quarta-feira, 27 de novembro de 2019

A EVIDÊNCIA




Desejaria que nenhuma exaltação
acompanhasse esta frase meus filhos
sentavam-se a ver o mar.

Assim era sem dúvida.
A cada noite chegavam em silêncio
e sem qualquer esforço vinculavam o mar
com a contemplação do mar,
a emoção com os objectos.
E sem dificuldade aceitavam a harmonia
que une os corpos à matéria afectada.

Era fácil saber que do mar
lhes chegava uma prova que nos excluía.
Mas por aqui me fico:
não se trata de encher com vacuidades  
o conhecimento directo.
(Um romantismo antiquado, ou um pouco
de pudor caduco, ainda é tolerável.
A metafísica não.)

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 362.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

AS COISAS SIMPLES


   Arriba o Maio. O homem sega a erva da semente, gadanha afiada na véspera. Agora as forquilhas esvoaçam o estrume sobre o campo. Outros homens e mulheres, rito fraterno, ajudam à vessada. Nasce o sol e o incitamento às vacas, farpeadas pelas moscas que o suor seduz. Suave aroma emerge da terra. O homem, mãos nas rabiças do arado, sente o fascínio remoto de dominar a natureza - domínio aqui é acto de ternura. A terra revolvida em silêncio, o círculo de gente em redor do açafate e da cabaça de vinho. Bebem e comem a fadiga. Riem as mulheres, descuidam as pernas. Cantam. A alegria é coisa simples: como a aiveca do arado, o erotismo do vinho. O povo, diz o homem do saco de cabedal, é triste. Mesmo quando canta.

Francisco Duarte Mangas, in O Homem do Saco de Cabedal, Campo das Letras, Maio de 2000, p. 49.

domingo, 24 de novembro de 2019

DOIS LIVROS DE JAIME ROCHA



   Poucos escritores há cuja generalidade da obra se concentre num local, conservando-lhe a memória e registando o ambiente humano que a habita. Mesmo quando sabota literariamente uma ligação fortemente afectiva à Nazaré natal, desviando-se para territórios tingidos de imagens surrealistas e climas fantásticos, Jaime Rocha (n. 1949) oferece aos seus leitores reminiscências esparsas das suas raízes. 
   Tomemos como exemplos dois contos inéditos da colectânea O Estendal e Outros Contos (Relógio D’Água, Junho de 2019), aos quais se juntaram mais sete já anteriormente publicados. Tanto em O Estendal como no conto intitulado O Carpinteiro Cego o onirismo sobrepõe-se a qualquer preocupação com a realidade, sendo da natureza dos factos relatados uma inegável dimensão fantasiosa. No entanto, se no primeiro conto a imagem da mulher a esfregar roupa num tanque, a torcer os lençóis e a batê-los na barrela recupera um gesto anacrónico, mas muito presente nas memórias de quem tenha vivido na província, no segundo é o ritual fúnebre da família de um defunto a prepará-lo para o velório que nos envia para um tempo e um lugar que parecem já só existir enquanto ecos de um passado distante. 
   Se os intrigantes acontecimentos associados a cada um destes contos lhes conferem a dimensão fantástica acima aludida, também não é menos verdade que os gestos das personagens, independentemente da sua estranheza e desorientação, remetem para acções muito concretas. Curioso se torna assim notar como tanto num conto como no outro o nascimento e a morte são desapropriados da sua lógica interna numa reconfiguração do absurdo existencial, isto é, tanto os recém-nascidos do conto O Estendal como o morto do conto O Carpinteiro Cego encontram-se num estado dúbio que não oferece ao leitor certezas acerca da vida ou da morte. 
   Reencontraremos precisamente esta incerteza no livro de poemas Mulher e um Cão que Dança (volta d’mar, Outubro de 2019), o qual, à semelhança do que sucede noutras obras do mesmo autor, tais como o romance Escola de Náufragos (Relógio D’Água, Março de 2016) ou o poema-sequência Mulher Inclinada com Cântaro (volta d’mar, 2012), é muito mais explícito na apropriação que faz da paisagem geográfica e no ambiente humano da vila da Nazaré. Nesta mais recente sequência a incerteza dramatiza-se a partir das figuras osmóticas de uma mulher e de um cão que esperam em terra que o mar lhes devolva o corpo do náufrago. À experiência da ausência junta-se a dor da espera num «anfiteatro de areia» (p. 9) onde destroços devolvidos pelo mar são o elemento essencial de um ritual doloroso num cenário de beleza. 
   A componente narrativa do poema construído por Jaime Rocha resulta numa dramatização «dos dias de espera» (p. 17), de «espera silenciosa» (p. 30), com imagens fortíssimas como a do cão a lamber o que resta do dono ou a da mulher que «percorre então a fronteira com o mar, / descalça, por cima dos búzios e das conchas / partidas, deixando um rasto de sangue que / atrai definitivamente as gaivotas» (p. 16). Este elemento imagético, que é uma das características mais fortes na obra de Jaime Rocha, quer a narrativa, dramatúrgica ou a poética, grava na paisagem dos seus textos, ainda que amiudadamente num contexto fantasioso, onírico ou, se preferirem, surrealista, as marcas essenciais de uma vivência/experiência do lugar que serve de matriz à acção. 
   As imagens por vezes apocalípticas de que se socorre são a expressão de um mar de destroços onde vida e morte se confundem, onde a beleza e a dor se unificam, onde o tempo e o espaço se misturam. No fundo, tal como o guionista estrangeiro do conto O Estendal, também o autor se encontra estranhamente no interior do seu próprio guião, perdido num cenário paradoxalmente absurdo e nítido, pois são suas as memórias onde se sustentam as imagens e é sua a melancolia dessas memórias, como a de um cão que dança enquanto espera o corpo naufragado do dono.

sábado, 23 de novembro de 2019

FALA DO ACTOR

Trazer algo à tona não é fácil.
Todos os dias tenho de remover o galgo
de porcelana, preto e dourado,
que vem dormir à minha sombra.
O drama é que todos os dias é maior,
o cão de pechisbeque. Malditos chineses.
Não acredito que seja algo pessoal,
é como um tique que os domina. Mas
é o meu trabalho pela manhã, remover o galgo.
Pesa, o sacrista. Cada dia é pior, como expliquei.
Só depois me aventuro a trazer algo à tona.
Grave, é que nem sei explicar o que momentaneamente 
aflora. Pratico a acção de construir acções
- não chega? Dói como cem metros
de crawl na gelatina. Forçar o invisível
a mostrar-se não é simples
e, o maldito, ri-se dos objectivos estabelecidos à priori.
Não me serve de nada o treinamento de actor,
ser esfolado vivo não é uma possibilidade expressiva
mas o próprio desejo da terra quando o inverno
chegou ao ponto mais baixo do seu desapontamento
e daí surge, aflito, um broto, um pio de cotovia,
a minha mutação ao espelho, emaciada
pela palavra com dois furos nos olhos
que impelem num vago sentido de direcção
como aos girassóis quando o vento lhes chega o gume.
Só assim me liberto da minha pele, inútil
pele de serpente, e (reconheço-o por um ardor
muscular e o vómito de ter acabado de cuspir
todos os vermes da minha morte), emerge à tona
algo que desconhecia e reclama lugar.
Pulsa-me no palato, nos pulsos, no coração
que me verte na tua veia
e me coloniza.

António Cabrita, in A Gazeta de Madagáscar e Mais Doze Despedidas, Nova Mymosa, Novembro de 2019, pp. 7-8.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

100 LIVROS PARA AS MINHAS FILHAS #25



   Mesmo que não quisésseis saber, por esta altura é inevitável que pelo menos já vos seja familiar o nome da deputada Joacine Katar Moreira. Não é por simpatia ideológica que a ela me refiro, mas como ficar indiferente à forma como introduziu o amor no discurso político? «Não se pode falar de salário mínimo nacional sem amor», disse em pleno parlamento, para espanto de uns, indiferença de outros e gozo de tantos. Quase ao mesmo tempo que o dizia, assistíamos nós, minhas filhas, a uma peça acerca da incompatibilidade entre política e amor. Tereis reparado na coincidência?
  Em “Reinar Depois de Morrer”, de Luis Vélez de Guevara (1579-1644), impõe-se aquilo a que chamam razão de estado. E o que poderá ser isso senão disparar sobre os olhos de quem se manifesta, calar o estupro e a execução de uma mimo, lançar gás lacrimogénio sobre os mortos? É o tempo em que vivemos, este tempo insuportável de desamor e crueldade, este tempo de razão de estado desprovido de amor. 
   Sobre o Príncipe Pedro e Inês de Castro podemos, em resumo, supor que o rei fez como Pilatos. Camões o sublinhou no terceiro canto da epopeia nacional, atribuindo ao povo o gesto inclemente da condenação de um amor que não convinha ao destino pátrio. Retomando imagens e conceitos, pelo menos Bocage foi capaz de apontar os “pomposos cortesãos” e o “monstro da política”. Nem sempre os poetas resistem às circunstâncias, preferindo a maioria evitar as ruas para com elas não assumir o compromisso de um amor transbordante, mais largo e comprido do que a cama onde o sonho os distrai da realidade.
   Vede como Torga comparou nossos amantes a personagens literárias, transformando Pedro num Romeu de Portugal e Inês numa Julieta castelhana. E se Natália não fugiu à visceralidade dos factos, sublinhando a ira do príncipe e referindo-se ao “ritual macabro da coroação”, verdade é também que tanto no tom como na forma manteve o caso em estâncias mitológicas. Do poder político, queridas filhas, podeis esperar pouco mais do que cobrança de impostos, sendo por isso mesmo tanto mais urgente que vos empenheis em exigir-lhe serviços. 
   Se Herberto preferiu olhar para o caso pela perspectiva do algoz, não foi por haver inocência na sua intenção. Muitos anos passados sobre as naves de Alcobaça, outros algozes defenderam-se dos crimes perpetrados sublinhando sua condição de funcionários. Ficai sabendo que, em matéria de razão de Estado, para o mal todos os funcionários são poucos, enquanto para o bem quase sempre escasseiam recursos. Imaginai, pois, esse ideal de feminilidade como o imaginou Ruy Belo, ou considerai a hipótese remota de uma paixão assolapada nestes tempos em que impossível parece ser o amor tout court. Procurai seguir-lhe o rastro, tal como o sugere nosso amigo Nuno Dempster, nas ruas de uma actualidade onde tudo parece desprovido de paixão. Talvez assim vos seja possível chegar onde o amor foi inventado. 
   Nisto vos ofereço, então, “A Invenção do Amor e Outros Poemas”, de Daniel Filipe (1925-1964), poeta nascido num arquipélago para onde foram enviados tantos amantes depois de haverem sido perseguidos e torturados. Esse Estado que persegue quem ama, como um algoz ao serviço do poder, ressurgido e reinventado no poema com o fundo demencial desta tirania desde há muito instalada na cabeça dos homens, é a esse Estado que nos devemos opor, pois nenhuma incompatibilidade pode haver entre amar e querer o bem do outro. Esvaziada de amor, que será a política senão mero jogo de poder? Sangrada de paixão, que será a política senão intriga egoísta contra a dança e a alegria de estarmos vivos? 
   Que o “grito de esperança inconsequente” de que fala o poema possa ter consequências nos vossos corações, para que o mito seja real pelo menos no modo que vieres a adoptar quando vossos olhos se cruzarem com quem vos olha. Tem razão a deputada, sim, ainda que a razão de Estado pretenda demonstrar o contrário, ao mesmo tempo que cospe na mão de quem pede esmola e se apropria da caixa onde o pedinte amealha donativos. Não, minhas filhas, não permitis que vos façam confundir amor com misericórdia. O amor é solidário, sem solidariedade a política apodrece, o amor é o remédio que protege a política da absoluta podridão.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

INSULTOS POSSÍVEIS

Uma lista à escolha do freguês: aqui.

sábado, 16 de novembro de 2019

A HABITAÇÃO DE JONAS




Sei que esta grande tempestade
por causa de mim vem sobre as paredes
da casa, afastados já os móveis.

As paredes, ao se afastarem os móveis,
erguem-se, despidas, coradas até à raiz dos rodapés,
como paredes sem móveis: demasiado brancas,

branco casca de ovo, branco gelo, branco mate,
consoante a cor com que as paredes se pintaram
antes de se lhes colarem os móveis.

Foram três dias e três noites nas entranhas
das paredes na esperança de expiar a culpa,
o pecado: branco sujo até se afastarem os móveis.

Dentro da cabeça das paredes, sobretudo
da cabeça do coração, até se afastarem os móveis,
cobria-se de cal essa certa esperança

de esconder defeitos. Ao se afastarem os móveis,
as paredes deixaram cair pregos, abriram rachas,
mostraram, pudicas, as manchas. Espreitava-se

e via-se-lhes a olho nu o espaço íntimo,
o sangue inocente posto sobre nós
no que parecia ser a boca dentada de um peixe.

Paredes, estais hoje mais velhas do que nós.
O branco, demasiado aberto, não vos assenta bem.
Tentamos vestir-vos de quadros e desenhos;

já nada vos serve: o homem das obras ordenou
a demolição. Porque Tu, Senhor, fizeste como te agradou:
três dias e três noites em oração contra Ti.

A grande tempestade por causa de mim
expôs  como ferida em carne viva o esqueleto
da casa. Ossos feitos de material de construção.


Inês Fonseca Santos (n. 1979), in A Habitação de Jonas (Abysmo, 2013). Três livros de poesia publicados, dos quais As Coisas (2012) foi o primeiro. Seguiram-se A Habitação de Jonas e Suite sem vista (2018), poemas sequência nos quais se torna mais evidente a opção por uma dramatização do sujeito poético na sua relação com o mundo. Em A Habitação de Jonas a voz do sujeito encarna a do profeta que durante três dias e três noites se sentiu sepultado no estômago de um grande peixe, enquanto no livro Suite sem vista encontramos uma rapariga num quarto de hotel. O que sobressai em ambos os livros é a situação de clausura. Rodeado de paredes, o sujeito encontra-se isolado do mundo. Não necessariamente protegido, não necessariamente ameaçado. No fundo, a esta clausura corresponde um movimento para a interioridade do sujeito, daí ressaltando sentimentos de dúvida, medo, solidão, acentuados por um conflito entre memória e esquecimento. A relação amorosa aludida em ambos os poemas surge retratada, deste modo, num panorama de ruína à qual se associa o vazio interior da habitação enquanto expressão de um vazio existencial. A habitação desnudada é lugar de solidão, as paredes ouvem já apenas silêncio e os segredos que guardam são murmúrios de memórias passadas. Cativas no interior de si mesmas, as personagens destes poemas como que fazem o luto de uma relação. Com o mundo? Com o outro (desejado)? Certo é que entre o eu do sujeito e o outro com o qual se relaciona ergue-se uma anomalia comunicacional. Jonas roga ao Senhor para ser libertado de si mesmo, a rapariga escava as paredes da suite e encontra medo, o outro está preso dentro das palavras dela, as palavras são as paredes. Verbalmente contida, rigorosa na organização dos momentos narrativos, Inês Fonseca Santos inscreve a sua poesia numa tradição reflexiva que toma o domínio da linguagem enquanto tema primordial do poema. Os cenários de que se serve são hipóteses de dramatização dessa (auto)reflexão do poema que se questiona a si mesmo.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

BALADA DO HOMEM QUE SABE



Passam comboios, aviões, gente que leva no bolso
o seu conhecimento empírico.
O cenário, ainda que preso à terra com um tripé, muda rapidamente:
                vai da certeza à dúvida,
                da dúvida
                à dúvida explícita,
                e torna a começar.

Passam comboios, aviões, cidades que só de olhá-las se aceleram,
e o homem compõe o cachecol, sabe que o frio não se
contradiz, que a chuva não tem duas ideias:
                conhece a rua pela agitação,
                o rumo pelo empurrão da estratégia,
                o alimento pela necessidade.
Sabe que o cenário é o único argumento.

Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, p. 370.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

PRÉMIO CERVANTES 2019


EMPILHANDO LENHA

O homem costuma recolher do bosque
os troncos caídos com a tempestade.
Empilha-os nas traseiras da casa.
De cada um recorda
o que o fez cair e onde o recolheu.
Nas noites frias, a contemplar as chamas,
vai queimando o que resta do que ama.


Joan Margarit, in Casa da Misericórdia, trad. Rita Custódio e Àlex Tarradellas, OVNI, Outubro de 2009, p. 35.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

UM SEM-ABRIGO

Um sem-abrigo dirigiu-se a mim para me vender a revista Cais, à porta do Shopping Brasília. E eu dei-lhe qualquer coisa e ele disse-me assim: «Ó, senhor Pina, queria pedir-lhe um favor.». E começou a tratar-me pelo nome. «Queria pedir-lhe aquele seu livro, O regresso a casa.». Chama-se O Caminho de Casa, na realidade. «É o seu único livro que eu não tenho. E não tenho dinheiro para o comprar.». Eu fiquei banzado! Como é que um sem-abrigo conhece a minha poesia?! E perguntei-lhe: «O senhor passa por aqui? Eu arranjo-lhe esse livro.». «Sim, sim, agora estou aqui sempre, ando sempre por aqui.». De maneira que, no dia seguinte, fui lá levar-lhe o livro. Até pensei meter uma nota dentro do livro, mas depois tive vergonha. E dei-lhe o livro. Contei depois esta história a algumas pessoas por ser uma história surpreendente. O único dos meus livros de poesia que não tinha?!... Já nem sei em que ano foi isto; foi ainda antes do Euro porque a ideia que eu tinha era pôr dentro do livro uma nota de mil escudos. E tive vergonha porque não se dá assim dinheiro a uma pessoa que o que quer é um livro de poesia. Lá lhe dei o livro e perdi-lhe o rasto. Um dia, estava com o Germano Silva, a quem contei esta história, estacionei o carro na Praça de Lisboa, num parque, e o homem estava a pedir ali à porta. Já não estava a vender a revista Cais; estava a pedir. «Como está, senhor Pina?», cumprimentou-me outra vez, eu dei-lhe qualquer coisa e disse ao Germano: «Este é que foi o tal homem, o tal sem-abrigo que me pediu o livro.». E o Germano reconheceu-o: «Este homem era livreiro.». Então ele trabalhava, salvo erro, no Marinho, um alfarrabista aqui do Porto. E ainda anda por aí a pedir. Agora pára na Rua Fernandes Tomás, disse-me o Germano, que o encontrou no outro dia. Porque é que eu conto esta história? Porque este homem também tem consciência da presença do regresso na minha poesia. Ele disse-me que o título do livro era O regresso a casa. Ele associou o caminho de casa ao regresso a casa, achou natural que o título fosse este. Curioso, não é?


Manuel António Pina, citado por Inês Fonseca Santos, in Regressar a casa com Manuel António Pina, Abysmo, Fevereiro de 2015, pp. 62-63.

domingo, 10 de novembro de 2019

VIDA DUPLA

...Bernard Lahire. Sustentou o francês que a vida dupla do escritor «é mesmo plurissecular e estrutural», mas será essencial e benéfica? «Para quem», dispara de imediato [Patrícia] Portela, «Numa época em que trabalhar a tempo inteiro não compensa nem financeiramente, nem ecologicamente, nem socialmente, nem mentalmente, nem economicamente, para a família ou para o mundo, pergunto-me de que raio de benefícios ou de essências estamos a falar. Uma coisa é termos todos vida dupla, sermos escritores e biólogos, sermos escritores e jornalistas, sermos escritores e cozinheiros porque gostamos de ambas as profissões, porque precisamos delas, porque a nossa vida é feita e se alimenta de mundos diferentes. Outra coisa é aceitar o que quer que seja para pagar as contas ao fim do mês, ser humilhado oito horas por dia para contribuir para uma empresa ou serviço que em nada contribui para o bem-estar de quem trabalha. A plurissecular e estrutural vida dupla dos escritores é interessante quando uma alimenta a outra, não quando uma penaliza a outra.»

Inês Fonseca Santos, in Vale a pena? Conversas com escritores, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Abril de 2017, p. 73

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

«PALAVRAS PARA EXPLICAR PALAVRAS»




PALAVRAS

Vista daqui, a infância cabe na palavra anona.
A palavra Arminda também serve , além de nome
é o resumo de uma celebração.
A palavra juventude é demasiado eufórica,
mas continua, impetuosa e grave, a salvo de
qualquer caducidade.

Também o meu tio Santiago estava a salvo da caducidade:
          sensatamente a ignorava
          quando aos setenta anos fazia projectos que lhe
                          levariam outros setenta
          e sumariava, como quem ensina,
                          sou eterno, isso é tudo.

Não se trata tanto, então, de juntar palavras como
           significados: a persistência de alguém que por acaso
           seja eu.
Porque quem fará o trabalho, senão eu,
           sabendo que consiste, até à exaustão,
           em continuar a procurar o já procurado?

Mais uma vez
não é repetição:
            o que conta é o gotejar,
            o preço da aprendizagem;
surge então a palavra inconclusa: reclama
            a sua metade,
                           encrespa-se e não vem só.

Daí todo este ruído:
            este excesso de palavras
            para explicar palavras.


Santiago Sylvester (n. 1942), versão de HMBF a partir do original coligido por Marta Ferrari, in Antología – La poesia del signo XX en Argentina, vol. 7 da colecção La Estafeta del Viento, dirigida por Luis García Montero e Jesús García Sánchez, Visor Libros, 2010, pp. 368-369.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

EM AÇÚCAR DE MELANCIA


De dez anos e alguns meses empregado na maior rede livreira do país, guardo com especial sacrifício certa reunião em que o CEO de serviço explicou aos presentes o conceito de venda acrescentada comparando o comércio de livros com a venda de molhos para batatas fritas num restaurante de hambúrgueres. Não é especialmente chocante que alguém metido num negócio estabeleça o lucro como fim último da sua actividade, mas não deixa de ser perturbador verificar que alguém metido no negócio dos livros seja tão indiferente ao seu produto que consiga comparar o grau de exigência na actividade de livreiro ao de um funcionário num restaurante de fast-food. O resultado desta mentalidade está à vista e já foi exaustivamente dissecado. Quem não espere de um livro que seja mero ornamento no prato principal, tem bom remédio: procure-os onde eles não sejam produzidos e, já agora, sugeridos como molhos para batatas fritas.
Em Açúcar de Melancia (Livraria Snob, Setembro de 2019) é um desses objectos cada vez mais raros em que se torna patente, da capa à contracapa, o cuidado, o respeito e o amor dedicados a uma actividade por todos os lados ameaçada, como seja a de conceber livros sem ter no horizonte, única e exclusivamente, um número numa folha de Excel que determine relações de custo-benefício. Não admira que surja com o selo editorial de uma livraria das chamadas independentes, que é o mesmo que dizer devotas de uma cada vez mais anacrónica paixão ao saber e ao conhecimento. Refira-se, em abono da verdade, que não é a primeira vez que o norte-americano Richard Brautigan (n. 1935 – m. 1984) surge em língua portuguesa. Em 2003, a Editorial Teorema tinha publicado Uma Mulher Sem Sorte, romance póstumo e, dizem os especialistas, o pior de todos quantos Brautigan escreveu. Onze, dos quais Em Açúcar de Melancia foi o terceiro.
   Tendo começado por publicar poesia no final da década de 1950, o autor de Trout Fishing in America (1967) sofreu uma infância atribulada marcada pela separação dos pais, pela pobreza e pela instável companhia da mãe. É a própria filha, Ianthe Brautigan, que no prefácio a esta edição conta que a certa altura o pai atirou uma pedra à janela de uma esquadra para ser detido na perspectiva de uma refeição quente. Não só acabou detido, como foi internado num hospital onde lhe diagnosticaram esquizofrenia paranóide, maleita tratada à base de electrochoques. São dados relevantes para construirmos o puzzle sugerido pelo universo surrealista em que a sua produção literária de algum modo se afirmará. The Return of the Rivers (1957) foi o livro de estreia.
   Ligado aos movimentos de contracultura em São Francisco, participou em várias actividades dos The Diggers de Emmett Grogan, autor de uma extraordinária autobiografia intitulada Ringolevio (1972). Quando Grogan faleceu, aparentemente de overdose, Brautigan dedicou-lhe o poema Death is a Beautiful Car Parked Only. Mas foi o romance Trout Fishing in America (1967) que lhe trouxe fama e proveito, atingindo valores de vendas absolutamente inesperados. Nenhuma das suas obras posteriores repetiu o feito. No dia 16 de Setembro de 1984 suicidou-se com um tiro na cabeça. Em Açúcar de Melancia foi escrito 20 anos antes numa casa em Bolinas, Califórnia, precisamente a mesma localidade onde viria a falecer.
Tudo neste livro é ao mesmo tempo cruel e inofensivo, tal como a narrativa visual de Pedro Simões que o introduz. Entramos Em Açúcar de Melancia da melhor maneira, as ilustrações são o pórtico através do qual damos o primeiro passo para um mundo fantástico e onírico. Escrito em capítulos breves, com uma clareza e ingenuidade semelhantes à de uma história infantil, este romance é uma viagem ao «fundo dos nossos sonhos» (p. 37) com uma vila chamada euMORTE em pano de fundo. O narrador vive lá perto, num barraco, e leva-nos pela mão com algumas advertências iniciais: «O meu nome depende de vocês. Chamem-me o que vos vier à cabeça» (p. 40). Seria um desperdício de tempo buscar explicações lógicas para os acontecimentos que vai relatando, dos tigres que lhe mataram e comeram os pais, antes de lhe ensinarem aritmética, aos livros que são usados como combustível, das metamorfoses de euMORTE às trutas que saltam no rio sobre os túmulos dos mortos ali “enterrados”.  
   A profusão de imagens, como a de alguém que tem o vento a parar-lhe nas mãos, ou a dos mortos enterrados em «caixões de vidro no fundo dos rios» com «fogos-fátuos dentro dos túmulos para que brilhem à noite» (p. 93), acusa uma carga metafórica à qual nos entregamos como a uma criança pedimos que se entregue a uma fábula. Nada há que nos demova desse prazer, ainda que a espaços nos sintamos tentados a estabelecer ligações entre a orfandade do narrador e a infância do autor, entre o estado delirante das personagens e o historial clínico de Richard Brautigan. O suicídio também não escapa enquanto tema. 
   Independentemente das alusões possíveis e legítimas, o melhor que se retira desta leitura não provém de um campo onde as conexões lógicas e o sentido se impõem. Leituras sociais, políticas e psicológicas podem ter a sua lógica, mas apartam-se do que de melhor o livro tem para oferecer ao leitor, isto é, a liberdade de uma poesia onde a ausência de sentido se revela o melhor dos mundos possíveis: «Quando o sol surgisse no horizonte do nosso mundo, a escuridão continuaria e não haveria qualquer som ao longo do dia. As nossas vozes desapareceriam. Se deixássemos cair alguma coisa, não se ouviria som algum. Os rios permaneceriam em silêncio» (p. 176). Tradução de Sara Veiga.

sábado, 2 de novembro de 2019

JORGE DE SENA (2 DE NOVEMBRO DE 1919 - 4 DE JUNHO DE 1978)


Dedicácias (aqui), correspondência com Sophia (aqui), Mécia (aqui), um poema (aqui), outro poema (aqui), um excerto de Sinais de Fogo (aqui), um excerto do ensaio A Poesia e a Vida (aqui), momento presente (aqui)... e um micróbio em sua memória (aqui).

ORDEM N.º 2 AO EXÉRCITO DA ARTE


É a vós —
barítonos bem alimentados —
que desde Adão
até hoje
comoveis as espeluncas — a que chamam teatros —
com as árias dos Romeus, árias das Julietas.

É a vós —
artistas-pintores,
gordos como cavalos
ornato relinchante e devorador da Rússia,
acachapados no fundo dos estúdios,
a aperfeiçoar constantemente
florinhas e engodos.

É a vós —
escondidos à sombra de místicos folhetos,
arando com mil rugas vossas frontes —
pequenos futuristas,
pequenos imaginistas,
pequenos acmeístas,
embaraçados entre a teia das rimas.

É a vós —
que em mechas hirsutas tendes transformado
vossos cabelos bem penteados,
e o verniz dos sapatos em tamancos,
«prolecultistas»
que remendais
o fraque desbotado de Puchkine.

É a vós —
bailarinos, tocadores de trompete,
que vos entregais abertamente,
ou calmamente pescais,
e imaginais o futuro
como uma academia imensa.
É a vós que o digo,
eu —
genial ou não genial,
que abandonei a quinquilharia da arte
e trabalhei na Rosta,
eu vo-lo digo —
antes que vos expulsem à coronhada.
Deixem-se disso!

Deixem-se disso!
Esqueçam,
ponham de lado
rimas,
romances,
roseiras em flor,
e todas as outras «melrancolias»
dos arsenais das artes.

A quem interessa que
«— Ah, pobre criança!
Como ela a amava
e como era infeliz...»?
Hoje
necessitamos de mestres
e não cabeludos pregadores.
Oiçam-nas!
As locomotivas gemem,
sopram pelas fendas, pelo chão:
«Dêem-nos o carvão do Don!
Serralheiros,
mecânicos, ao Depósito!»

Em cada embocadura de rio
vemos os barcos deitados,
um buraco no flanco, gritarem nas docas:
«Dêem-nos a nafta de Baku!»

Enquanto nos perdemos em querelas vãs,
buscando não sei que secreto sentido,
atravessa as coisas um enorme soluço:
«Dêem-nos formas novas!»

Já não há imbecis
para,
multidão boquiaberta,
esperar que caia dos lábios do «mestre» uma palavra.
Camaradas,
inventai uma arte nova
que arranque
a República da lama.

(1922)


Vladimiro Maiakowski, in Autobiografia e Poemas,s/t,  Editorial Presença, s/d, pp. 62-64.

ÍNDIOS E PEIXINHOS



Mais um líder indígena assassinado por madeireiros no Brasil. Paulo Paulino Guajajara é o nome da vítima, anuncia a imprensa. Com a costa atacada por petróleo venezuelano transportado em barris da Shell, o governo brasileiro faz a sua propaganda com vídeos enternecedores de militares empenhados no auxílio às populações afectadas. Sobre não ter sido accionado plano de contingência, nada. O vídeo acima ilustra melhor o estado a que o Brasil chegou. O inferno é o socialismo, o inferno é o PT, o inferno é Lula, o inferno é a Globo. Os madeireiros são só manchas de petróleo. Se os índios fossem inteligentes como peixinhos, desviavam-se do caminho.

BAZUCA


Enquanto o assessor arredonda a saia e a deputada gagueja, chamando a si a atenção das massas, por cá “a velha banca testa bazuca contra novos concorrentes”. O título é do Público. Tendo em conta o histórico da velha, é muito provável que a bazuca tenha sido gamada em Tancos.