A democracia deu palco privilegiado, enquanto comentador de futebol, a um homem que sonha com castrações. A democracia integrou esse homem numa candidatura de um partido democrata, não lhe retirando apoio quando ele declarou haver portugueses de primeira e portugueses de segunda. A democracia permitiu que esse indivíduo legalizasse um partido com assinaturas falsas. A democracia permitiu que esse mesmo partido apresentasse um programa plagiado de outro partido. A democracia permitiu que esse partido fosse disseminando por diversos órgãos de comunicação inúmeras falsidades. A democracia permitiu que, eleito deputado, o líder do partido legalizado com ilegalidades, violasse o que defende no programa pelo qual foi eleito. A democracia permitiu que esse deputado mandasse para a sua terra outro deputado, referindo-se à origens africanas deste. A democracia permitiu que o deputado eleito por um partido legalizado com ilegalidades reformulasse o programa sufragado sem sofrer quaisquer consequências. A democracia permitiu que nos comícios do partido desse deputado se fizesse a saudação nazi. A democracia permitiu que o líder desse mesmo partido promovesse a seus dirigentes neonazis e fascistas declarados. A democracia permitiu que um deputado defendesse em plena Assembleia da República medidas anticonstitucionais e segregacionistas, tais como o confinamento especial de ciganos e a prisão perpétua. A democracia permite que um líder de um partido político reconheça que recorre a promotores de desinformação para passar a sua mensagem. A democracia permitiu que o cancro lhe fosse crescendo na ponta do nariz e nada fez. A democracia confunde tumores com sinusite, ainda não percebeu que o problema não está num homem só, mas nas hostes que o apoiam religiosamente. A democracia farta-se de dar tiros no pé. A democracia está coxa, qualquer dia não conseguirá caminhar. A democracia permite que lhe amputem as pernas.
domingo, 31 de maio de 2020
sábado, 30 de maio de 2020
BRANCOS E PRETOS
Não muito tempo depois de um cidadão afro-americano
(norte-americano por defeito) ser torturado e executado, a céu aberto, por um
polícia extremamente zeloso da sua farda, um protótipo da Starship explodiu no
Texas durante o período de testes. Como somos fracos a contas, desconhecemos
quantos milhões arderam em combustível e se transformaram em cinzas nesta
experiência com o espaço intergaláctico em vista, espaço esse onde certamente
se viverá divinamente. Cá pela Terra, o tal afro-americano foi estrangulado, ao
que se sabe, por causa de uma suposta nota falsa de vinte dólares. A mulher do
polícia pediu divórcio. são contas mais fáceis de fazer.
É preciso referir que Elon Munsk anda deveras
excitado com a possibilidade de tornar acessíveis as viagens ao espaço, sendo
acompanhado em tamanha excitação por uma caterva de fãs que descobriram nas
novas tecnologias o futuro da humanidade. Não fossem as novas tecnologias
jamais teríamos acesso aos smartphones, fabricados com metais raros importados
da China, e jamais saberíamos quem foi George Floyd, não teríamos a mesma
capacidade de organização de vigílias e de manifestações pacíficas,
silenciosas, pelo afro-americano e, já agora, pelos 820 milhões de famintos que
definham pelo mundo, pelos índios na Amazónia e pelo coala australiano.
Um dia deixaremos de falar da distribuição
da riqueza pelo planeta para nos concentrarmos definitivamente na distribuição
da miséria, as lojas de armas não terão filas à porta em tempos de pandemia e
os milhões que surgem do nada para descanso dos mercados poderão ser aplicados
em cabanas com vista para marés de poeira em Marte. Sou um optimista, a
mulher do polícia pediu o divórcio, o Twitter vigia as declarações do
presidente da maior potência militar do mundo, estamos a salvo, Kim Jong-un
continua vivo, Bolsonaro bebe leite e o suicídio prospera no Japão, um judeu e
um índio travam-se de razões no ringue das tragédias universais: o que foi
pior, o holocausto nazi ou o extermínio dos ameríndios?
Quem ande pelas redes sociais, essas mesmas
a quem Umberto chamou o eco de uma legião de imbecis, confronta-se amiúde
com problemáticas similares, não sendo de todo raro ver gente a medir forças
entre gulags e campos de concentração nazis, Israel e Palestina, brancos e
pretos, como quem discute um clássico da liga profissional de futebol. As vidas
das pessoas não importam, na equação custo/benefício valem pouco, pesam quase
nada. Se a certa altura da nossa suposta evolução enquanto seres humanos julgámos
que sim, perdemos qualquer resquício de fé nessa possibilidade ao olharmos de
relance o mundo actual. Weisman, o judeu da peça de György Tábori, pensou
livrar-se da filha deficiente como quem se livra de gatinhos recém-nascidos.
Carrega a filha-fardo como um peso na consciência, reconhece-o. O Cara Vermelha
com quem se debate não sabe quem ou o que é, está confuso, tem um problema de
identidade, talvez um pouco à semelhança do György feito George ou de todo e
qualquer afro-americano (norte-americano por defeito). Obama já passou, Trump
aí está para recuperar o orgulho supremacista branco.
“Weisman e Cara Vermelha” (Companhia das
Ilhas, Maio de 2020), a peça de George Tabori traduzida por Carlos Borges para
o Teatro da Rainha, não escapa ao tema complexo da identidade étnica e cultural
ao colocar em cena um judeu, o que resta de um índio e uma jovem mongolóide. Ainda
se pode dizer mongolóide? Deveria dizer downiana? A questão da identidade e o
desfile de desgraças que cada um dos pugilistas tem para arremessar (parecem
duas velhas a exibir doenças) não esgotam o alcance desta comédia negra, muito
ao nível do estado do mundo tal como o vamos percepcionando a cada dia que
passa. O que impele tanto o índio como o judeu para um Nada identitário é o que
vai ficar a martelar na nossa cabeça tal como martela na consciência de cada uma
daquelas criaturas.
As Rocky Mountains são cenário perfeito para um western, ainda que no duelo final a tensão exercida pelo poder de antecipação seja subvertida por um metralhar de desgraças pessoais que trazem já por terra os dois pistoleiros. Ao silêncio de esgares traiçoeiros projectados numa sala de cinema o teatro prefere a confissão de dois derrotados, havendo talvez entre ambos uma heroína improvável. Rute, a menina deficiente, com gestos alienados de lógica, criatura que aparenta ser de outro mundo, talvez do tal espaço intergaláctico onde Elon Munsk vai tentando meter os pés com foguetões que não chegam a levantar voo. É ela que ao espalhar as cinzas da mãe por cima do pai diz: «Agora semeio a mamã em cima de ti e das rochas crescerá beladona.» A sua deficiência é estar do lado dos vencidos. Não há tecnologia capaz de transmitir tamanha sabedoria.
sexta-feira, 29 de maio de 2020
UM GESTO INTENSO
quinta-feira, 28 de maio de 2020
CIDADÃO UCRANIANO
As imagens que chegam dos EUA, com um homem a sufocar debaixo do joelho de um polícia, que se serve do peso do seu corpo para assassinar o indivíduo imobilizado, são especialmente chocantes não por oferecerem um extraordinário exemplo de brutalidade policial ou pela singular manifestação de racismo que ali possa estar ilustrado. Elas são chocantes por terem sido às claras, com vários cidadãos a filmarem a ocorrência no local, em tempo real, tentando interceder pela vítima, sem qualquer sucesso, enquanto um outro polícia mantém posição para que o seu camarada possa dar continuidade à tortura sem ser importunado. O choque já não está na brutalidade nem na vulgaridade, está na total inexistência de filtros que transforma uma acção da autoridade num acto performativo com público e assistência. Sem cinemas nem teatros, aí está, entregue ao domicílio, a arte urbana de uma civilização superior. O cidadão ucraniano que morreu no SEF do aeroporto de Lisboa continua sem nome, ao contrário de George Floyd. O cidadão ucraniano continua invisível, sem rosto, embora tenha sido sujeito a uma tortura semelhante ou mais cruel. Apesar de ter sido à porta da nossa casa, o cidadão ucraniano continuará a ser um cidadão ucraniano como outro qualquer. Já ninguém se lembra dele, não há cartazes com o seu rosto, nem memes, não se realizaram manifestações nem demos por uma qualquer vaga de indignação popular. Ninguém viu. George Floyd podia ser o nosso cidadão ucraniano, se alguém tivesse visto o que se passou naquela sala do aeroporto de Lisboa onde perdeu a vida às mãos da autoridade. A nossa autoridade.
quarta-feira, 27 de maio de 2020
UM POEMA DE PAULO TEIXEIRA
terça-feira, 26 de maio de 2020
segunda-feira, 25 de maio de 2020
DA DEMOCRACIA
domingo, 24 de maio de 2020
UM POEMA DE ANTÓNIO FERRA
sábado, 23 de maio de 2020
MARIA VELHO DA COSTA (1938-2020)
UM POEMA DE SUSANA ARAÚJO
sexta-feira, 22 de maio de 2020
PERIFERIAS DA LUZ
Publicado em período pré-covid, “periferias da luz” (Eufeme, Outubro de 2019), de António Ferra (n. 1947), podia ser uma inusitada introdução à vida no bairro, até por nos fazer aperceber de quanto se perdeu de vida com o silêncio das ruas e as pessoas atiradas para dentro dos respectivos fogos como achas para uma fogueira de solidão, querelas domésticas, desespero, ansiedade e depressão. Estarei só a ver o lado mau da coisa, admito. Mas em que pensar, senão no lado mau, agora que em passeio pela orla marítima dou com o lixo cuspido no areal? Muito mais divertida do que estas minhas queixas é a dúzia de poemas longos no livro de António Ferra, poemas narrativos, como é usual dizer-se daqueles que nos contam estórias sem estarem preocupados com a maquilhagem das personagens. Poemas quotidianos, talvez, por captarem o dia-a-dia sem indagações metafísicas nem artifícios nostálgicos, sem saudade do que era e não volta a ser nem inquietações com o que ainda não é. A filosofia destes poemas é um presente em trânsito.
O longo poema inicial vale por si só uma visita ao bairro periférico da luz. Nele encontramos um vendedor door-to-door (em inglês fica mais moderno) de software, de regresso a casa, às voltas e voltas na esperança de arranjar estacionamento para o carro. Um redemoinho de pensamentos vêm-lhe à tona enquanto circula em marcha lenta e as horas passam. Ele que tem a vida engatada em terceira, não gosta de perder tempo com conjecturas e apenas sonha «com uma garagem de penas / para estacionar a alma» (p. 9), vê as horas passarem enquanto anda Às voltas à procura de lugar para estacionar o carro. “Estacionamento” é um daqueles poemas cuja simplicidade da linguagem não descura em nada a complexidade do que se subentende numa estrutura repetitiva, como em certa música dita minimalista ou em algumas peças de Beckett que exploram o inútil da existência fazendo-nos pensar que o mais exacto dos epitáfios seria: a vida é uma perda de tempo. O sujeito poético do poema contratou consigo mesmo não pensar no futuro, ainda que esteja farto de andar à volta de si mesmo. Tal como o carro que anda às voltas do bairro, ele anda à volta de si mesmo, olha para os muros do autoconfinamento (chamemos-lhes assim) e diz: «A noite ainda é longa, vou acelerar, / agora já estou mesmo sem paciência, / talvez pelo mal-estar causado pela velocidade destes pensamentos / sem poderem estacionar num canto recôndito da alma. // Mais à frente, na zona de prédios altos, de uma dúzia de / andares por bloco, reparo que não há varandas. / É um incómodo tão grande a ausência de / flores, mesmo aquelas em que não reparamos, porque são / politicamente irrelevantes. / Pensando bem, é impossível encontrar lugar para / estacionar os automóveis de tantas habitações / a que chamavam fogos mesmo que não ardam. / Mas aquelas fachadas lisas, só com janelas planas, são / a angústia de não ter espaço para existir e apenas sonhar / com rosas de jardim. / Não há zonas de varandas com sardinheiras pendentes / para aliviar o peso dos dias pagos a crédito» (p 19).
Se em cada um dos poemas que compõem este livro podemos ver um monólogo, não seria má ideia que alguém neles pegasse um dia para em palco dar vida às personagens que neles foram fixadas. Este vendedor de software e a alternadeira do poema “As Pernas da Vanessa” são dois quadros imprescindíveis de uma fauna que passa despercebida pela vida mas não escapa ao olhar atento de certos poetas. António Ferra é um deles. Falhados, meliantes, rufias, gente comum, são o magma desta poesia das noites suburbanas, microcosmo de uma humanidade periférica como a luz que ilumina o poema.

















