quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O CASO


Danil Ivánovitch Iuvatchov (ou Daniil Ivanovich Yuvachov ou Даниил Иванович Ювачёв), mais conhecido por Daniil Harms (ou Kharms) nasceu em São Petersburgo no ano de 1905, presumivelmente a 30 de Dezembro, mas também a 17 do mesmo mês, se nos quisermos guiar por outros calendários. Filho de Ivan Iuvatchov, figura proeminente do grupo revolucionário Vontade do Povo, contactou, desde muito cedo, com gestos subversivos e suas consequentes retaliações. Sob o jugo de Alexandre III, o pai foi preso, condenado a trabalhos forçados perpétuos, condenação posteriormente substituída por quinze anos de reclusão. Morreu em 1940, cumprindo um percurso de escritor de histórias fantásticas a filósofo religioso e pacifista. Daniil teve o privilégio de estudar numa escola de inspiração germânica, onde adoptou o pseudónimo Kharms, embora variando entre DanDan, Khorms, Charms, Shardam, Kharms-Shardam, etc. Em 1924 foi estudar para Leninegrado, onde iniciou a sua vida literária junto de um grupo experimentalista que praticava a «poesia zaum» (linguagem poética sem significado definido). Rapidamente abandonou o grupo e aderiu à associação «tchinari» (experimentação em ritmos), mas só em 1927, com a formação do colectivo vanguardista OBERIU (Associação de Arte Real), é que a sua actividade ultrapassou o domínio da animação e atingiu o nível da publicação. «Poesia não é papas de painço que se engolem sem mastigar para se esquecerem logo a seguir», defendiam os OBERIU, ao mesmo tempo que apontavam a mira contra a escola zaum. No manifesto dos OBERIU, Daniil Harms era apresentado como um «poeta e dramaturgo que não concentra a atenção numa figura estática mas sim na colisão de uma série de objectos, nas suas inter-relações». Ainda antes da aventura OBERIU, Daniil havia casado com Ester Aleksandrovna Rusakova, de quem acabou por se divorciar em 1932, para se casar novamente, em 1934, com Marina Vladimirovna Malich. Em 1926 conseguira publicar dois poemas para adultos, os únicos publicados em vida, em antologias organizadas pela All-Russian Union of Poets. As performances absurdas, a linguagem excêntrica, os textos ilógicos, a postura dandy, granjearam-lhe a reputação de louco. Acabou por ser preso, pela primeira vez, em 1931, e condenado a deportação para a cidade de Kursk. De notar que a condenação esteve associada a uma acusação de escritor de literatura infantil anti-soviética, já que a actividade dos OBERIU estava fortemente ligada à publicação de histórias infantis. Regressará a Leninegrado no ano seguinte, iniciando um período de privações várias e desespero. Não consegue publicar os seus textos, os planos para performances e peças dramáticas não vingam, os OBERIU desmembram-se, Daniil passa fome, escreve uma prosa absurda e desesperada que dedica, em grande parte, a Marina Vladimirovna Malich, a sua nova companheira. O futuro dos OBERIU estava condenado na Rússia revolucionária. Uns morreram de fome, outros na prisão, outros foram exilados, outros foram assassinados, outros desapareceram durante a guerra: «Very few of the founders of the group escaped jail and exile. Zabolotsky spent the years 1938 to 1946 at various labour camps in Siberia. Vaghinov died ill and penniless in 1934». Harms chegou a servir no Exército Vermelho, escreveu várias histórias infantis, mas a sua atitude vanguardista entrava em conflito com a política cultural estalinista. O experimentalismo de Harms não cabia na União dos Escritores Soviéticos. Foi proibido de publicar, acabando novamente preso no ano de 1941. Desaparece misteriosamente. «Soube-se mais tarde que Harms, correndo o risco de ser fuzilado, simulou distúrbios psíquicos e foi internado no hospital-prisão, onde morreu, talvez de fome, talvez do “tratamento”». Só em Fevereiro de 1942, Marina foi informada da morte do marido. O nome do escritor foi reabilitado em 1956 e os seus escritos infantis voltaram a ser publicados durante a década de 1960. Marina foi evacuada para as Caraíbas após a morte de Harms, regressando posteriormente à Europa para viver na Alemanha. A ler este curioso artigo, a biografia no kirjasto e A Velha e Outras Histórias, de onde respigamos o caso final:
UM CASO


Uma vez o Orlov empanturrou-se com ervilhas moídas e morreu. Krilov, quando tal soube, morreu também. Ora, o Spiridónov morreu sem mais nem menos. A mulher de Spiridónov caiu do aparador e morreu também. Os filhos de Spiridónov afogaram-se no lago. A avó de Spiridónov alcoolizou-se e meteu-se a mendigar. Mikháilov deixou de se pentear e apanhou tinha. Kruglov desenhou uma senhora de chicote e enlouqueceu. Perekhrióstov recebeu um vale postal de quatrocentos rublos e tornou-se tão arrogante que foi despedido do trabalho.
Gente boa não sabe firmar-se na vida.

Daniil Harms, in A Velha e Outras Histórias, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, Agosto de 2007, p. 226.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ELOGIO DO CINSIMO (12)


A extensa citação de Onfray justifica-se por lhe devermos este redespertar para a lição cínica, a qual, como vimos, está longe de merecer a censura que interpretações históricas tendenciosas e enviesadas lhe impuseram. Os cínicos foram relegados para a penumbra por neles ter sido vislumbrada uma acção inconveniente à arquitectura das sociedades ideais, erguidas em modelos de submissão, escravatura, exploração, modelos que deploravam e deploram a resposta espontânea e livre das paixões, modelos castradores da liberdade e cristalizadores do pensamento. Basta lançarmos os olhos superficialmente pelo mundo em que vivemos para nos depararmos com as conquistas desses modelos de sociedades ideais: desigualdades cada vez mais profundas, assimetrias aparentemente inultrapassáveis, uma ínfima parte de indivíduos a gozar os lucros da exploração económica exercida sobre uma maioria confinada à mera sobrevivência, um mundo de ilusões e quimeras, como a do conhecimento acessível a todos, um conhecimento mentiroso e superficial, a tecnologização e mecanização dos saberes no chamado mundo civilizado a ditar uma desastrosa ausência de cultura geradora de comportamentos arrogantes, preconceituosos e hipócritas, o predomínio do ter sobre o ser, a paranóia do lucro, a guerra dos objectivos que dinamita os mais básicos direitos de quem trabalha e se transforma numa máquina de desespero e suicídios, a estereotipização do gosto e dos juízos, a disseminação de uma cegueira indolente, desapaixonada, com consequências devastadoras ao nível da solidariedade, cada vez mais subsumida numa caridadezinha que se faz passar por solidariedade em momentos de aflição próxima ou épocas natalícias de consumismo exacerbado. A ética cínica, a ética da resistência, faz mais sentido que nunca, tal é o cenário de escravos do consumismo e de endrominados do discurso publicitário que temos à nossa frente. Acenam-te com os direitos do consumidor e fazes disso uma bandeira, não percebendo que as cores dessa bandeira são as mesmas que levam ao colo o consumismo exacerbado onde se afundam os valores de uma verdadeira identidade: tu já não és um nome, és um código de barras, tu não és um homem com direitos, és um consumidor com direitos, tu não és um homem, és um consumidor, uma máquina de produzir escrava do consumo, tu produzes para poderes consumir enquanto és consumido pela máquina produtiva. A solução pode não estar na completa abnegação material e num despojamento radical, os quais se afiguram pouco viáveis num mundo em que os recursos mais básicos foram açambarcados pelo poder, num mundo em que é preciso prestar contas pela água que se bebe ou pelo terreno que se ocupa. «Cínicos, os rebeldes que colocam o seu orgulho bem acima das prebendas oferecidas em troca da colaboração com os poderes instituídos; cínicos, ainda, os revoltados que colocam o pensamento ao serviço da insubmissão, de preferência a pô-lo à disposição das forças que desvitalizam o indivíduo; cínicos, finalmente, os resistentes que opõem o saber ao poder, à laia de contra-poder.» Não colaborar, tanto quanto possível, o mais possível, com o poder, estimular a insubmissão, resistir ao canto da sereia, promover todas as formas de contra-poder contra a estigmatização dos comportamentos legitimamente livres. A defesa do próprio passa pela preocupação com o outro, com o direito que o outro tem de ser ele próprio. A questão está em defender um mundo onde os outros possam conviver consigo próprios sem necessitarem de corromper-se uns aos outros, porque o mundo actual caracteriza-se precisamente por essa táctica da corrupção que nos deixa sem voz quando nos vemos vítimas de erros por nós próprios anteriormente cometidos. Começar por dar o exemplo é um bom caminho, não sobrestimando nada que não seja vitalizador de uma ética libertária. No seu tempo, foi isso que os cínicos fizeram. Não admira que tenham sido calados, não admira que tenham sido silenciados, afastados das grandes enciclopédias, negligenciados pela história convencional que canoniza apenas o que se deixa canonizar. É isso que te espera se escolheres o caminho da resistência, contra as fábricas de epígonos em série, pela infantilização de uma humanidade demasiado séria para ser levada a sério:

Onde os auxiliares do poder vigente celebram a virtude do sério, do útil e indispensável para sacramentar o poder, para fazer dele um epifenómeno proveniente do religioso e do celeste, o libertário restaura as virtudes do desvio, da ironia, do humor, do cinismo, sob a forma de modalidades subversivas da linguagem e do gestual, conceptuais e pragmáticas. O riso nietzscheano de Foucault, contra o silêncio feltrado dos palácios presidenciais; a dança de Zaratustra, em contraponto à rigidez dos ministérios, de todos os protocolos; o grotesco de Rabelais e as loucuras de Swift, à laia de resposta aos sussurros dos enxames de porteiros; a chacota de Voltaire e a qualidade de Sartre, como eco às peças douradas da armação de portas e janelas e aos brocados púrpuras; os sarcasmos da festa dos loucos e as antimissas com burros, face à pompa do Eliseu. Vinho a rodos, libações, um Diógenes que peida, onanista e canibal, uma política dionisíaca; brindes com água simples, presidentes da República desmiolados, uma política apoloniana, eis o inventário das alternativas ancestrais.
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

DEFENDER A FAMÍLIA


Arranjar uma noiva para o Santo Papa.

OBRA POÉTICA COMPLETA

Agora que o ano termina e todas as listagens pululam, convém espicaçar eventuais e previsíveis desmemoriados com factos passados à história, mas sobre os quais a história não deve passar como se não tivessem existido. Em 2009 completaram-se 200 anos sobre o nascimento de Edgar Allan Poe. Por cá, o génio de Poe ─ poucas vezes faz tanto sentido o uso do substantivo ─ foi sendo evocado e celebrado com diversas publicações, das quais destaco a edição da sua Obra Poética Completa levada a cabo, no mês de Março, pela editora Tinta-da-China. Antes de mais, é de bom-tom realçar a beleza inquestionável do volume (algo a que a editora em causa nos vai habituando com hedonística felicidade). O trabalho gráfico de Vera Tavares e as ilustrações de Filipe Abranches não só acompanham a excelência do labor que a tradutora Margarida Vale de Gato depositou nesta obra, como nos permitem afirmar estarmos perante um objecto cuja beleza procura fazer justiça ao ideal do autor ali compilado. Depois integram este volume, além dos poemas, um drama inacabado e um ensaio de Poe, assim como uma dedicadíssima introdução, preciosas notas explicativas da origem e dos processos relacionados com a composição dos diversos poemas, uma bibliografia seleccionada e uma cronologia biobibliográfica de inquestionável interesse.
Na introdução, Margarida Vale de Gato ocupa-se de vários aspectos clarificadores da complexidade estética do autor d’O Corvo. Entre outros, a ambivalência mística, o culto do paradoxo, os estados mentais intermitentes, a ironia romântica e a quimera da Beleza, o fascínio orientalista patente em poemas como Al Aaraaf e Israfel, o conflito entre os conceitos de fancy e imagination. A verdade é que a poesia de Edgar Allan Poe presta-se a leituras assaz diversificadas. É essa, de resto, a característica fundamental dos grandes autores. Uma obra, seja ela qual for, que constranja o seu intérprete no processo executório que lhe dá vida, perde, à partida, um dos valores mais característicos da criação artística: a liberdade. Este valor não é próprio daquele que cria, ele conquista-se na relação estabelecida entre criador, obra e intérprete, ou seja, aquele que recria. No ensaio A Filosofia da Composição, mais do que a defesa do poema enquanto construção, afastando-se Poe, neste domínio, das “tempestades impetuosas” que fundamentavam a poesia romântica, salienta-se a «sugestividade ─ uma espécie de corrente subterrânea, embora indefinida, de sentido» (p. 287). É esta sugestividade que marca toda a poética de Edgar Allan Poe. E esta sugestividade não se consegue sem espaço para a deambulação interpretativa.
Não é de admirar que Charles Baudelaire ou o nosso Fernando Pessoa se tenham deixado encantar pela sombra do poeta maldito norte-americano. Poe nasceu praticamente órfão na Boston de 1809. Ambos actores, o pai «sucumbe ao alcoolismo e abandona a família» um ano antes de a mãe ter falecido tuberculosa, em 1811. Edgar é adoptado e viaja com o padrasto pela Grã-Bretanha, onde faz os estudos primários. Começa a escrever versos satíricos, tem uma paixão platónica pela mãe de um dos seus colegas, contrai dívidas de jogo, dá cabo da relação com o pai adoptivo, à medida que se vai deixando tomar pelos vícios da boémia literária. Conhece algum sucesso em vida como contista e jornalista, mas arruína-se na embriaguez e na depressão. É quase impossível não associar as doses excessivas de láudano, os excessos alcoólicos, as depressões, à toada alucinatória que está na origem de praticamente toda a sua obra. Os mistérios e o fantástico, em Poe, surdem de uma deriva pelos “paraísos artificiais” que propiciaram, como também a Baudelaire e a Pessoa, uma sensibilidade para o Belo que cai por terra, como um pássaro morto, quando confrontado com a desditosa realidade do mundo terreno.
Esta desditosa realidade fica patente no tema por excelência da poesia de Poe: a morte de uma bela mulher e o pranto do amante enlutado. Um Péan, Para Alguém no Paraíso, Lenora, O Corvo, Annabel Lee são apenas exemplos maiores deste género de evocação, o qual não pode ser dissociado de uma consciência aterradora da finitude e da ruína que aparece magnificamente simbolizada no poema O Coliseu. É verdade que a poesia de Edgar Allan Poe se faz envolver de uma espécie de nuvem tenebrosa e misteriosa, pautada por uma melancolia aparentemente sem saída, mesmo que, pontualmente, o ideal da Beleza se nos mostre sob a forma de poema, mas também não deixa de ser verdade que dessa nuvem brotam bátegas de uma ironia paradoxal: «Embora num só sonho… eu fui feliz, / Fui tão feliz… E eu amo essa tontura… Sonhos!» (p. 64) Estes sonhos, lugar de realização de uma certa felicidade, não deixam de ser parte integrante da vida. Eles não são ainda o mundo do inconsciente onde se encontram recalcadas as razões das dores presentes, eles são o mundo proscrito pelos olhos que acordados se vêem distantes de um sono brando ao lado da amada. O sonho é aquilo que em vida mais nos aproxima da morte, é o delírio que nos aparta, momentaneamente, da realidade. Uma advertência: a tradução do poema Para M. L. S., citado nas notas finais, não consta entre os poemas coligidos, o que vem confirmar aquela regra que afirma nada ser perfeito se não contiver pelo menos um erro.
Escrito para o Rascunho.

sábado, 26 de dezembro de 2009

PAI NATAL, MÃE NATAL

O Pai Natal faz oh, oh, oh.
A Mãe Natal faz ah, ah, ah.

Beatriz, 3 anos.

JUAN & ZENOBIA

Raízes e asas. Mas que as asas enraízem
e as raízes voem.

Era o filho mais novo de uma família abastada. Nasceu a 23 de Dezembro de 1881, baptizaram-no de Juan Ramón Jiménez. Moguer, no sul da Andaluzia, foi o berço geográfico do poeta. Fez os estudos secundários num colégio interno de jesuítas. Depois foi para Sevilha estudar Direito. A influência do pai, um homem rico da província de Huelva, foi decisiva. Mas Juan não prescindiu, por iniciativa própria, dos estudos de pintura, que acumulou com as aulas de Direito. Lia os poetas espanhóis da época: Bécquer, Rosalia de Castro, Verdaguer. Em 1897 publicou num jornal local um poema inspirado nos versos de Bécquer. Começa a publicar com alguma regularidade na madrilena Revista Nueva. A revista, de inspiração modernista, meteu Juan Ramón Jiménez em contacto com outros poetas, nomeadamente o boémio Francisco Villaespesa, a quem Ramón ficará a dever a convivência com o nicaraguense Rubén Darío. Juan Ramón chega a Madrid a 13 de Abril de 1900. O ambiente algo bucólico de Moguer contrasta com a agitação da capital espanhola. Para agravar a deslocação, o pai de Juan morreu subitamente, originando no poeta uma raiz de pânico que virá a atormentá-lo pelo resto da vida. Publica os primeiros livros, Ninfeas e Almas de violeta, ajudado por Darío. Em 1901 é internado num estabelecimento psiquiátrico perto de Bordéus. Aí leu, entre outros, poetas como Baudelaire, Mallarmé e Verlaine. Regressa a Espanha, onde permanece algum tempo no sanatório do Rosario em Madrid. Reunia-se nesse sanatório com outros escritores, formando uma tertúlia da qual nasceu a revista Helios. Ortega y Gasset elogia-lhe o livro Arias tristes, de 1903. Juan Ramón dedica-se inteiramente à poesia, colaborando em várias revistas. Regressa a Moguer, assolado por uma neurose, onde busca o repouso físico que nunca almejou intelectualmente. O convívio com a natureza era reconfortante, mas a ruína económica da família anunciava novos períodos de desespero. Parte novamente para Madrid. Em 1913 conheceu Zenobia Camprubí Aymar, com quem veio a casar a 2 de Março de 1916. A família de Zenobia estava contra o casamento, pelo que os dois resolveram dar o nó na cidade de Nova Iorque. A digressão americana motiva a escrita de Diario de un poeta reciencasado (1916). Em Nova Iorque, o poeta foi nomeado membro da Hispanic Society os America. O casal regressa a Madrid em 1916, Juan Ramón publica a edição completa do livro Platero y yo, publica livros de poemas, uma «antologia, Poesías escogidas, que inicia um singular processo de publicação da sua poesia: à selecção de livros anteriores junta versos de livros nunca publicados». Traduz, com Zenobia, livros de Rabindranath Tagore, edita várias revistas, entre as quais se destacam Índice, e Ley. A relação com Zenobia é reforçada por uma vida de trabalho conjunto. Viajam por França, Nova Iorque, Porto Rico, Cuba, até finalmente se instalarem em Coral Gables, perto de Miami, iniciando uma profícua colaboração com universidades norte-americanas. Em 1940 o poeta é novamente hospitalizado. As depressões nervosas repetem-se ao longo dos anos. Aconselhada por um médico, Zenobia tenta viver com Juan Ramón em Porto Rico. Não se vislumbram quaisquer melhoras. No final de 1951, a própria Zenobia é operada a um tumor no útero. O poeta sofre uma recaída e volta a ser internado. Em 1956 Zenobia é novamente atacada por uma doença cancerígena. Tenta convencer o marido a regressar a Espanha, para que ele pudesse ficar junto aos seus familiares após a morte que se avizinhava. O poeta recusa. Quando comunicam a Juan Ramón Jiménez a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, Zenobia já não conseguia falar. Morreu três dias depois, a 28 de Outubro de 1956. Juan Ramón morrerá na mesma clínica, um ano e meio mais tarde, a 29 de Maio de 1958.

Fonte: Prólogo de José Bento à Antologia Poética de Juan Ramón Jimenez publicada pela Relógio D’Água.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

ELOGIO DO CINISMO (11)


Onde o corpo político exige a abdicação da soberania individual, o libertino celebra uma política do corpo; onde triunfam, sob todas as suas tonalidades, as variações sobre o tema do contrato social, ele opõe um contrato hedonista, revogável a partir, apenas, do desejo de um dos dois elementos; onde reina o poder político, em última instância com a ajuda da razão de Estado, ele enaltece a paixão singular e individual, o capricho, a vontade de gozar, para ele e para o outro. Associações de egoístas, afinidades electivas e prática política da amizade, o libertino histórico da Trétrade ou das Academias secretas pratica o local hermético como uma metáfora: o cenáculo e o café, a taberna e o salão, o «boudoir» e o fiacre, a casa de campo e o quarto de dormir, o castelo e o pavilhão de caça, o sótão: microcosmos elevados ao estatuto de laboratórios libertários onde triunfam as virtudes partilhadas e a sociedade organizada segundo o princípio de gozar e de fazer gozar.
Estas novas possibilidades de existência fornecem modelos ─ e ainda poderão vir a produzi-los ─ para as intersubjectividades verdadeira e radicalmente hedonistas: cinismo e dandismo, libertinagem e cimento libertário, todas estas forças contribuem a um tempo para desactivar as lógicas do poder ao promover uma micro-sociedade electiva hedonista. No registo do ideal ascético, o poder funciona segundo o modelo da procissão: do mais elevado, sobre e contra a pessoa situada em baixo da pirâmide hierárquica; no do ideal hedonista, ele age por capilaridade, irrigando o conjunto e traçando, na totalidade de um grupo, os brilhos e as cintilações característicos das relações de júbilo.
Onde os outros vêem a função, a pessoa, ele quer a nudez, metafórica ou real, pois age em virtude de uma sapiêncta trágica: o saber consequente, ligado a todo o ateu radical, quanto à igualdade absoluta perante a morte. Esta sabedoria violenta das consciências na proximidade dos ossários, nos campos e nas pocilgas onde se espera a queda do cutelo da guilhotina, supõe que não se perca o seu tempo ─ enquanto se espera pelo momento do trespasse ─ em considerações nas quais as hierarquias poriam um freio aos movimentos de uma atracção apaixonada voluptuosa entre todos os membros da comunidade social, iguais perante o seu destino.
As
Novas Observações sobre a Língua Francesa de 1692 precisam: «Dir-se-á de um homem de bem que nunca se sente estorvado e que é inimigo de tudo o que se chama servidão: ele é libertino». Alguns, como, por exemplo, Vanini, Fontanier ou Vallée, pagaram essa vontade libertina e libertária com a fogueira, fiéis, nesse aspecto, à necessária proximidade entre o pensamento e o perigo (mesmo que os riscos da nossa época possam parecer quase nulos, pelo menos numa França saciada e paralisada pelo egocentrismo, não longe de uma Argélia onde ainda se corta a cabeça do libertino ou o decapitam com uma faca de talho). Amigos e inimigos conhecem os mesmos trajectos, sofrem destinos semelhantes. Não há nada que deva durar mais, melhor e para toda a eternidade do que esta figura libertária construída sobre um princípio anticlerical e ateu.
Enfim, cínico, dandy e libertino, o libertário mostra-se, também, romântico, pois sabe que se comprometeu num combate de Titãs no qual tudo irá perder, excepto a honra. O desfecho não oferece a mínima dúvida: nenhum sacrifício individual bastará para inflectir o curso da História de modo definitivo e duradouro. Nada pode inverter a natureza trágica do real e a permanência das lutas violentas pelo poder. Pelo menos, com a elegância a ajudar, o libertário pode dar o seu último suspiro com a satisfação de uma tarefa cumprida até ao fim, apesar de todas as dificuldades.
Onde o revolucionário imaginava o fim da sua tarefa coincidindo com o fim da história, o libertário, convertido às necessidades do devir revolucionário do indivíduo, aceita a eternidade da sua obra e sabe da impossibilidade da História vir um dia a acabar. Nada de pacificação futura, de sociedade realizada na harmonia, de ideal da razão encarnado nos amanhãs radiosos, mas sim o eterno retorno da violência, da luta pelo exercício de uma soberania paga à custa da sujeição do outro. A vontade hedonista, em política, supõe o desejo exacerbado de uma libertação de si, mesmo do registo da agonia.
O romântico age, solitário, para alcançar o sublime, o seu ideal, evitando qualquer negação ou objectivação de outrem. Pois numa vontade de júbilo generalizada, numa economia global dos desejos e dos prazeres, e apesar do desespero, é preciso gozar e fazer gozar. Por não ser kantiano, o libertário não conta com a improvável universalização da máxima hedonista. Em compensação, no terreno do enxameamento, da capilaridade da proximidade, cada um pode esperar um reencantamento do mundo na sua esfera exclusiva, esperando o entrelaçamento dessas esferas num jogo de combinações múltiplas.
A guerra permanecerá e, com ela, o teatro de sombra e de luz, a estratégia e a táctica, a força e a potência, o mistério e a implacabilidade do que se repete: a natureza e a substância dessa energia guerreira instalada nos interstícios abertos pelos indivíduos que desdobram e desenrolam os seus destinos. O romantismo reside neste saber trágico e desesperado: nada de substancial se modificará; a única esperança, solipsista, jaz na possibilidade de uma escultura de si mesmo. Uma política hedonista desejosa de uma intersubjectividade, no mais neutro dos poderes de sujeição e no mais absoluto dos prazeres de jubilação, engendra uma verticalidade na estruturação de si mesmo, segundo o registo da moral pura.
Onde o mundo guerreiro e as violências sociais vivem de solenidade, de gravidade, de segurança, de comunidade, de brutalidade, de cientismo, de sociologismo e de contrato, o libertário propõe o ludismo, a liberdade, o indivíduo, o romantismo, o trágico e a estética generalizada. Contra o soberano que deseja o grupo, o número e a quantidade, ele realiza a sua própria soberania e autoriza uma palavra susceptível de dizer «eu» e trata de possibilitar o mesmo exercício para cada um. Neste projecto de escultura política de si próprio, a euforia, tão cara ao espírito de Marcel Duchamp, torna-se uma bomba psicológica e portadora de entusiasmo. Daí a intercessão e o devir da obra na acção.


Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 198-201. (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) (9) (10)

sábado, 19 de dezembro de 2009

POETA FAZENDEIRO



Manoel de Barros nasceu em Cuiabá a 19 de Dezembro de 1916. Filho de um capataz influente, tinha apenas um ano quando o pai fundou uma fazenda no Pantanal. Cresceu a brincar na terra, entre gado e plantações, no contacto com as coisas desimportantes que lhe marcaram a poesia. Estudou no colégio interno de Campo Grande e, posteriormente, no Colégio São José dos Irmãos Maristas, no Rio de Janeiro. Dez anos de internato suportados no convívio com a obra do Padre António Vieira. Ao abandonar o colégio, encontrou-se com as palavras de Rimbaud, leu Marx, conheceu alguns engajados, aderiu à Juventude Comunista. O primeiro livro, escrito aos 19 anos, ficou por publicar. Conta-se que procurado pela polícia, depois de ter grafitado um Viva o comunismo numa estátua da cidade, foi livrado da prisão por ter a dona da pensão onde então morava advertido os polícias de que o jovem rebelde era bom rapaz e até tinha escrito um livro: Nossa Senhora de Minha Escuridão. O polícia apreendeu os poemas e deixou o poeta em liberdade. Afasta-se do partido depois de ouvir Luiz Carlos Prestes apoiar o ditador Getúlio Vargas à saída de 10 anos de cativeiro. Termina o curso de Direito em 1949. Regressou ao Pantanal, andou pela Bolívia, Peru, Nova York, onde estudou cinema e pintura. Volta para o Brasil com a insígnia de advogado, conhece Stella e, passados três meses, estão casados. Do casório resultaram três filhos. O primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, tinha sido publicado em 1937. Da primeira edição fizeram-se apenas 20 exemplares artesanais. Avesso a caciques e modas poéticas, permaneceu praticamente anónimo durante vários anos. Em 1960 recebeu o Prémio Orlando Dantas, atribuído pela Academia Brasileira de Letras ao livro Compêndio para uso dos pássaros. Posteriormente, foram-lhe atribuídos muitos outros prémios e a sua poesia é hoje reconhecida como uma das mais originais da literatura contemporânea brasileira. Em minha modesta opinião: Manoel de Barros é um dos poetas mais singulares da língua portuguesa. Em Junho de 2007, as Quasi Edições reuniram-lhe os poemas no volume Compêndio para Uso dos Pássaros – Poesia Reunida 1937-2004:

A DISFUNÇÃO

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de
a menos
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1 ─ Aceitação da inércia para dar movimento às
palavras.
2 ─ Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 ─ Percepção de contigüidades anômalas entre
verbos e substantivos.
4 ─ Gostar de fazer casamentos incestuosos entre
palavras.
5 ─ Amor por seres desimportantes tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 ─ Mania de dar formato de canto às asperezas de
uma pedra.
7 ─ Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais
importância aos passarinhos do que aos senadores.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

DIVINA MÚSICA


Divina Música
Antologia de Poesia sobre Música
Organização de Amadeu Baptista
Conservatório Regional de Música Dr. José de Azerêdo Perdigão
Dezembro de 2009

Três Andamentos, pp. 80-81.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

UM JOVEM POBRE


Há vidas assim, vidas que vale a pena conhecer um pouco melhor, vidas que geram obras, obras que são devidas à vida. 13 de Dezembro de 1911, Niles, Ohio, nasce pobre, cresce pobre, joga à bola, trabalha numa fábrica, ainda menino, trabalha numa fábrica onde ajuda o pai, um operário siderúrgico que não pode, por falta de recursos económicos, sustentar os estudos do filho. Perde a irmã Kathleen na sequência de um atropelamento. Vidas. É verdade que cumpriu os estudos básicos, até publicou alguns textos no jornal escolar, foi apresentado às palavras de Melville, Dante, Shakespeare, entre outros. É verdade que ainda frequentou a Universidade, no Wisconsin, publicou um soneto no New York Times, foi para o Arkansas, pôs-se a andar, fez-se à vida. Vidas. Trabalhou como jardineiro, operário fabril, entre tantas outras actividades enquanto percorria a América do Norte. Foi em trânsito que conheceu e se apaixonou por Miriam Oikemus, durante uma festa de Natal, com quem veio a casar-se em 1934 depois de muitos poemas de amor com dedicatória. Viveram em Greenwich Village, cenário que suportou a escrita do primeiro livro de poemas: Before the Brave (1936). Miriam foi a bengala de que o jovem pobre carecia para poder dedicar-se à escrita, mais ainda depois de uma lesão na espinha que o paralisou em 1937. Sucessivas cirurgias não lhe resolveram a maleita, a qual também não o impediu de ganhar uma bolsa de estudo Guggenheim, escrever mais de quarenta livros de poesia, teatro, prosa, colaborar com John Cage na criação de uma peça radiofónica, estimular o desenvolvimento da chamada Jazz Poetry, inspirar dadaístas, beats, surrealistas, ler poesia acompanhado por agrupamentos de Jazz, enveredar pela chamada poesia experimental e visual, compor variadíssimos picture poems, ser um empenhado pacifista. Poetas como Eliot, William Carlos Williams, e. e. cummings, foram amigos generosos. Em 1967, recebeu da National Foundation on the Arts and Humanities um prémio pela contriuição para a cena literária norte-americana. Mudado com a mulher para Palo Alto, na Califórnia, pereceu a 8 de Janeiro de 1972. Eis um exemplo da sua arte:

REPOUSA, CORAÇÃO DO EXAUSTO MUNDO

Repousa, coração do exausto mundo.
Schiu… adormece.
Homens e cidades mantêm suas frias e terríveis vigílias,
E o oceano rói estas nuas terras da dor.
Schiu… e adormece.

Esta rubra chuva…
Respirar…
Chorar…

Amar onde um só crime se cumpriu…
Achar mocidade, e fé, e a súbita congénie delas,
Sepultas fundo em gralhantes câmaras de horror…
Não.
É que não sabemos ver,
Que não sabemos ouvir
Que não sabemos cheirar,
Saborear, sentir, pensar;
Pois que decerto nenhum crer em céu ou terra
Suportaria o que, parece, possuímos;
Vivemos na sombra de uma sombra maior —
Mas há o sol!
E dele o homem terá vida,
E alívio terá de tantos crimes
Da sua mais brutal habitação…

Ó repousa, coração do exausto mundo.
Schiu… e adormece.
Há um tão belo trabalho para todos os homens,
E acordaremos enfim dentro do sol.

in Perspectivas dos Estados Unidos – As Artes e as Letras, trad. Jorge de Sena, Portugália Editora, s/d, pp. 255-256.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

ELOGIO DO CINISMO (10)


A psicologia das multidões é conhecida. Le Bon, Freud e Canetti perseguiram e narraram as suas deambulações, os movimentos desse animal desprovido de cérebro, a sua ductilidade e submissão quase sistemática aos demagogos, os melhores condutores dessas energias que buscam um mestre, um guia, um chefe. Caudillo em espanhol, Fuhrer em alemão, Duce em italiano, Conducator em romeno, em cada uma destas ocasiões o monstro fornece a oportunidade para captar e raptar energia, em proveito das máquinas totalitárias. Irradia o irracional, triunfam os mofos dos subsolos e as geologias primitivas; as matilhas e as massas desencadeiam potências sempre demasiado devotas a Tanatos para que ainda possamos desejar celebrá-las. Não levar em consideração as lições pessimistas que foram dadas pelo povo prostituído neste século seria um acto culposo. Oferecido aos tiranos imperiosos no seu querer, ele revelou a sua natureza frouxa e o seu tropismo trivial.
Com a revolução industrial entrámos na era em que as multidões nacionais se tornaram planetárias no final do século XX. O que valia, ontem, para umas, vale, agora, para outras: nada de raciocinar, mas, antes, uma existência propensa a agir cegamente, dirigidas para as acções contagiosas e hipnóticas, para a sugestibilidade máxima, a impulsividade e a irritabilidade, para o autoritarismo, o conservadorismo e o simplismo, as multidões apelam ao mestre que lhes ofereça, em câmbio, uma voz e a palavra. Depois, dobram-se ao seu querer, poderosas e perigosas, imperiosas e não suportando a resistência ou a oposição. O dandy fornece a antítese radical do homem das multidões, ele opõe a sua singular vitalidade às pulsões de morte que operam no corpo de qualquer agregado social. O cínico combate o poder dos príncipes e dos poderosos, o dandy o dos povos e das massas. Dandy foi Romain Gary que, chegado ao pé do Arco do Triunfo com as suas medalhas de resistente e de combatente, a sua bandeira e a sua memória, para defender um general De Gaulle que julgava só e abandonado, bateu com os tacões e deu meia-volta, depois de ter descoberto a canalhice da massa, com o ódio assestado para uma cena de caça anunciada.
O populismo age como o inimigo mais certo do povo que, um dia ou outro, esvaziado da sua substância por um ditador ou por um tirano, um demagogo ou um tribuno, deita à rua uma nação exangue por ter querido e seguido as palavras de ordem fixadas por uma retórica activa à maneira do «slogan», do catecismo, da falsa ideia, verdadeira operação de captação e transmutação de energia neutra em negatividade actuante. A soberania directa do povo, a religião do referendo ou os apelos ao bom senso popular, abrem armadilhas sob todas as energias rebeldes e inteligentes. Vem de Baudelaire, esta sentença explosiva: «O verdadeiro progresso (quer dizer, moral) só pode existir no indivíduo e através do próprio indivíduo.» Não há dandismo sem se subscrever integralmente a esta evidência.
Recentemente, Cécile Guilbert propôs uma leitura da obra do último Guy Debord, relacionada com o dandismo baudelairiano. Essa leitura convincente mostra-nos o devir trágico, mas ainda lúdico, de um pensador para o qual a visão do mundo, sob o registo espectacular, e, depois, sob o registo do espectáculo integrado dos últimos anos desse século, constituiu a oportunidade para uma actualização das teses situacionistas da deriva, da psico-geografia, da construção de ambientes, de uma civilização do jogo, do culto do estilo e da recusa dos ídolos do dia. A poetização do real, a escrita artística da resistência libertária, o devir revolucionário de um indivíduo ─ noutros tempos autor de uma teoria coerente da revolução ─ mostra como, no percurso de um mesmo homem, a passagem da sociedade disciplinar à sociedade de controlo, com um estrondo em Maio de 68, induz uma conversão ao convite deleuziano para o devir revolucionário dos indivíduos.
Um dos maiores dandis deste século, Marchel Duchamp, morreu em data oportuna, se considerarmos as correspondências históricas, no dia 2 de Outubro de 1968, após a Primavera quente que conhecemos. Depois de um jantar com Man Ray, Robert e Nina Lebel, no seu apartamento situado no n.º 5, Rua Parmentier, em Neuilly, o pai de toda a modernidade estética depois de Nietzsche, aparelho de engrenagem nietzscheano por excelência, desaparece vitimado por uma embolia, com 81 anos. Numa das suas anotações, podemos ler o seguinte: «A minha arte consistiria em viver; cada segundo, cada sopro respiratório é uma obra que não se encontra inscrita em lado algum, que não é nem visual, nem cerebral. É uma espécie de euforia constante.» O cinismo e o dandismo do libertário supõem esta perpétua euforia que pode ser obtida pelo desejo e pelo prazer na acção.
O devir revolucionário do indivíduo também se encarna nessa transfiguração libertária, que pede emprestada à libertinagem do grande século e, mesmo, das Luzes. Desde as mais antigas definições contemporâneas das reflexões de Graciàn que o libertino caracteriza, em primeiro lugar, o sujeito liberto, aquele que não reconhece nenhuma obrigação, nenhuma lei, nenhum constrangimento e que confessa uma propensão em obedecer à sua queda natural. É já o «nem Deus, nem mestre» ou, antes, nem deuses, nem mestres. Depois, ao afinar-se a definição, com a ajuda de Littré, o libertino caracteriza o indivíduo rebelde em relação a todas as tentativas de sujeição empreendidas contra a sua autonomia e independência. Indócil, insubmisso, rebelde, reticente a qualquer laço social, vive como inimigo das leis, em perpétua oposição às figuras da autoridade encarnadas pelo Comendador. Também gosto de lembrar, à porfia, que em termos de falcoaria, um libertino designa um pássaro que, educado e amestrado para voltar ao braço do seu dono, um dia vai-se embora e não volta mais.


Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 196-198.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A VIDA IDÍLICA


A vida idílica é uma jangada a descer o mississipi, é dormir nu debaixo das estrelas, é pescar um peixe e comê-lo e recusar a civilização.





Não possuo a sabedoria necessária para a determinação da vida idílica. Da dos outros, nada sei; da minha, pouco mais. Posso garantir que o spleen me atulhou na pastorícia, tanto quanto fui colhido pelas bucólicas no centro de algumas cidades. Um mês de mochila às costas foi idílio do qual guardo aquela imagem da coisa mais bela que me aconteceu. É óbvio que me vêm logo à consciência as filhas. Batatinhas: as filhas não me aconteceram, eu é que lhes aconteci. Portanto, um mês de mochila às costas foi a coisa mais próxima da felicidade que me aconteceu. E o resto é tremoços. Passo a explicar sem a tentação de me fazer passar pelo que nunca fui, cigano de trazer por casa ou índio pela trela, tanto faz, passo a explicar o fetiche da marcha. «A palavra «fétiche» deriva duma expressão portuguesa, feitiço; tem implicações de coisa mágica ou encantada, com o significado adicional de coisa embelezada ou falsa, como maquillage» (Bruce Chatwin, Anatomia da Errância). Deu-se o feitiço num Verão de 1998. Agora que penso na velocidade a que os pores-do-sol passaram por nós, nem quero acreditar termos pousado para a fotografia com um sorriso ao lado da campa do Morrison, outra na pedra que assinala a grandeza de Oscar Wilde, ou as pernas esticadas sobre os ossos de Eluard. Não sei se me faço entender. Estávamos em Paris e a vida idílica era um passeio pelo cemitério onde dormem os restos mortais de nomes que nos eram familiares por, como se diz, interposta criação. Logo a seguir encontramo-nos emparedados entre museus. Somos como aquelas estátuas sem cabeça (isto não é uma comparação), somos estátuas sem cabeça, andamos para ali de olhos postos em Vénus quando ainda nem sentimos o metal fundente das torres, as vistas largas nas alturas, a cidade saindo do rio em saltos de rã, para o melhor ser sentido nas escadarias do sagrado coração ou na água fresca com que matámos a sede junto ao Pompidou, depois de eu ter comprado um Sartre para inspirar a noite na companhia das espanholas Lola e Ana. Andámos pelas caves a ouvir Jazz. Era já de manhã quando a fotografia foi tirada. Lola pousa o olhar encandeado pela aurora no meu ombro descaído, a outra mostra um sorriso meigo de mãos nos bolsos. E eu com Sartre a tiracolo e uma vontade imensa de meter mais uma caneca abaixo. Nunca entendi as mulheres. Também nunca me entendi. Não entendo nada.

Retrato-me. Entendo o sol que se põe sobre edifícios milenares, entendo aquela luz que tomo para mim como um idílio somente comparável, sei lá, às pontes de Praga, aos mistérios sem mistério algum na Rua dos Alquimistas, um labirinto por onde Kafka terá andado a arrastar paixões revolvidas. Idílio também esse Anonymus à sombra do qual retratámos toda a nossa existência, no mesmo jardim onde as folhas adormeciam em queda lenta. Budapeste tem, de facto, caves obscuras que nos levam, pela moca ou pela imaginação, às charretes de Viena. Ei-la, a cidade, esperámos por ela tanto tempo, para assim que chegámos querermos ir embora. Tanta limpeza entope-nos o pulmão. «Não sabendo caminhar, dançar, nadar com o universo, o homem constrói brinquedos para si mesmo, isto é, modelos, prende-se a eles» (Kenneth White, O Espírito Nómada). Viena era uma gaiola da qual nos salvámos com um gato veneziano e uma talhada de melancia fresca perto da Praça de São Marcos. Veneza. Com que impressão ficámos de Veneza? Que seria bela, não fossem os homens. Que teria, talvez, a mesma beleza dos ilhéus caindo sobre o mar na viagem que fizemos para Atenas, na copa do Egitto Express, que teria, talvez, a beleza desses ilhéus aparecendo vagarosamente ao largo da vista, revelações surpreendentes para quem nada buscava senão o embalo do vento, Veneza seria tão bela quanto esse espanto não fosse o caso dos homens lhe haverem capturado todo o espanto com suas máquinas fotográficas. Prefiro registar de memória as ruínas de Atenas, uma terra transformada num soneto poluído, uma Acrópole engessada, o fim da civilização há 2000 e tal anos perdida para sempre porque para sempre se perdeu esse espírito com que um dia Diógenes afastou da vista um Imperador que lhe fazia sombra, que lhe tapava o sol. Agora é tudo Roma, eu à procura de uma bebedeira junto à Fontana di Trevi, confissões amigáveis onde se passam modelos, a moda das catacumbas assassinas, a desmemória dos cristãos ali comidos por leões enquanto a turba aplaudia, porque era assim naquele tempo, como agora a indiferença com que se premeiam assassinos, o ridículo, vê bem, de se elogiar a guerra ao receber-se um prémio pela paz. É este o nosso tempo. Também por ele cortámos a cabeça, por isso somos, somos mesmo, acredita, estátuas sem cabeça, quer estejamos em Paris ou em Roma, no berço da nossa consciência ou no tribunal da nossa liberdade.

Que tudo fosse como aquela inscrição inesperadamente encontrada – Animula vagula, blandula - que já conhecíamos das páginas de Yourcenar. Desconhecíamos o paradeiro que ela tem na pedra tumular. E agora que a lembramos, reconhecemos que também nós demos a nossa volta pela prisão, se calhar estamos sempre às voltas pela prisão, como um periquito numa gaiola, como aqueles tigres nas jaulas do zoológico, andando de cá para lá e de lá para cá, às voltas, às voltas, de mochila às costas, de mãos nos bolsos, caminhando pela cidade com o idílio nos olhos ou pelo campo com o spleen epidémico dos anjos com asas de bronze (isto não é uma metáfora). Está-se a acabar o tempo, Ginsberg passeia-se nas avenidas de Barcelona, nós somos o pombo correio que anuncia a catástrofe, temos a tragédia anilhada nos pulsos. «A paixão pela viagem não abandona o corpo de quem experimentou os intensos venenos do desconhecido» (Micel Onfray, Teoria da Viagem). A sagrada família espera por nós, a ela retornamos com a impressão entranhada no corpo de que a vida idílica até pode ser uma jangada a descer o Mississípi, mas não deixa também de ser o trânsito permanente de quem não está bem em lugar algum, às vezes doendo os sorrisos, outras vezes coçando as lágrimas, isto é, cofiando a barba à medida que a pele encarquilha e o hálito apodrece. Por isso mesmo, po isso e por isto, em breve regressarei a Amesterdão.



Nota: a fotografia foi tirada em Budapeste, 1998.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

DOIS DIAS


Uma pesquisa rápida pelos arquivos da net, permite-nos saber que Delmore Schwartz nasceu a 8 de Dezembro de 1913 em Brooklyn, Nova York. Filho de imigrantes romenos, aí foi criado até o pai ter resolvido deixar a família, tinha o pequeno Delmore apenas 9 anos. Diz-se que o divórcio dos pais afectou muito a criancinha, espoletando pequenos demónios que mais tarde lhe exigiram doses consideráveis de álcool, barbitúricos e anfetaminas. As relações amorosas também não foram consoladoras. Viveu seis anos com Gertrude Buckman e separou-se de Elizabeth Pollett depois de ter dado um enxerto de porrada a um crítico de arte que Delmore julgava andar enrolado com a sua mulher. A paranóia contrastou com as capacidades intelectuais, as fragilidades psíquicas só lhe puseram em causa a robustez da inteligência quando já pouco esperava do mundo. Estudou na Universidade de Columbia e na Universidade de Wisconsin, formando-se em Filosofia pela Universidade de Nova York no ano de 1935. Foi-lhe atribuído um prémio pelo ensaio Poetry as Imitation, e em 1937 a Partisan Review publicou-lhe um conto, escrito na clausura de um apartamento, intitulado In Dreams Begin Responsibilities. Foi precisamente este título que escolheu para o seu primeiro livro, publicado em 1938. A história do conto evoca o casamento falhado dos pais. Parece que Eliot, William Carlos Williams, Pound, Robert Lowell e Nabokov ter-lhe-ão reconhecido de imediato o talento. O casamento com Gertrude aconteceu em 1937. Gertrude Buckman escrevia recensões críticas para a Partisan Review. Sem nunca ter concluído o doutoramento em Filosofia, Delmore foi contratado como professor auxiliar em Harvard. Insatisfeito com a inclinação anti-semita que reinava na Universidade, regressou a Nova Iorque em 1947. Entretanto, publicara contos, poemas, peças de teatro, editara a Partisan Review e o The New Republic, traduzira Rimbaud. O casamento com Elizabeth Pollett data de 1948, ano da edição do livro de contos The World is a Wedding. Surgem comparações com Stendhal e Tchékhov. Delmore Schwartz granjeia tal reputação que é convidado a ensinar escrita criativa em várias Universidades. Lou Reed, que foi seu aluno, dedicou-lhe uma canção no primeiro álbum dos The Velvet Underground. Em 1959 é-lhe atribuído o Bollingen Prize, tornando-se o mais jovem poeta a receber este prémio. A colectânea que mereceu o galardão intitulava-se Summer Knowledge: New and Selected Poems. Passou os últimos dias da sua vida em solidão, embriagando-se na White Horse Tavern, sem cheta, sentado em parques onde distribuía cibos de côdea aos passarinhos, com o corpo cada vez mais degradado e a cabeça feita em água. Saul Bellow dedicou-lhe a narrativa Humboldt's Gift (1975). Morreu de ataque cardíaco, no quarto de Hotel onde residia, a 11 de Julho de 1966. Ninguém deu pela sua falta durante dois dias.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

EDUARDO PITTA SOBRE WEBLOGS


Eduardo Pitta, 2000 - 2009 - Os Anos do Caos (Balanço), in revista LER, n.º 86, Dezembro de 2009.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

PERGUNTA AO PÓ

Eis a mais indiscutível lei da vida: enquanto uns morrem, outros nascem. 2009 há-de ficar marcado pelo nascimento da Ahab Edições, uma editora sediada no Porto à qual devemos uma das melhores surpresas, se não a melhor, do ainda corrente ano. Refiro-me, obviamente, à primeira edição portuguesa de Pergunta ao Pó (Ask the Dust, 1939), para muitos a obra-prima do escritor norte-americano John Fante (n. 1909 – m. 1983). Com tradução irrepreensível de Rui Pires Cabral, o romance é precedido por um pertinente prefácio assinado por Charles Bukowski. A quem tenha escapado a história, convém lembrar que foi graças às exigências do autor de A Sul de Nenhum Norte que, na década de 1970, a editora Black Sparrow ressuscitou a obra de Fante, um escritor esquecido e enterrado cuja influência na escrita de Bukowski veio a revelar-se determinante: «Qual é o seu autor preferido? / Fante. / John Fante. Ask the Dust, Wait Until Spring, Bandini. / Onde podemos encontrar os livros dele? / Eu encontrei-os na biblioteca municipal; na esquina da Fifth Avenue com a Olive Street, não é? / Porque é que gosta dele? / É a emoção absoluta. Um homem muito corajoso» (in Mulheres, trad. Fernando Luís, Dom Quixote, 1992, p. 200).

Que eu saiba, este é o segundo romance de John Fante a ser publicado em Portugal. O primeiro foi A Confraria do Vinho (The Brotherhood os the Grape, 1977), editado pela Teorema em 2007. A escrita de Fante é confessadamente autobiográfica. O autor recorre com bastante frequência a um alter-ego, Arturo Bandini, para explorar os seus temas predilectos, nomeadamente os problemas de identidade dos ítalo-americanos, conflitos familiares diversos e a vida agreste de escritores em busca da afirmação. Há um elo evidente entre Bandini e John Fante. São ambos descendentes de italianos emigrados, nasceram os dois no Colorado, mudaram-se para a Califórnia com o desejo da escrita em mente: «nasceste pobre, filho de camponeses depauperados, empurrado para aqui e para ali porque eras pobre, fugido do teu Colorado natal porque eras pobre, e agora erras pelas sarjetas de Los Angeles porque és pobre e esperas escrever um livro que te faça rico, pois aqueles que te odiavam no Colorado deixarão de te odiar se o escreveres» (p. 27). A realidade e a ficção confundem-se nesta obra, a fronteira torna-se indiferente porque as palavras que se nos oferecem vêm animadas pelo sangue que as viveu.

O primeiro romance de John Fante foi publicado após várias tentativas falhadas de publicação na The American Mercury. A insistência valeu-lhe a admiração do editor H. L. Mencken, que não só lhe publicará os primeiros contos como o ansiado romance de estreia Wait Until Spring, Bandini (1938). Antes, Fante tinha escrito The Road to Los Angeles (1933), o qual só postumamente, já em 1985, viu a luz do dia. Pergunta ao Pó foi a segunda obra de maior fôlego a ser editada. Além de romances, Fante escreveu contos e argumentos para filmes, muitos deles nunca adaptados. Estes argumentos surgem num contexto de absoluta necessidade material. Casado com Joyce Smart desde 1937, o escritor viu-se na obrigação de arranjar um sustento que os livros não garantiam. Os «dias de míngua» narrados em Pergunta ao Pó, vivendo em quartos arrendados, alimentando-se à base de laranjas, contando os trocos, os dias de vadiagem, não podiam continuar. A vida de Hollywood foi um tubo de escape transformado em pesadelo. Mais tarde, acabará por se mudar com a família, mulher e filhos, para Malibu.

Mas o que nos é narrado em Pergunta ao Pó não se resume a um relato das privações sentidas por um jovem a braços com o desejo de se afirmar enquanto escritor. O registo humorístico alterna com passagens de uma ternura impressionante, a capacidade de convocar situações que permitem traçar o essencial de uma personalidade hesitante, tão cruel quão apaixonada, permitem-nos formular uma imagem de Fante a partir da caricatura que acaba por ser Arturo Bandini. É neste contexto que o amor sentido por Camilla Lopez, uma empregada de café de origem mexicana, nos situa num lugar de desolação que tem por fundo a paisagem do deserto de Mojave. O termo da história é de uma comoção sem limites. A imagem de Bandini a lançar um exemplar do seu primeiro romance na direcção que a amada em fuga havia tomado faz-nos pensar numa espécie de conflito presente em toda a obra: um conflito, nem sempre claro, entre o acto de escrever e o sentimento de amar.

É curiosa a ternura pela mãe que Fante faz aparecer nos seus romances, ao mesmo tempo que denota um certo desprezo pelo pai. As origens católicas contrastam com momentos de absoluta descrença, a pobreza material é um estado a superar que perde toda a importância perante a compaixão sentida pelos outros, Bandini muda de ideias com extrema facilidade, pensa com o coração e o coração é-lhe pautado por um “mas” inalterável ─ «Arturo Bandini, nem carne nem peixe nem coisa nenhuma» (p. 120) ─, a inconstância parece ser o que de mais constante há na sua personalidade. Só não vacila nesse desejo de afirmação a partir da escrita. Sendo assim, somos levados a crer que há entre Bandini e o acto de escrever uma ligação que se mantém vertical perante os terramotos do amor. Não que uma realidade se sobreponha a outra. Na vida real, acabarão por estar tragicamente unidas. Em 1955 John Fante descobre-se vítima de diabetes. Amputam-lhe uma perna. Em 1978 fica praticamente cego. Dita a Joyce, sua mulher, as páginas de Dreams From Bunker Hill (1982), o seu último romance publicado em vida. Uma curiosidade: Pergunta ao Pó foi adaptado ao cinema por Robert Towne, com Colin Farrell no papel de Arturo Bandini e Salma Hayek a recriar Camilla Lopez.
Escrito para o Rascunho.