sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

VOLTA PARA A TUA TERRA



Não tem conta a quantidade de vezes que ouvi esta expressão ao longo da vida, fosse no pátio de uma escola, num estádio de futebol ou na esplanada de um café. Nunca me foi dirigida, talvez por eu ter cara de lugar nenhum. Qual a nossa terra? Ensinaram-me na escola que Portugal era o fim da Terra, o lugar onde se ficava porque não se podia continuar a caminhar. Sendo verdade, no limite, isto quer dizer que os portugueses são de onde não podem fugir. Ser português é uma condenação. Depois surgiu aquela conversa de dar novos mundos ao mundo. Arranjámos caravelas, metemo-nos mar adentro, fomos parar a outras terras. Passámos de condenados a conquistadores. Nos livros da escola primária do meu pai Portugal ia do Minho até Timor, era um território estranho, amálgama de pintas espalhadas pela superfície do globo. Olho para aquilo e vejo uma espécie de doença cancerígena disseminada pela superfície da Terra. Qual a terra de um português nascido em Timor? E de um português nascido em Angola? E de um português nascido no Brasil? Há tempos, fui beber copos com uns amigos brasileiros. No regresso, um deles, aflito da bexiga, resolveu aliviar-se num recanto público. Era a parede de uma igreja. Alguém o viu a urinar na parede da igreja, invectivou-o, ele pediu desculpa. Ao reparar no sotaque brasileiro do criminoso, logo o puro lusitano soltou o seu grito de guerra: «vai mijar para a tua terra». Acontece que a terra do aflito ficava longe, ele estava mesmo aflito, aliviou-se onde pôde, como pôde, sem sequer ter reparado que estava a aliviar-se nas paredes da casa do Senhor. Não é de todos a casa do Senhor? Durante muito tempo ouvimos falar de Portugal como um país de emigrantes. Os portugueses que foram para França, Suíça, Luxemburgo, os portugueses do Canadá, da América, da Austrália, África do Sul. Depois de perdermos as colónias, terras que porventura alguns ainda julgarão nossas, houve muita gente que regressou à metrópole e ficou a modos que sem terra. Alguns filósofos gregos preferiam dizer-se cidadãos do mundo a reivindicar-se de um lugar, ser cidadão do mundo é ser uma espécie de sem terra. Como é que se manda para a sua terra um cidadão do mundo? Vai para a tua terra ó cidadão do mundo! O insulto torna-se petição de princípio, é como dizer: vai para onde estás. Não compreendo, nunca compreendi, como pode ser insultuoso mandar alguém voltar à sua terra. Julgo que se pretenda rebaixar o outro dizendo-lhe que está numa terra por empréstimo. O vai para a tua terra quer dizer: lembra-te disto, esta terra não é tua, estás aqui porque te acolhemos, portanto respeito, fazes o que mandamos e calas-te, se abrires o bico volta para a tua terra. O “vai para a tua terra” é uma espécie de “cala-te”. Nós só mandamos calar quem não nos convém ouvir, é o argumento final, derradeiro, desesperado, para fugir a um debate e a uma discussão, talvez porque a saibamos perdida. Não queremos discutir com os imigrantes do Bangladesh e da Índia e do Sri Lanka que trabalham nas estufas da Costa Vicentina ou amassam o pão de Rio Maior porque sabemos que o último dos nossos argumentos seria: volta para a tua terra. E se eles voltassem seria uma chatice, teríamos que contratar outras pessoas, porventura com outra capacidade de reivindicação, pessoas que fizessem respeitar os seus direitos laborais. É uma chatice quando um escravo levanta a voz. Em não podendo ser chicoteado, solução feia, sobra-nos mandá-lo para a sua terra.

Donald Trump mandou para a sua terra algumas congressistas que o incomodavam. Não tinha outro argumento. “Go back home”, vociferou o presidente da maior potência do mundo contra Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Pressley, Rashida Tlaib e Ilhan Omar. Trump nasceu num bairro chamado Jamaica, filho de imigrantes escoceses. A Escócia, como sabem, faz parte do Reino Unido. Já a actual mulher de Trump nasceu em Novo Mesto, Eslovénia, ex-Jugoslávia. São pessoas com raízes estranhas, pelo que não é de estranhar que na cabeça daquela gente a expressão “volta para a tua terra” tenha um significado diferente do que tem para o comum dos mortais. Imaginem Ocasio-Cortez, nascida no Bronx, filha de imigrantes porto-riquenhos, mandar para a sua terra Donald Trump, nascido no bairro Jamaica, filho de emigrantes escoceses. O que tem de americano Trump que Ocasio-Cortez não tem? O cabelo? Ao sugerir que Joacine Katar Moreira voltasse para a sua terra, André Ventura, que convive indiferentemente com saudações nazis nos seus comícios, legitimou um tipo de argumento racista que é muito comum. Tal como Trump, ele quis dizer: não estás autorizada a falar deste país porque não nasceste aqui, não és de cá. Isto pressupõe a ideia de que só tem legitimidade para falar de Portugal quem nasceu em Portugal. Não há argumento mais redutor e estúpido numa discussão, até pelos efeitos contraproducentes que introduz. Que dizer ao deputado Ventura quando ele falar de ciganos? Que se reduza à sua etnia. E quando ele perorar sobre o Islão? Que se cale, pois é católico, foi seminarista, fique-se pela sua terra espiritual. Ventura diz que Joacine atacou a História de Portugal, defesa curiosa vinda de alguém que a todo o momento parece estar empenhado em atacar a História de Portugal. Não foi isso mesmo que fez ao defender o regresso da pena de morte? A História de Portugal pode ser contada de muitas maneiras, não necessariamente daquela que mais convém a Ventura. Estarei a atacar a História de Portugal se lembrar que Portugal tem um passado esclavagista e colonialista? Estas pessoas que deslocam uma argumentação típica de esplanada para instituições públicas, sejam elas Trump, Bolsonaro ou Ventura, sendo desculpados por uns, por “falarem da boca para fora”, e por outros, por “no fundo não querem bem dizer o que dizem, é tudo ironia”, arrastam consigo um problema que a certa altura se torna ingovernável: legitimam discursos de ódio, tornando-se cúmplices de eventuais acções que venham a ser promovidas por tais discursos. O problema do que dizem, por mais estúpido que possa parecer, está na legitimação e na vulgarização do preconceito, do ódio, da violência, do racismo. Ora, atacar a História de um país é isto mesmo, é recusar-lhe a sua essência multicultural, partindo do princípio erróneo de que a bandeira tem uma só cor e de que há portugueses de primeira e de segunda. Lançar anátemas sobre a história de um país começa, precisamente, nos anátemas que se lançam sobre os seus cidadãos, procurando diminuí-los por causa de características pessoais que nada têm que ver com os lugares do mundo onde exercem a sua cidadania. Há uns anos, um tipo chamado Jeroen Dijsselbloem, líder do Eurogrupo, acusou os países do Sul da Europa, entre os quais Portugal se inclui, de gastarem demasiado dinheiro com álcool e mulheres. Tentem encontrar uma posição de André Ventura sobre este anátema lançado sobre os portugueses. Pode ser que tenham sorte.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

UM POEMA DE JOSÉ RICARDO NUNES




ainda hei-de assistir ao meu funeral
juro-vos
e as auxiliares riam-se
e pediam para me calar
que em vez de estar com palermices
mais valia chegar-me à janela
e desfrutar das vistas
o parque
as crianças
se já se viu tão cálido Outono

impossível aquietar-me
imaginem-se transformados em marionetas
com mãos por dentro
a conduzirem os gestos
a remexerem
o peito a respirar encostado às mãos
dedos que seguram no vazio
um coração

as auxiliares alinhariam
mesmo atrasadas
cheiinhas de pressa
já ouvia a gargalhada a ecoar no corredor

e depois da higiene e da limpeza do quarto
atiravam-me beijos
consolavam-me disto
de ser nada

não me perdia em detalhes
a matéria fulcral consistia no cumprimento da promessa
eu no meu funeral
tinha-vos jurado
e elas riam-se

ainda as ouvia no corredor
já sentado no muro
de cigarro aceso
aguardando a chegada do cortejo
eu à frente muito adiantado
para não me ver dentro da terra
que custava imaginar-me morto
levar com os torrões húmidos por cima
muito mais agradável sentir
as mãos por dentro de mim a disporem
e eu a obedecer
flexível reversível

acreditar
depende tanto da nossa vontade
não sabia como é que se acredita

erguia-me de supetão
batia as palmas
informava que em breve teria de me ausentar

não custa
tinha já estado tantas vezes no meu funeral
repetira a minha vida tantas vezes
que sabia como se processava

reparem que disponho dos dias todos
um dia mais longo
uma tarde sem fim
a vida a escavar-me
vou e volto já
acreditem que não custa

e dito isto
sem saber se procedia ao anúncio derradeiro
reservando à cautela um resto de fôlego para o regresso
saudava as auxiliares
virava-me para o outro lado
fechava os olhos
que um dos homens da agência deixara abertos
por descuido ou por crença
e expirava



José Ricardo Nunes, in Di dispensa dai fiori, volta d'mar, Janeiro de 2020, pp. 49-51.

MANUEL RESENDE (1948-2020)


Poesia Reunida: aqui. Um poema: aqui.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

BOAS PERGUNTAS

Aqui.

CONTRIBUTO PARA AS ESTATÍSTICAS


Em cem pessoas,

sabedoras de tudo melhor —
cinquenta e duas;

inseguras de cada passo —
quase todo o resto;

prontas para ajudar,
desde que não demore muito —
quarenta e nove;

sempre boas,
porque não conseguem de outra forma —
quatro, talvez cinco;

dispostas a admirar sem inveja —
dezoito;

constantemente receosas
de algo ou alguém —
setenta e sete;

aptas para a felicidade —
vinte e tal, quando muito;

individualmente inofensivas,
em grupo ameaçadoras —
mais de metade, com certeza;

cruéis, 
por força das circunstâncias —
é melhor não sabê-lo,
nem aproximadamente;

com trancas na porta depois da casa roubada —
quase tantas como
aquelas que as têm, antes da casa roubada;

não levando nada da vida a não ser coisas —
quarenta,
embora preferisse estar enganada;

agachadas, doloridas
e sem lanterna no escuro —
oitenta e três,
mais tarde ou mais cedo;

dignas de compaixão —
noventa e nove;

mortais —
cem em cem.
Número, até agora, não sujeito a alterações.

Wisława Szymborska, in Instante, tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio Neves, Relógio D'Água, Janeiro de 2006, pp. 63-65.

domingo, 19 de janeiro de 2020

LER OS OUTROS


No navio onde trabalho, estranham sempre que eu não participe nos jantares de natal ou nas festas de tripulação, preferindo ou a costumeira ida ao ginásio ou a leitura de um livro.
Explico e desculpo-me com a criação de rapaz do campo; há duas coisas de que é prudente guardar uma certa distância: de animais no cio e de árvores em queda.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

UMA DÉCADA EM RESUMO


1 - O Laço Branco (2009), de Michael Haneke. Estreou por cá a 14 de Janeiro de 2010.
2 – Um Ano Mais (2010), de Mike Leigh. Estreou por cá a 27 de Janeiro de 2011.
3 – Poesia (2010), de Chang-dong Lee. Estreou por cá a 3 de Março de 2011.
4 – Cosmopolis (2012), de David Cronenberg. Estreou por cá a 31 de Maio de 2012.
5 – Nebraska (2013), de Alexander Paybe. Estreou por cá a 27 de Fevereiro de 2014. 
6 - Ida (2013), de Pawel Pawlikowski. Estreou por cá a 25 de Outubro de 2013.
7 – Joe (2013), de David Gordon Green. Estreou por cá a 19 de Junho de 2014.
8 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014), de Alejandro G. Iñárritu. Estreou por cá a 17 de Outubro de 2014.
9 - The Revenant: O Renascido (2015), de Alejandro G. Iñárritu. Estreou por cá a 21 de Janeiro de 2016.
10 – Os Oito Odiados (2015), de Quentin Tarantino. Estreou por cá a 4 de Fevereiro de 2016.
11 – Christine (2016), de Antonio Campos. Lançado a 14 de Outubro de 2016.
12 - Paterson (2016), de Jim Jarmusch. Estreou por cá a 17 de Novembro de 2016.
13 – Uma Mulher Não Chora (2017), de Fatih Akin. Estreou por cá a 23 de Novembro de 2017.
14 – Roma (2018), de Alfonso Cuarón. Lançado a 27 de Outrubro de 2018.
15 - Parasitas (2019), de Bong Joon Ho. Estreou por cá a 26 de Setembro de 2019.
16 - Joker (2019), de Todd Phillips. Estreou por cá a 3 de Outubro de 2019.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

NUNO REBOCHO (1945-2019)



MORITURI

a câmara dos óbitos reúne a amostragem
as lágrimas os sussurros e os odores.
o luto faz contas de cabeça
enquanto as donzelas dedejam os seus amores.
a morte está morta
alheia ao silêncio e ao ruído:
orienta-se pelo ouvido
e só as coroas importunam os vivos.

o morto está morto: a morte só lhe custou
no primeiro momento.
depois habituou-se e tomou-lhe o jeito
e foi pela morte dentro
de peito feito. os viúvos os órfãos os enlutados
bem lhe puxaram pela manga
mas o morto lá ia
mudo aos apelos e aos desvelos
e cansado da cerimónia.
já levava o corpo gasto
como em vida
— mas de diferente maneira.

Nuno Rebocho, in O Discurso do Método, Canto Escuro, Janeiro de 2008, p. 40.

domingo, 12 de janeiro de 2020

EU CIGANO ME CONFESSO


Portugal tem um problema com as minorias étnicas, apregoa-se aos quatro ventos e eu não discordo. A minoria étnica dos arrivistas, a minoria étnica dos oligarcas, entre outras minorias étnicas congéneres, são não apenas um, mas vários problemas com os quais a nossa ilustre nação se depara na actualidade. Penso, por exemplo, em Duarte Lima, o bom Domingos para os amigos, arrancado ao seio humilde de nove irmãos, algures em Miranda do Douro, rumando à capital sob alto patrocínio de gente capaz de sustentar estudos na Universidade Católica e nas melhores universidades italianas. Duarte, esse de quem se diz ter acabado a assassinar uma velhinha para lhe sacar o guito, é um problema para o país. Desconfio que haja nele algo de cigano que possa ser apontado e criticado e vilipendiado, assim como o há em José Sócrates, Zé dos Cofres para os amigos, nascido em Vilar de Maçada. Quem nasce numa terra com tal nome só pode trazer ruindade dentro de si, uma ruindade gitana como sói ser a de quem chega a primeiro-ministro e abandona o cargo cheio de bons samaritanos amigos de seu amigo. Eu, que sou cigano do lado da mãe e sarraceno do lado do pai, o mais que consegui na vida em matéria de esmolas foi uns trocos do Sousa Lara, que, como é sabido, faz parte dessa minoria étnica de políticos bafejados pela sorte das subvenções vitalícias. Fita-se o 4.º Marquês de Lara, 2.º Conde de Guedes, e o que se topa? Um cigano sob capa monárquica, só para disfarçar. É um problema para o país. De resto, esta gente tem-se organizado com o passar dos anos, já não são os dançarinos e cantadeiros ilustrados por Youssef Chahine no filme “O Destino”, muito menos os romanis atabalhoados e castiços de Emir Kusturica. Não, esta gente tem hoje ao seu serviço autênticas Mossad, com infiltrações em inúmeros serviços de informação de segurança, tentáculos espalhados pelo mundo com perfis falsos nas redes sociais, uma autêntica NSA, dita Agência de Segurança Nacional, supostamente americana, zíngara de verdade, que nos ludibria, manipula, marioneta. Cuidado com esta raça altamente sofisticada, capaz de se fazer passar por ilustres banqueiros nas pessoas de José de Oliveira e Costa, o do BPN, fiel amigo de seu amigo Cavaco, muito provavelmente também este etnicamente obscuro, ou João Rendeiro, o do BPP, o tal que é capaz de passar entre os pingos da chuva sem se molhar ou queimar ou lá o que é. São coisas que aprendem na escola de ciganos, magias. Depois iludem-nos com ricardos Quaresma e djangos Reinhardt, aquele a quem faltavam dedos, como leitoras de sina na Feira do Relógio. Sim, caros concidadãos, temos um grave problema a resolver com as nossas minorias étnicas. Eu, na qualidade de cigano, isto é, na falta de qualidades, quero aqui deixar o meu testemunho garantindo que nunca me cruzei com Ricardo Salgado, o Dono Disto Tudo (só a sigla já cheira a pesticida), excepto daquela vez, no Mercado de Santana, em que a minha senhora lhe tentou vender um jogo de lençóis bancos (sic) em sacos azuis, para que o cigano da Lapa pudesse ir amealhando trocos antes de se ver vilmente espoliado por uma justiça tão cega e lenta como as lemas. O Pedro Dias, esse bom homem, português de raça, é que a sabe toda, ele e o Manuel Palito e o Rei Ghob e a mulher do triatleta, mais uns quantos finos exemplares de puros lusitanos, denegridos por uma sociedade doentia que teima em não ver as coisas como elas são. E como são as coisas? São em forma de assim, já dizia o poeta e eu não discordo. Abaixo, pois então, os ciganos e todas as minorias étnicas que conspurcam a nossa nação com vis acções, cotadas na bolsa e nos paraísos fiscais da Madeira, paraíso onde os ciganos não chegam. Abaixo eu próprio, mim mesmo, que cigano me confesso. Abaixo toda essa gente minoritária, excepto os que expiam pecados na missa ao beijarem as mãos de padres pedófilos (não digo em Portugal, que os não há). A propósito, é impressão minha ou o Bibi tinha uma tez aciganada? Estou desconfiado de que o era.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

BIBLIOTERAPIA

Imaginem um retiro de leitura, seja lá isso o que for, num espaço gerido pelos descendentes de Almeida Garrett. Pobre coitado. Imaginem que o retiro será orientado por uma biblioterapeuta, seja lá isso o que for, que promete uma receita prévia de leituras personalizadas, especificamente indicadas para cada participante, ou paciente, mediante consulta especializada. Haverá direito a palestra sobre as propriedades terapêuticas da leitura, para que os enfermos não fiquem às cegas quando sujeitos à biblioterapia, presumindo-se que esta seja apresentada de acordo com parâmetros científicos universalmente reconhecidos. A troca de impressões sobre os livros receitados será acompanhada de tertúlia com autor convidado, tudo ao preço de módicos 345 €. Se julgam anedota este spa literário, esqueçam. Ocorreu-me em tempos a ideia de uma loja de poemas a metro, mas faltou-me empreendedorismo para levar o projecto a bom porto. Resta-me agora vomitar para dentro, curioso, porém, por saber a opinião deste senhor sobre as propriedades terapêuticas da literatura.

P. S. : todo um novo mundo por descobrir aqui

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O PEDIDO DE EMPREGO



   Havia, não sei se ainda há, um programa chamado Shark Tank, com versão portuguesa traduzida como Lago dos Tubarões. O peixe graúdo, temível, era composto por certo tipo de gente a quem eufemisticamente se dá o nome de “investidores”, malta com pilim a quem o peixe miúdo submete reverencialmente as suas ideias na esperança de poder vir a crescer, adquirindo no futuro, quem sabe, o estatuto de tubarão. É o mundo do empreendedorismo na sua versão soft, para entreter famílias depois da telenovela. Chamar “lago” ao habitat dos tubarões é só parvo, era preferível a literalidade do termo tanque ou aquário ou piscina ou reservatório. 
   Kevin O’Leary, estrela do programa, pelo estilo implacável, dito pragmático, muito à maneira do que se espera de um magnata, competitivo, agressivo ou, como agora se diz, impactante, ficou conhecido no meio como Mr. Wonderful, apesar do discurso que qualquer humilde fã do Papa Francisco consideraria abjecto não fossem as necessidades. “Sou o teu melhor amigo, os teus sentimentos não me interessam”, “se está furioso, mate”, são algumas das máximas atribuídas a este aparentemente bem-sucedido homem de negócios. Diríamos que o mundo está cheio de homens destes, não fôssemos desmentidos pelas estatísticas. 
   Os 26 mais ricos do mundo têm tanto dinheiro quanto a metade mais pobre da população mundial, o que nos pode levar a pensar nos tubarões como uma espécie em vias de extinção. Na realidade, há vários tipos de tubarões. São cerca de 375 espécies, 88 das quais, curiosamente, nos mares do Brasil, variando de tamanho sem nunca largarem o topo da cadeia alimentar. No mundo dos homens, o peixe miúdo é a metade mais pobre da população mundial que serve de alimento aos tais 26. A desproporção devia chocar toda a gente preocupada com desigualdades sociais, mas nas sociedades de espectáculo promovidas pelo capitalismo selvagem aqueles 26 são uma espécie de luz que maravilha os idealistas, que fascina os lunáticos, que seduz os sonhadores, que garante o sucesso dos tais Mr. Wonderful, reproduzindo em massa vidas que alternam entre a absoluta escravidão, nos países subdesenvolvidos, a servidão, nos países em vias de desenvolvimento, e uma submissão voluntarista, nos países civilizados (o termo não é meu). 
   O dramaturgo Michel Vinaver topou cedo a mecânica das coisas, não apenas através de uma capacidade reflexiva de tipo académico, mas fazendo uso daquilo a que em ciências sociais e humanas se dá o nome de observação participante. Nascido em 1927, formou-se em literatura na Sorbonne. Mas, em 1953, entra como estagiário para a Gillette, acabando como chefe de serviços administrativos. A experiência como alto quadro de uma multinacional ofereceu-lhe uma perspectiva clarividente sobre matérias que outros apanham apenas pela rama. A peça “O Pedido de Emprego” é uma de várias que escreveu, dedicadas a estes assuntos da sobrevivência na selva dos homens. Assinala agora a estreia de António Parra como encenador. 
   Depois da estreia no Teatro da Rainha, a trupe segue em digressão pelo Teatro das Beiras já no próximo dia 10 de Janeiro. É mais uma oportunidade para assistir a um competente trabalho de encenação, em torno de um texto que adivinhamos altamente desafiante de colocar em cena. Nuno Machado é Fage, quarentão em busca de uma nova oportunidade de trabalho. José Carlos Faria, na personagem de Wallace, é o técnico de recursos humanos que submete Fage a interrogatório. Depois há Luísa, interpretada por Inês Fouto, mulher de Fage, e Mafalda Taveira no papel de Natália, a filha adolescente de Fage e Luísa, perdida de amores por um jovem revolucionário que a engravida nos intervalos da formação em anedotário progressista. A teia de diálogos cruza tempos e situações a um ritmo alucinante, levando a pensar tanto no cubismo, enquanto capacidade de multiplicar perspectivas num só enquadramento, como em algo muito mais prosaico, como seja a impressão de frenesim social que faz da vida mero instante. 
   Interessa-me Fage, encurralado entre as obrigações familiares e os deveres profissionais, esforçando-se por causar boa impressão àqueles que sabe serem os seus algozes, perdido num labirinto de vozes disparadas de todos os lados, sem saber para onde se voltar se quiser encontrar a saída. Imagino-o assim mesmo, dentro de um labirinto (peixinho às voltas no aquário?), a tentar escutar quem o chama. Chegam-lhe ecos de todos os lados, ele concentra-se, tenta perceber-lhes a origem, quer chegar ao corpo que emite o chamamento, porventura para ser abraçado ou abraçá-lo, gestos humanos luxuosos numa sociedade cujo princípio e propósito é desumanizar. Porquê? Para quê? Ora, para garantir o estatuto de wonderful àqueles cujo fascínio exercido pela maioria procura justificar uma vida, esse instante efémero, de servilismo, sem sequer deixar hipótese de nos intervalos da servidão a considerarmos desperdiçada.
   Para mim, depois de 11 anos ao serviço de uma empresa cuja mecânica consiste em explorar à exaustão as capacidades dos serventes, pagando-lhes pelo mínimo o que se propagandeia como máximo, “O Pedido de Emprego” retrata já não apenas a descartabilidade da pessoa humana em contexto laboral, mas como somos levados a desperdiçar a vida dando de comer aos tubarões a nossa própria consciência. Olho para Fage e para a sua família, olho-o e penso se é justo acusá-lo de desperdiçar a vida. Que alternativas lhe restavam? Em nome de quê, o desperdício? Talvez em nome dos chamados pequenos luxos que nos fazem enganar o tempo, julgando valer a pena morrer de velhos sem um único ano das nossas vidas ter sido verdadeiramente vivido, luxos esses tão bem ilustrados pela gravata que Luísa engoma, pelos sapatos que engraxa. Num mundo assim estruturado, que futuro sobra para a criança no ventre de Natália? Talvez seja preferível não responder, deixemos em aberto a possibilidade de vir a ser ela a escolhê-lo. Se for essa a vontade da progenitora... e de quem lhe dê emprego?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

PONTO FINAL


"Irão ataca alvos norte-americanos no Iraque com mísseis balísticos." Não perder de vista que há dias os EUA assassinaram o general iraniano Qasem Soleimani, argumentando que: "O ataque tinha como objetivo impedir futuros planos de ataques iranianos". Ou seja, o assassinato do general iraniano tinha como objectivo impedir coisas que ainda não aconteceram mas na cabeça de Trump e dos seus lacaios estariam prestes a acontecer se não fossem impedidas executando quem as poderia fazer acontecer. A guerra começou assim, não de outro modo. É importante que o percebam, pois entretanto serão intoxicados com campanhas de ódio contra o Irão e os iranianos e os muçulmanos em geral e o modo de vida daquela gente e as execuções de homossexuais e as mulheres que nem podem tirar a carta e etc. A guerra não começou hoje, com o ataque do Irão. A guerra começou com o assassinato de um general iraniano. Quem começou a guerra? Os EUA. 


Adenda retroactiva: em breve andará toda a gente a discutir se fica na claque da América ou na claque do Irão, como se estivessem a discutir bola. A pergunta que mais se ouvirá, para nos distrair do problema, será: preferias viver no Irão ou nos EUA? E no fim tudo se resumirá a mais destruição, mortos, famílias desfeitas, mais refugiados, mais caos, mais ódio, mais fundamentalismo. Alguém ganhará com isto, os que não "irão" à guerra. A indústria do armamento também, claro, e os senhores do petróleo. (3 de Janeiro de 2020)

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

MOTIVAÇÕES BRUTAIS


15 energúmenos fizeram uma espera a um rapaz e deram-lhe cabo da vida, espancando-o com paus e cintos e, desconfio, com as próprias mãos. O grande debate do momento é se o crime teve na sua origem motivações raciais, debate tão aceso e luminoso que acabaremos todos ofuscados pela sabedoria universal, omitindo ou esquecendo que 15 energúmenos fizeram uma espera a um rapaz e deram-lhe cabo da vida, espancando-o com paus e cintos e, desconfio, com as próprias mãos. Antes de mais, é disto que se trata. Se as motivações foram raciais, faciais, anormais ou banais, pouco me importa. Certo é que foram brutais, pelo que não devemos deixar cair no esquecimento o essencial: 15 energúmenos continuam à solta depois de fazerem uma espera a um rapaz e lhe darem cabo da vida, espancando-o com paus e cintos e, desconfio, com as próprias mãos.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

UMA CANÇÃO FESCENINA DE JOSÉ LUIZ TAVARES

CAVALGADA DA SABURA


Ó poldra que me arroteaste a tusa,
loba que uivasses, dura musa,
nem sabes, na hora do tesão,
que o diabo te tem na mão; ou não

montasse eu em ti, tal potranca
que, com arreganho, dando o pinote,
diz: «saudades do repinicante chicote,
que me faz viva, mesmo se desanca.»

Poldra ou puta, tudo é anelo
de destreza ou lhaneza na largura;
mas se descomposta, na hora da sabura,
nem pra recobro se recolhe o martelo

— bumba que zumba, na crica
que replica, ó brutal cavalgada,
só vida que fervilhasse na danada,
na hora em que, sem pose, se claudica. 

José Luiz Tavares, in Arder a Vida Inteira, Abysmo, Maio de 2019, p. 66.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

HIPOCRISIA ULULANTE


(...)

O populismo ainda não chegou ao poder mas já condiciona a opinião publicada. Não encontrei nenhuma defesa descomplexada da obra de Cabrita Reis e da decisão de a comprar vinda de quem não esteve envolvido neste episódio, muito provavelmente porque já não podemos ser elitistas. Os economistas, que não viram a crise, as redes sociais, que democratizaram a opinião, e os intelectuais de direita, traumatizados pelo marxismo cultural, deram cabo do elitismo. Quem hoje defender a existência de um serviço público de televisão que, em  detrimento das audiências, da pimbalhada e da telenovela, deixe a música erudita e os filmes da criterion collection ao alcance de todos, será imediatamente acusado de elitismo ou apelidado de "pseudo-intelectual". Há nisto uma hipocrisia ululante.

(...)


RAMELA


O episódio do Papa a enxotar uma beata é comparável, pela perda de compostura, ao de António Costa a enxotar um velho durante a campanha nas legislativas. A simpatia que nutro por um é a mesma que nutro pelo outro, mas não posso deixar de reparar nas avaliações tão díspares inspiradas pelos dois episódios. Aí está um reflexo da nossa incapacidade de discutir o que quer que seja sem os olhos remelosos do clubismo. Pensar pela própria cabeça dá uma trabalheira danada, vestir uma camisola é muito mais simples.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

ARMADILHA PARA CAÇAR HIPÓCRITAS



   Começar o ano a ler teatro, nomeadamente duas peças de Luigi Pirandello (n. 1867 – m. 1936). Com tradução de Isabel Lopes, “O Barrete de Guizos” e “O Homem, A Besta e A Virtude” são as duas peças, reunidas num só volume, que marcaram o início da parceria estabelecida entre o Teatro da Rainha e a editora Companhia das Ilhas. Entretanto, foram publicados na mesma colecção volumes de Beckett, Martin Crimp e Jean-Pierre Sarrazac. À maneira de prefácio, Fernando Mora Ramos apresenta Pirandello como um “contra-aristotélico”. Assim o é, quer na lógica, quer na ética. A ligar estas duas peças, por exemplo, o tema do adultério surge expurgado de qualquer consideração moralizante, sublevando as partes implicadas num processo que tem tanto de humorístico como de desmistificador. 
   Em “O Barrete de Guizos”: uma mulher ciumenta e desconfiada procura incriminar o marido, tentando apanhá-lo em flagrante com a suposta amante. Esquece-se de que ao fazê-lo põe também em xeque a honra do marido da amante, servo fiel do presumível marido adúltero. A quadratura poderia fechar-se neste cruzamento de interesses em que tanto a “corda da civilidade” como a “corda da seriedade” parecem desafinadas, não fosse haver entre o interior e o exterior da quadratura um desajustamento  que nos leva ao que é verdadeiramente essencial nestas peças: desmontar a hipocrisia com que, por interesse ou pressão social, somos levados a fazer o que não queremos e, por com sequência, a ser o que não somos. 
   Ciampa, corno eventual, sabe bem onde está metido, tem até uma tese sobre o assunto fundada no que poderíamos apelidar de alegoria das marionetas: «No íntimo, ninguém está contente com o seu papel. Cada qual, tendo diante de si a sua própria marioneta, havia certamente de lhe cuspir na cara. Mas pelos outros não, pelos outros gostaria de a ver respeitada»
   Também o professor Paolino, da peça “O Homem, A Besta e a Virtude”, fala de hipocrisia aos seus alunos: «Uma pessoa que finge, precisamente como um comediante, que finge ser, por exemplo, um rei e, no entanto, não passa de um pobre piolhoso, ou que representa qualquer outro papel. Que mal há nisso? Nenhum. Dever! Profissão! — Então onde é que está o mal? O mal é quando não se é hipócrita dessa maneira, por dever, por profissão, em cima do palco; mas por gosto, por interesse, por maldade, por hábito, na vida — ou mesmo por educação — não haja dúvida, porque educado, ser educado, quer dizer isso mesmo: — por dentro, negros como corvos; por fora, brancos como pombas; fel no corpo, mel na boca. O mal é quando se entra aqui a dizer: Bom dia, senhor professor, em vez de: — Vá para o diabo, senhor professor!» Mas aqui a história é outra. O professor é o homem, ou seja, aquele que trai, por razões que considera não apenas justas como até virtuosas. A Besta é o marido traído, por razões que somos levados a considerar mais que justificadas. E a Virtude é a mulher adúltera, com motivos mais que razoáveis para que o seja. 
   A inversão dos padrões morais levada a cabo nestas duas peças tem um sentido divertido do tipo “crítica de costumes”, cem anos depois estupidamente actualizada com a virtualização das relações humanas a permitir um crescendo de moralismo evangelizador disseminado um pouco por todo o mundo. Claro está que por detrás do véu moralista, castrador e puritano, outras devassas se vão perpetuando sem que ninguém se preocupe em disfarçá-las, de tão entretidas andarem as massas a discutir futilidades. Nestas duas peças do Nobel Pirandello, a “santa paz doméstica” é antes a fachada que derrui para que o público assista um pouco ao ridículo de si mesmo. A verdade e a mentira deixam de ser avaliáveis segundo padrões axiológicos, podendo, dadas as circunstâncias, assumir num mesmo rosto faces viciosas e ao mesmo tempo cheias de virtude. 
   Engraçado é perceber a fragilidade dos absolutismos e das tão fáceis, urgentes e comuns precipitações do julgamento alheio, estabelecendo paradigmas e estereótipos acerca dos comportamentos humanos como se não fosse paradoxal a realidade a que em todo o momento estamos enredados. O que é a honestidade e a virtude onde o vício surge legitimado pela prática comum? Por cá, o povo diz «ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão». Que é isto senão uma legitimação da gatunagem? Quem nunca pecou, atire a primeira pedra. Será esta uma mensagem de perdão universal? 
   Mais do que sublinhar virtudes ou apontar pecados, mais do que legitimar comportamentos, a arte que deste modo nos revela enquanto seres ambíguos e paradoxais, resulta de uma auscultação, de um diagnóstico, de uma observação que dá a ver a realidade sem filtros morais, tal qual ela se apresenta a quem a viva na plenitude das suas contradições intrínsecas. Talvez por isso este também seja um teatro de denúncia, denúncia da hipocrisia com que disfarçamos a nossa natureza para nos desresponsabilizarmos das nossas acções. A graça está em assim nos vermos a descoberto, como na antiguidade o actor que apontava sentado na plateia o visado que inspirara a personagem. A arte também é uma armadilha para caçar hipócritas.