Um cliente procura livros de Charles Bukowski. Só temos disponível A sul de nenhum Norte, o Mulheres talvez se arranje com alguma dificuldade. Mas o cliente já tem o único livro de Bukowski que existe na livraria. Após uma breve troca de palavras reveladoras de um gosto dedicado pelas aventuras de Henry Chinaski, à falta de livros, acabamos a sugerir um weblog e um filme.
Sábado, 31 de Janeiro de 2009
FOGO DE ARTIFÍCIO
Houve um tempo em que as notícias começaram a encurtar, os jornais encheram-se de textos curtos e gigantescas fotografias. Quanto mais superficial, melhor. As pessoas não tinham tempo para ler e os jornais ofereciam toda a notícia condensada em títulos bombásticos. Houve um tempo em que os jornais pensavam poder sobreviver de textos de opinião assinados por gente mais ou menos credível, mais ou menos sedutora aos olhos de um público dividido entre a polémica e o discurso politicamente correcto. Houve o tempo dos brindes, das ofertas, das promoções, os jornais transformados em rifas e os quiosques em quermesses. Jornalismo propriamente dito, muito pouco. Notícias desenvolvidas e objectivas, artigos informativos, investigação e reportagem, quase nada. Impõe-se o humor, é preciso ter graça, escrever de uma forma sedutora, ou seja, ligeira, é preciso ter ritmo, o ritmo de quem leia um texto com o mesmo esforço com que olha, sei lá, uma paisagem campestre, patinhos a bailar no lago de um jardim. Tudo isto reunido deu em artigos opinativos graciosamente breves e ligeirinhos, geralmente sustentados por um brinde qualquer anunciado em primeira página. O escândalo, seja qual for o escândalo, é já só um pretexto para a opinião espirituosa. A investigação é um desinvestimento. O que se pretende é toda a gente a falar de um assunto sobre o qual ninguém sabe nada de concreto, pois, em boa verdade, nada há que possa ser revelado. Apenas fogo de artifício para ser comentado por quem se deixe apanhar pelo êxtase da opinião.
Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009
L'HOMME DU TRAIN
Como num western dos antigos, com slide guitars e harmónicas antigas ressoando numa evocação confessional, um homem misterioso chega num comboio a uma cidade desértica. O seu semblante observador anuncia os preparos de um crime. Patrice Leconte oferece-nos uma pandilha de pensadores. O homem misterioso sabe alguns versos de cor, o seu melhor amigo é pintor, encontram-se em museus e discutem pintura. A traição está prestes a acontecer. Não há pandilhas sem traidores, o cinema há muito no-lo ensina. Mas o homem do comboio deita-se na cama a fumar, olha o tecto e pensa. Foi acolhido, foi colhido pelo acolhimento. Gosta de casas de estilo antigo porque têm história, quer experimentar umas pantufas, senta-se ao piano, descobre numa inesperada cumplicidade a vida que nunca teve, a vida que poderia ter tido. Do outro lado, do lado oposto ao homem do comboio, um velho professor de literatura procura alguma afirmação no termo da vida. Morrerão ambos a olhar um para o outro, à distância, mas como se nunca tivessem sido outra coisa. Morrerão chegando a si próprios, depois de toda uma vida partindo, fugindo, negando-se. Bela forma de morrer. Quem disse que os outros também servem para nos encontrarmos?
Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009
REPÚBLICA
Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009
COMÉRCIO TRADICIONAL
Sábado, 24 de Janeiro de 2009
AUTO-AJUDA
É provável que as pessoas que vão passear para o centro comercial aos sábados à tarde, vestidas de fato-de-treino ou com aquilo a que a minha falecida avó chamava o fato de domingo, sejam como os consumidores dos livros de auto-ajuda, esoterismo e literatura de inspiração (género difícil de descrever que inclui material tão diverso como romance mediúnico e aforismos de pacotilha). No fundo, as pessoas não passam os sábados à tarde no centro comercial com a intenção de consumir. Elas pura e simplesmente vão passear. Algumas até tiram fotografias e a gente consegue imaginá-las, daqui a uns anos, folheando entre família os álbuns lá de casa, mostrando aos netos aquele dia inesquecível em que foram passear-se no centro comercial. Assim são os consumidores dos livros de auto-ajuda e esoterismo. Não procuram mais do que distrair as apoquentações da vida quotidiana lendo tipos que estão sempre a dizer-lhes que são o máximo. A intenção destes leitores não é bem consumir sabedoria, é mais distraírem-se do saber com tão magníficos quão oportunistas tratados de pseudo-conhecimento.
INSCREVER
Há quem tome posição e quem prefira não tomar posição alguma. Eu prefiro sempre quem toma posição, independentemente da posição que tome ser igual ou diferente da minha. Também há quem confunda tomar posição com expor-se e não tomar posição com reserva. Regra geral, ser reservado ou expor-se nada tem que ver com tomar posição. A diferença está em agir ou não única e exclusivamente em função de conveniências pessoais, em uma tomada de posição ser mais ou menos útil a quem resolve declarar e assinar as suas convicções. Mas as pessoas são naturalmente pretensiosas. O gene egoísta faz estragos. Por isso escudam-se nos subterfúgios, sentam-se confortada e conformadamente no jeitinho, dizem que não têm paciência, que já deram para os peditórios do mundo. Mal se apercebem de que são a esmolinha desse mesmo mundo em que rastejam e definham.
DO LONGE
Já nada é longe neste mundo. Por vezes, sinto uma enorme nostalgia do longe. Ou, pelo menos, de um tempo em que tudo parecia além da nossa vontade. Houve um tempo em que todos os corredores pareciam túneis intermináveis, os areeiros eram extensíssimos desertos, houve um tempo em que de casa à rua era uma aventurosa viagem. Nesse tempo, eu era um viajante destemido. Agora é tudo já ali. É tudo perto. E eu aqui perto de tudo, tudo ali perto de mim. Paradoxalmente, este perto revela-se cada vez mais distante. Talvez por culpa da falta de tempo, talvez por culpa de uma vontade sedentarizada, talvez por culpa de nada, talvez por talvez o perto está cada vez mais distante. Já nada é longe neste mundo. Porém tudo parece ser cada vez mais distante. À velocidade com que os espaços são hoje percorridos corresponde uma desumanização dos percursos. Os itinerários espirituais deram lugar aos saltos epistemológicos, os saltos epistemológicos transformaram-se em transportes tecnicamente possíveis. O sonho da técnica arruinou a ilusão da fé. Há quem viva cheio de vazio e quem morra esvaziado, há quem vá vivendo. Pessoalmente, sinto uma enorme nostalgia do longe. Pelo menos, quando o longe era longe eu podia ser um destemido viajante.
Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009
MEIN KAMPF
O último cliente de ontem deixou-me curioso. Parecia-me um pouco perturbado, com aquele ar que eu diria compassivo, embora algo decadente, colocando questões estranhíssimas. No entanto, as questões faziam todo o sentido. Um exemplo: pegou num exemplar de uma pequena obra de Almeida Garrett exposta junto aos livros de apoio escolar e perguntou, apontando para os livros em saldo, por que razão era aquela obra mais cara do que os livros em saldo. Realmente não se justifica. As razões apontadas pelo cliente foram o facto de tratar-se de um livro muito mais pequeno que todos os outros, com menos páginas e, consequentemente, muito menos pesado. Fiquei a matutar na possibilidade dos livros serem vendidos a peso, tal como sucede com a fruta. Pouca coisa distingue ambos os produtos. Por sua vez, o primeiro cliente de hoje já não era novidade. O velho admirador de Hitler regressou à loja, ostentando uma longa gabardina negra semelhante à dos antigos oficiais da Gestapo. Queria saber se já vendíamos o Mein Kampf e mostrava-se bastante inconformado perante a possibilidade da edição do livro ter sido proibida. A grande frustração dele era pode comprar o Das Kapital ou O Livro Vermelho (não o da Pomba-Gira, mas o do Mao), e não poder adquirir a luta do outro. Realmente não há justificação para uma situação destas. Vendidos a peso, estes livros podiam ser a salvação de qualquer livreiro.
Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009
PRIVADO
DAS FINANÇAS AFECTIVAS
Nos tempos que correm, nada há mais politicamente correcto que o politicamente incorrecto. A liberalização dos costumes, o fim de todas as vanguardas, o esgotamento das ideologias, o esbatimento das fronteiras físicas, geográficas e íntimas, o culto da sedição, da marginalidade, do diferente, a cultura do vazio, do modal, a efemeridade radical dos acontecimentos, condicionada pelo (i)mediatismo da informação, a estética do espalhafatoso, do negligé, do cool, do Kitsh e da décadence, o gosto pelo excesso e pelo risco, o pavor do banal, o império da imagem, a confusão entre o ser e o ter, o ser-se pelo que se parece, a verdade transformada em reality show, a privacidade metamorfoseada numa intimidade transmissível, a isso levou. O mais cool da turma é aquele que parecer mais parvo, mais superficial, mais indiferente, mais estou-me nas tintas. É aquele que parecer mais radical, pois a adrenalina comanda as operações. Para o bem e para o mal. Para o mal quando o politicamente incorrecto enferma da síndrome machadiana: vocês sabem do que é que eu estou a falar. — É muito frequente, por exemplo, ouvirmos alguém gabar-se da sua frontalidade: comigo é mesmo assim, a mim não me calam, digo-o com toda a frontalidade. No fundo, esta frontalidade fica-se, as mais das vezes, por um inconsequente auto-elogio. — Para o bem quando o politicamente incorrecto, ainda que arrastado pela conveniência, serve para a solidificação da tolerância ao que é, ou parece ser, diferente. Hoje é muito conveniente mostrar-se inconveniente, no sentido de ousado, destemido e directo. Eu não devo nada a ninguém; não tenho segredos. — diz-se e apregoa-se. Isso vende, porque cria nas pessoas uma espécie de familiaridade que advém de um suposto contacto com a intimidade do outro. E mais: dá ares de heroísmo, de forcado dos interesses instalados. É precisamente essa a imagem que os políticos gostam de passar passando por cima da verdade que lhes guia as intenções, recalcando os preconceitos que procuram moralizar e legislar de forma a não se fazerem ver tão naturais quanto as demais bestas que se deixam normalizar. Permanecem actuais muitas das perorações do malogrado Marquês de Sade: «criaturas que somos da natureza, tal como as plantas e os animais, a verdade é que estamos aqui porque era impossível não estarmos» (A Filosofia na Alcova). A americanização do mundo, a chamada hegemonia, já mais flácida que hirta, do capitalismo, resulta deste tipo de falácias. Repare-se na forma como a vida dos políticos parece ser vasculha até ao ínfimo pormenor. E quem diz políticos diz figuras públicas, mesmo aquelas de quem não esperamos mais do que uma capa escandalosa numa revista do coração. Os próprios se predispõem a tal e fazem disso bandeira, para mostrarem que estão limpos quando, na realidade, são feitos do mesmo estrume que dá vida ao arvoredo. Parece paradoxal, mas não é. Se fosse, não haveria problema. Mas não é. Repare-se mais atentamente: o politicamente incorrecto seria a preservação da intimidade. Mesmo sabendo que a "intimidade" que se mostra é uma "intimidade" construída, artificial, ilusória. É aquela que as pessoas estão à espera de ver, ansiando com ela se identificarem. Noutros tempos dava-se exactamente o contrário. Nós vamos ter de nos habituar a isto mesmo, porque hoje em dia é-se mais ou menos credível perante o auditório quanto mais eficaz for esse jogo retórico da intimidade e do heroísmo. Haverá limites para isso, é claro. Nenhum herói se faz por si mesmo. Um herói só o é na medida dos olhos dos outros. É essa medida que impõe os limites. O que hoje possa ser politicamente incorrecto está para lá desta mesura. É o incomensurável, é aquilo para o qual não há medida. Por isso é incorrecto. Por exemplo: pensar pela respiração, não temer a contradição, ser poético. Creio que a mendigagem é politicamente incorrecta, assim como certas formas de violência, alguma violência sexual, mesmo que aceite, propagada, comummente praticada e legitimada pela prática. A Olga desta falsa novela de Fernando Esteves Pinto é, à sua maneira, politicamente incorrecta. Não o homem que a desenha, que a conta, que no-la dá vestida de uma nudez difícil de costurar com palavras. O homem, o narrador, limita-se a mostrar-nos a mulher, tanto quanto lhe é possível, passada pelo crivo dos seus prejuízos masculinos. Alberto Hernando já nos tinha advertido de que «o imaginário social que o homem tem da mulher está restringido a uma função binária: mãe (procriar)/puta (prazer). Duas figuras funcionais distintas que partilham uma mesma e neutra morfologia (a cona) que as identifica como género» (Cunnus — Repressão e insubmissões do sexo feminino). Só isto justifica que a cona permaneça um lugar de equívocos masculinos aparentemente inultrapassáveis. Repare-se como nos episódios de Privado o autor tenta ultrapassar esses equívocos esforçando-se por atribuir à cona um lugar simbólico que transcende a conflitualidade expressa na narrativa, uma conflitualidade que oscila entre a fantasia de uma vida a dois renovada e a realidade de um casamento falhado. A revitalização amorosa a partir da prática sexual não é um tema novo, assim como a procura de um fim para as restrições que frustram tantas uniões maritais. Neste caso ela limita-se a sair do domínio onírico em que é vulgarmente inscrita e mostra-se-nos enrodilhada em reflexões, mais ou menos desencantadas, sobre os constrangimentos, os desencontros emocionais, as rotinas emocionais, a "pornografia doméstica" — expressão toda ela um programa —, a farsa e a monotonia de um casal em decadência.
(...)
Fernando Esteves Pinto, Privado, prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho, Canto Escuro, 2009.
Fernando Esteves Pinto, Privado, prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho, Canto Escuro, 2009.
ANALECTOS
Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009
ZUI HAO DE SHI GUANG
Em português, Três Tempos. Histórias em épocas diversas (1966, 1911, 2005) sobre temas sem tempo. Cartas que nos arrastam para uma busca silenciosa. Cartas que são mapas sentimentais. Não penses que estarão à tua espera quando regressares. Na segunda história, os diálogos mínimos do filme dão lugar à mudez das personagens. Excepção feita a uma cantora de bordel que vem confirmar a regra de um cinema que faz do silêncio a sombra de uma singular luminosidade. O que fica para lá do tempo? Dois corpos protegidos por um guarda-chuva, de mão dada, alguém que volta àquilo que era depois de ter ultrapassado a doença, a conformidade à regra ultrapassada pelo fulgor da paixão. «Quero vender a minha alma. Não quero passado nem futuro». Um tempo de amor, um tempo de liberdade, um tempo de juventude. E o que fica para lá do tempo? Uma mensagem enviada por telemóvel? Um e-mail?
KUAILE GONGCHANG
Em português, Fábrica de Prazer. Um bairro em Singapura, no distrito de Geylang, transformado numa orgia de néones a iluminar noites de uma luxúria que em nada se distingue do comércio das carnes. Nenhum prazer sobra no estado nervoso que a mão trémula da prostituta denuncia, nenhum prazer na solidão e nas lágrimas de quem vende e compra corpos. Não só as operárias do sexo, desgastadas psicologicamente ao limite de uma exaustão indisfarçável, mas também o jovem nervoso que a elas recorrer para perder a virgindade. No final, sobram resquícios de afecto muito ténues. Pequenas pontas às quais a sobrevivência se agarra desesperadamente. Como uma puta que vai às putas para se esquecer, momentaneamente, da sua condição de puta.
Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009
DO SENTIDO
A poesia ocupa na minha vida o lugar que a religião, a ciência ou a filosofia ocupam na vida de outras pessoas. E quem diz religião, ciência e filosofia, pode também dizer futebol, consumo, sexo. É tudo uma questão de sentido. Andamos todos à procura de um sentido para as nossas vidas. Procuramo-lo em lugares diferentes. No entanto, todos procuram esse sentido. Mesmo não sabendo que o procuram, procuram-no. E procurar pode não ser mais do que tentar disfarçar a ausência de sentido. Porque no fundo não há sentido algum para ser encontrado. O sentido está todo no acto de procurar, é acção, é fazer. Para mim o sentido é poesia.
Domingo, 18 de Janeiro de 2009
NÃO ESTÁ NAS NOSSAS MÃOS
Uma árida, absoluta e incomensurável solidão. Essa a marca de quem nasce ao contrário e, como todos, ruma direito à morte. Morrer porque morrer não tem avesso, é um ponteiro marcando a passagem do tempo, lembrando que é preciso viver a morte antes que a morte nos viva. Se os mestres ensinam num conto ser o absurdo a melhor forma de dissipar as dúvidas de uma árida, absoluta e incomensurável solidão, porque por mais que inventemos hipóteses nenhuma escapará ao jugo da realidade, num filme tudo isso pode ser transformado em telenovela existencial com romances do coração a marcarem o ponto. Limo as arestas ao discurso e penso no breu que tingia Se7en, em como o autodomínio acabou crucificado num arroubo de irascibilidade. Não está nas nossas mãos. Penso na farsa oferecida a Nicholas Van Orton, o bem sucedido empresário com a mais entediante das vidas. Não estava nas suas mãos desmascarar a farsa, tudo lhe parecia escapar para um sem sentido desesperante. Penso no niilismo de Fight Club, em como o vazio pode encontrar uma aparente resolução na prática da violência. Não está nas nossas mãos o que nos rasga os punhos. Penso em Panic Room, nas obsessões com a segurança subitamente desfeitas por um maldito acaso. Não está nas nossas mãos, os acidentes fiscalizam-nos a toda a hora. Penso em Zodiac, uma história magnífica sobre a busca incessante de uma verdade improvável. Improvável porque não está nas nossas mãos chegar à verdade. Queira ela fugir-nos, fugir-nos-á. E agora penso no curioso caso de Benjamin Button, um homem nascido ao contrário dos outros, nascido velho e rumando, como todos os outros, a caminho da morte. Morrerá com um corpo de bebé, nascido que foi com um corpo velho. As obsessões dos filmes de David Fincher evocam constantemente o que não está nas nossas mãos. Neste filme mais recente elas, as obsessões, nomeadamente a obsessão pela vida, evoca a morte, a morte num tiquetaqueado alegórico, é certo, mas ainda assim cruamente realista. Os acessórios técnicos, a caracterização impecável, é apenas um pormenor de quem pode dar-se ao luxo de filmar com recursos. Para lá dos acessórios, mostra-se a vida no que jamais estará nas nossas mãos: a morte. Talvez a palavra destino seja a chave para todos estes filmes de David Fincher, uma chave agora filmada em registo mais sentimental, é verdade, mas não menos irónico que no passado. Porque o sentimentalismo que paira sobre cada cena de The Curious Case of Benjamin Button – do velho que foi atingido sete vezes por um raio à reflexão sobre a possibilidade de um acidente não ter sucedido – é irónico na sua essência. Ele diz-nos de forma ligeira a mais pesada e rigorosa das filosofias: não está nas nossas mãos. Dentro de um cenário destes, ser livre é o quê? Tomar decisões, viver, ou seja, arrancar à morte o gozo de ter experimentado o naufrágio, o prazer imenso, explosivo, das aventuras marcantes. Tudo o que fica, o pouco que está nas nossas mãos, é entregarmo-nos a esse naufrágio. Sentando a alma a olhar o nascer sol, fazendo o corpo ao mar, desbravando o mato do coração. Porque outra coisa não está nas nossas mãos.
Sábado, 17 de Janeiro de 2009
EFEITO BORBOLETA
Talvez o caos não exista, talvez aquilo a que chamamos caos seja apenas a inconsciência das regularidades que jazem adormecidas debaixo de frágeis, por muito sofisticadas que pareçam, teorias. Olhemos, a título de exemplo, a sobrecapa (à esquerda) de Efeito Borboleta. O nome do autor e o título do livro destacam-se pelo relevo e pela cor. Um branco fluorescente no caso do nome do autor, um amarelo berrante no caso do título. No entanto, o fundo impõe-se ao olhar como antigamente se impunham os espalhafatosos padrões dos reposteiros das casas aristocráticas. Nada nesta sobrecapa nos atrai, antes nos repele. Tentamos uma segunda vez. Despimos o livro da sobrecapa e deparamos com a sobriedade de outros tecidos. Agora o branco e o preto conjugam-se com belíssima clareza. A borboleta no canto inferior direito da capa (à direita) ganha vida, liberta-se dos ruídos que antes a rodeavam e voa na direcção de outras histórias. A história é outra quando arrancamos a um livro a ostentação de sobrecapas manhosas, quando respeitamos o minimalismo dos textos deixando o olhar cativar-se pela sobriedade das formas. A sobrecapa resulta de uma teoria sofisticada da atracção, alguém num qualquer departamento de marketing ou de design, provavelmente baseado nas matemáticas da sedução comercial, achou que ficava bem a um livro destes uma horrorosa cortina com cores aos berros. Jazendo adormecida debaixo da teoria, a capa tem a consistência de uma esplendorosa ordem. Simples, forte, eficaz como a teia de uma aranha onde certo dia o voo daquela borboleta foi interrompido. No miolo, o autor reuniu contos, pequenas histórias, micronarrativas. Alguns destes textos, como informa uma nota final, publicados nas extintas páginas do DNA, posteriormente antologiados no weblog O Verso dos Versos, surgiram de diálogos com poemas de vários autores. Outros serão fruto de conversas com o mundo e com a imaginação. Dentro dos contos encontramos personagens de índole diversa, desde o matemático Edward Lorenz, precursor da teoria que ficou conhecida como efeito borboleta, ao poeta Wallace Stevens em início de carreira, gente anónima, congressistas perdidos em caóticas conjecturas sobre a sua condição existencial, advogados «às voltas com a culpa» (p. 46), melómanos, um argumentista tentando a sorte em Hollywood, um romancista desbloqueado na criatividade, Raymond Carver ele mesmo, um arrumador de carros, entre outros. Liga todas estas personagens uma bruma que, sem se aclarar, acaba sendo sugestionadana texto, por vezes com envios para factos históricos facilmente identificáveis. Veja-se o caso do conto A Onda, onde alguém que começa por se lembrar «do dia em que quase morreu afogado» (p. 65) se confronta com a pequenez das suas memórias ao ouvir na TV a notícia de um tsunami ocorrido «no outro lado do mundo» (p. 66). Passeiam-se estas personagens por diversos lugares: um bar do velho Astoria, uma aldeia da raia alentejana, a Gulbenkian, Charing Cross, uma tasca como tantas outras, a par de lugares imaginários e utópicos. E há um conto, um dos melhores, que se passa todo ele num atendedor de chamadas. Os contos de José Mário Silva (n. 1972) são extraordinariamente cativantes quando se aventuram por esses territórios literários mais experimentais. Contos como Atendedor de Chamadas, Catorze Letras, Coisas Simples, Coisas Complexas ou Cinco Biografias e uma Tragédia resultam de belos exercícios literários. Os espaços oníricos ligam-se à realidade através de pontes indefinidas, linhas muito ténues os separam do espaço concreto da vida comum. São frequentes as convocações para um «território incontrolável dos sonhos» (p. 39), tornando-se isso evidente no conto intitulado Quatro Sonhos. Há uma saborosa indefinição entre a realidade e o sonho em algumas destas narrativas, o sonhado pode aparecer como parte integrante da realidade mas a realidade não deixa de ser parte integrante do sonho. Podíamos falar no chamado realismo mágico de Pedro Páramo ou na ficção borgesiana, mas o autor troca-nos as voltas quando, noutros textos, resolve enveredar por algumas derivações neo-realistas (casos, por exemplo, dos contos Ponto de Interrogação e IC-19), opta por comparações de gosto discutível - «gruas em repouso, como braços flácidos» (p. 28); «o acordar violento, como quem regressa ao princípio de tudo» (p. 38), «preparava a cana como quem veste um filho para a primeira comunhão» (p. 103) – e deixa a pena resvalar para a metáfora mole - «os corvos (…) rasgavam o fundo das trevas» (p. 40), «a respiração da morte» (p. 59), «as sombras empurravam todas as coisas para o vazio da noite» (p. 76). Para o fim ficam alguns pequenos textos próximos daquilo a que se convencionou chamar poema em prosa e um acelerado conjunto de 38 micronarrativas, algumas, como a que a seguir se reproduz, entre o epigrama e o aforismo, de mão dada com Ramón Gómez de la Serna:
Fatalidade
O rosto que mereces está sempre noutro espelho.
Fatalidade
O rosto que mereces está sempre noutro espelho.
OS DIAS DO AMOR
Prefácio: Henrique Manuel Bento Fialho. 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Recolha, selecção e organização de Inês Ramos. Edição: Ministério dos Livros.
OS AMANTES
De mãos dadas,
abraçados,
costas nas costas,
separados até que a morte volte a uni-los,
vão os amantes.
Vão de mãos dadas
para que toda a gente veja:
já não são apenas olhos que se dão.
Já não são apenas dois rostos tranquilos.
De mãos dadas,
iludidos,
rastros da fome que a fome apagou,
abraçados,
eles seguem já mais secos que molhados,
desaprendendo os incêndios da paixão.
Abraçados e reinventados conforme cicios,
lamentos e sanções,
os amantes insistem,
costas nas costas,
aguardando uma mão decidida nas coxas,
sob a coberta onde os pés espreguiçam
o sono pesado do amor.
Acolá respiravam,
agora ressonam.
Nada.
Separados,
como se o amor tivesse desistido,
os amantes sendentarizam-se.
Já não vão.
Ficam parados,
até que a morte torne a uni-los,
atracados no sono,
no cansaço,
no hábito de buscarem nos livros
o que apenas encontram na carne.
OS AMANTES
De mãos dadas,
abraçados,
costas nas costas,
separados até que a morte volte a uni-los,
vão os amantes.
Vão de mãos dadas
para que toda a gente veja:
já não são apenas olhos que se dão.
Já não são apenas dois rostos tranquilos.
De mãos dadas,
iludidos,
rastros da fome que a fome apagou,
abraçados,
eles seguem já mais secos que molhados,
desaprendendo os incêndios da paixão.
Abraçados e reinventados conforme cicios,
lamentos e sanções,
os amantes insistem,
costas nas costas,
aguardando uma mão decidida nas coxas,
sob a coberta onde os pés espreguiçam
o sono pesado do amor.
Acolá respiravam,
agora ressonam.
Nada.
Separados,
como se o amor tivesse desistido,
os amantes sendentarizam-se.
Já não vão.
Ficam parados,
até que a morte torne a uni-los,
atracados no sono,
no cansaço,
no hábito de buscarem nos livros
o que apenas encontram na carne.
UMA QUESTÃO DE FÉ
Um jovem motard acabou de ler um livro da Lesley Pearse e achou-o muito intrigante. Quer saber o que temos de livros interessantes. Antes de o dirigir aos livros interessantes ele dirigiu-se-me em consulta editorial: «Talvez me possa ajudar, gostava de saber o que é preciso fazer para publicar um livro, escrevo poemas e gostava mesmo de publicar um livro, mas não sei como, não sei o que devo fazer, não estou mesmo nada dentro do assunto, já enviei poemas para revistas, gostaram, mas não passou disso, o que posso fazer, preciso mesmo de ajuda…» O desespero do jovem poeta enervou-me. Há que evitar a todo o custo descompensações nervosas, mas a verdade é que o desespero do jovem poeta enervou-me. Porquê? Porque a minha vontade era dizer-lhe tudo o que não lhe disse. Em vez disso sugeri-lhe mais um livro interessante: Uma Questão de Fé, da Jodi Picoult.
Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009
CONTENTAMENTO
Não é justo pedir mais do que a neblina matinal entre os ramos desnudos das árvores, o milhafre atentamente pousado num desses ramos, o vento sacudindo-lhe a penugem lenta. Não é justo esperar mais do sino na torre da igreja do que um aviso marcado pelo rigor das horas, andar pelo átrio à procura de pegadas extintas, não é justo, sabendo que ali todos os casamentos começaram um dia a desfazer-se. E agora desnudos como os ramos das árvores, todos os casamentos com voos parados e lentos, atentos, aguardando presas frágeis à superfície da Terra. Como posso eu esquecer a ternura magoada da tua voz, Beth Gibbons, e os momentos que me proporcionaste quando ao lado dos ninhos assentei o cansaço e a mão percorreu o meu dorso como se fosse todo o corpo colocado na ponta dos dedos? Já tenho dito desse efeito. Por vezes o corpo concentra-se todo num dos seus chakras como uma pequena dor que se estende para lá das unhas, para lá das pontas dos cabelos, das pontas aparadas dos cabelos pousados sobre ramos desnudos, penteados pelo vento, lentamente. Era bom que seguíssemos os ensinamentos da canção, que fizéssemos o que temos a fazer escondendo o desespero, conseguindo esconder o desespero de ouvir a voz cansada da vida ressoando dentro dos pulmões. O som dessa voz ressoando com dentes afiados que nos comem os pulmões, porque há sons vorazes capazes de engolir corpos inteiros, há sons que nos engolem para dentro de mundos incognoscíveis, mundos inexplicáveis à luz de ciências exactas, há sons que nos devoram para dentro de danças estáticas, danças silenciosas como dedos caindo lentamente, muito lentamente, dedos pingando lentamente sobre as teclas de um piano velho. Há sons assim, como lâmpadas acesas em salas vazias, paredes brancas, candeeiros pendurados em tectos há muito abandonados à distracção do olhar, tocados apenas por ligeiras fendas e frágeis teias de aranha. Era bom que seguíssemos todos o ensinamento da canção, que fôssemos a sombra que segue os corpos em dias de luz, ou a sombra que se agiganta contra os holofotes, projectada nas esquinas dos prédios, uma perseguição num filme de sombras, um filme negro. E depois um refrão abusando da vontade, puxando a sombra para a dança das palavras: that ain’t me. Quem assim sofre tem de perceber o quão injusto é esperar mais do que a neblina matinal entre os ramos desnudos das árvores. Os dias continuam a nascer connosco dentro de sons vorazes, os dias continuam perfeitos dentro de sons vorazes, nós dentro dos sons esbracejando como homens engolidos para dentro do estômago de gigantescas baleias. Ela sabe haver um Deus dentro desses sons, eu sei apenas haver a sua voz. Ela acredita num Deus dentro do desejo e deseja acreditar nesse deus, eu acredito que não sou esse Deus e por isso não sou o mundo em que ela acredita embora acreditando nela quando acompanhada pelas cordas acústicas da guitarra murmura aos meus ouvidos em repouso: everybody knows this time shadows are drifting in silence where lost can’t be found. Não é justo pedir mais. Chegar a casa e ter aquecido o ar respirável, beber uma cerveja, fumar um cigarro, ler um poema, ouvir-te cantar a sombra dos nossos dias, não é justo pedir mais, adormecer sobre as notas nunca vibradas, as palavras nunca pronunciadas, uma espécie de poesia a nosso lado deixando crescer pelos lençóis acima a renovação de uma velha memória: dois corpos subitamente unidos, parcialmente unidos, ilusoriamente unidos, pois dois corpos jamais um serão, dois corpos, digamos, tão chegados um ao outro como chegada ao tempo é a memória. E dentro de nós correndo a esperança de uma salvação, uma rosa por desabrochar, um beijo a regar a rosa porque antes do mundo já outro mundo havia há muito sido criado, regado, crescido. Nenhum Deus fez nascer do nada a Terra que pisamos, fomos nós que fizemos nascer da Terra este som voraz que nos engole e exige: espanta-me de futuro, traz-me às mãos algo que desconheça. Porque não é justo pedir mais do que canções assim, sem os artifícios de futuros trespassados, árvores desnudas atravessadas pela neblina matinal. E um milhafre atentamente pousado nesses ramos.
Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009
ESTRATÉGIA
Lembro-me de em tempos ajudar os meus pais atrás do balcão. Uma das muitas histórias que se contavam para ilustrar a dificuldade do trabalho era a de um amigo que se chegou ao caixeiro e manifestou o desejo de comprar uma camisa. O caixeiro encheu-lhe o balcão de camisas às riscas, aos quadrados, lisas, de todas as cores. Até que o cliente, olhando para o balcão, perguntou: não tem camisas pretas lisas? Com os livros o problema da falta de diagnóstico parece estar resolvido, mas não é bem assim. Há clientes que idealizam o mundo em função de si próprios, desconhecendo que eles próprios é que foram idealizados em função do mundo. Mas essa será outra história. Fiquemo-nos por dois exemplos. O primeiro é o de um jovem simpático que procura livros sobre entrevistas. Questiono-o sobre que tipo de entrevistas. Podem ser entrevistas clínicas, entrevistas jornalísticas, etc. Ele fala-me em testes psicotécnicos. Fico com uma referência, o vasto leque de opções encurta-se, vamos chegar a bom porto. Entrevistas para emprego, na área dos recursos humanos? – pergunto. Sim, isso mesmo. Eis que lhe coloco um livro na mão. Ele folheia agradado, observa, lê. Depois entrega-me o livro e comenta: era mesmo isto que eu procurava, mas não tem isto especificamente para entrevistas na área da aviação? Não vai ser fácil. A outra história fica sob a forma de diálogo:
− Tens livros sobre estratégia?
− Estratégia militar?
− Isso não, não gosto de guerra.
− Temos um muito interessante sobre estratégia a partir do jogo de xadrez.
− Esse não, não sei jogar xadrez.
− Então e este, elaborado a partir de uma percepção adulta da mente das crianças?
− Também não, não tenho filhos.
− Mas procura alguma obra em especial, alguma área de aplicação da estratégia?
− Um livro sobre estratégia.
− Temos alguns na área da gestão, do marketing, do mundo empresarial.
− Não, não, não sou gestor nem empresário.
− Posso então saber o que o senhor faz?
− Estou desempregado.
− Tens livros sobre estratégia?
− Estratégia militar?
− Isso não, não gosto de guerra.
− Temos um muito interessante sobre estratégia a partir do jogo de xadrez.
− Esse não, não sei jogar xadrez.
− Então e este, elaborado a partir de uma percepção adulta da mente das crianças?
− Também não, não tenho filhos.
− Mas procura alguma obra em especial, alguma área de aplicação da estratégia?
− Um livro sobre estratégia.
− Temos alguns na área da gestão, do marketing, do mundo empresarial.
− Não, não, não sou gestor nem empresário.
− Posso então saber o que o senhor faz?
− Estou desempregado.
Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009
PROVA DE ESFORÇO
O nepotismo de flanela é menos criticável que o de cetim porque: a) a singeleza do traje é impermeável à mediocridade moral; b) ao contrário da flanela, o cetim é sobretudo utilizado por pavões em galas cacarejantes; c) aos pobres não se cobram dívidas; d) baseando-se no sistema de castas hindu, a cultura nacional previu a intocabilidade dos que «trabalham com trabalhos indignos, sujos, com o morto (animal e/ou humano), amontoados de cadáveres e outros empregos que lhes mantêm em constante contacto com aquilo que o resto da sociedade (…) considera nojento e desagradável».
POEMA DO SENHOR
Os alimentos que dão vida e mais virtude,
força, saúde, felicidade e alegria,
feitos com óleo e saborosos, bons pró estômago,
tais alimentos são amados pelos sáttvicos.
Alimentos amargos, ácidos, salgados,
secos e quentes, adstringentes e picantes,
que só provocam dor e tristeza e doença,
tais alimentos, os radjásicos, desejam.
Insípido, sem gosto e dum dia pró outro,
deixado após a refeição e já estragado,
este é, por excelência, o alimento impuro,
amado muito intensamente pelos tamásicos.
Nota: «Eis os três gunas, a saber: sattva, a conformidade com a esência pura do Ser (…), representada como uma tendência ascendente, orientada em direcção à intelectualidade metafísica e supra-humana; radjas, a impulsão expansiva, artística, emocional e apaixonada, em função da qual o ser se desenvolve no estado humano (…); tamas, a obscuridade, assimilada à ignorância (…)» (p. 304).
Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009
FADA DOS DENTES
O sorriso da Matilde tem menos um dente. A fada trocou-o por dois euros. Ela deixou-se encantar e foi à loja fazer negócio. Trouxe uma bandelete. No fundo, trocou um dente por uma bandelete. Mas o mais importante é que, não acreditando no Pai Natal, ela ficou devota da fada dos dentes. Assim se prova, mais uma vez, a relação entre a perda e a fé.
POR QUE NÃO SOU CRISTÃO?
O pior que me podem prometer/oferecer é a vida eterna. Nem sequer me sugiram tal coisa.
PURGA
Tenho o maior e mais progressivo desprezo por quase todos estes políticos, diz Medina Carreira. Eu diria, para actualizar, que tenho o maior e mais progressivo desprezo por quase todos os economistas, escritores, sapateiros, professores, ladrilhadores, futebolistas, músicos, bloggers, jornalistas, comentadores, comerciantes, banqueiros, juristas, funcionários públicos, gestores, livreiros, poetas (grandes, titânicos, novos, novíssimos, velhos, pequenos…), prostitutas, serventes, caixeiros, operadores, médicos, farmacêuticos, palhaços, ilusionistas, actores, caçadores, toureiros, designers, críticos literários (aqui é mesmo todos), educadores, cientistas, auxiliares de acção educativa, engenheiros, arquitectos, taxistas, arrumadores, padres, freiras, etc. Também tenho um profundo e progressivo respeito por mim próprio, embora me console bastante saber-me mais morto a cada milésimo de segundo que passa. O mesmo não se aplica aos outros. Entristece-me sabê-los mais mortos a cada milésimo de segundo que passa. Julgo que mereciam viver eternamente.
Domingo, 11 de Janeiro de 2009
ZIBIA GASPARETTO
Um pesadelo, três brasileiras completamente histéricas à procura de livros da Zíbia Gasparetto, queriam tudo, tinham tudo, falavam todas ao mesmo tempo, falvam alto, muito alto, ainda uma não tinha terminado uma questão já outra me fazia uma pergunta, o que temos da Zíbia, que livros podemos mandar vir, onde está a Zíbia, tem este livro, tem aquele, este é tão bonito, aquele é lindo, fantástico, Zíbia, Zíbia, e depois pedem-me Paulo Coelho julgando que era Zíbia e eu esclareço que não, mas não vale a pena, é Zíbia, já vimos o livro no centro espírita, e eu a tentar responder a uma questão de cada vez e as três a falarem ao mesmo tempo umas sobre as outras como letrinhas sobrepostas e frases sem sentido… Um pesadelo, três leitoras de Zíbia Gasparetto, a escritora espiritualista de romances mediúnicos, três leitoras sem espírito algum. E para terminar bem o dia:
− Tem um livro que se chama «Comer, beber e fazer amor»?
− Tem um livro que se chama «Comer, beber e fazer amor»?
Sábado, 10 de Janeiro de 2009
PRIMAVERA
Todos me dizem que o tempo passa rápido, mas nunca mais chega a Primavera.
Matilde (5 anos)
O ESPÍRITO NÓMADA
CÂNDIDO
Uma mãe diz-me que o filho gosta muito de Filosofia e anda apaixonado por Nietzsche, mas pede-me sugestões de outros livros e autores. O puto tem 15 anos. Lembro-me que comecei a ler o filósofo alemão mais ou menos com essa idade. Penso no que me tornei. Aceitando a minha sugestão, a mãe acaba por levar um exemplar do Cândido, de Voltaire.
P.S.: todos os críticos tivessem a capacidade de síntese do jovem que me chegou à procura de «livros dos maias» (não se referia à civilização da América Central). Com o romance de Eça na mão, comenta: «isto é um book do caralhão».
P.S.: todos os críticos tivessem a capacidade de síntese do jovem que me chegou à procura de «livros dos maias» (não se referia à civilização da América Central). Com o romance de Eça na mão, comenta: «isto é um book do caralhão».
Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009
ONCE A WHORE, ALWAYS A WHORE
«Na vida social, somos o que os outros nos julgam, e não o que até fingidamente somos». Esta é a sábia conclusão de uma das fábulas de Fernando Pessoa. Tenho-me lembrado muito dela. No ano que passou fui convidado para palestrar sobre a obra de Ruy Belo. Uma vez chamaram-me doutor, outra vez chamaram-me professor. Eu tentei desfazer o equívoco logo ali, mas a malta dos jornais deve ter tapado os ouvidos. É verdade que sou licenciado em Filosofia, é verdade que realizei um estágio profissionalizante que me tornou professor de Filosofia, é verdade que durante dez anos ministrei as disciplinas de Filosofia, Sociologia e Psicologia no ensino secundário e vendi muitas horas de formação em cursos de nível III (equivalentes ao secundário) e nível IV (pós-12º ano). Mas nada disto faz de mim um professor, muito menos um doutror. Os jornais locais não querem saber destas coisas. Talvez julguem pouco conveniente revelar que, à época, o tipo que palestrava sobre Ruy Belo ganhava a vida como operador de telemarketing. A história repete-se. Entretanto aceitei o convite para integrar o júri de um prémio literário que tem Ruy Belo como patrono. O jornalismo local volta a referir-se ao professor Henrique Fialho. Soa-me pessimamente. Neste momento o ex-professor Henrique Fialho ganha a vida como livreiro e tem muito gosto nisso. Na vida social, não somos o que fazemos. Somos o que fomos. O que os outros nos julgam, como diria Pessoa. Excepto as putas e os drogados.
COME A PAPA
O que eu queria dizer, mas não me foi dada oportunidade, é que existem refeições ligeiras e refeições pesadas. Também há pastilhas elásticas. Até ver, nem sequer são refeições. Com os livros passa-se exactamente o mesmo. Há livros ligeiros e livros pesados. Também há livros que se mastigam e depois se cospem para o lado. Até ver, nem sequer são livros.
Adenda: (Todas as pessoas deviam perceber que num livro está, pelo menos, uma árvore morta. Para que a morte da árvore faça sentido é fundamental haver no livro um valor que o justifique. Saber reconhecer esse valor é tão importante como saber gerir o dinheiro que se tem. Gastar dinheiro em livros inúteis não só é um desperdício, como também parece ser um crime legitimado por uma presunção: a de que o gosto não se discute. Mas discute. E educa-se. Educar o gosto promove a saúde. Pessoas saudáveis são pessoas de bom gosto. As de mau gosto podem ter um corpo robusto mas não são saudáveis. Ainda por cima são desinteressantes. Come a papa, Joana, come a papa.)
Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009
MEDICAR
Contra a doença, prescrevo música. Sou médico de almas aquilatadas, pretendo desmesurar tudo o que se interponha entre a ordem e os aromas enjoativos da lei. É suposto amarmos sem retorno, deixar o espírito embebedar-se de trompetas em surdina, solos de rhodes, a alma toda a subir para baixo até aos tectos subterrâneos de um mundo inesperadamente desorganizado. É suposto desorganizarmos o mundo, levar às ondas da rádio as perguntas que nos exigem respostas abertas e não mais questionar os ombros da mãe natureza. Aos ombros dela assentamos o gelo dos nossos crimes. As fronteiras foram inventadas para dar ao povo uma terra, mas a terra do povo, de qualquer povo, é o mundo. As fronteiras foram inventadas longitudinalmente com o propósito de servir as bestas degeneradas do progresso, as que me chegam por e-mail falando de petrodólares, as que me chegam por SMS convocando por manifestações, as que me entram casa adentro falando de ataques pelo Norte e ataques pelo Sul. Sim, torna-se urgente a paz. Mas assim como não passa de conversa inconsequente falar dos erros do passado, não é mais que conversa inconsequente imaginarmos futuros altamente improváveis. Nunca haverá paz dentro das balas, jamais a paz será possível no interior dos rockets, dos mísseis, das chamas que atingem os corpos religiosos, políticos, de quem, por certo, nunca terá ouvido a revelação em palavra falada: «TV is, after all, the modern day roman coliseum / human devastation as mass entertainment». Prossiga então o espectáculo enquanto engordamos as contas bancárias dos produtores de fármacos à beira do suicídio, prossiga dentro do nosso sono como um pesadelo que nos acorda para a trágica realidade do mundo. Não é preciso ambicionarmos um retorno ao passado, ambição ingénua e sem sentido. O passado está sempre a regressar até nós e de nós a partir para os lugares do esquecimento. O que era preciso era um grande vulcão onde pudéssemos mergulhar os preconceitos que nos separam, uma invasão extraterrestre que nos purificasse e levantasse à dimensão das nuvens. É preciso viajar dentro dos problemas como se os problemas fossem, e são, territórios imensos por desbravar, com vales, montanhas, florestas, rios, penhascos embriagados de um sentido único, o sentido caótico das formas, a teia onde nos perdemos e pela qual somos capturados sempre que metemos o pé fora das certezas com que sustentamos convicções podres de idealismos assassinos. «Where was your conscience? / Where was your consciousness?» Apoiaste os crimes, subscreveste invasões, assinaste em letra legível as petições da morte, manifestaste-te a favor do esgotamento nervoso, dos ataques cardíacos que exterminaram povos, pessoas, gentes, seres humanos, como se estes fossem frangos de aviário para assar na brasa e satisfazer o apetite voraz dos distraídos. Quem pode ainda confiar na boa vontade dos teus desejos, dos teus quereres, quem pode ainda confiar? Tu nunca viajaste dentro de ti próprio, vives estático desde que um dia te disseram: abandona a tua casa e entra na casa do Senhor, aí encontrarás a luz que alumiará a escuridão do teu vazio. Tiveste medo do escuro, temeste o vazio, entregaste-te a uma compaixão falsa porque falsa é toda a compaixão desprovida do único sentido da vida: a morte. Falsa é toda a compaixão que desconheça esse sentido único da via existencial. 700 mortos em 12 dias, 700 mortos em 12 dias, 700 mortos. É preciso equilibrar estas contas, 700 mortos a multiplicar por 70 vezes 7 vidas contaminadas por um ódio irresolúvel, um ódio que a toda a hora aparta, distancia, que a toda a hora afasta com seus braços gigantescamente musculados a ilusão de uma paz - impossível. Que se pretende com tudo isto? Que se pretende revelar com tudo isto? Que tipo de resistência é esta que invade e não reconhece a diferença que se completa. De um lado a loucura, do outro a desrazão. Ninguém escapará, ninguém se esconderá, ninguém sobreviverá a este naufrágio incendiário. Por isso prescrevo música, contra a doença prescrevo a música que se sobreponha às sirenes das ambulâncias e das recolhas obrigatórias. Recolho-me na música, nas oitavas do silêncio, se for preciso, de um silêncio musical, recolho-me no som que vibra e faz vibrar o êxtase de estar vivo e assim poder recolher-me numa embriaguez sem filiação, livre, perfilada apenas dessa obstinação dos objectores, recolho-me como um peregrino, um eremita, na transgressão musical do silêncio, na luz que reside na escuridão, na escuridão que se faz luz, despojado de intenções, recolho-me na palavra música. Bom dia.
Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009
PRÉ-SOCRÁTICOS
NOVOS CRÍTICOS
Chegado a este ponto posso afirmar com toda a certeza que os livros sugeridos pela Oprah Winfrey têm muito mais saída que os livros da própria. Daqui pode a Fátima Lopes retirar uma excelente lição: nunca sugerir livros.
Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009
BARTLEBY, A ESCRITA DA POTÊNCIA
Domingo, 4 de Janeiro de 2009
QUATRO NOITES COM ANNA
O facto do realizador polaco Jerzy Skolimowski não filmar há 15 anos pode ser muito aliciante para algumas pessoas. Muitas delas não terão sequer ouvido falar do artista, nunca lhe terão visto nenhum filme, mas alguém que resolve regressar 15 anos depois só pode ter algo muito importante a dizer. E di-lo. A gente escuta-o atentamente para não nos perdermos na gaguez do discurso. Di-lo com silêncios ensurdecedores, tempos misturados e gestos sobrepostos, di-lo com uma extrema simplicidade, di-lo com os olhos para que a gente aprenda a olhar. Afinal, não é isto que mais importa no cinema? Pouco importam os diálogos quando cada plano fala por si. Eles são o que a câmara concentra num homem e no mundo à sua volta. Só esse homem interessa, como O Estrangeiro de Camus e a sua inteligente incapacidade para o mundo das pessoas ditas normais. Que pode significar ser como os outros num mundo impiedoso? Quem quer ser como os outros num mundo onde os outros mal se distinguem de um estranho e ameaçador ruído? É verdade que este homem não deseja a morte de ninguém. Ele trabalha com a morte, deita fogo aos restos dos corpos que vão ficando aos bocados pelo mundo. O desejo dele é outro. É o desejo de amar. E ama, mesmo para lá da condenação que é o amor. Ama, amará, separado por uma rua enlameada, coberta de neve, separado pelos vidros das janelas, pelas paredes dos edifícios que separam quem se ama, separado e distante, ama à distância quem não sabe ser assim amado, ama às escondidas, ama para lá de qualquer inquisição, incondicionalmente, no silêncio do sono de quem ama, ama com a timidez de quem não suportaria, talvez, não ser amado. E por isso cala o amor, esconde-o do outro, reserva-o para si até ao momento de outro se revelar, lá está, pouco mais que um estranho e ameaçador ruído. Atrai-me em Léon a ingenuidade que já conhecia em Mario Ruoppolo, o carteiro de Pablo Neruda; atrai-me a compaixão silenciosa que vi recentemente num escuta da Stasi, em As Vidas dos Outros; atrai-me a gaguez, os gestos atabalhoados, os dedos encardidos que seguram um anel de diamantes para oferecer a uma amada que não suspeita sequer ter um amante. Dos outros só podemos esperar que construam muros, que se sintam ameaçados por quem olha assim, pois o tempo ensinou-nos a desacreditar estes modos de olhar, de observar, o tempo fez crescer entre nós e os outros muros intransponíveis porque nós e os outros deixámos de acreditar na contemplação. Todo o olhar é hoje um modo de devorar, de comer, todo o olhar é uma ameaça. Dessas ameaças nos protegemos colocando cortinas nas janelas, erguendo muros em torno das casas, disfarçando a nudez do corpo com trapos sazonais, disfarçando a nudez da alma com escudos invisíveis, os escudos da moral que se encontra nos códigos, nos processos, nas constituições que ditam e julgam os modos de ver, de olhar, de contemplar. Espreitamos os outros através de blogs. Pouco mais. O que dirá a maioria de Léon? Um coitado, um pobre solitário, um retardado, variadinho da mona, uma triste vida. É um anónimo, um desgraçado anónimo. No fundo, o que todos somos por passarmos a vida a olhar receando sermos vistos. Eis um belo e actualíssimo tratado sobre o mundo das novas tecnologias, sobre o amor neste mundo que é o nosso reduzido à dimensão de uma aldeia onde a vida ainda parece ser iluminada por candeias e nas lojas vendem-se machados.
EQUADOR
Um homem diz-me que percebe finalmente a desvantagem de viver na província: não consegue encontrar um anuário de numismática. Olha que belo motivo para optar pela poluição da urbe.
Uma mulher não leva o Equador porque pensava que era mais fininho. A pensar, a pensar, morreu quem nunca leu o Equador... de Henri Michaux.
Uma mulher não leva o Equador porque pensava que era mais fininho. A pensar, a pensar, morreu quem nunca leu o Equador... de Henri Michaux.
Sábado, 3 de Janeiro de 2009
IMACULADOS
Fadoul saltou do palco e foi na direcção de uma espectadora. Meteu-lhe metade de uma nota na mão. Depois veio para a ponta onde eu me encontrava sentado - fico sempre numa coxia - e meteu a outra metade da nota na minha mão. Pediu-nos, a mim e à mulher sentada no outro lado da sala, que nos olhássemos nos olhos. Aquelas metades de uma nota separada de nada nos valiam. Deveríamos encontrar-nos à saída, juntar as duas metades e aproveitar aquele encontro para algo verdadeiramente especial. A brincadeira provocou-me cólicas, permanecendo o resto da peça num desconforto insuportável. Talvez por isso não a tenha aplaudido de pé. A verdade é que o texto de Dea Loher me pareceu pretensiosamente filosófico. A dramaturga alemã estudou filosofia. Se há defeito nos criadores que estudaram filosofia, esse defeito consiste num transporte enviesado da reflexão filosófica para a criação artística. Já sabemos da filosofia como uma das belas artes, mas não necessitamos nada do teatro como uma filosofia. É certo que ambas as dimensões se cruzam, tal como as pequenas histórias representadas em Imaculados. Embora diversas, tocam-se no corpo que sugerem sobre a realidade. Podemos pensar no pensamento como num modo de escavar o real à procura das intersecções que lhe explicam o modo de funcionamento dos músculos e a forma como estes se articulam com ossos, nervos, glândulas, partes integrantes de um todo dinâmico, de um só corpo em constante mutação. Mas a arte, se bem vejo as coisas, dá cabo desse mesmo corpo, fá-lo implodir gerando assim mais espaço no espaço, alargando as fronteiras do próprio pensamento, rasgando o músculo à teoria. Há personagens muito bonitas na peça de Dea Loher. Irene Cruz, a actriz cuja voz se me colou à imaginação como um desenho animado que jamais esquecerei, é uma solitária dona Carraça. Curioso que a sua solidão, ou a forma como tenta superar essa mesma solidão, provoque o riso nos espectadores. O mundo está cheio de carraças assim. Ana Nave vai bem no papel de Dona Dulce, uma comunista atacada pela gangrena como pela gangrena foi há muito atacado o comunismo. A Ana Brandão ficam lindamente as botas e as rendas da stripper cega, uma metonímia perfeita dos olhares que ninguém vê, o sentido da vida no simples viver. E é dessas coisas que os imaculados nos lembram. Do sentido da vida, da solidão, da morte, do medo, da distância que separa quem mais está junto nestes tempos de muralhas invisíveis e na proximidade que une quem parece mais distante. É preciso dançar, inventar um Deus que dance. Há uma cena especialmente reveladora. Passa-se numa auto-estrada. O trânsito está parado. Eles correm para um lado, elas correrem para o outro. Alguém prepara a morte no alto de um viaduto. Alguém se vai suicidar. Cá em baixo, na auto-estrada, eles e elas lamentam-se dos atrasos, do trânsito cortado, incentivam o suicida a saltar, pedem a alguém que o empurre, que lhe dê um tiro, que acabe com aquela brincadeira, o tempo urge, tempo é dinheiro. Eles dizem que é uma mulher quem se quer matar, elas dizem que é um homem. Eles para um lado, elas para o outro. Tão próximos, tão distantes. Por outro lado, Elísio, o emigrante, não consegue salvar uma mulher que se suicida numa praia. Ele queria mas não consegue. A distância física que os separa esbate-se na proximidade que os une através da vontade de Elísio, uma réstia de compaixão, de amor e entrega ao outro, que dá olhos a quem não vê. As pessoas andam desatentas umas das outras, não se olham, não se escutam, apenas se falam, e mal, e pouco. Se bem me lembro é Cármen Santos quem interpreta o papel da filósofa. Julgo ser ela quem diz: «Falar contra isto é fácil, rir disto é perigoso». Toda a filosofia da peça parece contida neste aforismo, porque ele exprime uma moral que advém já de uma constatação sobre o caos que matiza a realidade urbana contemporânea. Isto exprime esse caos, a solidão, as frases travadas na garganta enquanto recalcamos a revolta com uma amabilidade postiça, a ditadura do dever que nos amansou, isto exprime a ausência de Deus e dos milagres, o termo dos sonhos, a fé absurda nos ditames de uma ciência que nos vampiriza a toda a hora, isto só não exprime um lugar para lá de uma moral, para lá de uma contextualização, um lugar livre onde pudéssemos todos vogar guiados apenas pelo desejo de experimentar e de conhecer. Sendo assim, rir disto não será tão perigo. E até poderá fazer bem às cólicas.
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