sexta-feira, 31 de março de 2017

CHEIO DE VIDA & FACTOTUM

Não é segredo para ninguém, até porque o próprio fez questão de registá-lo em diversas ocasiões, que John Fante (n. 1909 – m. 1983) foi a maior influência literária de Charles Bukowski (n. 1920 – m. 1994). Ambos filhos de emigrantes, praticaram uma escrita fortemente autobiográfica e coloquial. Mas se em Fante ainda vislumbramos um sentido poético da existência, em Bukowski essa poética dá lugar a um hiperbólico desencanto. O álcool era outra matéria que os aproximava, embora no autor de Post Office (1971) o alter-ego Henry Chinaski faça de Arturo Bandini um copinho de leite. Em Bandini conseguimos ainda encontrar um forte elo familiar, a manifestação de um respeito pelas origens que Chinaski renega por completo. O Bandini de John Fante é sonhador, tem uma postura autocrítica que não chega a ser autodestrutiva, coloca a actividade de escritor num horizonte atingível. O Chinaski de Bukowski é essencialmente autodestrutivo, tem também a escrita por horizonte mas pelo meio enfia-se num labirinto de álcool, putas e jogo do qual parece não haver saída. Ambos os autores têm vindo a ser profusamente publicados em língua portuguesa nos últimos anos. Mais recentemente, a Alfaguara vem-lhes prestando especial atenção.
Com tradução de Rita Canas Mendes, Cheio de Vida (Outubro de 2016) desvia-se da saga que tem Arturo Bandini como protagonista. A Primavera Há-de Chegar, Bandini (Ahab, 2010) surgiu originalmente em 1938. Seguiram-se Pergunta ao Pó (Ahab, 2009) em 1939, Sonhos de Bunker Hill (Alfaguara, 2014) em 1982 e Estrada para Los Angeles (Alfaguara, 2013) em 1985, apesar de ter sido este o primeiro a ser escrito em 1933. Cheio de Vida foi publicado em 1952 e, como disse, afasta-se do Quarteto Bandini assumindo uma clara componente autobiográfica. A personagem central é o próprio Fante: «Eu, autor, John Fante, escritor de três livros. O primeiro livro vendeu 2300 exemplares. O segundo livro vendeu 4800 exemplares. O terceiro livro vendeu 2100 exemplares» (p. 11). Fante refere-se a A Primavera Há-de Chegar, Bandini, Pergunta ao Pó e Dago Red, ainda inédito entre nós. Casado com Joyce, está prestes a ser pai pela primeira vez. Cheio de Vida é o relato dessa experiência, pulverizado pelas habituais hesitações do escritor, um retrato cru da instituição familiar, uma perspectiva ao mesmo tempo desapaixonada, mas algo romântica, da vida com Joyce. Entretanto, um reencontro com Nicola Fante, pai do escritor, permite identificar uma sequela geracional que é em si mesma a síntese da filosofia de vida que Fante tem para oferecer aos seus leitores:

   «Dez minutos depois, vi o menino. Estava nos braços de uma enfermeira que usava máscara. Não podia tocar nele, pois estavam atrás de uma janela de vidro. Ele estava contraído e feio como um gnomo mergulhado em gema de ovo. Com bigode, teria ficado igualzinho ao avô. Deu um guincho quando a enfermeira mo mostrou. Contei dez dedos nas mãos, dez dedos nos pés e um pénis. Um pai não pode pedir mais do que isso, sem dúvida. Anuí e a enfermeira tapou o seu corpinho horrível com cobertores e levou-o para outro sítio da complexa maquinaria do grande hospital» (p. 153).

Mais cruel no que respeita a reminiscências familiares, também Charles Bukowski relembra amiúde a relação que tinha com os pais. Factotum (Alfaguara, Março de 2017) não é excepção: «Lembrei-me de o meu pai chegar a casa todas as noites e pôr-se a falar do trabalho com a minha mãe. (…) Não havia outro assunto senão o trabalho» (p. 11). Ironia das ironias, não há outro assunto em Factotum a não ser as inúmeras ocupações que permitem a Henry Chinaski ir sobrevivendo nos tempos da II Grande Guerra. Publicado pela primeira vez em 1975, é o segundo romance de Bukowski. Os leitores portugueses têm agora acesso, na língua de Camões, a todos os romances escritos pelo maldito dos malditos norte-americanos. Chinaski salta de Nova Orleães para Los Angeles, passa por El Paso, vai a Nova Iorque, regressa a Los Angeles, anda por Filadélfia, St. Louis, Miami, emprega-se a distribuir revistas, num armazém de peças sobressalentes, na publicidade, numa fábrica de biscoitos de cão, como funcionário de expedição numa loja de roupa feminina, num armazém de bicicletas, num outro de peças para carros, numa loja de roupa, numa empresa de luminárias fluorescentes… De cidade em cidade, aguenta-se tão pouco nos inúmeros ofícios que vai fingindo que desempenha como com as inúmeras mulheres com que se vai cruzando. A história de sobrevivência deste assumido falhado é a de alguém sem outra ambição que não seja a de manter-se vivo, podendo explicar-se com impressionante capacidade de síntese:

   Tocou o telefone. Tocou várias vezes até que eu conseguisse levantar-me a custo da cama para ir atender.
   — Senhor Chinaski?
   — Sim?
   — Fala do Times Building.
   — Sim?
   — Estivemos a analisar a sua candidatura e gostaríamos de o contratar.
   — Como jornalista?
   — Não, como funcionário de manutenção e empregado de limpeza.


Pelo meio, Chinaski vai escrevendo contos que envia para revistas sem esperança de vir a ser publicado, ouve Mahler, Beethoven, Brahms, Debussy, estoura o pouco que ganha no álcool e nas corridas de cavalos. A sua história não é apenas a de um desafortunado, é a de alguém profundamente des-iludido com a sociedade em que vive, incapaz de se inserir nesse mesmo contexto social, é a de alguém que não vê sentido algum numa vida desperdiçada naquilo em que a maioria de nós investe a sua vida: família, emprego. Neste sentido, Henry Chinaski podia ser uma antítese de Arturo Bandini, apesar das pontes que os aproximam e do sentido de humor com que encaram a adversidade. «As pessoas deprimiam-me», confessa Chinaski logo a abrir a sua narrativa. O mesmo poderíamos ouvir a Bandini, mas em ambos parece existir uma noção da irrelevância que esta afirmação tem. Porque ambos sabem que são pessoas, ambos reconhecem-se como tal e como tal ambos se deprimem de si próprios. John Fante e Charles Bukowski foram escritores que souberam não se levar demasiado a sério, riram-se de si próprios tornando-nos a vida, a nós que somos seus leitores, menos onerosa. São uma fonte de inspiração inesgotável, mesmo não sendo exemplares. 

"O MOQUISMO"

É preciso escarafunchar para dar com a notícia: «Portugal é dos países onde o peso dos salários na economia mais diminuiu». O busto do Ronaldo é assunto premente, para quê gastar tempo com os dados da OIT? A disparidade salarial continua a ser absurda no nosso país, mantendo-se a nação do Ronaldo no pódio dos países mais desiguais. Levamos a taça para casa, juntamo-la à taça do desinteresse, da burrice e do masoquismo, enchemos os pulmões e berramos que nem animais: campeões!
Não é preciso, mas uma visita rápida à Feira das Tasquinhas de Rio Maior serve de observatório. Em ano de autárquicas, o assunto não podia ser outro. Eu estou contigo, eu estou com o outro, dá-se uma justificação, tira-se uma fotografia, muitos abraços, sorrisos, apertos de mão gordurosos. Aquilo regado a vinho e moelas é mesmo um vómito. Uma azáfama cheia de cuidados, para não ferir sensibilidades. E a triste constatação de que os filhos não só replicam os vícios dos pais, como os amplificam.
O problema maior revela-se, precisamente, o emprego. Parece que quem trabalha para o município não pode senão estar com o município, sob pena de perder o belo trabalho. Justifica-se à entidade empregadora, faz a vénia, segue descansadamente pelas vielas da parvoeira. Mais do que se perpetuar, desse modo, a incompetência no poleiro, perpetuam-se tiques e tendências fascistas a nível local que a gente julgava extintas.
Continua-se a falar baixo e por baixo, a política ali encarna o papel da pura intriga, é do mais rasteiro e vazio que se pode imaginar. Porque não se discute, porque não se gera conflito, simplesmente porque se reduz à “clubite” saloia que demite toda a gente de pensar pela própria cabeça. Para muitos será um descanso, visto nada terem na cabeça com que pensar. Os outros são “uns intelectuais”, o pior insulto que se pode oferecer a alguém por aquelas bandas.
Um atrofio de contradições, parolices, conversa de chacha, a mais exuberante mediocridade sem consciência de si própria. Presumo que noutros locais da nação seja semelhante o ambiente. Isto, esta coisa sem remédio, a vida na terrinha. Depois levam com o DJ Pato e todo um programa cultural de alto gabarito, ao preço da água que ali se paga, e fazem a festa. Enfim, têm o Centúrio que merecem. 

quinta-feira, 30 de março de 2017

"A GRUA" VAI A LISBOA

O QUE ANDARÃO A ESCREVER?

Vejo anunciada mais uma antologia de poesia brasileira, depois de já este ano a Elsinore ter dado à estampa, salvo seja, Naquela Língua – Cem poemas e Alguns Mais, Antologia da Novíssima Poesia Brasileira. Há um inegável fascínio pela poesia brasileira nas editoras portuguesas, muitas das quais, limitadas nos seus recursos, vão fazendo surgir nos seus catálogos diversos títulos de poetas brasileiros. Não posso deixar de notar a ausência de um mesmo interesse para com a poesia que vai sendo praticada nos outros países da lusofonia. O que andarão a escrever angolanos, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, são-tomenses, timorenses? 

BUSTO


o busto apanhou um susto
ficou a modos que usto
qual o custo do busto
a modos que usto
preço justo
tusto

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Sempre existiram desde tempos imemoriais, e continuarão a existir, os chamados "crimes passionais" motivados pelos furores do amor, da paixão, do ciúme. Mas a questão, parece-me, é até filosófica: a violência é por natureza selvagem e «indomesticada» (mesmo a mais premeditada e dolosa). O equívoco está em vivermos numa sociedade que parece valorar o adjectivo «doméstico», quando chamado a qualificar a violência, como algo de menor importância, mais desculpável, uma violência de trazer por casa. Neste sentido, a violência doméstica seria uma menor violência porque a sociedade considera que nesses casos há muitos factores que interferem com as acções do agressor. Contudo, quanto mais não seja pelos números, pelas penas suspensas, pelas recorrências, por um certo sentido de impunidade, percebemos o preço que pagamos por valorar a violência doméstica como «violenciazinha», ao invés de fazer o contrário. A natureza indomesticada da violência no espaço doméstico ganha proporções ainda mais vorazes e selvagens, isto é, o facto desta violência se verificar no espaço da casa deveria ser tido não como factor desculpabilizante, mas sim agravante.

Carlos Natálio, autor do weblog Ordet, aqui.

[Voltemos um pouco atrás]



Voltemos um pouco atrás
Surpreende-me a precisão
Com que adivinhas
Os desastres do paraíso
O quando e o quanto
Ao escrever não posso
Ou não deva vens
Haurir o distúrbio
Ao grande livro dos reversos
Que não darei a ler


Rui Baião (n. 1953), in Separata (1994). Um primeiro livro publicado em 1982, com o título Quiasma, fixou-o entre os autores de uma geração de algum modo retratada com a publicação da antologia Sião (1987), de que foi co-organizador com Paulo da Costa Domingos e Al Berto. Mantém desde a primeira hora uma inquestionável coerência no modo como alcança os imperativos do tempo, manifestados numa poesia onde a ruína, o declínio, o abandono, os escombros, surgem representados enquanto sinais históricos modeladores de uma evidente decadência cultural. Mais do que se circunscrever à paisagem urbana, a poesia de Rui Baião transcende os ambientes geográficos penetrando o âmbito ontológico da figura humana à medida que a fotografa com extremo naturalismo. A relação corpo/sombra é um tema recorrente, sujeito a representações violentas da morte a partir dos seus indicadores materiais. Fotografia respigada aqui.

terça-feira, 28 de março de 2017

DESLEIXO

Vindo do banco, atravessei o Parque e parei na Casa dos Barcos. À porta, o anúncio a uma exposição dedicada a António Pedro e ao Teatro. Entrei. Não estava ninguém, nem à porta, nem dentro. Cartazes pendurados no tecto formavam um estendal em cruz que atravessava a sala, algumas mesas com livros protegidos por caixas de acrílico, muitas folhas coladas às paredes. Algumas folhas, descoladas, caídas pelo chão. Desleixo sem qualquer amadorismo, simples desleixo. Coisas que se fazem para se poder dizer que se fez alguma coisa. Não faz sentido. O António Pedro merecia melhor, o teatro ainda mais.

UMA EDITORA É UMA EDITORA É UMA EDITORA



Para abrir o apetite, deixo ligação para uma breve leitura do que aí vem: aqui.

INFORMAÇÃO


A quem possa interessar: para encomendar os livros da volta d’ mar, basta enviar um e-mail para voltadmar@gmail.com dizendo qual(ais) livro(s) deseja adquirir. Na resposta receberá confirmação do pedido. Mais informações: aqui. Texto de apresentação da Maria João Lopes Fernandes: aqui. A minha enorme gratidão ao Teatro da Rainha pelo acolhimento. Muito obrigado a todos quantos compareceram. Saúde,

LEÃO DA BULGÁRIA


Ivaylo Yordanov foi o único capitão do Sporting, se bem sei o primeiro estrangeiro, na época do título de 1999-2000. A decisão histórica de Augusto Inácio, então treinador, honrava dessa forma a força de um lutador. O mais pode ser visto nesta reportagem: aqui. E vale mesmo a pena ver, goste-se ou não de bola. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

100 POR SEMANA


Uma amostra do país que temos, patenteada na frieza dos números. Não vale a pena disfarçar, fugir ao problema com paninhos quentes. Chamam-lhe flagelo, antes lhe chamassem terrorismo. Guerra perene que, como qualquer outra guerra, destrói famílias e infecta o ambiente social. Gente bronca e racista julgará que são ciganos, árabes, pretos quem engrossa os números.   Desenganem-se. Este é o verdadeiro Portugal dos pequeninos, atravessa gerações, transversal nos domínios económico e social, não escolhe etnias nem raízes culturais. Ainda ontem se comentava à mesa, em surdina, a filha de não sei quem que leva porrada de três em pipa e não larga o namorado. Em namoro. Como se combate esta guerra, este terror? Quem souber, atire a primeira rosa.

domingo, 26 de março de 2017

Respect!


Beatriz Alexandre Fialho canta Jar of Hearts, de Christina Perri.

sábado, 25 de março de 2017

JEAN-LUC NANCY

No Donne Moi Ma Chance, o poeta Fernando Machado Silva tem vindo a partilhar reflexões de Jean-Luc Nancy sobre o corpo. Serviço público pelo qual devemos estar gratos: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui. Fragmento 54:


O corpo, a pele: tudo o resto é literatura anatómica, fisiológica e médica. Músculos, tendões, nervos e ossos, humores, glândulas e órgãos são ficções cognitivas. São formalismos funcionalistas. Mas a verdade é a pele. Está na pele, é feita pele: autêntico campo exposto, toda virada para o exterior enquanto, simultaneamente, envolve o interior, um saco repleto de borborismos e fetidez. A pele toca e faz-se tocar. A pele acaricia e afaga, magoa-se, arranha-se, comicha. É irritável e excitável. Ela apanha o sol, o frio e o calor, o vento, a chuva, ela inscreve marcas no interior – rugas, manchas, verrugas, escoriações – e marcas no exterior, por vezes as mesmas ou então fendas, cicatrizes, queimaduras, cortes.

IGUALDADE

A igualdade sofre deste tipo de acidentes: é boa, no geral, apenas enquanto a desigualdade nos prejudica. Quando deixa de nos prejudicar, a desigualdade passa, de ordinário, a fazer parte da ordem natural das coisas.


 Aqui.

ALGUÉM QUE ME COMPREENDA


Eu era um tipo que se dava bem com a solidão; sem ela, era apenas mais um homem sem comida ou sem água. Enfraquecia a cada dia passado sem solidão. Não me orgulhava da minha solidão; mas dependia dela. A escuridão do quarto assemelhava-se à claridade para mim.

Charles Bukowski, in Factotum, trad. Vasco Gato, Alfaguara, Março de 2017, p. 35.

BOM DIA


que belos 
             os cabelos
cabe lê-los
        de tão belos 
los pelos más bellos 
os cabelos os cabelos 
       que belos cabelos
a cabo de lê-los
acabo de vê-los
                       los más
bellos pelos cabelos

sexta-feira, 24 de março de 2017

O MUDO ABIBO


Ilha de Moçambique
4 de Agosto de 1899

   Apareceu-me hoje de manhã no Tribunal um preto muçulmano, em estado andrajoso e, para mais, cego de um olho e mudo, o que, como está bom de calcular, gerou sérios problemas de comunicação. Acresce que não compreendia Português e, aparentemente, tampouco encontrava motivo para a sua detenção, pelo que se encontrava bastante agitado, chorando e esbracejando, a um tempo. Condoído da sua figura patética, averiguei o que se passara.
   Abibo, é esse o seu nome, chegara ontem do continente, mais precisamente de uma das praias que se avistam da costa ocidental da Ilha, e desconhecia por completo as normas desta municipalidade. Fôra apanhado a defecar na praia como é uso na sua terra, até por aí não haver pedagogia em contrário, latrinas ou bacios. E, até com certa lógica, não acham os nativos melhor sítio para fazerem as suas necessidades, postoque a água do mar, com que se lavam depois do serviço, se encarrega em seguida de levar a imundice para longe. O hábito só pode, porém, ser considerado menos mau em locais onde não haja senhoras, o que não é aqui o nosso caso.
   E foi assim que um sargento do exército foi alertado para o sucesso ao ouvir os gritos de Madame Benoit, uma viúva francesa que aqui permaneceu após a morte do marido, que jazia quase desmaiada no pavimento, tomada de indignação exacerbada pela visão do traseiro do mudo Abibo.
   O mudo vai ser amanhã presente ao Juiz, embora se adivinhe que o esperam já uns quantos dias de cadeia, por não ter com que pagar a elevada coima correspondente ao crime em causa.
   Não se sabe, aliás, se será acusado de despejos ilícitos ou de atentado ao pudor. O que quer que seja decidido, o caso foi motivo de farta risota entre o pessoal do Tribunal e apressei-me a espalhar a anedota, no que fui coroado de êxito.

Mariano Gracias


Miguel Martins, in Muhípiti, Erasmos, 1997, p. 49.

AGUSTINA

Sábado passado, desabafava o desencanto fomentado pela actividade livreira. A gente fica a perceber o país em que vive. E dei exemplo: em 9 anos de trabalho numa livraria, não me recordo de ter vendido um único livro da Agustina Bessa-Luís. Isto é um facto tão mais chocante para mim, quanto ao contrário do que por aí* se supõe sou um homem (ainda por cima de esquerda) que lê Agustina. Pouco, é certo, mas leio. Muitas vezes me repugna a lamúria geral em torno da desgraça. As livrarias independentes declaram falência ao som de carpideiras que nunca nelas meteram pé, quanto mais comprar um livro. O A. Dasilva O. disse-me em tempos que fechou a Pulga porque estava farto de aturar tipos que o visitavam mostrando os livros que tinham comprado na FNAC. Esta é a realidade do país. As pessoas choram o fim de um mundo, sem que façam o mínimo para que esse mundo não tombe. A minha mulher diz que sou catastrófico, mas assisto a tudo isto com repulsa indisfarçável. Não é muita a indignação que por aí se ouve face ao caso Agustina, mas é alguma. Entretanto será mais. Ora que se fodam. Entrem numa livraria e peçam A Sibila, O Manto, o Vale Abraão. Não temam estar a contribuir para uma maquiavélica acção promocional, como já ouvi. Serão absolvidos pelo facto simples de terem adquirido bons livros, de uma das nossas maiores escritoras vivas. Quando falecer, já não vale. Miserável país de carpideiras hipócritas, ainda te admiras que lá do norte te reduzam a putas e vinho verde? 


* Página não encontrada cujo conteúdo era mais ou menos este:


quinta-feira, 23 de março de 2017

BAIRRO

O Luís regressou ao bairro. E enquanto regressava, foi anotando o que se perdeu, o que se mantém, foi recordando, constatando o quão impossível é reviver. Não há glória alguma nestes regressos, a memória é uma função que apenas nos liberta do esquecimento. O mais é derrota, nostalgia, a puta da saudade. Sobram como fogachos “breves imagens vivas” (roubo a expressão a Breton). Há tempos, também regressei ao meu bairro. A fachada da casa onde vivi os primeiros 11 anos mantinha-se, mas o asfalto percorrido era outro, a envolvência era outra, os cheiros eram outros. No meu bairro já ninguém coze o pão, a tasca onde bebi as primeiras ginjas desapareceu, os olivais deram lugar a mais casas, o areal deu lugar a mais casas, o pântano deu lugar a mais casas. Desci ao açude para ver o rio, mas encontrei apenas um charco. Lama, canaviais, hortos ao abandono. Apenas dois patos grasnavam, fazendo emergir lá dos fundos da memória circunstâncias difusas. Duas bicas secas, uma de líquido amniótico, outra de sangue. Infindável matéria de poesia, estas coisas que se perdem e se tornam ruína. O tempo é em si mesmo uma elegia. Os escombros estão na moda, nunca antes se sublimou tanto a desolação da paisagem. Pessoas reencontradas são incapazes de falar do presente, as palavras não saem, tudo aponta para o passado. Lembras-te quando?... Achados e perdidos, Portugal em ruínas, abandonados, toda uma estética da devastação popularizada em horário nobre. Nostalgia, saudade. Há que fechar a janela à saudade:


janela

passei pela rua
olhei a janela
já não vives aqui
foste embora
fechaste a janela
para sempre



Luís Paulo Meireles, in bairro, volta d’mar, Junho de 2016, s/p.

ANTI-ELEGIA PARA O MEU FINAL


Há-de surgir o dia em que a memória
será um salão vago de onde levaram
os móveis, os espelhos, o riso que ecoava,

e os rios deixarão de correr só um momento
e um veleiro arderá suspenso em suas rotas
com uma chama fria, foto de um instante

congelado no tempo em que os rostos são
uma pira, onde o lume de neve os queimará
sem ruído e sem pena, porque tudo se gasta,

e as palavras, que deram nome a seres e a coisas,
serão a nulidade mais cansada
e, por tanto as saber, as escusava,

e nada ser verdade senão a hora breve,
mesmo essa sem mais importância,
que é de imagens que os olhos sobrevivem

e fugazes se tenham ido a correr,
a ninguém pertencendo, nem mesmo a elas,
porque o passado então será

inútil o futuro, e o presente arderá,
e rio-me com esta subversão, este fósforo,
esta chama de tempo confuso

diante de um antigo deus que usava
lítico em seus altares
o tempo como um ceptro poderoso.


Nuno Dempster (n. 1944), in Dispersão - Poesia Reunida (2008). Estreia tardia, porém ousada, com um extenso volume de poemas reunidos intitulado Dispersão. Seguiram-se diversas recolhas, mais breves, mas invariavelmente competentes nos domínios temático e formal: Londres (2010) – poema longo marcado pela confluência de tempos distintos num só espaço -, K3 (2011) – extraordinária evocação da guerra colonial portuguesa -, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (2011) – depurada desconstrução do mito amoroso -, Elegias de Cronos (2012) – desmistificação do presente à luz de um passado heróico -, Na Luz Inclinada (2014) – o tempo, sempre o tempo, pautado por uma saturada passagem das estações. A publicação tardia confere a esta poesia uma espécie de exílio geracional, potenciado pelo distanciamento crítico da actualidade que se empenha em reflectir o mundo sem resvalar para os abismos decadentistas de muita da produção poética corrente. Irónica quanto baste, não prescinde de uma lente clássica que oferece os contrastes da História, exercendo desse modo uma espécie de recuperação/conservação do belo que é outra forma de resistência no interior do caos. Memórias pessoais dialogam com obras alheias, numa proficiente “polemização” interior da qual sai sempre a ganhar o leitor.  

quarta-feira, 22 de março de 2017

DEFINIÇÃO DE BELEZA



Pela minha parte, escolhi proteger-me o mais possível. Nem tenho de me forçar a isso, detesto tudo o que abole a fronteira entre o público e o privado. É assim mesmo, está na minha natureza, direi mesmo: é a minha norma. Sinto-me aterrorizada pelas redes sociais e os rumores que propagam. Detesto a exposição íntima. Nunca abri a minha porta, para uma reportagem, às câmaras de televisão. Não faço tweets, mostro tanto menos as minhas fotografias de família ou de férias no Facebook quanto não tenho conta no Facebook, e limito ao estrito mínimo as minhas trocas informáticas. O que há de odioso no mail, é que é intrusivo e exige uma resposta imediata. Como se eu passasse os meus dias em frente de um ecrã! O meu trabalho consiste em estar num ecrã, não em frente.

Catherine Deneuve, respigado aqui.

AS FOTOS DO TERROR

A exibição descontrolada das fotos do terror é em si mesmo um terror. Enquanto não tivermos jornalistas que o percebam, enquanto não tivermos uma sociedade civil que o entenda e se contenha na exibição do terror, favorecendo assim o fim último do medo, estaremos condenados a perder esta guerra.

A EUROPA DE DIJSSELBLOEM



Quando um tipo com o nome esquisito de Jeroen René Victor Anton Dijsselbloem anda nas bocas do mundo, não pode ser por bom motivo. Chamemos-lhe René, para simplificar. Fico a saber pela Wikipédia que é neerlandês, esse pequeno país do norte da Europa que tanta coisa boa tem gerado. Quando por lá andei, fiquei maravilhado com a qualidade e a quantidade das putas no Red Light District de Amesterdão. Incontáveis números de contorcionismo, fetiches inimagináveis. Casa cheia para todos os tipos de taras e manias. Estes holandeses são uns maganões de primeira, vivem nos Países Baixos mas nós não lhes chegamos aos calcanhares. O mais que nos sobra é uma janela escondida numa rua obscura de Aveiro. Eles têm montras inteiras, de três metros de largura, e muita oferta a céu aberto.
Gosto dos holandeses. Namorei em tempos com uma holandesa. O irmão dela bebia que se fartava. É impressionante o que os holandeses gastam em copos. Basta seguir-lhes os passos da selecção nacional de futebol para ficarmos incrédulos. Esqueçam as cenas tristes de andarem a humilhar mendigos antes dos jogos, é tudo dos copos. A malta diverte-se com copos e depois faz assim umas coisas parvas tipo humilhar mendigos e ir às putas. Enfim, para que fizemos nós o nosso All Garve senão para agradar aos holandeses? Aposto que o camarada René adoraria passar uma temporada no nosso All Garve. Daqui lhe endereço o convite, camarada, para em alternativa visitar-nos em São Martinho do Porto, onde temos uma já bem apetrechada comunidade de neerlandeses, sempre alegremente sentados nas mesas dos cafés a bebericarem vinho branco e cerveja Sagres. Uns bêbados… diríamos, não fossem tão bons clientes.
Infelizmente, ainda não chegámos aos pés dos Países Baixos e ficamo-nos por poder oferecer boa cerveja e melhor vinho. Casas de putas, só às escondidas. O mesmo para os charros. A gente observa o René e vê que ele vem de paragens liberais, lá na terra dele é tudo às claras. Bem me lembro da moca que apanhei numa coffeeshop com ementa inigualável. Variedade impressionante. Como poderia Van Gogh ter vingado? Andava a pintar a realidade tal qual os holandeses a percepcionam, depois de uma visita à coffeeshop com paragem no Red Light District. Portanto, René, estamos falados. Copos e gajas não são para quem quer, são para quem pode. E vocês podem.
Não podem é olhar para nós, os do sul, como se por sermos do sul algo nos diferenciasse… É verdade que temos o sol e as praias e… Ups, alto e para o baile. Salto um parágrafo na biografia do cabeça de gel e dou com isto:

«Jeroen Dijsselbloem estudou economia agrícola, com foco em economia empresarial na Universidade de Wageningen (1985-1991). Terá realizado investigação na área da Economia Empresarial, no University College Cork, na República da Irlanda (1991), com o objectivo de obter um Mestrado, sem no entanto o concluir. Apesar de não ter concluído os estudos deste curso de Mestrado, entre Novembro de 2013 e Abril de 2014, o grau de Mestre constou da sua biografia oficial, até o mesmo ser desmentido por parte do University College Cork e da National University of Ireland».

Ora queres ver que temos aqui mais um Relvas? De facto, não é nos estudos que esta malta investe recursos. Quem precisa de estudos para chegar a um dos mais altos cargos políticos desta Europa à deriva? Precisamos é de tipos que cuspam as bocas certas, fazendo o serviço a quem manda e garantindo posição entre quem governa. O resto é copos, e gajas, e charros… sejam a sul ou a norte. E já agora, um grave problema de gosto ao nível capilar. Tanto gel pode dar nisto, o cérebro fica pastoso e as sinapses atrofiam. A única vantagem é passar a boca a cuspir o que vai na cabeça, sem filtros, e a gente regozijar com o brilho da verdade. Ah ele é isto? Estamos bem entregues. 

terça-feira, 21 de março de 2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

CHUCK BERRY (1926-2017)


ONE NIGHT STAND

Realizei em tempos hercúleos esforços de compreensão, pretendia saber o que está por detrás do pensamento das pessoas para quem a vida dos outros é sempre um problema. Talvez possa explicar-me melhor referindo-me ao ambiente social da terra onde nasci e fui criado nos primeiros 17 anos de vida, anos sufocantes de observação constante, rodeado de medos e de receios, sendo permanentemente julgado por quem, pensava eu, não tinha vida própria para julgar. Por vezes, era levado a pensar que por detrás de quem passava a vida a fazer dos outros um problema… não havia vida alguma. Errado. Há uma vida, uma vida como a de qualquer outra pessoa, motivada, alicerçada, estimulada pela vida dos outros. 
Ora, a vida dos outros pouco me importa. Quero dizer, o modo como a levam. Pouco me importa até constatar que levam a sua vida preocupados com a minha. Bastaria dizer que dispenso tais preocupações, que desobrigo todos de tamanhos cuidados. Se algum dia me virem doente, deixem-me em paz comigo mesmo e com as minhas doenças. É só o que peço. Em vão. Seres existem neste mundo que se alimentam de preocupações, buscam porventura a santidade, acordam e deitam-se a pensar em estratégias para melhorar a vida dos outros. Do meu ponto de vista, têm um problema de fabrico dificilmente reparável. Esse problema reflecte-se em que quase sempre para essas pessoas melhorar a vida dos outros é proporcionar-lhes uma vida como a deles, isto é, padronizando comportamentos, tornando toda a gente cada vez mais igual. Daí que evangelizem. 
Evangelizar significa igualar. Poderia significar qualquer coisa como “criar condições para que o ser de cada um se revele na sua diversidade”. Mas isto é complexo, demasiado complexo. É muito mais simples e eficaz fardar o ser de cada um. O problema está em que quando vestirmos todos a mesma farda, deixará de haver quem precise de nós, deixará de haver quem, no fundo das nossas vontades, necessite de ser apoiado, auxiliado, ajudado pela nossa incomensurável ânsia de caridade. Seria um descanso se partíssemos logo do princípio de que em essência somos todos iguais, até porque somos todos filhos de Deus e à sua maneira e semelhança fomos gerados. Fala um ateu.
Estais recordados, porém, do que foi a discussão acerca da Interrupção Voluntária da Gravidez, de como havia tanta gente preocupada com as gravidezes dos outros, tanta gente emprenhada de preconceitos que pretendiam impor aos outros. Em matéria de eutanásia, coloca-se exactamente o mesmo problema. É uma chatice isto de não nos bastar a vida dos outros, queremos também assaltar-lhes a morte e o sofrimento. O mundo seria mais simples, julgo até que mais saudável, se a cada ser humano fosse dada apenas oportunidade de dizer o que quer para a sua vida, que é sua e de mais ninguém, sem ter de se sujeitar ao julgamento daqueles para quem a sua vida não faz sentido sem aquilo a que chamam, vá lá, aconselhamento sobre a vida dos outros. 
É uma chatice chegar a este ponto tão confuso. A cada qual a sua vida, defendo. Mas e se a vida de alguém for essa coisa de passar o tempo todo a tentar definir a vida dos outros? Deverei eu censurar uma vida assim? Poderei julgá-la? É de facto uma chatice. 
Um exemplo mais simples, ao qual acabei de chegar via Provas de Contacto. Um sítio intitulado datesCatolicos (dC). Temos invariavelmente como fundo um rapaz e uma rapariga, não há dates para rapazes com rapazes ou raparigas com raparigas. Já de si, estabelece-se aqui uma diferenciação de princípio. Para aqueles católicos os dates só fazem sentido no domínio da heterossexualidade. O dC ajuda-nos, que estamos muito precisados, a encontrar uma cara-metade católica, desde que seja do sexo oposto, com simplicidade e diversão, propondo um “teste de combinação de inspiração cristã” onde aqueles que ousam constituir família vislumbraram nos caminhos do Senhor o parceiro ideal para casar e ter filhos (de preferência concebidos imaculadamente). A perspectiva do mundo que defendem: nasces, casas, reproduzes, morres, tudo no seio dessa muralha protectora a que damos o nome de família. 
Como não percebo nada do assunto, mas gosto de literatura, permitam-me que observe a impertinência da citação de Goethe no termo da descrição deste conceito dC. Afinal era o poeta alemão quem também dizia não se admirar de Cristo Nosso Senhor ter gostado de viver com putas e pecadores. Pois se o mesmo se passa comigo! Palavra de Goethe.
Aparte realizado, confesso (o verbo é este) uma certa relutância perante o fenómeno dC. Não restam dúvidas que estamos perante mais uma máquina de fardar corações, sendo que num mundo ideal o que era mesmo bonito era o católico encontrar a muçulmana da sua vida, ou a muçulmana conhecer a judia do seu coração, ou o ateu apaixonar-se profundamente pelo budista dos seus olhos. Enfim, fico na esperança de que a vida dos outros possa simplesmente ser a sua vida, um caminho de autodescoberta sem intermediários para quem pontes significam curvas no sentido de um destino único. Vã é a minha esperança, bem sei. Ninguém desta gente quer saber de ecumenismo para nada.
Há muita gente preocupada com muita gente, sendo que pelo menos metade desta gente toda, de tão preocupada andar com os outros, até se esquece de que tem uma vida própria para viver. Os trilhos da santidade vão dar a isto. E é uma chatice que assim seja. Bom dia:


sexta-feira, 17 de março de 2017

PRIMEIRO ESBOÇO DE UMA MÃO


   Agitemos aqui A MÃO, a mão do Homem!

1

   A mão é um dos animais do homem: sempre ao alcance do braço que sem cessar a alcança, o seu morcego diurno.
   Em repouso aqui ou acolá, pomba ou rolinha, muitas vezes então reunida à sua companheira.

   Depois, forte, ágil, esvoaça em volta. Esconde a sua fronte, passa diante dos seus olhos.
   Prestigiosamente representando as Euménides.

2

   Ah! É também para o homem como que a sua barca com amarra.
   Puxando como ela até ao limite da corda; baloiçando o corpo sobre um e outro pé; inquieta e teimosa como um cavalo novo.
   Quando a vaga se agita, fazendo o sinal de nem bem nem mal.

3

   É uma folha mas terrível, pregnante e carnuda.
   É a mais sensitiva das palmas e o caranguejo dos coqueiros.
   Vejam a direita a correr aqui por esta página.

   Eis a parte do corpo melhor articulada.
   Há um boi no homem, até aos braços. Depois, a partir dos pulsos - onde as articulações se desmultiplicam - dois caranguejos.

4

   O homem tem o seu botão electro-magnético. Depois o seu celeiro, como uma abadia reconvertida. Depois os seus moinhos, o seu telégrafo óptico.
   De lá saem por vezes andorinhas.

   O homem tem as suas bielas, as suas charruas. E a sua mão para os trabalhos de rigor.
   Pá e pinça, croque, remo.
   Tenaz carnuda, torno.
   Quando uma faz de torno, a outra faz de tenaz.
   É também esta cadela que por tudo e por nada se deita de costas para nos mostrar o ventre: palma oferecida, a mão estendida.
   Servindo para agarrar ou para dar, a mão para dar ou agarrar.

5

   Ao mesmo tempo marioneta e cavalo de lavoura.

   Ah! É também a andorinha desse cavalo de lavoura. Pica no prato como o pássaro na bosta.

6

   A mão é um dos animais do homem; muitas vezes o último a deixar de mexer.

   Ferida por vezes, arrastando pelo papel como um membro retesado uma caneta enxertada que aí deixa o seu rasto.
   Esgotada, ela pára.

   Arrepanhando então o lençol ou amarfanhando o papel, como um pássaro que morre crispado na poeira, - e aí se abandona enfim.


Francis Ponge (n. 27 de Março de 1899, Montpellier, França - m. 6 de Agosto de 1988, Le Bar-sur-Loup, França), in Alguns Poemas, tradução de Manuel Gusmão, Edições Cotovia, Fevereiro de 1996, pp. 73-75.

CONVITE


quinta-feira, 16 de março de 2017

"Religião e dinheiro; mas não filosofia, não história, não arte, não literatura."

(...)

O céu não precisa de justificação nem de legitimidade, mas da pergunta material destinada a conhecer; o céu precisa da física, o mais adiante é a arte. Fenecem a um tempo a filosofia e a história e esta realidade pode ser traduzida: desejando aproximar-se da verdade, e requerendo esse desejo a necessária exigência, libertam; perguntam e recusam o simulacro. Assim, é a filosofia considerada inútil face ao pragmatismo da vida, uma ocupação de quase-loucos ou quando muito de singulares inadaptados; a história, aceite com a condescendência que se reserva às fábulas morais; aceite porque ciclicamente necessária para legitimações de todo o tipo, com ou sem o pretexto da moda. É pois natural que a inexistência da filosofia esteja ao lado do triunfo do romance histórico – uma tutoria, por ausência e por efabulação.

(,,,)

Jorge Muchagato, aqui.

COLCHÃO

Há dias, ao chegar a casa, vi uma vizinha parada no meio do largo com um colchão na mão. Vestida de preto da cabeça aos pés, com lenço na cabeça, presumo que cumprindo o luto a que obriga a tradição cigana. Perguntei-lhe se precisava de ajuda a transportar o colchão. Respondeu-me com um sorriso. Agarrei de um lado, ela do outro, e enquanto o deslocávamos na direcção do prédio foi-me agradecendo, que Deus me pagasse, tinha encontrado o colchão junto ao lixo, estava em boas condições, havia que aproveitá-lo. Quando o largámos à porta do prédio, voltou a agradecer-me: que Deus me pagasse. Estava vestida de preto, da cabeça aos pés, com lenço na cabeça. Acho que se uma mulher quiser vestir-se de preto da cabeça aos pés, deve poder fazê-lo. Acho que se não quiser, ninguém a deve obrigar. Acho que as pessoas devem poder apresentar-se de acordo com as suas convicções, com a sua cultura, etnia. E acho que não custa nada ajudar alguém a transportar um colchão.  

terça-feira, 14 de março de 2017

20 ANOS


Em Setembro próximo cumpro 20 anos de palavras impressas. O primeiro dos crimes: aqui. Desses tempos, conservo apenas a epígrafe de Álvaro de Campos e uma forte amizade com o editor do opúsculo. Tudo o mais se perdeu. No próximo Sábado, lá estarei a dar o peito por nova publicação. A Grua nasceu neste weblog, ao contrário dos poemas coligidos numa plaquette intitulada Rogil, entretanto esgotada, que a Volta d’Mar me publicou há cinco anos. Esses poemas andavam espalhados por diários de férias. A Grua é um poema-sequência em 20 estâncias, coloca em cena um sujeito poético auto-exilado e um elemento paisagístico com o qual o sujeito estabelece um processo de identificação. Tem tanto de dramático como de visual. Agrada-me que tenha sido publicado pela Volta d’Mar, 20 anos depois da primeira insónia.

A GRUA

FITA MÉTRICA

A morte de Herberto Helder levantou a questão: quem é, agora, o maior poeta português vivo?

Desconcerta-me a simplicidade oferecida pelo meu amigo manuel a. domingos a tão intrincadas problemáticas. Custa-me aceitar que Herberto fosse o maior poeta português vivo à hora da sua morte, embora não tenha dúvidas de que era poeta. Finado o homem, não sei de todo quem é, quem foi ou quem deixa de ser o maior. Tenho até dúvidas sobre a existência de poetas vivos. Mas sobre a mensurabilidade de poetas, vivos ou mortos, recupero este micróbio inédito:

POETA NOVÍSSIMO

O grande-poeta encontrou-se com o poeta-cimeiro para discutirem se o mais recente livro do poeta-novíssimo podia ser considerado livro da maturidade.
Chegando a uma conclusão afirmativa, o poeta-novíssimo pôde assim ascender à condição de poeta-que-encontrou-a-sua-voz. Foi muito felicitado e não tardaram os convites para entrevistas e recitais.
Grande espanto causou quando, na primeira entrevista concedida, respondeu com as mãos às perguntas que lhe eram colocadas.

GAMA


III

Que espécie de palavra é esperança
É da cor da cinza
Sabe a feno antigo depois da chuva
Opaca ao tacto como o muro alto e branco
Cheira a traineiras
À corda húmida depois da pesca
O ritmo oscila na clave
O acento entre sílabas que conspiram átonas

Não vejo esperança na sintaxe
Uma apenas interjeição
e       e       a      a
s, p, r, ç, corroem a esperança
Deixam-na sem fundamento ou raiz

O  s  mata a esperança
A acção chegou ao fim sem nunca ter começado
Silêncio regresso sussurro soçobrar
O  p  impede-a de subir e sonhar
Prende-a à porta e à pedra pauper et paucrum
Mas o  r  lembra-lhe os curros com seus  r  de reprimir
Manda-a descer pelo filtro
Que lhe desfibra os raios e retesa os arames

O  n  desliga o nó descobre-lhe a nudez
Corta-a pelo núcleo
Mostra-a caída na neve negada
Nada ninguém nunca noite
Mas é o  ç  que amarra a nau ao fundo
Nem vermelho nem negro nem  c  nem  q
A palavra dobrando-se doce verga sorrindo
Açucarada com açucenas e açafates

Esperança deve escrever-se com  f
Que dá origem ao fogo à fonte à força
Faz-lhe falta o  t  metálico e vibrado
Com a seiva e a consistência de
Talo timbre
Torno tuba e tronco
O  d  aumenta-lhe a razão
Demonstra deduz debate e duvida

Esperança só é eficaz com  v
Onde reside a força e sopra o elemento
Onde a voz venta e vai veloz
Mas para que se erga no ar e voe
O  z  introduz-lhe o zip
Dá-lhe a fluidez do mercúrio
E a forma compacta da rosa
Duas vogais apenas para a esperança restaurada:  a,  i

Em Fatidiviz ainda ecoa um  r
Mas este agora é lógico
É o  r  da estrutura grupo e parte
Que liga para construir 
Que regressa para libertar
E assim Fatidiviz é o que vence o Fado qualquer
Grego ou latino opondo-se ao fatídico
É o que tem o Fiat


M. S. Lourenço (n. 1936 - m. 2009), in Arte Combinatória (1971). «Quanto a M. S. Lourenço (Manuel António dos Santos Lourenço, n. 1936), é um autor desconcertante, com momentos de completo acerto, pela intencional alternância, ou fusão, de processos e fontes: epigramas da mais elíptica sintaxe; evocações de certos ambientes históricos ou exóticos reconhecíveis, sumptuosos de imagens e raiados de absurdo, em prosa ou poema de larga respiração; paráfrases e justaposições de textos, com o sabor sugestivo e ao mesmo tempo evasivo de uma erudição deliciada à Ezra Pound» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). 

segunda-feira, 13 de março de 2017

ALGUÉM QUE ME COMPREENDA


   Subi e tomei o meu banho. Durante uma hora, fiquei deitado na água apaziguadora, a dormitar mas sem dormir. Para mim, um banho não era tanto a limpeza do corpo, era mais um refrescar da mente. Os meus pensamentos tornaram-se um céu de Verão, com imagens alegres a atravessarem-me a ideia como nuvens brancas: os veleiros de Newport Beach, a beleza pungente de Valli, o terceiro fairway no Fox Hills Golf Club, a prosa de Willa Cather. Juntamente com o meu banho vinham todas as coisas deliciosas, todas as coisas sedutoras, esplêndidas, suaves

John Fante, in Cheio de vida, trad. Rita Canas Mendes, Alfaguara, Outubro de 2016, p. 82.

O VOTO DELE

Gosto quando um escritor não se inibe de manifestar publicamente as suas inclinações políticas, sobretudo quando as mesmas fogem ao politicamente correcto. É isso que J. Rentes de Carvalho, há muito radicado na Holanda, faz aqui. Eu seria incapaz de oferecer o meu voto, mesmo que de protesto, a um político condenado por discurso de ódio. Wilders não quer marroquinos na Holanda, ironiza com a condenação de racismo de que foi alvo dizendo que os marroquinos não são uma raça, compara o Islão ao Nazismo. Paradoxalmente, a ideia de “desislamizar a Holanda” é muito mais parecida com a outrora intenção de expurgar a Alemanha de judeus. Os judeus que Geert Wilders admira, por nele tudo ser anti-Islão. É filho de uma mãe que emigrou da Indonésia, antiga colónia holandesa, para a Holanda, “pinta o cabelo de louro oxigenado”, faz da islamofobia uma bandeira. Ora, repugna-me todo o discurso político fundamentado numa retórica do medo. As fobias são inimigas da política. J. Rentes de Carvalho vota nesta criatura desprezível como forma de protesto, talvez pelas mesmíssimas razões que levam tantos turcos a manifestarem-se por um poder absoluto que Erdoğan se prepara para conquistar. Admirável mundo este em que democraticamente tantos antidemocratas podem almejar o poder.

domingo, 12 de março de 2017

sábado, 11 de março de 2017

NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS

1. "Paulo Núncio mostrou uma grande elevação de carácter e o país deve muito ao doutor Paulo Núncio pelo trabalho de combate à fraude e à evasão fiscal", disse Assunção Cristas aos jornalistas.

+

1. O antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, um dos nomes que está no centro da polémica sobre as declarações de transferências para offshores, foi advogado da petrolífera venezuelana PDVSA, responsável por uma boa parte dos 7,8 mil milhões que saíram do Banco Espírito Santo (BES) para o Panamá, noticia esta sexta-feira o Observador.

=

2. Foi literalmente aos molhos que os funcionários da sede nacional do CDS-PP levaram nos últimos - dias de Dezembro de 2004 para o balcão do BES, na Rua do Comércio, em Lisboa, um total de 1.060.250 euros, para depositar na conta do partido. Em apenas quatro dias foram feitos 105 depósitos, todos em notas, de montantes sempre inferiores a 12.500 euros, quantia a partir da qual era obrigatória a comunicação às autoridades de combate à corrupção.
(…)
Frisando que os 105 depósitos do CDS no BES foram feitos entre os dias 27 e 30 de Dezembro de 2004, "muitos deles com intervalos de minutos e a grande maioria em parcelas de 10 mil euros", os investigadores da PJ descobriram também que os recibos para justificar a entrada daquelas verbas nos cofres do partido teriam sido todos passados em datas posteriores aos depósitos. Os próprios livros com os talões de recibos teriam sido encomendados já em Janeiro de 2005.

Outros dados curiosos são os que se referem à identificação dos doadores. Os funcionários da sede nacional do CDS emitiram um total de 4216 recibos, neles anotando apenas o montante e o nome do doador, notando a PJ tratar-se provavelmente de dados fictícios, exemplificando com o "sonante e anedótico nome de doador "Jacinto Leite Capelo Rego", no valor de 300 euros".

sexta-feira, 10 de março de 2017

CONVERSÃO

Não me incomoda nada que as pessoas se convertam, que mudem de opinião, que dêem a volta ao mundo das utopias adoptando a cada dia uma nova, que voltem do avesso a consciência, até que se contradigam, que hoje digam uma coisa, amanhã outra, que ontem tenham sido fascistas e hoje se declarem comunistas, que ontem tenham sido maoístas e hoje se declarem católicos apostólicos romanos. A única coisa que me incomoda é que a conversão de nada lhes sirva. Podem apregoar os mais perfeitos ideais, podem advogar as mais beneméritas teses, podem bater-se pelo bem universal. Podem. No dia-a-dia, quotidianamente, rosto a rosto, continuam a ser umas bestas-quadradas, mesquinhas, hipócritas, insidiosas, maldosas. E nada fazem para o disfarçar. Que o bem lhes sirva para alguma coisa não é bem que nos seja dado a ver. Mantêm-se iguais a si próprias, de nada lhes serviu a luz do Senhor.


P.S.: há dias, colega de trabalho dizia em tom de desabafo: a mais frustrante das secções é a auto-ajuda, não há livro que valha a quem os procura. Daí que vendam tanto. Nem mais.