Se bem me recordo, comecei a lê-lo no «Já». Já em época de weblogs, reencontrei-o no Cristovao-de-Moura (só para dinossauros). Era um prazer lê-lo, pela inteligência, pela cultura, pelo domínio da palavra. Deixei aqui uma breve nota de leitura de Ouro e Cinza. Nos últimos anos publicou muito. Continuaremos a lê-lo.
sábado, 30 de abril de 2016
TÁXI
Tenho andado afastado do mundo, que é como quem diz nada de
telejornais, muito pouco de notícias, rádio no carro, pouco mais. O trabalho,
em tempo de férias, tem destas coisas. Sei, porém, que os taxistas se
manifestaram mais uma vez contra aquilo a que chamam concorrência desleal.
Nunca frequentei a concorrência desleal, já andei de táxi. Por vezes fui bem
atendido, noutras ocasiões menos bem atendido, não posso dizer que alguma vez
tenha sido vítima de um energúmeno ao volante. Até porque se fosse, faria o que
faço quando sou mal servido noutro sítio qualquer, afasta-mo, saio, vou-me
embora. O que eu acho espantoso é uma certa incoerência no discurso dos
paladinos do picaresco e da tradição, capazes de se esvaírem em lágrimas pela
mercearia que se transforma num qualquer antro de comida rápida, na livraria
metamorfoseada em hostel, no teatro que virou supermercado, e sem a mínima sensibilidade para com o bom e velho taxista de palito entre os dentes. Os táxis, para o
bem e para o mal, fazem parte da nossa paisagem humana e o serviço que prestam,
mesmo quando é mau, e presumo que o seja, como muitas vezes são maus os
serviços que nos prestam em tanto lado, permite-nos algumas garantias enquanto
utentes que outros serviços congéneres, à margem da lei, não consentem. Eu detestaria
ver os taxistas uberizados, até porque me irrita cada vez mais o tipo de
atendimento que nos querem impor (por vezes sinto até algum constrangimento por
não conseguir perceber se estou a ser assediado ou atendido). Quanto à Uber, só
posso falar pelo que me dizem. Quem gostou e quem não gostou. Eu acho que
não gostaria, embora para o caso isso seja irrelevante. Sobre o que tenho certezas
é bem mais simples: para negócios concorrentes, as mesmas condições, as mesmas
exigências. Até que tal não se verifique, estarei sempre no lado das mercearias e da tasca do bairro, contra o higienismo de uma paisagem cada vez mais insuportavelmente
asséptica.
quinta-feira, 28 de abril de 2016
TAXA DE ROLHA
Houve um tempo em que passeei pela cidade com outros a meu lado. Todos gabavam os atributos da ruína visível no centro histórico. O franchising ainda não tinha desfigurado o carácter do espaço urbano: eram íntegras as casas, apesar do estado avançado de decomposição. Entretanto, o granito escurecia, os telhados começavam a cair e as paredes eram tapadas por blocos de cimento. O lifting passou a ser moda: os excessos de gordura, a flacidez, as rugas, precisavam de ser limpos. Palácios mudavam-se em hotéis. Mercados em lojas gourmet. Cinemas em bingos. Tudo servia, tudo serviu, tudo serve para nos distrair: as velhas tascas expandiram o negócio. Do nada, autocarros de dois andares, vermelhos e amarelos, surgiram entre o trânsito infernal: hop on hop off. E as artérias alargaram-se e as esplanadas resgataram as esquinas. Nos quiosques deixaram de vender-se jornais: é a vida portuguesa, esse estado sempre novo, sempre velho, permanentemente a ruir. Vai daí: as torres começaram a ir abaixo. A talha, já sem ouro, carcomida pelas térmitas, resigna-se a idêntico destino: um amontoado de entulho, envolto em pó. Sensação estranha, esta, a de sentir-me turista aqui, onde a taxa de rolha é o preço da paisagem. Contudo, tudo parece bastante animado, tudo low cost.
Óscar Faria, in Bolor, Flauta de Luz - Boletim de Topografia, n.º 2, Março de 2014, pp. 11-13.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
A VIDA SEM PRINCÍPIOS
Com a edição de A Vida sem Princípios (Março de 2016, trad.
Luís Leitão), a Antígona dá continuidade a uma tradição que poderíamos apelidar
de Biblioteca Thoreau. Do mesmo autor já haviam sido publicados Walden ou a
vida nos bosques, Caminhada e A Desobediência Civil, em conjunto com Defesa de
John Brown. Na introdução de Luís Leitão anuncia-se ainda a publicação para
breve de Cores de Outono. São textos fundamentais para a compreensão do
pensamento de um dos mais relevantes filósofos norte-americanos, assim como da
influência por este exercida sobre movimentos ainda hoje activos e com obra
feita nos domínios da ecologia e da defesa dos direitos humanos. Henry David
Thoreau (n. 1817 – m. 1862) é sobretudo conhecido pela aventura relatada em
Walden, cerca de dois anos em rigoroso regime de auto-suficiência junto às
margens do lago que ofereceu o nome à obra. Publicado em 1854, Walden; or, Life
in the Woods inspirou movimentos ecologistas, literários, políticos e sociais,
enquanto testemunho vivo de um modo de vida mais próximo da Natureza, capaz de
resistir à servidão imposta pelo mundo industrializado, crítico da civilização ocidental
e respeitador da espiritualidade indígena. Life Without Principle, publicado postumamente
em 1863, é o texto base de uma conferência por diversas vezes proferida que se
inscreve no contexto de uma atitude subversora da sociedade de consumo. Ao
assistir à industrialização da América, Thoreau testemunha a emergência de um
capitalismo selvagem e despótico que arrastou, na sua vaga destruidora,
paisagens e povos, fauna e flora, culturas desprotegidas, ao mesmo tempo que
impôs ao mundo um modo de vida padronizado cuja principal característica é hoje
bem visível na escravidão que o mundo do trabalho alimenta e propaga. Aquilo a
que chama «trabalho absurdo» não é mais do que a usurpação diária de tempo e de
ócio àqueles que, dotados de pensamento, se vêem impossibilitados de exercê-lo
por andarem tão ocupados com a satisfação de frivolidades. Temos assim que à
endeusação do trabalho e das forças produtivas corresponde uma dessacralização
do saber, na medida em que este se vê substituído pela necessidade de
desenvolvimento de competências que já nada têm que ver com a actividade mental
de reflexão promovida pelo chamado «tempo livre». Ora, a um tempo livre corresponde
um tempo de liberdade, por oposição ao servilismo, à submissão e à escravidão forçadas
pelo tempo ocupado com a satisfação não do necessário, mas do supérfluo, ou
seja, de tudo quanto garanta a vaidade daquele que por possuir se julga
superior. O resultado desta mecânica social não é difícil de prever e está hoje
à vista de todos: uma total infantilização do pensamento, o espírito crítico e
a capacidade de diálogo substituídos pela tagarelice, pela ejaculação precoce
de opiniões sem fundamento, uma ineficaz banalização da informação, a qual só
por desplante ou ignorância podemos confundir com conhecimento. Em certo
sentido, A Vida sem Princípios antecipa a actualidade ao denunciar, de um modo
muito perspicaz, o império do supérfluo e do efémero que Lipovetsky desenvolveu
ou ao “pôr-nos de sobreaviso” quanto ao prejuízo de um putativo saber
alicerçado na acumulação vácua de pormenores. É o saber das redes, tão popular
entre as massas como outrora foram populares os jogos de gladiadores. Apesar de
tudo, sejamos capazes de rir deste sentido de progresso enquanto não
encontrarmos resposta para as dúvidas principais: «Podemos considerar este país
como a terra dos homens livres? O que significa estarmos libertos do jugo do
rei Jorge se continuamos escravos do rei Preconceito? O que significa nascer
livre e não viver livre? Qual é o valor de uma liberdade política que não seja
um meio de liberdade moral? De que nos vangloriamos: de uma liberdade para
sermos escravos ou de uma liberdade para sermos livres?» (pp. 54-55) Parece-nos
óbvio, hoje em dia, que o interesse de Henry David Thoreau se mantém por nos
obrigar, até pelo exemplo pessoal que nos deixou de herança, a ir um pouco mais
longe no sentido de uma autocrítica daquilo a que chamamos progresso e
civilização. A sua actualidade mantém-se não por sermos escravos mas pela
consciência que tantas vezes falta de que ainda não somos livres, e jamais o
seremos enquanto preferirmos entregar o desígnio das nossas vidas aos
tentáculos de um poder com uma tremenda capacidade de sedução, o poder das mãos
invisíveis que nos governam oferecendo-nos a ilusão de que somos nós, os
cidadãos, quem mais ordena. Como pode alguém ordenar o que quer que seja se nem
de si mesmo parece querer saber num mundo onde o entretenimento e o
sensacionalismo dita as regras, onde a razão é cada vez mais relegada para o
plano da inutilidade e a flor da pele comanda acções inconsequentes das quais,
ao fim e ao cabo, pouco mais logramos colher do que uma inacção sem horizonte
nem utopias?
terça-feira, 26 de abril de 2016
MEUS QUERIDOS BURROS
A história da literatura universal está pejada de burros,
havendo deles que falam como humanos ou simplesmente zurram como convém à
espécie. Certos asnos são parábolas, metamorfoses, encarnações absurdas,
críticas, estrambólicas do universo humano, à luz do que julgamos saber do
mundo animal. O burro é um animal simpático, muito mais do que o homem. Temos-lhe
um carinho especial, talvez pela ameaça de extinção, ou pela proximidade aos
mitos da nossa governabilidade. Não nasceu Jesus num palheiro, com um burrinho
ali ao lado? Mas também o olhamos, ao burro, como um animal teimoso. As fábulas
com burros mostram-nos amiúde como animais velhos, acabados, simpáticos mas
inúteis. São o que de mais parecido há connosco no mundo dos quadrúpedes. Podem
não ser muito inteligentes, mas trabalharam a vida inteira, carregaram penosos
fardos, foram obedientes apesar da teimosia e choram. Os burros choram, tal
como nós, choram um choro de fazer chorar, comovem-se com a perda dos donos,
são escravos fiéis, tão humanos. Não admira, por isso, que tantas vezes
apareçam na história da literatura universal no centro de maravilhosas
narrativas. Recordemos três brevíssimos exemplos. Luciano de Samósata (125-190
d.C) foi autor de cerca de oitenta obras, sendo uma das mais famosas a sátira
intitulada Eu, Lúcio — Memórias de um Burro (sirvo-me da tradução de Custódio
Magueijo, para a colecção Clássicos Inquérito, 1992). Neste texto corrosivo, cheio de
peripécias e de episódios picantes, o burro é um homem
metamorfoseado por acidente. «Luciano satiriza a superstição dos seus
contemporâneos», mas vai além disso. Lúcio é um jovem curioso que quer saber
mais do que lhe é devido, acabando transformado num burro depois de ter
convencido uma escrava a besuntá-lo com a loção de uma «dessas mulheres peritas
em artes mágicas». Em vez de se transformar numa bela ave, acaba
transformado num burro. São inúmeras as peripécias que se seguem após o
acidente, muitas delas derivadas do espanto que causava um burro comportar-se
como um ser humano. Roubado, comercializado, em fuga, adoptado, Lúcio é um
burro fogoso, incapaz, a espaços, de resistir às tentações mais baixas. Termina
na casa «dum sujeito muitíssimo rico, de Tessalonica», tornando-se famoso pelos
hábitos e práticas invulgares num burro, assim como pelas extraordinárias
habilidades: beber vinho, lutar e dançar e, maravilha das maravilhas, responder
não ou sim com a-propósito. Mas quem lhe conheceu a maior das habilidades foi
uma mulher estrangeira:
Como já era de noite e o nosso amo nos tivesse dado
licença de sair da sala de jantar, retirámo-nos para o quarto onde costumávamos
dormir, e demos com a mulher, que já tinha chegado há muito e estava à beira da
minha cama; tinham-lhe trazido uns travesseiros fofos e posto cobertores;
enfim, havia uma cama no chão, preparada para nós. Depois, os criados da mulher
foram dormir para um sítio próximo, em frente do quarto, enquanto ela acendia
uma candeia enorme, que brilhava como uma fogueira. Em seguida, despiu-se e,
assim toda nua, aproximou-se da candeia, deitou perfume de um frasquinho de
alabastro, untou-se com ele e perfumou-me também a mim, embebendo-me
especialmente o focinho; depois, beijou-me, pôs-se a falar comigo como se fosse
um seu amante homem, pegou-me pela arreata e puxou-me para a cama no chão. E eu,
que aliás não precisava que ninguém me convidasse para a função, que, além
disso, já estava um tanto ou quanto «pingado» com grande quantidade de vinho
velho, e, para mais, excitado pela esfregadela do perfume, e, finalmente,
perante uma «garota» toda boa, baixo-me… mas o caso é que estava seriamente
embaraçado com a forma de «montar» a criatura. É que, realmente, desde que
estava transformado em burro, nunca me acontecera ter um contacto habitual com
burros, e muito menos ter relações íntimas com uma burra. Além disso, uma coisa
me causava um receio nada pequeno: que a mulher, por falta de «espaço», ficasse
desfeita e eu viesse a ser exemplarmente punido por homicídio. Não sabia eu que
esse era um receio sem fundamento, pois a mulher provocava-me com muitos
beijos, por sinal bem eróticos; e assim que viu que eu já não tinha mão em mim,
deita-se a meu lado como se eu fosse um homem, abraça-me, introduz a «coisa» e
recebe-a em pleno. E eu, coitado, ainda receoso, tentava retirar-me suavemente,
mas a fulana atracou-se-me com tanta força ao lombo, que eu não podia
retrair-me: ela mesma ia atrás do «fugitivo». Quando, enfim, me convenci
completamente a colaborar no prazer e na satisfação da mulher, a partir daí,
comecei a «aviá-la» sem meias medidas e tendo para comigo que não ficava a
dever nada ao amante de Pasífae. Mas o facto é que a mulher se revelou tão
propensa às coisas do amor e tão insaciável nos prazeres do coito, que gastou
toda a noite comigo.
Que não cause alarme a cena zoófila, naquele tempo
era vulgar os homens transformarem-se em burros para satisfazerem apetites de
mulheres estrangeiras. Resta dizer que ao apresentar-se já sob a forma humana à
mesma mulher, Lúcio não teve a mesma sorte. Tal era o amor pelos animais nesses
tempos idos. Também de pouca fortuna foi a história do burro contada por Padre
Camões (n. ? – m. 1825) em Testamento de D. Burro pai dos anos. Escrito em
verso tosco, este testamento é um «ajuste de contas (atrasadas e recentes) com
a hipocrisia, a maldade, a farsa pública local e colectivamente silenciada»
(Aníbal Fernandes). O local é os Açores, as belas ilhas dos Açores, onde o Grão
Jumento padeceu das maiores priva e provações. Com pouco mais de quarenta anos,
não são muitos os bens de que possui para deixar em testamento. Ainda assim,
sem herdeiros directos, apesar dos doze casamentos, sente-se na obrigação de
outorgar por inúmeros testamenteiros as mais diversas partes do seu corpo. Deste
modo, para humilíssima ideia do que por aqui vai:
A José Paciente e a Francisco Dente
Deixo em legado pio o meu pendente,
Uma jóia de tanta estimação
Que render não pode menos de um tostão!
Este, mando, repartam igualmente
Com Manuel Margarida, meu parente,
Pois a este já não tenho que deixar,
Só se o que ficava quando ei ia cagar.
E deixa as tripas, o fígado e o coração, deixa gamelões
de urina, o olho do cu, os olhos e o licor que lhe corria do pendente, e deixa
a língua, bem afiada, visto está, e tudo o mais quanto lhe resta até nada mais
lhe sobrar:
A meu primo Manuel Furtado Sousa
Desejava deixar-lhe alguma cousa
Mas, como os meus bens findos são,
Só lhe deixo um cagalhão.
É neste tom que o mais miserável e desgraçado dos asnos
distribui pelas mais altas e dignas personalidades do arquipélago as suas
posses, não sendo de espantar que à falta de outras se tenha dignado a
distribuir o que lhe restava de seu: o belo corpinho. A consciência, como seria
de esperar em situações análogas, foi ele deixar a um tribunal que o encarcerou
numa cela da Ilha Terceira. Muito distinta destas, é a história do último dos
burros que aqui trazemos. Platero era mesmo burro, e o seu dono, um dos mais injustamente esquecidos Prémio Nobel da Literatura (1956), dedicou-lhe a obra Platero y yo (1914, primeira edição completa em 1917). São pequenas prosas memoráveis sobre a relação de amizade entre um homem e o seu animal de estimação predilecto, capazes de comover o leitor ao mesmo tempo que desenham uma paisagem da ruralidade que transcende uma percepção imediata do espaço geográfico. Numa edição crítica da obra, Jorge Urrutia alerta-nos para as leituras injustas a que foi sujeito Platero y yo. E diz-nos que se trata de um dos textos mais belos da literatura espanhola, dorido e doloroso, testemunho lírico da desarmonia do mundo. Pelo meio encontramos também exercícios de uma delicada ironia:
ASNOGRAFIA
Leio num dicionário: «Asnografia: s. f.: diz-se, ironicamente, da descrição do asno».
Pobre asno! Tão bondoso, tão nobre, tão inteligente como és! Ironicamente... Porquê? Nem uma descrição séria mereces tu, cuja descrição exacta seria um conto de Primavera? Se ao homem que é bom deveriam chamar asno! Se ao asno que é mau deveriam chamar homem! Ironicamente... De ti, tão intelectual, amigo dos velhos e das crianças, dos regatos e das borboletas, do sol e dos cães, das flores e da lua, paciente e reflexivo, melancólico e amável, Marco Aurélio dos prados...
Platero, que sem dúvida compreende, olha-me fixamente com seus grandes olhos brilhantes, de uma serena firmeza, onde o sol brilha, diminuto e refulgente, num breve e convexo firmamento negro. Ai! Se a sua peluda cabeçorra idílica soubesse que eu lhe faço justiça, que eu sou melhor que esses homens que escrevem Dicionários, quase tão bom como ele!
E escrevi à margem do livro: «Asnografia: s. f.: deve dizer-se, com ironia, claro está!, da descrição do homem imbecil que escreve dicionários».
Não é certo que Juan Ramón Jimenez tenha, de facto, escrito o que diz ter escrito na margem do livro. Mas escrevemos nós. Perante os exemplos acima referidos, como é possível usarmos ainda hoje o burro para classificar a falta de inteligência? De onde poderão vir as orelhas de burro senão da ignorância destes textos? Nem Lúcio nem Platero, nem mesmo o desgraçado Grão Jumento, participam da estupidez a que confinamos o asno com a nossa ignorância. Somos injustos para com os burros, uma injustiça que facilmente se superaria passássemos a chamar aos homens apenas o que eles são: homens.
sexta-feira, 22 de abril de 2016
PRINCE (1958-2016)
15 de Agosto de 1993. Aquele que outrora dava pelo nome de
Prince, apresentava-se com um símbolo no lugar do nome no então Estádio de
Alvalade. O primeiro parágrafo no verso do bilhete é revelador de um tempo:
«Estão totalmente proibidas as gravações áudio ou vídeo. Será igualmente
interdito o uso de máquinas fotográficas e flash». E ainda que houvesse quem
arriscasse uma máquina no recinto, estávamos longe do cenário deprimente que
hoje se verifica em espectáculos congéneres. Era possível espreitar o palco sem
ter de saltar por cima de braços erguidos empunhando telemóveis de todos os
feitios. Perdoem-me a nostalgia.
No entanto, a planta do estádio está incorrecta. O palco não
ficou no topo norte, mas sim numa das laterais, de frente para a tribuna de
honra. Andei por lá, ao preço de 5.000$00, com The Love Symbol Album na
bagagem. Sexy M.F. era o êxito do momento, apesar do magnífico registo do ano
precedente, para mim um dos melhores realizados com a The New Power Generation:
Diamonds and Pearls. Escutem-se temas como Cream, Gett Off ou essa obra-prima da
soul music intitulada Money Don’t Matter 2 Night.
Para trás ficavam baladas inesquecíveis como Purple Rain (para
a qual Stina Nordenstam ofereceu uma estranha, mas bela, versão) ou aquele
Kiss, do álbum Parade (1986), que punha toda a gente a dançar onde quer que
fosse ouvido. Olha-se para o legado de Prince e é difícil de acreditar, tanta é a
boa música que nos deixa. Dezenas de álbuns que parecem não ter fim, em alguém
que parte deste mundo muito mais precocemente do que seria de supor.
É sintomático da despedida de um certo tempo que os autores
de Let’s Dance e Kiss desapareçam no mesmo ano, gente cuja obra nos fazia dançar
e divertir em espaços que hoje rareiam. Quer pela qualidade da música que
exibiam, quer pelo ambiente que geravam. Estamos definitivamente a despedir-nos da banda sonora da nossa adolescência. Os anos 80, esses pirosos anos 80, vagarosamente
enterrados em memórias dúbias. Nesse tempo ora findo, a gente comprava os
discos e ouvia-os de uma ponta à outra, líamos e traduzíamos as letras, sabíamos
as canções de cor e os alinhamentos. Isso acabou, isso está a acabar, isso vai
acabando. Prossiga o espectáculo sobre novas rodas.
quarta-feira, 20 de abril de 2016
LETRA ABERTA
Como interpretar a obra de Herberto Helder posterior a
Servidões (2013)? Se esse livro marcava a descontinuidade do poema iniciado em
1958, parecendo haver nele a pretensão de um encerramento ou, se preferirem, o
fecho do ciclo, os livros seguintes atiraram a poesia do poeta obscuro para
fora do seu território fundador. Tanto A Morte sem Mestre (2014) como Poemas
Canhotos (2015) podem ser vistos como testamentos onde se anuncia o fim do
corpo físico ao qual, para todos os efeitos, esteve ligada a consumação da
palavra poética. Se há dimensão característica desta obra é, precisamente, ser
ela um corpo muito próprio a desenvolver-se a partir de um nome que a
identifica. Não admira, por isso, que sobre o nome de Herberto tenham sido
erguidos, ao longo dos anos, altos edifícios hermenêuticos, variando pouco,
refira-se, da noção de poeta órfico sugerida por António Ramos Rosa e posteriormente
acrescentada por Joaquim Manuel Magalhães com inusitados elogios a uma
obscuridade linguística cultivada até ao último fôlego. Ora, o que o livro
póstumo Letra Aberta (Março de 2016) vem acrescentar, tal como já havia sucedido com
os dois títulos anteriores, é uma aclaração da ideia que o poeta tem de si
próprio enquanto autor. Nunca como nestes três livros a condição do poeta Herberto Helder
esteve tão presente nos seus poemas, havendo neles, até, uma obsessão com o eu
que vulgariza o discurso poético e cobre aquele que esculpe a palavra com a
poeira das coisas vulgares, quotidianas, incluindo as da mundanidade
literária. Que são livros de despedida, isso é óbvio. Mas são também, e
sobretudo, livros onde o poeta se pensa a si próprio sem pruridos nem
autocomplacência. Em certo sentido, lemo-los como se estivéssemos a ler um
diário, de tal modo eles encurtam a distância entre aquele que lê — «leitor
sempre inimigo» (p. 55) — e aquele que escreve: «de um certo ponto de vista, /
ou mesmo sem ponto de vista nenhum, / a verdade é que eu estou melhor agora /
com 84 anos: / primeiro, como me acham muito muito velho, pensam que sou
inofensivo, e não me chateiam, / segundo, deduzido do anterior, não posso ser um
rival perigoso, / terceiro estou à partida fora de combate, / quarto, já não
fodo, / quinto, em linha recta, nem é preciso perder tempo comigo, sou doce,
sweet, frágil, etéreo, gasoso / e é esse exactamente o erro deles / — duro duro
duro / quanto mais velho mais duro é o corno» (p. 59). Neste que presumimos ser
um dos últimos poemas do autor, um dos inéditos escolhidos por Olga Lima para
integrarem Letra Aberta, assistimos a uma curiosa enumeração onde a verdade se
afirma (confessa?) para além dos pontos de vista, uma verdade que advém de um
olhar do próprio sobre si mesmo, do que ele julga ser a forma como os outros o
olham e, por fim, do modo como ele olha para os outros. Não é por acaso que
falamos em confissão, dada a alusão a um papa no final do poema. Este registo
confessional, por assim dizer, não sendo inteiramente novo, coloca em
perspectiva já não o mundo nem a totalidade das coisas, já não o nome ou a
palavra enquanto núcleo onde o poeta pode representar, fechar, cerrar o mundo,
mas a própria existência na sua situação mais limite, a situação daquele que se
encontra face ao abismo, perante a eminência da morte, a desconhecida morte. Em
congruência, o ateu confesso escreve: «que o perdão sem piedade, / não pelos
actos, mas / pelas palavras, / nunca me será dado, e rejubilo, / porque o
perdão enfim veria os nomes anulados / pelo falso entendimento / coisa a coisa /
— e eu não quero mais perdões de nada» (p. 13). A morte, já se disse, parece
ser o tema por excelência destes poemas, mas não o é tanto enquanto objecto de
reflexão como o é enquanto motivo, estímulo, impulso para um olhar sobre o
próprio. A fotografia do poeta que acompanha os dois últimos livros é
feliz por anunciar uma espécie de reflexo, o poeta a ver-se ao espelho da
palavra com poemas de uma lucidez desarmante dos quais foi rasurada qualquer pretensão
cosmogónica. A mínima gente, o povo, a gente bárbara, o jornal, as pessoas, a
pátria, os outros, entram no poema enquanto contraponto a um Eu que se afasta,
que se isola, que mergulha na escrita para nos oferecer biograficamente o seu maior legado, uma
«linha de silêncio»: «com três dedos da mão escreves tudo o que sabes / mas
precisas da mão inteira para assinar esse tão pouco sabido / com um dedo apenas
escondes a linha já acabada / com a mão inteira assassinas / a pobre criatura /
com apenas essa mão única ressalvas o teu nome / demoras a mão usada para não
salvar coisa nenhuma / e a mesma já exausta para salvar a mão que não te salva
/ e não precisas de nada para te salvares do mundo: / apenas saltar no abismo /
como a criança que salta à corda de ar» (p. 32).
terça-feira, 19 de abril de 2016
ESSE EST PERCIPI
Nas peças
radiofónicas Words and Music e Cascando, o impulso partia do «director de cena»
Croak ou do Abridor; em Dias Felizes era a campainha estridente que despertava
Winnie e lhe ordenava que dormisse no final do dia. Até agora, os estímulos
pessoais são, por conseguinte, processos mecânicos — sem um significado próprio que
informe sobre o papel da aplicação do estímulo.
Já com o feixe de luz em
Play o caso é diferente: aqui o estímulo reside na fala, mais precisamente, no
facto da pessoa em questão ser repentinamente vista (e permanecer no escuro
antes e depois). Este «ser visto» foi em seguida o único impulso dramatúrgico
para o Film de Beckett. O herói acredita, sem dúvida, na frase filosófica do
empírico irlandês George Berkeley: Esse est percipi («Ser é ser percebido») e
esforça-se por se reger pela mesma. No argumento escrito de Film, Beckett
conjectura, assim, de uma forma aparentemente bastante filosófica:
Se todas as percepções de
outrem — animais, humanas e divinas — forem guardadas, detém-se a
autopercepção. A procura do não-ser através da fuga à percepção dos outros
anula a inevitabilidade da autopercepção.
Estas frases não têm,
contudo, de forma alguma, qualquer intenção filosófica, mas servem apenas para
descrever a situação de cena:
O que acima se citou não pretende ser detentor da verdade e
é somente encarado como um auxiliar da estrutura dramática.
Para representar o
protagonista desta situação, ele será repartido em objecto (O) e olho (E).
Só no fim do filme se
torna claro que o perseguido não é outro senão o próprio protagonista.
E percebe O até ao final
do filme por detrás de um ângulo que não tem mais do que 45º. Princípio básico:
O cai ins percipi = só tem medo de ser percebido se este ângulo aumentar.
(…)
Beckett traça com igual
precisão todas as restantes cenas pantomímicas deste filme mudo (com Buster
Keaton no papel principal) e demonstra uma vez mais as suas capacidades de
exactidão de espaço e tempo: houve um único pormenor cénico impossível de
realizar a contento e que teve de ser retirado.
Klaus Birkenhauer, in Beckett,
trad. Maria Emília Ferros Moura, Círculo de Leitores, Dezembro de 1999,
pp. 167-168.
ASSIM ASSIM
Pela minha mãe, pelo meu pai, pela minha tia, pelo meu primo
que está na Austrália, pelo Basquiat, o meu cão, pelas minhas filhas e pelo
hamster, pelo Dr. Caramba, graças a quem me libertei de todos os vícios, pela
Quitéria, a cigana aqui do bairro, que me faz relativizar as tragédias do
mundo, por todas as árvores abatidas e pelos ursos polares, pelo Leonardo
DiCaprio que ganhou o Oscar para melhor actor depois de ter sido violado por um
urso, pelo bom Luís Miguel Militão, convertido ao evangelismo pela mão do padre
Frederico, pelos refugiados de Guantánamo e pelas vítimas do Panama Papers, pelos
meus amigos no Facebook, por Deus Nosso Senhor Meu Pai e Sua Santa Mãe que me
libertaram do onanismo, mais ou menos, pelo Rimbaud esteja onde estiver e pelo
cubo mágico, eu voto, eu voto, eu voto, se me deixarem falar, isto é, se me
deixarem falar, ou seja, eu voto, eu voto assim assim.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
SE FOR CIGANO, NÃO PEÇA TRABALHO
Esperei dois dias e praticamente nada. Nem comentários
nem manifestações de repulsa, nem sequer a mínima indignação. As pessoas
indignam-se muito frequentemente pelas mais variadas razões. Da linguagem
inclusiva à protecção dos animais, do humor ao terrorismo, o que não falta é
razões fortes para as pessoas se indignarem, revoltarem, esgotarem todo o calão
de que dispõem insultando A, B ou C que lhes mereça o maior desprezo do mundo.
Divirto-me com os indignados radicais, sobretudo com aqueles que olham para o
mundo por uma janela previamente preparada para manifestações, ou até um certo exibicionismo,
de raiva. Mas esperei dois dias e nada. Talvez o Brasil transformado num circo
deplorável ou o mediterrâneo transformado numa vala comum a céu aberto sejam
mais interessantes para os indignados deste mundo, talvez o tema não mereça
reparos. Mas enfim, cá vai o alerta. Em Beja, um rapaz de etnia cigana foi
atingido na cara quando pedia trabalho para a apanha da azeitona. Foi alvejado
por um agente da PSP que depois de o atingir na cara, levando-lhe parte da
dentadura, rematou o gesto com a seguinte sentença: “Tenho um ódio aos ciganos,
e à vossa raça, que se pudesse matava-os a todos”. O Tribunal de Beja condenou
o agente com uma pena suspensa de um ano e três meses de prisão por ofensa à
integridade física qualificada, acrescida de uma indemnização de dez mil euros.
Enfim, talvez se tenha feito justiça. Afinal a vítima era um cigano. O resto da notícia vem aqui, se é que estão interessados no assunto.
BRASIL
Vou abrir uma excepção. Tinha prometido a mim mesmo afastar-me destas coisas que me agitam os nervos. Mas vou abrir uma excepção. O que se passou ontem no Brasil é do domínio da surrealidade. Custa acreditar que o séc. XX aconteceu. Parece que ninguém aprendeu nada, parece que a História não serve para nada. Não levo a mal os estúpidos e os ignorantes, como é óbvio. Não são obrigados a ver um pouco além da sua ignorância. De resto, tudo isto está em sintonia com o maravilhoso mundo dos BB, da MTV, do Facebook e afins. Isto nem é uma questão de direita/esquerda. Vejo gente de direita a manifestar o mesmo asco que aqui estou a manifestar, e que outrora manifestei relativamente ao populismo barato de Chávez na Venezuela. Isto é de outra dimensão, é um dever, uma obrigação ontológica de desconfiar da humanidade e das suas supostas virtudes. Olha-se para a Europa dos refugiados e para o Brasil do "impeachment" e percebe-se a extrema relatividade daquilo a que chamamos evolução e, por consequência, progresso. Mas tenho uma teoria sobre isto, uma teoria muito portuguesa. No meio onde nasci, cresci e vou sobrevivendo sempre olhei com nojo a complacência cega dos pequeninos para com os grandes, a forma curvada como se pedem e aceitam cunhas, a corrupção medíocre dos pobres que, de certo modo, vislumbram nos ricos uma espécie de preceptores de um tipo de esperteza e de uma forma de desenrasque que escapa à maioria mas é sempre apetecível. Fazem-se de vítimas para não terem de admitir o sistema porco de que são cúmplices. Se podem, fogem aos impostos como os grandes; em podendo, passam à frente na fila como os grandes; tenham oportunidade, e roubarão como os grandes; dêem-lhes corda, e aproveitam-se do sistema como todos os outros (quase todos). Há sempre um cigano por perto para levar com as culpas. Um cigano ou um imigrante. Esses chulos.
domingo, 17 de abril de 2016
O MARXISMO DE PIO XII
Um amigo no Facebook chamou "piroseira marxista" às
preocupações do Bloco de Esquerda com a linguagem inclusiva. Ora, bastou ter o
Google à mão para logo encontrar uma marxista pirosa com as mesmas
preocupações. Chama-se Assunção Esteves. Pode ser pirosa, mas por certo não
será marxista. Sucede que para um católico fervoroso como esse meu amigo no
Facebook a iniciativa que partiu “de uma ala dos movimentos feministas com inspiração
marxista” é típica de uma praga cujo vírus tudo penetra, incluindo os muros
aparentemente intransponíveis da boa ICAR. Fica justificado, então, que o
actual Papa se dirija aos seus fiéis usando a fórmula «Queridos irmãos e irmãs» (é só seguir o link para comprovar tamanho pecado). Registe-se o facto: o actual Papa foi assaltado pelo vírus feminista
das alas marxistas. Não há imunidade que resista a tamanho vírus. O Papa não é infalível, o que significa que é falível. Será mesmo Papa? E ainda que outro
amigo, também ele católico, lembre que a fórmula em questão vem de Pio XII,
esse “bom Papa”, nada demoverá o nosso comum amigo católico fervoroso.
Causa-lhe “irritação” o uso de “todos e todas”, seja por quem for. Para as
irritações tem bons remédios, o próprio o lembra. Mas que não lhes associe o
marxismo. Muito menos quando é piroso. Isso são pruridos lá dele com os quais
o pobre Marx nada tem que ver. Ou então, andamos todos enganados e, vai-se a
ver, Pio XII foi a fonte de inspiração dos movimentos feministas de tendência
marxista pirosa. Pio XII, esse piroso, esse feminista, esse marxista!
sábado, 16 de abril de 2016
MAR VIVO
A Jorge Amado
Sou de todos os mares, de todos os profundos oceanos do mundo.
Sou de todos os portos, do barulho das suas docas,
de todos os enormes navios fundeados nos cais
e dos que estão encalhados nos bancos de areia
e daqueles que repousam nos areais dourados
do fundo, sangrento de corais, dos oceanos.
Sou de todas as grandes rotas de navegação
que abrem rasgões de brancura à flor das águas verdes
e que são os caminhos que levam os homens do mar
para lá e para cá, nos seus destinos de nascerem e morrerem nas águas.
Sou de todos os faróis que há nas noites das costas
indicando, nos segundos cronometrados da sua luz,
a traição dos continentes, das ilhas e dos bancos de areia,
desses faróis que são como foguetes de poeira de luz
e tão breves como os gloriosos sonhos dos homens...
Sou de todos os pequenos barcos que partem com confiança,
tão frágeis como mãos de meninos e esperanças de adultos,
para expedições puramente aventurosas e românticas,
com saudades de terra e uma esperança infinita
pintada nas proas audazes e firmes...
Sou de toda a extraordinária força da gente marítima
que se entrega aos abismos do mar com a sinceridade
de quem se dá ao único destino possível da terra
e que geme há séculos o poder dessa tentação irresistível
que os empurra e os faz rolar por cima das ondas.
Sou de todos os voos de gaivotas e das suas travessias
quase incompreensíveis aos homens da terra tão lentos
e tão distantes do entendimento das asas duma gaivota.
Sou de todas as nuvens do mar que mergulham nas águas
e lhe dão a cor da sua cor na mais absoluta e total das posses.
Ah! como eu sou de todas as tempestades e de todas as tragédias do mar!
Esta identidade é sincera e não foi arranjada
para compor com originalidade este poema
que nem sei se algum dia será lido.
Vem-me ansiosamente à flor da alma,
tão deplorável e fatalmente perdida
em todas estas mil e uma coisas que cheiram
tão terrivelmente a terra calcinada e pobre.
Sim, o meu grande destino — era o mar:
ir com os pescadores à terra nova
lutar com as tempestades e com as brumas do norte,
conhecer todas as enseadas, todas as baías, todos os portos,
e tratar todos os mares como velhos camaradas do café.
Usar uma camisola aos quadrados pretos e brancos,
um grande chapéu de oleado e uma fala arrastada e lenta
como o marulho das águas quebradas nos diques,
e, nos intervalos das viagens,
embebedar-me nas tabernas dos portos
cantando as velhas canções marítimas.
Há lá nada mais belo do que ser marinheiro!
E então ser o homem do leme?
Isto de abrir uma rota com as curvas que apetecer,
criar os desvios que a imaginação for inventando,
sentir profundamente as distâncias vencidas com a ajuda dos ventos,
traçar os próprios caminhos sem os limites impostos
pelas fronteiras e pelos guardas das fronteiras
e pelos direitos internacionais dos códigos e das teorias!
Que coisa tão bela para quem encontra na terra
sempre os caminhos abertos — mas só esses —
com os letreiros escritos só numa língua
e que indicam todos a mesma eterna cidade
com o seu meridiano estabelecido e irrevogável!
Há lá nada mais belo do que ser marinheiro!
Contar aos filhos as peripécias das viagens de anos,
dizer-lhes as claridades desses luares atlânticos
insuflando-se na água e iluminando os mundos
dos peixes, dos corais, das sereias e os palácios
dos milionários reis dos oceanos,
as histórias das suas dinastias e as tragédias
das suas eternas lutas com a flor das águas!
Evocar-se a sinfonia dos naufrágios
e as últimas palavras dos mortos,
e os seus corpos inchados cobertos de algas cor de garrafa
entregues a todo o delírio animal
dos milhares de peixes de escamas prateadas.
Há lá nada mais belo do que ser marinheiro!
Por isso a minha pátria é o mar
e tudo o que ficou dito neste poema,
e tudo o que não sei dizer mas que me canta no sangue
e me impele cada vez mais para junto do cais,
como o vento arrasta os barcos para o largo
entoando nas suas velas triangulares
o mundo da sua milenária ânsia de espaço.
João Menéres de Campos (n. 1912 - m. 1988), in Mar Vivo (1939). Nasceu no Rio de Janeiro, onde o pai exercia actividade comercial. Mudou-se para Vila Real com apenas um ano, aí se fixando para o resto da vida. Estudou Direito em Coimbra e Lisboa, colaborando com a Presença nos últimos números da primeira série (ano de 1938).
sexta-feira, 15 de abril de 2016
«Talvez tivesse precisado de outros amores. Mas o amor não é coisa que se encomende.»
Aquilo a que se costuma chamar amor é um exílio, com um postal de casa de vez em quando, eis o meu pensamento para esta noite.
Samuel Beckett, in Primeiro amor, trad. Francisco Frazão, Ambar, Outubro de 2002, p. 22. No título, as duas últimas frases do conto. Premier amour foi publicado em 1970.
quinta-feira, 14 de abril de 2016
DRAMATÍCULOS
Depois de no final de 2015 ter levado à cena um primeiro
terceto de Dramatículos — Comédia, Fragmento de Teatro I e Fragmento de Teatro II —, o
Teatro da Rainha regressou recentemente a Samuel Beckett com mais um conjunto
de três peças muito breves: Eu não, Acto sem Palavras I e Cadeira de Embalar.
Não existindo qualquer relação imediata entre as três, tanto de carácter cronológico
como de índole temática, torna-se agradável projectar no encadeamento escolhido
um sentido de tipo dialéctico. Eu não corresponderia a uma tese acerca dos
limites da representação, opondo-se-lhe a pantomima de Acto sem Palavras I. Do
conflito entre ambas, resultaria a síntese ensaiada em Cadeira de Embalar. Como
é óbvio, uma construção deste tipo apoia-se única e exclusivamente em
percepções às quais tanto a obra de Beckett como as múltiplas interpretações
que sobre ela possam ser feitas são alheias. De resto, quando se trata de
discutir o texto beckettiano qualquer especulação de tipo hermenêutico resulta
pobre perante os enigmas produzidos pela radical experimentação da linguagem
que o autor nos propõe. Arriscaria mesmo dizer que interpretar uma peça do
autor de Whoroscope é quase tão ridículo quanto esperar de um fantasma que dialogue
connosco, dada a especificidade das personagens e das situações que dão corpo e
forma a um total desprezo pelas convenções do processo comunicacional. Daí também
que estas três peças, ao focarem-se em órgãos físicos concretos (boca, mãos,
olhos), nos desafiem em conjunto a capacidade de construção de um corpo no qual
consigamos ver reflectidos aspectos da nossa parca existência.
Eu Não/Not I foi
escrita em 1972, datando a sua publicação do ano seguinte. Há uma versão
portuguesa, com o título Não Eu, publicada pela Húmus, em 2013, com tradução de
Paulo Eduardo Carvalho para a Colecção Teatro Nacional São João. A encenação de
Fernando Mora Ramos respeita as versões mais tardias da peça, eliminando a
figura de um suposto Auditor para concentrar toda a atenção na boca que, isolada
num palco completamente escuro, vai debitando freneticamente um discurso aparentemente
desorganizado. O efeito alucinatório da velocidade com que as palavras são proferidas
contrastará com a ausência de palavras na peça seguinte, resultando no “acto final”
numa hipnótica e lenta repetição de um texto minimalista. O despojamento cénico
adensa aqui a importância do dizer ante aquilo que se diz, pois o aspecto mais
relevante parece ser a incontinência verbal da personagem-boca, o efeito
de ruído que provoca desconforto no ouvinte, a ânsia de ser ouvido sem esperar
ser compreendido.
Este adiamento da compreensão volta a estar em causa na peça
seguinte. Acto sem Palavras I/Acte sans paroles I surgiu em 1957 em conjunto
com Fin de partie/Fim de Partida (na tradução de Manuel de Seabra). Pela forma
como está vestido, podemos supor que a personagem em palco é um louco fechado
numa cela pavloviana, sujeito a várias experiências que desafiam as suas
capacidades lógicas. Os desafios que lhe são colocados resultam sempre, porém,
em novos obstáculos, um pouco à semelhança do que sucede no mundo moderno dos
objectivos e das metas. A peça termina com a desistência da personagem, a qual
se deita no chão, deixa de reagir aos estímulos e concentra o olhar nas suas
próprias mãos. Fábio Costa encarna lindamente o típico herói passivo que encontramos em múltiplas obras do
autor irlandês, por certo irónico mas com a intensidade dramática dos marginais
que traduzem diversas formas de resistência à normalização do discurso (sejam
eles aleijados, vagabundos, loucos ou paralíticos).
Este gesto de resistir
desistindo descamba na última das peças com um resultado deveras perturbador. Escrita
originalmente em inglês, Cadeira de Embalar é um dos últimos trabalhos do
dramaturgo. Surgiu em 1980 com o título Rockaby (Berceuse na versão francesa),
estando disponível no YouTube uma versão de Alan Schneider com Billie Whitelaw que vale a pena rever.
Os olhos da mulher idosa que se balança numa cadeira são o princípio a partir
do qual a comunicação se processa, ao insistirem em manter-se abertos enquanto
em voz off o pensamento discorre sobre alguém que está a uma janela a observar
os outros e à espera de ser observado. É inevitável vislumbrar-se aqui a tese
que do frenesim vocabular inicial à silenciosa desistência posterior fazem da idosa
na cadeira de baloiço uma metáfora da condição ontológica do indivíduo, ser
isolado no seu interior que tomba em solidão por nele ser já dada como adquirida
a impossibilidade de comunicação.
O facto de tanto em Eu Não como em Cadeira de Embalar ouvirmos a voz da mesma actriz, oferece a este encadeamento um curioso jogo de contrastes entre a velocidade da primeira peça e a lentidão da última, entre a boca isolada em ruído incontinente e o corpo saturado de Isabel Lopes a pedir para a voz lenta do pensamento não parar enquanto ela se balança numa cadeira. Ora, numa época em que todos falam e poucos
se ouvem, fazendo do falar e do dizer um punhal com que esperam ferir a
solidão, é no mínimo um transtorno depararmo-nos com esta figura onde facilmente
se projecta a delonga inútil dos nossos maiores temores: o silêncio, o fim, a
morte. Transtorno bom, porém. Porque é a baralharmos e a confundirmos a lógica da
existência que aprendemos a ser humildes face ao que realmente importa.
quarta-feira, 13 de abril de 2016
RIMBAUD
Composto entre Abril e Agosto de 1873, Une Saison en
enfer foi impresso em Bruxelas nesse mesmo ano em que Verlaine atingiu Rimbaud
com um tiro de pistola. São textos pejados de referências autobiográficas,
escritos por um jovem de dezoito ou dezanove anos, sendo muito provável que
alguns datarão de invernos anteriores, com uma existência frenética na demanda
de uma utopia verdadeiramente poética. As fugas anteriores do seio doméstico, governado
por uma mãe tirânica sob o fantasma do esposo há muito ausente, ao encontro de
uma inspiradora mas insuficiente Comuna parisiense, corresponderão mais a um apaixonado
e apaixonante anseio de liberdade do que a convicções profundas sobre as
desordens e os desnortes do mundo. Anseio de liberdade na mesma medida que confronto com a
educação conservadora sofrida desde a primeira hora. Para o entender, basta ler
as palavras introdutórias dessa obra-prima a que Cesariny ofereceu o título português
de Uma Cerveja no Inferno: «Consegui destruir em mim toda a esperança. Contra
toda a alegria lancei o bote cego da besta feroz. Estranguladas.»
Ainda mal tinha nascido, o poeta Rimbaud empenhava-se já
na recuperação de antigos apetites. Ele, que chamava à sua própria composição
«caderno diário de danado». A consciência da danação não surge de um fingimento
poético, não é uma dessas encenações às quais a poesia contemporânea nos
habituou, não representa no palco da vaidade a encarnação de uma personagem.
Por isso se mantém tão viva e convincente. Admiraríamos os textos de Rimbaud se
ignorássemos todos os pormenores da sua biografia? Por certo que sim. E a razão
para tal é simples: os seus textos têm uma vida própria, não se encerram nem
reduzem às experiências de quem os produziu, fazendo surdir na palavra um outro
que, sendo o próprio, é já uma outra coisa, autónoma, independente, livre.
Paradoxalmente, esse legado «Eu é outro», que tão bem se conjuga com a «liberdade
livre» reivindicada para a poesia, torna o outro um próprio sem qualquer
mistério, transforma o texto numa personalidade cuja singularidade se afirma já
não por intermédio de reflexos ou confissões, mas pela potencialização do ser.
Isto significa, ao mesmo tempo, ruptura e revolução. Ruptura com o passado, com a história pessoal, pequena morte, suicídio, corte umbilical, em prol de uma transformação radical que favoreça um sangue novo. E revolução, ainda eivada por ilusões que rapidamente se revelariam decepcionantes. Mau Sangue é muito provavelmente um dos textos mais reveladores deste processo, sendo nele perceptível o auto-retrato jocoso com base nas raízes a partir das quais o rosto se transforma e se decompõe como uma figura de cera a derreter-se, para se metamorfosear numa outra matéria, com uma outra forma: «Abomino todos os modos de vida. Patrões e operários, todos rustres, ignóbeis. A caneta na mão vale a mão na charrua. — Que século de mãos! — Nunca dominarei a minha mão. Além disso, o culto do doméstico vai longe de mais. A honestidade do peditório enerva-me. Os criminosos repugnam-me como castrados: eu, estou intacto e isso é-me indiferente».
Como não poderiam comover-nos estas palavras? Jovens,
frescas, autênticas como nenhumas hoje logram ser, são o bisturi da verdade incidindo
na anatomia da mentira universal. Rompem, rasgam, reviram o espírito dos tempos
para acusarem a padronização de uma sociedade assente em pilares
civilizacionais corruptores do indivíduo, das suas paixões e desejos, da sua
mais natural ambição: ser livre. De corpo inteiro. Como consegui-lo se, desde
logo, metade do nosso corpo é a priori rejeitada? A metade material pelos
professores da fé, a metade espiritual pelos professores da matéria. A obra
assinada por Rimbaud é um grito de revolta contra as poderosas máquinas
esterilizadoras da nossa civilização, um grito contra o tédio ao qual se entregam
os escravos da moral cristã e uma exaltação da verdade que se esconde por
detrás das fachadas morais que tudo normalizam e cristalizam. Palavras pagãs de
um programa que se anuncia e será cumprido à risca: «Eis-me na praia
armoricana. Que as cidades cintilem ao anoitecer. A minha jornada está feita:
deixo a Europa. O ar do oceano queimará meus pulmões; ignotos climas me
bronzearão. Nadar, pisar erva, caçar, fumar, fumar muito; beber licores
abrasivos como metal fundente — como faziam os nossos queridos antepassados em
volta das fogueiras».
A quem devemos agradecer o metal fundente? A Rimbaud? A
Cesariny? Nenhum deles foi um herói, ambos tombaram como mortais. O segundo
envelhecendo, o primeiro convalescendo. Já depois de ter abandonado, se é que
alguma vez abandonou, a poesia. No ensaio memorável que lhe dedica, Yves
Bonnefoy avança com uma forte hipótese para a compreensão desse abandono:
«Talvez a poesia, ao envolver-nos inteiros na busca da unidade, numa relação
tão absoluta quanto possível com a própria presença do ser, nos separe assim
dos outros seres, restabelecendo a dualidade que poderíamos julgar desaparecida.
Talvez a poesia seja apenas um impasse. Que só encontre a sua verdade no
reconhecimento do fracasso». Ora, rasurando por completo a biografia, cindindo
a leitura ao texto, torna-se claro haver no decorrer das frases e dos versos o
caminho que leva da ilusão à desilusão, do amor à morte, através de uma
inquietude e de um desassossego que todas as almas desviantes e inadaptadas
absorvem até à solidão, ao isolamento, ao exílio.
Mau Sangue toca-nos por ser oracular, por haver nele o prenúncio
de uma passagem pela Terra. Em certo sentido, podemos mesmo afirmar, sem cair no ridículo
místico, haver nessas palavras a prova do Vidente. Talvez o poeta tenha ido ao
encontro das suas visões, talvez seja isso o que fazem todos os visionários,
talvez o messianismo seja o oposto disto mesmo, ou seja, uma espera inútil do
porvir contrária à acção, à vontade, à paixão, ao desejo. Podíamos rematar com
uma frase de Being Beauteous (título que Cesariny também respigou), das
Iluminações: «Les couleurs propres de la vie se foncent, dansent, et se
dégagent autor de la Vision, sur le chantier». Eis como a traduziu Cesariny:
«As cores próprias da vida escurecem, dançam, soltam-se em torno da Visão, no
estaleiro». Mas neste caso prefiro a versão de Llansol: «No decurso da obra, as
cores da vida ensombreiam-se, dançam e libertam-se da Visão». Sur le chantier,
no estaleiro, no decurso da obra, literalmente no local, o que sobressai da Visão
é uma dança ferida pelo escurecer, o corpo que cede, um “êxtase alegre”
derrotado pela doença da vergonha denunciada num dos poemas finais:
VERGONHA
Enquanto a navalha não tiver
Cortado este cérebro,
Esta espécie de massa a vapor, branca,
Verde e gorda, sempre a mesma,
(Ah! Ele devia cortar o seu
Nariz, o seu lábio, as suas orelhas,
A sua barriga!, e deixar de usar
As suas pernas!, ó maravilha!)
Mas não; verdade, penso que
Enquanto para a sua cabeça a navalha,
Os cálculos para os seus rins,
Pra as suas tripas a chama,
Não tiverem actuado, a criança
Rabina, a grande estupidazinha,
Nem por um instante deixará
De ser manhosa e traiçoeira,
Como um gato das Montanhas Rochosas,
De empestar todas as esferas!
Ó meu Deus!, que ao menos quando
Morrer alguma oração se eleve.
- Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações / Uma Cerveja no
Inferno, trad. Mário Cesariny, Estúdios Cor, Colecção Mocho, Abril de 1972;
- Arthur Rimbaud, O Rapaz Raro — Iluminações e Poemas,
trad. Maria Gabriela Llansol, Relógio D' Água Editores, Maio de 1998;
- Yves Bonnefoy, Rimbaud, trad. Filipe Jarro, Cotovia,
Janeiro de 2005.
DOIS CONTOS DE RIMBAUD
FÁBULA
Um Príncipe sentia-se humilhado por se ter exclusivamente dedicado à perfeição das generosidades mais comuns. Antevia assombrosas mutações no amor e suspeitava suas mulheres de poderem mais do que essa complacência embelezada de céu e de luxo. Ele queria ver a verdade, o momento do desejo e da satisfação essenciais. Fosse, ou não, uma aberração da piedade, ele quis. Pelo menos, possuía um poder humano assaz considerável.
Foram assassinadas todas as mulheres que o haviam conhecido. Que devastação imensa do jardim da beleza! A cada golpe de sabre, o abençoaram. Não mandou vir outras. — As mulheres reapareceram.
Matou todo o seu séquito, depois da caça ou das libações. — Todos o seguiam.
Divertiu-se a degolar os animais de estimação. Mandou incendiar os palácios. Caía sem sobreaviso sobre as pessoas deixando-as dispersas, aos pedaços. — As gentes, os telhados de oiro, os animais de belo porte, não haviam desaparecido.
Pode-se aceder ao êxtase pela destruição, rejuvenescer com a crueldade! O povo não rosnou. Ninguém se prestou a dar opinião.
Certa noite, galopava ele com galhardia. Um Génio, de uma inefável beleza, inconfessável mesmo, fez a sua aparição. Da sua fisionomia e do seu porte ressaltava a promessa de um amor múltiplo e complexo!, de uma indizível felicidade, propriamente insuportável! O Príncipe e o Génio nadificaram-se, provavelmente num essencial bem-estar. Como poderiam eles não morrer disso? Juntos morreram, por conseguinte.
Mas este Príncipe faleceu no seu Palácio, numa idade normal. O Príncipe era o Génio. O Génio era o Príncipe.
A música erudita falta ao nosso desejo.
Arthur Rimbaud, in O Rapaz Raro — Iluminações e Poemas, trad. Maria Gabriela Llansol, Relógio D' Água Editores, Maio de 1998, p. 41. Poema em prosa incluído em Illuminations (1886).
CONTO
Aborrecia-se um Príncipe porque apenas se dedicara ao aperfeiçoamento das generosidades vulgares. Do amor, ele esperara espantosas revoluções, e suspeitava de que as suas mulheres podiam dar-lhe mais do que uma complacência coroada de céu e luxo. Queria ver a verdade, a hora do desejo e da satisfação essenciais. Fosse ou não fosse, isto, uma aberração mística, ele assim o quis. Dispunha, pelo menos, de largos poderes humanos.
Todas as mulheres que possuíra foram assassinadas. Que estrago no jardim da beleza! Sob o sabre, elas abençoaram-no. Não encomendou novas mulheres. — As mulheres reapareceram.
Matou todos aqueles que o seguiam quando vinha da caça ou das libações. — Todos o seguiam.
Divertiu-se a degolar animais raros. Mandava incendiar os palácios. Precipitava-se sobre as pessoas e cortava-as às postas. — A multidão, os tectos de ouro, os belos animais subsistiam.
Podemos extasiar-nos da destruição, rejuvenescer na crueldade! O povo não murmurou. Ninguém ofereceu o concurso de uma opinião.
Uma noite, galopava ele altivamente, saiu-lhe ao caminho um Génio de uma beleza inefável, inconfessável, até! Da sua fisionomia e do seu porte nascia a promessa de um amor complexo e múltiplo, de uma felicidade inexprimível, insuportável, até! O Príncipe e o Génio aniquilaram-se provàvelmente na saúde primordial. Como poderiam ter sobrevivido? Juntos, tiveram de morrer.
Mas o Príncipe faleceu no seu palácio, muitos anos depois. O Príncipe era o Génio. O Génio era o Príncipe.
Falta ao nosso desejo música sábia.
Jean-Arthur Rimbaud, in Iluminações / Uma Cerveja no Inferno, trad. Mário Cesariny, Estúdios Cor, Colecção Mocho, Abril de 1972, pp. 26-28.
domingo, 10 de abril de 2016
MINISTRO QUE BOLÇA
Aviso prévio: este texto é uma confissão parva; não
estando o leitor para aí voltado, passe à frente e siga para outra. Ora bem,
tenho um problema com o novo Ministro da Cultura. Será assim, com maiúsculas? O
meu problema não é pessoal, nem sequer tem que ver com a distância que sempre
mantive relativamente à sua poesia. Comecei a lê-lo quando ainda era estudante
de Filosofia em Lisboa e comprava regularmente o JL. O poeta entretanto
endossado ministro era figura assídua nesse jornal. Suponho que ainda seja,
pois nem um nem outro hão-de ter mudado muito. Enfim, nada contra. Sucede que
nos idos de 98/99, por aí, trabalhava eu na livraria do Círculo de Leitores à
Rua do Ouro. Ou seria da Prata? Não interessa. Recordo-me de um dia termos sido
visitados pelo vate, o qual se fazia acompanhar de uma senhora que eu não
conhecia de lado algum mas supus ser a sua mulher. Entre quem trabalhava
naquela livraria, eu era o único que conhecia o autor de algum lado. Talvez por
ser o único que em tempos comprava regularmente o JL. Acontece que nesse dia o
homem dentro do qual existia o poeta sentiu-se mal, teve uma indisposição
física. Chegou-se à rua e bolçou, expelindo uma ligeira quantidade de vómito liquefeito
e com uma cor verdejada. Desde então, tornou-se-me impossível deixar de
relacionar esse momento com a pessoa em causa. Nunca mais consegui ler a sua
poesia. Penso sempre num homem indisposto, a vomitar. Nunca mais consegui
separar a imagem do indivíduo daquela figura frágil e debilitada que por certo
todos nós já experimentámos quando nos vem o vómito à garganta. Pelo que se me
torna hoje impossível, ao ler a notícia sobre o novo Ministro da Cultura, não
pensar no perfil débil de quem bolça. E não bolsa, como diria João Soares.
NECESSIDADE & MISÉRIA
Numa festa em Inglaterra, um assim chamado intelectual perguntou-me porque é que eu escrevo sobre necessidade e miséria. Como se fosse perverso fazer uma coisa assim! Queria saber se o meu pai me batera ou a minha mãe fugira de casa e eu tivera assim uma infância infeliz. Respondi-lhe: «Não, tive uma infância muito feliz.» Ficou, assim, a considerar-me ainda mais perverso. Abandonei a festa o mais rapidamente possível e meti-me num táxi. Na divisória de vidro que me separava do motorista estavam afixados três autocolantes: um pedia ajuda para os cegos, um outro ajuda para os órfãos e o terceiro apoio aos refugiados de guerra. Não é preciso procurar a necessidade e a miséria. Elas gritam-nos em pleno rosto, até mesmo nos táxis londrinos.
Samuel Beckett
sexta-feira, 8 de abril de 2016
CULTURA, QUAL CULTURA?
Nunca simpatizei com João Soares, nem votei em António
Costa, pelo que me sinto como peixe na água a meter a barbatana no assunto.
Soares nunca devia ter sido convidado para Ministro da Cultura, o que pareceu
óbvio a muita gente ajuizada assim que o nome foi anunciado. Mas a razão que
tornava a nomeação um erro não é bem aquela que hoje tantas espertezas saloias
adiantam, como se estivessem na posse de mistérios iniciáticos inacessíveis a
um leigo. A razão é outra. Há muito que a cultura portuguesa necessita de um
mestre de reiki, ou de um especialista em massagem ayurvédica, alguém que
domine o poder dos mantras e seja versado em mandalas, um guru, um especialista
em feng shui, e não um tipo capaz de ameaçar com bofetadas os poucos intelectuais de
esquerda e de direita que ainda nos sobram com créditos firmados nas páginas da dignificante
imprensa portuguesa. Como aguentar este estado de coisas sem muito yoga? Já que andamos a vender tudo aos chineses, seria um passo importante a caminho da felicidade total vendermos-lhes igualmente a cultura.
Portanto, estava-se mesmo a ver que à primeira escorregadela o filho do velho tombaria que nem um elefante desajeitado a tentar o mais simples ássana. Sublinhe-se porém a decisão digna do pedido de demissão, em contraciclo com as práticas tradicionais dos moralistas de pacotilha. Entre os tais, algumas luminárias na oposição ao actual governo que viram no passado recente ministros seus colados que nem lapas ao cargo apesar de confrontados com situações muito mais graves. Basta lembrar o quão penoso foi aguentar Relvas ou o esbugalhado Macedo depois de jornalistas andarem a comer bofetadas da bófia enquanto exerciam as suas funções no caudal dos manifestos. Uns dão e ficam, outros ameaçam e partem. É a diferença. Mas vêm agora alguns desses mesmos jornalistas comprovar o quão contraproducente é defendê-los de bastonadas. Reparem na capa absolutamente vergonhosa, mentirosa, tendenciosa que o Público guardou para o dia de hoje, referindo-se a um Costa que teria defendido Soares e a um silêncio que teria imperado entre os socialistas quando toda a gente viu o contrário. Aliás, no mesmo dia outros jornais divulgam uma leitura dos acontecimentos exactamente oposta à do Público, sendo que este insiste na parangona para lá do inimaginável com um dossier especial no seu site. Vê-se e não se acredita:
Portanto, estava-se mesmo a ver que à primeira escorregadela o filho do velho tombaria que nem um elefante desajeitado a tentar o mais simples ássana. Sublinhe-se porém a decisão digna do pedido de demissão, em contraciclo com as práticas tradicionais dos moralistas de pacotilha. Entre os tais, algumas luminárias na oposição ao actual governo que viram no passado recente ministros seus colados que nem lapas ao cargo apesar de confrontados com situações muito mais graves. Basta lembrar o quão penoso foi aguentar Relvas ou o esbugalhado Macedo depois de jornalistas andarem a comer bofetadas da bófia enquanto exerciam as suas funções no caudal dos manifestos. Uns dão e ficam, outros ameaçam e partem. É a diferença. Mas vêm agora alguns desses mesmos jornalistas comprovar o quão contraproducente é defendê-los de bastonadas. Reparem na capa absolutamente vergonhosa, mentirosa, tendenciosa que o Público guardou para o dia de hoje, referindo-se a um Costa que teria defendido Soares e a um silêncio que teria imperado entre os socialistas quando toda a gente viu o contrário. Aliás, no mesmo dia outros jornais divulgam uma leitura dos acontecimentos exactamente oposta à do Público, sendo que este insiste na parangona para lá do inimaginável com um dossier especial no seu site. Vê-se e não se acredita:
Para que servem os peritos senão para estas ocasiões? É isto assunto de primeira página, matéria com a máxima relevância. O caso das bofetadas varreu para
debaixo do tapete os papéis do Panamá, o terrorismo, a crise brasileira… Não bastava escutar o Daniel Oliveira sobre o assunto nem pedir uma opinião ao Pedro Marques Lopes, é preciso, muito provavelmente, escrever um novo tratado lógico-filosófico sobre a questão. Isto é
tanto mais ridículo quanto se torna óbvio passarmos todos ao lado do
fundamental com este festim vergonhoso de palhaçada merdiática. E o fundamental cairá no esquecimento como se nem tivesse existido: a crónica
de Augusto M. Seabra e o que nela poderia haver de proveitoso para um debate
sério sobre práticas e políticas culturais, o modo de entender a cultura no
país e a relação do Estado com esse domínio essencial de uma democracia adulta
e saudável. Nada disso importa, nada disso interessa, nada disso fará história.
Assim como não fará história o caso das bofetadas, tão merdoso quanto o caso da
campanha mochileira que anda a mexer com meio mundo. Isto é tudo triste, isto é
tudo ridículo, isto é tudo de uma imbecilidade e boçalidade insuportáveis. Mais
vale desligar com práticas zen e esperar que metam no ministério a Maria
Helena, a Alexandra Solnado, a Cristina Candeias, a Maya ou o Professor Herrero… Ou todos juntos. Sei lá.
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