui chegado, convém não avançar muito mais. Não quero entrar pelo Livro do Fim adentro. Contudo, impõem-se algumas notas. O que ficou para trás nunca ficou realmente para trás, vai-me acompanhando com o voluntarismo da memória. Felizmente, nunca fui desmemoriado. Só esqueço o que não quero lembrar. Depois d’O Medo, Sião foi importante pelas múltiplas pistas que lançou. Continuei a perseguir. Ainda hoje sinto um certo revoluteio quando repasso os olhos por aquela linha de clivagem: rua/doméstico. No fundo, foi sempre este o meu dilema. Está patente nas Estórias, e não foi por acaso que chamei à liça uma epígrafe do Fallorca. Digamos que pretendi apenas, como sempre tenho pretendido, manifestar a minha gratidão. Quem souber dos Animais Domésticos, uma das sequências de Água Tatuada (&etc., Março de 1999), percebe ainda melhor por que linhas se cosem certos processos de identificação. Não é que ande por aí a procurar-me espelhado por aquilo que vou lendo. Mas não sou de ferro, o que me toca só me toca por me trazer à tona as forças recalcadas, por me provocar um diálogo, mais desconfortável que consolador, entre o que se é na intimidade e o que se pode ser na realidade. Julgo ser essa a única lição a retirar da palavra escrita.
Quando falo de provocação, faço-o precisamente neste sentido, não com a ilusão de uma gratuitidade que nada fica a dever à pieguice e ao sentimentalismo, mas com a convicção de que provocar é estimular encontros, porque ao ser provocado eu estou a ser incitado a libertar-me da minha apática normalidade. Para mim, os grandes escritores são aqueles que nos oferecem uma experiência de leitura que se compara a um encontro, porque nesses escritores não existe uma cisão explícita entre a palavra escrita e a vida por eles vivida, não existe uma construção artificial a maquilhar o texto tanto quanto eleva o ideal de autor, não existe sequer autor, existe um corpo único, sólido e coerente, uma «unidade total entre o homem e a obra» (Aníbal Fernandes sobre Artaud). Para mim, os grandes escritores são aqueles que conseguem oferecer-se no texto, ao mesmo tempo que recriam a linguagem na exacta medida em que ela aparece adaptada ao que cada um é. Não se trata de automatismo nem de confessionalismo, conceitos que resultam já de uma sistematização destrutiva da tal vagabundagem, da tal liberdade, do tal despojamento que está na origem de uma força autêntica que não se explica. O texto acaba sempre por ser depurado, a espontaneidade pode até ser viciosa, assim como a patranha de uma inspiração que apenas serve aos preguiçosos. O que se pede é que, mais depuração, menos depuração, o texto nos torne presente um corpo com o qual apetece dialogar, um «homem de palavras», «uma existência de papel».
É isto que sinto quando volto a algumas pistas lançadas por Sião, quando me ponho a dialogar com «doidos mesmo doidos, com quem se possa aprender alguma coisa», agora que me apanho com um Livro do Fim nas mãos. E porque são raros estes momentos, porque ao contrário do Pé-descalço e do Mimi não posso apenas fazer o que me apetece sem dar satisfações a ninguém, porque apenas na escrita isso me é, para já, possível, vou cultivando o espaço como se fosse a minha pequena horta, uma pequena horta onde colho outra espécie de alimento para uma outra espécie de dieta. Quem quiser, que entenda. Quem não quiser,
Na imagem: Mimi fotografado por Luciano Rodrigues.