Sábado, 31 de Outubro de 2009

LIQUIDAÇÃO DE INVERNO



1.VIII.1981

Olha o ajuntamento na calçada,
o bolo humano denso, silencioso,
a paralisia coletiva...
Que foi que aconteceu?
Crime, suicídio, bomba, um novo deus?
Calma, não te assustes.
Precisas acostumar-te com a cidade
e seus ritos pendulares.
Não viste nos jornais aquele grito
e nas vitrinas as vermelhas tiras
anunciando em voz e cifra
Liquidação
Liquidação?

Agora vejo que esse grupo
indecifrado logo se esclarece.
Homem nenhum, ou quase. Só mulheres,
pois só mulheres sabem quando é hora
de (formigas) comprar para guardar.

A porta está fechada? Mas no aquário
de lãs tricôs camurças couros
quatro consumidoras são servidas,
outras quatro, cá fora, esperam vez.
Esperar resignado
de quem sabe que tudo anda difícil
e até os ossos do festim ,
têm que ser disputados como pérolas.

Outras quatro mais quatro vão entrando
no longo dia lento, frio.
O casaco de acrílico de 1000
961 por 900
e 84, uma pechincha. A calça
jeans
para menina, a camisola, a jardineira,
meu Deus, o casacão, o
plush,
tudo ficou barato de repente
ou dá a ilusão de ser barato,
convida, chama, intima:
Me compra rapidinho, enquanto o inverno
faz que vai mas não vai, e está gelado
o corpo, o quarto, o amor e tudo mais.

Liquidação, palavra mágica,
seu fundo de negrume e seu clarão.
Liquida-se um império,
uma política, um chefe, uma doutrina,
e nas vazias prateleiras outras formas
se acumulam, aguardam
o tempo de murchar, o desapreço
do preço baixo, a remarcada
voga da estação, como se tudo
durasse um quarto de ano: juramentos,
códigos, angústias, braceletes,
sandálias, planos...
E dura, e dura mais?

...e seu clarão.
Liquidadas as modas sazonais,
restaura-se a esperança na vitrina.
O jogo do futuro nos cativa.
A primavera, juro, vai trazer
o inolvidável prêmio de existir.
Seremos todos jovens. Ninguém mais
se lançará da ponte, ou traficâncias
fará contra a sorte dos humildes.
Todos serão humildes, na alegria
de um tempo verdejante...

Calma, não sonhes tanto.
Liquidação é apenas
porta deixando passar
compradores de saldos.
Se queres o brinquedo
de jogar com palavras, preferível
esta, que te dou entre dois goles
de papo vespertino: liquidâmbar.
Gostaste? Seu olor resinoso
o nariz te penetra e reconforta
a poluída garganta? Esquece, esquece
as liquidações que não liquidam
a carga de injustiça e desamor
pairante sobre a vida,
seja inverno ou verão, outono ou primavera.


Carlos Drummond de Andrade (31 de Outubro de 1902 — 17 de Agosto de 1987), in Amar se Aprende Amando, 22ª edição, Editora Record, 1999, pp. 166-168.

2666


Quase a terminar 2666, mais concretamente na p. 967, os revisores que trabalham na editora do Sr. Jacob Bubis, divertem-se a falar de um livro intitulado Museu de Horrores, onde um caçador de gralhas chamado Mas Sengen recolheu um vasto conjunto de lapsus calami copiados de grandes obras da literatura mundial. Não sabemos se Roberto Bolaño (n. 1953 – m. 2003) pretendia figurar nesse museu, mas é o que parece quando lemos isto: «Esta era uma desconhecida, mas, coisa curiosa, ninguém soube dizer como se chamava. (…) Algumas pessoas, não muitas, sabiam que se chamava Isabel, mas quase todo a gente [sic] a conhecia como a Vaca» (p. 480). É possível que exista aqui mais uma dose dessa auto-ironia que paira sobre todo o romance, mas a verdade é que a primeira edição portuguesa de 2666 (Quetzal, Setembro de 2009) apresenta vários problemas de tradução e é uma calamidade no que se refere à revisão. O festival que acompanhou o lançamento e a promoção do livro, seguido de entusiasmos mais ou menos compreensíveis, não pode fazer calar a falta de cuidado patente nesta primeira versão portuguesa de um romance a todos os títulos invulgar.

Não me alongarei nos exemplos, que são uma “catrafada” (sic, p. 421) deles, mas não posso deixar de referir inúmeros e irritantes obstáculos nos quais vamos tropeçando ao longo das 1025 páginas do romance − «não para o mar nem para a para a praia a transbordar» (p. 100), «eu viu a testa de hidroterapia do cólon» (p. 500), «No México Lotte ficou ainda permaneceu mais um bocado com o telefone colado à orelha» (p. 1022), etc., etc., etc. −; a cidade de Phoenix transformada em Poenix (p. 626); frases com uma pontuação e uma construção bastante duvidosas; uma carta atribuída a Rosa, na p. 203, que, na realidade, foi escrita por Lola, mãe de Rosa; um uso, “quanto muito” (sic, p. 214), bastante discutível dos advérbios aonde e onde; uma Michele Sánchez Castillo que, na página seguinte, passa a chamar-se Michel Sánchez para, na página seguinte, voltar a ser Michele e, 5 linhas depois, transformar-se novamente em Michel (pp. 642-645); referências a um escritor russo que tanto se chama Tosltoi (pp. 815 e 829) como Tolstoi; assim como referências a um livro intitulado Considerações sobre a Morte de Evguenia Bosh, suposto pseudónimo da dirigente bolchevique Evguenia Gotlibovna, que, em boa verdade, se chamava Bosch e não Bosh… A extensão de 2666 não pode servir de desculpa. Temos lido romances igualmente extensos onde não se verifica a mesma profusão de gralhas.

A excepcionalidade da obra-prima de Bolaño merecia, pois, uma tradução igualmente excepcional, uma tradução que não enfermasse do mal que parece ser regra entre as traduções portuguesas. A leitura só não sai de todo prejudicada por mérito exclusivo do autor. 2666, publicado postumamente cerca de um ano após o desaparecimento do escritor chileno, foi dividido em cinco partes, as quais correspondem a cinco romances que deveriam ter sido publicados separadamente por razões meramente económicas. Que tenham sido publicados em conjunto é uma decisão mais que acertada, pois as ligações entre as cinco partes não só acabam por ser facilmente inteligíveis como tornam explícita a mestria de Bolaño na arquitectura deste monumento. As comparações com o Ulisses de Joyce são descabidas. Ulisses é uma complexa teia de géneros literários, repleta de artifícios que nos mergulham numa aventura pelo inconsciente, ao passo que 2666 chega a ser cinematográfico. De resto, são várias e nada ingénuas as referências cinematográficas que aparecem ao longo das cinco partes que compõem o romance. A ter de haver alguma comparação, ela deve ser feita com a capacidade de reinventar a organização espácio-temporal de uma narrativa que reconhecemos, por exemplo, num William Faulkner (aludido na p. 943).

Deste modo, podemos afirmar que toda a narrativa de 2666 conflui para um tempo (final do séc. XX, início do séc. XXI) e para um espaço (cidade de Santa Teresa, na fronteira do México com os EUA), embora esses tempo e espaço sejam apenas o ponto de referência para uma deriva histórica e transfronteiriça que nos transporta entre a Alemanha de 1920 e o mundo actual. Esta viagem é feita através do percurso de vida de Hans Reiter, um jovem que se converteu num escritor obscuro chamado Benno von Archimboldi. Se repararmos bem, é von Archimboldi quem ecoa do princípio ao fim do romance, embora as cinco partes se vão ligando através de correlações entre outras personagens. Se na primeira parte – A Parte dos Críticos – está em evidência a relação entre três catedráticos e uma professora de literatura alemã especializados na obra de Benno von Archimboldi, não deixa de ser verdade que é em Santa Teresa que a primeira parte se resolve e é lá que vamos encontrar, pela primeira vez, o melancólico professor de filosofia que estará em evidência na segunda parte – A Parte de Almafitano. Por sua vez, é nesta parte que nos cruzamos primeiramente, de forma ainda algo incipiente, com Rosa Almafitano, uma das personagens centrais da terceira parte – A Parte de Fate −, por quem o jornalista afro-americano Oscar Fate se apaixona. Na terceira parte somos introduzidos de forma mais clara num tema que percorre todo o romance, os estranhos assassínios de mais de 200 mulheres em Santa Teresa, tema esse que estará em evidência na quarta parte – A Parte dos Crimes. Nesta parte conheceremos Klaus Haas, o principal suspeito no caso dos assassínios, um alemão com ligações ao escritor Benno von Archimboldi que estará em evidência na última parte de 2666A Parte da Archimboldi.

A construção circular de 2666 lembra-nos um tornado, um fenómeno que arrastará durante 1025 páginas todo um historial humano cujo retrato final é impiedoso e obriga-nos a recolocar a questão da natureza humana: quem somos nós, neste início de um novo milénio, entre os destroços de um edifício arruinado pela nossa própria incúria? Bolaño mostra-se implacável quando narra a violência que nos persegue desde sempre, dos sacrifícios astecas à Segunda Guerra Mundial, das perseguições a intelectuais na ex-URSS aos crimes insolúveis de Santa Teresa, das lutas travadas pelos afro-americanos aos crimes e ao racismo exibidos sem critério e impunemente nos media actuais, da bisbilhotice e da intriga entre intelectuais ao jornalismo sensacionalista, da promiscuidade entre poderes e criminosos à prostituição de altas e baixas esferas, dos snuff movies à… Enfim, um retrato violentíssimo do mundo que chega a ser fastidioso n’A Parte dos Crimes, com a descrição de dezenas de assassínios de mulheres, quando não hilariante nos detalhes cruéis que impelem o leitor para um abismo de desolação, desamparo, desencanto, desesperança que, ao fim e ao cabo, é o abismo da loucura.

Em todas as partes que compõem 2666 vislumbramos esse abismo da loucura motivado pela violência, por vezes de forma muito subliminar nos sonhos/pesadelos que as diversas personagens vão revelando, outras vezes, de um modo muito claro, na presença frequente da figura do manicómio. Temos Edwin Johns, o pintor que impulsionou o novo decadentismo ao pintar o auto-retrato mais radical dos últimos anos, depois de ter cortado uma das suas mãos e de a ter colado numa tela; temos o poeta homossexual que vive no manicómio de Mondragón, a fazer-nos lembrar Leopoldo María Panero; temos a Drª Elvira Campos, directora de um manicómio, e o seu inventário de fobias, ao mesmo tempo que temos a vidente Florita Almada e o seu inventário de artes divinatórias; temos todo um rol de situações que nos permitem olhar para 2666 como um espelho do mal, um deserto com muitos corpos enterrados, um cemitério onde há muito vem sendo sepultada a natureza humana, porque «a loucura é contagiosa» (p. 211), «as pessoas vêem o que querem ver e o que as pessoas querem ver nunca corresponde à realidade» (p. 258). «Os gregos inventaram, por assim dizer, o mal, viram o mal que todos tínhamos dentro de nós, mas os testemunhos ou as provas desse mal já não nos comovem, parecem-nos fúteis, ininteligíveis» (p. 310). Talvez a intenção de 2666 seja voltar a comover-nos. Talvez.


Escrito para o Rascunho.

DA VIDA IMPURA OU MELANCÓLICA



Nós os da vida impura ou da memória obscena ─ isto é ─ aqueles
que cultivámos com amor o medo e a coragem destruindo
o sentido às palavras de cura-fácil ao tempo (
por
exemplo: "a vida são três dias, procuremos
a justa medida a esperteza saloia,
para o.k. papá-los sobre a terra"),
nós os da vida impura os que aprendemos
o métier de jardineiro-fantasma
nos jardins do crime da ausência e da loucura,
nós os da vida impura por fim (
porra!) amanhecemos
numa cama de pregos dura e sem pele de faquir para a arte
de bem dormir em toda a sela...
- como aliás
aconteceu com d. duarte de quem lemos
um tratado que ele não soube ao que parece
aplicar a si próprio quando, adoecendo de melancolia,
não cavalgou a morte em vida
tão comodamente como quereria...

─ Nós os da vida impura temos naturalmente
os dias mais cortados por meandros de sangue. E
naturalmente não valia a pena:
os alunos
de psicologia(zinha) do 1º ano já disseram
que um homem nasce cresce faz amor e morre e isto
─ muito particularmente quanto à morte ─
está pacificamente comprovado em todas
as estatísticas sobre as quais se engendra
sem desvio-padrão, em todas as empresas,
a selecção de mulheres belas (para puta-fina)
de crianças vulgares (para empregado de mesa) e
d’homens-pau (para toda a obra) como aconteceu
no caso da média-empresa dgs-pide
isto ao tempo
de silva-pais gerente ao mando e com subsídio
de terror de estado permanente...
─ MAS CALMA, CALMA, ISTO NÃO É AINDA
O PRINCÍPIO NEM O FIM DO MUNDO é só
talvez um pouco tudo triste para nós os que
recebemos baptismo no silêncio
.(1)


(1) Estes últimos quatro versos "forçam" aqui o título de um (belo) livro de Manuel António Pina a uma citação por corruptela mais ou menos parafrásica. De M.A.P., aliás, poema "Tempos Não", aqui lembramos ainda: "Os tempos não vão bons para nós os mortos /... .../ as palavras esmagam-se entre o silêncio / que as cerca e o silêncio que transportam".



J.O. Travanca-Rêgo (n.31 de Outubro de 1940 - 2003), in Da Poesia ─ dois segmentos, Black Sun Editores, Junho de 1999.

Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

ADÍLIA LOPES

Isto é um elogio: só conheço uma pessoa em Portugal a escrever assim sobre poesia. Se essa pessoa não for quem escreve no Contra Mundum, então junto ao elogio uma boa notícia: há duas pessoas em Portugal que escrevem lindamente sobre poesia (o que é extraordinário, tendo em conta as mais que batidas e debatidas limitações do mercado). Acontece que não concordo com muito do que se afirma no post dedicado ao livro Dobra, a mais recente reunião da poesia de Adília Lopes. O primeiro parágrafo começa mal, ao falar de um “palhaço triste”, de uma “escrita patológica”, de uma “aparência de ruptura”, reduzindo a Obra de Adília - agora Dobra - a uma suposta construção da personagem Adília. E diz: «Quando um projecto artístico vive da desconstrução de uma convenção, ele instala-se, por isso, num plano estranhamente convencional: vivendo da ou contra a convenção, perde parte importante do seu significado simbólico e artístico com o enfraquecimento da própria convenção». Isto enviou-me directamente para um dos argumentos de Zenão: «Se existe um lugar, ele está em alguma coisa, porque tudo o que existe está em alguma coisa; mas o que está em alguma coisa está também num lugar; portanto o lugar deveria estar, ele próprio, num lugar, e assim até ao infinito; portanto, não existe nenhum lugar». Ou seja, a poesia de Adília Lopes vive da desconstrução de uma convenção; mas ao viver disso ela torna-se convencional, transforma-se ela própria numa convenção; logo, não existe nenhuma convenção. O que existe é uma escrita à qual alguém um dia chamou projecto, uma escrita que só é olhada como projecto artístico por quem não conseguir ler nela uma ausência de projecto, uma vida passada à palavra sem adereços “artísticos”, “literários”, “simbólicos”. Prefiro ler os poemas de Adília como quem olha para um seixo na praia que se distingue dos demais seixos na praia. Não há simbologia, não há literatura, não há intenção artística no seixo, há apenas um corpo sólido (neste caso, diferente de todos os outros). Se bem entendi, a leitura acima aludia parte de dois princípios pouco claros. O primeiro é o de que possa haver uma escrita [poética] não-patológica. Creio que a escrita poética se distingue das demais precisamente por essa dimensão patológica. Refiro-me, obviamente, à dimensão anormal da linguagem poética, uma linguagem que não nos divorciando do mundo, oferece-nos esse mundo sob a forma de um evento que cada um experiencia subjectivamente. A linguagem poética apresenta-se-nos patológica na medida em que “transgride”e “desarruma”, com mais ou menos clareza, uma tensão permanente entre o sujeito que escreve e o mundo que é escrito (do qual o próprio sujeito faz parte), assim como entre aquilo que fica escrito, o poema, e aquele que o leia. Tudo o que existe nesta relação entre mundo-autor-leitor é caótico, não tem lei, corrompe a higiene dos discursos objectivantes e instala o delírio, um registo doentio. Tal como a música, tal como a generalidade das artes, a palavra poética tem essa força de colocar o ser no limite da alienação. Na poesia de Adília Lopes isso torna-se ainda mais evidente pelo retrato tantas vezes cómico, humorístico, anedótico (por que não?), pela tonalidade tantas vezes «burlesca, ridícula, grotesca» em que a realidade e o Eu surgem (a)tingidos, mas sempre com uma capacidade perturbadora que advém desta estranheza: um riso aparentemente tão simples, tão directo, tão obvio, que, afinal, denota uma traumatologia profundamente triste. Afinal, quem gosta de sentir à superfície, com uma clareza desarmante, o que seria mais normal permanecer no inconsciente ou, quando muito, maquilhado com o rímel da metáfora? Daí o palhaço triste, que, neste caso, actuará desnudado, exposto também sob os holofotes de quem o olha sob o prisma higienista das linguagens saudáveis. Um palhaço doente ou um leitor doente? Uma escrita patológica ou uma leitura patológica? Talvez nos confrontemos com um reflexo pouco agradável, que é o reflexo, afinal, da mentira em que vive aquele que vive poeticamente correcto, se passarmos a ler Adília Lopes com outros olhos que não apenas os olhos de quem procura um projecto artístico, uma personagem ensaiada e, de algum modo, cultivada pelos que apreciam o aspecto caricato da extravagância. Não terá a personagem, então, sido construída mais por quem lê do que por quem escreve? E se assim for, deverá o trabalho de um poeta ser simplesmente julgado pela avaliação mais recorrente e, por isso, mais convencional? Afinal, que poeta não é uma personagem de si próprio? Alguma vez a poesia foi outra coisa senão fingir que se finge? O que torna a poesia de Adília Lopes ainda mais fascinante é, precisamente, essa percepção de que a fusão gera confusão, tanto quanto a cisão não parece fazer sentido, ou seja, a personagem finge que é a autora tanto quanto a autora finge ser a personagem. E, vai-se a ver, os gatos são mesmo os gatos, as baratas são mesmo as baratas, Adília Lopes é mesmo Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira.

Quanto ao resto, estou em sintonia com isto:

Pouca poesia portuguesa é tão sexual quanto a de Adília Lopes. E, no entanto, não há nela nada ou quase nada de sensual ou de erótico. Não sendo lugar de manifestação do corpo enquanto corpo, a sexualidade surge antes como uma tentativa de fuga à pobreza de um corpo entendido como prisão (veja-se, por exemplo, o texto Body Art). Não há aqui, mesmo quando parece, nenhuma celebração da sexualidade. Se o corpo se faz obstáculo, só nele e no sexo se poderia encontrar uma saída, mas essa está vedada pelo próprio corpo: não há escapatória, nem mesmo enunciar os seus limites enquanto escrita.

A DESOBEDIÊNCIA CASTIGADA


Não foi culpa minha
se caí na selha e se meu irmão
correu para dentro a chamar
o criado que a mana estava
a molhar os vestidos quando eu
estava mas era a afogar-me
não foi culpa minha
se desobedeci a minha mãe
por sem sua licença passar a ferro
o vestido azul da boneca e assim
fazer no pulso com o ferro em brasa
uma queimadura rubra e sépia
como uma pétala de rosa macerada
que escondi com um lenço que anda
a menina a esconder com o seu lenço
nada minha mãe nada é uma arranhadela
que o gato arranhou por o não querer largar eu
não foi culpa minha
se a criada esqueceu a porta das traseiras
aberta e eu tropecei no degrau
e caí no lajedo e parti a cabeça
para ainda hoje trazer na testa
uma cicatriz que disfarço
com uma madeixa de cabelo
não foi culpa minha
se porém sempre por desobediência
minha mãe me privou da sobremesa


Adília Lopes, in Obra, Mariposa Azual, Dezembro de 2000, p. 111.

POLÍTICA E POESIA

O analista político é um criminologista. O crítico de poesia é um dissecador de cadáveres.

RTP2


O Manuel foi operado, não tem dores, deixaram-lhe o intestino limpo, pronto para um bacalhau na brasa mergulhado em azeite não tardará muito. O Rodrigo está cumprido como um raio para quem tem um mês e meio, iremos aos figos daqui a uns anos, ele a apanhá-los, eu a comê-los até ficar como mais gosto de estar, bêbado. A Maria passou pela livraria, estava sorridente e com os olhos brilhantes, já não vai ser operada, o corpo pregou-lhe uma partida e dizem que Deus nosso senhor ajudou. Por mim tudo bem, as crianças dormem um sono sossegado, o cão está calado, a mulher também, quero dizer, também dorme. No Afeganistão uma rapariga de 20 anos sonhava ser cantora, foi a um programa de televisão, deixou cair o véu e dançou, ameaçaram-na de morte e agora vive com medo, a cantar em silêncio e a dançar em sonhos.

O'NEILL DIXIT

O'Neill disse: O crítico escreve para o pequeno clã, um grupo, uma «panelinha»... (...) Os críticos são uma chatice. E eu concordo. O'Neill também disse: ...eu não gosto do António Osório. Não gosto desse fulano porque é um sossegado da vida... A Poesia suponho que será... será sempre... o deixar as coisas fora do sítio. Será sempre desarrumar as coisas. Quando toda a gente julgue que está tudo arrumado e agora vamos por aí abaixo tranquilos, é mentira. É exactamente o que faz o desgosto desse poeta que, aliás, tem coisas atraentes... tem, tão atraentes como um sofá! Ele tem coisas atraentes como um sofás. Deve ser um tipo que gosta muito... da sua vida cómoda... do seu conforto. Sente-se que é uma poesia confortável, de quem aprecia o conforto e para mim a Poesia é exactamente o contrário. E eu também concordo.

CAIM

Entram mãe e filha. A filha pega num exemplar de Caim e mostra-o à mãe, ao que esta responde com uma expressão de asco, diz ai credo, leva a mão à testa e depois lança o braço para a frente como se estivesse a afastar o demónio. Olha para mim e sentencia: Agora diz que Deus é mau e que a Bíblia não presta. Já não lhe falta muito para saber que Deus existe. E o mal dele é que Deus lhe vai perdoar.

Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

CHARLECOTE GARDENS



Entregas as rédeas da vida ao teu gémeo,
um monstro de maneiras impecáveis.
Viver é ser cúmplice da estupidez do mundo,
decerto as tuas próprias ilusões to dirão.
Já deste de comer ao escuro no teu quarto
e sabes que foste precedido em todos os teus
pensamentos. Mas descansa. Tem fé.
Não foste o primeiro nem serás o último
a deixar morrer a alma antes do corpo.

Ela ressuscita.



Rui Pires Cabral, in Praças e Quintais, Averno, Abril de 2003, p. 12.

REGRESSO

Auspicioso regresso ao trabalho. Esqueçam o Dan Brown e o dos Santos e afins destacáveis, as edições Ahab acabam de publicar Pergunta ao Pó, de John Fante, com prefácio do Bukowski e tradução do Rui Pires Cabral. Melhor é impossível. Uma voltinha pelo mundo permite-me encontrar Dennis McShade na literatura estrangeira. Em compensação, Jorge Luis Borges está os autores lusófonos. Chéri, de Colette, é um livro de Organização e Gestão de Empresas. Quem Mexeu no Meu Queijo é Psicologia. Por fim, os clientes. Continuam simpáticos, atentos, compreensivos e compreensíveis. Uma senhora procura um livro com um número na capa, não sabe qual, sabe que é de um autor estrangeiro. 2666? Não. E então começo a pensar em livros com números na capa. São mais que as mães. Tem a certeza que é de um autor estrangeiro? Sim. Não será 1808? Não. E O Codex 632? Também não, esse conheço, o livro é de um autor estrangeiro. Sabe alguma coisa sobre o livro? Sei que é sobre o que aconteceu às pessoas que leram o livro, o número é o número de pessoas que leram o livro. Isso não me é estranho. Não será o 333? É capaz de ser isso. É sobre o impacto dos 333 exemplares impressos de um livro na vida de cada um dos seus leitores. É isso mesmo. O autor chama-se Pedro Sena-Lino? Isso mesmo, eu bem lhe dizia que era um autor estrangeiro.

Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

RECUSA


Gosto muito mais
De olhar as estrelas
Que de assinar uma sentença de morte.
Gosto muito mais
De escutar a voz das flores
Que murmuram: 'é ele!',
Quando passo pelo jardim,
Que ver as armas
Que mataram aqueles
Que me querem matar.
É por isso que eu nunca,
Nunca,
Serei governo!



Velemir Khlebnikov (9 de Novembro de 1885 [28 de Outubro no calendáro juliano] – 28 de Junho de 1922), in Antologia da Poesia Soviética, trad. Manuel de Seabra, Editorial Futura, Dezembro de 1973, p. 58. His life was full of resettlements; he had no home, no employment, and no money. Yet, wherever he lived, the poet was possessed by creative work, thinking and research. A scholar and fantast, a poet and essayist, he was fully immersed into creativity.

A VIDA SEXUAL DE UM CONHECIDO POETA

Um poeta acmeísta e a sua mulher reduzidos à miséria e à indignidade sem repouso. Um casal que a partir da pobreza e da marginalização constrói um jogo muito simples. O jogo do sexo. A mulher do poeta fode com outros. Não com outros poetas, pois o poeta e consequentemente a sua mulher estão na lista negra e os outros poetas fogem deles como se fossem leprosos. A mulher é muito bonita. (...) Lindíssima. Uma mulher imponente. Profundamente apaixonada. O poeta também fode com outras mulheres. Não com poetisas nem com as mulheres ou irmãos de outros poetas, pois o acmeísta em questão é veneno ambulante e todas o recusam. Além disso, não pode dizer-se que seja bonito. Não, não. É até feio. O poeta, no entanto, fode com operárias que conhece no metro ou na fila de alguma loja. Feio, feio, mas de trato doce e uma língua de veludo.
(...) Com efeito, o poeta pode recitar, pois a sua memória é boa, as poesias mais tristes, e as jovens e não tão jovens operárias derramam lágrimas quando o ouvem. Depois vão para a cama. A mulher do poeta, cuja beleza a exime de ter boa memória, mas cuja memória é ainda mais prodigiosa do que a do poeta, infinitamente mais prodigiosa, vai para a cama com operários ou com marinheiros de licença ou com imensos capatazes viúvos que já não sabem o que fazer com a sua vida e com a sua força e aos quais a irrupção desta mulher maravilhosa parece um milagre. Também fazem amor em grupo. O poeta, a mulher e outra mulher. O poeta, a sua mulher e outro homem. Geralmente são trios, mas por vezes são quartetos e quintetos. Às vezes, guiados por um pressentimento, apresentam com pompa e grande protocolo os seus respectivos amantes, os quais ao fim de uma semana se apaixonam entre si e nunca mais voltam a vê-los, nunca mais voltam a participar naquelas pequenas orgias proletárias, ou talvez sim, isso nunca se sabe. De qualquer modo, tudo isto acaba quando o poeta cai preso e já ninguém sabe nada dele, porque o assassinam.



Roberto Bolaño, in 2666, trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, Setembro de 2009, pp. 843-844.

EFRAIM IVANOV

E agora estamos na União Soviética, durante a Segunda Grande Guerra. Efraim Ivanov é mais uma daquelas personagens secundárias que faz toda a diferença. 2666 está pejado delas. Esta aparece na última parte do romance, A Parte de Archimboldi, a páginas 815. Escritor russo, autor de obras de ficção científica, tentou primeiramente escrever contos à maneira de Tosltoi (sic ou mais uma prova de que a edição portuguesa de 2666 precisa de uma revisão urgente), Tchekov e Gorki, voltando-se posteriormente para os estilos de Odoevski e Lazechnikov. Na segunda investida, o plágio não lhe correu mal, «em parte porque os leitores tinham esquecido, com essa falta de memória característica dos leitores, o pobre Odoevski (…) e o pobre Lazechnikov (…), e por outra parte porque a crítica literária, tão perspicaz como sempre, nem extrapolou nem ligou pontas nem se apercebeu de nada». Inesperadamente, a escrita de Ivanov sofreu uma paragem, mas este nunca deixou de frequentar «os locais onde se reunia a boémia moscovita e a vodka». O sucesso chegou com um conto intitulado O Comboio dos Urales, onde uma criança, que ia visitar o avô, um ex-combatente do Exército Vermelho, descrevia a Rússia reluzente de 1940 enquanto viajava num comboio. Chegaram cartas à redacção da revista onde o conto foi publicado solicitando mais colaborações de Efraim Ivanov, «um autor que infunde fé no futuro pelo qual estamos a lutar». O tom de Bolaño é irónico, traça uma caricatura da escrita panfletária que proliferava na ex-URSS. A caracterização de Ivanov quando a fama lhe envelhece é absolutamente brutal, a repulsa que alimentava no íntimo pelos «artistas ou pseudo-artistas adolescentes», pensando em Maiakovski, Lermontov, Nijinski, Gurov, Nadson e Blok, que ele julgava serem obstáculos à arte, atinge o zénite do rancor e da inveja neste remate: «Julgam-se sóis e tudo queimam, mas não são sóis, são apenas meteoritos errantes e ninguém, no fundo, lhes presta atenção. Humilham, mas não queimam. E no fim acabam por ser sempre eles os humilhados, mas humilhados de verdade, pateados e cuspidos, execrados e mutilados, humilhados de verdade, para que aprendam, bem humilhados». Ivanov acabará por ser proscrito e executado, como tantos outros, vítima das suas suspeitosas ficções. Mas antes, oferece-nos um retrato do escritor de verdade:

Para Ivanov um escritor de verdade, um artista e um criador de verdade era basicamente uma pessoa responsável e com um certo grau de maturidade. Um escritor de verdade tinha de saber ouvir e saber actuar no momento certo. Tinha de ser razoavelmente oportunista e razoavelmente culto. A cultura excessiva desperta receios e rancores. O oportunismo excessivo desperta suspeitas. Um escritor de verdade tinha de ser alguém razoavelmente tranquilo, um homem com senso comum. Não falar demasiado alto nem provocar polémicas. Tinha de ser razoavelmente simpático e tinha de saber não granjear inimigos gratuitos. Sobretudo, não levantar a voz, a menos que todos os outros a levantassem. Um escritor de verdade tinha de saber que por detrás dele está a Associação de Escritores, o Sindicato de Artistas, a Confederação de Trabalhadores da Literatura, a Casa do Poeta. Qual é a primeira coisa que uma pessoa faz quando entra numa igreja?, perguntava-se Efraim Ivanov. Tira o chapéu. Admitamos que não se benza. De acordo, que não se benza. Somos modernos. Mas o mínimo que pode fazer é descobrir a cabeça! Os escritores adolescentes, pelo contrário, entravam numa igreja e não tiravam o chapéu nem que os moessem de pancada, que era, lamentavelmente, o que finalmente acontecia. E não só não tiravam o chapéu: riam-se, bocejavam, faziam mariquices, expeliam flatulências. Alguns até aplaudiam.

Roberto Bolaño, in 2666, trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, Setembro de 2009, p. 819.

DESCUBRA AS DIFERENÇAS


Sylvia Plath e Assia Gutmann Wevill.

Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

PALAVRAS



Machados,
depois do seu golpe a madeira ressoa,
e os ecos!
Ecos que partem
do centro, semelhantes a cavalos.

A seiva
jorra como lágrimas, como
água capaz de lutar
para refazer o seu espelho
sobre uma rocha

que cai e se transforma,
uma branca caveira
consumida pelas ervas daninhas.
Anos depois
encontro-as na estrada...

Palavras secas e sem cavaleiro,
infatigável ruído de cascos.
Enquanto
do mais fundo do lago as imóveis estrelas
regem a vida.



Sylvia Plath, in Pela Água, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Assírio & Alvim, 2.ª edição, 2000, p. 61. Uma curiosidade: a fotografia da capa é de Miguel Esteves Cardoso.

ESTIGMAS


O facto de não acreditar no destino não me impede de acreditar nos estigmas. Há pessoas que parecem nascer estigmatizadas por uma dor que as acompanhará até à morte. Sylvia Plath parece ter sido uma dessas pessoas, apesar das fotografias a mostrarem, geralmente, com um fresco sorriso no rosto. Mas o olhar não engana. Olhar para aqueles olhos, mesmo quando o rosto parece sorrir, é como olhar para o mais vulnerável dos corpos. Sylvia nasceu a 27 de Outubro de 1932, em Boston, filha de Otto Plath, professor de Biologia especializado em insectos, e de Aurelia Plath. Apesar de ter perdido o pai com apenas 8 anos, Sylvia sempre se mostrou muito marcada pela sua alegada personalidade autoritária. A mãe aparenta ter sido uma mulher dedicada, que a apoiou, por vezes em condições de extrema dificuldade. No entanto, Sylvia Plath dedica-lhe algumas manifestações de ódio no seu diário. Certo é que foi uma aluna brilhante, ganhando concursos, uma bolsa, publicando trabalhos literários, tais como o conto Sunday at the Minton’s, publicado em 1952 na revista Mademoiselle. No ano seguinte, a poeta sofre um esgotamento e tenta suicidar-se. Sylvia mostrava-se angustiada com o papel limitado que as mulheres assumiam na sociedade. Vale a pena lembrar parte do prefácio que Ana Gabriela Macedo dedicou a Três Mulheres (Relógio d’Água, 2004): «Em termos da poética de Plath, é uma constante esta tensão entre o mundo privado e o social, a energia e a paralisia, a palavra e o vazio. De facto, vários dos seus poemas mais angustiantes se iniciam no intimismo do ambiente doméstico e pacífico da cozinha, da casa ou do quarto das crianças (…), para depois explodirem violentamente para o mundo exterior». Os anos de 1954 e 1955 serão marcados pelo regresso ao Smith College, pela colaboração com várias revistas, uma tese sobre Dostoievski, publicações universitárias e uma bolsa Fulbright que a levará até ao Newnham College, Cambridge (Inglaterra). Em 1956, conhece Ted Hughes numa festa de estudantes e começa a mais trágica das suas relações. Casam nesse mesmo ano, viajam por Paris e Espanha, partindo posteriormente para os EUA. A relação entre Plath e Hughes mostrou-se conflituosa desde o início, sobretudo devido à desconfiança (fundamentada) que Plath mantinha relativamente à fidelidade de Hughes. O Prémio Bess Hokin atribuído pela revista Poetry encoraja Plath a abandonar o ensino e a dedicar-se à literatura. Estuda poesia com Robert Lowell. Em 1959, o casal regressa a Inglaterra. Frieda Rebecca, a filha, nasce em 1960, no mesmo ano em que Sylvia Plath publica o seu primeiro livro: The Colossus and other Poems. Publicará apenas mais um livro em vida, The Bell Jar, saído em 1963 sob o pseudónimo de Victoria Lucas. Até lá, nasce Nicholas Farrar, o segundo filho, Ted Hughes abandona-a para ir viver com a belíssima Assia Gutmann Wevill, mulher do poeta canadiano David Wevill. A separação desencadei um processo irreversível de auto-destruição. Plath destrói grande parte do seu trabalho, queixa-se à mãe de que Ted não a ajuda no sustento dos filhos, o que não era inteiramente verdade, até que, no dia 11 de Fevereiro de 1963, fecha-se na cozinha, abre o gás do fogão e suicida-se. Curiosamente, Assia Gutmann Wevill acabou por se suicidar do mesmo modo, mas depois de ter assassinado a única filha do casal: Alexandra Tatiana Elise, de 4 anos. Ted Hughes dedicou parte da sua vida a cuidar da obra deixada por Sylvia Plath, isto apesar das acusações que sempre o apontaram como o grande responsável pelo suicídio da autora de Ariel. Ted Hughes morreu em 1998, vítima de um enfarte. Nicholas, o segundo filho do casal, tornou-se biólogo como o avô. Enforcou-se, no passado dia 16 de Março, na sua casa do Alaska. Tinha 47 anos. Frieda Rebecca Hughes é pintora, poeta e autora de livros infantis.

A PEDRA DOS SACRIFÍCIOS

Esconder a cara, assobiar para o lado, fazer como a avestruz.

FADO

Ele disse: o melhor que define os portugueses é o modo como dissimulam as suas paixões, como calam os seus amores, a vergonha que sentem sempre que constatam haver no mundo algo digno de apreço. Os portugueses têm medo de dizer que gostam disto ou daquilo porque são cautelosos, sabem que à primeira esquina encontrarão alguém que não gosta do que eles gostam, então, porque, acima de tudo, os portugueses evitam conflitos, preferem viver calados na sua solidão a declarar os seus ódios e os seus amores.

LEI

Ela disse: se fizeres uma coisa mal feita, terás um milhão de pessoas atentas, um milhão de críticos, um milhão de dúvidas. Ela disse: se fizeres uma coisa bem feita, terás meia dúzia de pessoas atentas, nenhum crítico, nenhuma certeza.

Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

FELICIDADE

A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome.

13/4/41

Jorge de Sena, de Perseguição, 1942, in Poesia I, Edições 70, Abril de 1988, p. 64.

O ROSTO DO VENTO

Infelizmente, tem-me faltado tempo para estudar aprofundadamente o rosto do vento. Nem é bem tempo o que me falta. Falta-me antes urgência. Não tenho urgência na compreensão profunda do rosto do vento. Prefiro senti-lo a compreendê-lo. Devo ser assim relativamente à maioria das coisas que me rodeia. As sensações não matam a curiosidade, não confinam à superfície esse corpo perscrutável que se dá a ver sempre que nos debruçamos sobre um qualquer objecto com uma intenção, seja a de nele nos reencontráramos, seja a de nele nos perdermos. A minha atitude perante os objectos que me rodeiam, como o rosto do vento, raramente ultrapassa a atitude que há muito venho assumindo perante mim mesmo: prezo-me a ponto de me desprezar, isto é, não me preocuparei minimamente com as rótulas se estas não impedirem o normal funcionamento das articulações, ou seja, descri da verdade que motiva o gozo. Eis porque me limito a olhar, eis porque escrevo com os olhos, eis porque me guiam mais os sentidos do que uma qualquer pretensão ou esforço de predomínio racional sobre esses sentidos, eis porque nada julgo senão em função desse critério para mim mais objectivo que outro qualquer que é o do arrepio na espinha, o do tesão, o da água na boca, o das palpitações, o da boca seca, o da pele de galinha, o do medo, o do tédio, o do nojo, o do ódio, o do desprezo, o da indiferença, o da lágrima, o do sorriso, o da gargalhada, o da comoção, o da alegria, o da tristeza, o da modorra, o do pânico, e todos eles marcados, pontuados, se quiserem, pautados, dirigidos pelo indestronável fenómeno do espanto. É um fenómeno que muito aprecio, tanto quanto me provoca uma alegria de boca cheia a própria palavra espanto. Foi com uma alegria de boca cheia que observei, pela primeira vez, e continuo a observar estas duas fotografias. Aquela que deixo ao alto e a que encontrarão aos pés do texto. Um milhão de ensaios, um milhão de análises, séculos de estudos, toda a ciência do mundo não vale o espanto que é por mero acaso terem aquelas imagens saído como saíram. A autoria é da mãe, a modelo é a filha, eu sou o pai. Que nenhum destes elos afectuosos contamine a razão dos instintos, a ciência do espanto. Olho para as duas imagens de modo muito diverso, embora ambas me espantem, embora ambas me provoquem sensações distintas que seria inútil tentar descrever. Mas posso esforçar-me para reflectir um pouco sobre a dinâmica fantasmagoria que, acidentalmente, sublinho, sustenta as duas imagens. Na primeira eu vejo o vento, mas não o vento-vento, vejo um vento monstruoso, literário, provocado por um instrumento, por um artifício, vejo o vento chegar ao corpo de uma criança que se refresca, que procura refrescar o rosto queimado pelo sol, suado, que procura encontrar um pouco de consolo para um rosto algo saturado, vejo o prazer do vento, mas vejo-o como se ele chegasse sob uma forma virtual, poética, sem o postulado, o pressuposto ou sequer a insinuação de uma verdade invisível. Aquele vento é uma ventoinha a funcionar. E talvez o vento seja sempre isso, uma ventoinha a funcionar, tal como a imagem se apresenta como um simulacro da realidade, tal como a imagem é um “duplo” no qual encontramos elos com o real que foram desfeitos pela prossecução do tempo. Quero dizer que olho agora para aquela imagem não apenas como algo que me está a acontecer mas também como algo que me aconteceu, algo que vem de um passado que eu vivi, um fragmento de beleza que me escaparia não tivesse sido o acaso, o acidente, provocado pelo impulso materno de captar instantaneamente um instante que não está agora nas nossas mãos reproduzir, assim como não esteve nas mãos de Heraclito banhar-se duas vezes no mesmo rio ou nas mãos de Coltrane tocar duas vezes o mesmo solo em Impressions ou noutro tema qualquer. Dito isto, se me é possível falar numa arte de viver então essa arte é a arte dos acidentes. Podia fazer desta afirmação mais um elogio do cinismo, mas conter-me-ei um pouco, não vou gastar num só texto todos os meus escassos recursos. Prefiro deixar para mais tarde a expressão das sensações, todas elas inimputáveis, com que um dia disse: amo a vida porque tudo o que tenho a retirar dela é o acidente de estar vivo. Acho importante, pois então, advogar um certo desprendimento, um certo despojamento, que deverá reflectir-se em tudo na vida, sob pena de acabarmos como a imagem, simulacros do real, como o vento provocado pela ventoinha, como o rosto do vento ele mesmo, acho importante, dizia, advogar esse despojamento ético, estético, cultural, material, espiritual, de modo a que mais espantosa e prazenteiramente os acidentes do teu rosto, ó vento, me possam chegar.




GOSTO MUITO DOS TEUS OLHOS

Ontem passei as vistas pelo Câmara Clara, um programa que já teve mais os olhos da Paula Moura Pinheiro. Agora tem os trejeitos. Os convidados eram convidativos: Jorge Molder e Paula Morão. Já para o final, quando esta comentava os Prémios Pen Clube deste ano, nomeadamente o prémio atribuído a Isabel Cristina Pinto Mateus, por Kodakização e despolarização do real - para uma poética do grotesco na obra de Fialho de Almeida (excelente título), a apresentadora sai-se com esta:

− Eu sei que estas generalizações não agradam, e volto a dizer, são sempre injustas, mas facilitam imenso a vida, pergunto à professora catedrática da Universidade de Lisboa, a Universidade do Minho – e aqui o tom de pequena provocação dá lugar a uma entoação de espanto – tem dado excelentes resultados, mas há muito tempo que tem dado gente muito, muito interessante, excelentes…

Espantoso como um preconceito assumido esborrata o mais belo dos olhares. Ora então vejam só que espanto, extraordinário, quem diria, há gente inteligente, que é como quem diz muito interessante, na Universidade do Minho. Eu, realmente, estava convencido de que essa gente trabalhava toda em Lisboa.

ASSEMBLY

Fiz uma pausa na leitura de 2666 - a penúltima parte é um fastio de crimes - para ver um filme de guerra. A verdade é que ao pé do romance de Bolaño o filme do chinês Feng Xiao Gang (nome tramado) caiu-me como uma história de embalar. Não admira, portanto, que tenha adormecido a meio, que tenha sonhado coisas maravilhosas com a Renée Zellweger, que tenha acordado ao som de balas e das falas de 2666: a vida é uma merda, a loucura é contagiosa, a vida não vale nada, a vida é uma tristeza, a vida acaba sempre em dor e sofrimento, as pessoas só vêem o que querem ver. Pelos vistos, eu não quis ver o filme chinês. Ainda assim, quando acordei, fui lavar o rosto, olhei-me ao espelho e constatei que tenho de cortar urgentemente o cabelo. Regressei ao filme neste estado pacificador de quem encontra num objectivo frívolo a substância da existência. A vida pode ser uma merda, mas de vez em quando convém arranjar o cabelo. De modo que, regresso ao filme. Quem foi o realizador que disse que um bom filme é aquele que nos adormece? Não me recordo, mas era capaz de ter razão. Também era capaz de não ter. Nunca saberemos se não voltarmos a ver o filme que nos adormeceu. E se ele voltar a adormecer-nos algo não estará bem, ou nós ou o filme. Digo eu. Não foi o caso. Na caixinha do DVD comparava-se A Honra dos Heróis ao Resgate do Soldado Ryan, o que não parecendo mau também não é necessariamente animador. Vi muita guerra no início, muitas balas, muitos corpos decepados, muito sangue, muita gritaria, muitos efeitos especiais, alguns conflitos hierárquicos, um batalhão todo a ser dizimado. No final, vi o que restou do batalhão, um capitão a revoltar-se num interrogatório porque ninguém queria reconhecer a honradez com que os seus homens se haviam batido em campo de batalha. Até aqui, o costume. A partir daqui, o costume. Lá se descobre que o capitão tinha as suas razões, que o batalhão tinha dado o peito às balas, lá aparecem, no final, as medalhas, o reconhecimento, as patranhas militares que sempre levaram alguns néscios a acreditar na existências de causas pelas quais vale a pena morrer. E subitamente volto a 2666 e ao especialista forense Emilio Garibay, um ateu com uma “biblioteca mais do que decente” mas sem tempo para leituras: «Às vezes pensava que já não lia precisamente por ser ateu. Digamos que a não leitura era o degrau mais alto do ateísmo ou pelo menos do ateísmo tal como ele o conhecia. Se não acreditas em Deus, como acreditar na porcaria de um livro?, pensava». Ora aí está um homem cujo juízo não inspira qualquer desconfiança.

CAMINHO


Ninguém sabe por que crescem troncos no deserto, ninguém pode saber que sementes resistem aos frutos, que frutos brotam da terra seca e se fazem ao caminho como se fossem gente, ninguém sabe por que mistérios são perseguidos os troncos, quando, frente a frente, ficam parados com o mar à escuta.



O mar escuta-nos os pés, fala-nos baixinho com o tom da espuma, ele vai numa onda mansa para dentro do seu próprio eco, nós aguardamos na sombra, como um tronco no deserto, frente a frente, com a semente que resistiu ao fruto, encorajados pela luz que nos cerca e faz a sombra onde o frio se abriga.



Eu vejo as coisas sucedendo entre os dedos arrepiados, nenhuma palavra segue o meu caminho, nenhuma palavra se deixa escravizar pelo dizer, porque também eu sou um tronco no deserto à espera que o mar escute os anseios dos meus pés parados, cansados, desprotegidos, embora nenhum caminho já reste para quem adormeceu no fundo do deserto.



Permitamos então que o sal lave os caminhos parados, permitamos que a espuma faça cócegas à fuga, que o frio se proteja na sombra da nossa luz, permitamos isso e muito mais, pois enquanto houver um mar a escutar-nos nenhum caminho faltará, enquanto existirem troncos no deserto as semente cederão ao fruto.

AZUCENA ESQUIVEL PLATA

Aos dezanove anos comecei a ter amantes. A minha lenda sexual é conhecida no México inteiro, mas as lendas nunca são verdadeiras e menos ainda no México. A primeira vez que fui para a cama com um homem foi por curiosidade. Como está a ouvir. Nem por amor, nem por admiração, nem por medo, e é por essas razões que as outras mulheres costumam fazê-lo. Podia ter ido para a cama por pena, pois no fundo aquele chavalo com quem fodi a primeira vez metia-me pena, mas a verdade pura e simples é que o fiz por curiosidade. Ao fim de dois meses deixei-o e fui com outro, um idiota que pensava que ia fazer a revolução. O México é pródigo em idiotas desse género. Rapazes de uma estupidez supina, arrogantes que, quando tropeçam numa Esquivel Plata perdem os sentidos, querem logo fodê-la, como se o acto de possuir uma mulher como eu equivalesse a tomar o Palácio de Inverno. O Palácio de Inverno! Eles, que nem sequer são capazes de cortar a relva da Datcha de Verão! Bom, a esse também o deixei passado pouco tempo, agora ele é um jornalista com alguma reputação que, de cada vez que se embebeda, diz que foi ele o primeiro amor da minha vida. Os amantes que vieram depois tive-os porque gostava deles na cama ou porque me aborrecia e eles eram inventivos, ou divertidos, ou tão estranhos, tão infinitamente estranhos que só a mim me faziam rir.


Roberto Bolaño, in 2666, trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, Setembro de 2009, p. 689. Esta citação pretende ser um pequeno contributo para a omissa tipologia sexual feminina explanada por Pedro Mexia no weblog Lei Seca.

SAUDADE

A constatação final de que este país já não é o que era, uma forte impressão de vazio, um amanhecer desolador, nostálgico, melancólico, os afectos trespassados para uma ausência aterradora, uma súbita saudade invadindo-nos a totalidade do corpo, uma sensação de não pertencer a este mundo, uma sensação de estranheza, de desintegração, é o que um homem sente quando repara que o sotaque brasileiro dos distribuidores do Dica da Semana foi substituído por um vulgaríssimo, monocórdico e entediante sotaque português.

RECLUSO

Estava um nevoeiro óptimo para roubar carros.

Domingo, 25 de Outubro de 2009

O CRIABRAMIDOR

Com o advento do copiador X.S 2000 generalizou-se a cópia de produtos culturais. Verificou-se um aumento no consumo desses produtos, curiosamente proporcional ao desaparecimento de criadores. As pessoas queriam um quadro e copiavam-no, queriam um disco e copiavam-no, queriam um livro e copiavam-no, o copiador X.S 2000 reproduzia todos esses produtos com uma impressionante exactidão. Músicos, pintores, escritores, realizadores de cinema começaram a desaparecer, muitos deles mendigavam pelas ruas das cidades, outros acabavam por morrer à fome, havendo ainda aqueles que optavam por se juntar ao vasto leque de suicidas que sempre matizou o mundo das artes e das ideias. Com a morte dos criadores, desapareceram as novidades. O povo começou a inquietar-se. O X.S 2000 já não servia para nada, pois nada havia para copiar que não tivesse sido já copiado. Então, a empresa que lançou no mercado o copiador X.S 2000 propôs uma nova versão, o X.S 2010.4, que conseguia copiar já não só as obras mas os próprios criadores. O X.S 2010.4 foi um relativo sucesso, isto até os consumidores verificarem que os criadores copiados não reproduziam obras novas. Limitavam-se a criar sobre o já criado, tudo o que faziam era recriar obras antigas como se elas nunca tivessem existido. O X.S 2010.4 não servia para nada e era uma fonte incomensurável de problemas, pois os seus utilizadores viam-se obrigados a viver com um, às vezes com dois ou três ou mais, conforme as exigências culturais de cada um, viam-se obrigadas a viver com criadores em casa, alimentando-os como quem alimenta um animal de estimação, levando-os à rua para eles poderem respirar, que é como quem diz inspirar o maná da criação que depois seria expirado em novas-velhas obras. Isto para não mencionar os inúmeros problemas causados pela manutenção de um criador em casa, como sejam o ver-se uma pessoa obrigada a conviver com comportamentos bastante extravagantes, a aturar neuroses, psicoses de todo o tipo, manias da perseguição, crises criativas, tendências suicidárias, megalomanias, fobias de todo o tipo e, consequentemente, a necessidade de encontrar substâncias ilegais ou outras que, sendo legais, nem sempre são fáceis de arranjar e saem bastante dispendiosas, para que os criadores pudessem viver minimamente equilibrados no interior do mundo que os havia criado desequilibradamente. O povo revoltou-se, os consumidores revoltaram-se, ninguém queria viver com criadores em casa, o X.S 2010.4 acabou por se transformar numa dor de cabeça, para não dizer num enorme fracasso comercial. Surgiu então no mercado um novo copiador, capaz não só de copiar obras de arte e criadores como também de reproduzir consumidores. O X.S-NG era magnífico, uma autêntica máquina ao serviço do bem-estar, do conforto dos cidadãos, uma ferramenta impecável na democratização do mercado, na geração de novas oportunidades, um invento que revolucionaria os conceitos de cidadania, que propagaria junto de todos as mesmas possibilidades, as mesmas oportunidades, enfim, estávamos perante uma porta aberta a um novo mundo de portas abertas, onde ninguém poderia fechar portas a ninguém, pois acabar-se-iam as portas, era o fim das oligarquias, dos caciques, do arrivismo e dos privilégios. O X.S-NG transformava cada cidadão num criador em potência de obras que ele próprio consumiria, era uma máquina de auto-consumo, um poderoso mecanismo da autofagia que todos os consumidores usavam em benefício próprio. É óbvio que cada criador-obra-consumidor reproduzido pelo X.S-NG podia ser consumido por qualquer pessoa que nisso estivesse interessada, embora ninguém se interessasse pelos criadores-obras-consumidores alheios quando ele próprio podia ser um criador-obra-consumidor. Para isso bastava possuir um X.S-NG em casa. E foi o que sucedeu. Houve mesmo um programa governamental que não descansou enquanto não meteu um X.S-NG em casa de cada cidadão, pondo-se assim um fim às elites e às castas, ao nepotismo, às discrepâncias sociais que afastavam os consumidores dos criadores, agora todos eles acondicionados numa pessoa só, a pessoa do criador-obra-consumidor, ou, como entretanto passou a dizer-se, na pessoa do criabramidor. O criabramidor já não bramia por novidades, ele era a sua grande novidade, ele era os fascínio e o espanto de si próprio, ele era o génio de que mais ninguém precisava senão ele próprio, ele era o mundo, ele era Ele.

Sábado, 24 de Outubro de 2009

UM ROL DE FRASES SEM NEXO

Enquanto passava pelas brasas, Baltazar sonhou que estava num apartamento exíguo com muita gente a dormir lá dentro. Viu duas pessoas numa cama de casal, mais três pessoas no chão em torno da cama. Viu uma sala com um beliche de três camas onde dormiam três pessoas. Havia também um sofá cama aberto onde dormitavam mais duas pessoas. E, na casa de banho, estava um indivíduo dentro da banheira. Dormiam também duas pessoas no chão da cozinha. Depois Baltazar viu-se a si próprio a dormir no chão da sala daquele apartamento exíguo cheio de pessoas adormecidas. Tentou levantar a cabeça e o tronco, mas a cabeça embateu contra qualquer coisa. Baixou-se e voltou a erguer-se, tornando a embater contra qualquer coisa, como se estivesse envolto num escudo invisível contra o qual batia sempre que se queria levantar. Começou a mover-se para cima e para baixo, como fazem os atletas durante os exercícios abdominais. Mas Baltazar dava cabeçadas cada vez mais fortes no tal escudo invisível, como se estivesse envolvido numa bolha, separado do resto do mundo que ele via mas com o qual não podia contactar. As cabeçadas que ele dava eram muito fortes e estridentes, acabando por acordar as outras pessoas, as quais olharam para ele, apontaram-no e desataram a rir. Baltazar reparou então que estava a dormir debaixo de uma mesa de vidro, e afinal o escudo invisível que o separava do mundo era só o tampo da mesa. Então Baltazar acordou das brasas, levantou-se cuidadosamente e passou revista às estantes de Branca, a alva vizinha do rés-do-chão que continuava adormecida com o pombo Benjamim. Entre outras coisas, viu muitos livros de autores que ele desconhecia por completo. Reparou que havia algo de comum entre eles, praticamente todos eram doutores. Olhou as lombadas dos livros do Dr. Joseph Murphy, do Dr. Brian Weiss, do Dr. David Posen, do Dr. Phill McGraw, do Dr. Wayne Dyer. Depois pegou num livro de um tal Deepak Chopra, e num outro de um autor com cara de monge que se chamava Robin Sharma. Pegou ainda num livro de um autor chamado Osho, um autor que parecia ser esquimó. Ao ver todos aqueles livros, pensou que Branca devia ser uma mulher muito culta. E então teve o mais profundo pensamento que alguma vez tivera: a haver alguma explicação para a vida, só pode ser a de que a vida não tem explicação. Quis aprofundar este pensamento, mas tudo o que lhe saiu foi um rol de frases sem nexo: talvez ter-me imaginado um herói às travessas, um sonho extravagante sem correspondência com a realidade, uma espécie de entidade espectral a dançar no cemitério de uma vontade asmática, sem as asas de poeta, com as penas de um vento selvagem, nada de sonhos, os sonhos são inimigos lentos, necessito antes de um breve contacto com a página em branco, um suporte para as sumas ideológicas que trago atravancadas na garganta, como um grito de Tarzan, uma lixeira a leitura aberta, por assim dizer, o meu ponto de referência é a poluição conspiratória das palavras, por isso habito nesta cidade com tosse, exclamo o meu xarope de ideias no monitor para que os abutres me levem para casa. E nisto sentiu-se tonto, enrolou mais um charro de hidroerva, sentou-se a olhar para Branca e para o pombo Benjamim, sem pensar no que quer que fosse.
Escrito para O Indesmentível.

O CRISTO LIBERAL DÁ UMA ENTREVISTA

Eu teria caminhado sobre a água
Mas o seguro de vida tinha caducado.
E a Ordem dos Médicos processou-me
Logo ao primeiro leproso que curei.

Eu teria pregado um sermão dourado
Mas não gostei do aspecto da Montanha.
E teria alimentado cinquenta mil
Mas a Imprensa não estava lá para contar.

E os negociantes do templo
Tinham a polícia à porta.
E se eu passasse um ano no deserto
Perderia de certo o direito à Caixa.

Teria transformado a água em vinho
Mas o Grémio da Lavoura não me deu alvará.
E teria morrido e sido crucificado
Se não fosse – bem sabem como são as coisas.

Vou cortar a barba
E cortar o cabelo.
Comprar um colete
À prova de balas
Sou o Cristo Liberal
E não me posso arriscar.


Adrian Mitchell (24 de Outubro de 1932 - 20 de Dezembro de 2008), in Antologia da Poesia Britânica Contemporânea, trad. de Manuel de Seabra, Livros Horizonte, Junho de 1982, p. 72.

ERRO DE CASTING

2666 é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana.

BÍBLIA


Ao primeiro dia o senhor enfiou um slide no dedo e limou as unhas, dedilhou o arame até um pingo de sangue fresco lhe cair do dedo indicador, e o pingo caiu câmaralentamente no vácuo do universo, formou-se um planeta de um pingo de sangue caído do dedo indicador do senhor, e nesse planeta cresceram anticorpos aos quais foi dado o nome de homens, cuja principal característica é viverem na ponta dos dedos, apontados e apontantes, com uma maçã encravada na garganta e um caroço na memória, metástases espalhadas pela alma do senhor, como uma guitarra pousada na terra batida de um itinerário solitário, um sapato pontiagudo enfiado pelo cu acima dos profetas, a liberdade sem sombra, absolutamente luminosa, de quem caminha certamente por linhas direitas, de quem caminha torto por linhas incertas, de quem caminha apenas. Ao segundo dia o senhor apanhou o comboio da imaginação, e na fornalha do comboio acendeu mulheres nuas, discos de vinil, uma cama remexida pela sombra dos castiçais, o senhor tatuou no braço direito dos homens a lascívia com que perfumamos a terra: mulheres nuas, mulheres nuas, minhas e tuas, mamas arrebitadas, mamilos de chupar, corpos depilados como mesas de poker, a cobra tentadora subindo pelas coxas acima, penetrando os pardieiros do amor, e no comboio do senhor seguiram todos aqueles para quem a bíblia é, passo a citar: o livro do senhor, homem e mulher andando nus pela terra sem sentirem vergonha, perseguidos apenas pela vontade de entrarem um no outro e um no outro ficarem como um barco descendo as águas do Mississípi enquanto um branco toca banjo, um preto toca guitarra, uma índia dança, um chinês sacrifica o vento e recita Sun Tzu. Ao terceiro dia o senhor anunciou a partida de um barco negro, um barco gingão, e para o barco caminharam os saltos altos da natureza, entre os quais seguia uma vidente de pernas longas que adereçava o corpo como se o corpo fosse uma árvore de natal, seguiram também galinhas e galos, cães, todo o tipo de animais domésticos e selvagens, foi o dia do naufrágio remisturado como uma espécie de uivo, um eco vindo das paredes que os perus celebram na consoada, um riff com as marcas solarengas de quem se abandonou, por instantes, aos escritórios da praia, e num balcão queixoso encontrou a voz rouca dos anjos ébrios, empurrados ao terceiro dia para fora do bar porque foram preguiçosos, não dançavam, não entretinham os clientes. Ao quarto dia deus acendeu um cigarro e pensou: mas que mal fiz eu a mim próprio para isto me acontecer? Viu uma família inteira desfeita porque entre eles se intrometeu a nudez escultural de uma anjinha com plumas negras, de pernas abertas, oferecidas ao desejo, muito amor para dar, e os homens todos em fila num corredor de tortura à espera do barco negro, à espera do comboio, à espera da harmónica que anunciasse friamente: a tua vida é uma mentira. E era, porque a preguiça fez com que tudo ficasse por acontecer, mesmo o esforço da língua se levantar um pouco para proferir uma palavra que fosse de consolo às vítimas dos crimes irresolúveis. Ao quinto dia uma dor no peito, o desmazelo, a desmemória, foda-se, foda-se, foda-se o natal, tenho os blues, e tenho os perus, e tenho corpos nus, e tenho tudo aquilo que não se reduz ao sacrifício de Jesus enquanto deus nosso senhor reproduz a luz que nos alumia e nos seduz, tenho cigarros, tenho vinho, tenho as guloseimas de Outono, tenho uma oração para cada maleita, tenho a poesia contrafeita das arenas, tenho são Cipriano e o kama sutra, a litania dos maldizentes segundo os manuscritos, e tenho, ao sexto dia, uma vontade enorme de descansar porque amanhã é domingo e eu sou preguiçoso e só disso não me posso queixar, disso e do mestre das ciências malditas que escreveu com o próprio sangue o missal erudito das pessoas proscritas, tenho rimas para os meus inimigos, para os meus delatores, para aqueles que um dia, dizendo-se amigos, foram para a cama com a música sedutora das serpentes vingativas. Ao sétimo dia, meu amor, já nem estou por aqui, fui-me no barco negro, fui-me de comboio, fui-me metaforicamente para onde tu nem sequer imaginas, não porque sejas pobre de imaginação, mas porque és ainda mais preguiçosa do que eu e perante a ameaça dos vírus optas invariavelmente pela quarentena, que é o pior que se pode fazer quando alguém nos fala por parábolas.

Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

«E AGORA, VAMOS AO QUE MAIS IMPORTA»


«E agora, vamos ao que mais importa»:
saber, na escrita, devolver
aos outros a força perdida
neste tempo sujo. Recuperar até
o som das tempestades, algum cheiro
a serra, campainhas, guizos.
E agora, vamos recomeçar as histórias
das fantasias todas no lameiro ou
na nespereira. Se não há bosque, já,
nem milho alto, perto da ribeira,
importa voltar a sentir
a força da isolada aldeia.
Subir ao monte e raspar a mica.
«E agora, vamos ao que mais importa».



«Vamos jogar de propósito destinado»
e recuperar o forte jogo da bilharda.
Ajudem-nos então a escancarar portões
de gonzos ferrugentos. Vamos voltar a encher
a loja de estrume fumegante. Abrir
as tulhas e caiar paredes. Reconstruir
canastro e pôr as telhas novas. Trazer
os gatos para fugirem ratos. Abrir
o forno para cozer o pão. Levar os potes
para o fogo da lareira. Ferrar cavalos,
ensinar os cães. Plantar árvores,
semear os campos. E sobre a casa,
como em tempos outros, erguer o ramo
de nova construção.



«E assim prosseguimos o volteio»,
no sábio ensinamento doutros mestres.
Franciscanos dizem que já somos,
quando apenas queremos dar as mãos.
E as mãos se juntam, ainda não
em prece, mas em trabalho. No reconstruir
a pedra da linguagem, o desejo
de um altar feito de pão que ainda
temos que amassar. A oferta somos
nós ─ assim nos damos. Bom começo
para quem muito quer andar. Peregrinos
seremos, mas mais tarde. Nómadas, errantes,
profetas se o quiserem. Mas agora,
com o mestre, prosseguimos o volteio.



«Cada mensagem é uma abertura
para o Ser». Obscuros são certos dizeres
mas a fria claridade também cega.
Não há cavernas, nem oiro, nem o raio
que ilumine de súbito a multidão.
Cada mensagem nossa é curta, mas é nossa,
mesmo no tremor com que dizemos certos
versos. Melhor assim: melhor a abertura
para o Ser. O outro ainda não sabe,
nem conhece. Está longe, na bruma
do riacho, ou nas torres medonhas
das cidades. Façamos lume com as
pedras, para aprendermos a incendiar
também nossas palavras novas.


Eduardo Guerra Carneiro, in Contra a Corrente, &etc., Setembro de 1988, pp. 69-72.

DEFINIÇÃO DE OUTONO

Uma fatia de pão caseiro, barrada com marmelada e queijo de ovelha amanteigado.

IN PROGRESS

Vou iniciar hoje a penúltima parte de 2666, é a maior de todas e intitula-se A Parte dos Crimes. A Parte de Fate foi aquela de que gostei menos até agora. Fate é um jornalista da revista americana Amanhecer Negro, «uma revista onde os proprietários são afro-americanos, o director é afro-americano e quase todos os jornalistas são afro-americanos». Vai parar a Santa Teresa com a missão de cobrir um combate de boxe, mas acaba a interessar-se pelos assassínios de mulheres que têm assolado a cidade mexicana de Santa Teresa. Fate cruza-se com Rosa Amalfitano, a filha do melancólico professor de filosofia com quem os críticos europeus se haviam cruzado quando se deslocaram a Santa Teresa à procura do escritor Benno von Archimboldi. A narrativa converge para a cidade mexicana de Santa Teresa, um cenário desolador onde as personagens se tocam em relações bastante subtis que fazem sobressair constantemente o problema da identidade, num sentido individual, e num sentido mais universal, quando o mal, a loucura, o crime, nos confrontam com as misérias da própria natureza humana. No entanto, as gralhas não acabam. Por vezes penso se serei eu que estou a ler mal, se algumas das opções mais discutíveis do ponto de vista da língua portuguesa se explicam por um qualquer tipo de fidelidade ao original que me escapa, mas noutras ocasiões o erro é óbvio: «cresciam-lhe pernas de madeiras e braços de arame» (p. 287), «como se estivesses a contar uma história num bar e todos o que estão à tua volta» (p. 330), «disse Chucho Flores com as mãos levantadas à altura do peito para que Fate viesse que ele não levava arma nenhuma» (p. 377), «queria saber se senhor era nosso hóspede» (p. 396), «vestido com umas calças e um casaco ganga» (p. 399), etc… Insisto neste aspecto apenas por não ter lido qualquer referência ao assunto na crítica especializada, o que me parece pouco coerente com o grau de exigência colocado a outras obras. Depois há trechos que nos deixam na dúvida. Veja-se este exemplo retirado da p. 379:

«Depois Rosa levantou-se da cadeira, desligou a televisão e perguntou-lhe se podia tomar um duche. Fate aquiesceu em silêncio. Quando Rosa se fechou na casa de banho pôs-se a pensar em tudo o que tinha acontecido naquela noite e doeu-lhe o estômago».

Dito assim, a quem é que parece que doeu o estômago?

ROSA MÉNDEZ E ROSA AMALFITANO


Um dia Rosa Méndez contou a Rosa Amalfitano o que se sentia ao fazer amor com um polícia.
− É o máximo – disse-lhe.
− Porquê? Qual é a diferença? – quis saber a sua amiga.
− Olha, não sei explicar-te muito bem, ‘miga – disse Rosa Méndez −, mas é como foder com um homem que não é totalmente um homem. É como voltar a ser menina, percebes? É como se fosses fodida por uma rocha. Uma montanha. Tu sabes que vais estar ali, ajoelhada, até que a montanha diga já está. E que vais ficar cheia.
− Cheia de quê? – perguntou-lhe Rosa Amalfitano – cheia de sémen?
− Não, ‘miga, não sejas grosseira, cheia de outra coisa, é como se uma montanha te fodesse, mas como se te fodesse dentro de uma gruta, entendes-me?
− Dentro de uma caverna? – perguntou-lhe Rosa Amalfitano.
− Isso mesmo – respondeu Rosa Méndez.
− Ou seja, é como se uma montanha te fornicasse dentro de uma caverna ou gruta que fica na própria montanha – disse Rosa Amalfitano.
− Exactamente isso – concordou Rosa Méndez.
E depois acrescentou:
− Adoro a palavra fornicar, vocês espanhóis falam de uma maneira tão bonita.
− Tu és mesmo estranha – disse-lhe Rosa Amalfitano.
− Desde pequenita – respondeu Rosa Méndez.
E continuou:
− Queres que te conte outra coisa?
− Conta – disse Rosa Amalfitano.
− Eu
forniquei com traficantes de droga. Juro-te. Queres saber o que se sente? Olha, sente-se como se fosse o ar a foder-te. Nem mais nem menos, o simples ar.
− Ou seja, fornicar com um polícia é como se uma montanha te fodesse e foder com um traficante é como fosse o ar a fornicar-te.
− Sim – disse Rosa Méndez −, mas não o ar que respiramos nem o que sentimos quando vamos pela rua, mas sim o ar do deserto, um temporal de ar, que não tem o mesmo sabor que o ar daqui, nem sequer cheira a natureza, a campo, mas cheira ao que cheira, um odor próprio que não se pode explicar, é simplesmente ar, ar puro, tanto ar que às vezes custa respirar e julgas que vais morrer asfixiada.
− Ou seja – concluiu Rosa Amalfitano – se um polícia fornicar contigo é como se uma montanha te fornicasse dentro da própria montanha, e se um traficante de droga fornicar contigo é como se o ar no deserto te fornicasse.
− Ai, ‘miga, se um traficante te foder é sempre uma intempérie.

Roberto Bolaño, in 2666, trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, Setembro de 2009, pp. 381-382. Esta citação pretende ser um pequeno contributo para a omissa tipologia sexual masculina explanada por Pedro Mexia no weblog Lei Seca.

DO INVEROSÍMIL




Todos os filmes de Danny Boyle que vi, de Shallow Grave a Trainspotting, passando por The Beach e 28 Days Later, oferecem relações de amizade em zona de risco, que é como quem diz à beira da ruptura. Por esta ou por aquela razão, são filmes onde alguns elos se quebram para que outros possam ser consolidados. A amizade é mais ou menos isso, um jogo de probabilidades onde as cartas da inveja, do ciúme, da ambição e do pretensiosismo acabam quase sempre por trair o fraco trunfo da cumplicidade. Slumdog Millionaire não é excepção, se bem que aqui os tiros de sorte, também presentes nos outros filmes, assumam uma inverosimilhança que converte a partida de poker numa comédia romântica. No fundo, o jogo acaba por ser o mesmo de sempre: quem quer ser milionário? A sobrevivência e o amor também podem ser o grande prémio em jogo, mas por cima deles o dinheiro, e seus associados, dão um certo jeito. Fico a pensar: e se o filme tivesse acabado quando Latika diz que não sabe a resposta à pergunta final, a pergunta dos milhões, a pergunta do comboio em movimento, da vita nuova?

Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Gosta da Judite Sousa, cita Tony Carreira, admira o Duarte Lima. E tem medo de chegar à idade do Saramago sem espírito autocrítico. Eis o homem, aquele que precisou de um cancro para descobrir que era pessoa. Ainda foi a tempo.

ARTE DOMÉSTICA


Não procures saber por que é
que um corpo triste
é um pleonasmo enorme. Deita-te
à sombra dos versos
como se as cidades fossem perdoáveis,
como se houvesse um nome,
esse nome fosse teu
e resplandecesse em sonora treva.

Despeja os cinzeiros com prudência
antes de o sono não te responder
e convoca o silêncio possível,
enquanto num televisor próximo
a guerra se adia e os olhos esmorecem.
Podes sempre fingir que não vês
nem ouves o céu sulcado de enjoo,
os gritos mortais das crianças.


Um dia na vida, alugado, apesar
do relógio da vizinha,
sempre tão certo, e do autoclismo
a pingar, também certo,
a dizer-te uma qualquer coisa nula
que deitas fora junto com os cigarros de ontem.

Tens tempo para o teu testamento,
esse último poema sem destinatário
(e não te perguntes o que irá o Estado
fazer com tanto Bach e família,
pois nessa altura estarás
finalmente surdo). Alegra-te
com o vento inerte de Junho, a saudar-te
entre latidos de cães alheios.

E, sobretudo, não procures nunca saber.



Manuel de Freitas, in Os Infernos Artificiais, Frenesi, Maio de 2001, s/p.

DAS ORGIEN MYSTERIEN THEATER


Sou subitamente reenviado para os tempos universitários. O ar cândido com que o padre Stilwell falava de parábolas na cadeira de Cristologia não mudou, é o mesmo quando fala de publicidade a propósito das declarações de um ateu. Já naquela época a teoria era esta: o ateísmo marxista é mera propaganda. A tese fora bebida no Deus Oculto, de Fernand Van Steenberghen (tradução portuguesa de Nuno Bragança), o qual advogava em meia dúzia de linhas o que séculos de História não logram provar: «Em boa lógica, os marxistas deviam proclamar-se agnósticos. O ateísmo que professam é um «dogma», um «postulado» gratuito e indemonstrável, ao qual, não obstante, atribuem a maior importância, pois que a religião, «ópio do povo», surge aos seus olhos como um grave obstáculo à emancipação do homem». Estamos, mais coisa menos coisa, em 1992. O padre Tolentino diz que todas as canções de amor são revolucionárias, o Salvado concorda, mas eu levanto-me e digo que as acho mais suicidárias. Jesus na cruz pelos nossos pecados, o amor crucificado, a misericórdia crucificada, a mensagem de Deus crucificada, Deus Filho crucificado, as três pessoas de Deus, Pai, Filho, Espírito Santo, crucificados, e eu também crucificado a ouvir os poemas do padre Tolentino enquanto o Jacinto subia a escadaria para mais uma aula de Direito. Longe de termos memória, temos agora os mesmos ecos da desgraça. O Evangelho Segundo Jesus Cristo acabara de ser publicado. Havia quem o defendesse sem nunca o ter lido, havia quem o odiasse nas mesmas condições, havia quem se lhe referisse em tom jocoso, era hábito, assim como ouvir o professor Mendo a imitar o sotaque do Carlos Carvalhas durante as aulas que eu fazia questão de abandonar a meio. Só no último ano engoli o sapo, lá me apresentei para exame e oral e saí com 15 a Filosofia Social e Política. Ateu confesso, não tive a mesma sorte a Cristologia. Mas o padre Stilwell, apesar de tudo, mostrou alguma misericórdia. Chapa 14. O Tratado de Ateologia de Michel Onfray ainda não tinha sido escrito, mas havia, à falta de melhor, o Sartre de O Existencialismo é um Humanismo, com um estudo soberbo de Vergílio Ferreira. Interroguei: assim concluídos, se o ateísmo marxista deve proclamar-se agnóstico porque professa um dogma, um postulado gratuito e indemonstrável, como deve proclamar-se todo e qualquer teísmo? Não é igualmente indemonstrável a existência de Deus e das suas cidades abstractas? Que validade têm os argumentos ontológicos e as provas metafísicas sem o sustento dos fenómenos? Que Deus estava em todo o lado, que o simples facto de estar em nós, enquanto ideia, era a prova da sua existência. E naquele dia fez-se-me luz: o Pai Natal existia. Não muitos anos depois, vi cordeiros crucificados, mãos esponjosas sob a influência do tachisme, vi o expressionismo abstracto nas telas do sacrifício, vi Hermann Nitsch e Deus a passear nas suas longas barbas, vi o expressionismo existencialista abstracto e o existencialismo abstracto expressionista, vi Deus no Bairro Alto pouco tempo antes de chegar a casa com o ouvido esquerdo a sangrar, vi-o em Chelas todos os dias, durante sete anos, e nesses sete anos eu pude criar o meu universo para agora descansar em paz, e vi-o no Regueirão dos Anjos, vi Deus na Casa Pia, em todo o lado, na boca faminta dos meninos, no cu violado das prostitutas, na Justiça portuguesa, vi Deus nos Bancos e nos bancos dos jardins, nas Universidades, na Assembleia da República, numa repartição de Finanças a cobrar o imposto sobre o valor acrescentado da vida inviolável, um pagamento por conta, portanto, vi-o nos crimes dos homens bons e nos crimes dos homens maus, nas Seguradoras, nas pernas da actriz decadente que davam colo às pernas da actriz em ascensão, vi-o na traição com que um dia me disseram: estou contigo para poder não estar contigo ─ e vi Deus apertar a mão aos seus inimigos, vi-o abraçar os leprosos, vi-o invadir territórios, vi-o passar nu no reino da Dinamarca, vi-o na alva História da Igreja Católica Apostólica Romana, vi-o na Irlanda ao colo dos orangistas, vi-o nos cestos da IURD, vi-o luminosamente nos poemas da poetisa amorosa, vi-o dizer gosto muito de ti, mas… vi-o mas, mas, mas mas e mais mas, vi-o nas colunas verticais decepadas dos vendilhões do templo e no furacão Catarina, vi-o no sacro descolado, em todo o lado O vi EU. Ainda agora acabei de o ver num ponto luminoso do Jorge Gomes Miranda: «Em situações de convívio / sempre muito metódicos / no estender da mão direita». Sabem o que vos digo? Quase ninguém escapa a esta hipocrisia, a morte de toda e qualquer forma de cumplicidade, a qual é, já hoje, ontem, amanhã, a mais clara hipoteca das canções de amor. Revolucionárias, ó Tolentino? Suicidárias. E o resto são poemas.

Ao alto: imagem de uma das performances de Hermann Nitsch.
O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossìvelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Pra mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Álvaro de Campos, in Poesias de Álvaro de Campos – Obras Completas de Fernando Pessoa II, Edições Ática, Abril de 1991, org. João Gaspar Simões e Luís de Montalvor, pp. 64-65.

MEIO POR MEIO

Haverá livros para todos (a primeira tiragem de Caim debita 50 mil exemplares!); por seu turno, os cónegos voltam a ter oportunidade de mostrar-se na passerelle das opiniões mentecaptas, numa linha de tradição que exibe como antecedentes próximos a luta contra o uso do preservativo, contra o casamento entre homossexuais, ou contra a legalização do aborto, etc. Também uma livraria da Baixa deu hoje mesmo o sinal do que subjaz à rota de colisão de um escritor que ainda dá troco a imbecis com assento oficial na crença supersticiosa, e enchendo as montras meio por meio de Bíblia e de Caim..., confirma-nos que, quando se tem porta de facturação aberta para o passeio público, convém estar de bem com Deus e com o Diabo. Não vá o Diabo tecê-las!

Aqui.

TERCEIRO REICH


Tenho grãos de areia na região cervical, a hérnia deixa-me o corpo dormente da cintura para baixo, está uma ventania insuportável, o vento entra por todas as frinchas, abana-me as cortinas dos olhos, provoca-me um estado de azia latente. Compenso a falta de lenha com alguns livros a mais. Pela primeira vez, aquecem-me o corpo gelado. Deixam apenas um ligeiro aroma a memórias esturradas.

Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

ESPERANÇA



Changeling recria um caso ocorrido em Los Angeles, no ano de 1928. Uma mãe perde o filho, a polícia encontra-lhe um puto que corresponde à descrição, mas ela sabe que aquele não é o seu filho. No entanto, vai parar a um manicómio por colocar em causa os peritos da polícia. Por um mero acaso, descobre-se que ela tinha razão, que não estava doida, que a polícia tinha cometido um erro ao entregar-lhe uma criança que não era o seu filho. A prova dará azo a um processo que culminará com o afastamento dos principais responsáveis da LAPD e a condenação à morte de um serial killer que raptava e assassinava criancinhas. No final, fica em aberto a possibilidade da criança desaparecida não ter sido assassinada pelo raptor. A história pouco interessa para o que está em causa. A esperança daquela mãe já não é vir a reencontrar o filho. É antes saber o que aconteceu, saber a verdade. A esperança de que um dia possamos vir a saber a verdade é a única que importa alimentar, mesmo que a verdade seja dolorosa, mesmo que a verdade seja o fel que conspurca a doçura das ilusões.

MARCO ANTONIO GUERRA

O senhor é como eu e eu sou como o senhor. Não nos sentimos à vontade. Vivemos num ambiente que nos asfixia. Fingimos que nada acontece, mas acontece. O que é que se passa? Asfixiamos, carago. O senhor desabafa como pode. Eu dou ou deixo que me dêem uma sova. Mas não uma sova qualquer, pancadaria de caixão à cova. Vou-lhe contar um segredo. Às vezes saio à noite e vou a bares que o senhor nem imagina. Lá finjo que sou maricas. Mas não um maricas qualquer: um maricas fino, depreciativo, irónico, uma margarida na pocilga dos porcos mais porcos de Sonora. É claro que de maricas não tenho nem um pêlo, posso jurar sobre a campa da minha falecida mãe. Mas finjo na mesma que sou. Um paneleiro maricas presumido e com dinheiro que olha por cima do ombro para toda a gente. E então acontece o que tem de acontecer. Dois ou três pulhas convidam-me para ir até lá fora. E começa a pancadaria. Eu sei e não me importo. Às vezes são eles que saem maltratados, sobretudo quando vou com a minha pistola. Outras vezes sou eu. Não me importo. Preciso destas escapadelas. Por vezes os meus amigos, os poucos amigos que tenho, rapazes da minha idade que já são licenciados, dizem-ne que tenho de ter cuidado, que sou uma bomba-relógio, que sou masoquista. Um, de quem eu gostava muito, disse-me que estas coisas só alguém como eu é que podia dar-se a esse luxo, porque tenho o meu pai que me tira sempre das confusões em que me meto. Por puro acaso, apenas. Eu nunca pedi nada ao meu pai. A verdade é que não tenho amigos, prefiro não tê-los. Pelo menos, prefiro não ter amigos mexicanos. Nós os mexicanos estamos podres, sabia? Todos. Aqui não se salva ninguém. Desde o Presidente da República ao palhaço do subcomandante Marcos. Se eu fosse o subcomandante Marcos, sabe o que fazia? Lançaria um ataque com todo o meu exército contra uma cidade qualquer de Chiapas, desde que tivesse uma forte guarnição militar. E lá imolaria os meus pobres índios. E depois provavelmente iria viver para Miami. De que tipo de música é que gosta?, perguntou Amalfitano. De música clássica, professor, Vivaldi, Cimarrosa, Bach. E que livros costuma ler? Antes lia de tudo, professor, e em grandes quantidades, hoje só leio poesia. Só a poesia não está contaminada, só a poesia está fora do negócio. Não sei se me entende, professor. Só a poesia, e nem toda, isso que fique claro, é alimento saudável e não merda.

Roberto Bolaño, in 2666, trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, Setembro de 2009, p. 266.

SÉRIE GIGANTE

Antes dos jograis terem esmifrado o rei dos eunucos.

DISLEXIA (2)

A segunda parte de 2666 intitula-se A Parte de Almafitano. A personagem central é agora um melancólico professor de Filosofia da Universidade de Santa Teresa. O tema da identidade é uma constante, mas entretanto intromete-se o problema da loucura, num ambiente desesperado, desalentado e desconsolado onde os sonhos parecem ter um papel fulcral na revelação das personagens. Lá iremos. Por ora, quero chamar novamente a atenção para os lapsos, as gralhas, as opções duvidosas, as dúvidas pessoais, que me levam a crer, até pela excelência do romance, impor-se uma revisão mais atenta das páginas que se propõem, com pompa e circunstância, ao preço de 28,95€. Mais alguns exemplos:

p. 105: «Quando chegaram, o filho estava a ver a televisão e Vanessa ralhou com ele porque não tinha ido à escola» (sem querer ser mauzinho, já agora, quem é que não tinha ido à escola?);
p. 106: «A resposta dela pareceu-lhe conter uma certa dose de agressividade, mas depois lembrou-se que de Vanessa era assim»;
p. 144: «Entrou em contacto com a obra de Archimboldi, se bem se lembrava, aos vinte anos, nessa altura tinha lido, em alemão e ido buscar os livros emprestados a uma biblioteca de Santiago, A Rosa Ilimitada, A Máscara de Couro e Rios da Europa» (uma vírgula a mais?);
p. 154: «Os críticos, porém, gostaram do mercado e embora não pensassem comprar nada no fim Pelletier adquiriu por um preço irrisório uma figurinha de barro de um homem sentado numa pedra a ler o jornal» (vírgulas a menos?);
p. 203: «Amalfitano recebeu a carta seguinte vinda de San Sebastián. Nela Rosa contava-lhe que tinha ido com Imma ao manicómio de Mondragón visitar o poeta que lá vivia…» (não é Rosa, a filha de Amalfitano, mas Lola, a mãe de Rosa, quem escreve a carta);
p. 214: «…e espreitava através do gradeamento sem esperança alguma de ver o poeta mas sim, quanto muito, algum sinal que sabia…»
p. 216: «…após ter afastado uma madeixa de cabelo, levantava o braço direito e a saudava várias vezes»;
p. 222: «Não, não é meu, disse Rosa, de certeza que não, a verdade é a primeira vez que o vejo» (na verdade?);
p. 227: «…e depois havia a chuva, o vento, a páginas a voarem, era uma ideia divertida…»
p. 234: «…que individualmente os italianos era corajosos…»
p. 234: «…fechava os olhos e tentava recordar uma imagem do pai qualquer, inutilmente»;
p. 237: «…e as pessoas que as têm não param de se coçar, com é lógico»;


Outros exemplos aqui.