sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O LIXO


Levo o lixo para a rua
embrulhado em papel e cuidado.
Ficam ali misturadas as sobras da vida,
cascas do tempo e recortes da alma.
Com tristeza as deixo no passeio
por serem restos de fruta, de comida,
e de literatura
com os quais
alguém se presumiu vivo ou creu existente.
E também porque, porventura sem que o saibamos,
alguém nos embrulhou
com papéis de céu, com nuvens de cuidado
e estamos na ponta do universo
e ninguém se despede de nós.
Levo o lixo para a rua, deixo-o no passeio,
e digo-lhe: Adeus.

Jorge Calvetti, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La Poesía del siglo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 89.

OBRA PERFEITAMENTE INCOMPLETA


Vamos com calma, ainda temos para troca umas boas gargalhadas contra o tom enfatuado da intelligentsia de matilha. Dar com estes brincalhões pelo caminho é do melhor que pode acontecer a um funcionário cansado no termo do dia, fica-se vacinado e não há pesporrência que vingue. Haverá melhor remédio do que desimportantizar, como dizia Alexandre O’Neill? Ou então passar ao lado, deixar que o olho lírico procure lá-fora-cá-dentro um fenómeno natural qualquer que nos distrai das bestas. Regra: jamais nos levarmos tanto a sério quanto merece a vida que a levemos, a bem dos ossos e da saúde mental. Diz quem sabe que José Sesinando Palla e Carmo (1923-1995) é um bom exemplo, por ter como Palla e Carmo traduzido alguns dos melhores, assinado ensaios e críticas literárias da maior seriedade que se possa imaginar. Mas o Sesinando reservou-o para o literário, um literário feito de riso sobre o próprio literário. Isto é, José Sesinando, autor de Obra Ântuma (1986),logrou com golpe de mestre desmascarar tudo o que é cagança, pesporrência, presunção, nesse domínio do literário. Como? Brincando com os tiques, subvertendo, mostrando que por detrás da seriedade intelectual há sempre um intelecto que ri. Até da sua própria seriedade. No prefácio a Obra Perfeitamente Incompleta (Tinta-da-China, Junho de 2018), Abel Barros Baptista coloca as coisas nestes termos: «O humor de José Sesinando suscita admiração e diverte, mas não aspira leccionar ninguém ainda quando parece ridicularizar pessoas efectivas ou procedimentos conhecidos. É um humor linguisticamente endiabrado, como um miúdo travesso a virar as frases ao contrário para provocar a mãe ou desobedecer ao pai. Travesso e exibicionista» (p. 8). Fica a ganhar o leitor, quer pelas gargalhadas efectivas que desprende da leitura, quer por se dar conta da patetice e do ridículo de certos tiques, técnicas feitas, como as frases, lugares mais que comuns que por serem repetidos em certo contexto, dito respeitável, passam quase invariavelmente por respeitáveis. Quando espremido temos, afinal, parra ressequida, uva nenhuma para vinho idealizado. Somente idealizado. 
Já que estamos com a mão na massa, vamos à obra póstuma à Obra Ântuma: primeiro, 50 variações para o Soneto já antigo de Fernando Pessoa; segundo, 65 variações para a Autopsicografia do mesmo. E vejamos em que podemos converter o recado a Daisy num Soneto Enraivecido: «Raios partam isso! Não suporto a vida! / Vai uma pessoa pela rua, e zás! / logo lhe aparece uma pessoa conhecida / que nos quebra a nossa interior paz» (p. 196). Ou como em alternativa ao poeta fingidor podemos ficar com o poeta sabonete: «O poeta é um sabão / Ou, melhor, um sabonete. / Pode falar em calão, / Ler a Bola ou ler o Sete» (p. 291). As variações são para todos os gostos, vão do nonsense à maneira das Learicks ao humor negro, da auto-ironia à sátira mais mordaz. E dizê-lo parece já palerma, que é um eufemismo de realmente o ser. Porque esta obra é toda ela um recado à crítica, como que impossibilita uma leitura que não seja de facto lida. Bom, bom, bom, mesmo bom, é ir lendo a Obra Ântuma acompanhando a nótula de abertura do autor, as palavras prévias de José Palla e Carmo (que é o autor), a advertência de Archibaldo Th. Leonardes (adivinhem quem é toda esta gente?) «José Sesinando, se não deixará, como Fernando Pessoa, uma ou duas arcas cheia de manuscritos inéditos, admite todavia a hipótese de nos legar trinta e quatro caixas de fósforos, que já mostrou ao signatário desta nota. Dezanove delas contêm fósforos; mas nas outras quinze, muito bem dobrados, encontrámos até agora os borrões de muitos poemas, ensaios, sabemos lá que mais. Alguns estão ainda por desdobrar: disso foram encarregados dois grupos de trabalho e três grupos de repouso» (pp. 23-24) , o prefácio de L. I. G. Leonardes Júnior, o interfácio de José Ramos «foi ele, até hoje, o único poeta a fazer uso deliberado (e não acidental) da gralha tipográfica (que, consequentemente, não era-o)» (p. 73) , o posfácio de Christina Leonardes «Mal sabia eu, quando conheci José Sesinando, que este, literariamente, tendo partido do nada, acabaria no zero» (p. 165). 
Sobre a obra propriamente dita, temos textos em prosa sobre música, moda, a grandeza dos países europeus , circulares, entrevistas, um manifesto, entre outros, como agora se diz. Há uma imperdível Breve introdução a uma teoria dos $ímbolos$ da riqueza. Atenção às notas de rodapé: «Rica será a família cujo chauffeur tenha chauffeur» (p. 47). Da poesia, muito haveria a dizer não tivesse já tudo sido dito nos próprios poemas. São inúmeros os envios, todos sem rancor. Como este do autor (José Sesinando) para si mesmo (na versão José Palla e Carmo): «O crítico Zé Palla é pedante / cita sempre toda a sua estante. / Julga ser exacto / mas é só um chato: / faz sono antes, depois e durante. / Não é lima-rica, mas sim um» (p. 135). Complete o leitor, se tiver vontade. Ou conseguir.

MATILHA

A maldição das matilhas é que mais tarde ou mais cedo obrigam-nos a ladrar contra os nossos próprios princípios, pois a defesa dos elementos da matilha impõe-se em força e instinto à honestidade intelectual (que é coisa que extravasa os domínios da bicharia). 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

COMEÇO DE CONVERSA


O poeta é um impostor
vezes se traveste de pastor
andando paisagem cheia de cor
mesmo às horas de maior calor

outras queda-se pelo cômoro vago
dedicando-se apenas ao trago
que o faz sentir-se aureolado mago
mas é apenas efeito do destilado bago

se se dá em pop cantor
tanto mundo põe em furor
que o que antes era langor
faz-se febre festa tambor

mas não tem uma doutrina de vida
mesmo se uma audiência comovida
lhe bebe a litania exaurida
ele que não crê não prega mas duvida

pensando na origem do universo
cogita acerca do uno e do diverso
mas não se tem por converso
a outra filosofia que não o verso

desse que nunca diz a quimera
ou redoura a perdida cor da hera
e nem consola a quem desespera
em negro buraco ou cratera

estranho estrangeiro é o poeta
vive no mundo em discreta greta
onde nenhum sismógrafo o detecta
nem a luz vinda de um outro planeta

perfeição não tem por meta
o mais que almeja em altura
é subir à derruída cercadura
com pouca ou nula desenvoltura

e sondar como quem inda procura
por dentro da matéria escura
o que permanece vivo e dura
para lá da vida da literatura

nunca por nunca dá ordem de soltura
às tempestades de fúria pura
seu riso apenas assoma à embocadura
onde tal um danado a si se tortura

mas o poeta é um empedernido actor
sorri de inocente jeito quando a dor
dança atiçada em esbraseado motor
que nem a voltagem inteira do terror

se outrora algaraviara com as estrelas
mudo agora em todas as sequelas
nem eco das legendárias procelas
que erguem sustos gritos mazelas

o mais que nem sonha é dar à manivela
na decadência em que nada se revela
no silêncio em que tudo se interpela
na sofreguidão que da vida o desatrela 




José Luiz Tavares

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

"É MUITO POUCO."


E pergunto: mas por que diabo devemos nós, e connosco o estado português, que atribuiu as concessões a estes operadores, contribuir para encher os bolsos aos donos e accionistas da sic e da tvi, cuja contrapartida pelo bem público de que se servem é o de espalhar os seus dejectos comunicacionais pelas casas dos portugueses e pelas nossas ruas, através dos painéis publicitários?


Ricardo António Alves, aqui.

CÃO DE FILA


Conheça melhor aqui esta admirável raça. 

FAZER POUCO DA MISÉRIA


No final dos anos sessenta, ou início de setenta, não consigo recordar exactamente, e numa daquelas surtidas por quintais e asseguias a que os miúdos de província se entregavam para combate do tédio, incomodando este e aquele, mofando dos velhos, soltando bestas de carga dos palheiros ou escondendo carroças e ferramentas (na linguagem popular ” andar a fazer mal”) passámos pelo quintal de um homem que tinha sido albardeiro e que vivia num casebre de telha vã. Um dos mais velhos de nós, querendo espantar ou desassossegar o  velho, pregou um valente murro na porta. Para nosso espanto, a porta caíu no chão de terra batida. Não tinha dobradiças, ou gonzos. Era, simplesmente encostada. Ao pé de uma fogueirita a um canto, o vulto do homem, sentado no escuro, uma manta, ou saca de serrapilheira sobre as costas.
Passaram-se três ou quatro anos. Houve briga lá em casa por causa do homem. A minha mãe barafustava com o meu pai. O velho era meu tio-avô. Enquanto o meu avô paterno foi vivo, foi responsabilidade sua e do resto dos irmãos dar-lhe sustento. Mas os homens delegavam nas mulheres esse trabalho. O meu avô, sendo viúvo, como era uso, ninguém via nisso nada de anormal, pagava às cunhadas para cuidarem dele. Morto o meu avô, a minha mãe herdou parte dessa tarefa, creio que uma quinzena a cada três meses. E aí foi a bronca. Mulher de geração mais nova, deu com ele em estado lastimável. Sem roupa que vestir de lavado, cama de palha, louça pouca. No casebre, que simultâneamente tinha servido de oficina de albardeiro, amontoavam-se lixo, sujidade, as abegarias da arte, alguns restos de materiais que tinha utilizado para fazer as albardas, sua profissão e sustento enquanto se manteve activo ou houve bestas de carga ou de monta.
«Ai ó mê t’Jaquim, atão mas vocêmecê tá carregadinho de piolhos». Chamou a irmã. Aqueceram água. E lavaram-no. Coisa que, por pudor, não teria permitido às cunhadas, da sua geração. Mas as sobrinhas eram mais novas, lá acedeu…
Indignadas, as duas irmãs deram-lhe banho, vestiram-no de lavado. Arranjaram-lhe cama, compuseram-lhe banca e louça, onde comesse sentado. E a preocupação do velho não era que vivesse mal. Antes pelo contrário. Dependente das cunhadas e irmãs, a preocupação dele era que as sobrinhas fossem discutir com as tias por tê-lo deixado chegar àquele ponto…«ai ó cachopas, vocemês nã me vão arranjar inferno com as minhas cunhadas ó c’as nhês irmãs. Q’elas tratum-me tã bem, nunca me deixaram passar fome, nim elas coitadas podem mais, nã param de manhã à noite c’a lida da casa delas e c’a lavoira!» Só nessa altura percebi completamente a patifaria que foi alagar-lhe a porta uns anos antes. Mofar do velho. Ou, no dizer dali, «fazer pouco da miséria».


Texto integral no Âncoras e Nefelibatas.

A NINGUÉM QUIS EU NESTE MUNDO



A ninguém quis eu neste mundo
nem com amor fantasiei esperanças.
Mudei meu destino ante o funesto esplendor das palavras
e sou testemunha do meu desdém pelo fulgor da vida.
Percorri campos,
a Puna inóspita e odiada
com pássaros que vivem em liberdade
e gente de alma silenciosa.
Aí vi cavalos procurando a mísera sombra do cacto
e cães dormindo à sombra de um cavalo.
Respirei o ar sujo das cidades
e abominei o dia que me deu luz para ver homens enganados.
Passei noites em gabinetes manchados
com espelhos que mostram o passado e a dor de todos os homens;
neles observei obsessivamente e sem lamúrias
o horrível latejar das minhas fontes,
minha dolorosa imagem de homem sem tempo para chorar sua descrença.
Eu não olhei para as coisas com carinho.
Sou testemunha do meu desdém
pelo vão fulgor da vida.
Apenas sei da morte que dispõe as figuras
que movem marés ocultas no coração
e me entrega palavras que à noite pronuncio
para manchar o mundo de sonho dos homens.

Jorge Calvetti, versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La Poesía del siglo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 91-92.

ISTO É COMO AS CEREJAS


Diz-se na Wikipédia que são exemplo de obras intertextuais a alusão, a conotação, a versão, o plágio, a tradução, o pastiche e a paródia. Se vem na Wikipédia, é porque é verdade. Qualquer pessoa que escreva já se terá deixado tentar em algum momento por qualquer um dos exemplos de intertextualidade mencionados. Havendo referência explícita ao texto que serve de mote, nada a apontar. Sendo o mote um texto canónico, por demais conhecido, facilmente identificável, não é por aí que o gato vai às filhoses. Agora bem diferente, muito diferente, parece-me ser essa coisa de alguém se apropriar de uma fonte sem deixar claro que ali foi beber.  Isto levanta diversas questões que não me são especialmente caras, nomeadamente relativas ao problema da originalidade e, em casos mais graves, da propriedade intelectual. Até que ponto uma influência deixa de o ser para se transformar em placa de gravura? Por vezes, ocorre-me a possibilidade de alguém estar no outro lado do mundo a ler um texto que me saiu do pêlo — ainda que remota, é uma possibilidade —, apropriar-se dele, mudá-lo para a sua língua, publicá-lo, ser felicitado pelo feito, etc. Como reagiria eu se viesse a dar com a marosca? Já me tem acontecido ver por aí espalhadas, sem qualquer referência à origem, versões minhas de poemas alheios que aqui publiquei; acontece-me de vez em quando ouvir-me/ler-me/ver-me citado sem qualquer referência, pois por norma quem me cita nunca se lembra onde me ouviu (o que está muito bem); também já me aconteceu sentir-me plagiado, claramente plagiado, mas deixei a coisa correr por não ter especial interesse em sentir-me recomendável. Se, por absurdo, viesse a dar com um livro meu publicado, vá lá, no Burkina Faso, assinado por alguém que me fosse totalmente desconhecido, como reagiria eu? Estas dúvidas só têm que ver com a agitação abaixo assinada por mera sugestão. Como é óbvio, não estou a comparar situações. Estou apenas a aproveitar os estímulos.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

UM POEMA DE JORGE CALVETTI



O JORNALISMO

Todos, estou seguro,
se comoveram em algum momento,
ao lerem ontem o jornal.
Em todo o lado, aqui, no outro mundo
ocorreram coisas importantes:
um princípio de acordo
entre a Índia e o Paquistão;
a greve dos mineiros em Malargüe,
aquele preso torturado
que não delatou ninguém.
O jornal, ontem,
media o pulso ao mundo
e agora vejo-o embrulhando fruta,
amarrotado, no chão,
constelado por pingos de tinta
onde estão pintando,
cobrindo o peito de um bêbado
a dormir num corredor.
Leva-o o vento por todas as esquinas
e lá vão as
imagens do mundo, os feitos,
rostos possíveis da entrevista Realidade.
E com elas, voando para nada,
nossos pobres, enregelados destinos.

Amigo de Jorge Luis Borges, optou por uma vida na província a domar e a vender cavalos. Jorge Calvetti publicou o primeiro livro em 1944, Fundación en el cielo. Dizem que a sua poesia testemunha o amor à terra e às gentes do mundo rural, o que se verifica igualmente nos contos que escreveu. Em 1955, fundou com Néstor Groppa, Mario Busignani, Héctor Tizón, Medardo Pantoja e Andrés Fidalgo a revista literária Tarja. À sua obra foram atribuídos vários e relevantes prémios, tendo sido eleito, no ano de 1984, membro da Academia Argentina de Letras. Já em 1999, foi designado membro correspondente da Real Academia Espanhola. Trabalhou com diversos jornais e revistas. Com uma linguagem sóbria, tende frequentemente para uma poesia reveladora dos lugares e dos costumes dos povos. Sensível, delicada, ascética, são algumas das características geralmente atribuídas à sua poesia. Tinha 86 anos quando morreu. O poema acima transcrito foi traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 98.

VARIAÇÃO SOBRE O «SONETO JÁ ANTIGO» DE FERNANDO PESSOA


SONETO DO PERDIDO

Pode dizer-me onde estou, senhor?
Desorientei-me ao sair do botequim
Aquele da Travessa do Guarda-Mor,
Ali para o lado da Rua do Alecrim.

Estarei em Lisboa ou em Rio Maior?
No Porto, em Faro, Almeirim ou Santarém?
Estou porém certo de que não há melhor
Do que perguntar a questão a alguém.

Diga-me, por favor, onde vagueio.
O Norte está para ali, para onde eu vivo
E repetidas vezes faço eu este passeio.

O mundo é vago, com os guias de permeio
E os cicerones a indicar onde persigo
No meu viver tão triste e feio.


José Sesinando, in Obra Perfeitamente Incompleta, edição de Abel Barros Baptista e Luísa Costa Gomes, prefácio de Abel Barros Baptista, Edições Tinta-da-China, Junho de 2018, p. 186.

"ALGO MUITO MAIOR"


Alguns filósofos ingénuos avançaram a proposta de que só os poetas nos sabem dizer o que é o ser ou o absoluto, mas esses, de facto, exprimem somente o indefinido. Era a poética de Stéphane Mallarmé, que passou a vida a procurar exprimir uma «explicação órfica da terra»: «Digo: uma flor!, e, fora do esquecimento em que a minha voz relega qualquer contorno, enquanto algo de diferente dos cálices conhecidos, musicalmente se eleva, ideia mesma e suave, a ausência de todo o perfume.» Na realidade, este texto é intraduzível, e diz-nos apenas que se nomeia uma palavra, isolada no espaço branco que a circunda, e dela deve brotar a totalidade do não dito, mas sob a forma de uma ausência. «Nomear um objecto é suprimir três quartos do poder da poesia, que é feita da felicidade de adivinhar a pouco e pouco: sugerir, eis o sonho.» Toda a vida de Mallarmé se coloca sob a insígnia deste sonho e, ao mesmo tempo, sob a insígnia da derrota. Derrota que Dante tinha dado como aceite desde o início, compreendendo que é orgulho luciferino pretender exprimir finitamente o infinito, e evitara a derrota da poesia fazendo precisamente poesia da derrota, que não é poesia que quer dizer o indizível, mas poesia da impossibilidade de o dizer.


Umberto Eco, in Aos Ombros de Gigantes, trad. Eliana Aguiar, Gradiva, Outubro de 2018, p. 118.

NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS


(clique na imagem para ver melhor)

O do lado esquerdo foi escrito por um poeta argentino do início do século XX, o do lado direito foi escrito por uma poeta portuguesa do início do século XXI. Ele chama-se Jorge Calvetti, ela chama-se Golgona Anghel. Em poesia, esta técnica pode ter o nome de paráfrase, intertextualidade, diálogo, pastiche, plágio. Sem menção ao original, pode também ser entendida como copianço. Por muito menos, Tony Carreira foi recentemente achincalhado. Não merecia, afinal estava apenas a recorrer a práticas académicas que são um inequívoco sinal de inteligência, respeito pela tradição e conhecimento profundo da sua arte.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

BERNARDO BERTOLUCCI (1941-2018)


Assinou O Último Tango em Paris (1972), com Marlon Brando e Maria Schneider, dupla inesquecível. A polémica perdura. O Último Imperador (1987) arrecadou nove estatuetas Oscar. O Pequeno Buda (1993) já não é tão esplendoroso, mas também contou com música de Ryuichi Sakamoto. E depois há Beleza Roubada (1996), talvez o melhor.

FALA UM SOLDADO DA CONQUISTA




«…era de ânimo robusto e licencioso de costumes, daí não ter merecido fortuna na Califórnia nem em Ida de Higueras, nem em lugar algum desde que chegou a esta terra. Confessou-se publicamente com cinismo e blasfémia. Deus lhe perdoe os pecados e também a mim e me dê boa morte, mais importante do que as conquistas e vitórias que tivemos contra os índios
Verdadeira história da conquista da Nova Espanha
Bernal Díaz del Castillo

«Vim porque me pagavam
e eu queria comprar espadas e mulheres.
Vim porque me falaram de montanhas resplandecentes
como um entardecer no mar
e como o ouro com que haveria de me vestir quando regressasse.
Mas só encontrei flechas envenenadas,
humidade e mosquitos.
Conheci o terror, noites sigilosas,
índios vestidos com sua beleza sinistra,
a força de uma terra que nos dobrou
como a sede aos animais,
e a movediça mortalha da selva.»

«Alguém falou de honra a bordo.
A bordo
falavam e rezavam com lentas mãos sobre livros dourados.
nessas mãos se apoiaram o grito e o desespero;
com essas mãos escavaram a terra que nos iria cobrir.
Alguém falou de «história» e de «futuro»;
eu apenas penso no que perdi.
Creio que tudo é igual,
as mentiras que nos disseram e as verdades que encontrámos.
Haverá sempre loucos que viverão de palavras,
e sempre o mundo misturará com a mesma indiferença
a vida, que cresce no esquecimento,
a glória, que se arrasta,
e a laboriosa cobiça da morte.»

Jorge Calvetti (n. Maimara, San Salvador de Jujuy, Argentina, 1916 – Buenos Aires, 4 de Novembro de 2002), traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 86-87.

ZOOLÂNDIA


Há quem passe de cavalo para burro, quem dê pérolas a porcos, quem não possa com uma gata pelo rabo, quem cante de galo. Mas se a cavalo dado não se olha o dente, gato escaldado de água fria tem medo. Portanto, se a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha… a cordeiro estranho, não recebas em teu rebanho.

sábado, 24 de novembro de 2018

NATAL




Não gosto do Natal. Nunca gostei, mas gosto cada vez menos não gostando. Estou em valores negativos quanto a natais. Este pode parecer mais um daqueles textos estafados que se escrevem todos os anos por esta altura, ou pelo Carnaval para acusar a brasileirização do entrudo. Por esta quadra, podíamos acusar a americanização do Natal. Motivos não faltam: o Santa Claus versão Coca-Cola (arranjem um light, vestido de preto), a canção da Mariah Carey e o insuportável Jingle Bells, esta coisa nauseabunda do Black Friday. Deixemos os americanos em paz, já têm problemas que cheguem. O meu problema com o Natal é entre portas. Uma ceia de Natal à portuguesa, como hoje se pratica, fere-me a consciência. Não consigo enfardar marisco (lá em casa não se pratica o bacalhau) com a televisão a passar imagens de gente esfomeada no Iémen. Desigualdades sempre existiram! Sempre hão-de existir! Ouço os Pilatos deste novo tempo, e há tantos. Andam pelos centros comerciais desenfreadamente, sôfregos, sequiosos, ávidos, famintos de consumo. O consumismo desenfreado caracteriza hoje o Natal mais do que qualquer outra coisa, esqueçam a reflexão cristã e o menino Jesus e a salvação dos desesperados. O Natal é a celebração do desespero, na criança ansiosa pelo presente que julga merecer sem nada ter feito por ele, no pai que lho dará para se redimir de ter estado ausente o resto do ano. Natal rima com degradação, rima com desespero, rima com hipocrisia. Eu que trabalho no comércio bem o noto todos os dias, a hipocrisia do presente comprado à pressa para satisfazer o suposto amigo de que nos esquecemos. Ninguém se esquece de um amigo, foda-se. E ninguém é amigo ou deixa de ser por/para receber um presente no Natal. Temos nesta época o espectáculo da total inversão dos valores, o consumismo tudo aglutina, tudo devora. A consciência limpa-se com esmolas, os media exibem anúncios sobre anúncios onde a lamechice e o sentimentalismo, enquanto apelos à compra e à despesa e ao investimento, superam o cómico. O argumento mantém-se patológico, mas agora apostando na doença da emoção fácil. E é tudo do mais ruinoso que se possa imaginar, porque tudo fica esvaziado de valor. A bondade humana confunde-se com a capacidade de oferecer, e tanto mais te amo quanto mais dinheiro tiver investido na minha oferta. Os afectos que temos uns pelos outros são proporcionais ao dinheiro que gastamos uns com os outros, é esta a medida, é esta a moeda dos afectos.  E se o leitor pensa que isto nada tem que ver com isto ou com isto ou com isto, então é muito ingénuo. Por detrás do extermínio cresce o cancro do consumismo desenfreado, agravando a doença que levará à morte. Iremos a tempo? Desconfio cada vez mais que apenas com terapias de choque. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

BARBÁRIE VERSUS CIVILIZAÇÃO

Já ouviram falar em black friday?

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

UM POEMA DE JOSÉ SESINANDO



ONDE?

Baden-Baden, Spitzberg, Salzburgo?
Acapulco, Vera Cruz, Pequim?
Thebas, Sebastopol, Hamburgo?
Nova Deli? Não? Ou Nova Iorca? Sim?
Saint-Etienne, Boston, Johanesburgo —
apartheid à parte em tempo inteiro?
Kansas City, Termópilas, Nanterre?
Rejkiavik, Puchóv, Iowa, Erre
de Janeiro?
Cartago, Liverpool, Fez ou Almodôvar?
Londonderry, Santarém, Amsterdam?
Nova Deli? Sim? Ou Nova Iorca? Nam?
A terra de Bolívar (ou, para rimar, Bolôvar)?
Postojna, Cairo, Loano, Figueiró
dos Vinhos? Reno, Colares, Chianti, Dão?
(Muito obrigado, mas só à refeição.)
Tanganika, Massachusetts, Pampilho-
sa? Paris, Bornéu, Kalamazoo?
Nova Deli? Não? Sim? Ou na O.N.U.?
Brza Palanka? Bu Ngem? (Faça favor
de repetir.) Bu Ngem? Brza Palanka?
Bridgehead, Brest, Salamalanca?
Alhos Vedros, San Marino, Andorra?
Liechtenstein, Sarre, o Corredor
de Danzig, mesmo que não corra?
Onde, onde, onde? Dizei-me, por amor
de Deus — antes que eu repita a rima
de forma mais justa (e malcriada, inda por cima).

1956

José Sesinando, in Obra Perfeitamente Incompleta, edição de Abel Barros Baptista e Luísa Costa Gomes, prefácio de Abel Barros Baptista, Edições Tinta-da-China, Junho de 2018, pp. 103-104.

PROPUS-ME SER ALGUÉM



Propus-me ser alguém,
ter e dar
pessoa e horizonte
próprios.

Mendiguei até conseguir um quarto vivo.
Assinei o ar, as mortalhas
e a escritura.
Organizei a luz, as horas,
ditei as hierarquias,
movi os sítios, as pontas,
os elementos sossegados,
os movimentos e os ruídos.
Abri a porta
e entraram liturgias
e o coro
e o azar
e rodearam-me.
E entrou o solista,
enrodilhou-me num fio azul,
deu-me uma condição oculta de fábula
e um ofício visível e errante
de erva percorrendo as criaturas.
E a festa brilhou sobre a sua música
ao longo do dia.
Porém a noite chegou
e flutuei  só entre penumbras e inimigos.
Madeiras, torneiras,
carpetes, recantos, cristais,
todas as coisas
ergueram suas leis,
suas dinastias,
suas singularidades,
devorando
o meu argumento de vida,
o meu som,
o meu calor,
arremessando-me.
Atrás de mim cerrou-se a porta.

Amelia Biagioni (n. Gálvez, Argentina, 1916 - m. Buenos Aires, idem, 2000), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 75-76.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

NO PASA NADA


79 mortos confirmados, centenas de desaparecidos, mais de 1000 desalojados. É o que vem nas notícias. Trump, o presidente dos afectos lá das Américas, aproveitou para fazer política do assunto. Um pouco mais a sul, a Amazónia está sob ameaça. A ganância para proveito de alguns há-de dar cabo de todos, mas não se passa nada. O clima está na mesma, é tudo conversa de cientistas malucos e de ambientalistas fanáticos. 

CAMPO DE TRIGO COM CORVOS




Porque há que aproveitar até ao final do fogo
            aquele que sempre quis aquecer o submerso
e a tristeza atinge o ponto
            que afugenta o espírito e aliena a mão,
pinto com estertores.

Dentro do Ser único
sob o longo pressentimento azul
quero traçar um longo caminho duplo
                                                                  vermelho acaso
quero soltá-lo assim fluindo entre canções verdes
     quero estender
                         ardor imenso reinando e ressoando
o salmo o ouro vitorioso da vida

Logo o vento é anátema
a solidão retorce-se
a obscuridade assalta
surge infinito da medula
                              o negro
                              foge perverso traidor…
Apavorado
o enorme amarelo intromete-se oblíquo rebentando.

O negro aberto em vis asas
               ronda o espanto candente
                        sobe cresce extermina céu
foge a estrada cárdea
       foge de revés seu duplo uivo verde
               foge o espaço a saída a razão
não posso deter os corvos…


Amelia Biagioni (n. 1916 – m. 2000), versão de HMBF. Professora de literatura em Gálvez, mudou-se para Buenos Aires em 1955. Foi amiga de Alejandra Pizarnik e de Olga Orozco. Começou a publicar poesia sob pseudónimo, em jornais e revistas, passando a usar o nome de baptismo apenas na década de 1950. O primeiro livro surgiu em 1954: Sonata de soledad. Discreta, esquiva, acabou por publicar apenas sete livros. Estaciones de Van Gogh (1984) foi um deles.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

E NELE TODO O SANGUE SE CONCENTRA


É provável que uma das características mais comuns na poesia portuguesa das duas últimas décadas seja o discurso torrencial, de pendor narrativo, muitas vezes repleto de referências, acumulando alusões e imagens mais ou menos agressivas, mais ou menos irónicas. A partir de certa altura, o poema dito longo e palavroso vulgarizou-se. Com ele, o fogo-de-artifício da retórica, contaminado de cinismo aligeirado, mais fiel à ironia do que à corrosão satírica. Daí que o espanto não se contenha perante "poeta novíssimo" inclinado para a brevidade, anunciando-se desde logo “uma escrita contra o seu tempo a que convém estar atento”. É paleio de crítico que raras vezes se dá ao trabalho de explicar o que seja isso do tempo de um poeta. Alargando a panorâmica, facilmente daremos com uma diversidade que rouba à excepção a excepcionalidade. Neste tempo que é o nosso poetas há que talvez passem despercebidos em certos círculos, porventura marginalizados por quem não os julga dignos de apreço ou simplesmente por eles próprios se revelarem despreocupados com defumações vindas de quem não consegue olhar para o mundo senão através do buraco da fechadura. 
   João Pedro Mésseder (n. 1957) é exemplo de poeta com obra vastíssima, com inúmeras incursões pela poesia para a infância que em nenhum momento desleixam a exigência da palavra poética. Tratando-se de poeta que vem privilegiando de há muito as formas breves, por vezes brevíssimas, talvez possamos também dele dizer que escreve contra os do seu tempo. Porém, neste caso a concisão não tem merecido a mesma atenção que se presta a novíssimos cultores do epigramático. Em E nele todo o sangue se concentra (Poética Edições, Julho de 2018) reúnem-se poemas de índole muito diversa, tanto no tema como na forma. Continuando a preferir a brevidade, Mésseder envereda por vezes pelo poema em prosa. Em dois desses poemas, De Ofir a Esposende, em voo de olhar e Ribeira do Porto, aproxima-se de um certo paisagismo que rareia na nossa poesia. Os lugares são nesses como noutros dos seus poemas um estímulo para o olhar que motiva a escrita, por vezes alcançando divertidas soluções: «Funerária, / covil de ladrão, / morada de herói comunista, / esquadra de polícia, / bordel, / padaria, / loja de fruta e legumes, / salão de teatro - / assim fez Deus / a rua do Paraíso» (p. 40). 
   Como bem nota Maria Madalena M. C. Teixeira da Silva no posfácio, «entre a diversidade de objectos poéticos que estes poemas abordam, as mulheres ocupam um lugar muito significativo» (p. 73). Mulheres anónimas ou nem por isso, por vezes à laia de homenagem como nos três poemas intitulados Alejandra Pizarnik, o terceiro dos quais ensaiando uma comparação da poesia da poeta argentina com a poesia de Sophia, ou no poema dedicado a Inês Lourenço, ou nos dois em diálogo com a pintura de Joana Rego, ou nos poemas Silvana Mangano, Vera Mantero, Charlotte Rampling, Isabelle Huppert. Mas há ainda o olhar deleitado de Rapariga, o discurso de pendor social no poema Corpo.Mulher, a elegia A uma rapariga morta, as mulheres conversando e as mulheres sós do belíssimo díptico Comboio da noiteAs homenagens estendem-se a alguns escritores, tais como Camilo Pessanha, Manuel António Pina, António Ramos Rosa ou o Herberto Helder que adivinhamos no circunstancial Escrito no metro, a caminho de casa: «Véspera do Dia de Portugal / na livraria. / Está com oitenta e três, / se calhar não consegue / escrever outro - / comentava a empregada / para a cliente. / Não fosse entretanto morrer, / também eu fui levantar / A Morte sem Mestre / que tinha encomendado. / Vinte e dois euros: ainda / me ficou caro / o livro de instruções» (p. 33). 
   Arguto e sensível é o olhar que se esconde por detrás destes poemas, que pela concisão e aparamento lembram-nos por vezes a poesia de Carlos de Oliveira. Principalmente na sequência final de quinze poemas intitulada Flor sanguínea. João Pedro Mésseder é um poeta discreto, não necessita de muitas palavras para tocar com profundidade temas complexos como o da morte e o da finitude, na relação que têm com a ideia de eternidade. Os seus poemas sugerem uma busca da beleza que se descobre no pormenor, observam a luz e a sombra que paira sobre todas as coisas e reflectem essa duplicidade sem a enclausurarem num axioma religioso ou político: «Se a beleza que persegue / transporta em si, como sempre, um pouco da morte // que veio fazer aqui? / Não dirá o que procura?» (p. 18) Ainda do posfácio, a ideia de um olhar para fora que sustenta o poema. Contra olhares ensimesmados, caídos no abismo de um eu lírico que raramente não redunda em mera encenação.

NÃO VEJO, JURO


A televisão portuguesa é cada vez mais aquele cão pisteiro treinado à nascença para farejar obsessivamente o mais leve odor a cadáver.


Carlos Natálio, Ordet, aqui.

CAHILL U.S. MARSHAL (1973)



   J. D. Cahill é um pai ausente, ossos do ofício. É o preço a pagar por trazer ao peito a estrela de Marshal. Viúvo, ficou com dois filhos a cargo. Quando se afasta, deixa-os ao cuidado de terceiros. Danny, o mais velho, tem 17 anos. Tenta atrair a atenção do pai da pior maneira, deixando-se levar pela conversa de um assaltante de bancos e sua respectiva pandilha. Billy Joe, cinco anos mais novo do que Danny, é mais consciencioso e tenta chamar o irmão à razão. É neste ambiente de drama familiar que decorre Cahill U.S. Marshal/Justiça de Cahill (1973), western de Andrew V. McLaglen (n. 1920 – m. 2014) com John Wayne no papel principal. A homenagem ao mestre John Ford, de quem McLaglen foi assistente, é óbvia, quer pela presença de Wayne e outros actores da trupe fordiana, como Harry Carey Jr. ou Hank Worden, quer pela dimensão moral que liga as personagens. Outros filmes do mesmo realizador, tais como Gun the Man Down (1956), Shenandoah (1965) ou mesmo o mais cómico The Rare Breed (1966), já tinham explorado o núcleo familiar enquanto mote narrativo. Neles, o valor da família surge em linha de colisão com as obrigações profissionais, com o desespero de causas sociais ou com as privações materiais que levam ao crime e à aventura. 
   Há uma nuvem de ligeireza a pairar sobre o cinema de McLaglen, sempre bem-intencionado e com uma atitude moralizante que não chega a ser insuportável. O que torna os seus westerns deveras interessantes é o modo como debaixo dessa nuvem trovejam dilemas de consciência naturalistas, prendendo-nos ao desenrolar da história com expectativas que não acabam goradas. Por exemplo, neste Cahill há um paradoxo que não passa despercebido. Cahill é um agente que coloca a lei acima da família, entrega-se de tal modo ao trabalho que negligencia a educação dos filhos. Tem consciência disso, assume-o e procura redimir-se como sabe. Pouco e mal. Mas a determinada altura há um pormenor que faz a diferença. E se subitamente os filhos de Cahill surgissem entre os criminosos que ele persegue? É o tipo de situação, sem tempo nem espaço, que tantas vezes se coloca e para a qual não existem respostas fixas. Deverá o dever profissional sobrepor-se ao dever parental? Perante os filhos, prevalecerá o Cahill U.S. Marshal ou o Cahill pai? Serão ambos conciliáveis? Merecerão os filhos o perdão que outros criminosos jamais mereceram?
   Montado o palco da forca, prestes a serem executados pelos crimes que não cometeram, quatro homens que também não são inocentes, porque no western nunca existem inocentes, aguardam que a justiça de Cahill seja feita, desconhecendo que é Cahill quem tem a corda na consciência. Tratando-se de um género popular, que, ao contrário do que muitos julgam, não se esgotou na década de 1950, o western tem este mérito de oferecer com naturalidade exemplos de situações limite nos âmbitos da ética, da axiologia, da moral, da política, entretendo tanto quanto fazendo reflectir. 
   Andrew V. McLaglen pode nunca ter sido tão genial quanto John Ford, pode nunca ter alcançado a densidade do mestre no enquadramento das suas personagens - apesar do magnífico plano de perfil do pai com o filho ao fundo -, mas pressente-se nos seus filmes a mesma jovialidade, a mesma vontade para reflectir o humano sem menosprezar a regra do entretenimento. A figura do herói, neste caso como em Shenandoah, é um pai, nada deve ao estereótipo do marginal, do justiceiro isolado ou do xerife implacável. É um herói convencional, tão convencional quanto qualquer pai nos tempos do Velho Oeste ou nestes nossos tempos desprovidos de heróis. Podemos afiançar que o desempenho de John Wayne está ao nível dos melhores que outorgou à posteridade. Pretende homenagear os homens que tentaram impor a lei onde ela não existia, colocando um deles no limbo daquilo a que damos o nome de justiça por a determinada altura o valor da família ter sido mais forte.

UM POEMA DE AMELIA BIAGIONI



MORTE

Ó peixe, vi-te protestar silenciosamente,
espantado por morreres assim, arrancado
à felicidade. Ó estilizado,
cinzento suspiro, na areia dolorosa.

Ai, tua quietude adensa, luminosa.
E entretanto, teu vazio delicado
gira no rio, que te chama, ondulado
por esse giro e não por outra coisa.

Que Idade Média expira no teu perfil,
e no teu manto prateado, no teu rabo
e nome de rei?

Dói ser observado pelo teu olho inocente.
Dou-te a minha solidão como onda,
Imóvel peixe-rei.

Amelia Biagioni (n. Gálvez, Argentina, 1916 - m. Buenos Aires, idem, 2000), traduzido por HMBF a partir da versão coligida por Marta Ferrari, in Poesía Argentina - Antología esencial, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 71.