terça-feira, 30 de junho de 2015

"A EXIGÊNCIA DE UM RIGOR"

Na verdade, nunca conseguirei escrever um romance. Esqueço-me das personagens que estão para trás.
 
João Miguel Fernandes Jorge, entrevistado por Hugo Pinto Santos, in LER, Verão de 2015.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

"O AMADOR AO RÉS DAS ÁGUAS"

   Os dois últimos livros de Herberto Helder ocupam um lugar singular no Poema Contínuo, algo que, de certo modo, parece contradizer a própria ideia de continuidade numa obra que sempre manifestou mais descontinuidades do que aparenta. Quem leia atentamente os Poemas Completos dificilmente poderá ficar agarrado ao preconceito de que entre os versos de O Amor em Visita (1958) e Servidões (2013) não existiram, por assim dizer, desvios, inflexões, paroxismos que o poeta foi tratando ao longo do tempo, sendo contínuo apenas esse trabalho de revisão e de exame que um título como Poemas Canhotos (Maio de 2015) parece contradizer. Canhotos, supõe-se, porque não poderão ser sujeitos ao tal exame e à tal revisão do autor, embora possam e devam merecer a atenção dos leitores.
   Mas a singularidade dos últimos livros começa, antes de mais, na polémica encetada por uma crítica que, como já tinha notado Manuel de Freitas, se dividiu sempre entre «dois pólos irredutíveis. De um lado, uma ingenuidade patética (com laivos, por vezes, de pura patetice),
que se caracteriza por um distraído optimismo hermenêutico e pela ligeireza obstinada com que pretende fazer valer determinados preconceitos estéticos. Nos antípodas desta crítica doméstica e contentinha, que sai de chinelos para o cosmos, surge a extrema e apaixonada lucidez daqueles que a H.H. têm dedicado poucas(?) mas justíssimas palavras» (Cf. Uma Espécie de Crime: Apresentação do Rosto de Herberto Helder, &etc., Março de 2001). Desta feita, porém, a “extrema e apaixonada lucidez” (conjugação perigosa em termos de lógica aristotélica) foi anterior às preocupações hermenêuticas, e também ela meteu os pés pelas mãos. Ainda antes de se julgar o livro, o que, no caso, seria sempre um exercício contaminado pelo peso tremendo que o nome do autor ocupa nas cabeças de quem vende crítica sem exercê-la, recaiu toda a atenção no lado material do acontecimento.
   A transferência de Herberto para o maior grupo editorial português podia ter estado ao nível da transferência de Figo do Barcelona para o Real Madrid, não fosse o mundo do futebol muito mais "apaixonado" do que o da poesia. O campo da poesia é o da “extrema e apaixonada lucidez”, daí que alguns tenham partido para a análise do livro colocando os pés, desde logo, no degrau mais instável. A Porto Editora não é apenas o maior grupo editorial português, é o grupo de alguém que em 2010, em entrevista ao Público, dizia que «Se me perguntar se daqui a dez anos ainda se edita poesia em Portugal, eu dir-lhe-ei que não»; dois anos depois, em 2012, adquiria a Assírio & Alvim, editora com um dos mais relevantes catálogos de poesia em Portugal (Herberto entre os demais); em 2014, depois do abanão provocado nos "mercados" por Servidões, impunha aos clientes das suas livrarias um limite na compra de exemplares de A Morte Sem Mestre (como hoje se impõe na Grécia um limite de euros por levantamento nas caixas MB); em 2015, com a morte do poeta, encheu os livrinhos com autocolante de desconto e levou-os ao Top dos mais vendidos, ao lado de Pedro Chagas Freitas, do prisioneiro 44 e de Isaltino Morais. Um luxo com cartaz a condizer. Se quisermos termo de comparação, perante tais tormentos, certa crítica, porventura mais ortodoxa na sua relação ambígua com o mercado da literatura, comportou-se como alguns fãs dos Metallica quando Nothing Else Matters os elevou aos píncaros da popularidade: Herberto vendeu-se.
   Este discurso acontece porque tínhamos do poeta a (estúpida ou ingénua) imagem do último dos nossos românticos. Vale a pena citar Silvina Rodrigues Lopes,a propósito desta concepção de autor que ressitua o seu papel no mundo actual: «A figura de autor que se pretende hoje impor não é uma cópia do génio romântico, glorioso e atormentado pelo excesso da Natureza que o arrebata (o que não deixou de ser capitalizado simbolicamente na construção de figuras lendárias e no culto do heroísmo da extravagância que se sobrepunha às obras), é sim a figura daquele que pretende produzir e gerir uma obra que, não sendo um dom da natureza, também não pode escapar ao controlo, ou à dependência, de uma intenção que presidiu ao processo de criação, ou produção. “Criação” tornou-se em muitos casos sinónimo de “mediatização”, “mediação”, mediania. Acabar com a estranheza em nome do reforço da comunidade é o lema que faz com que o autor se torne omnipresente em entrevistas, convívios e, sobretudo, opiniões. A sua presença (e em alguns casos a filmagem de arredores vários dos objectos propostos) torna-se impositiva para uma apreciação que de outro modo seria impossível» (Cf. Anomalia Poética, Vendaval, Novembro de 2005). Ora, o autor de Poemacto era o anticorpo desta mediania, não dava entrevistas, não aparecia em convívios sociais, não se lhe conheciam opiniões sobre concursos de talentos. Celebrizou-se pela negação do seu tempo, ou seja, pela recusa em se integrar numa dinâmica castradora da tal Criação.
   Quer a desfortuna deste nosso tempo que os românticos sejam comidos pelo seu romantismo, daí que os dois últimos livros do Poema Contínuo se imponham também, na sua descontinuidade, enquanto negações da figura de Autor que, ao rejeitar-se sob a forma de estátua, como que denega igualmente a mitologização de que tem vindo a ser objecto na

forma de poema. A Morte Sem Mestre e Poemas Canhotos causaram estranheza aos órfãos de mestre, uma estranheza algo pacóvia nos tempos que correm pois a “apaixonada lucidez” de quem lê devia ser tão desinteressada como a de quem escreve. Mas nunca é. Sabendo, pelo menos desde Platão (julgo que o Fédon ainda se leia nas escolas), que estamos na vida para aprender a morrer, como aceitar que esta morte, a morte antevista pelo poeta, não tenha mestre? E logo num mestre da palavra? E logo numa palavra com tantos falsos mestres?
   Em boa verdade, estes livros relevam da mais básica e, também por isso, a mais fundamental das consciências: na morte estamos completamente sós, cada um vive a sua sem lhe ser possível viver a dos outros. Só partindo deste princípio, e dos problemas que  o mesmo levanta, se torna possível ler o seguinte poema sem ser apanhado em contramão: «o António Ramos Rosa estava deitado na cama contra a parede / e deu meia volta sobre si mesmo / e ficou de cara voltada contra a parede / e fechou os olhos / e fechou a boca / e ficou todo fechado / e então morreu todo / fundo e completo de uma só vez / e apenas ele no tempo e no espaço / e só agora passado ano e meio eu compreendo / como era preciso ser assim tão íntimo para sempre / tão compacto / mais que o mundo inteiro /  — e ele sou eu» (Poemas Canhotos, p. 39). Porque nada foi acidental num dos últimos livros, o poeta o disse, em epígrafe, no penúltimo, podemos supor ter havido nesses dois objectos derradeiros uma abertura ao mundo que só os hipócritas poderão considerar desistente. Uma abertura depois de compreender que a morte é ficar todo fechado no tempo e no espaço, completamente e radicalmente só.
   Dirigindo-se ao “bom leitor impuro”, como outrora Baudelaire se dirigiu ao “hypocrite lecteur”, Herberto exalta mais uma vez a pureza da linguagem, do poema, a qual se perde no momento da leitura com propósitos hermenêuticos que recusem ou não entendam a autonomia da palavra perante o leitor. Neste sentido, há toda uma continuidade que vem do Prefácio: «— E de tudo os espelhos são a invenção mais impura» (Cf. A Colher na Boca). Porquê? Porque o seu reflexo não é a coisa reflectida, porque a natureza da coisa reflectida só em si reside, na mesma medida em que a interpretação apenas se aproxima, enquanto reflexo, do fôlego autêntico da respiração que o poema encerra. Impuro como um espelho, o leitor devia perceber que distância o separa daquilo que lê. Mais, devia perceber que distância o separa de quem escreveu aquilo que ele lê. Mas não percebe, ilude-se como quem se vê a um espelho e presume estar no reflexo do que vê o princípio e o fim da realidade.
   O que há de perturbador nestes dois últimos livros não é, portanto, o desvio e a negação de uma construção mitológica que o leitor arquitectou acerca do autor, mas antes a forma como o autor se expõe, a forma como se abre ao mundo, ao revelar-nos a sua aproximação da morte (verdade última!). Desde logo, utilizando um discurso corriqueiro sobre gestos quotidianos que são banais na sua natureza, mas capazes de assumir significados extraordinários quando usurpados pela “apaixonada lucidez” dos hermeneutas. Tem voz de pastelaria: «Cristo foi uma espécie de marxista-leninista mas com alguns escrúpulos extra-partidários»; queixa-se «do preço das bilhas de gás»; foca-se na «vida quotidiana»; atormenta-se «a meio de uma tarefa leve como pentear-se» e enquanto faz a barba: «¿que interessa fazer a barba se é tudo para cremar, / desde as unhas dos pés aos espelhos soberanos — / Leonardo, Camões, Newton, Amadeus Mozart, / et coetera / que interessa?»; revolta-se contra a «gente esfaimada»; questiona os poemas, da sua mais alta altura à baixa vivência de quem os produz; penetra os domínios mais triviais da vida literária para concluir, não sem ironia: «fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são inteligentes / tão subtis no súbito entendimento das intenções segundas que temos em relação a eles / se lhes dessem a ler bons poemas maior proveito teriam aqueles que os escrevem / do que têm com A ou B». E o poema continua, resvalando em evocações críticas de gente mais ou menos declarada, assumindo uma humanização violenta da linguagem num poeta que foi ao longo dos tempos vítima dos assombros e das assombrações que provocou em quem o lia.
   Há que compreender que a escrita de Herberto Helder nunca partiu de um «qualquer quadro comunicacional. A indeterminação do sentido é um fim em si, abrindo a interpretação do texto em diversos sentidos, em vez de condicionar a leitura numa só pista interpretativa» (Cf. Pedro Eiras, in A Lenta Volúpia de Cair, Quasi Edições, Março de 2007). Singulares no Poema Contínuo, estes últimos versos, porque de algum modo contradizem essa indeterminação de sentido e se sujeitam ao que sempre evitaram, uma interpretação condicionada pelo tom directo, cru e cruel do discurso: «e eu, que em tantos anos não consegui inventar um resquício metafísico, / ponho todo o empenho no trânsito das minhas cinzas: / oh retretes terrestres com destino final nas grandes águas marítimas: / glória atlântica, / índica megalomania das tripas!» Esta morte já pouco tem de metafórica, centra indiscriminadamente o homem na figura do sujeito poético, retira à palavra a sua índole plural e determina o sentido. Há tanto Herberto nestes como noutros dos seus livros anteriores, o que deixa de haver é espaço para mitologizações da poesia, do poema, do poeta, desmitifica-se o mito para trazê-lo à terra onde, afinal, tudo aconteceu:


de tal maneira no tempo se é que se enganam de tal maneira
sempre se enganam em qualquer coisa enganam-se
no tempo que pouco têm para morrer —
de tal maneira se enganam nas palavras que se enganam
na cabeça que têm
que a têm pouca —
e por isso quando metem os dedos na matéria
vê-se que a matéria não estava madura ainda —
que pressa é essa? é a de já lhes fugir janeiro e estarem ainda
em setembro ou outubro —
de que lhes valem as flores da época se trocam
rosas por margaridas silvestres?
de tal maneira os aromas nas narinas dos búfalos
e as borboletas de prata pousam
apenas em nomes vagos não em corolas ferozes
nas primaveras com grandes espaços entre palavras —
mas que procuram eles? nomes?
apenas nomes entre tantos desastres?
eu não sei, eu tremo de dor apenas
perante os nomes não vistos e aspirados tanto que apeteça
morrer por um nome ou dois ou três
juntos, exactos, repetidos,
como exactamente em pleno transe louco
entre as flores dos nomes como:
dicionário folha atrás de folha,
e mesmo assim é como uma espécie de medo,
com um tremor no fundo da nossa idade
que vamos ver onde estão as pessoas que fugiram
da nossa vida, e quando foi que lhes tocámos,
ou na camisa ou no cabelo ou ao acaso nos dedos,
e que nomes eram os nomes deles entre
todos os nomes da terra,
e quando foi: se foi na descoberta
ou nos fins dos meses ou
a meio de uma tarefa leve como pentear-se,
ou ressuscitar em plena luz pela
primeira vez
ou pela última vez, logo antes de sair das trevas
para as grandes danças entre o ar e a água,
sai agora: e corta o cordão,
e entre sangue, olhos fechados, abre a boca toda,
e respira muito quase até cair bêbado ou louco
pela voz: o nome e sobretudo nome a nome
cada coisa em torno até que o alcance
a ciência dos nomes todos,
coisa a coisa da terra afinal tão pequena
que mesmo ela a domina,
no domínio dos nomes,
e então suspende tudo com medo que ali acabe com um só nome
o múltiplo mundo matricial,
o mundo das mães loucas



Herberto Helder, in Poemas Canhotos, Porto Editora, Maio de 2015, pp. 27-29.

sábado, 27 de junho de 2015

IMPASSE GREGO

— Vamos lá! De que maneira, meu caro companheiro, se origina a tirania? Pois é quase evidente que provém de uma alteração da democracia.
— É evidente.
— Acaso não é mais ou menos do mesmo modo que a democracia se forma a partir da oligarquia, que a tirania surge da democracia?
— Como?
— O bem que propunham, e pelo qual se estabelecia a oligarquia, era a riqueza [excessiva]. Ou não?
— Era.
— Ora foi a cobiça da riqueza e a negligência do resto, para conseguir dinheiro, que a deitou a perder.
— É verdade.
— Porventura não é a ambição daquilo que a democracia assinala como o bem supremo a causa da sua dissolução?
— Que bem é esse que dizes?
— A liberdade — respondi eu —. É o que ouvirás proclamar num Estado democrático como sendo a coisa mais bela que possui, e que, por isso, quem é livre de nascimento só nesse deve morar.
— Realmente, ouve-se muito a miúde [sic] essa palavra.
— Ora pois — prossegui — como eu ia dizendo há pouco, a ambição desse bem e a negligência do resto é que faz mudar esta forma de governo e abre caminho à necessidade da tirania?
— Como?
— Quando, ao que me parece, a um Estado democrático, com sede de liberdade, se deparam maus escanções no governo e quando se embriaga com esse vinho sem mistura para além do que convém, então põe-se a castigar os chefes, a não ser que sejam extremamente dóceis e lhe proporcionem grande liberdade, acusando-os de miseráveis e oligarcas.
— É isso que fazem, realmente.
— Àqueles que são submissos aos magistrados, insultam-nos como homens servis que de nada valem; ao passo que louvam e honram em particular e em público os governantes que parecem governados, e os governados que parecem governantes. Pois acaso não é forçoso que, num Estado destes, o espírito de liberdade chegue a tudo?
— Como não havia de sê-lo?
— E que se infiltre, meu amigo, nas casas particulares e que a anarquia acabe por grassar até entre os animais?
— Como havemos de dizer tal?
— É que o pai habitua-se a ser tanto como o filho e a temer os filhos, e o filho a ser tanto como o pai, e a não ter respeito nem receio dos pais, a fim de ser livre; o meteco equipara-se ao cidadão, e o cidadão ao meteco, e do mesmo modo o estrangeiro.
— É assim que acontece.
— Ainda há estes pequenos inconvenientes: num Estado assim, o professor teme e lisonjeia os discípulos, e estes têm os mestres em pouca conta; outro tanto se passa com os preceptores. No conjunto, os jovens imitam os mais velhos, e competem com eles em palavras e em acções; ao passo que os anciãos condescendem com os novos, enchem-se de vivacidade e espírito, a imitar os jovens, a fim de não parecerem aborrecidos e autoritários.
— Exactamente.
— Mas o extremo excesso de liberdade, meu amigo, que aparece num Estado desses, é quando homens e mulheres comprados não são em nada menos livres do que os compradores. Mas por pouco me esquecia de dizer até que ponto vai a igualdade e liberdade nas relações das mulheres com os homens e destes com aquelas.
— Então vamos, como Ésquilo, «dizer o que nos acudiu agora mesmo aos lábios»?
— Absolutamente. Eu por mim vou falar dessa maneira. Efectivamente até que ponto os animais submetidos ao homem são mais livres aqui do que em qualquer outro sítio, é coisa que ninguém acreditaria sem o experimentar. É que as cadelas, conforme o provérbio, são como as donas e também os cavalos e burros andam pelas ruas, acostumados a uma liberdade completa e altiva, embatendo sempre contra quem vier em sentido contrário, a menos que saiam do caminho; e tudo o mais é assim repleto de liberdade.


Platão, in A República, introdução, tradução e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Fundação Calouste Gulbenkian 6.ª edição, pp. 395-398 (562a-563d), Fevereiro de 1990. Sublinhado meu.

O PROBLEMA DA TRADIÇÃO

Tradição é a alternância democrática, dar quatro maiorias absolutas a Cavaco, reabilitar corruptos, dizer mal dos ciganos, admirar o chamado empresário de sucesso que explora os empregados e cresce à custa de mão-de-obra barata, os recibos verdes, os actos únicos, conduzir na faixa central, estacionar no lugar reservado a pessoas com deficiência, bloquear passeios e passadeiras, passar a vida no desenrascanço, pagar fortunas para ver a bola, queixar-se do preço a que estão os livros, ser chico-esperto, ler o Correio da Manhã, telefonar para a Antena Aberta, bater na mulher, pagar a factura e calar, meter uma cunha, queixar-se da vida com os dedos lambuzados de maionese, desconfiar da polícia, ir às compras em dias de feriado, cumprimentar o senhor presidente da câmara e sua digníssima esposa, aliviar a bexiga nas esquinas da cidade, cuspir para o chão, largar lixo em qualquer lado, ir à praia e confundir o mar com um WC, falar alto, demasiado alto, sentar-se à mesa das refeições com a televisão ligada, oferecer tablets aos filhos para os distrair e não ter que os aturar, estar com um grupo de amigos a partilhar as coisas fantásticas que se vêm na net, tipo cenas Harlem Shake e não sei quê, a net, falar do que não se sabe, dar muita trela à língua e trela curta, muito curta, à audição, fingir que não se viu quem se viu, não responder a um bom dia, fugir das testemunhas de Jeová, ter montes de amigos no Facebook, mesmo testemunhas de Jeová, picar o ponto, encolher os ombros, cá irmos indo, passar férias no Algarve, isto é, procurar descansar no meio da confusão e arrastar para o meio da confusão os problemas, os traumas, os nervos, os stresses, as irritações quotidianas, achar que a nossa vida é sempre mais dramática do que a vida dos outros, encher o bandulho, esbanjar dinheiro em lixo, por pouco que seja o dinheiro que se tem, como aquelas prendas que se compram no natal porque ficaria mal não dar qualquer coisinha, passar quatro anos a dizer mal de um governo e andar todo entusiasmado quando, na véspera de eleições, esse mesmo governo aproxima-se subitamente dos cidadãos com saquinhos de rebuçados, prolongar a adolescência pela vida adulta dentro, o voto útil que não muda absolutamente nada, acorrer às promoções do Pingo Doce, não fazer contas, acreditar reiteradamente nos mesmos mentirosos, não querer aprender porque, em boa verdade, julga-se sempre que já se sabe tudo, estar convencido que no seu tempo é que era como se o seu tempo não fosse este tempo, olhar o passado com nostalgia, sentir o futuro com apreensão, crer na vida depois da morte sem estar minimamente preocupado com o que a antecedeu, desconfiar do cigano, acreditar na Sonae, olhar para o depois sem querer saber do antes, ter fraca memória, recalcar, não querer saber disso para nada enquanto isso corrói por dentro, acreditar na infalibilidade do papa, colocar trancas na porta depois da casa ter sido roubada, esperar das seguradoras que cumpram a sua função, comprar barato na fé de que não sairá caro, contar anedotas com asneiras, rir dos acidentes mais ou menos inofensivos, programas de apanhados, lixo televisivo, parar para ver o sinistro, os incêndios de verão, repetir até à náusea os mesmos gestos, os mesmos erros, achando que é tudo muito normal, pensar que as tradições dos outros são piores do que as nossas, considerar a gastronomia portuguesa a melhor do mundo sem nunca ter entrado, vá lá, num restaurante chinês, dizer mal dos produtos chineses sem olhar para as etiquetas made in da roupa que se traz vestida, ligar o carro para percorrer distâncias de 100 metros, deixar as luzes acesas, queixar-se da factura da EDP, ter pena dos desgraçadinhos enquanto se sonha com as férias do Cristiano Ronaldo nas Bahamas, comentar as tendências sexuais deste e daquele, fazer disso assunto, ser um pulha durante a semana, um santo à hora da hóstia, esperar sempre mais dos outros do que aquilo que se exige a si próprio, justificar os defeitos próprios com os defeitos alheios, espalhar pelo corpo tatuagens ridículas, querer estar in, isto é, como os tipos das revistas, copiar-lhes penteados, estilos, trajes, julgando-se muito original, dizer mal de quem faz enquanto se folheia as páginas do jornal sentado no sofá, sem se fazer nada, dizer desfolhar em vez de folhear, meter acento na palavra cu, estar contra o Acordo Ortográfico e praticar um português miserável, comprar sacos reutilizáveis para não os reutilizar, pensar que a diferença está na cópia, ou nem sequer pensar, sim, tradição é não pensar sequer, é meter o espírito crítico na gaveta porque, na realidade, dá uma trabalheira danada reflectir sobre o que quer que seja e, assim como assim, para que é que serve reflectir sobre o que quer que seja?, fica sempre tudo na mesma. 

sexta-feira, 26 de junho de 2015

LITERATURA EXPLICATIVA

Quiseram os deuses, ou os astros, ou porventura os homens, esses de quem Almada dizia serem apenas desprovidos de qualidades, que vivêssemos num país repleto de génios, embora emigrados. Não nos faltam heróis, mas a História prova que foram mais as perdas do que as conquistas. Temos os melhores futebolistas do mundo, ainda que nunca tenhamos vencido nada internacionalmente. Somos um país falido de cofres cheios, teorias não escasseiam, soluções rareiam. Somos também, e muito orgulhosamente, um país de poetas — que poucos lêem. E quem se atreverá a ler os leitores de poetas? Ainda para mais em tempos originais, tempos que nos oferecem sábios a cada esquina, capazes de teorias para tudo, capazes de um conhecimento inimaginável, sem nunca terem estudado nada, sem nunca terem mergulhado na dúvida, sem nunca terem sequer vacilado perante aqueles a quem oferecem maiorias absolutas sucessivas por neles observarem, muito provavelmente, o eco das suas próprias certezas: raramente se enganam, nunca têm dúvidas. Viva. Ironia das ironias, ninguém nos tem definido melhor do que os poetas. E não me refiro aos Lusíadas, nem à Mensagem. Refiro-me, por exemplo, a Ruy Belo, que numa entrevista que trago sempre de boa memória dizia: «É realmente uma desgraça ter nascido em Portugal. Sentimo-lo quando nos nasce um filho. Parte para a vida em desvantagem». Exemplo? «Lia Jorge Amado… Não admiro Jorge Amado. Da última vez que ele esteve em Lisboa tive a fraqueza de o conhecer e sabe o que ele me desejou? (…) Êxito, calcule. Não sabe como me ofendeu. Compreendi. Eu sei que, antes do lançamento de «Dona Flor e seus dois maridos», Jorge Amado já tinha assegurados mil e quinhentos contos… Êxito, em vida, em Portugal? Se toda a gente nos lesse, seriam nove milhões. Ora treze milhões nasciam há uns tempos por ano na China. Qualquer dia — utilizo números de D. Helder Câmara — serão 1500 milhões. «Crescei e multiplicai-vos». Os Estados Unidos consentirão?» Limpo e certeiro, mais estatística, menos estatística, ninguém se atreverá a negar a evidência. O diagnóstico do poeta mantém-se actual. A mesma entrevista aparece citada, a páginas tantas, no volume Literatura Explicativa — ensaios sobre Ruy Belo (Assírio & Alvim, Junho de 2015), organizado por Manaíra Aires Athayde, onde se coligem vinte e dois ensaios, de leitores tão distintos como Eduardo Lourenço e Vasco Graça Moura, Gastão Cruz e Rosa Maria Martelo, Paula Morão e J. B. Martinho… São textos essencialmente focados em aspectos inesgotáveis da obra, já que acerca do autor tudo o que havia para dizer foi dito em tempos por Joaquim Manuel Magalhães: «Tudo aquilo que não aconteceu a Ruy Belo mostra os mecanismos da merda em que nos fazem chafurdar» (Cf. Os Dois Crepúsculos). Os leitores de Ruy Belo encontrarão neste volume óptimas pistas para um aprofundamento do que a Obra Poética oferece, os não leitores poderão vislumbrar focos de interesse diversos mas complementares. Organizados em seis partes, estes ensaios reflectem, por exemplo, a relação da poesia com os lugares (destaco os textos de Ida Alves e Fernando J. B. Martinho, por neles ser problematizada com especial interesse a relação deste poeta com o mar e com as terras de Espanha), o trabalho de montagem que Belo dedicava incansavelmente aos seus livros (excelente, o ensaio de Vasco Graça Moura sobre A Margem da Alegria), a presença de temáticas clássicas e universais, como seja a temática do amor, numa poesia onde a morte é uma constante (Luís Mourão propõe um exercício heterodoxo cujo título fala por si: Do formato mulher em Ruy Belo), a dimensão de tradutor e ensaísta, contemplada por Joaquim Manuel Magalhães na organização do volume 3 da Obra Poética de Ruy Belo (Editorial presença, 1984), algumas leituras comparadas, reflexões sobre a modernidade, contrastes no interior da Obra, a recepção crítica, um belo exercício de close reading, levado a cabo por Gustavo Rubim, para o poema

A MISSÃO DAS FOLHAS

Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento


Não resisto à citação: «O poema, note-se, não define as folhas, não diz de que folhas ou tipo de folhas está a falar: na sua fala extremamente elíptica, qualquer folha, todas as folhas, se calhar até as folhas dos livros, têm a mesma missão: «definir o vento». Como se o poema inventasse aquilo que sabe, inventasse neste caso a missão que atribui às folhas ou inventasse para as folhas uma missão que antes do poema não se podia dizer que elas (já) tivessem. Está aí ao mesmo tempo a força e a fragilidade deste poema, quem sabe até se não será a força e a fragilidade de toda a poesia, de uma «arte tão pouco significativa no nosso tempo como a poesia», para repetir a frase bem conhecida do próprio Ruy Belo» (p. 254). Na última parte deste livro, que fecha com um inventário exaustivo da Fortuna Crítica de Ruy Belo (curiosa desmesura, que faz de Ruy Belo, sem dúvida, um poeta do séc. XXI), encontramos três ensaios dedicados à mais apontada, mas sempre conflituosa, problemática, complexa trindade beliana: deus, morte e arte/poesia. Ainda que não existam grandes revelações, nem entusiasmos desmesurados que ergam o ensaio acima da sobriedade académica, vale a pena passar os olhos por este volume. Mais que não seja para voltar a Ruy Belo, regresso que se quer constante como o das estações. Até que o mar nos leve a todos para o fundo do silêncio. 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

OBRA-PRIMA DE RELOJOARIA

   A poesia do século XX vive, em grande parte, do ponto de vista formal (mas sabemos que a forma não existe como coisa independente do objecto total que é o poema), da tensão entre dois pólos ou vectores da sua dinâmica criadora: liberdade e rigor. Ou, por outras palavras, desconstrução e construção.
   Paralelamente à noção, por vezes à reivindicação, de que, na poesia, todas as regras fossem abolidas e tudo passasse a ser possível, existiu, com alguma frequência, uma enorme vontade de recuperar modelos e normas, ou inventar um novo conjunto de regras, bem mais radicais, em certos casos, do que as que vinham da tradição clássica.
   Vemos também como, até aos nossos dias, os sonetos nunca deixaram de ocupar um lugar de relevo na poesia, constituindo mesmo desafios a novos usos da linguagem poética, dentro de limites de métrica e de rima, flexíveis ou rigidamente respeitados, de Pessoa a Sá-Carneiro, a Sena, Carlos de Oliveira e Ruy Belo.
   Ruy Belo não apenas revisitou, com frequência, o modelo do soneto, como, para um poema paradigmático, «Um dia não muito longe não muito perto», estabeleceu uma estrutura particularmente fechada, que ele próprio descreve no prefácio à segunda edição de Homem de Palavra[s]:
 
   Em «Um dia não muito longe não muito perto», meditada previsão da minha ambicionada morte, edifico o poema sobre as palavras-rima «farto», «perto», «hirto», «absorto», «surto», em que faço suceder as vogais a, e, i, o, u, para depois recoligir as palavras-rima em dois simples versos - «um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto / não muito perto desse tal surto» - e fazer rimar consonanticamente «absorto» com «morto» dentro, creio eu, de um clima de fluidez que não altera o mínimo que seja a naturalidade do que tinha para dizer (Belo, 1997: 29).
 
   É esse «clima de fluidez que não altera o mínimo que seja a naturalidade do que tinha para dizer» que faz deste poema uma obra-prima de relojoaria discursiva, a qual, obviamente, não impede, antes potencia, o fulgor poético.
 
Gastão Cruz, in Construção e Desconstrução em poemas longos de Ruy Belo, in Literatura Explicativa - ensaios sobre Ruy Belo, org. Manaíra Aires Athayde, Assírio & Alvim, Junho de 2015, pp. 98-99.
 
 
UM DIA NÃO MUITO LONGE NÃO MUITO PERTO
 
Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?
 
 
Ruy Belo, in Homem de Palavra[s], 5.ª edição, introdução de Margarida Braga Neves, Junho de 1997, Editorial Presença, p. 83.

terça-feira, 23 de junho de 2015

TWO MULES FOR SISTER SARA (1970)




   Don Siegel (n. 1912 – m. 1991) começou a filmar num período que podemos considerar a época dourada do western, algures entre 1940 e 1950. Na sua não muito extensa carreira enquanto realizador encontramos colaborações relevantes com algumas das figuras mais significativas do género. Já aqui referi Stranger on the Run (1967), concebido para o pequeno ecrã com um actor maior no centro das atenções: Henry Fonda. O último filme de John Wayne, The Shootist (1976), foi realizado por Siegel. Sublinhe-se, igualmente, a colaboração com Sam Peckinpah, autor de westerns que por certo influenciaram o estilo musculado do autor de Dirty Harry (1971) — uma das cinco obras que assinalam a estreita cooperação com Clint Eastwood. Os outros foram Coogan’s Bluff (1968), The Beguiled (1971), Escape from Alcatraz (1979) e este Two Mules for Sister Sara/Os Abutres Têm Fome (1970). Não admira que Eastwood tenha dedicado Unforgiven, para muitos a sua obra-prima, ao mestre, honra partilhada com Sergio Leone. De resto, quando Two Mules for Sister Sara estreou, o pistoleiro fetiche de Leone já tinha reservado o seu lugar no Olimpo da sétima arte com uma trilogia de sonho: Per un pugno di dollari (1964), Per qualche dollaro in più (1965) e Il Buono, Il Bruto, Il Cattivo (1966).
   Two Mules for Sister Sara tem muito que ver com os filmes de Leone, nomeadamente nos ambientes hispânicos e na música composta por Ennio Morricone. Mas não só. A história, concebida por Budd Boetticher — outro génio das cowboyadas— remete para argumentos como o de Vera Cruz, ou seja, para as aventuras dos sobreviventes da Confederação que, após a guerra civil, tentaram a sorte por terras mexicanas. Hogan, a personagem de Eastwood, ocupa aqui precisamente esse papel solitário e aventuroso do mercenário, num registo bem-disposto capaz de desdramatizar a situação em proveito do puro entretenimento. Pelo caminho, cruza-se com a Irmã Sara, uma impecável Shirley MacLaine, que acabou por ver este seu desempenho premiado no registo da comédia. Hogan salva Sara de uma tentativa de violação, Sara salvará Hogan de uma flecha atirada por índios tementes à cruz de Cristo. Aproximados num contexto de fuga, tornar-se-ão inseparáveis após a queda de disfarces que os obrigam ao refreio das paixões.
   Embora com propósitos diferentes, ambos servem, cada qual à sua maneira, as forças libertadoras de Benito Juárez contra a opressão francesa no território de Chihuahua. Já sem causas idealistas a motivarem-lhe as acções, Hogan pretende apenas metade do tesouro francês depositado numa fortaleza que tomará de assalto com os independentistas. O assalto à fortaleza é o grande momento do filme, sequência de planos onde o absurdo e o realismo se abraçam com uma determinação capaz de transformar a violência dos efeitos em tiradas de humor acinzentado. Não podemos perder de vista que estamos em 1970, os EU estão prestes a sair humilhados do Vietname, as suas ruas enchem-se de manifestações contra a guerra, o amor livre ganha terreno no submundo da contracultura, o absurdo existencial é uma bomba atómica no centro da sociedade norte-americana. Neste sentido, talvez a dimensão mais estimulante de um filme que começa por nos mostrar uma aranha a ser pisada pela pata de um cavalo seja, precisamente, essa dimensão onde a violência não se expõe a partir de pressupostos que sugerem uma vontade deliberada de chocar ou de provocar sensações básicas.
   Não estamos no campo da arte propagandística, pelo menos não tanto quanto parecemos estar no domínio da arte enquanto vector libertário de uma sociedade ameaçada pelo preconceito. A heterodoxia da freira interpretada por Shirley MacLaine emparceira com o lado aventureiro da personagem de Eastwood num contexto de pura diversão, acabando a própria acção por disfarçar a sua essência ao desviar do foco de interesse a densidade dramática e o lado trágico e intenso que, ao longo dos anos, foram fazendo do western um género altamente moral. Don Siegel desmistifica-o, a bem do seu público em particular e da história do cinema em geral. Estamos no campo da comédia de horrores, do entretenimento ainda não esvaziado de conteúdo (os surrealistas chamavam-lhe humor negro), assegurado por desempenhos intocáveis e garantido pelo saber acumulado dos grandes mestres: sejam eles o autor da história, o realizador, ou o homem que a musicou. Uma dúvida fica no ar: disfarçada de freira, Sara está do lado da causa independentista. Onde será que estavam as freiras propriamente ditas?

sexta-feira, 19 de junho de 2015

CRIMES DE ÓDIO NÃO EXCITAM

Li a notícia no Público, conformado com o silêncio que em torno da mesma leva a crer, não na banalização do mal, mas na indiferença selectiva do bem. Um branco de 21 anos entrou numa igreja em Charleston, equipado com uma arma que o pai lhe oferecera no dia do seu aniversário. Entrou e disse: estou aqui para matar negros. Matou um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove… Pessoas que estavam a ler e a analisar a Bíblia. Não estavam a desenhar cartoons na redacção de um jornal satírico francês, nem o criminoso era jihadista. Os jornais descrevem-no como “um branco de 21 anos que exibiu publicamente símbolos da supremacia branca”. Isto ocorreu nos EUA, de onde nos têm chegado testemunhos frequentes de violência policial com motivos inequivocamente racistas. No bastião da democracia é assim, por mais que Obama, o presidente preto, vocifere contra a poderosa, incólume e intocável indústria de armamento. Talvez devamos interrogar os comentadores “taliónicos” da actualidade sobre esta notícia desinteressante: será que os EU têm o que merecem? Será que os pretos estavam a pedi-las? Ou será que isto não tem interesse algum?

DOIS POEMAS DE HENRI MICHAUX

ONDE POUSAR A CABEÇA?

Um céu
um céu porque já não existe a terra,
sem uma asa, sem penugem, sem uma pena de pássaro, sem névoa

estritamente, unicamente céu
um céu porque já não existe a terra

O horror, o desespero, depois da explosão de grisu na cabeça
depois de não haver mais nada, depois de tudo derrubado, devastado, impossível a saída

Um céu glacialmente céu

Agora obstruído, fechado, atulhado de resíduos
céu por causa das dores de cabeça da terra
desprovida de céu

um céu porque já não existe sítio nenhum onde pousar a cabeça

Impedido, reduzido, escondido, cortado, desfeito, intermitente, irrespirável nas explosões e fumaradas
que já não serve para nada

um céu doravante irrecuperável


Henri Michaux, traduzido por Herberto Helder, in Doze Nós Numa Corda - Poemas Mudados Para Português por Herberto Helder, Assírio & Alvim , Dezembro de 1997, pp. 116-117.


***

ONDE POUSAR A CABEÇA?

Um céu
um céu porque a terra já não existe
sem uma asa, sem penugem, sem plumagem de pássaro, sem condensação

estritamente, unicamente céu
um céu porque a terra já não existe

Depois da explosão de grisu na cabeça, o horror, o desespero,
depois de já não haver mais nada, tudo devastado, metido a pique, sem saída

um céu glacialmente céu

Presentemente obstruído, bloqueado, atravancado de destroços;
céu por causa da enxaqueca da terra
desprovida de céu

um céu porque já não há sítio nenhum onde pousar a cabeça

Atravessado, encolhido, amolgado, roído, desfeito intermitente, irrespirável no meio das explosões e dos fumos
que não serve para nada

um céu doravante irrecuperável


Henri Michaux, traduzido por Margarida Vale de Gato, in Antologia, Relógio D'Água, Agosto de 1999, pp. 286-287.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

VIDA

Não será exagero considerar Paulo Leminski (n. 1944 – m. 1989) um furacão que passou pelas letras brasileiras, deixando em tão curtos 45 anos de vida um legado imenso. Resultado do cruzamento de um emigrante polaco com uma afro-brasileira, foi desde muito cedo acolhido pelos mestres do concretismo brasileiro (Haroldo de Campos e Décio Pignatari à cabeça). Casou, pela primeira vez, com apenas 17 anos, foi mestre de judo, frequentou e assimilou a cultura hippie em tempo real, perdeu um de três filhos, escreveu canções, poemas, o mais joyceano dos romances em língua portuguesa (aqui), traduziu imenso (dominava 6 línguas, entre elas o japonês), uma produção intensa e diversificada que a cirrose interrompeu precocemente. Da obra ensaística, destacam-se quatro textos biográficos publicados durante a década de 1980. Foram posteriormente reunidos num só volume com o título genérico, mas muito irónico, de Vida (a primeira edição data de 1990, a que me chegou, através de mão amiga, é a da Companhia das Letras, Setembro de 2013). A ideia da reunião foi do próprio Leminski, antes de falecer, sendo disso testemunho um depoimento de 24 de Junho de 1985 reproduzido à entrada desta edição. O comovido e comovente texto de apresentação da primeira edição é de Alice Ruiz S, viúva de Leminski: «Agora, relendo essas biografias, eu o reencontro». Daí a ironia do título. Sendo textos sobre outras vidas, estes textos revelam muito de quem os escreve, focam-se em interlocutores que de algum modo espelham aspectos determinantes da vida do biógrafo. Não o sendo, são, em certo sentido, a melhor das autobiografias. Relevante a escolha das personagens: Cruz e Sousa, Bashô, Jesus e Trótski, quatro dimensões fundamentais, quatro elementos, na vida de uma vida como foi a do autor de Um Milhão de Coisas: poesia, filosofia, religião, política. Meio preto, Leminski escolheu um poeta preto, o mais improvável dos poetas brasileiros, para intermediário de um discurso sobre o outro que não deixa de ser sobre o próprio: «Certas vidas são hiperbólicas» (p. 21), deixa logo de aviso. E mais adiante interroga-se sobre a poesia de Cruz e Sousa como todos nós podíamos interrogar-nos sobre a poesia de Paulo Leminski: «Afinal, que é a poesia senão discurso-desvio, mensagem-surpresa, que, essencialmente, contraria os trâmites legais da expressão, numa dada sociedade?» (p. 29) Atento aos detalhes, exegeta exímio, evita acumulações de factos concentrando esforços na descoberta do homem através da sua criação. Faz o mesmo com Bashô, o ex-samurai, o viandante, oferecendo ao leitor desprevenido uma maravilhosa lição sobre “haikai” e filosofia zen. Um parêntesis para a citação polémica:

   O conceito de santidade, porém, já não faz sentido, no Ocidente, desde o século XVIII, quando a vanguarda intelectual da burguesia materialista, feita à imagem e semelhança de suas mercadorias, fechou o grande negócio: matou Deus e deuses, neles abolindo, evidentemente, o rei, o bispo, o barão, as corporações, a Idade Média, papai e mamãe, enfim.
   O assassinato pôde ser pago em várias e módicas prestações mensais.
   Curiosamente, o ateísmo, essa postura cósmico-ideológica da burguesia iluminista (Beyle, Holbach, D’Alembert, Diderot, seus porta-vozes teóricos na França das Luzes), foi incorporado ao programa marxista, que se pretendeu representar, no plano dos conceitos, o universo das massas trabalhadoras, exatamente, a classe explorada pelo capital, essa abstração, e pela burguesia, sua detentora: Marx, um burguês branco, do século XIX.
   Se santos são aqueles que mantêm comunicação privilegiada com alguma transcendência, Deus ou deuses, com a morte destes, não há mais santos. Só que tem um problema. É que santos. E sempre haverá. Santos artistas, santos poetas, santos atletas, santos marxistas, inclusive.
   Que outro adjetivo calharia, por exemplo, para os bolcheviques de Outubro, esse Lênin, Trótski, Stálin, Kamenev, Zinóviev, Bukhárin, Rádek, Dzerjhinski, santos da Revolução, ratos de esgoto durante tantos anos, diante da polícia czarista, carregando acesa a chama de uma ideia, evangelhos, frases, diretrizes, coerências, frasespalavras-chave?
   Humanamente, só nos santos dá para ver os deuses: só nos radicais, dá pra ver a Ideia.

Isto sobre Bashô, gerando pontes para os senhores que se seguem: Jesus e Trótski. Está tudo ligado na cabeça de Leminski, é a Vida. E ainda que discordemos da sua concepção ideológica do ateísmo (explicitamente materialista, nega a santidade precisamente pela recusa do transcendente), impossível não colher nestas páginas 94-95 um forte estímulo à reflexão sobre os paradoxos da existência e as fragilidades do dogma. É uma escrita que testa resistências, experimenta ligações imprevisíveis e improváveis, fá-las parecer possíveis, mergulha no ADN das palavras para delas retirar e fazer sobressair a lógica do absurdo. Precisamente isso o que mais importa na história de Jesus e séquitos. Não a patranha do Jesus histórico, improvável e insustentável, mas o Jesus personagem, o revolucionário que mudou o mundo através do uso da palavra, através da parábola, o poeta dos poetas, as vibrações que perduram da sua passagem/aparição. Talvez Deus seja isso, diz. Talvez Deus seja poesia, o real absoluto. Visão romântica, por certo, mas coincidente com o mosaico fabuloso e inverosímil do jovem nazir. Especulativa, a vida do Jesus aqui retratado é como os “processos combinatórios codificados” da cabala. Conclui-se: Jesus adorava jogos de palavras. Talvez fosse um concretista antes do concretismo:

   Essa críptica escritura crística traduziu-se, no cristianismo primitivo, pelo modo como os primeiros cristãos, perseguidos, se identificavam e, esotericamente, se comunicavam: através do desenho de um peixe, querendo dizer, em grego, ikhtys = “peixe”.
   Talvez, haja aí a alusão à condição de pescadores dos primeiros apóstolos, discípulos diretos de Jesus.
   Na realidade, trata-se de um signo muito complexo, um logogrifo, acróstico, no qual as letras da palavra grega para “peixe” significam I (Iésus, “Jesus”), Kh (Khristós, “Cristo”), T (Theou, “de Deus”), Y (Yiós, “filho”) e S (Sóter, “Salvador”).
   O desenho de um peixe, assim, para um cristão dos primeiros tempos, das cidades gregas que bordavam o Mediterrâneo, significava e dizia Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador.


Estamos no campo dos doces talvez, a maravilha das suposições, «parábolas e trocadilhos», terreno fértil da poesia, dada a alusões, vozes segundas e terceiras sobre uma mesma imagem, sobre uma mesma voz da qual tudo e o seu contrário pode ser dito. Lá está o «discurso-desvio, mensagem-surpresa, que, essencialmente, contraria os trâmites legais da expressão, numa dada sociedade». Uma linguagem universal, portanto. Uma utopia, ameaçadora da normalidade vigente, do paradigma, como toda a utopia o é. Abrangente. Sedutora. Cativante. A linguagem da alma: «O dentro e o fora começam a desaparecer: exterior e interior tendem a se encontrar num ponto infinito. / Jesus está inventando a alma: o supersigno que todos somos “dentro”. Essa, talvez, foi a sua revolução, a mais imperceptível de todas. / Jesus ocupa um lugar muito especial na lista dos Cromwells, Robespierres, Dantons, Zapatas, Villas, Lênins, Trótskis, Mãos, Castros, Guevaras, Ho-Chi-Mihns, Samoras Machel» (p. 217). E chegamos a Trótski, o revolucionário apaixonado, a quem é dedicada a mais extensa das biografias. E também a mais convencional, porque colada a factos históricos, porque confinada à história da Rússia (recordemos as raízes polacas do autor), a um intelectual da Revolução caído em desgraça por inveja? ambição? traição? Judeu ucraniano, de seu verdadeiro nome Liev Davidovitch, Trótski é o músculo que faltava a esta Vida. Pintado nos defeitos como nas virtudes, serve para reforçar a dimensão material da passagem pela terra: «Se o conceito de santidade, significando autoentrega idealista a uma causa maior, ainda faz algum sentido, bem que poderíamos aplicá-lo a esses “santos da Revolução”, heróis dedicados à mais difícil das tarefas, a transformação radical do ordenamento sociopolítico-econômico de uma sociedade. / Os santos, claro, são cruéis. Suas virtudes nos colocam em xeque, eles estabelecem os limites, os recordes, os máximos do viver humano. A integridade do seu sacrifício zomba de nossa mediania» (p. 286). Talvez este elogio do sacrifício seja exagerado, mas não deixa de ser curiosa a aproximação que incute entre os planos material e ideológico. A Terra em busca do Céu, ou, como pretendiam os sovietes, o Céu na Terra. Guerra, crueldade, morte, execução, são, como se costuma dizer, o peito às balas, o corpo ao manifesto, o fim destinado dos mártires. A cruz, a errância, a perseguição, o exílio entre os seus ou à distância, é o que o futuro decreta para o inimigo das convenções. Nos quatro pilares do edifício Leminski é isso que vislumbramos, uma tendência para perturbar através da palavra (escrita, oral…), a palavra inquietadora e desassossegante da poesia. A palavra viva da Vida. Não admira que sejam estes os seus mestres.

EPIFANIAS #13

13

                                            [Dublin: na casa dos Sheehy, Belvedere
                                            Place]

Fallon — (enquanto ele passa) — Pediram-me que o felicitasse
            especialmente pelo seu desempenho.
Joyce — Obrigado.
Blake — (após uma pausa). . Nunca aconselhei ninguém
            a. . . Ó, vida terrível! . . . .
Joyce — Ah!
Blake — (entre baforadas de fumo) — claro. . .que
            parece bem, visto de fora. . .para
            aqueles que não sabem. . . .Mas se
            você souber. . . .é realmente terrível. Uma
            parca vela, sem. . .jantar, esquálido
            . . . .pobreza. Simplesmente não faz ideia. . . .


James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

PRÉMIO CAMÕES 2015


Uma referência a Hélia Correira aqui, a propósito do texto de apresentação de Poesia Grega de Álcman a Teócrito. Outra além, tendo como contraponto o cu da Gwyneth Paltrow. Uma leitura do romance Adoecer, aqui. Uma leitura do livro de poesia A Terceira Miséria, acolá. Estupidamente, nem uma referência aos contos da autora eu consegui vislumbrar nesta casa. Imperdoável. Parabéns pelo Camões, fica-lhe bem.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

EJACULAÇÃO DE BOFETADAS

Na apresentação de O Meu Corpo e Eu (Sistema Solar, Outubro de 2014), de René Crevel, Aníbal Fernandes afirma que «A bofetada era recorrente no azedume dos surrealistas franceses, central no seu código dos gestos correctores. Poder-se-ia escrever todo um texto sobre as bofetadas surrealistas coleccionando motivos e ocasiões em que A esbofeteou B, e B esbofeteou C. (Uma, tardia porque do Surrealismo do pós-guerra e já distante do seu período mais interventor, deu-a Breton à escritora Rachilde.)». Já na apresentação de As Irmãs Brontë, Filhas do Vento (Assírio & Alvim, Abril de 2005), do mesmo autor, Aníbal Fernandes tinha referido que após ter desempenhado um papel numa peça teatral do dadaísta Tristan Tzara, Crevel foi esbofeteado pelo surrealista Paul Éluard. Henri Michaux, que não era surrealista, foi mais longe e idealizou

A METRALHADORA DE BOFETADAS

   Foi em família, como seria de esperar, que realizei a metralhadora de bofetadas. Realizei-a sem a ter premeditado. De repente, a minha cólera projectou-se para fora da minha mão, como uma luva de vento que tivesse saído dela, como duas, três, quatro, dez luvas, luvas de eflúvios que, espasmodicamente, e a uma velocidade incrível, se precipitaram das minhas extremidades manuais, lançando-se para o alvo, para a cabeça odiosa que atingiram sem demora.
   Aquele espasmo repetido da mão era espantoso. Já não era, em verdade, uma bofetada, nem duas. Tenho uma natureza reservada e só me exalto no precipício da raiva.
   Verdadeira ejaculação de bofetadas, ejaculação em cascata e aos sobressaltos, a minha mão permanecia rigorosamente imóvel.
   Nesse dia, toquei a magia.
   Um ser sensível teria visto ali qualquer coisa. Aquela espécie de sombra eléctrica brotando espasmodicamente da extremidade da minha mão, congregada e reformando-se num instante.
   Para ser completamente franco, a prima que me tinha irritado acabava de abrir a porta e de sair quando, apercebendo-me bruscamente da vergonha da ofensa, respondi ao retardador com um voo de bofetadas que se escaparam realmente da minha mão.
   Tinha descoberto a metralhadora de bofetadas, se assim o posso dizer, mas é o termo mais adequado.
   Depois nunca mais pude ver aquela pretensiosa sem que, da minha mão, as bofetadas se lançassem como vespas ao seu encontro.
   Esta descoberta compensou-me pelas odiosas palavras que me humilharam. É por isso que às vezes recomendo a tolerância no seio da família.



Henri Michaux, in Antologia, tradução de Margarida Vale de Gato, Relógio d’Água, Agosto de 1999, pp. 182-183. 

"I'm sending my condolence to fear"

Sinto-me confuso, não entendo isso da hegemonia esmagadora do capitalismo e das liberdades universais. Pintaram-nos o estalinismo como um dogma burrocrático, o peso sufocante da organização impedindo o fluxo de ideias, castrando a criatividade, robotizando comportamentos com uma paranóica imposição de procedimentos, planificações, planos. A teoria desvinculada da prática, impondo-se à prática de cima para baixo. Sendo que quem estava por cima raramente tinha a prática, o conhecimento prático da realidade dos que estavam por baixo. Assim nos pintaram o estalinismo que ergueu a Rússia dos sovietes a potência mundial. Qual a diferença entre isto e a vida de tantas empresas privadas na actualidade? Intimidação, medo, humilhação pura e descarada, a teoria dos que estão por cima sendo forçada à realidade dos que estão por baixo sem qualquer conhecimento de causa, sem diálogo, sem debate, sem discussão, apenas a mesma e sempiterna mania persecutória de que quem não concorda comigo está contra mim. Paranóia, alienação. Quem disse que o estalinismo morreu? O estalinismo, pelo menos tal qual o pintam historiadores capitalistas, é o quotidiano do maravilhoso mundo privado de uma imensa fracção do mundo empresarial. Não se matam pessoas, atira-se-lhes com a tortura do desemprego. As purgas têm cambiantes inimagináveis, são correntes e estão entranhadas na mentalidade fascista de quem manda, de quem detém poder, por mínimo que seja, é uma coisa humana que vem do fundo recessivo e miserável da obediência cega a um ideal de perfeição: eficiência, sucesso, expectativas, competência. Inimiga do improviso e da espontaneidade, pretende automatizar a espontaneidade. Não se apercebe que uma espontaneidade automatizada deixa de ser espontânea, passa a ser um comportamento previsível que satisfaz apenas a nevrótica obsessão do avaliador, do recriminador, do burrocrata. Mais viva que nunca, essa tal metodologia estalinista que a historiografia oficial fixou é uma praga disseminada pelos canais da eficiência capitalista. Talvez um dia nos leve à lua. Ou à rua. Não sei. Que tudo isto vá acontecendo mais ou menos silenciosamente é sinal de uma apatia que não dignifica a democracia, uma democracia de mordaça na boca e mãos atadas. 

FRAGMENTOS DE UMA IDEIA BURGUESA


I

Visto a camisa. Depois distingo
o dia, usando um alfinete
sob a lomba das unhas.

Caiu-me já o tecto. Medi-o
nas paredes:
as quatro profecias.

Pasto: achado alado o logro
nos flancos de um polícia.

Rodas: de carro de poeta
de puta.

Medidas preventivas
até que chegue a noite.

II

Nasce um pensamento na garganta
como um filho. Enrodilho
o filho o pensamento
e a garganta.

Sofremos todos de moscas nos artelhos
eu deixei de ir à missa há mais de um ano
não brinco com os novos e farto os velhos
sacrilégios domingueiros, abortos
deste clima americano.

Não devia haver mais hermetismo
uma boca deslocando o sonho pela mão
e de repente nascermos assim todos
sem baptismo.

É que há uma origem frustrando nosso enlace
repentino com a morte e uma morte dividindo
nosso serviço
absurdo de ir andando.

Andando Armando a rima zune
e o pensamento afasta prejuízos
e só sorrisos são
a morte natural do entendimento.


Armando Silva Carvalho (n. 1938), in Lírica Consumível (1965). «De duas revistas coimbrãs, A Poesia Livre, um número, 1962, e Poemas Livres, três números, 1962-63, saíram: Manuel Alegre (...) e Fernando Assis Pacheco (...). Bom testemunho de uma emotividade e combatividade revolucionária é, nos anos 60, a do malogrado Daniel Filipe (...). Mais desconcertante do que a maioria destas vozes revela-se a de Armando Silva Carvalho (...) no modo como utiliza a associação aleatória, verbal ou narrativa, e consegue captar certa atmosfera lisboeta actual, certas raízes rurais ainda portuguesas, para, sarcasticamente, reduzir a farsa várias maneiras e discursos de actualidade cultural ou, geralmente, nacional» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). «O que distingue Armando da Silva Carvalho [sic], e faz a inequívoca força e qualidade da sua poesia, é um vocabulário desconcertante, entre o requintado e o pedestre, entre o enternecido e o violento, rodando permanentemente sobre si próprio, o que não é apenas um trabalho de som e ritmo, mas a transcrição da voz do mundo com tudo aquilo que tem de acidentado e pedregoso» (Eduardo Prado Coelho, Público, 2 de Julho de 2005).  

sábado, 13 de junho de 2015

DOMINGO


a Carlos Parreira

A distância entre mim e o que me circunda,
sempre a repercutir-se nos meus gestos,
aflige-me e dói-me.

Olho para aquela rua vagamente,
olho em volta de mim neste café longínquo,
e todas as coisas não significam coisa alguma
e toda a gente tem escrita no rosto
quanta traição da vida!

Ah, que não consigo ser fraterno e integrar-me
e ser despreocupado e ignorante
do meu, do nosso drama...

Bem quisera esquecer-me e enlear-me
nas coisas fúteis, ingenuamente vis,
que alimentam o destino desta gente.
Mas olho para mim e sinto-me diferente,
amachucado pela lucidez duma intuição
que todas as tentativas para imiscuir-me 
não conseguem mais do que exacerbar.

Consola-me a certeza de que tudo isto é fictício,
e não me custa a renúncia, em troca deste contemplar
calado, discreto mas tumultuoso...
Lá fora há agitação e há bulício.
Paira sobre as coisas a inutilidade,
o frágil, o efémero...

(Chego às vezes a pensar que tudo não seja mais que representação.)

Cansado do espectáculo,
abandono esta mesa de café
e vou passear ilusões impossíveis,
até que a noite venha e eu recolha
à solidão do meu quarto
— mãos vazias e coração intranquilo.


Luís Amaro (n. 1923), in Dádiva (1949). «Em traços gerais, digamos que a poética de Amaro se aproxima de alguns autores presencistas, num lirismo muitíssimo subjectivista e não especialmente modernista. Régio influenciou esse registo de confessionalismo umas vezes melancólico e outras quase agónico, mas encontramos também afinidades com a musicalidade minimalista de António Botto ou Saul Dias, com alguma ingenuidade humanista de Sebastião da Gama ou com o queixume musicalmente tecido de António Nobre. O vocabulário e o imaginário de Amaro é muito simples e reincidente: existe "a vida", quase sempre decepcionante e fugaz; a solidão, sofrida em segredo, embora um segredo anunciado em versos; a lassidão face à agitação e futilidade das multidões; a "alma", que é uma forma de ânsia, de vaga religiosidade, de rectidão ética; há a noite, que encerra todas as ilusões; há uma tristeza que às vezes é quase angústia adolescente; há um "caminho" difícil e contrariado nas suas intenções iniciais; há um "sonho", que é a vontade de um voo livre e sem horizontes; há uma aceitação estóica da vida toda, dos instantes todos; há uma camaradagem de acentos vagamente sociais; há uma esperança que nasce da inquietude; e há uma crença na poesia que tudo sustenta» (Pedro Mexia, in DN, 6.ª, 14 de Julho de 2006).