segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

PROJECTO




Fernando comprou um livro de poesia com oitocentas páginas
mas só conseguiu ler quinhentas

António sonhou com o Evereste na magnitude
mas só precisava de mudar uma lâmpada

Rita imaginou um poema para Fernando
mas só tinha que aceitar o jantar de quinta

A lâmpada pensou que era um poema
e fundiu-se sem iluminar a sala

Luís aproveitou a escuridão da sala
para dizer a Rita um poema com montanhas

Trezentas páginas que nunca foram lidas
arquitectam com a lâmpada a salvação do mundo




Rui Costa, in A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Quasi Edições, Maio de 2005, p. 30.

domingo, 29 de janeiro de 2012

TRABALHOS E PAIXÕES DE FERNANDO ASSIS PACHECO




Há muitas formas de entrar pela vida de um escritor adentro. Podemos centrar-nos na obra, analisá-la, tentar encontrar nela elementos que a liguem à vida vivida. Podemos ir ao encontro do escritor perseguindo-lhe o rasto, traçando-lhe os percursos, as manifestações públicas e o que nelas se esconde de relações íntimas. Podemos tentar penetrar na psicologia do escritor estabelecendo associações discutíveis, subjectivas, falando com quem conviveu com o escritor, com quem esteve perto do escritor, com quem o escritor partilhou confissões e cumplicidades. São múltiplas as formas de entrar pela vida de um escritor adentro, sendo certo que nenhuma delas, por si só, garante uma extrema coincidência entre a realidade e a imagem que venhamos a construir a partir de qualquer uma destas abordagens. Neste sentido, todas as biografias são trabalhos ingratos de reconstrução. Por mais extensas e profundas que possam ser, ficarão invariavelmente aquém da verdade, resultarão sempre num esforço de aproximação que não esgota os detalhes por detrás da personalidade do indivíduo. Nuno Costa Santos (n. 1974) optou por uma abordagem jornalística para a elaboração de Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco (Tinta-da-China, Janeiro de 2012), a biografia do poeta, jornalista e escritor Fernando Assis Pacheco (n. 1937 – m. 1995). Como o próprio indica em nota preliminar, pretendeu «contar as várias dimensões de Assis Pacheco num estilo cronístico, apostado em visitar algumas dimensões mais importantes de alguém que gramava andar por cá como poucos e que sabia que iria, com uma «saudade burra», dizer adeus a tudo isto» (p. 8). Este estilo cronístico, em tom pedido de empréstimo ao próprio biografado, revela-se em catorze textos focalizados, cada um deles, em dimensões diversas da vida do sujeito em causa. Deste modo, evita-se uma estrutura cronológica rígida, optando-se por misturar os tempos em função das dimensões tratadas. É verdade que começamos na infância, com um bebé gracejado pela atribuição do Iº Prémio da Farinha Lacto-Búlgara, e prosseguimos pela adolescência, mas a partir do momento em que entramos na vida adulta a cronologia deixa de ter uma relevância determinística, optando-se antes por desenhar, com depoimentos respigados nas pessoas certas e versos roubados à obra poética, facetas tão díspares como as do homem-militar, do homem-poeta, do homem-jornalista, do homem-de-família, do homem-estrela-de-televisão, do homem-amante, do homem-amigo, etc.. Nenhuma das facetas acaba sobrevalorizada relativamente às demais, notando-se o esforço do biógrafo nesse sentido. A tentação maior, neste caso, talvez fosse a de promover o grande poeta que Fernando Assis Pacheco foi. Nuno Costa Santos evita-o, disseminando a poesia por todos os momentos e em variadíssimos contextos, mas sem descurar aquilo que, afinal, sempre esteve na origem dos poemas: a experiência vivida, o quotidiano. Ficamos assim a saber de uma criança prodígio que «com seis, sete anos, planeou e redigiu o jornal O Micróbio» (p. 19), do leitor tão compulsivo quanto aluno mediano, do homem apaixonado que se pôs a caminho de Londres para estar mais perto do seu amor, do militar frustrado, traumatizado, que «esteve para ficar no mato duas vezes porque caía, com medo, e desmaiava» (p. 47), do jornalista que criou um estilo novo ao cultivar os humores da gente comum, do pai extremoso e, em certa medida, paranóico, do poeta autovigilante, modesto, mas orgulhoso, de estilo despretensioso e sem galas, do homem de afectos que fazia questão de celebrar amizades e cumplicidades. Nuno Costa Santos reservou ainda algumas páginas para os lugares predilectos do autor, para uma aproximação às raízes galegas, consumadas no romance Trabalhos e Paixões de Benito Prada (1979), e para aqueles que foram os grandes prazeres de uma vida, ao que parece, que fez questão de perder a timidez sempre que se tratava de ser feliz, mesmo quando por detrás das cortinas da felicidade podia esconder-se, à espreita, a depravada melancolia. Assim nos é contada a vida de Fernando Assis Pacheco, em prosa escorreita e também ela despretensiosa, num trabalho que tem o mérito evidente de voltar a lembrar um dos grandes poetas deste país.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

THEO ANGELOPOULOS (1935-2012)



Sobre O Olhar de Ulisses, aqui.

UTOPIA

Camarada Van Zeller, dou por mim a acreditar na utopia e suas tão raras virtudes. É preciso reanimá-la, se preciso for trazer Tomas Morus em versão de bolso nos anoraques cinzentos deste seco Inverno. É preciso reaprender a semântica do pusilânime nobre, para dar cabo dela antes que ela dê cabo de nós. Por menos que corninhos dissimulados puseram-se a andar ministros, um Presidente insulta toda uma nação e logo aparecem embaixadores do desagravo. Nenhum Ulisses nos salvará em tão desembarcada viagem. As bússolas estão todas sintonizadas numa mesma direcção, entre norte e sul nem uma nesga de raiva permite distinguir a tépida indignação generalizada da generalizada indignação inconsequente.

Os poetas vão à missa quais escuteiros, reúnem-se em retiro, de mãos dadas, a cantar o kumbayah. É tudo belo e maravilhoso enquanto formos anjos do senhor numa anódina e acrítica, pelo menos tanto quanto acéfala, irmandade. Ó pichas moles, ó traída tusa da pátria consumada. Merecemos descanso de tanto tédio. Por todas as ruas, por todas as vielas, por todas as avenidas, manifestações de vergonha sem efeito. Fazem-se petições, compartilham-se cenas tristes, distribuem-se likes e links como quem semeia inoperância, por todo o lado textos saturados de prejuízo, nenhum acto, nenhum gesto para lá da frente amuralhada deste desconforto que é viver postergado pelos chefes da nação.

Só uma explicação existe para o pântano: nas urnas reelegem-se vigaristas, crápulas, tontos, ladrões para podermos continuar a ter alvos à altura do malogro. É puro masoquismo, é puro masoquismo. E a gente, sem querer, corrobora a promoção dos inúteis enquanto abrimos portas já abertas. Dou por mim a acreditar na utopia e suas tão raras virtudes, sou pelas soluções violentas. Em vez de petições matizadas pela parvoeira generalizada, em vez dessas quimeras irrisórias, em vez de tardes inteiras a compartilhar opiniões sem vento nem tempestade, em vez de curtes e menosprezáveis simpatias sociais, proponho soluções violentas.

Não paguemos a água nem a luz, apaguemos os quadros eléctricos, reduzamos ao máximo possível todo o consumo, entreguemos já amanhã todas as boxes, devolvamos o MEO ao MEO, destruamos as televisões, recusemos. Compensemos o mérito com o mérito, incendiemos nas nossas varandas as bíblias do Estado, livros de recibos verdes, declarações electrónicas, seguros, ASAE, sujeitemo-nos à multa generalizada, abramos a porta aos cobradores e aos cobardes e sentemo-nos com eles, à lareira, a beber chá e a declamar poemas. Permaneçamos em casa, abandonemos os postos de trabalho às mãos dos nossos patrões, eles que limpem as estantes, aspirem as alcatifas, eles que carreguem aos ombros o trabalho miseravelmente pago que nos leva o tempo, a família, os amigos, a vida. A Celeste que mude as fraldas ao Eduardo.

Uma moeda para o Presidente não basta, é preciso construir-lhe uma arca com A Utopia bordada nas velas, lançá-lo ao mar e deixá-lo à deriva com suas invioláveis convicções. É preciso encontrar saída para a raiva. Vomitá-la em prosa sem estouro não chega. Amanhã já ninguém se lembrará de que hoje existimos e fomos agredidos pela existência, amanhã o esquecimento fará o seu trabalho ao dobrar da esquina, pois que chegados às avenidas do pensamento é tanto o ruído, são tantos os casos, é tanta a contra-informação que já nenhuma paciência restará para abrir os olhos antes de atravessar a estrada. E quando menos dermos por isso, seremos atropelados sem sequer termos pisado a terra da Utopia.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

dona vida






Há basto tempo não vos conto meus domésticos vícios. Julgaram rotos leitores que a verga se calou, imune ao desafogo que na poesia esbate punheteira forma. Esganai-vos com prosa de só coçardes a dita em perambólica monha, eu vos perdoo. Rico não estou porém da estranja sina, alargo a experiência com tântricos remédios. No mosteiro de singeverga foi assim: o sacristão fendido ajudando a preparação do licor e eu esgalhando a mastodôncia pra cima do madeiro cá de trás. Cantou o coro com a gosma entrando plas bocas a afinar o vício, que a santonta desceu cá abaixo a ver se havia mais. E havia, fiz-lhe um soneto que ela perguntou se podia chamar um anjo pra lhe amparar a excedentária coma s asas. O anjinho entalou-se com a dita e solfejou mais cedo, a superiora também quis. Jesus Cristo dai-me disto. E dei eu, tomai deste céu. Santa senhora, que o sois menos agora. As asas do anjinho esburacadas do travasso assertório resvalando plas hóstias, tvi à porta, o altíssimo de hossanas a pedi-las. E como não gosto que me peçam virei-me às câmaras e entalei o gorgulhão até se virem escuras, e foi assim que me amancebei com deus, que afinal é gaja e tem uma xauvineta que dá pra encalcetar o universo. E depois fui-me, com um sentimento bastante agradável a pingalhar o tapete dos restos da minha alegria.


Alcides, in Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa, selecção e organização de Rui Costa e André Sebastião, prefácio de Henrique Fialho, 7 Dias 6 Noites – Editores Unipessoal, Lda., Exodus, Fevereiro de 2008, p. 21. Mais de Alcides: Alcides.1, Alcides.2, tofu.3, jackpot.4, donamorte.6, virgenetas.7, teoriatoda.8, passagemdeano.9, Pessoa.10 e Oriental.9. Já agora, deixo-vos também ligação para uma Imitação de Alcides.

domingo, 22 de janeiro de 2012

NATURALIDADE DA PAIXÃO INSENSATA





Lei da Gravitação Universal de Isaac Newton:
todos os objectos são atraídos uns pelos
outros com uma força directamente
proporcional ao produto de suas massas e
inversamente proporcional ao quadrado das
suas distâncias
.



— O homem hoje não vem — pensou a Árvore.
Disse-lhe o Vento:
— Vem ali ao fundo.
Era verdade.
Não era lento, ele, mas fazia muitas paragens pelo caminho. Às vezes olhava para o céu. Depois dava mais uns passos. Metia as mãos nos bolsos e endireitava as costas.

Estava sol. O homem vinha sempre que estava sol e sentava-se à sombra.
— Ele tem sombra dentro de casa, mas gosta mais da minha — pensou a Árvore.
Claro que sabia que não era assim. Dentro de casa não há sombra. Há um líquido qualquer mais imponderável que a seiva. Não chega a ser mais espesso do que o ar —pensou e disse o Vento, enquanto se enrolava nas folhas mais novas.

O Vento falava mas as folhas mais novas não se esforçavam para ouvir. Ficavam tesas esperando que ele fosse para outro lugar. Claro que também nem era isto. Ficavam, as folhas mais novas, à espera do que acontecia. E passados alguns dias habituavam-se ao Vento e deixavam de pensar nele. Aparentemente, essas folhas também não se preocupavam com o homem. Sentiam o estremeção provocado pelo encostar das suas costas ao tronco. Se já conseguissem falar, diriam ao Vento para ir mexer nos cabelos do homem.

O homem não tinha cabelos.

Trazia muita roupa. Parecia que andava sempre com frio. Como é que o Vento fala com um homem sem cabelos? Que homem tão antipático — disse o Vento.
O homem sorriu. Esticou mais as pernas.

A última noite deste homem foi uma noite sem sono. Não é normal um homem de quarenta anos apaixonar-se pela primeira vez. Sempre que sorria, Newton ficava sério durante vários anos.

A natureza é uma coisa estranha — disse-lhe essa mulher, alisando o vestido. — E ocupa muito espaço.

Ele saiu e ela ficou a espreitá-lo da janela com ar enfadado. Desde menina que não descia as escadas até à rua. Traziam-lhe botões de rosa triturados com limão e açúcar. Lia trinta páginas de livros por dia. Falando, fechava levemente os olhos. Lavava os cabelos todos os dias, mas não gostava de sentir a cabeça fria enquanto eles não secavam. Masturbava-se às seis da manhã da primeira segunda-feira de cada mês. Achava que o mundo era bonito, mas não suficientemente imprescindível. E não se comprometia com ele, porque lhe parecia impossível respeitar tudo o que não a fizesse sofrer um bocadinho. Considerava qualquer tipo de acção um abuso, porque sabia que em esforçando-se tudo podia conseguir. Por isso Newton caíra-lhe bem. Era o sujeito menos atraente com que em toda a sua vida se cruzara. Nem sedutor, nem sequer capaz de um veneno miúdo. Finalmente tinha um desafio crescido. Um pouco de incómodo dentro das paredes da casa perfeita sob o mundo. Não era perfeita: na sua órbita nem sequer chovia.

Newton à sombra de Árvore. O sol inchando sobre os campos acossados do país azul. Os animais. As lontras, pode ser, espreguiçavam-se a dois mil quilómetros plenos de água. Focinhos rasantes, a consciência de um habitat devastado. Aqui de novo: sombra sobre a testa de Newton. Agradou-lhe aquela jovem tão robusta de vontade. Depois este pensamento trouxe-lhe um temor: seria santa?

Não era por causa disso. Nem era católica, embora sua educação tivesse sido. Os seus pais levavam vidas normais: nem suficientemente discretos para não se preocuparem com o reconhecimento, ainda que anódino, da sociedade local, nem ambiciosos o bastante para se esforçarem na conquista de lugares proeminentes nas profissões ou na política. Era, provavelmente, como se sempre ela tivesse sido assim. Talvez em pequena já torcesse o nariz quando se tratava de ir ao jardim. E durante os dois anos em que esteve doente os professores iam a sua casa. Mas agora era uma mulher saudável; apenas as saias podiam ser um pouco mais curtas. Estamos no verão, ainda por cima, mas ela parece nunca ter calor. Nem frio, aliás. Santa não é, bem reparei como me olhou os pés, as pernas, subindo pela barriga e até ao pescoço e ao queixo. Depois hesitou, não me olhou os olhos. Mas não é santa nenhuma, nem fez nenhuma promessa. Nem tomou como missão a descoberta dos Rios, o isolamento introspectivo, uma forma invulgar de suscitar atenção. Sim, as saias mais curtas. O Vento explicou à Árvore que ia até ao vale.

Foi então que a maçã se desprendeu.

Caiu-lhe na cabeça com um poc! auto-confiante, saltou ligeiramente, e começou a rolar pela barriga do homem sentado que levantou o corpo e aproximou a mão do fruto condescendente que avançava.

A mão de Newton comandou os dedos e o olhar de Newton arregalou-se com a visão do objecto.

Newton pôs-se de pé, e caminhou como se movido por leis de gravitação universal
.


Rui Costa, in Da Natureza — 1 + 9 contos, coordenação editorial de Sara Monteiro, ilustrações de Margarida Parente, Fundação Odemira, Março de 2009, pp. 13-18.

EM MEMÓRIA DE MINHA MÃE







Não penso em ti jazendo no barro húmido
De um cemitério em Monaghan; vejo-te
A caminhar por uma ruela entre os álamos
A caminho da estação, ou indo alegremente

À segunda Missa num domingo de Verão —
Tu encontras-me e dizes:
“Não te esqueças de tomar conta do gado” —
Entre as tuas telúricas palavras vagueiam os anjos.

Penso em ti caminhando ao longo de uma península
De aveias verdes em Junho,
Tão tranquila, tão cheia de vida —
E vejo-nos a encontrarmo-nos por acaso num dia claro

No termo de uma cidade, depois de
Os negócios estarem fechados e nós podermos andar
Juntos entre as lojas e as tendas e os mercados
Livres nas ruas orientais do pensamento.

Ó, tu não estás jazendo no barro húmido,
Pois agora é noite de colheita e nós
Estamos a descascar o trigo à luz da lua
E tu sorris para nós — eternamente
.


Patrick Kavanagh

Versão de HMBF.

sábado, 21 de janeiro de 2012

"SÓ ME SAEM DUQUES"*

"Sempre estranhei o Rui. O seu discurso de agradecimento do Prémio Daniel Faria foi como ele era: "o Daniel Faria estará neste momento honrado por me ter como primeiro vencedor". Afastámo-nos naturalmente, dado o meu estranhamento da sua personalidade. Lamento que aquilo que eu achava ser a arrogância de quem tem toda a certeza do mundo nas suas capacidades, se tenha tragicamente revelado uma enorme insegurança na vida, se as causas da morte se confirmarem. Lamento porque se o tivesse percebido teria agido como editor dele de uma maneira muito diferente. Fica o livro e a tristeza de a vida ter sido como foi."

Esta foi a mensagem que o escritor, poeta, editor, cronista Jorge Reis-Sá achou por bem deixar no Facebook ontem, dia 20 de Janeiro, no dia em que a família e os amigos do Rui Costa lhe prestavam a homenagem devida. Por mais que viva, leia, respire, observe, sinta, jamais conseguirei compreender a cretinice que dá forma a este esterco de gente chamado Jorge Reis-Sá. Como ex-editor do Rui, o Reis-Sá podia ter ido ao funeral. Foi o que fizeram, entre outros e bons amigos, o Rui Manuel Amaral, a Margarida Vale de Gato, o Rui Lage, o André Sebastião, o António Pedro Ribeiro, a Sandra Cruz, a Patrícia Bettencourt... Podia ter mostrado algum pesar, como tantas pessoas fizeram questão de manifestar por essa teia de facebooks e blogs onde parece que vivemos cada vez mais esquecendo-nos de que “a rua é a casa de todos”. Não, preferiu ficar em casa a dar corda a pensamentos mesquinhos. O Jorge sempre estranhou o Rui, eu hei-de sempre estranhar o Jorge. O discurso supracitado foi, de facto, como ele era, um provocador nato, alguém que detestava os formalismos e o conservadorismo da cena literária e procurava romper com isso agindo, provocando, levando o riso a rostos onde só se vê seriedade, pedantismo e presunção. No dia 11 de Dezembro dizia-me o seguinte: «na universidade chamam-me provocador (os profs) /pk mandei umas bocas, pk akilo é elitista e conservador». Era assim o Rui Costa. Provavelmente o Jorge, ao ouvir “as bocas”, deve ter pensado que o Rui se julgava mais importante que o Daniel Faria, poeta que muito admirava. O Jorge é burro, não admira que tivesse pensado assim. Não lhe terá passado pela cabeça que fosse exactamente o contrário, o discurso de alguém que, acreditando na qualidade daquilo que fazia, preferia não se levar demasiado a sério e evitar a “importanticidade” da cena literária portuguesa? O Jorge afirma que se afastou naturalmente, por estranhar a personalidade do Rui. Pode um indivíduo ser editor de livros afastando-se dos escritores por lhes estranhar a personalidade? Meu Deus, há mundo com personalidades mais estranhas do que o mundo da literatura? O Jorge não tem categoria para vender sabonetes, quanto mais para ser editor de alguém. Só num país como o nosso é que se dá guarida a imbecis destes. Imaginem o que seria de Herberto Helder se tivesse apanhado editores como o Reis-Sá, editores que se afastam dos autores porque eles têm personalidades estranhas. No entanto, o editor, afastando-se da personalidade estranha do escritor, não quis afastar-se da personalidade estranha do tradutor. E assim o Rui Costa traduziu para as falidas Edições Quasi livros infantis: O Velhote de Lochnagar, Gordito e os Bombeiros, O que há de errado com o Tim? e Para onde corre a raça Humana? (Maio de 2007), O Snugal-Flijer bebé, Este e aquele em Splat! (Junho de 2007). Portanto, ao afastamento do escritor correspondeu uma aproximação ao tradutor. Mas se isto pouco importa, são águas passadas, o que sobra chega a ser desumano. Os lamentos do Reis-Sá são de uma insensibilidade inqualificável. Convém citar novamente, para que fique bem claro o nojo de gente com que estamos a lidar:

Lamento que aquilo que eu achava ser a arrogância de quem tem toda a certeza do mundo nas suas capacidades, se tenha tragicamente revelado uma enorme insegurança na vida, se as causas da morte se confirmarem. Lamento porque se o tivesse percebido teria agido como editor dele de uma maneira muito diferente. Fica o livro e a tristeza de a vida ter sido como foi.

E quais foram as causas da morte? O Jorge sabe? A polícia sabe? A família sabe? Os amigos sabem? É que eu ando há 15 dias a imaginar cenários e tudo me parece possível: um homem esbarra e cai ao rio, um homem é empurrado para um rio, um homem atira-se ao rio, um homem é atirado ao rio… Porque nenhum destes cenários está provado, cabe questionar o senhor Reis-sá por que razão para ele um dos cenários é mais válido que o outro? Para poder lamentar uma suposta “insegurança na vida”? Partamos do princípio que sim, que o Rui Costa era “inseguro” como terão sido Antero de Quental, Heinrich von Kleist, Emilio Salgari, Manuel Laranjeira, Sara Teasdale, Vachel Lindsay, Mário de Sá-Carneiro, Marina Tsvetaeva, Vladimir Mayakovsky, Sergei Yesenin, Hart Crane, Ernest Hemingway, Arthur Koestler, Cesare Pavese, Antonia Pozzi, Randall Jarrell, John Berryman, Única Zürn, Paul Celan, Maria Ângela Alvim, Anne Sexton, José Agustín Goytisolo, Sylvia Plath, Alejandra Pizarnik, Luis Hernández Camarero, Eduardo Guerra Carneiro, Ana Cristina Cesar, Pedro Casariego Córdoba, David Foster Wallace, entre tantos, tantos outros escritores, músicos, pintores, artistas “inseguros” ou, quiçá, um pouco mais sensíveis do que a maioria e, por isso, diferentes e “estranhos”. Partamos do princípio de que toda esta gente se matou porque era “insegura na vida”. Esqueçamos as causas íntimas, profundas, irreveláveis e imponderáveis que podem levar a uma decisão fatal. Façamos tábua rasa disso tudo e julguemos, como se fôssemos esterco de gente, que um homem só se mata porque é inseguro na vida. Por que razão isso levaria a uma atitude diferente do editor? Porque teria o editor agido de forma diferente? Dúvidas que permanecerão no ar, com a certeza de que, enquanto for vivo, eu só guardarei tristeza por a vida ser como é.


*Expressão utilizada pelo Rui numa conversa mantida no dia 22 de Novembro de 2011.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Dusk in Winter

The sun sets in the cold without friends
Without reproaches after all it has done for us
It goes down believing in nothing
When it has gone I hear die stream running after it
It has brought its flute it is a long way


1967

W.S.Merwin

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

HAVIA UM HOMEM QUE CORRIA PELO ORVALHO DENTRO




Herberto Helder - "Havia um Homem que Corria pelo Orvalho Dentro" (Elegia Múltipla III) in «A Colher na Boca» (1961). Dito pelo próprio num disco Vinyl, editado pela Philips para a série Poesia Portuguesa. A remoção dos "cliques" do vinyl diminuiu a qualidade da voz. Alinhamento musical: Gustavo Santaolalla - Thomas Newman. Respigado aqui.

RUI COSTA (1972-2012)



A MÚSICA

A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.

Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.

A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?

Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.

Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti


Rui Costa (também aqui)


Adenda: O funeral do Rui será no cemitério de Santa Marinha (mapa; coordenadas: 41 07' 43,83''N, 8º 37' 37,64''O) pela 10h30 da manhã do dia 20 de Janeiro. O corpo estará numa das capelas mortuárias do cemitério a partir das 9h00 da manhã do mesmo dia. Após uma breve cerimónia o corpo do Rui seguirá para o cemitério de Macieira de Cambra, Vale de Cambra (mapa; coordenadas GPS: 40º 51' 31,39''N, 8º 22' 28,36''O).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

É COMO SE AQUI EU GRITASSE.

Para o RC.


Esta força não tem dono, ao pé dela qualquer material humano facilmente claudicaria. Repara no que resta do farol, uma construção em ruínas como qualquer um de nós, erguida para orientar e proteger aqueles que o mar engoliria fosse essa a sua vontade. Aqui dei os primeiros beijos dignos de memória, desse tempo pouco mais me resta do que uma mensagem gravada no barro que, de ano para ano, se vem desprendendo do corpo: amo-te, Sandra. (Era mentira. Muito mentimos nós às mulheres que nos amam com os namorados em casa.) E no entanto o mar persiste, obstinadamente como uma mão que escreve, as marés mantêm sua matemática indecifrável, tu dás às bruxas, aos anjos, às fadas a voz inaudível, os barcos atravessam as rotas quais rolhas de cortiça guiadas por bússolas, cartas, mapas, astrolábios, instrumentos inventados para nos libertarmos desta fraqueza essencial. Andamos agasalhados no medo e na tristeza, já nem a vertigem dos versos simula uma réstia de salvação, mas esta força não tem dono. Os promontórios que a travam podem passar-nos a mensagem de uma vida resistindo à morte, e em cada vaga que rebenta, em cada pingo de espuma cuspido com estrondo contra as barbas do vento, nós sentimos ser bem mais frágil do que aparenta o rochedo corroído pelo tempo. Sobre ele, amigo, fazemos nós e as gaivotas o ninho. Elas voando, nós sonhando. Até ao limite da possibilidade de sonhar.


São Martinho do Porto, 18 de Janeiro de 2012.

domingo, 15 de janeiro de 2012

PEDRO E INÊS: DOLCE STIL NUOVO





Com sede em Águas Santas (concelho da Maia), por certo território extracomunitário, as Edições Sempre-Em-Pé vêm fazendo um trabalho meritório que continua a passar despercebido às vistas curtas dos cartógrafos dos “mapas em expansão da edição de poesia em Portugal”, mais não seja pela insistência na publicação de uma das melhores revistas de poesia e tradução editadas neste país. Chama-se DiVersos e vai em quinze números publicados, desde 1996. Como é óbvio, isto não interessa para nada, assim como não interessa para nada que a mesma editora tenha dado a conhecer um dos mais sólidos poetas portugueses da actualidade, com a arriscada edição do volume Dispersão – Poesia Reunida (Novembro de 2008), e tenha voltado a albergar os versos do mesmo autor com a impressão, no ano que passou, do livro Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (Setembro de 2011). Pelo meio ficaram os títulos Londres e K3, ambos editados na &etc, respectivamente em Janeiro de 2010 e Janeiro de 2011. Em três anos, Nuno Dempster (Ponta Delgada, 1944) ajudou a baralhar as coordenadas da “nova” poesia portuguesa e impôs-se, por mérito próprio e sem parangonas, como uma voz única num meio onde a singularidade merece sempre a desconfiança redobrada dos membros da “comunidade”. O subtítulo deste livro não pode ser, pois, ingénuo, sendo possível ver nele alguma ironia que os versos do seu autor não enjeitam. É certo que Dempster vai buscar aos poetas italianos de outrora o gosto pelo decassílabo, sabendo, porém, que os aspectos formais na poesia de hoje são de relevância bastante discutível. Importará mais o ritmo imposto pela escolha das palavras e a sensibilidade no recorte dos versos (neste domínio, Dempster raramente perde o pé). Aqui e acolá poderíamos discordar de algumas opções, as quais não maculam minimamente o poder rítmico e a extrema sensibilidade colocada no tratamento da língua. No entanto, aquele Dolce Stil Nuovo associado à história de amor entre D. Pedro e D. Inês de Castro remete directamente para uma reconstrução do mito. Não é correcto falar-se em actualização, sendo preferível, talvez, aceitarmos as palavras do poeta e falarmos em transporte: «Transportemos do século XIV / a lenda de Pedro e Inês, para a filmarmos / na paisagem urbana deste século» (p. 35). Neste sentido, o poeta serve-se de um mito amoroso para desmistificar o sentimentalismo que contaminou, e persiste em contaminar, a lírica portuguesa. A preocupação, neste e noutros livros do mesmo autor, é a verdade, mas não a verdade num sentido absoluto, até porque essa não está às mãos de ninguém. O trabalho do poeta, aqui, é imaginar um mito passado num tempo presente, retratando assim o seu tempo e reflectindo a natureza da História: «A História só escreve equações, / da vida interior nada se lê» (p. 10). Há, por isso, um movimento paradoxal no método utilizado. A investigação levada a cabo parte de dúvidas intransponíveis sobre as suas próprias fontes, devendo por isso a verdade impor-se como uma construção onde operam diversos elementos por vezes antagónicos. O poema surge como uma espécie de fuga sempre resgatada, no final, pela inexorável realidade: rotina, trânsito, prédios, vizinhos, a vida vulgar. O resultado é esclarecedor: «Hoje vemos Inês cuidar das flores / do jardim, os seus três filhos na escola, / e fingimos que o príncipe D. Pedro / foi trabalhar no banco e volta à noite, / para jantar e logo adormecer / diante da TV, enquanto Inês / aconchega as crianças em seu sono / e a máquina ronrona e lava a louça. / Ainda não clareia, já D. Pedro / sai para a montaria que é o banco / e apanha o autocarro e o metro, / vítima de um destino tão vulgar. / Por isso, ninguém pode garantir / que Pedro seja a luz da própria lenda. / A luz só pode ser Inês, que deu / ao mundo os filhos de ambos e que segue, / serena, com as flores e com Pedro, / como ícone do mito, e permanece» (p. 28). Poesia culta, intensamente trabalhada, contida onde seria fácil resvalar, cuidadosa no tratamento dos vários elementos que a tornam, de facto, doce e nova quando comparada com a imensa maioria do que a “comunidade” foi dando à estampa nas últimas décadas.

INOCÊNCIA

Eles escarneciam do que eu amava —
A colina triangular suspensa
Por baixo do Big Forth. Diziam
Que eu estava cativo das sebes de acácias
Da pequena quinta e que desconhecia o mundo.
Mas eu sabia que a entrada do amor para a vida
É a mesma entrada em qualquer lugar.

Envergonhado com o que amava
Afastei-a de mim e chamei-lhe vala
Embora ela continuasse a sorrir-me com violetas.

Mas agora regressado aos seus braços agrestes
O orvalho de uma manhã de Verão Indiano jaz
No talo branquejado das batatas —
Que idade tenho eu?

Não sei que idade tenho,
Não sou eterno;
Nada sei de mulheres,
Nem de cidades,
Não posso morrer
A não ser caminhando fora destas sebes de acácias
.


Patrick Kavanagh

sábado, 14 de janeiro de 2012

MEMÓRIA DO CONFRADE MICHAEL*





Jamais será manhã, sempre noite,
Pôr-do-sol dourado, idade de ouro —
Quando Shakespeare, Marlowe e Jonson escreviam **
O futuro da Inglaterra página a página
Uma vala de urtigas selvagens foi o palco da Irlanda.

Jamais será Primavera, sempre Outono
Após uma colheita sempre perdida,
Quando Drake conquistava mares para a Inglaterra ***
Nós navegávamos em charcos do passado
Perseguindo o fantasma do mastro de Brendan. ****

As sementes entre o pó foram menos que poeira,
Poeira procurámos, ruína,
O jovem rebento erguendo-se nela asfixiado,
Amaldiçoado por estar no caminho —
E o mesmo ainda hoje é verdade.

A cultura é sempre qualquer coisa que foi,
Qualquer coisa que os pedantes podem avaliar,
Caveira de vate, fémur de chefe,
Profundidade de um rio seco.
Teremos de ser assim para sempre?
Teremos de ser assim para sempre?



Patrick Kavanagh



* Mícheál Ó Cléirigh (1590-1643): cronista irlandês, autor de Annals of the Kingdom of Ireland.
** William Shakespeare (1564-1616), Christopher Marlowe (1564-1593) e Benjamin Jonson (1572–637): dramaturgos ingleses.
*** Sir Francis Drake: (1540–1596): navegador inglês.
**** Saint Brendan of Clonfert (484–577): chamado de O Navegador, é um dos primeiros santos monásticos irlandeses.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

REBELAI-VOS!

Camarada Van Zeller, enquanto Medina Carreira elogia o governo e a política de austeridade, sintetizada nas negociatas da TDT (televisão digital terrestre), nos custos com as PPP (parcerias público-privadas), na distribuição de jobs, na solidariedade maçónica ou na promoção de Celeste Cardona, Paulo Teixeira Pinto e mais vinte operários a grão-mestres da electricidade, o povo passeia as angústias da crise na marginal da Nazaré e Eduardo Catroga, ex-braço-direito de Pedro Passos Coelho nas negociações com a troika, prepara-se para meter ao bolso uma remuneração de 639 mil euros: um ordenado mensal superior a 45 mil euros, que acumulará com uma pensão de mais de 9600 euros. Ora, a gente sabe que há para aí muita calçada à espera de mão que a arremesse. A açorda e o arroz de marisco, as lulas grelhadas e a carne de porco à alentejana, as amêijoas e os percebes em domingo soalheiro podem ser uma boa forma de mandar a troika às favas. Mas isto já não vai lá dispensando factura, é preciso pagar o imposto da indignação, ou seja, é preciso agir. Quem atira a primeira?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

VOLTA D' MAR

Nascida das cinzas da non nova sed nove, com sede em Nazaré, a Volta d’Mar mantém a tendência heterodoxa. A matriz é a de todo e qualquer projecto erigido em contracultura, sem restrições académicas nem concessões aos circuitos convencionais da distribuição cultural. Haverá mentes iluminadas que subvalorizarão estes projectos, assim como os títulos dados à costa na volta do mar, omitindo, talvez, a persistência e obstinação descentralziadoras que tornam possível todo e qualquer acto de pura poesia. Os primeiros títulos publicados são hibernu (Setembro de 2011), de Luís Paulo Meireles, e pólen (Outubro de 2011), de m. parissy. Do primeiro fizeram-se 100 exemplares numerados e auto-agrafados com desenhos do autor. O segundo junta nove poemas originais a uma pintura única e irrepetível de Catarina Galego, em tiragem de quarenta exemplares singulares como a pessoa humana. Meireles tem percorrido o seu caminho à margem de todo e qualquer reconhecimento. Na nota final que o livro reproduz, Wellitania Oliveira afirma, e bem, que «Luís sintetiza suas emoções por meio de uma linguagem veloz como o pensamento, que surge em meio à tormenta, no conflito dos elementos, num instante de silêncio qual relâmpago que tudo ilumina, mas que rapidamente desaparece». Automatismo ou não, assim parece. Os versos são curtos e a sintaxe informal, não há pontuação, sequer maiúsculas a marcar uma qualquer cadência elíptica, apenas a repetição de alguns vocábulos que nos enviam para paisagens domésticas em espaços geográficos facilmente identificáveis, actuais, a sugerirem uma intimidade nunca totalmente revelada. Um exemplo:

o apartamento é a minha esplanada
tem vista pó mar
a cozinha lavada sem coisas pelo chão
entrou o sol levou um amigo
a casa aonde habito
tem o mar em frente
apetece saltar pela varanda
vejo pelos vidros
o mapa abstrato
vou-me esconder
ao espelho só
isto foi ontem
agora acorda


Em pólen m. parissy convoca uma segunda pessoa para os seus poemas. Tendo em conta a autoria da pintura que acompanha a edição, somos levados a crer numa consanguinidade próxima. Poemas de pai para filha, provavelmente. Permanece a brevidade dos poemas sem pontuação, mas a linguagem é mais acessível por via de uma sintaxe orientada para o discurso. Quem conheça livros anteriores do autor poderá, inclusive, ficar surpreendido com a clareza dos versos e com a luminosidade presente na generalidade dos poemas. A palavra pólen, que acompanha há muito a poesia de m. parissy, surge aqui quase como que decifrada na sua dimensão metafórica, é a semente/origem onde tudo se congrega, a fonte microscópica que liga os seres na sua mais profunda hereditariedade. Vai um dos nove poemas reunidos neste belo caderno:

o mundo vive sem dares por isso

podes ter dedos dentro do prato da sopa
ou a camisa rota
sem ser de propósito

quando as coisas que te rodeiam
estiverem sujas não pares para as limpar

mas pára
quando alguém te pedir ajuda
ou quando tu próprio quiseres
dizer que tal como tu
os outros também vivem no mesmo mundo

deixa que os outros também te abram a porta



Mais informações sobre a Volta d’Mar: aqui.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

IN MEMORIAM





El muchacho del yo imaginario; Os sentimentos eram nobres e não sobraram; Fumámos juntos, bebemos juntos, comemos juntos, lemos juntos, rimos juntos, escrevemos juntos; vou escrever sobre os teus livros todos muitos palavrões; Não o conheci, estou de luto pelos amigos dele; Estou farto de ser um fantasma e flutuar por cima de ti; Naturalmente que a amizade constrói em cada um de nósmúltiplos compartimentos que nos protegem da solidão; Poeta jovem; E a minha vida mudou, a noite cresceu; Que noite mais boa; pessoas que amam com os dedos todos sobre a mesa; às vezes eu penso, ou então não penso; Finge-se. Foge-se. E encontramos amiúde alguém que nos engana deste frio; de facto, Rui, é com pena minha que constato a falta de inteligência do homem pequeno; Não preciso mas tu sabes como eu sou; por breves instantes eu odiei-a; és única e eu sou único: mas nunca somos únicos sozinhos; Escrevo, decerto, por qualquer razão inútil que não vais nunca entender; espantou-me pela originalidade despretensiosa da sua escrita; um homem decente (coisa tão rara), um poeta com mais dúvidas do que certezas; Ainda bem que vivi para ver este dia, o último dia; A morte, para ser derrotada, precisa de ser reduzida à sua nula importância. Ninguém consegue.; Estas pessoas são o chão onde erguemos o sol que falhou os dedos e pôs um fruto negro no lugar do coração.

DÚVIDA METAFÍSICA

Deverá o fruto do meu trabalho servir para pagar os milagres de Fátima? Tenha fé no link e siga sem austeridade por aqui.


P.S.: Nossa Senhora é treta.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

COVA FUNDA



Alguns dos melhores versos publicados em Portugal durante o ano que passou encontram-se num volume intitulado Cova Funda (&etc., Julho de 2011), dramatização picaresca de uma marginalidade com toque clássico em contemporâneas situações. O título faz-se acompanhar de uma explicação bastante elucidativa: taverna exemplaríssima para os lados da antiga Porcalhota, de que o autor faz testemunho, com larga cópia de figuras, experiência de brancos & tintos, retirando do lugar ilação forte ao modo do século anterior; testemunho precedido de Unhacas & Calosidades Literárias e seguido de Levitação de Goetthe d’Amadora, crendo deste modo ter pé assente na História da Literatura do século seguinte. Ainda que o autor, Nunes da Rocha, insista em botar acento no cu, a dispersão de envios, citações e referências leva-nos a supor um observador participante neste universo de figuras/personagens desenhadas com divertida eloquência. Entre o castiço e a exclusão, numa linguagem erosiva e refractária, Nunes da Rocha consegue entreter o leitor sem perder a mão à poesia. A matriz é satírica e abjeccionista, eventualmente inspirada nas desconstruções do legado clássico operadas pelos surrealistas há já quase um século. Mas nada disto retira valor aos quadros populares que aqui e acolá nos assaltam com versos provocadores e envolventes. Exemplos: «toda a poesia é verdadeira, e somente se, / Todo o bestiário for doméstico» (p. 12); ou «Vê como as putas têm modos entre elas: / Umas fodem, outras exercem» (p. 25). Fica um poema:

SUECA

Havia quem falasse
Sobre o Grande Retrocesso que todos os dias
Nos liberta do futuro;

E quem sobre abjecção, vómito
E falta de ar, tivesse opinião;

Também um grego,
Cujo nome não recordo, dizia:
É o vinho que fala por mim;

E quem garantisse
Ser o Treze marido de Teresa.

Eram quatro, heterónimos todos,
À mesa da sueca que,
Como é sabido, é um jogo «calado»
.

Nunes da Rocha, in Cova Funda, &etc., Julho de 2011, p. 30.

CASTRAR

Camarada Van Zeller, aquilo em que este país se tornou consubstancia-se na cara de pau com que o Presidente da República leu a sua mensagem de ano novo, como se não tivesse governado o país durante 10 anos, como se não fosse também ele responsável, como se não tivesse dado emprego aos maiores cretinos, mafiosos, crápulas, vigaristas e ladrões que este país conheceu nos últimos 37 anos. Alguém que faça a esta gente, por favor, o que o Renato fez ao Carlos Castro. Mas que o faça antes que emigrem.