terça-feira, 31 de outubro de 2017

O NOME DE UM DOS OGRES*

   Jaime Marta Soares já foi tudo e já esteve em todo o lado: foi deputado do PSD, presidente da Câmara de Vila Nova de Poiares durante 40 anos (segundo o seu sucessor, abandonou o posto em 2013 com uma dívida de 30 milhões de euros), comandante dos bombeiros de Poiares, presidente da assembleia geral do Sporting e de um sortido de outras assembleias gerais, que incluem, segundo um perfil catita elaborado pelo jornal i, “filarmónicas, centros de convívio e aeroclubes”, e ainda teve tempo para ser fundador e director da Confraria da Chanfana, com o objectivo de “contribuir para a certificação deste prato, de origens tão remotas”. Parece muita coisa — e é. Contudo, ainda falta algo no currículo de Jaime Marta Soares: ser general. O primeiro general dos bombeiros portugueses.
   Jaime Marta Soares não é uma personagem de primeira linha da vida pública portuguesa, mas é uma personagem absolutamente emblemática da vida política portuguesa. As pessoas olham para ele e imaginam-no de mangueira na mão desde os 20 anos de idade. Não se enganem: Marta Soares é apenas mais um dos milhares de lobbyistas que pululam por este país, e cujo trabalho consiste em tentar confundir o interesse público com o interesse da sua corporação. Ele não é nenhum representante da sociedade civil, nem do esforço de milhares de bombeiros voluntários. É um político profissional, com várias voltas ao circuito que afundou o país: primeira curva, Parlamento; segunda curva, poder autárquico; terceira curva, futebol; quarta curva, empresas ou instituições cujo financiamento é dependente do poder político. Marta Soares e muitos como ele deram milhares de voltas a esta pista ao longo da vida, uns acumulando poder, outros acumulando dinheiro, outros as duas coisas em simultâneo.

João Miguel Tavares, no Público.

Quando um tipo de direita nos tira as palavras da boca, isso é… algo confrangedor. Mas ainda bem que foi um tipo de direita a dizê-lo. O asterisco do título remete para o post abaixo. 

BOM VENTO

Se Portugal defende o direito à auto-determinação dos povos, princípio basilar do direito democrático e da carta das Nações Unidas, não podia nem devia assobiar para o lado quando esse princípio está posto em causa, e há mil e uma maneira de fazê-lo diplomaticamente. (...)

Ricardo António Alves, no Abencerragem. Continuar a ler: aqui.

LEITORA QUESTIONA LEITORA

Por que é que os velhos, que já são velhos, compram todos o "Chegar Novo a Velho"? 

ESTADO DA NAÇÃO


Os ogres à volta da fogueira têm nome, não vão aprender coisas de sonho e de verdade. Já sabem como se cozinha uma bandeira e não lhes importa a liberdade. Não suportam a geringonça e vão fazer tudo o que estiver ao seu alcance para a comerem de fricassé. Andam histéricos com cargos e relações de poder, em tudo vêem apenas estatuto. No fundo da panela, o ratão tenta convencê-los com o canto da sereia: todos juntos, todos juntos... Mas os ogres grunham, não ouvem, querem guerra. Eu sempre disse que a paz deste país ia podre. Um dia que alguém nos invada, tipo uma horda de Madonnas, seremos todos madeirenses de gema. Só que o arquipélago não chegará para todos. Tão gordos que estaremos, não caberemos. Valha-nos que ninguém queira invadir isto, esta ingovernabilidade congénita. O meu desejo é que sejamos tenrinhos, que não macemos as cremalheiras uns aos outros enquanto nos mastigamos. Ó ogres.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

VIVA O CAPITALISMO

Vlada Dzyuba, de 14 anos, morreu na sexta-feira, ao fim de dois dias em coma, depois de se ter sentido mal num desfile de moda em Xangai, na China. A mãe conta que a filha lhe ligava várias vezes a revelar o cansaço extremo, mas a agência de moda chinesa garante que a jovem era feliz e realizada.

PLAY HOUSE


Do dramaturgo britânico Martin Crimp (n. 1956) já o Teatro da Rainha havia encenado Definitivamente as Bahamas. Play House mantém com essa peça uma óbvia relação. Em ambas assistimos aos desassossegos na vida de um casal. Porém, enquanto na primeira o homem e a mulher têm a pesar sobre si o desgaste da relação, em Play House é um jovem casal que encontramos em cena. O desconcerto desta peça, para quem tenha visto a primeira, começa precisamente na sensação que nos oferece de intróito à desventura. É como se Crimp nos perguntasse: querem ver como tudo isto começou? E mostra-nos tudo como se estivéssemos a andar de carrossel, um carrossel com cerca de uma dúzia de cenas onde vamos do deslumbramento inicial ao dissabor da discórdia, da paixão ao enfado, do entusiasmo ao tédio e à monotonia, num jogo de sobrevivência amorosa condenado a um fracasso que é sempre o de quem começa a cobrar ao outro a vida que tem por a ter em dependência alheia. 

O aspecto mais notável de Play House é a vã tentativa que nos oferece de uma eventual compreensão da individualidade. A vida a dois como fusão, diz Onfray, só gera confusão. A máxima também se aplica aqui.  Tal confusão conhece o seu princípio de deterioração quando a individualidade se esgota, quando o eu passa a ser exclusivamente em função do outro. Porque, mais tarde ou mais cedo, o eu vai cobrar a despesa. 

Crimp é inteligente no modo de superar a previsibilidade num texto algo disposto à monotonia. Na encenação levada a cabo pelo Teatro da Rainha essa monotonia foi ultrapassada por uma competente gestão da energia que os dois jovens actores colocam em palco, ficando patentes, a partir de certa altura, a raiva contida, os gestos de contenção marcados por frustrações implícitas na expressão de fantasias por concretizar. E há as caixas, desde o início, para as quais ambos olham como se olhassem para o vazio. Dessas caixas de Pandora saem presentes envenenados. 

Logo na cena inicial, o romantismo do quadro é descontinuado pelo conteúdo de uma dessas caixas. Não sabemos o que tem dentro. Sabemos apenas que se trata de um presente dela para ele, e somos surpreendidos quando ele abre a caixa e interroga-se com espanto: O que é isto? Merda de cão? Estranha maneira de começar. O processo de aprendizagem da vida conjugal aqui retratado encontra na personagem feminina um autêntico teste de resistência: ela cospe-lhe, bate-lhe, humilha-o... mas ama-o tanto quanto anseia sentir-se por ele amada. No final, diz-lhe que se lhe deu. Ele mente-lhe, sobretudo por passar o tempo a mentir a si próprio, julgando ser, pretendendo ser, o que em boa verdade não é. 

O vazio das caixas é, afinal, o vazio daquelas vidas que parecem surpreender os vizinhos no começo e acabam a querer ser pelos vizinhos surpreendidas. Sem efeito, porque então já a solidão demarcou o pântano onde a paixão se afundou. 

Há um pessimismo doméstico em Crimp que me agrada, parece-me honesto, autêntico. Ao contrário das suas personagens, que, encarnando os destroços humanos de uma época alienante, vivem na mais desastrosa das ilusões uma mentira que as corrói e empurra para o vácuo. São personagens naturalistas, por assim dizer. Mas o seu naturalismo é de uma desesperante alienação.

EPIFANIAS #31

31

   Aqui vamos juntos, caminheiros; eis-nos alojados, entre ruas intrincadas, de perto protegidos pela noite e pelo silêncio. Em afeição descansamos juntos, satisfeitos, não mais lembrando os desvios dos caminhos pelos quais viemos. O que se move sobre mim como uma inundação de escuridão subtil e murmurante, feroz e apaixonada com um movimento indecente dos lombos? O que salta de mim, chorando em resposta, como de águia para águia no meio do ar, chorando pelo triunfo, chorando por um iníquo abandono?

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

UM PARVALHÃO

Um parvalhão é só um parvalhão, pelo que não irei linkar o parvalhão. Mas um parvalhão capaz de chamar "crime da moda" à violência doméstica já não é apenas um parvalhão, é um demente. Cheguei ao demente através de Ourique

domingo, 29 de outubro de 2017

M&M'S


A televisão está ligada. Fala Marques Mendes, o M&M’s. Hoje, uma cliente pegava no livro do Sócrates, e num outro sobre o Sócrates, e num outro sobre a quadrilha do Sócrates, todos estrategicamente arrumados uns junto aos outros, tantos, imensos, inesgotáveis, e perguntava-me: mas quem é que compra isto? Não sei, minha senhora. Não sei. Olhe, ali na SIC está a falar um M&M’s, há anos que fala, entre pelas nossas casas dentro todos os domingos. Presumo que alguém o ouça, presumo. Quem é que ouve esta gente? Quem é que os lê? Às vezes até são eleitos Presidente e mostram os dentes e dão abraços e tornam-se intocáveis porque distribuem beijinhos a granel. Não sei, não sei quem os lê, não sei quem os ouve. Mas é mesmo deprimente saber que há quem o faça. 

QUERO O MEU SUBSÍDIO

O Natal é quando um homem quiser. Pode ser a 25 de Outubro, porque fica mais barato aplicar os enfeites. São os caprichos do mercado. Quanto mais Natal no Natal, mais caro. Talvez devamos pensar em começar a cortar os pinheiros logo em Agosto, poupávamos nos incêndios. Outra hipótese é darmos consequência à necessidade imperiosa de gerar pontes. O Presidente Abraçadeira, a Rainha dos Kiwis, todos esses enfadonhos que passam a vida a encher a boca com a necessidade de consensos, falando da necessidade de criar pontes entre as empresas e a economia social, criar pontes entre a agricultura familiar e biológica, criar pontes entre países e regiões, entre partidos, entre salas de aula e bibliotecas, enfim, é ir ao Google, ainda não se lembraram desta ponte entre o Carnaval e o Natal que se afirma cada vez mais necessária, inevitável, diria mesmo vital para as nossas vidas. Lá no shopping já temos pendurantes, árvore, iluminações, as luzinhas estão de regresso e, com elas, a alegria de viver. Até já temos o cadeirão do Santa Claus. Renas nunca nos faltaram, nem vacas, nem cabras, nem burros. A 25 de Outubro, debaixo de um calor tórrido, insistimos neste dispêndio de energia a bem da economia nacional. Sai mais barato, explicam-me, montar a árvore em Outubro. Se o menino tivesse nascido em Outubro, ergueríamos presépios em Agosto. Por mim, seria o ano todo nas palhas deitado. Só não percebo, não entendo, não compreendo, por que não me pagaram já o subsídio de Natal. Ou é para levar isto a sério ou não. Se o Natal está aí, paguem-me o subsídio. Eu mereço.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O CAÇADOR DE HISTÓRIAS

A história por detrás de O Caçador de Histórias (Antígona, Setembro de 2017) é contada por Carlos E. Díaz na nota da edição argentina. Eduardo Galeano (n. 1940 – m. 2015) trabalhou no livro entre os anos de 2012 e 2013, tendo a edição sido retardada devido ao precário estado de saúde do autor. À secção de histórias coligidas sob o título genérico Moinhos de Tempo, foram entretanto acrescentados mais três conjuntos: Os Contos Contam, Prontuário Quis, Quero, Queria. O resultado é impressionante, tanto pela extensão como pelas características que o volume acaba por assumir. O Caçador de Histórias não é uma simples recolha de contos. Na verdade, estamos perante uma súmula do pensamento a que Galeano habitou os seus leitores. Em defesa dos desprotegidos, em defesa da natureza e de um ecologismo social, contra o capitalismo selvagem e denunciando as repercussões devastadoras do mundo globalizado, nestas histórias o anedótico mistura-se com a fábula, memórias pessoais convivem com mitos, factos e devaneios servem uma mesma causa enquanto exemplos morais de uma demanda política: tornar visível o invisível, dar voz a quem a não tem. Galeano revolta-se contra a impunidade dos criminosos, indigna-se com as injustiças sociais e consequentes misérias de um mundo desequilibrado, denuncia e acusa atrocidades através de pequenos textos cuja força maior é a de serem exemplo simbólico do tema em discussão. Um desses temas, dos mais recorrentes, é o contraste entre o mundo dito civilizado e os costumes indígenas, tido como bárbaros pela arrogância do colonizador. Exemplo:

COSTUMES  BÁRBAROS

   Os conquistadores britânicos ficaram com os olhos esbugalhados de assombro.
   Eles provinham de uma nação civilizada, onde as mulheres eram propriedade dos maridos e lhes deviam obediência, como a Bíblia mandava, mas na América foram encontrar um mundo às avessas.
   As índias iroquesas e outras revelavam-se suspeitas de libertinagem. Os maridos nem sequer tinham o direito de castigar as mulheres que lhes pertenciam. Elas tinham opiniões próprias e bens próprios, direito ao divórcio e direito de voto nas decisões da comunidade.
   Os brancos invasores já não conseguiam dormir em paz: os costumes das selvagens pagãs podiam contagiar-lhes as mulheres.

A ironia e o humor são ferramentas úteis a serviço de uma desconstrução dos preconceitos culturais, ao mesmo tempo que servem para desmascarar os estereótipos e o etnocentrismo cultural que de há muito contaminam o modo de olhar o outro, o diferente, o que se opõe não por ser oposto, mas por ser desviante. Num dos textos finais, de índole autobiográfica, Galeano revela que uma das razões que mais o influenciaram a ser escritor foi a de dar a ver a quem não teve essa oportunidade. «Escrever cansa, mas consola», afirma. Há um espírito de missão que atravessa os seus textos, simples mas penetrantes, perspicazes e inteligentes, textos que despoluem o pensamento com uma extraordinária capacidade de síntese. «Os anónimos contadores de histórias é que me ensinaram tudo o que sei», confessa. E se o pouco ensino formal que teve deu-lhe, pelo menos, o saber ler e escrever, a cultura do saber ouvir terá sido, porventura, das que mais beneficiaram o seu enormíssimo talento. Não importa o que de mentira ou de verdade exista numa destas histórias, conquanto a sua moral seja sempre verdadeira. Importa a mensagem subentendida no texto, essa impõe-se que seja verdadeira. E para ser verdadeira implica que seja eticamente irrepreensível. Veja-se como a mensagem ecológica ganha numa pequena história a dimensão de uma causa global:

UMA NAÇÃO CHAMADA LIXO

   Em 1997, o navegador Charles Moore descobriu a sul do oceano Pacífico um novo arquipélago, feito de lixo, que já era três vezes maior do que toda a Espanha.
   As cinco ilhas que formam esta imensa lixeira alimenta-se de plástico, pneus usados, ferro-velho, resíduos industriais e minerais, e muitíssimos outros desperdícios que a civilização atira das cidades para o mar largo.
   No ano de 2013, iniciou-se uma campanha para outorgar a categoria de Estado a esta nova nação, que bem poderia ter bandeira própria.

Eduardo Galeano fala ao leitor com o tom dos grandes mestres, num livro que é também um arquivo de factos contra o esquecimento. A sua simplicidade não provém de uma simplificação dos problemas ou de um simplismo ingénuo, ela é a consequência de uma vida de viagens exteriores e interiores, viagens que lhe ofereceram retratos do mundo ao mesmo tempo que o obrigaram a pensar-se a si próprio nesse mesmo mundo. A sua simplicidade é sinal de uma maturidade que não está ao alcance de todos. Só dos melhores, dos que respiram e dão a respirar poesia:

AS NUVENS

   De noite, quando ninguém as vê, as nuvens descem ao rio.
   Inclinadas sobre ele, recolhem a água que mais tarde irá chover sobre a terra.
   Às vezes, em plena tarefa, caem algumas nuvens, e o rio leva-as.
   Quando chega a manhã, todos podem ver passar as nuvens caídas.
   Elas derivam à tona das águas, lentos barquinhos de algodão, fitando o céu.



Eduardo Galeano, in O Caçador de Histórias, trad. José Colaço Barreiros, Antígona, Setembro de 2017.

UM POEMA DE SYLVIA PLATH




LORELEI

Não existe nenhuma noite para nos afogarmos:
lua cheia, um rio correndo
negro sob um suave reflexo de espelho,

névoas azuis da água gotejando
de malha para malha como redes de pesca
embora os pescadores durmam,

torres sólidas do castelo
multiplicando-se num espelho
todo ele silêncio. Mas estas formas flutuam

em minha direcção, perturbando o rosto
da quietude. Do nadir
erguem os seus membros plenos

de opulência, cabelos mais pesados
que o mármore esculpido. Cantam
um mundo mais cheio e límpido

do que aquele que existe. Irmãs, a vossa canção
traz uma carga demasiado pesada
para ser escutada pelas espirais do ouvido,

aqui, num país onde um sensato
senhor governa equilibradamente.
Ao serem perturbadas pela harmonia

que existe além da ordem deste mundo,
as vossas vozes fazem um cerco. Estais alojadas
nos recifes em declive do pesadelo,

prometendo um abrigo certo;
de dia, estendem-se para além dos limites
da inércia, das saliências

que existem nas altas janelas. Pior
ainda que esta canção de enlouquecer
é o vosso silêncio. Na origem

do apelo do vosso coração gelado
— a embriaguez das grandes profundezas.
Ó rio, como vejo serem arrastadas

lá no fundo do teu curso de prata,
aquelas grandes deusas da paz.
Pedra, pedra, leva-me lá para baixo.


Sylvia Plath (n. Boston, EUA, 27 de Outubro de 1932 - m. Londres, 11 de Fevereiro de 1963), in Pela Água, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Assírio & Alvim, 2.ª edição, 2000, pp. 15-17.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

POESIA PARA O JUIZ

Adelaide Ivánova (n. 1982) é uma jovem poeta brasileira de quem foi publicado em Portugal um livro com o título O Martelo (Douda Correria, Fevereiro 2016), objecto com uma carga simbólica sugestiva que tanto pode remeter para a força revolucionária do proletariado como para o poder de sentenciar nas mãos de um juiz. Para o caso, esta última imagem interessa-nos mais.
No livro de Ivánova a mulher é o centro das atenções, a mulher no lugar de vítima, a mulher violentada, abusada. Aparecem então a figura da delegada, que não leva a mulher a sério, a escrivã a fazer perguntas como se houvesse matemática e geometria numa situação de estupro, os médicos que examinam a mulher enquanto se questionam se vão beber um copo depois do expediente… Aparece também um juiz.
Recentemente, assistimos no nosso país a mais um triste exemplo do que é possível acontecer nos tribunais da República. Um acórdão do Tribunal da Relação do Porto, ao que julgo saber assinado por um juiz e por uma juíza, justificam com o adultério praticado pela vítima uma brutal situação de violência doméstica. Cito: «Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem». Questiono-me se agredir uma mulher à mocada não será um gravíssimo atentado tanto à honra como à saúde ou integridade física da mulher. Pelos vistos, a honra tem nestes casos um valor que a vida não tem. O que é, no mínimo, uma peculiar hierarquização de valores.
Mas o acórdão vai mais longe, referindo sociedades onde a mulher adúltera é lapidada até à morte e citando a Bíblia. Qualquer pessoa entende a estupidez disto tudo, não sendo sequer necessário acusar de parcialidade ou literalidade o juiz que cita a Bíblia como se a Bíblia fosse um manual de coerência cívica (mais ainda num estado laico). Basta pensar que as tais sociedades aludidas são aquelas contra as quais todos nós, pelo menos assim julgava eu, nos unimos em termos de repúdio e de indignação. Essas sociedades são para nós uma personificação do mal, não servem como exemplo de boas práticas. Não está em causa compreender a dor do traído, está em causa ser injustificável essa dor servir de pretexto para a agressão do traidor.
Voltando a Adelaide Ivánova, entre vários dos seus poemas que poderíamos sugerir para citação num futuro acórdão do Tribunal da Relação do Porto, há um especialmente revelador. Envia-se daqui, ao cuidado do juiz e da juíza que assinaram a aberração supradita:

a sentença
      duas releituras de duas odes de ricardo reis

I
pesa o decreto atroz, o fim certeiro.
pesa a sentença igual do juiz iníquo.
pesa como bigorna em minhas costas:
           um homem foi hoje absolvido.

se a justiça é cega, só o xampu é neutro:
quão pouca diferença na inocência
do homem e das hienas. deixem-me em paz!
           antes encham-me de vinho

a taça, qu’inda que bem ruim me deixe
ébria, console-me a alcoólica amnésia
e olvide o que de fato é tal sentença:
            a mulher é culpada.

II
pese do fiel juiz igual sentença
em cada pobre homem, que não há motivo
para tanto. não fiz mal nenhum à mulher e
             foi grande meu espanto

quando ela se ofendeu. exagerada, agora
reclama, fez denúncia e drama, mas na hora
nem se mexeu. culpa é dela: encheu à brava
             a garbosa cara.

se a justiça é cega, só a topeira é sábia.
celebro abonançado o evidente indulto
pois sou apenas homem, não um monstro! leixai
             à mulher o trauma.



Adelaide Ivánova (n. Recife, Pernambuco, 1982), in O Martelo, Douda Correira, Fevereiro de 2016, s/p. 

VEM NA ANTOLOGIA


A MINHA GERAÇÃO


Não é preciso fazerem nada.
As coisas fazem-se sozinhas, as pessoas falam e as construções
acontecem. O filho do político também é político. Trata-se de
mera coincidência: foi convidado enquanto esperava o pai junto
à máquina de fotocópias. Por certo levava consigo o documento
de identificação — preparava-se para tirar uma fotocópia da sua
certidão de doutoramento — e aproveitou para tirar uma fotocópia
de tudo o que tinha no bolso, incluindo do próprio bolso, vazio,
porque o filho de um político deve ser exemplo de pobreza.

Foi então que o sol veio, em raio, montado por coriscos sibelinos.
Todos viram nisto um sinal — uma anunciação — e uma lágrima aflorou
ao canto de um olho. Um discurso foi feito, e vegetais distribuídos — uma
cenoura por cada advérbio, duas beringelas por cada palavra correctamente
pronunciada — e no fim a música foi chamada a abrilhantar o prodígio.
Falou-se um pouco dos indicadores económicos — a situação do país
ainda não é perfeita, mas com esta nova geração de homens a coisa
vai lá. É importante que o filho do político tenha participado em 
vindimas, ainda adolescente, para saber o que custa a vida dos outros.

Falta falarmos das vacas, stressadas e com menos leite por causa
do barulho das auto-estradas a caminho da excelência. Afinal o milagre acima
referido foi contratado a uma empresa de eventos, e ligeiramente sobrefacturada,
o que em nada diminuiu o seu valor de fenómeno existencialista, como disse
o pai do filho do político, que leu Heidegger e tem dentes de rola. Vamos
dançar, como Nietzsche propôs, já não me lembro em que livro, porque
quando a gente lê muito depois não tem tempo para estas coisas (o céu
desce a sua brisa sobre a nossa fronte e as andorinhas espadanejam).

E se fôssemos todos convidar-nos uns aos outros para aquários com
écrã filho da puta e aumentássemos os nossos salários cem por cento,
como fazem os políticos brasileiros? Não seria boa ideia?

Na verdade, as montanhas e os vigilantes dos mares não sabem
que estamos aqui, esperando por eles e com vontade de fazer a
primeira revolução a sério da história. É preciso informá-los, para
que eles saibam, porque se não o fizermos alguém vai ter a mesma
ideia e convida os artistas todos primeiro. Usem os recursos com
inteligência, porra!

Conheço pessoas que trabalham muitas horas por dia.
Mais de oito, e mesmo mais de doze horas por dia.
São pessoas muito importantes para as economias de algumas
famílias, o que infelizmente não serve para evitar a chegada da crise
aos nossos fodidos corações agoniados. Há máquinas doces,
calma aí, nem todas são desesperadas. Abrem-se as torneiras e saem
estratégias musicais e pacientes malhas de conversas que podemos
despencar nas redes sociais. Se não for por mal não há problema.
Somos inocentes, ainda, porque é saboroso ser confrontado com
a desgraça de uma vez só e em dose moral. Vejamos o que quero dizer:
não, é melhor não. Ainda é muito cedo, e podemos lavar as cortinas
em vez de ficarmos a queixar-nos do cheiro das casas de banho nas
artérias mais movimentadas do nosso glamouroso corpo brilhante.

Um homem passa e nunca mais desaparece.


Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes - antologia poética, org. André Corrêa de Sá (coordenador da edição), António Aguiar Costa, Cláudia Souto, Margarida Vale de Gato, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, pp. 118-119.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

UM POEMA DE ADELAIDE IVÁNOVA



a porca

a escrivã é uma pessoa
e está curiosa como são
curiosas as pessoas
pergunta-me por que bebi
tanto não respondi mas sei
que a gente bebe pra morrer
sem ter que morrer muito
pergunta-me por que não
gritei já que não estava
amordaçada não respondi mas sei
que já se nasce com a mordaça
a escrivã de camisa branca
engomada
é excelente funcionária e
datilógrafa me lembra muito
uma música
um animal não lembro qual.


Adelaide Ivánova (n. Recife, Pernambuco, 1982), in O Martelo, Douda Correira, Fevereiro de 2016, s/p. 

PARALELO W, AMANHÃ, ÀS 17H30


(clique na imagem para ver melhor)

MADONNA, A EMBAIXATRIZ


Madonna, a maior embaixatriz de Portugal depois da mãe Dolores, desabafou numa qualquer rede social muito frequentada que vive a vida de uma freira no nosso país. E o país agitou-se como sempre se agita sempre que Madonna toca flauta. Não perceberam nada. Ao alto, uma imagem das California's weed nuns talvez ajude a compreender a confissão da cantora. Assim é que se fomenta o turismo nacional!

POEMA A TODOS OS SERES QUE USAM NICKS E ABREVIAGENS E SÃO ANÓNIMOS

Vão prá
p. q. v. p.
diriam
vocês,
aliás,
vocês não
dizem
nada
porque
não existem
são sombras
acabrunhadas
de flores
de papel
tristes
de embrulhar
medo
merda
por isso
vos digo
à minha maneira
encolham-se
ainda
um pouco mais
e voltem
ao sítio de onde
não deviam ter
saído
assim: a
puta
que vos
pariu


Rui Costa

24/10/2005 (aqui)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

EPIFANIAS #30

30

Grafia de braços e vozes — os braços brancos dos caminhos, a promessa de abraços próximos, a os braços negros de navios altos parados diante da lua, contam-nos de nações distantes. Eles mantêm-se firmes para dizer: Estamos sós, — vinde. E as vozes dizem com eles, Nós somos o vosso povo. E o ar enche-se da sua companhia enquanto me chamam compatriota, preparando-se para partir, sacudindo as asas de uma terrível e exultante juventude.

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

INVISÍVEIS


   Em Novembro de 2012, um incêndio queimou vivos cento e dez operários no Bangladesh. Trabalhavam nas chamadas sweatshops, oficinas de suor, sem nenhuma segurança nem nenhum direito.
   Pouco depois, em Abril do ano seguinte, outro incêndio queimou vivos mil cento e vinte e sete operários noutras sweatshops do Bangladesh.
   Eram todos invisíveis, como continuam a ser invisíveis os escravos de muitos outros lugares do mundo globalizado.
   Os seus salários, um dólar por dia, também são invisíveis.
   Bem visíveis são, em contrapartida, os preços impagáveis das roupas que as suas mãos produzem para os Walmart, JCPenney, Sears, Gap, Benetton, H&M...


Eduardo Galeano, in O Caçador de Histórias, trad. José Colaço Barreiros, Antígona, Setembro de 2017, p. 79.

DOIS FRAGMENTOS DE PER AAGE BRANDT


*

a lua não é um ser vivo, é
uma lua entre muitas outras, e embora
a chamemos pelo seu nome e como testemunha
de coisas que nós decerto fizemos repentinamente e temos
vindo a fazer, e o que está feito feito está, e as coisas aconteceram, e
o que ela viu e tem visto, com o seu grande olho amarelo e selvagem
visto está, mesmo que uma nuvem tenha acaso passado
diante do seu olhar no instante decisivo em que uma coisa
se tornou tão eternamente eterna, que ainda agora é eterna,
embora disso, infelizmente, ela não tenha muita consciência,
tal como nós, as nuvens navegam selvagens e negras
perante os nossos instantes que a lua conhece 
                                                                  (astro-blues)

*

o homem é um hóspede efémero da terra,
pensava o poeta asteca, mas um hóspede
nem sempre é um homem aqui na terra;
na rua, numa país estrangeiro, na cama de alguém,
acontecem coisas estranhas, um coração é uma
arma eficaz, e (citação) de qualquer modo morreremos,
abandonando-nos uns aos outros, abraçados, com a língua na
orelha
de um corpo que vibra de prazer ou se alonga num grito de
guernica,
depois do encontro com alguém que passou
e desapareceu ou tomou a decisão de ficar

*


Per Aage Brandt (n. 26 de Abril de 1944, Buenos Aires - de nacionalidade dinamarquesa), in Livro da Noite, tradução colectiva (Mateus, Junho de 2002), revista e apresentada por Maria João Reynaud, Quetzal Editores, Março de 2004, pp. 30-31.

O QUE É ISTO?


domingo, 22 de outubro de 2017

NUMA PEQUENA ALDEIA DE VALPAÇOS


Vale a pena ler a história que aqui se conta. Um excerto:

A guerra tinha começado a ser preparada um par de meses antes, quando António Morais, proprietário de vários hectares de olival no Lila, percebeu que uma empresa subsidiária da Soporcel se preparava para substituir 200 hectares de oliveiras por eucaliptal para a indústria do papel. «Tinham recebido fundos perdidos do Estado para reflorestar o vale sem sequer consultarem a população», revolta-se ainda, 28 anos depois.
«Nessa altura o ministério da agricultura defendia com unhas e dentes a plantação de eucalipto.» Álvaro Barreto, titular da pasta, fora anos antes presidente do conselho de administração da Soporcel e tornaria ao cargo em 1990, pouco depois das gentes de Valpaços lhe fazerem frente.
«A tese dominante dos governos de Cavaco Silva era que urgia substituir o minifúndio e a agricultura de subsistência por monoculturas mais rentáveis, era preciso rentabilizar a floresta em grande escala», diz António Morais. O eucalipto adivinhava-se uma solução fácil.
Crescia rápido e tinha boas margens de lucro. Portugal, aliás, ganharia em poucos anos um papel de destaque na indústria de celulose e os pequenos proprietários poderiam resolver muitos problemas de insolvência abastecendo as grandes empresas com uma floresta renovada. A teoria acabaria por vingar em todo o país, sobretudo no interior centro e norte. Mas não em Valpaços.


Continuar a ler: aqui.

QUANDO A RUA FICA CHIQUE


Será que a moça sabe a história por detrás do slogan? Não sabendo, pode sempre consultar a Wikipédia: aqui.

UM ALIADO DO CINEMA

Dialogando com aqueles que transporta no seu veículo — um jovem soldado, um estudante de teologia, um taxidermista que exalta as glórias naturais (incluindo o sabor da cereja) —, Badii quer que alguém lhe garanta que o vai sepultar. Kiarostami encena-o como um buraco negro, impossível de transformar em “tema” ou “símbolo” do que quer que seja.
Observe-se o rosto impassível de Badii, interpretado por esse brilhante actor que é Homayoun Ershadi. O que nele deciframos, ou julgamos decifrar, não envolve qualquer racionalização do seu comportamento (nem do nosso olhar, importa acrescentar). Badii/Ershadi acaba por se impor como um aliado do próprio cinema, dessa capacidade insólita de registar o movimento da vida, pressentindo a nitidez indizível da morte.

João Lopes, sobre O Sabor da Cereja (aqui)

SONETO DO SONETO

Catorze versos o soneto este é o primeiro
e ainda não disse nada (este é o segundo)
Mas quem diz que em três versos cabe o mundo?
Em três não cabe, só no soneto inteiro...

E eis mais uma quadra começada
que ao fim deste verso chega ao meio
Daqui a pouco está o soneto cheio
e eu ainda não disse - quase nada?!

Mas felizmente chega um terceto
e neste estou eu bem inspirado
Pena é que já acabou. Ó que chatice!

Mas vou salvar as honras do soneto
num verso belo de final dourado
que diga tudo o que atrás não disse

Rui Costa


28/07/2005 (aqui)

sábado, 21 de outubro de 2017

PARÊNTESIS

(...) [— Claro que estes eram os políticos.
As suas bocas começaram a crescer e de cada vez que
as tentavam abrir uma parte do seu corpo desaparecia.
(Um dia o presidente convidou-os para jantar
e comeu-os a todos, acabando por asfixiar numa esmeralda
tépida.)] (...)



Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes - antologia poética, org. André Corrêa de Sá (coordenador da edição), António Aguiar Costa, Cláudia Souto, Margarida Vale de Gato, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, p. 145. Do poema Faca de Incêndio, que pode ser lido integralmente aqui.

A CEIBA


   Em Cuba, e noutros lugares da América, a ceiba é a árvore sagrada, a árvore do mistério. O raio não se atreve a tocar-lhe. O furacão também não.
   Habitada pelos deuses, nasce no centro do mundo e daí eleva o tronco imenso que sustém o céu.
   Para curar a arrogância do céu, a ceiba todos os dias lhe pergunta:
   - Em que pés te apoiarias, se não fosse eu?


Eduardo Galeano, in O Caçador de Histórias, trad. José Colaço Barreiros, Antígona, Setembro de 2017, p. 33.

SE A MEMÓRIA NÃO NOS FALHA


Incêndio florestal deixou de ser “crime de investigação prioritária” em 2015 graças aos votos a favor de PSD e CDS e abstenção do PS.

HOJE, NO PORTO


UM SONETO DE RUI COSTA

EM QUE POEMA TE VI NÉVOA OU BRUMA

Em que poema te vi névoa ou bruma
anémona agonizante cama ausente?
Em que recanto de meu medo te pressente
o desejo de seres todas. Ou nenhuma.

Em que silêncio poisas uma a uma
as luzes que vestiste? De repente
lamber-te o sexo querer o aroma quente
das laranjas e dizer-te que alguma

vez acabarias de nascer. Nascer.
Moscas de fogo. Em ti eu me deponho.
No teu pescoço de terra calcinada.

Acalantos. Água. Saber ou não saber
que nos faróis da noite vem o sonho
e depois do sonho não vem nada


Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes - antologia poética, org. André Corrêa de Sá (coordenador da edição), António Aguiar Costa, Cláudia Souto, Margarida Vale de Gato, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, p. 89.

UM COMUNICADO DA QUERCUS

Ao longo dos séculos o Pinhal de Leiria sofreu numerosas catástrofes, como incêndios e ciclones. O recente incêndio, que devastou parte substancial do parque de Leiria no último fim-de-semana, não pode servir de desculpa para que de forma apressada e irreflectida se adoptem medidas que venham afastar a sua gestão da esfera do Estado.

Nos últimos anos várias empresas de celulose e outras têm assediado os sucessivos governos no sentido de obterem contratos de arrendamento ou de exploração de áreas florestais regidas pelo Estado, alegando que “a gestão florestal privada é melhor do que a gestão pública”. No entanto os incêndios deste ano queimaram também vastas áreas das empresas de celulose ALTRI, Navigator e de Fundos Imobiliários de Investimento Florestal, ficando assim demonstrado que a gestão de áreas florestais por parte de entidades privadas também não é a solução milagrosa para os incêndios, pois as áreas geridas por privados também ardem.

Num assunto de tal magnitude como a questão do Pinhal de Leiria, que entra mesmo na esfera da identidade nacional, o Governo não deve ter pressa e não deve ceder às pressões mediáticas e dos múltiplos grupos de interesse. Não é prudente nem ponderado decidir o destino da principal Mata Nacional, a “Joia da Coroa”, no espaço de uma semana.

Sendo Portugal o país da Europa com menor área de Floresta Pública (menos de 2%) não faz sentido entregar aos privados o que pouco resta nas mãos do Estado.

Assim, a Quercus pede ao Governo que não tome decisões apressadas no Conselho de Ministros de amanhã e que faça preceder de amplo debate público qualquer alteração que leve à diminuição da soberania do Estado sobre as Matas Nacionais.

Apesar de existirem alguns problemas na gestão desta Mata Nacional, principalmente nas suas orlas, o Estado assegurou uma gestão eficaz durante os últimos 100 anos.

É certo que poderia ter havido mais investimento em silvicultura preventiva, mas este incêndio, em particular, desenvolveu-se sob a forma de fogo de copas incontrolável, muito mais dependente da secura extrema da vegetação que se verificava, do que das opções de gestão florestal.

Em abono da verdade temos de dizer que os problemas e dificuldades, que efetivamente existem, na gestão florestal de áreas tuteladas pelo Estado em nada tem a ver com a falta de capacidade dos Serviços Florestais do Estado (atualmente Instituto da Conservação da Natureza e Florestas - ICNF), mas tem a ver sim com a falta de financiamento crónico e de esvaziamento de competências de que estes serviços têm sido vítimas dos sucessivos governos nas últimas décadas.

O caminho a seguir não pode ser o esvaziamento até à morte do ICNF, mas sim o reforço das competências e dos meios financeiros e humanos dos Serviços Florestais do Estado.

Consideramos que só o Estado pode garantir a perpetuação para o usufruto das gerações futuras, as funções ecológicas, sociais e económicas do Pinhal de Leiria, que pelas suas características e dimensões têm importância ao nível nacional e mesmo ao nível Europeu.

É fundamental que o Estado se dote de meios financeiros e humanos para fazer face à urgente e necessária recuperação e reestruturação do Pinhal de Leiria.

É necessário definir quais as áreas onde poderá ser feito o aproveitamento da regeneração natural e das áreas onde será necessário efectuar plantações.

Nos dias de hoje, com a crescente ameaça das alterações climáticas, é necessário mudar os modelos de gestão das florestas públicas, abandonando a lógica produtivista e abraçando uma estratégia que promova a conservação dos solos e da biodiversidade e começar a usar a floresta como aliada no combate às alterações climáticas.


Na íntegra, aqui.

JOSÉ SÓCRATES


Nunca votei em José Sócrates, nem sequer alguma vez simpatizei com a personagem. No entanto, dei-lhe o benefício da dúvida contra ataques de gente como Cintra Torres ou Manuela Moura Guedes ou a trupe do Correio da Manhã. Eu estava errado em dar o benefício da dúvida a um tipo que cada vez mais se confirma ser um pulha sem vergonha na cara. A atenuante de Sócrates poderá ser a doença mental. Já o desgraçado escriba não merece atenuante. E o mais repugnante é verificar que, afinal, Cintra Torres, Manuela Moura Guedes, a trupe do Correio da Manhã, tinham razões que não estavam desprovidas de razão. 

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

"Não tarda voltamos à normalidade dos estudos."

(...)
Vegetamos, é certo, mas ainda não somos uma espécie vegetal. Com o país a sonhos, modernos, construímos auto-estradas, urbanizações desreguladas, feias, cidades esquecidas da sua história e património (isso veio muito depois), e abandonamos, com enfado, a agricultura. Vieram as ligações público-privadas, os aviões, os helicópteros, as comunicações via satélite. Festejávamos (e festejamos) a época dos fogos com foguetes. Afinal, as bouças eram boas como depósitos de lixo, de abandono, e algum sexo à beira das estradas.

(…)

Gabriel Pedro, aqui.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O SENTIDO DAS PROPORÇÕES

Ouvi ontem uma cliente comparar o Holocausto com o que se passou recentemente em Portugal em matéria de incêndios. Vinha levantar Nudge, do mais recente Nobel da Economia Richard Thaler. 

SMSs DE LONDRES

O meu primeiro contacto com o Rui Costa ocorreu algures entre 2004 e 2005, antes da publicação de A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (Quasi, 2005). Eu tinha um weblog intitulado Universos Desfeitos, assinava com o pseudónimo de Juraan Vink textos de que sobram alguns exemplos aqui, aqui ou aqui. O Rui encontrava-se então em Inglaterra, onde estudou e trabalhou. Pediu-me opinião sobre alguns dos seus poemas e questionou-me sobre a possibilidade de os divulgar no Universos Desfeitos. A empatia com os poemas que me apresentou foi imediata, tendo sido precisamente por aí que a nossa amizade se iniciou. Quando o livro de estreia foi premiado, eu já conhecia alguns daqueles poemas. À época, o Rui colaborava comigo num outro weblog. O Insónia surgiu da cessação do Universos Desfeitos e da minha vontade de então gerir algo colectivo, tendo sido o Rui Costa uma das primeiras pessoas que convidei para esse gozo conjunto. O primeiro post do Rui Costa no Insónia foi publicado a 25/Julho/2017, ainda não nos conhecíamos pessoalmente: «Só as loucas é que sonham com os príncipes encantados. Ou seja: altos, fortes, esbeltos, além de corajosos, gentis, amorosos, enfim, perfeitos. Isto é: chatos como a potassa posta em sossego no tubo de ensaio com uma boa meia-dose de pó de talco». Era assim o Rui, as suas palavras tinham uma força que tanto nos seduziam pela dança, como nos colocavam de atalaia pela provocação. Há um outro post dele no Insónia de que gosto muito. Não sei explicar porquê. É um post simples, que de algum modo antecipa a era Twitter e nos diz qualquer coisa sobre a distância entre o poder e as populações. Apetece-me partilhá-lo hoje aqui:

SMSs DE LONDRES

LONDRES I
Subitamente, pela primeira vez: as pessoas olhando umas para as outras.

LONDRES II
O senhor polícia veio tirar-me a lata de cerveja da mão: é proibido (disse) beber na rua em toda a área de Westminster.

LONDRES III
Dizia o António Aleixo (cito de memória mas acho que é assim), desconhecendo a cidade e os novos verbos:

Como um só não é bastante
nós vamos ter, certamente,
Um guarda por habitante
Pra que não roubem a gente.

Em muitos sítios públicos de Londres (pronto, reparei mais nos bares) pode ver-se um cartaz com o desenho de dois olhos e a frase: "A melhor arma contra o terrorismo".

LONDRES IV
Quando o blow job é ultrapassado pelo blow up job.

LONDRES V
O melhor presunto português comi-o em Londres (shame on me).

Rui Costa


30/Julho/2005