Andei a espreitar balanços pelo buraco da fechadura e notei uma certa animosidade para com 2009, ano que, assim parece, só poderia ter sido pior caso tivéssemos todos morrido, talvez sugados até à secura pelos dentes afiados de um vírus vampírico, o que não deixa de ser uma contradição, pois perante dificuldades tamanhas a morte seria uma bênção da natureza. É verdade que andámos a respirar o mundo por uma máscara, mesmo quando não fomos obrigados a pendurá-la nas orelhas. É verdade que a terra tremeu, reavivando demónios antigos. É verdade que a crise nos fez sombra, mais do que todos desejaríamos, ainda que, provavelmente, menos do que muitos apregoam. É verdade que a paisagem se afigura tendencialmente corrompida pelo cinzentismo das veneráveis elites, desde há muito embrulhadas na manta decadente do pessimismo e alimentadas por uma palhinha de auto-complacência que só não repugna quem se obriga a cerrar vistas perante o deslumbrante espectáculo das novas oportunidades. Corrupção, caciques, cartéis são o CCC das oligarquias que há muito nos governam, num agradável bailarico de príncipes e séquitos cujos privilégios têm a espessura da baba que largam ao lamber as botas de quem manda. Quem os inveja, que os acompanhe no coro insidioso da desgraça. Quem os despreza, que os declame como quem denuncia e testemunha o direito a estar vivo para lá dessa miséria. Pessoalmente, não me queixo senão de me ter deixado explorar durante quase um ano inteiro. Se não fui mais livre, a culpa é minha. Esforcei-me por me manter vivo e suficientemente louco para alimentar o interesse que as pessoas ditas saudáveis nunca me inspiraram. Tive sempre uma na manga: respirar nas horas vagas do sufoco. A arte, os livros, a filosofia, a música continuam a ser um remédio ao qual gosto de juntar o riso das paixões carnais e dos sonhos que me fazem doer por dentro a tensão que sempre se sente de os não ver cumpridos ou adiados ou rasurados por falta de tempero e entusiasmo. Amei e senti-me amado. Haverá coisa melhor? Duvido. Daí que não tenha do ano que passou uma imagem tão desagradável. Fui um rapaz suficientemente mau do Porto a Marraquexe, a natureza ofereceu-me tremores e ventanias, a paz revigorante da Costa Vicentina, larguei por páginas diversas o sémen dos meus delirantes versos, projectei parte do futuro, também aquela parte que será para destruir, pois nenhum escorpião sobrevive de apenas erguer sobre os pântanos o veneno da sua espécie, andei para cá e para lá com a cabeça entre as orelhas, cumpri-me enquanto funcionário, evitei como soube e pude o gigantismo da espera, guardei uma galeria de retratos iluminados pela luz dos olhares que me inspiram amor e confiança, sofri o suficiente para me sentir vivo, dei ao corpo doses de prazer igualmente suficientes para não me sentir morto, não estive tanto quanto desejaria com a minha própria solidão, embora tenha estado mais do que seria desejável com a solidão dos outros, fui contratado pelo espectáculo do mundo e cumpri com as minhas obrigações, de conta a zeros, carteira à míngua, depenado para altos voos. Também nunca fui de altos voos. Onde é que já se viu um escorpião com asas? Guardo do ano que passou, enfim, a revisão possível: foi só mais um ano, que outros venham como este já não será mau, que outros se venham como este será até muito agradável, se o que se avizinha trouxer dor, já estou suficientemente preparado. Vou começar 2010 nos jardins de Epicuro, não sem antes terminar 2009 incensado por Hassan Ibn Sabbah a levar à letra a matemática de Omar Khayyam:
Se soubesses quão pouco me interessam
os quatro elementos da natureza e as cinco faculdades do homem!
Dizes que alguns filósofos gregos
podiam propor cem enigmas aos seus auditores?
É total a minha indiferença por esse assunto.
Traze vinho, toca alaúde e que as suas modulações
me recordem os da brisa que passa, como nós.
Na imagem: O Rapaz Mau (1981), de Eric Fischl, copiado de Arte Contemporânea, por Klaus Honnef, Benedikt Taschen, 1994, p. 145.
Se soubesses quão pouco me interessam
os quatro elementos da natureza e as cinco faculdades do homem!
Dizes que alguns filósofos gregos
podiam propor cem enigmas aos seus auditores?
É total a minha indiferença por esse assunto.
Traze vinho, toca alaúde e que as suas modulações
me recordem os da brisa que passa, como nós.
Na imagem: O Rapaz Mau (1981), de Eric Fischl, copiado de Arte Contemporânea, por Klaus Honnef, Benedikt Taschen, 1994, p. 145.

