sábado, 31 de outubro de 2009

2666


Quase a terminar 2666, mais concretamente na p. 967, os revisores que trabalham na editora do Sr. Jacob Bubis, divertem-se a falar de um livro intitulado Museu de Horrores, onde um caçador de gralhas chamado Mas Sengen recolheu um vasto conjunto de lapsus calami copiados de grandes obras da literatura mundial. Não sabemos se Roberto Bolaño (n. 1953 – m. 2003) pretendia figurar nesse museu, mas é o que parece quando lemos isto: «Esta era uma desconhecida, mas, coisa curiosa, ninguém soube dizer como se chamava. (…) Algumas pessoas, não muitas, sabiam que se chamava Isabel, mas quase todo a gente [sic] a conhecia como a Vaca» (p. 480). É possível que exista aqui mais uma dose dessa auto-ironia que paira sobre todo o romance, mas a verdade é que a primeira edição portuguesa de 2666 (Quetzal, Setembro de 2009) apresenta vários problemas de tradução e é uma calamidade no que se refere à revisão. O festival que acompanhou o lançamento e a promoção do livro, seguido de entusiasmos mais ou menos compreensíveis, não pode fazer calar a falta de cuidado patente nesta primeira versão portuguesa de um romance a todos os títulos invulgar.

Não me alongarei nos exemplos, que são uma “catrafada” (sic, p. 421) deles, mas não posso deixar de referir inúmeros e irritantes obstáculos nos quais vamos tropeçando ao longo das 1025 páginas do romance − «não para o mar nem para a para a praia a transbordar» (p. 100), «eu viu a testa de hidroterapia do cólon» (p. 500), «No México Lotte ficou ainda permaneceu mais um bocado com o telefone colado à orelha» (p. 1022), etc., etc., etc. −; a cidade de Phoenix transformada em Poenix (p. 626); frases com uma pontuação e uma construção bastante duvidosas; uma carta atribuída a Rosa, na p. 203, que, na realidade, foi escrita por Lola, mãe de Rosa; um uso, “quanto muito” (sic, p. 214), bastante discutível dos advérbios aonde e onde; uma Michele Sánchez Castillo que, na página seguinte, passa a chamar-se Michel Sánchez para, na página seguinte, voltar a ser Michele e, 5 linhas depois, transformar-se novamente em Michel (pp. 642-645); referências a um escritor russo que tanto se chama Tosltoi (pp. 815 e 829) como Tolstoi; assim como referências a um livro intitulado Considerações sobre a Morte de Evguenia Bosh, suposto pseudónimo da dirigente bolchevique Evguenia Gotlibovna, que, em boa verdade, se chamava Bosch e não Bosh… A extensão de 2666 não pode servir de desculpa. Temos lido romances igualmente extensos onde não se verifica a mesma profusão de gralhas.

A excepcionalidade da obra-prima de Bolaño merecia, pois, uma tradução igualmente excepcional, uma tradução que não enfermasse do mal que parece ser regra entre as traduções portuguesas. A leitura só não sai de todo prejudicada por mérito exclusivo do autor. 2666, publicado postumamente cerca de um ano após o desaparecimento do escritor chileno, foi dividido em cinco partes, as quais correspondem a cinco romances que deveriam ter sido publicados separadamente por razões meramente económicas. Que tenham sido publicados em conjunto é uma decisão mais que acertada, pois as ligações entre as cinco partes não só acabam por ser facilmente inteligíveis como tornam explícita a mestria de Bolaño na arquitectura deste monumento. As comparações com o Ulisses de Joyce são descabidas. Ulisses é uma complexa teia de géneros literários, repleta de artifícios que nos mergulham numa aventura pelo inconsciente, ao passo que 2666 chega a ser cinematográfico. De resto, são várias e nada ingénuas as referências cinematográficas que aparecem ao longo das cinco partes que compõem o romance. A ter de haver alguma comparação, ela deve ser feita com a capacidade de reinventar a organização espácio-temporal de uma narrativa que reconhecemos, por exemplo, num William Faulkner (aludido na p. 943).

Deste modo, podemos afirmar que toda a narrativa de 2666 conflui para um tempo (final do séc. XX, início do séc. XXI) e para um espaço (cidade de Santa Teresa, na fronteira do México com os EUA), embora esses tempo e espaço sejam apenas o ponto de referência para uma deriva histórica e transfronteiriça que nos transporta entre a Alemanha de 1920 e o mundo actual. Esta viagem é feita através do percurso de vida de Hans Reiter, um jovem que se converteu num escritor obscuro chamado Benno von Archimboldi. Se repararmos bem, é von Archimboldi quem ecoa do princípio ao fim do romance, embora as cinco partes se vão ligando através de correlações entre outras personagens. Se na primeira parte – A Parte dos Críticos – está em evidência a relação entre três catedráticos e uma professora de literatura alemã especializados na obra de Benno von Archimboldi, não deixa de ser verdade que é em Santa Teresa que a primeira parte se resolve e é lá que vamos encontrar, pela primeira vez, o melancólico professor de filosofia que estará em evidência na segunda parte – A Parte de Almafitano. Por sua vez, é nesta parte que nos cruzamos primeiramente, de forma ainda algo incipiente, com Rosa Almafitano, uma das personagens centrais da terceira parte – A Parte de Fate −, por quem o jornalista afro-americano Oscar Fate se apaixona. Na terceira parte somos introduzidos de forma mais clara num tema que percorre todo o romance, os estranhos assassínios de mais de 200 mulheres em Santa Teresa, tema esse que estará em evidência na quarta parte – A Parte dos Crimes. Nesta parte conheceremos Klaus Haas, o principal suspeito no caso dos assassínios, um alemão com ligações ao escritor Benno von Archimboldi que estará em evidência na última parte de 2666A Parte da Archimboldi.

A construção circular de 2666 lembra-nos um tornado, um fenómeno que arrastará durante 1025 páginas todo um historial humano cujo retrato final é impiedoso e obriga-nos a recolocar a questão da natureza humana: quem somos nós, neste início de um novo milénio, entre os destroços de um edifício arruinado pela nossa própria incúria? Bolaño mostra-se implacável quando narra a violência que nos persegue desde sempre, dos sacrifícios astecas à Segunda Guerra Mundial, das perseguições a intelectuais na ex-URSS aos crimes insolúveis de Santa Teresa, das lutas travadas pelos afro-americanos aos crimes e ao racismo exibidos sem critério e impunemente nos media actuais, da bisbilhotice e da intriga entre intelectuais ao jornalismo sensacionalista, da promiscuidade entre poderes e criminosos à prostituição de altas e baixas esferas, dos snuff movies à… Enfim, um retrato violentíssimo do mundo que chega a ser fastidioso n’A Parte dos Crimes, com a descrição de dezenas de assassínios de mulheres, quando não hilariante nos detalhes cruéis que impelem o leitor para um abismo de desolação, desamparo, desencanto, desesperança que, ao fim e ao cabo, é o abismo da loucura.

Em todas as partes que compõem 2666 vislumbramos esse abismo da loucura motivado pela violência, por vezes de forma muito subliminar nos sonhos/pesadelos que as diversas personagens vão revelando, outras vezes, de um modo muito claro, na presença frequente da figura do manicómio. Temos Edwin Johns, o pintor que impulsionou o novo decadentismo ao pintar o auto-retrato mais radical dos últimos anos, depois de ter cortado uma das suas mãos e de a ter colado numa tela; temos o poeta homossexual que vive no manicómio de Mondragón, a fazer-nos lembrar Leopoldo María Panero; temos a Drª Elvira Campos, directora de um manicómio, e o seu inventário de fobias, ao mesmo tempo que temos a vidente Florita Almada e o seu inventário de artes divinatórias; temos todo um rol de situações que nos permitem olhar para 2666 como um espelho do mal, um deserto com muitos corpos enterrados, um cemitério onde há muito vem sendo sepultada a natureza humana, porque «a loucura é contagiosa» (p. 211), «as pessoas vêem o que querem ver e o que as pessoas querem ver nunca corresponde à realidade» (p. 258). «Os gregos inventaram, por assim dizer, o mal, viram o mal que todos tínhamos dentro de nós, mas os testemunhos ou as provas desse mal já não nos comovem, parecem-nos fúteis, ininteligíveis» (p. 310). Talvez a intenção de 2666 seja voltar a comover-nos. Talvez.


Escrito para o Rascunho.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

RECUSA


Gosto muito mais
De olhar as estrelas
Que de assinar uma sentença de morte.
Gosto muito mais
De escutar a voz das flores
Que murmuram: 'é ele!',
Quando passo pelo jardim,
Que ver as armas
Que mataram aqueles
Que me querem matar.
É por isso que eu nunca,
Nunca,
Serei governo!



Velemir Khlebnikov (9 de Novembro de 1885 [28 de Outubro no calendáro juliano] – 28 de Junho de 1922), in Antologia da Poesia Soviética, trad. Manuel de Seabra, Editorial Futura, Dezembro de 1973, p. 58. His life was full of resettlements; he had no home, no employment, and no money. Yet, wherever he lived, the poet was possessed by creative work, thinking and research. A scholar and fantast, a poet and essayist, he was fully immersed into creativity.

DESCUBRA AS DIFERENÇAS


Sylvia Plath e Assia Gutmann Wevill.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

ESTIGMAS


O facto de não acreditar no destino não me impede de acreditar nos estigmas. Há pessoas que parecem nascer estigmatizadas por uma dor que as acompanhará até à morte. Sylvia Plath parece ter sido uma dessas pessoas, apesar das fotografias a mostrarem, geralmente, com um fresco sorriso no rosto. Mas o olhar não engana. Olhar para aqueles olhos, mesmo quando o rosto parece sorrir, é como olhar para o mais vulnerável dos corpos. Sylvia nasceu a 27 de Outubro de 1932, em Boston, filha de Otto Plath, professor de Biologia especializado em insectos, e de Aurelia Plath. Apesar de ter perdido o pai com apenas 8 anos, Sylvia sempre se mostrou muito marcada pela sua alegada personalidade autoritária. A mãe aparenta ter sido uma mulher dedicada, que a apoiou, por vezes em condições de extrema dificuldade. No entanto, Sylvia Plath dedica-lhe algumas manifestações de ódio no seu diário. Certo é que foi uma aluna brilhante, ganhando concursos, uma bolsa, publicando trabalhos literários, tais como o conto Sunday at the Minton’s, publicado em 1952 na revista Mademoiselle. No ano seguinte, a poeta sofre um esgotamento e tenta suicidar-se. Sylvia mostrava-se angustiada com o papel limitado que as mulheres assumiam na sociedade. Vale a pena lembrar parte do prefácio que Ana Gabriela Macedo dedicou a Três Mulheres (Relógio d’Água, 2004): «Em termos da poética de Plath, é uma constante esta tensão entre o mundo privado e o social, a energia e a paralisia, a palavra e o vazio. De facto, vários dos seus poemas mais angustiantes se iniciam no intimismo do ambiente doméstico e pacífico da cozinha, da casa ou do quarto das crianças (…), para depois explodirem violentamente para o mundo exterior». Os anos de 1954 e 1955 serão marcados pelo regresso ao Smith College, pela colaboração com várias revistas, uma tese sobre Dostoievski, publicações universitárias e uma bolsa Fulbright que a levará até ao Newnham College, Cambridge (Inglaterra). Em 1956, conhece Ted Hughes numa festa de estudantes e começa a mais trágica das suas relações. Casam nesse mesmo ano, viajam por Paris e Espanha, partindo posteriormente para os EUA. A relação entre Plath e Hughes mostrou-se conflituosa desde o início, sobretudo devido à desconfiança (fundamentada) que Plath mantinha relativamente à fidelidade de Hughes. O Prémio Bess Hokin atribuído pela revista Poetry encoraja Plath a abandonar o ensino e a dedicar-se à literatura. Estuda poesia com Robert Lowell. Em 1959, o casal regressa a Inglaterra. Frieda Rebecca, a filha, nasce em 1960, no mesmo ano em que Sylvia Plath publica o seu primeiro livro: The Colossus and other Poems. Publicará apenas mais um livro em vida, The Bell Jar, saído em 1963 sob o pseudónimo de Victoria Lucas. Até lá, nasce Nicholas Farrar, o segundo filho, Ted Hughes abandona-a para ir viver com a belíssima Assia Gutmann Wevill, mulher do poeta canadiano David Wevill. A separação desencadei um processo irreversível de auto-destruição. Plath destrói grande parte do seu trabalho, queixa-se à mãe de que Ted não a ajuda no sustento dos filhos, o que não era inteiramente verdade, até que, no dia 11 de Fevereiro de 1963, fecha-se na cozinha, abre o gás do fogão e suicida-se. Curiosamente, Assia Gutmann Wevill acabou por se suicidar do mesmo modo, mas depois de ter assassinado a única filha do casal: Alexandra Tatiana Elise, de 4 anos. Ted Hughes dedicou parte da sua vida a cuidar da obra deixada por Sylvia Plath, isto apesar das acusações que sempre o apontaram como o grande responsável pelo suicídio da autora de Ariel. Ted Hughes morreu em 1998, vítima de um enfarte. Nicholas, o segundo filho do casal, tornou-se biólogo como o avô. Enforcou-se, no passado dia 16 de Março, na sua casa do Alaska. Tinha 47 anos. Frieda Rebecca Hughes é pintora, poeta e autora de livros infantis.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

ASSEMBLY

Fiz uma pausa na leitura de 2666 - a penúltima parte é um fastio de crimes - para ver um filme de guerra. A verdade é que ao pé do romance de Bolaño o filme do chinês Feng Xiao Gang (nome tramado) caiu-me como uma história de embalar. Não admira, portanto, que tenha adormecido a meio, que tenha sonhado coisas maravilhosas com a Renée Zellweger, que tenha acordado ao som de balas e das falas de 2666: a vida é uma merda, a loucura é contagiosa, a vida não vale nada, a vida é uma tristeza, a vida acaba sempre em dor e sofrimento, as pessoas só vêem o que querem ver. Pelos vistos, eu não quis ver o filme chinês. Ainda assim, quando acordei, fui lavar o rosto, olhei-me ao espelho e constatei que tenho de cortar urgentemente o cabelo. Regressei ao filme neste estado pacificador de quem encontra num objectivo frívolo a substância da existência. A vida pode ser uma merda, mas de vez em quando convém arranjar o cabelo. De modo que, regresso ao filme. Quem foi o realizador que disse que um bom filme é aquele que nos adormece? Não me recordo, mas era capaz de ter razão. Também era capaz de não ter. Nunca saberemos se não voltarmos a ver o filme que nos adormeceu. E se ele voltar a adormecer-nos algo não estará bem, ou nós ou o filme. Digo eu. Não foi o caso. Na caixinha do DVD comparava-se A Honra dos Heróis ao Resgate do Soldado Ryan, o que não parecendo mau também não é necessariamente animador. Vi muita guerra no início, muitas balas, muitos corpos decepados, muito sangue, muita gritaria, muitos efeitos especiais, alguns conflitos hierárquicos, um batalhão todo a ser dizimado. No final, vi o que restou do batalhão, um capitão a revoltar-se num interrogatório porque ninguém queria reconhecer a honradez com que os seus homens se haviam batido em campo de batalha. Até aqui, o costume. A partir daqui, o costume. Lá se descobre que o capitão tinha as suas razões, que o batalhão tinha dado o peito às balas, lá aparecem, no final, as medalhas, o reconhecimento, as patranhas militares que sempre levaram alguns néscios a acreditar na existências de causas pelas quais vale a pena morrer. E subitamente volto a 2666 e ao especialista forense Emilio Garibay, um ateu com uma “biblioteca mais do que decente” mas sem tempo para leituras: «Às vezes pensava que já não lia precisamente por ser ateu. Digamos que a não leitura era o degrau mais alto do ateísmo ou pelo menos do ateísmo tal como ele o conhecia. Se não acreditas em Deus, como acreditar na porcaria de um livro?, pensava». Ora aí está um homem cujo juízo não inspira qualquer desconfiança.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

DEFINIÇÃO DE OUTONO

Uma fatia de pão caseiro, barrada com marmelada e queijo de ovelha amanteigado.

DO INVEROSÍMIL




Todos os filmes de Danny Boyle que vi, de Shallow Grave a Trainspotting, passando por The Beach e 28 Days Later, oferecem relações de amizade em zona de risco, que é como quem diz à beira da ruptura. Por esta ou por aquela razão, são filmes onde alguns elos se quebram para que outros possam ser consolidados. A amizade é mais ou menos isso, um jogo de probabilidades onde as cartas da inveja, do ciúme, da ambição e do pretensiosismo acabam quase sempre por trair o fraco trunfo da cumplicidade. Slumdog Millionaire não é excepção, se bem que aqui os tiros de sorte, também presentes nos outros filmes, assumam uma inverosimilhança que converte a partida de poker numa comédia romântica. No fundo, o jogo acaba por ser o mesmo de sempre: quem quer ser milionário? A sobrevivência e o amor também podem ser o grande prémio em jogo, mas por cima deles o dinheiro, e seus associados, dão um certo jeito. Fico a pensar: e se o filme tivesse acabado quando Latika diz que não sabe a resposta à pergunta final, a pergunta dos milhões, a pergunta do comboio em movimento, da vita nuova?

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

ESPERANÇA



Changeling recria um caso ocorrido em Los Angeles, no ano de 1928. Uma mãe perde o filho, a polícia encontra-lhe um puto que corresponde à descrição, mas ela sabe que aquele não é o seu filho. No entanto, vai parar a um manicómio por colocar em causa os peritos da polícia. Por um mero acaso, descobre-se que ela tinha razão, que não estava doida, que a polícia tinha cometido um erro ao entregar-lhe uma criança que não era o seu filho. A prova dará azo a um processo que culminará com o afastamento dos principais responsáveis da LAPD e a condenação à morte de um serial killer que raptava e assassinava criancinhas. No final, fica em aberto a possibilidade da criança desaparecida não ter sido assassinada pelo raptor. A história pouco interessa para o que está em causa. A esperança daquela mãe já não é vir a reencontrar o filho. É antes saber o que aconteceu, saber a verdade. A esperança de que um dia possamos vir a saber a verdade é a única que importa alimentar, mesmo que a verdade seja dolorosa, mesmo que a verdade seja o fel que conspurca a doçura das ilusões.

ELOGIO DO CINISMO (3)

Quando Whitehead disse em tom jocoso, durante uma conferência em Gifford, que a tradição filosófica na Europa consistia unicamente numa sucessão de notas de rodapé acrescentadas ao texto de Platão, ele não estava muito longe da verdade... Na verdade, tudo o que existe fora desta relação com o filósofo grego encontra-se esquecido, negligenciado, maltratado e crucificado. Quando não se traduz, quando não se trabalha numa edição do texto, quando se deixa o corpus disperso no estaleiro da literatura antiga, evitam-se os trabalhos universitários, as teses, as publicações, os artigos; proíbe-se, por conseguinte, o ensino e a difusão dessas ideias que, ainda assim, são consideráveis.
Com base no princípio crístico, redige-se uma história da filosofia destinada a celebrar a religião da ideia e do idealismo. Sócrates como messias imolado por incarnar a revelação filosófica inteligível, Platão como apóstolo, mesmo como um São Paulo da causa inteligível: a filosofia idealista, essa é a religião revelada da Razão ocidental. Neste sentido, estabelece-se a contagem a partir de Sócrates: antes dele, depois dele, pré-socrático, pós-socrático. A historiografia chega mesmo a manter as expressões socrático menor ou pequeno socrático para caracterizar Antístenes ─ um cínico ─ e Aristipo ─ um cirenaico ─, dois criadores de uma sensibilidade autónoma, ou outros socráticos, de acordo com a expressão, em particular Símias e Cebes, dois... pitagóricos!
A história leva a cabo um grande número de variações em torno deste tema da dominação idealista na historiografia clássica. Assim, o cristianismo, transformado em religião e em filosofia oficial, repele aquilo que incomoda a sua linhagem ─ o materialismo abderiano, o atomismo de Leucipo e de Demócrito, Epicuro e os epicuristas gregos e romanos tardios, o nominalismo cínico, o hedonismo cirenaico, o perspectivismo e o relativismo sofista ─, privilegiando o que pode fazer-se passar por propedêutico à nova religião: o dualismo, a alma imaterial, a reincarnação, a desconsideração do corpo, o ódio à vida, a predilecção pelo ideal ascético, pela salvação ou pela condenação
post mortem dos pitagóricos e dos platónicos. Tudo isto convém-lhe maravilhosamente.
(…)
Neste sentido, a historiografia esqueceu e, na melhor das hipóteses, negligenciou; deixou em silêncio, conscientemente ou não; por vezes, organizou este afastamento; de tempos a tempos, com a ajuda do preconceito, desaparece o questionamento; não se tornou habitual considerar os cínicos como filósofos; aliás, Hegel escreveu-o de uma forma clara: sobre eles não existem mais do que anedotas… Os sofistas? Até às recentes reabilitações, foram encarados sempre do ponto de vista de Platão: mercenários da filosofia para os quais a verdade não existe e a única coisa que conta é aquilo que tem resultados! Tudo contribui para evitar a confirmação da modernidade deste pensamento do relativismo, do perspectivismo, do nominalismo, em suma, do anti-platonismo!
Os agentes da historiografia tradicional transformam em realidade o incrível sonho de Platão: os factos estão presentes em Diógenes Laércio ─
Vidas, Opiniões e Sentenças dos Filósofos Ilustres (IX, 40) ─ e parece-me extraordinário que esta história nunca seja tratada filosoficamente. Platão desejava ter, com efeito, uma grande fornalha na qual lhe fosse possível lançar todos os livros de Demócrito! O considerável número de obras, o seu sucesso, a presença dos seus textos em muitos lugares, levaram dois pitagóricos ─ Amiclas e Clínias ─ a dissuadir Platão de cometer um tal delito. Um filósofo inventor do auto-de-fé moderno...
Compreende-se, portanto, que o nome de Demócrito não seja citado uma única vez na totalidade das obras de Platão! Este esquecimento tem o valor de auto-de-fé conceptual: pois a importância da obra, e sobretudo da doutrina, mais capaz de pôr em dificuldades, até mesmo em perigo, as fabulações de Platão, exigia uma explicação clara e franca, honesta, intelectual. A parcialidade anti-materialista do platonismo manifestava-se já durante a vida do filósofo: a lógica da historiografia clássica e dominante repete este tropismo. Nem pensar em atribuir uma qualquer dignidade a esta outra filosofia, razoável, racional, anti-mitológica e verificável pelo simples bom senso, aquilo de que os filósofos tantas vezes carecem...
A sucessão parecia estar escrita: Epicuro e os epicuristas, ao restaurarem o materialismo do homem de Abdera, desencadeiam os ataques de contenção por parte dos adeptos do idealismo. O que não falta são calúnias contra o filósofo do Jardim, mesmo durante a sua vida: grosseiro, luxurioso, preguiçoso, voraz, bebedor, glutão, desonesto, extravagante, malévolo, maldoso, ladrão das ideias alheias, arrogante, pretensioso, emproado, presunçoso, inculto, etc. Em suma: imundo indigno de figurar, tanto ele como os seus discípulos, no Panteão dos filósofos.
A calúnia persiste quanto à sua obra. A ataraxia que define o prazer, a saber: a ausência de perturbação alcançada por um prudente e comedido uso dos desejos naturais e necessários, torna-se volúpia trivial de um animal entregue ao seu deleite mais brutal. O atomismo que reduz o mundo a uma combinação de átomos no vazio é visto como incapacidade para dispor de uma inteligência digna deste nome. O acolhimento dos escravos, das mulheres e dos estrangeiros no Jardim vale-lhe a reputação de chamar até si as vítimas que possam satisfazer a sua sexualidade desenfreada, etc. E vinte séculos de pensamento servem-se destas calúnias, sem mudar uma vírgula.
Só na Antiguidade, a contra-história da filosofia parece ser fácil: ela reúne todos os inimigos de Platão! Ou quase todos... Leucipo, o fundador do atomismo, logo também Demócrito, depois Antístenes, Diógenes e outros cínicos, Protágoras, Antípon e o grupo de sofistas, Aristipo de Cirene e os cirenaicos, Epicuro e os seus... a elite intelectual. Mais tarde, em contraponto à ficção cristã construída a partir do personagem conceptual chamado Jesus, aos Pais da Igreja ─ preocupados em fornecer o material ideológico ao futuro cristão do Império ─ e aos escolásticos medievais, torna-se possível sair da sombra na qual se deixa apodrecer os gnósticos licenciosos ─ Carpocrates, Epifânio, Simão, Valentino... ─, seguidos pelos Irmãos e Irmãs do Espírito Livre ─ Bentivenga de Gubbio, Heilwige Bloemardine, os irmãos De Brünn e outros desequilibrados... Tantos obscuros desconhecidos, ainda assim bem mais excitantes, com o seu panteísmo teórico e as suas orgias filosóficas práticas, do que os monges do deserto, os bispos contritos e demais cenobitas de mosteiro. ..
As mesmas observações servem para a constelação do epicurismo cristão, inaugurado por Lorenzo ValIa no
Quattrocento ─ um De voluptate que nunca foi traduzido para Francês ao longo de quatro séculos, até à emenda levada a cabo por alguns amigos, alertados pela minha chamada de atenção... ─, ilustrada por Pierre Gassendi, passando por Erasmo, Montaigne e outros; pelos libertinos barrocos franceses ─ Pierre Charron, La Mothe Le Vayer, Saint-Evremond, Cyrano de Bergerac... ─; pelos materialistas franceses ─ o abade Meslier, La Mettrie, Helvétius, d'Holbach... ─; pelos utilitaristas anglo-saxónicos ─ Bentham, Stuart Mill ─; pelos Ideólogos que se debruçaram sobre a fisiologia ─ Cabanis ─; pelos transcendentalistas epicuristas ─ Emerson, Thoreau ─; pelos genealogistas desconstrutores ─ Paul Rée, Lou Salomé, Jean-Marie Guyau; pelos socialistas libertários, pelos nietzscheanos de esquerda ─ Deleuze, Foucault ─, e tantos outros discípulos da volúpia, da matéria, da carne, do corpo, da vida, da felicidade, da alegria e demais instâncias culpáveis!
Que se censura a esse mundo? Querer a felicidade na terra, aqui e agora, não depois, hipoteticamente, nouro mundo alcançável, concebido como uma fábula para crianças… A imanência: eis a inimiga, o palavrão! Os epicuristas devem a sua alcunha de imundos ao facto de serem determinados pela sua compleição fisiológica: a sua existência gera a sua essência. Ao não poderem agir de outra forma senão como
amigos da terra ─ segundo a feliz expressão do Timeu de Platão ─, esses materialistas condenam-se a escavar com o focinho, sem sequer saberem da existência de um Céu cheio de Ideias, por cima das suas cabeças. O porco ignora para sempre a verdade, pois só a transcendência leva até ela, e os epicuristas estagnam, ontologicamente, na mais total imanência. Ora, não existe mais que isso: o real, a matéria, a vida, o vivente. E o platonismo declara guerra contra tudo isto, procurando punir tudo o que celebre a pulsão de vida.
O ponto comum subjacente a esta constelação de pensadores e de pensamentos irredutíveis é uma formidável preocupação por desconstruir os mitos e as fábulas para tornar este mundo habitável e desejável. Reduzir os deuses e os temores, os medos e as angústias existenciais a encadeamentos de causalidades materiais; mitigar a ideia da morte com uma terapia activa, aqui e agora, sem convidar a morrer durante o período da vida de cada um para melhor partir quando chegue o momento; construir soluções com o mundo e com os homens realmente existentes; preferir modestas proposições filosóficas que sejam viáveis, em detrimento de construções conceptuais sublimes mas inabitáveis; recusar que se faça da dor e do sofrimento vias de acesso ao conhecimento e à redenção pessoal; procurar o prazer, a felicidade, a utilidade comum, o contrato que provoca regozijo; conciliar-se com o corpo, não propor-se detestá-lo; dominar paixões e pulsões, desejos e emoções, não extirpá-los brutalmente de nós mesmos. A aspiração ao projecto de Epicuro? O puro prazer de existir... Um projecto sempre actual.



Michel Onfray, in A Potência de Existir, trad. José Luis Pérez, Campo da Comunicação, Fevereiro de 2009, pp. 53-59.

domingo, 18 de outubro de 2009

ELOGIO DO CINISMO (2)




Alguns historiadores tendem a situar o surgimento da putativa escola cínica entre o processo e a morte de Sócrates, ocorridos em 399 a. C., e a morte de Antístenes (Atenas, 455-360 a. C. ou 444-365 a. C.), um dos chamados socráticos menores que havia fundado o ginásio de Cinosargos (Kynosarges), situado nos arredores de Atenas. De facto, Antístenes é geralmente referido como o filósofo iniciador de uma atitude filosófica dita cínica: ideal da autarquia (capacidade de bastar-se a si mesmo), combate às ilusões sociais, oposição às leis da cidade, renúncia à fama, um esforço permanente no domínio dos prazeres e das dores, ou seja, um certo despojamento de inspiração oriental, negação dos universais, das definições e da Ideia platónica. Hoje em dia, o cinismo é confundido com hipocrisia, com a contradição entre o dizer e o fazer, confusão essa que se deve tanto a uma intencional deturpação da mensagem cínica como à ignorância que transforma historicamente os conceitos mais pertinentes em meras palavras circunstanciais (o adjectivo cínico também costuma ser usado com os sentidos de impudente, desavergonhado, irónico). Na voz corrente, chamar cínico a alguém pode ter o mesmo sentido que dizer-se surrealista um qualquer gesto estrambólico. Ora, tivesse a boca respeito pelas palavras que profere, nem o surrealismo seria reduzido ao gesto estrambólico, nem o cinismo seria capturado pelo ardil da hipocrisia. Cinosargos é etimologicamente traduzível por cão ágil, daí que os adeptos da escola de Antístenes tenham ficado conhecidos como cínicos, ou seja, cães. Entre eles, o mais importante de todos foi Diógenes de Sínope (Sínope, ?-324 a. C.) − Diógenes, o cão −, o qual radicalizou os ensinamentos de Antístenes sobre a felicidade. Se o mestre aparece ainda arreigado à noção socrática de uma felicidade dependente do conhecimento e, por consequência, da prática virtuosa, embora recusando já toda e qualquer abstracção de tipo platónico quanto a uma hipotética universalidade dos conceitos, Diógenes liga o problema da felicidade à questão do prazer, sustentando que a felicidade só se obtém «pela satisfação dos desejos naturais, satisfação essa que se deve levar a cabo da maneira menos dispendiosa». Tanto num como no outro, estamos perante um esforço tremendo de chamar a filosofia à acção, resistindo aos remédios ideológicos que vieram a transformar a filosofia num terreno pantanoso de abstracções castradoras do humano. Daí que a questão fundamental, em Diógenes, não seja tanto o que é o homem, mas sim onde está o homem. Por isso mesmo ele percorria os caminhos de Atenas com uma lanterna acesa em pleno dia, buscando o homem que vivesse de um modo autêntico. O chamado cinismo começa por ser o contrário daquilo em que os seus detractores o transformaram, ele era uma busca irónica da autenticidade e não um logro hipócrita e contraditório. De resto, o elogio de um modo de vida deambulatório não foi senão o exemplo mais radical de que a vida feliz está em sabermos usar o que temos à mão, e não em transformarmo-nos progressivamente em escravos de um progresso que apenas serve os interesses dos poderosos, daqueles que organizam a cidade em função de leis cujo principal objectivo é o domínio sobre os outros e um controlo absoluto das pulsões naturais. Em consequência, afirma-se a inutilidade das ciências e o absurdo das construções metafísicas, substitui-se «a mediação conceitual pelo comportamento, o exemplo e a acção» (Giovanni Reale, Dario Antiseri), reivindica-se uma vida sem metas impostas pela sociedade, uma vida livre, rejeita-se o casamento, proclama-se a cidadania universal, desprezam-se os prazeres, não num sentido de abdicação do prazer ou rejeição absoluta do prazer, mas antes no sentido de afirmar a autonomia do homem perante os seus próprios prazeres. Eis uma anedota que exprime bem as intenções de Diógenes: o poderoso Alexandre chega-se ao pé do filósofo e diz-lhe que ele peça o que quiser, ao que o filósofo simplesmente responde: afasta-te do meu sol. À sombra dos homens poderosos, o filósofo prefere a luminosa liberdade solar, um modo de viver que seria impossível sem os seus excessos, sem as suas inconveniências, os quais foram sendo determinados pelas enviesadas leituras históricas das inúmeras anedotas que ficaram para a posteridade: Diógenes masturbava-se à luz do dia; durante um banquete, atiraram-lhe ossos como a um cão, mas ele, que se vangloriava do epíteto cão (cínico), andou sobre os ossos, alçou a perna e mijou caninamente; certo dia, pediu a alguém que lhe encontrasse uma casa, mas confrontado com a demora escolheu como habitação um barril que encontrou na rua… Foram estes os testemunhos que fizeram dos cínicos «os precursores de todos os movimentos que se opõem à ordem social estabelecida» (M. H. Rocha Pereira). Deixar apodrecer este legado na prateleira das obscuridades que os bem pensantes foram arrumando ao longo da história é um crime de lesa-contracultura.

sábado, 17 de outubro de 2009

O ARTISTA É O CRIADOR DE COISAS BELAS


Ficou por dizer que Oscar Wilde nasceu em Dublin, a 16 de Outubro, filho de Sir William Wilde, especialista em doenças dos olhos e dos ouvidos, e de Lady Jane Francesca, poetisa e jornalista empenhada na defesa dos direitos das mulheres que escrevia sob o pseudónimo de Speranza. Oscar teve dois irmãos, Willie, mais velho, e Isola, que morreu muito novinha. Lady Wilde, desgostosa, passou a vestir Oscar com roupas de menina, hábito que o poeta nunca mais largou. Estudou na Portora Royal School, em Enniskillen, e na Universidade de Trinity College, em Dublin, onse se distinguia dos demais pela inteligência e... pelas roupas. Em 1874, ingressa no Magdalen College, em Oxford, chocando os professores com atitudes irreverentes no que respeitava a matérias religiosa e estética. Viaja por Itália e Grécia, termina o curso com distinção, vê um poema seu, Ravenna, ser premiado, muda-se para Londres. A sua filiação esteticista está perfeitamente de acordo com os primeiros trabalhos enquanto crítico de arte. Faz circular uma primeira peça de teatro, Vera; or the Nihilists, em edição de autor, publica Poems, em Dezembro de 1881, e parte para os EUA para uma série de conferências, estendidas posteriormente a Paris. Casa com Constance Lloyd no ano de 1884, de quem terá dois filhos: Cyril (1885) e Vyvyan (1886). No entanto, os seus amores eram outros. Foi amante de Robert Ross e, mais tarde, de Lord Alfred Douglas. Sobrevive como editor da revista Woman’s World, publica o livro de contos The Happy Prince and Other Tales. 1890 é o ano em que começa a publicar The Picture of Dorian Gray: «Toda a arte é completamente inútil». Publica colectâneas de contos, ensaios, vê peças suas serem produzidas, até que se separa de Constance Lloyd. O caso “Bosie” ─ epíteto de Lord Alfred Douglas ─ tem início. Circulam rumores sobre a relação mantida entre Wilde e Bosie. Viagens a Florença e Argélia, trabalhos conjuntos, fazem explodir a ira do Marquês de Queensberry, pais de Bosie, o qual havia feito circular um cartão insultando Oscar Wilde de sodomita. Lord Alfred Douglas convence Wilde a processar o Marquês por difamação, gesto imprudente que veio a revelar-se a ruína do autor de Salomé. Em 1895, Wilde é preso, julgado e condenado a pena máxima por indecência, acusado de homossexualidade, o que, à época, era ilegal na Grã-bretanha. Cumpre o primeiro ano de prisão em Newgate, sendo depois transferido para Pentonville, Wandsworth e, finalmente, para o Cárcere de Reading. Após 19 meses de absoluta privação, é-lhe permitido escrever. Compõe De Profundis, uma carta dirigida ao amante que veio a tornar-se num marco da obra de Wilde. Lord Alfred Douglas Wilde morre em 1896. No ano seguinte, Wilde é libertado e abandona a Inglaterra para sempre. Viveu em França, Itália, Suíça, usando, muitas vezes, o nome de Sebastian Melmoth. Reencontra Bosie em Nápoles, com quem malogradamente procura reiniciar uma vida em comum. Constance Lloyd morre em 1898. Dois anos depois, «num quarto austero do Hôtel d’Alsace, em Paris (socorrendo-se da episódica tença de Cecil Rhodes com que pagava os serviços dos gigolôs da Rue dês Beaux-Arts)»*, Oscar Wilde morre, vítima de meningite, a 30 de Novembro:

A MINHA VOZ

Neste veloz mundo moderno, inquieto,
Tivemos tudo o que quisemos ─ eu e tu
E o nosso barco tem agora mastros nus,
E provisões já não nos restam.

E, de chorar, minha alegria me abandona,
A minha face empalidece prematura,
A minha boca rubra é curva de amargura,
E a Ruína é o dossel da minha cama.

Mas para ti toda esta vida tão repleta
Foi lira só, ou alaúde, ou leve encanto
De violas, ou como quando canta o mar
Que dorme numa concha, e o eco se repete.


*Eduardo Pitta, in Metal Fundente, Quasi, Maio de 2004.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

FUGITIVUS ERRANS


Numa carta a Georg Brandes, professor dinamarquês que leccionou um ciclo de conferências dedicado à filosofia de Nietzsche, descreve o próprio filósofo a sua herança: «Nasci a 15 de Outubro de 1844, no campo de batalha de Lützen. O primeiro nome que ouvi foi o de Gustaz Adolf. Os meus antepassados eram nobres polacos (Niëzky), parece que o tipo se conservou bem, apesar de três “mães” alemãs. No estrangeiro sou em geral considerado polaco; ainda este Inverno a relação de estrangeiros de Nice referenciava-me como polaco. Dizem-me que a minha cabeça aparece em quadros de Matejko (pintor polaco). A minha avó pertencia ao círculo Schiller-Goethe de Weimar; o seu irmão foi discípulo de Herder no lugar de superintendente-geral de Weimar. Tive a felicidade de ser aluno da distinta Schulpforta, da qual tantos notáveis saíram, na literatura alemã (Klopstock, Fichte, Schlegel, Ranke, etc., etc.)…» Filho de um pastor protestante, que morreu quando Friedrich Wilhelm tinha apenas 6 anos, teve como companhias familiares mais directas a mãe Franziska e uma irmã dois anos mais nova, Elisabete, a quem devemos uma distorcida edição da primeira integral das suas obras. Passa seis anos em Pforta, onde se familiariza com a cultura grega clássica, lê os modernos e escreve alguns ensaios. Estuda Teologia e Filologia em Bona e Leipzig, onde profere a sua primeira conferência. Interessa-se pelo pensamento de Demócrito. Em Outubro de 1867, oferece-se como voluntário no conflito franco-prussiano, mas cinco meses depois a sua carreira militar é interrompida na sequência de uma queda de cavalo. Conhece Wagner no ano seguinte. A casa de Wagner e de Cosima em Triebschen será praticamente o seu lar durante os próximos três anos. A 12 de Fevereiro de 1869 é chamado para a Universidade de Basileia, onde terá sido um professor empenhado, apesar da vida isolada e das péssimas relações com o professorado local. Em Abril de 1870 é nomeado professor catedrático, incorporando-se posteriormente no exército prussiano numa divisão de apoio a feridos. A experiência militar volta a sair gorada, pois o filósofo adoece com difteria. O seu estado de saúde vai piorando de ano para ano, sofre de insónias, dores de cabeça e de estômago, a vista deteriora-se. Compõe várias peças musicais e, em Janeiro de 1872, publica O Nascimento da Tragédia. Wagner vê na obra uma fundamentação filosófica da sua música, Nietzsche continua a compor peças que lhe merecem avaliações negativas, recusa o convite de uma outra Universidade e vê o seu salário ser aumentado. Conhece Malwida von Meysenbug, uma amiga íntima do casal Wagner, com quem trocará intensa correspondência. Férias pela Suíça e Norte de Itália. Queixa-se de que não tem alunos a assistir às suas aulas, apercebe-se do seu falhanço como professor, das intrigas que circulavam contra si. Com a saúde a piorar, Wagner aconselha o amigo a casar-se com uma mulher rica ou a compor uma ópera, mas Nietzsche manifesta uma opinião profundamente crítica quanto à possibilidade do casamento: «odeio de tal modo a restrição e inserção em toda a ordem “civilizada” das coisas que dificilmente qualquer mulher será suficientemente aberta para mim». Berta Rohr não o faz mudar de ideias, mas alimenta os primeiros ciúmes da irmã, a qual preferia o casamento com Natalie Herz. É por esta altura que estabelece amizade com Paul Rée, autor das Psychologischen Beobachtungen. A relação entre os dois revelar-se-á determinante, mais ainda após a edição do seu segundo livro: Humano, Demasiado Humano. O livro é rejeitado nos ciclos wagnerianos, o casal Wagner denota bastante animosidade por este trabalho que Von Seydlitz classifica de demasiado rée…al, aludindo à influência de Paul Rée. Nietzsche abandona a casa onde vivia com a irmã, em Basileia, e muda-se para os arredores da cidade. Elisabete regressa a Naumburg. É o início da separação familiar, dos cortes com amizades antigas, um recomeço que se faz acompanhar de uma saúde cada vez mais débil e de tratamentos em estâncias termais. A 2 de Maio de 1879, fundamentando-se nas enxaquecas frequentes e nos problemas com os olhos, pede a rescisão do contrato que tinha com a Universidade de Basileia. Começa o nomadismo de Nietzsche, numa constante mudança de residência, particularmente por Suíça e Itália. Relações sempre difíceis com os editores, querelas, intrigas, leituras, uma vida cada vez mais isolada, passada em pensões e quartos alugados, marcam este período. Esquece-se dos seus próprios anos em 1880. Passará apenas alguns dias felizes na companhia de Rée e de uma jovem russa que conhece em Roma, na residência de Malwida von Meysenbug. Trata-se de Lou Salomé, um espírito livre «que durante algum tempo será um dos vértices de um triângulo amoroso, com Nietzsche e Rée». São muitas as cartas trocadas entre Nietzsche e Lou, passam algumas semanas juntos em Tautenburg, o fascínio do filósofo é imenso, mas, mais uma vez, a irmã resolve intrometer-se, tornando-se inimiga de Lou, conspirando contra o relacionamento mantido entre os dois. «Sucedem-se cartas a Lou e a Rée de distanciamento e amargura. Referências ao suicídio e ao ópio». Em 1883, depois de ter publicado A Gaia Ciência, começa a escrever Assim Falava Zaratustra. Corte definitivo com Rée e sentimentos de desprezo relativamente à mãe e à irmã, lamentações dirigidas aos falsos amigos, dificuldades de edição, desprezo contra a propaganda antijudaica que então ocupava o seu editor, contínuas queixas do estado de saúde, contrastam com a megalomania manifestada nos últimos escritos. «Quando Nietzsche acabou a quarta parte do Zaratustra, escreveu ao austero cunhado, dizendo que Gast o teria alojado em casa de uma prostituta! Quanto ao alojamento, Nietzsche teria escolhido um quarto no sítio mais barulhento da cidade (Rialto), mas o bom aspecto da hospedeira (um ar asseado) foi determinante. Alguns dias mais tarde, chega ao pé de Gast e diz-lhe: “Acho que me hospedei em casa de uma prostituta”. Mas não seria uma forma de festejar o fim do Zaratustra viver em casa de uma verdadeira putana veneziana As dificuldades de publicação persegui-lo-ão até ao termo dos seus dias. Em Leipzig, paga do seu bolso a edição de Para Além do Bem e do Mal. Os últimos tempos são passados a escrever e a compor. A 19 de Setembro de 1887, envia a alguns amigos a obra musical Hymnus na das Leben, com melodia do próprio, partitura de Peter Gast e palavras de Lou Salomé. As estadas em Sils-Maria e os tempos de Turim são reconfortantes, mas nada que o abstraia do desprezo a que a sua obra tinha sido votada. Morre a 25 de Agosto de 1900.

A partir de “Nietzsche – os vinte anos fundamentais a partir das suas cartas”, de António Marques, Círculo de Leitores, Março de 1996.

VIAGEM

Cheguei bem.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

ELOGIO DO CINISMO (1)

O cinismo não foi vítima de um mal entendido, ele foi muito bem entendido, por isso o remeteram para o plano da indecência, porque o cinismo era herético, era o riso, “a paixão mais conveniente à natureza humana”, o cinismo pretendia a felicidade na Terra, longe dos Céus. É preciso reabilitar o cinismo. O cinismo define-se pela redução ao absurdo, desabsolutiza a verdade, desautoriza o mestre, o cinismo ri da tragédia, rasga o cenário para que os ossos da encenação fiquem à mostra, torna visível a hipocrisia dos argumentos, reivindica para a vida o que os disciplinados da razão pretendiam abstrair, transformando em teoria as suas próprias feridas, autoproclamando a capacidade de curar as feridas dos outros. Uma “contra-história da filosofia”(Onfray) deve reabilitar o cinismo, deve ressuscitar os obscuros, retirá-los das catacumbas onde foram arrumados pelos inimigos do corpo, porque não se deve dizer cinismo como quem diz gripe:

Pôr a nu as quimeras, eis o programa dos cínicos. Incluído o que diz respeito ao desejo, ao prazer e às relações sexuadas. Qual é o objectivo de Diógenes, de Crates e de Hiparquia? Acabar com a hipocrisia, a linguagem dupla, a moral moralista, o falso pudor, a dissimulação, a vergonha e outras variações sobre os temas, que se tornaram muito cristãos, da culpabilidade, da falta, do pecado, da recusa do corpo, do desprezo pela sensualidade e da aversão pela sexualidade. Não há nada de condenável num corpo sujeito à necessidade de alimento e de bebida. Então, porque é que, quando está dependente pressão da libido, isso há-de ser um sinal de maldição, um traço de vergonha? A carne, os átomos, a matéria também são vítimas de desejos, de pulsões, de necessidades. A regra é satisfazê-los de uma forma tão desculpabilizada como o fazem os animais na natureza: a cultura pressupõe e propõe, segundo uma lógica ética, a obediência máxima às leis naturais. O materialismo equivale a uma lição cosmogónica na qual o bestiário serve de ensinamento eficaz, rápido e claro.
Os cínicos fazem o culto do sexo pago, das mulheres em trânsito, das histórias passageiras relacionadas com o prazer puro e simples. Antístenes admira-se de ser acusado de ter uma parceira efémera mas que lhe foi, contudo, de grande utilidade. Responde que não se olha com maus modos para o barco para o qual subimos e que, contudo, já serviu a muitos outros para atravessar o Mediterrâneo. A primeira libertina que aparece faz o trabalho que tem a ver com a sua função e com o contrato estabelecido, e pouco importam a sua beleza, a sua inteligência, a sua posição social ou a sua virgindade, todas essas quimeras tirânicas. Até poderia ser feia, estúpida, pobre e prostitua. A única coisa que interessa é a relação contratual, na qual o desejo, que está a ponto de ser sufocado e de transbordar, encontra oportunidade para se libertar numa relação estabelecida de comum acordo. O objectivo é a expansão do indivíduo. Não há nenhuma necessidade de, para tanto, disfarçar essa necessidade com arrulhos, declarações, atitudes ridículas, promessas que não se podem cumprir.
O gesto de Antístenes dá cabo das mitologias sociais que se alimentam de monogamia, de fidelidade, de eleição amorosa, seguidas do cortejo habitual de enganos, hipocrisia e ciumeira. Trata-se de libertar o desejo das amarras gregárias que o justificam exclusivamente em termos de uma sujeição vivida segundo fórmulas conformistas. A dissociação cínica radical afasta o desejo e o prazer do amor e separa claramente estes dois registos. Destruindo o sagrado, o religioso e o espiritual que estão associados ideologicamente à sexualidade, os filósofos de mochila e cajado laicizam o corpo e as relações, fazendo o culto da carne e do contrato, da matéria e da vontade mútua. Quando ouvem falar em amor, os materialistas cínicos sacam da espada ─ e desatam a rir, como qualquer bom discípulo de Demócrito.


Michel Onfray, in Teoria do Corpo Amoroso, trad. Fernando Caetano, Temas e Debates, Setembro de 2001, pp. 63-64. [Post surgido após a visualização da entrevista aqui referida.]

A MELHOR AMIGA DE UM POETA


Gypsy Rose Lee, a stripper, a escrever The G-String Murders (1941),
também publicado com os títulos Lady of Burlesque e The Strip-Tease Murders.

À TERCEIRA FOI DE VÊS


Um esteta, «um poeta sentimental que se oculta através de um dispositivo técnico de sabotagem dessa mesma sentimentalidade» (Jorge Fazenda Lourenço), poeta, pintor, vanguardista, «um inspirado conservador» (Jorge Luis Borges), Edward Estlin Cummings, isto é, e. e. cummings, viu o mundo nascer na cidade de Cambridge a 14 de Outubro de 1894 . O paizinho era professor em Harvard, tendo chegado a ministro da União, o filhinho estudou na Universidade do pai, especializando-se em literaturas gregas. Com John Dos Passos, publica em 1917 a antologia Eight Harvard Poets. Começa a Primeira Grande Guerra e o poeta alista-se na Cruz Vermelha, para andar a conduzir uma ambulância nas ruelas francesas. A experiência sai-lhe grega: acusado de traição, acorda entre grades durante três meses. A passagem pelo campo de concentração de La Ferté-Macé inspira-lhe o livro inicial: The Enormous Room (1922). Ainda antes, casa com Elaine Orr no ano de 1918. O casamento redundará em divórcio nove meses depois, tempo suficiente para gerar uma Nancy que apenas virá a saber da existência do pai em 1948, ou seja, trinta anos depois. Vive entre França e os EUA, dedica-se à pintura, contacta com as vanguardas europeias, conhece Ezra Pound e Hart Crane, publica o primeiro livro de poemas em 1923. Tulips and Chimneys, XLI Poems e & [and] (ambos de 1925), propõem uma “poesia tipográfica” e satírica que se tornará a principal marca do peta:

platão disse-

-lhe:ele não podia
acreditar(Jesus

disse-lhe;ele
não queria acreditar
nisso)lao

tsé
certamente disse-
-lhe,e o general
(sim

senhora)
sherman;
e até
(acredite
ou
não)você
lhe disse:eu disse-
-lhe;nós dissemos-lhe
(ele não acreditou,não

senhor)foi preciso
um pedaço niponizado do
antigo viaduto da

6.ª
avenida;no cimo da cabeça:para dizer-

-lhe

Sobre estas «travessuras tipográficas», Borges lamenta serem a primeira coisa e muitas vezes a única que chama a atenção na esplêndida obra de Cummings. Em 1927, a viver à custa da poesia, da pintura, de leituras e conferências, da ajuda familiar, casa com Anne Minnerly Barton. Escreve peças de teatro que são levadas à cena nos palcos de Nova Iorque, colabora com a Vanity Fair e o The Dial. A primeira exposição acontece em Paris, no ano de 1931, mas não atrairá tanta atenção quanto os seus escritos. Na sequência de uma viagem à URSS, desilude-se com o “esquerdismo”. E em 1932 conhece aquela que será a sua definitiva companheira. Marion Morehouse, fotógrafa e modelo, teve um caso com A.J. Ayer, um dos maiores amigos de Cummings. Era doze anos mais nova que o poeta, o qual conseguiu distrair as atenções de Ayer depois de o levar a conhecer a stripper Gypsy Rose Lee. Recusado pelas editoras, socorre-se da mãezinha para publicar 70 Poems, o qual acabará por ser dado à estampa numa editora própria, a Golden Eagle Press, com o título No Thanks (1935). O resto é o que se sabe: publicações, palestras em Harvard, uma menção honrosa no National Book Award Committee for Poems, o Bollinger Prize, um ataque cardíaco, a hemorragia cerebral, a morte a 3 de Setembro de 1962, um poema.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

MOSCA



O Sr. Eugenio Montale manda dizer que viveu a cinco por cento. Pede, pois, que não lhe aumentemos a dose. É verdade que não deixou muito para queimar, parte do espólio foi arrastada numa tempestade em Florença. Mas vai queimando algumas das nossas pestanas. Nasceu em Génova, no dia 12 de Outubro de 1896, sexto filho de Domenico Montale e de Giuseppina Ricci, família abastada com negócios na indústria dos produtos químicos. A saúde frágil interrompeu-lhe os estudos convencionais, cabendo ao petiz uma formação auto-didáctica que, vistas as coisas, não resultou nada mal. Perdeu-se um aprendiz de feiticeiro, ganhou-se um estudante voluntarioso. Quis ser cantor de ópera, mas a morte de Ernesto Sivori, o professor de canto, em 1923, fê-lo mudar de ideias. Entretanto, tinha começado a publicar os primeiros poemas em revistas, tinha lido Schopenhauer e Bergson, tinha sido mobilizado para a frente de Vallarsa, tinha conhecido Roberto (Bobi) Bazlen «judeu triestino, que exercerá sobre ele uma grande influência e que o fará conhecer algumas das mais importantes mulheres da sua vida e da sua obra». A boa relação com o judeu Bazlen explica, entre outras coisas, a firme postura antifascista, consolidada com a subscrição do manifesto anti-fascista de Benedetto Croce. Ossi di Seppia, o primeiro livro, foi publicado em 1925 por Piero Gobetti, um intelectual de Turim amigo de Gramsci. São anos de afirmação política e literária. Conhece pessoalmente Italo Svevo, Umberto Saba, entre outros escritores e intelectuais da época. Contudo, estas conexões políticas não se reflectem claramente na sua obra. Ossi di Seppia, o primeiro livro, fica associado a uma paisagem hermética, desolada e sombria, certamente influenciada pela leitura d’A Terra Devastada de T. S. Eliot. As Ocasiões, o segundo livro, reflecte uma linguagem mais intimista e introspectiva com um destinatário feminino, uma tal de Clizia, que se julga ter sido uma americana judia chamada Irma Brandeis. Cito, do prefácio que José Manuel de Vasconcelos dedicou à Poesia de Montale: «em Montale a presença de mulheres é permanente, muitas vezes associadas ao referido tu destinatário, companheiras de memórias». Entre elas, destacar-se-á Mosca, ou seja, Drusilla Tanzi, uma judia triestina, mulher do crítico de arte Matteo Marangoni, que Montale conhece em 1927 e com quem casará quase 30 anos depois. Até lá, o poeta será nomeado director do Gabinete Vieusseux, cargo do qual será dispensado por não estar inscrito no Partido Nacional Fascista. Viaja, ganha prémios, convive com vários escritores, dedica-se à tradução e escreve artigos para jornais. Em 1939, recusa partir para os EUA com Irma Brandeis e passa a viver com Drusilla Tanzi: «Tu sabes bem: devo perder-te de novo e não posso. / Como um tiro certeiro me abala / cada acção, cada grito e mesmo o sopro / salino que se agita / nos molhes e faz a sombria primavera / de Sottoripa». Depois da II Grande Guerra, Montale funda o Il Mondo, começa a pintar, colabora com o Corriere della sera, muda-se para Milão, faz crítica musical, viaja, participa em conferências, conhece Camus, Éluard, Francis Ponge, René Char, entrevista Hemingway, recebe vários prémios, doutoramentos honoris causa, tudo a cinco por cento. Drusilla Tanzi morre no dia 20 de Outubro de 1963: «Querido pequeno insecto / a que chamavam mosca não sei porquê / esta tarde quando já escurecia / enquanto eu lia o Deutero Isaías / reapareceste junto de mim, / mas não tinhas óculos, / não podias ver-me / nem eu podia sem aquele brilho / reconhecer-te na neblina». Dizem os biógrafos que «conhece várias outras mulheres inspiradoras: a bailarina Carla Fracci, Adelaide Bellingardi, empregada numa loja de Roma, a americana Muschka Von Nagel, Sandra Fagioli e Barbara Mattioli». Não obstante, cremos que Mosca foi a Musa das Musas. O Prémio Nobel da Literatura é-lhe atribuído em 1975. Morre a 12 de Setembro de 1981, sendo sepultado junto daquela que, entre muitas, foi a sua única mulher:

A vida oscila
entre o sublime e o imundo
com alguma propensão
para o segundo.
Saberemos mais acerca disso
depois das últimas eleições
que se farão lá em cima
ou lá em baixo ou em lugar algum
porque fomos já eleitos
todos nós
e quem o não foi
está bem melhor aqui em baixo
e quando se dá conta
é tarde demais
les jeux sont faits
diz o croupier pela última vez
e com a sua pá
vai varrendo as cartas.

UM ESTRANHO ELEMENTO




Há demasiadas esquinas em Appaloosa, cidade onde se circula com uma sombra na perseguição. Os homens da lei chegam a contrato, quase acabam traídos pelos legítimos interesses de quem, por fim, se deixa fascinar pelos interesses ilegítimos. Muitas são as Appaloosa deste mundo. Na terra onde nasci, dizia-se, um homem pode passar a vida inteira a enganar meio mundo, a trair meio mundo, a exercer sobre os outros o medo, a tirania, mas não se safa de morrer sem coveiro que lhe abra o buraco. A questão essencial nem é de lei. Em Appaloosa, em todas as cidades com este nome, o que se torna essencial é o elemento que se intromete entre o desejo de ordem e o caos dos indivíduos. De resto, é lei da lei fazer-se reger por elementos que sempre escaparam, escapam e escaparão à maioria dos mortais. Uma viúva fogosa, por exemplo, que cai sobre o coração duro de um implacável homem da lei, como um pingo de água a cair sobre uma pedra fervente, pode expirar vapores sublimes. A cumplicidade entre o delegado e o chefe é inviolável, entre eles uma confiança cega que vem do conhecimento que possuem um do outro, foram homens que mataram e viram matar. Uma cena melhor que todas as outras: Virgil Cole diz a Everett Hitch que aquilo que os distingue não é a pontaria, não é a coragem, é apenas o facto do segundo ter sentimentos. Serão esses sentimentos o juiz final de uma execução. Everett leva o corrupto Randall Bragg a um duelo não porque deseje matá-lo na sequência de crimes impiedosos que não podem ficar impunes, mas porque não suporta vê-lo com a (puta da) viúva que veio provocar vapores no coração pedregoso de Virgil. Ou seja, Everett mata Bragg para que Virgil possa ficar com Allison French, a viúva-alegre e interesseira, boa e cheirosa cama, para que Virgil tenha sentimentos, para que nada mais os distinga. O efeito é singular: a personagem secundária acaba por ser chamada à primeira página, caber-lhe-á a moral da história. Os filmes de cowboys fazem-me acreditar nestas coisas. Além do que… nada pode abalar a amizade entre dois homens, nada pode corromper um elo com olhos no lugar dos nós, olhos que vêem o que outros julgam dissimulado. No fundo, Allison French era uma puta como outra qualquer, com uma vulgar predilecção pelos garanhões da manada. Não mereceria tantos esforços não fosse o caso de, em Appaloosa, as hipóteses do amor estarem reduzidas a um mínimo fixado pela argúcia dos corações pedregosos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

ABSTRACCIONISMO

Colocado perante a última obra, o crítico avança com algumas hipóteses:
─ Assim de repente, parece que a galinha está a chocar ovos.
Mas logo a artista corrige o comentário do crítico:
─ Ó pai, não vês que é uma galinha com rodinhas?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

POESIA PAPARAZZI

«Vestimo-nos como amamos: mal, sempre mais do que o necessário, procurando alimentar e dar realidade ao lugar desse vazio».
Fernando Guerreiro, in Italian Shoes, Vendaval, Abril de 2005.

Ninguém atravessa o deserto com sapatos italianos. Vamos por partes: descalço-me para sentir a brasa debaixo dos pés. Os dedos enterram-se na areia, o corpo habitua-se à ferroada do escorpião, aqui e acolá o veneno pode ser tratado com a água do oásis. Não sei se é preciso, mas parece-me natural que a arte vá sangrando e que o corpo beba desse sangue sem supor a eternidade dos vampiros. O trabalho dos paparazzi está longe da arte pornográfica, o trabalho dos paparazzi invade o corpo, a arte pornográfica capta o corpo na sua disponível abertura. De facto, a pornografia aproxima-nos de uma ideia antiga de sagrado, na medida em que nos oferece o corpo para lá do corpo, a dissecação anatómica do Ser, mas o paparazzi é um intruso, limita-se a invadir o campo do corpo capturando-lhe a ilusão de uma superfície. Ele, o paparazzi, promove a interpretação abusiva de um gesto, ao seleccionar entre milhares de imagens aquela que mais convém à sua venenosa ambição. Dá-nos apenas o que resulta de uma intenção, não nos dá, como a pornografia, a intenção. Ora, isto é tanto mais verdade quanto se revela indiscutível a mutante constituição da imagem: «mutantes, as imagens da BD, do cinema, da música ou da poesia, tanto constituem flashes do real imaginário como antecipações e catacreses do futuro». Porque a imagem, ao oferecer-nos o corpo para lá do corpo, morde-nos a imaginação. O veneno da imagem é o veneno do escorpião, a sua toxicidade mede-se em função da anulação do sujeito. A imagem captura a presa, inocula-a, no sentido de a contagiar, age sobre o sistema nervoso da presa, causa dor, palpitações, paralisa-nos. A imagem coloca-nos no centro nevrálgico da imaginação, produzindo real, parindo futuro, estimulando a acção que surgirá, mais ou menos irresistivelmente, da relação que o corpo mantenha com o veneno. As imagens da literatura, porque se articulam com a fantasmagoria sonora das palavras, porque nos vêm aos olhos como sons abstractos, puramente mentais, porque estão imersas no sentido e no significado simbólico das palavras, as imagens da literatura, dizia, oferecem-nos o corpo para lá do corpo de um modo distinto, oferecem-nos a música silenciosa das palavras (um silêncio ruidoso e, por vezes, ruinoso). Elas não se limitam ao sentido físico ─ visão, audição, etc. ─ que as capta, elas resultam da articulação entre todos os sentidos, são imagens totais que “des-ocultam” «em nós o sentido (e o vazio) da vida», oferecendo-nos o corpo-total para lá do corpo-parcial. A isto chamamos metafísica - por isso lembramos, com Artaud, que toda a linguagem é metafísica -, não porque o seu lugar transcenda o corpo, mas porque o seu lugar é o não-lugar do corpo, é a «explosão atómica» do corpo, é o corpo-total que «ex-centra-nos e dês-possui-nos de nós mesmos». «Pelo que exige de nós, o “estético” i-limita-nos, produzindo no seu doloroso parto o corpo glorioso, mas monstruoso, da Literatura». Monstros e Fantasmas, o que se vê, o que se mostra, numa realidade irreal, o que se imagina paradoxalmente a partir do que se experiencia, pois entre a experiência e a imaginação existe um elo: a areia do deserto onde enterramos os pés. O acto da escrita, produtor de simulacros, não só representa como apresenta, incha a realidade de mais mundo, gera-lhe o futuro ainda em potência; o poema potencia o mundo, calça-nos com calçado adequado à travessia do deserto, «o poema, tal como a fotografia, talha ─ recorta e define ─ o seu real (uma porção do nada que se inscreve, concretiza) no espaço». A hiper-realidade do poema é a hiper-realidade da pornografia, mas discordo que «o corpo nu e exposto da literatura» tenha alguma coisa que ver com a pseudo-hiper-realidade do paparazzi. Neste, nada se gera, pois não há corpo que possa engravidar do que quer que seja, ele limita-se a invadir o campo do corpo capturando-lhe a ilusão de uma superfície, dá-nos apenas o que resulta de uma intenção, não nos dá, como a pornografia, a intenção.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

SINOS DE AÇO


«Um acto tão simples como abrir os olhos». Preto, criado num bairro da lower middle-class, em Newark, menos exposto à discriminação que a maioria dos afro-americanos nascidos por aquelas bandas em meados dos anos 30 do século passado, mas ainda assim preto, um estigma que nos states faz(ia) toda a diferença. Estudos religiosos, artísticos e filosóficos em três universidades: Rutgers, Columbia, Howard. Há quem diga que abandonou a universidade inconformado com as rotinas académicas. A verdade é que, aos 20 anos, entra para a US Air Force e chega a sargento. Uma carta anónima acusando-o de comunista recambia-o para a cozinha. Muda-se para Greenwich Village, Nova Iorque, onde viverá entre 1957 e 1965. Desenvolve um profundo interesse pelo Jazz, entra em contacto com o movimento Beat, casa com Hettie Cohen ─ com quem editará a revista Yugen, mas que abandonará mais tarde para se juntar ao movimento Black Nationalism ─, priva com vários músicos, com os poetas da Black Mountain, adopta um estilo de vida boémio que, pouco a pouco, vai sendo superado pelo activismo político. «Simplesmente entrar nas coisas pouco a pouco». Em 1958, funda a Totem Press. Aí publicarão, entre outros, Allen Ginsberg e Jack Kerouac. A consciência crítica, social e política, aguça-se depois de uma viagem a Cuba, em 1960. Publica o primeiro livro de poemas um ano depois: Preface to a Twenty Volume Suicide Note. No entanto, será com um ensaio, Blues People: Negro Music in White America (1963), e com uma peça de teatro, Dutchman and The Slave (1964), que granjeará algum reconhecimento. A peça recebe um Obie Award, o qual não servirá para colar o poeta ao mundo dos brancos. Malcolm X é assassinado, o autor de Home: Social Essays (1965) abandona tudo e todos e muda-se para o Harlem, onde organiza o Black Arts Reportory Theater e publica o romance autobiográfico The System of Dante’s Hell. «Mesmo assim, sombras arrastar-se-ão sobre a nossa carne para esconder a nossa desordem, as nossas mentiras». Casa com Sylvia Robinson, adopta um nome muçulmano, é preso e condenado a três anos de prisão durante os tumultos que se seguem ao assassinato de Martin Luther King, Jr., sentença revogada após recurso. Black Magic, publicado em 1969, consolida a separação dos Beat: «Poems are made by fools like Allen Ginsberg, who loves God, and went to India only to see God, finding him walking barefoot in the street, blood sickness and hysteria». O período Black Nationalist é marcado pelo ódio aos brancos, aos judeus e aos homossexuais com quem se havia relacionado toda a vida. Acaba por ser um período de auto-negação. «Estou angustiado. Pensando nas estações, como passam, como eu passo, a minha própria juventude, a doçura sazonada da minha vida; escoada…» 1974 é o ano da inflexão marxista. Distancia-se do Black Nationalism e aproxima-se dos movimentos anti-imperialistas. Escaramuças familiares condená-lo-ão a um breve período de trabalho comunitário. Em 1989, é-lhe atribuído o American Book Award. A controvérsia em torno dos seus livros é permanente. Acusado de racismo, sexismo, homofobia e anti-semitismo, Amiri Baraka, outrora conhecido como LeRoi Jones, nasceu a 7 de Outubro de 1934. A sua obra tem sido vastamente premiada e reconhecida.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

CUMPRIR A PELE


O poeta Guilherme de Faria, que se atirou para a Boca do Inferno com apenas 21 anos, faria hoje 102 se fosse vivo. Mas: «A vida não é um sonho de ansiedade / Inútil de sofrer, / Que, para além da vida, há uma verdade /– E temos de morrer!» Não é voz que me console «na mortal agonia desta imperceptível contemporaneidade» (Fernando Guerreiro). Um pouco como o que acontece em L'odore del sangue. Tudo aparenta um equilíbrio que implode quando se intromete um jovem prepotente na vida do casal. A prepotência tem o seu encanto, e ela deixa-se encantar pelo músculo da prepotência. A idade esconde misteriosas inclinações. Ele conhecia-lhe outros amantes, ela suportava-lhe outro amor. Digamos que eram liberais na forma como materializavam o amor intelectualizado. Longe de casa, no campo, com a amante, ele não podia prever a cretinice da sua teoria: no amor não há exclusividade. E no ciúme? O problema é este: nenhum amor se circunscreve à racionalização das emoções. É tudo esquivo, ilógico, indeterminável, imprevisível, não há conceptualização possível do amor. Quando menos se espera, o cheiro do sangue vem-nos às ventas e a náusea provoca o vómito. O oposto é mera foda, é a verdade da vida: temos de morrer. Nos entrementes cumpre-se a pele.

OS ANOS 90 DERAM CABO DISTO TUDO




Tanto ela como ele sabem despir-se para o público, não conseguem despir-se um para o outro. Vivem uma encenação que não pode ser ultrapassada pela mera transfiguração do cenário. É como se tivessem esvaziado as vidas desse espectro cinzento ao qual normalmente se dá o nome de intimidade. É por estas e por outras que um homem está sempre a tempo de… ser o que sempre foi. Há quem passe pela vida enganado, há quem passe desenganado. Não há vidas perfeitas. Mas as cicatrizes são como o algodão: não enganam. Alguns homens orgulham-se das cicatrizes que trazem evidentes, fazem questão de exibi-las e inventam uma história para cada uma delas. Outras cicatrizes não merecem senão ser esquecidas, mesmo que o esquecimento se esqueça de esquecê-las. O diálogo é óbvio:
− Esqueci-me.
− De quê?
− Esqueci-me.
− Mas de quê?
− Esqueci-me.
Lembramo-nos de que esquecemos alguma coisa, mas não conseguimos lembrar o quê. Sabemos apenas que esquecemos, esquecemo-nos do que nos esquecemos. Aquilo que foi esquecido pode ter ficado nos escombros de um edifício em ruínas, pode ter ficado sob o pó de uma sala devoluta, pode ter ficado algures, entre a vontade de mudar e a inevitabilidade de ser. Uns são as cicatrizes que trazem à superfície, outros são a superfície das cicatrizes. Outros passam ao lado disto tudo porque se julgam incólumes, impermeáveis, protegidos da ferida que os há-de corroer até ao ponto miserável de não conseguirem olhar para o mundo senão vendo-se sempre a si próprios. Obscurecido pelas marcas, aquilo que cada um é. E disso não se fazem strips, apenas espectáculos, encenações.

UM PAPA AMIGO DOS TRABALHADORES





O Robert Carlyle é muito parecido com o Fernando. Que será feito do Fernando? A Emily Watson é muito parecida com a beleza. Que será feito da beleza? Angela’s Ashes diz-nos que ela está na América. Naquele tempo, América significava esperança. Talvez nos queiram dizer que a beleza está na esperança. Pois eu estou convencido de que a esperança é maquilhagem para a dor, a esperança é o Photoshop da alma, por detrás da esperança é que reside a beleza, ou seja, naquilo que mais aproxime um rosto da pureza, no sentido de naturalidade. O rosto das crianças é belo porque é natural, porque é puro. O rosto da Emily é o que mais se aproxima numa mulher do rosto de uma criança. Os pessimistas dir-me-ão que a pureza não existe, mas eu já estive com alguns recém-nascidos nas mãos. Tão puros quanto o pecado que os concebeu. O resto é chuva, imundície, ruas pestilentas, a discriminação e a austeridade de um catolicismo hipócrita, pobreza, bolor, humidade, o resto é sobrevivência, o ser humano na sua inevitável metamorfose da corrupção. Das cinzas de Angela, guardarei alguns momentos: os arquivos da agiota lançados à água, a pobreza que se alimenta da pobreza já sem fôlego, levada na corrente, um gesto puro de liberdade e de compaixão que está na fronteira entre o interesse pessoal e o amor aos outros – o que, diga-se, é ideal longe de parecer concretizável; guardarei igualmente a tuberculosa a respigar amor ao tempo que lhe resta, abraçando-se ao carteiro enquanto confessava, depois do amor, que o que mais queria era um homem bonito que a abraçasse. Muita chuva, a condizer com a tristeza da privação. Privação material e amorosa. E tudo é possível: as duas formas de privação podem conviver e podem contrapor-se. As pessoas que alguma vez passaram mal sabem bem o quão importante se torna cada momento, cada segundo, e sabem que alguns milagres podem verificar-se entre um e outro segundos. O milagre é a beleza surdir do nada entre a porcaria, é da pestilência alguma coisa, que não sabemos o quê, exalar um perfume inebriante. Um abraço, talvez. Uma refeição. O aconchego. Alguém chegar a casa, ser chamado de inútil ao mesmo tempo que é desejado, alguém poder sentir o conforto do desejo, um abraço, uma refeição. O retrato do Papa amigo dos trabalhadores pode consolar os desempregados, não matará a fome de um emprego, não restituirá as vidas perdidas, porque é mera maquilhagem, não é puro nem belo como eram as crianças levadas por Deus. Não é puro nem belo como a refeição que nos consola da fome.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O REALISMO LÍRICO DE YESENIN


Sergei Yesenin nasceu para dar nome a uma cidade. Porque os calendários são mentirosos, diremos que foi a 3 de Outubro de 1895. Andou enrolado com a poesia do proletariado e com os imaginistas, mas as suas raízes camponesas transformaram-no numa das vozes mais simbólicas de um campo a ruir sob o peso da cidade. Viveu dois anos na companhia de Anna Izriadnova, de quem teve um filho. Em 1917, casou com Zinaida Raikh, de quem teve uma filha e um filho. Dizem que Padúnitsa (1916), a sua primeira colectânea de poemas, se refere a uma festa pagã da Primavera. Os mortos são comemorados, os animais têm nome próprio, as plantas ganham vida. Desertou do exército, vindo posteriormente a chocar a crítica conservadora com uma poesia blasfema: «Eu não queria enganar-me, porém / Trago uma ansiedade no coração confuso. / Porque é que eu passo por ser um charlatão, / Porque é que eu passo por ser um escandaloso? // Nem biltre fui nem ladrão de estrada, / Nem fuzilei inocentes na prisão. / Sou apenas um pobre boémio / Que sorri a todos os que encontra» (trad. Manuel de Seabra). E encontrou muitos, como veremos. Desiludido com bolcheviques, divorcia-se da Rússia revolucionária. Divorcia-se igualmente de Zinaida. Em 1922, casa com a bailarina americana Isadora Duncan. Há quem defenda que se casou antes com a fama de Isadora, embora cedo comece a demonstrar um enorme desprezo pelo espírito filisteu dos americanos. Regressou à Rússia, deprimido, neurasténico, a sofrer de alucinações provocadas pelo excesso de álcool. O que a América pode fazer a um bom poeta Russo! Com ou sem Isidora, Yesenin tornara-se alcoólico. Vivia obcecado com a ideia do suicídio: «Agora já não quero sofrer mais. / É tempo de lavar o coração confuso» (idem). Atirou-se para a frente de um comboio, tentou saltar de um quinto andar, automutilou-se. Escreve no famoso poema Carta a Minha Mãe: «Eu não sou um bêbado tão inveterado / Para morrer sem te ver primeiro»; «Demasiado cedo o sofrimento e o cansaço / Encheram totalmente a minha vida». Mas o alcoolismo agravou-se, a vida desregrada e boémia passada nas tavernas de Moscovo, entre prostitutas e canalhas, levou-o à separação dos imaginistas e a mais um filho, desta feita de uma relação com Nadezhda Vol'pin. Entretanto, casara-se com Sof'ia Tolstaia, sobrinha-neta de Tolstoy. Foi internado com um esgotamento nervoso, até que a 28 de Dezembro de 1925 acaba por se enforcar num hotel de Leninegrado. Os seus livros foram banidos pelas autoridades comunistas, que viam na poesia de Yesenin uma desautorização das doutrinas impostas pelo realismo socialista. Só na década de 1960 a sua poesia foi reabilitada. Várias mulheres e, ao mesmo tempo, várias tentativas de suicídio, levam-nos a crer na estupidez dos críticos. Poesia mais realista, não nos parece ser possível:

ADEUS, MEU AMIGO, ADEUS

Adeus, meu amigo, adeus,
Querido amigo, que trago no coração.
A separação predestinada
Para mais tarde promete novo encontro.

Adeus, meu amigo, sem aperto de mão nem palavras,
Não lamentes e não haja dor nem pena, ─
Nesta vida morrer não é nada de novo,
Mas também nada de novo é viver.

domingo, 4 de outubro de 2009

RIMAS

- Andamos a dar uma letra que rima com O.
- Qual?
- É o U.
Matilde.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

CONTADOR DE BEIJOS

Vou-te contar, estava ali nuzinho na minha solidão quando fui abalroado pelo boi da impaciência. A Ana inventou uns pãezinhos indianos com muita pimenta, puxaram o Defesa de 2008 para dentro do enigma, e eu meti um revolver à cabeça enquanto olhava, num carro estacionado, o chulo da Trabalhia a lembrar-me que amanhã pego às nove. Mas antes, toma lá esta: estou no Chat Noir em 1857. Charles Cros, o inventor do fonógrafo e, consequentemente, do surrealismo, tem 15 anos e bebe absinto pela garrafa. Numa mesma mesa estão igualmente sentados Baudelaire e Rimbaud de mão dada com Verlaine. Ouço-os inventar histórias fantásticas passadas em reinos imaginários. Charles diz: «E eu inventei esta história ─ banal, banal, banal, / Para enfurecer as pessoas ─ graves, graves, graves, / E divertir as criancinhas ─ pequenas, pequenas, pequenas». A pessoa grave era um tal de Orèlie Antonie, Procurador da Justiça, que aceitou dos poetas o título de rei da Região da Araucanía, no Chile. Orèlie levou a oferenda de tal forma a sério que embarcou para o Chile munido de uma bandeira, de uma Constituição e de muita vontade de governar indígenas. Conseguiu um encontro com os índios e prometeu-lhes protecção dos brancos, acabando por proclamar o reino de Araucanía a 17 de Novembro de 1860. Recambiado para França com a loucura por diagnóstico, pôs-se a vender títulos nobiliários e terrenos. Regressou à América do Sul algumas vezes, acabando por ser novamente notícia pelas razões mais caricatas: foi objecto do primeiro implante de ânus artificial na América do Sul. Não posso averiguar da veracidade desta história, que encontrei há tempos nos subúrbios da Internet. Serve a mesma para exemplificar que pelo ânus pode morrer a fé e para evocar Charles Cros, nascido a 1 de Outubro de 1842, inventor de fonógrafos, de reinados e de um contador de beijos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

TRÊS VEZES NASCIDO


Ouvi dizer que Rui Pires Cabral nasceu a 1 de Outubro de 1967. Há quem diga que nasceu em Chacim, uma pequena aldeia do concelho transmontano de Macedo de Cavaleiros, há quem diga que nasceu apenas em Macedo de Cavaleiros, há ainda quem diga que nasceu em Vila Real. Filho do escritor António Manuel Pires Cabral, dizem que publicou o seu primeiro livro em 1985, uma colectânea de poemas intitulada Qualquer coisa estranha. Também há quem se refira ao livro como um livro de contos. É um livro estranho, do qual poucos ouviram falar, sendo mais corrente a versão de que os seus dois primeiros livros foram Geografia das Estações (1994) e A Super-Realidade (1995). Diz quem os leu que «não podem ser considerados livros menores», e quem o diz é José Ricardo Nunes: «Foram livros publicados em Vila Real, longe do periférico centro, e não tiveram a difusão e o acolhimento devidos» (in 9 Poetas Para o Século XXI). Ouvi dizer que Rui Pires Cabral estudou num colégio interno, ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, envolveu-se na política, participou em movimentos académicos, começou a publicar poemas na imprensa estudantil. Também ouvimos dizer que o poeta lamenta o sucedido. Outra versão diz-nos apenas que se licenciou em História e Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1990. Ouvi dizer que concluídos os estudos superiores, Rui Pires Cabral se mudou para Lisboa e dedicou-se a traduzir autores de língua inglesa. Quanto aos livros, João Luís Barreto Guimarães fala de uma «toada mais abstracta» na obra inicial e de «uma poesia metonímica e figurativa» nos livros mais recentes. José Ricardo Nunes sublinha «a importância dos lugares», «o tópico da viagem», «desde o percurso existencial (…) até à deambulação física». É este aspecto o que mais me interessa na poesia de Rui Pires Cabral, a viagem como impulso questionador do mundo e do eu, as memórias em confronto com o «desenraizamento ontológico», a velocidade questionando o fim, a viagem por dentro da relação amorosa:

UNTITLED # 1

Hoje eu dei-te o meu dia, na esplanada afrontando o olhar dos outros
por motivos tão escassos. É a primeira oportunidade para
uma nova estação, a natureza conspira no cimento
à nossa volta. Mas eu acredito que toda a mudança venha apenas
pelo fim de qualquer coisa e tu estás imóvel nessa cadeira,
parece que nunca tiveste um princípio.

Onde estão agora as tuas razões, o que fizeste
com a tua juventude? Não esperes que os pássaros te castiguem
por perderes o dia e sufocares de noite. Eu não te posso salvar
da tua angústia, baralhei os sinais por baixo de cada nome
e escolhi as ruas à sorte. E tu não me podes obrigar a pensar
de outra maneira, pobre de ti com as mãos encolhidas
sobre o tampo da mesa. Nos dias de sol a tua sombra
seria cruel para mim. E como eu te mentiria.

Rui Pires Cabral, in Música Antológica & Onze Cidades, Colecção Forma, n.º 35, Presença, Março de 1997.