Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

MENINO MAU


Andei a espreitar balanços pelo buraco da fechadura e notei uma certa animosidade para com 2009, ano que, assim parece, só poderia ter sido pior caso tivéssemos todos morrido, talvez sugados até à secura pelos dentes afiados de um vírus vampírico, o que não deixa de ser uma contradição, pois perante dificuldades tamanhas a morte seria uma bênção da natureza. É verdade que andámos a respirar o mundo por uma máscara, mesmo quando não fomos obrigados a pendurá-la nas orelhas. É verdade que a terra tremeu, reavivando demónios antigos. É verdade que a crise nos fez sombra, mais do que todos desejaríamos, ainda que, provavelmente, menos do que muitos apregoam. É verdade que a paisagem se afigura tendencialmente corrompida pelo cinzentismo das veneráveis elites, desde há muito embrulhadas na manta decadente do pessimismo e alimentadas por uma palhinha de auto-complacência que só não repugna quem se obriga a cerrar vistas perante o deslumbrante espectáculo das novas oportunidades. Corrupção, caciques, cartéis são o CCC das oligarquias que há muito nos governam, num agradável bailarico de príncipes e séquitos cujos privilégios têm a espessura da baba que largam ao lamber as botas de quem manda. Quem os inveja, que os acompanhe no coro insidioso da desgraça. Quem os despreza, que os declame como quem denuncia e testemunha o direito a estar vivo para lá dessa miséria. Pessoalmente, não me queixo senão de me ter deixado explorar durante quase um ano inteiro. Se não fui mais livre, a culpa é minha. Esforcei-me por me manter vivo e suficientemente louco para alimentar o interesse que as pessoas ditas saudáveis nunca me inspiraram. Tive sempre uma na manga: respirar nas horas vagas do sufoco. A arte, os livros, a filosofia, a música continuam a ser um remédio ao qual gosto de juntar o riso das paixões carnais e dos sonhos que me fazem doer por dentro a tensão que sempre se sente de os não ver cumpridos ou adiados ou rasurados por falta de tempero e entusiasmo. Amei e senti-me amado. Haverá coisa melhor? Duvido. Daí que não tenha do ano que passou uma imagem tão desagradável. Fui um rapaz suficientemente mau do Porto a Marraquexe, a natureza ofereceu-me tremores e ventanias, a paz revigorante da Costa Vicentina, larguei por páginas diversas o sémen dos meus delirantes versos, projectei parte do futuro, também aquela parte que será para destruir, pois nenhum escorpião sobrevive de apenas erguer sobre os pântanos o veneno da sua espécie, andei para cá e para lá com a cabeça entre as orelhas, cumpri-me enquanto funcionário, evitei como soube e pude o gigantismo da espera, guardei uma galeria de retratos iluminados pela luz dos olhares que me inspiram amor e confiança, sofri o suficiente para me sentir vivo, dei ao corpo doses de prazer igualmente suficientes para não me sentir morto, não estive tanto quanto desejaria com a minha própria solidão, embora tenha estado mais do que seria desejável com a solidão dos outros, fui contratado pelo espectáculo do mundo e cumpri com as minhas obrigações, de conta a zeros, carteira à míngua, depenado para altos voos. Também nunca fui de altos voos. Onde é que já se viu um escorpião com asas? Guardo do ano que passou, enfim, a revisão possível: foi só mais um ano, que outros venham como este já não será mau, que outros se venham como este será até muito agradável, se o que se avizinha trouxer dor, já estou suficientemente preparado. Vou começar 2010 nos jardins de Epicuro, não sem antes terminar 2009 incensado por Hassan Ibn Sabbah a levar à letra a matemática de Omar Khayyam:

Se soubesses quão pouco me interessam
os quatro elementos da natureza e as cinco faculdades do homem!
Dizes que alguns filósofos gregos
podiam propor cem enigmas aos seus auditores?
É total a minha indiferença por esse assunto.
Traze vinho, toca alaúde e que as suas modulações
me recordem os da brisa que passa, como nós.


Na imagem: O Rapaz Mau (1981), de Eric Fischl, copiado de Arte Contemporânea, por Klaus Honnef, Benedikt Taschen, 1994, p. 145.

NO METRO



No metro, uma miúda estrangeira serra as cordas de um violino à medida das suas necessidades.
O som dilacerante é atenuado pelo sorriso de uma outra, que dificilmente consegue interromper a corrida dos utentes, desesperadamente apressados e ausentes para se deterem e lhe darem uma moeda.
Estende-lhes um sorriso que termina num pequeno gorro de malha onde as moedas se recusam a repousar, alheias ao esforço da violinista em domesticar os sons que ─ também eles ─ se recusam a harmonizar o quotidiano de uma estação de metro.
À medida que diminuía a distância que me separava da determinação daquelas notas, tão insólitas como as duas estrangeiras ao cimo da escada, levei inconscientemente a mão ao bolso e deixei que o tacto escolhesse a melhor moeda para lhes oferecer.
Desconheço se a moeda era a melhor, ou pelo menos tão boa como a oferta daquela imagem ao fim do dia, quando todos os equívocos se tornam indispensáveis para acreditarmos que vivemos mais um dia. E a música ou um sorriso, tornaram-se tão insólitos como um gorro amarrotado e um violino desafinado.

... pergunta ao mar e à noite, à tempestade ─ pergunta aos bosques se o caminho não são as margens da nossa dimensão...

Jorge Fallorca, in a cicatriz do ar, Edição de Autor, Novembro de 2009, p. 23.

TRIO DO CORAÇÃO

O Trio do Coração antecipou-se à meia-noite de 31 e resolveu começar a festejar o fim de 2009 na noite de 30 (o início de 2010, pela incerteza que nos traz, ainda não merece festejos). Reunidos no aconchego altaneiro da Quinta do Lobo Morto, foi-nos presenteado o paladar com uma sopa de enchidos à moda antiga, confeccionada pelo mestre de cozinha, rei dos rótulos e baterista de serviço Bruno Rolo. O Daniel não se contentou com um prato, afiambrando-se a dose dupla e tupperware hermético para derradeiro almoço requentado do ano que ora finda. Seguiu-se um programa musical com guitarra, bateria e baixo, mais berreiro respectivo, ao som de um alinhamento que nos pareceu caminhar, mais prego, menos prego, pelas paragens seguintes: Interstellar Overdrive, Hey Joe, Walk on the wild side, Rockin' in the free world, I'll be your baby tonight, Helpless, Cocaine, Knockin' On Heaven's Door, Hey Hey, My My, I don't wanna grow up, Hurt e um encore improvisado à maneira de Chuck Berry, Muddy Waters, Sonny Boy Williamson e Bo Diddley. Acabou-se a noite de cigarro nos dedos, discutindo arte contemporânea, livros húmidos, o poder das grandes confrarias. Para o ano haverá mais.

UM PROBLEMA SIMPLES

...ou o nosso calendário teve um «ano 0 a.c» e «ano 0 d.c.» ou o «0» do nosso calendário corresponde, vá lá, à meia noite entre 31 de Dezembro do ano 1 a.c e 1 de Janeiro do ano 1 d.c.. Como a segunda alternativa é a verdadeira, no final do ano 9 d.c. ainda faltava um ano para terminar a primeira década do século I d.c e no final de 2009 ainda falta um ano para terminar a primeira década do século XXI. (...) A década passada, por exemplo, começou em 1991, o ano do fim da União Soviética e terminou em 2000, o ano em que o mundo suspirou de alívio por o «bug» do ano 2000 ser uma ameaça fantasma. Foi a década da «pax americana», também conhecida por «fim da História». A actual década começou em 2001, o ano do ataque às torres World Trade Center. Tem sido a década da crise. Primeiro de segurança internacional, depois financeira, económica, social e com sinais inquietantes de não se conseguir prevenir a tempo uma crise ambiental. Ah, como dava jeito que esta década acabasse já hoje e levasse com ela a crise…

Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

DISAPPOINTED IN THE SUN (o meu 2009)


Sou um lacrau do deserto, tenho uma costela árabe. Prefiro viver na sombra, mas sobrevivo a altas temperaturas. Alimento-me ociosamente do pouco que necessito. A minha principal contradição é o fundo do mar, para onde quero ir quando a melancolia me açoita a cauda. O louva-deus é o meu principal inimigo. Agora que o ano finda, sem que ninguém me explique por que outro começa, penso que talvez seja bom recapitular o êxtase à meia-noite de 31 para logo a seguir, na manhã do primeiro dia, voltar a sentir a ressaca de estar vivo. Balanceio o meu 2009 às costas de Para Sempre:

─ E depois?
─ Como depois?
─ Porque ou tu não realizas o absoluto sonhado e então falhou, ou o realizas e ficas à boa vida. E então depois? Como vais viver em pasmaceira? E em que alínea do teu programa político se trata também do problema da morte?
E eu então disparatei contra mim:
─ Que problema de merda é esse do absoluto e da morte?
─ Fala baixo que as tias podem ouvir.
─ Que problema de caca é esse de desocupados? Tu devias passar fome para teres razão de falar. Os teus problemas são um insulto para quem não tem que comer. Eu estou-me nas tintas para todo esse mistifório de meninos mimados pela sorte. Quero lá saber do depois do depois. Quero é saber do agora, aqui, quero saber de problemas concretos, daqueles que se resolvem com as mãos, com os pés, no estômago. Toda essa metafísica de merda.

Mas Vergílio Ferreira também estava equivocado. O meu problema concreto de agora é mesmo a retórica do depois. É um problema fodido que hei-de resolver à maneira da Fernanda Ribeiro:

Este é um 2009 que nunca esquecerei.


Talvez venha a esquecer o 2009 do ano passado ou o 2009 de aqui a dois anos ou o 2009 de há 10 anos atrás, mas este 2009, este de agora, concreto, problemático, com suas dores de estômago, pé de atleta e mãos encarquilhadas... eu jamais esquecerei.

INSUSPEITO

Se a acção terrorista falhada a bordo do voo 253 da Delta-Northwest Airlines tivesse resultado, haveria um coro de comentários sobre o combate ao terrorismo, a permeabilidade dos sistemas de segurança, etc. e tal. Mas esta acção aparentemente malograda da Al-Qaeda traz um dado interessante, um dado que não tenho visto debatido, reflectido, esmiuçado por quem percebe destes assuntos. O jovem nigeriano Umar Faruk Abdul Mutallab destacado para mais uma missão sagrada, ou seja, assassinar umas centenas de pessoas no dia de Natal, não foi recrutado entre as gentes pobres e incultas, facilmente influenciáveis e manipuláveis, do Médio Oriente. Era um rapaz insuspeito, filho de um respeitado banqueiro, estudou num colégio interno britânico e na University College, de Londres. Um privilegiado. Um insuspeito que «passou por controlos de segurança em Lagos (Nigéria) e em Amesterdão (Holanda), sem que os detectores de metais tivessem detectado a presença de explosivos». Tenham medo, muito medo…

O CASO


Danil Ivánovitch Iuvatchov (ou Daniil Ivanovich Yuvachov ou Даниил Иванович Ювачёв), mais conhecido por Daniil Harms (ou Kharms) nasceu em São Petersburgo no ano de 1905, presumivelmente a 30 de Dezembro, mas também a 17 do mesmo mês, se nos quisermos guiar por outros calendários. Filho de Ivan Iuvatchov, figura proeminente do grupo revolucionário Vontade do Povo, contactou, desde muito cedo, com gestos subversivos e suas consequentes retaliações. Sob o jugo de Alexandre III, o pai foi preso, condenado a trabalhos forçados perpétuos, condenação posteriormente substituída por quinze anos de reclusão. Morreu em 1940, cumprindo um percurso de escritor de histórias fantásticas a filósofo religioso e pacifista. Daniil teve o privilégio de estudar numa escola de inspiração germânica, onde adoptou o pseudónimo Kharms, embora variando entre DanDan, Khorms, Charms, Shardam, Kharms-Shardam, etc. Em 1924 foi estudar para Leninegrado, onde iniciou a sua vida literária junto de um grupo experimentalista que praticava a «poesia zaum» (linguagem poética sem significado definido). Rapidamente abandonou o grupo e aderiu à associação «tchinari» (experimentação em ritmos), mas só em 1927, com a formação do colectivo vanguardista OBERIU (Associação de Arte Real), é que a sua actividade ultrapassou o domínio da animação e atingiu o nível da publicação. «Poesia não é papas de painço que se engolem sem mastigar para se esquecerem logo a seguir», defendiam os OBERIU, ao mesmo tempo que apontavam a mira contra a escola zaum. No manifesto dos OBERIU, Daniil Harms era apresentado como um «poeta e dramaturgo que não concentra a atenção numa figura estática mas sim na colisão de uma série de objectos, nas suas inter-relações». Ainda antes da aventura OBERIU, Daniil havia casado com Ester Aleksandrovna Rusakova, de quem acabou por se divorciar em 1932, para se casar novamente, em 1934, com Marina Vladimirovna Malich. Em 1926 conseguira publicar dois poemas para adultos, os únicos publicados em vida, em antologias organizadas pela All-Russian Union of Poets. As performances absurdas, a linguagem excêntrica, os textos ilógicos, a postura dandy, granjearam-lhe a reputação de louco. Acabou por ser preso, pela primeira vez, em 1931, e condenado a deportação para a cidade de Kursk. De notar que a condenação esteve associada a uma acusação de escritor de literatura infantil anti-soviética, já que a actividade dos OBERIU estava fortemente ligada à publicação de histórias infantis. Regressará a Leninegrado no ano seguinte, iniciando um período de privações várias e desespero. Não consegue publicar os seus textos, os planos para performances e peças dramáticas não vingam, os OBERIU desmembram-se, Daniil passa fome, escreve uma prosa absurda e desesperada que dedica, em grande parte, a Marina Vladimirovna Malich, a sua nova companheira. O futuro dos OBERIU estava condenado na Rússia revolucionária. Uns morreram de fome, outros na prisão, outros foram exilados, outros foram assassinados, outros desapareceram durante a guerra: «Very few of the founders of the group escaped jail and exile. Zabolotsky spent the years 1938 to 1946 at various labour camps in Siberia. Vaghinov died ill and penniless in 1934». Harms chegou a servir no Exército Vermelho, escreveu várias histórias infantis, mas a sua atitude vanguardista entrava em conflito com a política cultural estalinista. O experimentalismo de Harms não cabia na União dos Escritores Soviéticos. Foi proibido de publicar, acabando novamente preso no ano de 1941. Desaparece misteriosamente. «Soube-se mais tarde que Harms, correndo o risco de ser fuzilado, simulou distúrbios psíquicos e foi internado no hospital-prisão, onde morreu, talvez de fome, talvez do “tratamento”». Só em Fevereiro de 1942, Marina foi informada da morte do marido. O nome do escritor foi reabilitado em 1956 e os seus escritos infantis voltaram a ser publicados durante a década de 1960. Marina foi evacuada para as Caraíbas após a morte de Harms, regressando posteriormente à Europa para viver na Alemanha. A ler este curioso artigo, a biografia no kirjasto e A Velha e Outras Histórias, de onde respigamos o caso final:
UM CASO


Uma vez o Orlov empanturrou-se com ervilhas moídas e morreu. Krilov, quando tal soube, morreu também. Ora, o Spiridónov morreu sem mais nem menos. A mulher de Spiridónov caiu do aparador e morreu também. Os filhos de Spiridónov afogaram-se no lago. A avó de Spiridónov alcoolizou-se e meteu-se a mendigar. Mikháilov deixou de se pentear e apanhou tinha. Kruglov desenhou uma senhora de chicote e enlouqueceu. Perekhrióstov recebeu um vale postal de quatrocentos rublos e tornou-se tão arrogante que foi despedido do trabalho.
Gente boa não sabe firmar-se na vida.

Daniil Harms, in A Velha e Outras Histórias, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Assírio & Alvim, Agosto de 2007, p. 226.

AÇNAIFNOC

Não era de confiança. Queria escrever amor e saía-lhe Roma, queria escrever ai e saí-lha ia, queria escrever paz e saí-lhe zap, queria escrever arenque fumado e saí-lhe odamuf euqnera. Só não se enganava a escrever palavras tais como ovo ou o seu próprio nome: Ana. Mas o pior é que era disléxica do oãçaroc.

BALANÇO


Nascida para ser. Nascida para ser eu. apenas os óculos escuros exactos.
o poder da imagem. trata a córnea como uma jóia.
safira seurat cintila. deixa a visão penetrar. luz de flash invertida.

e apagada. reduzida a zero antes que seja tarde. pára-quedas.
como o berber nómada. então não acampes por aqui mais tempo.
nem um sinal. instamatic travesti.
o olho esfomeado.

movimento continuo. via fiat. a pé. o grande clube
canal caminhado. no congo. chama rimbaud. testemunha
o alvo irritado de pássaros loucos. esmaga os seus
elmos micro-azuis. cobalto metabólico.

pinta o meu cavalete sem tela em estilo matisse. um truque estilístico.
um retrato respirante. leopardo sagrado. deixa cair a minha pele-de-gato.

é preciso correr. deslizo à superfície. patinagem sobre gelo.

barrete. talvez o céu. pássaro-alvo. se for
o verdadeiro dossel. constrói o grande trampolim.
tentarei o estrondo.

Bong. pode ser feito. fórmula olímpica? linguagem a la
McClure, o balanço intrincado de Belmondo. a confusa
graça de buster keaton. o movimento óptico de anna karina
uma rodilha de seda. estrela polar. nunca se deve perder uma
oportunidade. dispara essa arma de compasso de febre.
um risco é apenas um risco.


Patti Smith (n. 30 de Dezembro de 1946), in Witt, trad. Alexandre Vargas, Assírio & Alvim, Março de 1988, pp. 60-61.

ENSAIO GERAL

Caros,
Confirma-se então o ensaio do Trio do Coração para amanhã? É que nesse caso, farei uma sopa tradicional de enchidos para aquecer o ambiente.
Abraço

Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

A ALEGRIA QUE NOS ACOMPANHA NA PEQUENA VIAGEM



Um homem estava a transformar-se gradualmente num porco. E ao mesmo tempo a tentar pôr a sua vida em ordem.
Deitado sobre o seu próprio excremento tentava pensar. Mas era cada vez mais difícil...
Deixa cá ver, pensava, devo contratar um porqueiro ou um
chauffeur? Claro que vou acabar num matadouro. Aguardo ansiosamente. Talvez devesse alugar um carro funerário. Tenho que deixar tudo tratado enquanto ainda consigo pensar. Vejamos, será que uma viagem tão curta pede um funeral? ─ Quando chegar ao fim da viagem sob a forma de fiambre, entremeada, bifinhos, costeletas, bacon; salsicha até, quem sabe.
─ Banha? Ui, espero que sim, muito. E toucinho também...


Russell Edson, in O Espelho Atormentado, trad. Guilherme Mendonça, Ovni, Janeiro de 2008, p. 115.

ELOGIO DO CINSIMO (12)


A extensa citação de Onfray justifica-se por lhe devermos este redespertar para a lição cínica, a qual, como vimos, está longe de merecer a censura que interpretações históricas tendenciosas e enviesadas lhe impuseram. Os cínicos foram relegados para a penumbra por neles ter sido vislumbrada uma acção inconveniente à arquitectura das sociedades ideais, erguidas em modelos de submissão, escravatura, exploração, modelos que deploravam e deploram a resposta espontânea e livre das paixões, modelos castradores da liberdade e cristalizadores do pensamento. Basta lançarmos os olhos superficialmente pelo mundo em que vivemos para nos depararmos com as conquistas desses modelos de sociedades ideais: desigualdades cada vez mais profundas, assimetrias aparentemente inultrapassáveis, uma ínfima parte de indivíduos a gozar os lucros da exploração económica exercida sobre uma maioria confinada à mera sobrevivência, um mundo de ilusões e quimeras, como a do conhecimento acessível a todos, um conhecimento mentiroso e superficial, a tecnologização e mecanização dos saberes no chamado mundo civilizado a ditar uma desastrosa ausência de cultura geradora de comportamentos arrogantes, preconceituosos e hipócritas, o predomínio do ter sobre o ser, a paranóia do lucro, a guerra dos objectivos que dinamita os mais básicos direitos de quem trabalha e se transforma numa máquina de desespero e suicídios, a estereotipização do gosto e dos juízos, a disseminação de uma cegueira indolente, desapaixonada, com consequências devastadoras ao nível da solidariedade, cada vez mais subsumida numa caridadezinha que se faz passar por solidariedade em momentos de aflição próxima ou épocas natalícias de consumismo exacerbado. A ética cínica, a ética da resistência, faz mais sentido que nunca, tal é o cenário de escravos do consumismo e de endrominados do discurso publicitário que temos à nossa frente. Acenam-te com os direitos do consumidor e fazes disso uma bandeira, não percebendo que as cores dessa bandeira são as mesmas que levam ao colo o consumismo exacerbado onde se afundam os valores de uma verdadeira identidade: tu já não és um nome, és um código de barras, tu não és um homem com direitos, és um consumidor com direitos, tu não és um homem, és um consumidor, uma máquina de produzir escrava do consumo, tu produzes para poderes consumir enquanto és consumido pela máquina produtiva. A solução pode não estar na completa abnegação material e num despojamento radical, os quais se afiguram pouco viáveis num mundo em que os recursos mais básicos foram açambarcados pelo poder, num mundo em que é preciso prestar contas pela água que se bebe ou pelo terreno que se ocupa. «Cínicos, os rebeldes que colocam o seu orgulho bem acima das prebendas oferecidas em troca da colaboração com os poderes instituídos; cínicos, ainda, os revoltados que colocam o pensamento ao serviço da insubmissão, de preferência a pô-lo à disposição das forças que desvitalizam o indivíduo; cínicos, finalmente, os resistentes que opõem o saber ao poder, à laia de contra-poder.» Não colaborar, tanto quanto possível, o mais possível, com o poder, estimular a insubmissão, resistir ao canto da sereia, promover todas as formas de contra-poder contra a estigmatização dos comportamentos legitimamente livres. A defesa do próprio passa pela preocupação com o outro, com o direito que o outro tem de ser ele próprio. A questão está em defender um mundo onde os outros possam conviver consigo próprios sem necessitarem de corromper-se uns aos outros, porque o mundo actual caracteriza-se precisamente por essa táctica da corrupção que nos deixa sem voz quando nos vemos vítimas de erros por nós próprios anteriormente cometidos. Começar por dar o exemplo é um bom caminho, não sobrestimando nada que não seja vitalizador de uma ética libertária. No seu tempo, foi isso que os cínicos fizeram. Não admira que tenham sido calados, não admira que tenham sido silenciados, afastados das grandes enciclopédias, negligenciados pela história convencional que canoniza apenas o que se deixa canonizar. É isso que te espera se escolheres o caminho da resistência, contra as fábricas de epígonos em série, pela infantilização de uma humanidade demasiado séria para ser levada a sério:

Onde os auxiliares do poder vigente celebram a virtude do sério, do útil e indispensável para sacramentar o poder, para fazer dele um epifenómeno proveniente do religioso e do celeste, o libertário restaura as virtudes do desvio, da ironia, do humor, do cinismo, sob a forma de modalidades subversivas da linguagem e do gestual, conceptuais e pragmáticas. O riso nietzscheano de Foucault, contra o silêncio feltrado dos palácios presidenciais; a dança de Zaratustra, em contraponto à rigidez dos ministérios, de todos os protocolos; o grotesco de Rabelais e as loucuras de Swift, à laia de resposta aos sussurros dos enxames de porteiros; a chacota de Voltaire e a qualidade de Sartre, como eco às peças douradas da armação de portas e janelas e aos brocados púrpuras; os sarcasmos da festa dos loucos e as antimissas com burros, face à pompa do Eliseu. Vinho a rodos, libações, um Diógenes que peida, onanista e canibal, uma política dionisíaca; brindes com água simples, presidentes da República desmiolados, uma política apoloniana, eis o inventário das alternativas ancestrais.
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«IDEA» DE PANOFSKY



Estava bêbado, uma chama à procura
de um rosto onde consumir-se. É
assim o tempo para rapazes sem rumo,
mecânico, vinte anos, arredado
das teimas de um fracasso
ou de um amor brutal e movediço.
Veio dizer-me que admirava a minha
concentração no meio de tantos bêbados,
insistia em pagar-me uma caneca e
espalhava-me a caspa pelos ombros.
Não tive tempo de dizer-lhe que só leio
o meu cansaço, que construo igloos
por temer os ursos. E confiaria ele
em portas que se encontram: não
se arrombam? Preferia a miúda
que veio com ele. Até que se deu conta.

António Cabrita, in Arte Negra, Fenda, 2000, p. 68.

O BEM COMUM

Que podes fazer tu pelos outros? ─ perguntou-me. Não ser mais uma besta é já um contributo, um singelo contributo, para o bem comum.

Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

LUCINDA


Lucinda, eu esperei por ti uma vida inteira. O meu coração bateu como um tambor a rufar no campo de guerra. De tanto tremerem, as minhas cordas vocais emitiram uma melodia tão triste que fez secar tudo à sua volta. Lucinda, eu esperei por ti tanto tempo. Ainda hoje os meus pulmões assobiam a harmónica dessa espera, Lucinda. Eu ia a andar dentro de um sonho e o sonho parou e eu parei dentro do sonho a sonhar contigo, Lucinda. Parei dentro do sonho enquanto uma lua vertia sobre a Terra uma luz cinzenta, uma lua pequenina que foi enchendo, um quarto de lua, uma lua que encheu tanto, tanto, tanto que parecia ir rebentar. E eu fiquei parado dentro do meu sonho, sentado num banco de jardim, à espera que a lua rebentasse e sobre a Terra caísse já não apenas aquela luz cinzenta mas um fogo-de-artifício de calhaus tóxicos, incêndios, disparos, bombas, tiros, com o meu coração rufando no campo de guerra, pautando a marcha da espera, eu ali sentado, Lucinda, com tudo à minha volta secando uma secura de espera. Agora sou apenas parte deste circo itinerante, um homem estátua descoberto nas ruas de Singapura, um palhaço triste de serrote espetado nas cordas vocais, uma lágrima pintada no rosto, um sorriso borrado, agora sou apenas um anel escondido no fundo do bolso roto, as calças de fazenda quadriculada gastas nos joelhos, eu a rastejar a minha petrificada espera no circo itinerante da tristeza. Lucinda, eu fiquei parado dentro do meu sonho à tua espera. Fiquei ali sentado à tua espera, as solas das botas velhas colaram-se-me à lama, as pernas começaram a afundar-se na lama, fundiram-se com a lama, eu metamorfoseei-me num tronco seco no meio de um pântano. Lucinda, sobre os meus ombros, sobre os meus braços, os meus ramos, pousam pássaros que vêm do teu canto, largam a merda que largam por todo o lado e partem, eu vejo-os partir, sinto-os pousados nos meus ombros e sonho contigo pousada nas minhas asas, sinto-os pousados nos meus ombros e sinto-te próxima, Lucinda, mas depois eles vertem a porcaria que trazem dentro, vertem-na sobre o meu dorso e eu deixo de ser um homem estátua para passar a ser uma mula de carga. Carrego a tua espera, Lucinda, carrego-a como uma mula desesperada, teimosa, carrego-a em dois cestos de verga esculpidos pelas mãos carcomidas do cigano que vivia no eucaliptal ao pé da casa dos meus pais quando eu já esperava por ti sem saber sequer que tu existias, Lucinda. Eu carrego a tua espera como uma mula de carga, dou coices em cada pedaço da lua que continua a cair sobre a Terra como um balão estilhaçado, dou coices em cada um desses pedaços para me defender de um fim que, apesar de tudo, não quero que seja o meu, porque eu quero acabar como o palhaço que sorri aos pés da escada, quero acabar a sobrar a harmónica do teu choro, quero acabar como um blues saxofonado nas esquinas de Fannin Street, quero acabar com um serrote espetado na garganta, esvaindo-me em sangue no centro da arena, porque eu mereço a glória desse fim, Lucinda, de tanto esperar eu mereço a glória desse fim. Por isso disparo contra a lua os meus coices, por isso acendo mais um cigarro, bebo mais um café, por isso o meu coração continua a palpitar os tambores de guerra, porque eu estou em guerra comigo mesmo e ouço as histórias do tio Tom e danço sozinho, danço abraçado à minha sombra, imaginando-me a dançar contigo aqui mesmo, Lucinda, aqui no pântano onde tenho o corpo afundado até à cintura, dançamos ao som de uma caixa de música, o meu corpo dança como uma árvore embalada pelo vento e já não vêm cagar sobre os meus ombros os pássaros do teu canto, vêm fazer o ninho. Os pássaros do teu canto fazem o ninho sobre os meus ombros, Lucinda, trazem alimento para as crias, crescem-lhes as primeiras penas, para depois partirem com as penas todas, porque tal como os pássaros também nós voamos com as penas todas, voamos para longe desta espera, Lucinda, e levamos connosco a melodia mais bonita, such a dream, de novo em trânsito dentro de um sonho, saindo para fora do sonho, tornando realidade o sonho onde um dia sofremos a espera de nos sabermos todos, um dia, dirt in the ground.

DEFENDER A FAMÍLIA


Arranjar uma noiva para o Santo Papa.

OBRA POÉTICA COMPLETA

Agora que o ano termina e todas as listagens pululam, convém espicaçar eventuais e previsíveis desmemoriados com factos passados à história, mas sobre os quais a história não deve passar como se não tivessem existido. Em 2009 completaram-se 200 anos sobre o nascimento de Edgar Allan Poe. Por cá, o génio de Poe ─ poucas vezes faz tanto sentido o uso do substantivo ─ foi sendo evocado e celebrado com diversas publicações, das quais destaco a edição da sua Obra Poética Completa levada a cabo, no mês de Março, pela editora Tinta-da-China. Antes de mais, é de bom-tom realçar a beleza inquestionável do volume (algo a que a editora em causa nos vai habituando com hedonística felicidade). O trabalho gráfico de Vera Tavares e as ilustrações de Filipe Abranches não só acompanham a excelência do labor que a tradutora Margarida Vale de Gato depositou nesta obra, como nos permitem afirmar estarmos perante um objecto cuja beleza procura fazer justiça ao ideal do autor ali compilado. Depois integram este volume, além dos poemas, um drama inacabado e um ensaio de Poe, assim como uma dedicadíssima introdução, preciosas notas explicativas da origem e dos processos relacionados com a composição dos diversos poemas, uma bibliografia seleccionada e uma cronologia biobibliográfica de inquestionável interesse.
Na introdução, Margarida Vale de Gato ocupa-se de vários aspectos clarificadores da complexidade estética do autor d’O Corvo. Entre outros, a ambivalência mística, o culto do paradoxo, os estados mentais intermitentes, a ironia romântica e a quimera da Beleza, o fascínio orientalista patente em poemas como Al Aaraaf e Israfel, o conflito entre os conceitos de fancy e imagination. A verdade é que a poesia de Edgar Allan Poe presta-se a leituras assaz diversificadas. É essa, de resto, a característica fundamental dos grandes autores. Uma obra, seja ela qual for, que constranja o seu intérprete no processo executório que lhe dá vida, perde, à partida, um dos valores mais característicos da criação artística: a liberdade. Este valor não é próprio daquele que cria, ele conquista-se na relação estabelecida entre criador, obra e intérprete, ou seja, aquele que recria. No ensaio A Filosofia da Composição, mais do que a defesa do poema enquanto construção, afastando-se Poe, neste domínio, das “tempestades impetuosas” que fundamentavam a poesia romântica, salienta-se a «sugestividade ─ uma espécie de corrente subterrânea, embora indefinida, de sentido» (p. 287). É esta sugestividade que marca toda a poética de Edgar Allan Poe. E esta sugestividade não se consegue sem espaço para a deambulação interpretativa.
Não é de admirar que Charles Baudelaire ou o nosso Fernando Pessoa se tenham deixado encantar pela sombra do poeta maldito norte-americano. Poe nasceu praticamente órfão na Boston de 1809. Ambos actores, o pai «sucumbe ao alcoolismo e abandona a família» um ano antes de a mãe ter falecido tuberculosa, em 1811. Edgar é adoptado e viaja com o padrasto pela Grã-Bretanha, onde faz os estudos primários. Começa a escrever versos satíricos, tem uma paixão platónica pela mãe de um dos seus colegas, contrai dívidas de jogo, dá cabo da relação com o pai adoptivo, à medida que se vai deixando tomar pelos vícios da boémia literária. Conhece algum sucesso em vida como contista e jornalista, mas arruína-se na embriaguez e na depressão. É quase impossível não associar as doses excessivas de láudano, os excessos alcoólicos, as depressões, à toada alucinatória que está na origem de praticamente toda a sua obra. Os mistérios e o fantástico, em Poe, surdem de uma deriva pelos “paraísos artificiais” que propiciaram, como também a Baudelaire e a Pessoa, uma sensibilidade para o Belo que cai por terra, como um pássaro morto, quando confrontado com a desditosa realidade do mundo terreno.
Esta desditosa realidade fica patente no tema por excelência da poesia de Poe: a morte de uma bela mulher e o pranto do amante enlutado. Um Péan, Para Alguém no Paraíso, Lenora, O Corvo, Annabel Lee são apenas exemplos maiores deste género de evocação, o qual não pode ser dissociado de uma consciência aterradora da finitude e da ruína que aparece magnificamente simbolizada no poema O Coliseu. É verdade que a poesia de Edgar Allan Poe se faz envolver de uma espécie de nuvem tenebrosa e misteriosa, pautada por uma melancolia aparentemente sem saída, mesmo que, pontualmente, o ideal da Beleza se nos mostre sob a forma de poema, mas também não deixa de ser verdade que dessa nuvem brotam bátegas de uma ironia paradoxal: «Embora num só sonho… eu fui feliz, / Fui tão feliz… E eu amo essa tontura… Sonhos!» (p. 64) Estes sonhos, lugar de realização de uma certa felicidade, não deixam de ser parte integrante da vida. Eles não são ainda o mundo do inconsciente onde se encontram recalcadas as razões das dores presentes, eles são o mundo proscrito pelos olhos que acordados se vêem distantes de um sono brando ao lado da amada. O sonho é aquilo que em vida mais nos aproxima da morte, é o delírio que nos aparta, momentaneamente, da realidade. Uma advertência: a tradução do poema Para M. L. S., citado nas notas finais, não consta entre os poemas coligidos, o que vem confirmar aquela regra que afirma nada ser perfeito se não contiver pelo menos um erro.
Escrito para o Rascunho.

5 POEMAS DE RUA 31 DE JANEIRO


quando entro na oficina e toco
no serrote gelado quase rombo
pergunto porquê
fizeram de mim o quê

debaixo de um caixote
à porta da pastelaria princesa
os dois rostos soldam-se
e deformam-se à face do ferro

e foi só o princípio
a avó a professora o padre Vicente
a tropa mais de dez patrões
todos mexeram eu próprio

com a ferramenta em punho
não hesito em polir
e entregar mais uma estatueta
ao preso encarregado da pintura

*

pobre sara fizera tantos planos
voltaria comigo para França
onde trabalhava como pintor
por conta própria e tinha
uma vida

*

deixei a caçadeira em cima da mesa
e fui pelo atalho à vila entregar-me

era mesmo a primeira vez que olhava
para aquelas coisas todas juntas

*

ficou provado em tribunal que eu ralhava
e agredia frequentemente a minha esposa

e concluíram que se não tivessem sido os maus tratos
o acto último e derradeiro praticado pela falecida
nunca teria acontecido

eu exaltava-me
pretendia que a minha mãe viesse morar connosco
e ela opunha-se

*

após a ressaca dos primeiros dias
facilmente me adaptei à vida da prisão
às celas fechadas que se abrem


José Ricardo Nunes, in Rua 31 de Janeiro (algumas vozes), &etc., Dezembro de 1998, s/p.

Domingo, 27 de Dezembro de 2009

REFORÇAR A FAMÍLIA EM 2010

Aumentando o salário mínimo nacional, não obrigando os trabalhadores a mais de 35 horas de trabalho semanais, garantindo um serviço nacional de saúde grátis e disponível, assim como toda a educação básica, providenciando a segurança das famílias em situação laboral precária, assegurando a aplicação rigorosa do que está determinado pelo Código de Trabalho, o qual já é suficientemente severo para com quem está empregado e pouco exigente para com quem emprega, acautelando os mínimos de uma segurança social disfuncional e pervertida pela falta de transparência que uma fiscalização deficiente não consegue corrigir.

A VIDA DA PALHA

A SIC Notícias mostra-nos o Mercado de Santana, que conheço relativamente bem das 6 da manhã, quando vinha dos copos à Benedita, às tantas do sol-posto, de ir lá abastecer-me de hortofrutícolas e leitão assado. Coelhos a cobrir, ciganos a apregoar, o rei da palha em peroração, poetas populares, crimes e paixões, críticas aos chineses, a banha da cobra. Felizmente, apesar das históricas taxas de desemprego, aquele povo não está em crise (hão-de queixar-se toda a vida, mas nunca estarão em crise). Basta revisitar o ano no suplemento de economia para perceber a crise: €2,8 mil milhões aplicados em offshores nos primeiros nove meses de 2009, a SONAE, a Teixeira Duarte e a Cimpor a lucrarem na bolsa à razão dos 90%... um ordenado mínimo criminoso, a corrupção dos fat cats nacionais por julgar e condenar. A vida da palha é um trabalho só para quem gosta.

OBRAS COMPLETAS

Passei o domingo a saltar de livro em livro. Acabei por estancar na casa de Monte Alto, onde estendi as pernas até à página 38. A Ana trouxe-me o Expresso, jornal que deixei de comprar como todos os outros que alguma vez comprei. O pretexto para quebrar a rotina foi uma recensão a Casa da Misericórdia. Aparece ao lado de um Gastão que reúne, pela quinta vez!, a sua poesia completa. Nem de propósito, na casa de Monte Alto as paredes ostentam outras convicções: «não acredito em obras completas de poetas vivos, e muito menos me convencem ou seduzem os poetas vivos que consentem que lhes engavetem a poesia numa mal amanhada e ansiosa obra completa» (Jorge Fallorca, n’A Cicatriz do Ar). Devo dizer que a palavra completa, associada à poesia, inspira-me zelo. Como há muito prefiro as obras inacabadas, os esboços, os cadernos de Da Vinci, tendo a pensar que a poesia é poesia por estar sempre por completar. Pretendê-la completa uma vez é dizê-la morta, reincidir na pretensão cinco vezes, repito cinco vezes, é-me tão compreensível como apreciar favas guisadas. E quem diz Gastão diz, por exemplo, Herberto. Daí que prefira a Obra Quase Incompleta, de Pimenta, à Poesia Completa [para ir completando], de Herberto. A desculpa é quase sempre a mesma: tornar acessíveis títulos esgotados, perdidos no tempo, proporcionar o reencontro com palavras que, em muitos casos, mais valia ficarem onde estavam, como estavam, até não mais estarem entre/com quem as fecundou. Depois há a história do poema contínuo, que tanto pode ser um refazer ininterrupto como uma febre intermitente ou a reinvenção de uma morte ressuscitada. Não sei, mas cá para mim todo o tesão permanente arrisca-se a ficar estático. Isto faz mais gosto quando entre o inchaço e o desinchaço a palavra sai fecundada pelos líquidos da criação.

UM PEQUENO-ALMOÇO HISTÓRICO



Um homem aproxima uma chávena de café da cara, inclina-a para a boca. É histórico, pensa. Ele coça a cabeça: outro acontecimento histórico. Devia era descansar, está a produzir uma quantidade imensa de história logo de manhã.
Credo, agora está a barrar torradas com manteiga, outro bocado de história a fazer-se.
Ele espanta-se por ter-lhe sido destinado ser tão histórico. Outros provavelmente não o têm, pensa, é, ao fim e ao cabo, um talento.
Ele pensa que um dos seus atacadores precisa de ser apertado. Ah bom, mais um acontecimento histórico importante que está para acontecer. Não o pode evitar. Estará talvez a ocupar uma faixa demasiado grande de história? Mas tem que viver, não tem? As torradas necessitam de manteiga e ele não pode andar por aí com um dos atacadores desapertados, pois não?
É certamente verdade, que quando escreverem todo o século XX será principalmente acerca dele. É a forma como o bolo se esmigalha ─ ah, aí está uma frase que será citada nos séculos vindouros.
Convencido? Um pouco; como pode evitá-lo observado por todos os olhos ainda por nascer do futuro?
Oh, oh, sente outro acontecimento histórico a chegar... Ah, aí está, uma chávena de café a aproximar-se da cara na ponta do seu braço. Se conseguissem registar isso em filme, quanta importância não teria para o futuro.
Bolas, derramou-o todo no colo. Um desses acidentes históricos que influenciarão os próximos mil anos; imprevisível e até muito desconfortável... Mas a história nunca é fácil, pensa ele...


Russell Edson, in O Túnel, trad. José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Abril de 2002, pp. 47, 49.

O COLISEU


Padrão da antiga Roma! Ó rico relicário
De vasta admiração abandonado ao Tempo
Por séculos sepultos de fausto e poder!
Afinal... afinal... depois de tantos dias
De exangue romaria e de sede ardente,
(De sede pela ciência que em teu solo brota),
Eu, homem transformado e manso me ajoelho,
Por entre as tuas sombras, bebendo em minha alma
Tua grandeza, tua tristeza e tua glória!

Vastidão! e Idade! e Memórias de Antanho!
Desolação! Silêncio! túrbida Noite!
Agora vos pressinto ─ vos sinto em vossa força ─
Feitiços mais certeiros sequer logrou o rei
Judeu quando ensinava no Monte Getsémani,
Nem os caldeus jamais tão altos sortilégios
Furtaram às serenas estrelas lá no Céu!

Aqui, onde um herói tombou, tomba um pilar!
Aqui, onde o brasão da águia em ouro ardia,
Só o sombrio morcego a escuridão vigia!
Aqui, onde os cabelos louros das matronas
Ondulavam, ondulam só juncos e cardos!
Aqui, onde o monarca, áureo, repousava,
Agora, à frouxa luz da lua em semiarco,
Veloz e silente, nas pedras o lagarto
Serpenteia, espectral, para o seu lar de mármore!

Mas, vede, estes muros! A hera nas arcadas!
Os plintos carcomidos, escuros capitéis...
Gravuras esmaecidas, os frisos destruídos...
Os escombros das cornijas... destroços... ruínas
E são as pedras cor de cinza o que resta
Do que era alto e colossal, e a corrosão
Do Tempo a mim e ao Fado deu por seu legado?

«Tudo o que resta, não. Tudo, não», volve o Eco:
«De nós, e das Ruínas todas, sons sonoros,
Proféticos, ressoam, ascendendo aos sábios,
Tal como ascende ao Sol a música de Mémnon.
O coração dos grandes homens comandamos,
Com despotismo as mentes altas sujeitamos.
Não somos impotentes... nós, pálidas pedras...
Nem todo o nosso lustre e Fama feneceram,
Nem todo o encantamento do renome antigo...
Nem toda a maravilha que nos cerca e cinge,
Nem todos os mistérios que em nós residem,
Nem todas as memórias que de nós se elevam
E se suspendem, pairando, e nos envolvem
Num manto mais magnífico do que a glória.»


Edgar Allan Poe, in Obra Poética Completa, trad. Margarida Vale de Gato, Tinta-da-China, Março de 2009, pp. 133-134.

O ESPANHOL

A maior surpresa da noite de Natal foi ter sido atacado pela imagem de um amigo dos tempos de faculdade que não via há muitos, muitos anos. Após uma refeição de enfartar brutos, sentei-me a descansar no sofá da sala de estar com a televisão ligada na SIC Notícias. Eis que sou surpreendido por um vulto que me era familiar, o vulto do desaparecido Espanhol. Ficou assim conhecido, entre os camaradas do curso de 1992, aquele que um dia interrompeu uma aula de Hermenêutica do Texto Filosófico para presentear a professora com um ramo de malmequeres. Ela perguntou-lhe se aquele gesto exigia interpretação, ao que ele respondeu com um encolher de ombros seguido de um grunhido difícil de reproduzir por palavras, mas que andava perto de um ãi ou de um nhei ou de um nhãe ou talvez de um ahn muito aberto e estendido, como se fosse apenas uma lufada de ar a sair-lhe do peito, provocada por aquele singular movimento de ombros encolhidos. A tudo o que lhe perguntavam, o Espanhol respondia com aquele encolher de ombros procedido de uma onomatopeia que uns julgavam manifestar desprezo, outros indiferença, outros ainda desprezo, indiferença e os seus opostos correspondentes. A verdade é que a todas as questões, a todas as dúvidas, a todas as interpelações, o Espanhol respondia com um encolher de ombros cujo movimento provocava a expulsão de uma lufada de ar sem qualquer significado preciso, mas uma forte simbologia prática. Gostaste da aula de Ontologia? Nhãe. Queres ir beber um copo? Nhei. Estás bem? Ahn. Fizeste o trabalho de Antropologia Filosófica? Ãi. A estes grunhidos indecifráveis, junte o leitor a imagem do tal encolher de ombros e faça como Ludwig Wittgenstein no Tratado Lógico-Filosófico: «o que a imagem representa, é o seu sentido». Logo, porque a imagem do Espanhol representava um homem a encolher os ombros perante as questões que lhe eram colocadas, o sentido daquele gesto, da imagem daquele gesto, só pode ser esse mesmo, o sentido de um encolher de ombros perante a dúvida. De resto, com o tempo, fomo-nos apercebendo que o Espanhol, não ligando muito a nada em geral, ligava alguma coisa ao primeiro Wittgenstein, o do Tratado. Proposições tais como «acerca daquilo de que se não pode falar, tem que se ficar em silêncio» eram-lhe bastante familiares e, por ironia do destino, diziam-lhe muito. Não será preciso chamar a atenção do leitor para o facto de Wittgenstein incorrer em contradição ao falar nessas suas asserções acerca daquilo que não se pode falar. A pergunta seria: então, ó Witt, porque não te manténs tu em silêncio acerca daquilo que se não pode falar? Por que razão te arrogas no direito de formular juízos sobre aquilo que não se pode falar? A estas perguntas, talvez o velho Witt viesse a responder como o Espanhol: Nhãe, nhei, ahn, ãi. Ou talvez viesse a adoptar o discurso que, com o passar dos anos, o Espanhol adoptou. Porque até os homens de poucas palavras, ou mesmo de palavra nenhuma, evoluem, também o nosso Espanhol evoluiu. Ao terceiro ano de faculdade, o nhãe tinha evoluído para um é mas não é, o nhei fora substituído por um foi mas não foi, o ahn era agora ocupado por um vai mas não vai, o ãi assumira a forma de um quer mas não quer. Esta parede é branca? ─ perguntávamos ao Espanhol, com um claro intuito provocatório. E ele respondia: é mas não é. Foste ao cinema? Fui mas não fui. Mas como é isso possível? É mas não é. Mas alguma coisa na tua vida tem uma objectividade que possa superar essa paradoxal conjugação da afirmativa com a sua negação? Tem mas não tem. E com estas respostas o Espanhol dava-nos cabo dos nervos, mais ainda que o velho Witt, para quem só tínhamos paciência quando discutíamos os limites do mundo do Espanhol. Lembrar-se-á o leitor do que Wittgenstein afirmou em 5.6: «Os limites da minha linguagem significa os limites do meu mundo». Caberá agora a cada um, conforme a sua linguagem, julgar dos limites do mundo de um tipo como o Espanhol. Eu fico-me por recordá-lo, depois de o ter avistado na SIC Notícias a representar o papel de comentador à la carte. O mundo está em crise? Está mas não está. O primeiro-ministro é corrupto? É mas não é. Portugal tem algum futuro? Tem mas não tem.

SETE CAPÍTULOS DO MUNDO


1.
escrevo-te cartas que nunca irás receber.
a morada desaparece
sempre que tentamos encontrar
não uma porta, mas uma casa inteira.
desligo tudo dentro deste quarto.
ouço, incompleto, ─ com a janela
entreaberta ao fresco da noite ─
cada pequeno ruído,
como se fosse um código para nos entendermos.


Ruy Ventura (n. 27 de Dezembro de 1973), in sete capítulos do mundo, Black Sun Editores, Junho de 2003, p. 7.

Sábado, 26 de Dezembro de 2009

AQUÁRIO

Sentado no sofá, a olhar o branco sujo da parede da sala, Baltazar entretinha-se pisando baratas. Gostava de sentir seus corpos estaladiços esborrachando-se debaixo das solas dos sapatos. Magicava uma forma de impressionar o coração de Bianca ou Branca ou lá o que era. Andava algo confuso. Se, por um lado, não sentia pela vizinha do rés-do-chão senão uma imensa gratidão, por outro lado, não podia negar a si próprio o gozo de se imaginar adormecido sobre os melões que ela ostentava entre os ombros e a cintura. Queria impressioná-la sem dar nas vistas, mostrar-se sem aparecer, queria tocar-lhe a modos que ao de leve para que ela não se convencesse de que ele queria algo mais do que sentir-se querido sem querer. No fundo, Baltazar queria de Bianca ou Branca ou lá o que era a possibilidade de um sonho. Mas também não queria que ela percebesse isso, nem ele próprio queria assumir perante si próprio essa pretensão. Afastada a hipótese dos poemas, lembrou-se de procurar sugestões na Internet. Só uma das soluções lhe pareceu viável: um aquário com peixinhos falantes, de garantida qualidade e diálogos à escolha. Baltazar encomendou um com o diálogo número 7: diálogo dos peixinhos amorosos. Chegada a encomenda, Baltazar tratou de embrulhar a coisa em papel festivo ma non troppo. Muito sorrateiramente, largou a encomenda à porta de Bianca ou Branca ou lá o que era. Tocou ligeiramente na campainha e escapuliu-se. Bianca ou Branca ou lá o que era abriu a porta, viu o embrulho e trouxe-o para dentro de casa. Não sabia de quem era nem ao que vinha, mas não resistiu à gulodice e abriu-o. Ficou radiante com o aquário dos peixinhos falantes. Arranjou-lhe um lugar de destaque ao lado dos livros de auto-ajuda. Depois, ainda indiferente à origem do presente, que para si era como se tivesse caído do céu, regressou aos afazeres domésticos. Enquanto preparava biscoitos, reparou que os peixinhos amorosos repetiam o mesmo diálogo consecutivamente: és linda, morria por ti, gosto muito de ti, és querido, amo-te muito, etc. Bianca ou Branca ou lá o que era pensou que o aquário estava avariado, pois aquele que ela conhecia reproduzia na íntegra o seu diálogo preferido da série O Homem da Atlântida. Trata-se do episódio em que o homem da Atlântida se apaixona por uma sereia muda. Intrigada com o facto, foi certificar-se do que se passava. Foi e veio, embora tarde demais. Os gatos persas haviam rodeado o aquário, estrafegando cada um dos peixinhos até deles não se ouvir mais do que um conclusivo e terminal: perdoa-me.

PAI NATAL, MÃE NATAL

O Pai Natal faz oh, oh, oh.
A Mãe Natal faz ah, ah, ah.

Beatriz, 3 anos.

NÃO ENTRAR COMO TURISTA NO CORAÇÃO DE UMA MULHER



EU NÃO ME ENTENDO
(José Luis Gordo / José Mário Branco)

Entrego a minha voz ao coração do vento
E quanto mais água dos meus olhos corre
Mais fogo acendo
Eu não me entendo
Eu não me entendo
E por ti já gastei o pensamento
Ai amor, ai amor, se o tempo
Já gastou, já gastou o nosso tempo
Eu não me entendo
Eu não me entendo
A primavera do meu tempo
Já gastei a primavera do meu tempo
Já fiz da boca jardins de vento
E não me entendo
E não me entendo
Eu não me entendo

cantado por Camané

CRIAR-ME, RECRIAR-ME, ESVAZIAR-ME


Criar-me, recriar-me, esvaziar-me, até
que o que de mim um dia, morto, vá
para a terra, não seja eu; enganar honradamente,
plenamente, com vontade firme,
o crime, e deixar-lhe este espantalho negro
do meu corpo, como sendo eu!
E esconder-me,
a sorrir, imortal, nas margens puras
do rio eterno, árvore
─ num poente imarcescível ─
da imaginação mágica e divina!



Juan Ranón Jimenez, in Antologia Poética, trad. José Bento, Relógio D’Água, 1992, p. 119.

JUAN & ZENOBIA

Raízes e asas. Mas que as asas enraízem
e as raízes voem.

Era o filho mais novo de uma família abastada. Nasceu a 23 de Dezembro de 1881, baptizaram-no de Juan Ramón Jiménez. Moguer, no sul da Andaluzia, foi o berço geográfico do poeta. Fez os estudos secundários num colégio interno de jesuítas. Depois foi para Sevilha estudar Direito. A influência do pai, um homem rico da província de Huelva, foi decisiva. Mas Juan não prescindiu, por iniciativa própria, dos estudos de pintura, que acumulou com as aulas de Direito. Lia os poetas espanhóis da época: Bécquer, Rosalia de Castro, Verdaguer. Em 1897 publicou num jornal local um poema inspirado nos versos de Bécquer. Começa a publicar com alguma regularidade na madrilena Revista Nueva. A revista, de inspiração modernista, meteu Juan Ramón Jiménez em contacto com outros poetas, nomeadamente o boémio Francisco Villaespesa, a quem Ramón ficará a dever a convivência com o nicaraguense Rubén Darío. Juan Ramón chega a Madrid a 13 de Abril de 1900. O ambiente algo bucólico de Moguer contrasta com a agitação da capital espanhola. Para agravar a deslocação, o pai de Juan morreu subitamente, originando no poeta uma raiz de pânico que virá a atormentá-lo pelo resto da vida. Publica os primeiros livros, Ninfeas e Almas de violeta, ajudado por Darío. Em 1901 é internado num estabelecimento psiquiátrico perto de Bordéus. Aí leu, entre outros, poetas como Baudelaire, Mallarmé e Verlaine. Regressa a Espanha, onde permanece algum tempo no sanatório do Rosario em Madrid. Reunia-se nesse sanatório com outros escritores, formando uma tertúlia da qual nasceu a revista Helios. Ortega y Gasset elogia-lhe o livro Arias tristes, de 1903. Juan Ramón dedica-se inteiramente à poesia, colaborando em várias revistas. Regressa a Moguer, assolado por uma neurose, onde busca o repouso físico que nunca almejou intelectualmente. O convívio com a natureza era reconfortante, mas a ruína económica da família anunciava novos períodos de desespero. Parte novamente para Madrid. Em 1913 conheceu Zenobia Camprubí Aymar, com quem veio a casar a 2 de Março de 1916. A família de Zenobia estava contra o casamento, pelo que os dois resolveram dar o nó na cidade de Nova Iorque. A digressão americana motiva a escrita de Diario de un poeta reciencasado (1916). Em Nova Iorque, o poeta foi nomeado membro da Hispanic Society os America. O casal regressa a Madrid em 1916, Juan Ramón publica a edição completa do livro Platero y yo, publica livros de poemas, uma «antologia, Poesías escogidas, que inicia um singular processo de publicação da sua poesia: à selecção de livros anteriores junta versos de livros nunca publicados». Traduz, com Zenobia, livros de Rabindranath Tagore, edita várias revistas, entre as quais se destacam Índice, e Ley. A relação com Zenobia é reforçada por uma vida de trabalho conjunto. Viajam por França, Nova Iorque, Porto Rico, Cuba, até finalmente se instalarem em Coral Gables, perto de Miami, iniciando uma profícua colaboração com universidades norte-americanas. Em 1940 o poeta é novamente hospitalizado. As depressões nervosas repetem-se ao longo dos anos. Aconselhada por um médico, Zenobia tenta viver com Juan Ramón em Porto Rico. Não se vislumbram quaisquer melhoras. No final de 1951, a própria Zenobia é operada a um tumor no útero. O poeta sofre uma recaída e volta a ser internado. Em 1956 Zenobia é novamente atacada por uma doença cancerígena. Tenta convencer o marido a regressar a Espanha, para que ele pudesse ficar junto aos seus familiares após a morte que se avizinhava. O poeta recusa. Quando comunicam a Juan Ramón Jiménez a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, Zenobia já não conseguia falar. Morreu três dias depois, a 28 de Outubro de 1956. Juan Ramón morrerá na mesma clínica, um ano e meio mais tarde, a 29 de Maio de 1958.

Fonte: Prólogo de José Bento à Antologia Poética de Juan Ramón Jimenez publicada pela Relógio D’Água.

Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

DESORDEM SONORA*

video

*Título respigado ali.

ÍTACA


Não vale a pena suportar tanto castigo.
Procuras Ítaca. Mas só há esse procurar.
Onde quer que te encontres está contigo
dentro de ti em casa na distância
onde quer que procures há outro mar
Ítaca é a tua própria errância.


Manuel Alegre

POEMA DE NATAL



No Natal não te esqueças de limpar as ramelas
e de escavar pelos olhos adentro a pulsação do mundo.
Limpa os canos das caçadeiras,
para que depois não percas tempo no disparo.
Respira. Marca uma limpeza de pele, espreme
todos os pontos negros e apronta-te para a ceia.
Dá uma sopa aos pobres, atira pedras às latas,
afaga o pêlo do cão, mesmo que tenha pulgas.
No Natal até as pulgas são bem -vindas. Respira.

No Natal dá corda às bonecas, programa as cordas
vocais para um playback hospitalar e prisional.
Distribui canapés pelos desabrigados, pelos foragidos,
pelos ditadores acossados. Predispõe-te para um (a)balanço.
Respira. No Natal alegra-te com a conta a zeros,
com o patrão de saco azul ao ombro, com os espantalhos
quotidianos, com as greves da greve,
com a mensalidade vestibular num pontapé de misericórdia.
No Natal sic. Porque no Natal todos os demónios são bons.

Pelo menos um dia por ano: esquece-te do mundo
que se estende para lá das fronteiras.
Deixa-te ficar numa viagem parada, deixa-te ficar:
parado ─ como um som que balança dentro do corpo,
como uma pedra que sangra a pele de um corpo calado.
Que esse dia seja o dia de Natal. Ainda que estejas obrigado
a pagar a portagem de mais um suicida que não acredita
na expiação universal dos pecados particulares,
no Natal dá cá um abraço e não digas que foste daqui.

Henrique Manuel Bento Fialho, in Baluerna – cuadernos del viajero, n.º29, Estación de Autobuses de Cáceres, S.A., 2008.

ACTOS FALHADOS

O Natal foi pródigo em actos falhados. Assim que me recorde, de tantos que foram, destaco três: o livro Marcada passou a ser «um livro de vampiros chamado Macaca»; A Profecia Celestina, de James Redfield, chama-se agora Profecia Clandestina; e, por fim, A Baía do Desejo, que na boca de um cliente chegou-nos como A Lagoa do Amor.

Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

AH, A MÚSICA


Quem terá deixado esquecida
esta música ouvida num canto da rua?


Ninguém de quem passa nela repara
No entanto - é ela - faltava
no dia de chuva

No meu dia de chuva?


Meu seria decerto este dia
pois por mais precário que eu seja
nenhuma chuva fora podia
cair se acaso em mim não caísse
Cai chuva e há música em meu coração
Era mera ilusão o dia de chuva


Palavras de Ruy Belo.
Fotografias de Margarida Faísca.

Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

HOJE


quarta-feira, 23 de Dezembro às 22h00
Concerto de Natal
Ventilan

Os Ventilan não nasceram de uma ideia, nasceram de uma vontade. Não são, por isso, um projecto. São puro acto. Seguem à risca a máxima segundo a qual a poesia é cada vez mais claramente a antimatéria da sociedade de consumo. Cada acto é um ensaio e cada ensaio é, helás!, um acto. Raramente o acto acontece mais que uma vez por ano. Os (in)suspeitos implicados são: Nuno Moura na leitura, Pedro Serpa nos sopros, Henrique Fialho nas cordas, Luís Fonseca no teclado. Por cima do ruído é costume escutarem-se versos, mas nada impede que por cima dos versos se venha a escutar ruído. Tudo porque a poesia é, também e talvez sobretudo, para gingar, pronunciar, respirar, dançar, menear, cantarolar, representar, exorcizar, clamar, vociferar, gritar, goelar, tragar, manjar, respirar, respirar, respirar.

Nuno Moura Henrique Fialho Pedro Serpa Luís Fonseca
Mais informações: aqui.

Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

ELOGIO DO CINISMO (11)


Onde o corpo político exige a abdicação da soberania individual, o libertino celebra uma política do corpo; onde triunfam, sob todas as suas tonalidades, as variações sobre o tema do contrato social, ele opõe um contrato hedonista, revogável a partir, apenas, do desejo de um dos dois elementos; onde reina o poder político, em última instância com a ajuda da razão de Estado, ele enaltece a paixão singular e individual, o capricho, a vontade de gozar, para ele e para o outro. Associações de egoístas, afinidades electivas e prática política da amizade, o libertino histórico da Trétrade ou das Academias secretas pratica o local hermético como uma metáfora: o cenáculo e o café, a taberna e o salão, o «boudoir» e o fiacre, a casa de campo e o quarto de dormir, o castelo e o pavilhão de caça, o sótão: microcosmos elevados ao estatuto de laboratórios libertários onde triunfam as virtudes partilhadas e a sociedade organizada segundo o princípio de gozar e de fazer gozar.
Estas novas possibilidades de existência fornecem modelos ─ e ainda poderão vir a produzi-los ─ para as intersubjectividades verdadeira e radicalmente hedonistas: cinismo e dandismo, libertinagem e cimento libertário, todas estas forças contribuem a um tempo para desactivar as lógicas do poder ao promover uma micro-sociedade electiva hedonista. No registo do ideal ascético, o poder funciona segundo o modelo da procissão: do mais elevado, sobre e contra a pessoa situada em baixo da pirâmide hierárquica; no do ideal hedonista, ele age por capilaridade, irrigando o conjunto e traçando, na totalidade de um grupo, os brilhos e as cintilações característicos das relações de júbilo.
Onde os outros vêem a função, a pessoa, ele quer a nudez, metafórica ou real, pois age em virtude de uma sapiêncta trágica: o saber consequente, ligado a todo o ateu radical, quanto à igualdade absoluta perante a morte. Esta sabedoria violenta das consciências na proximidade dos ossários, nos campos e nas pocilgas onde se espera a queda do cutelo da guilhotina, supõe que não se perca o seu tempo ─ enquanto se espera pelo momento do trespasse ─ em considerações nas quais as hierarquias poriam um freio aos movimentos de uma atracção apaixonada voluptuosa entre todos os membros da comunidade social, iguais perante o seu destino.
As
Novas Observações sobre a Língua Francesa de 1692 precisam: «Dir-se-á de um homem de bem que nunca se sente estorvado e que é inimigo de tudo o que se chama servidão: ele é libertino». Alguns, como, por exemplo, Vanini, Fontanier ou Vallée, pagaram essa vontade libertina e libertária com a fogueira, fiéis, nesse aspecto, à necessária proximidade entre o pensamento e o perigo (mesmo que os riscos da nossa época possam parecer quase nulos, pelo menos numa França saciada e paralisada pelo egocentrismo, não longe de uma Argélia onde ainda se corta a cabeça do libertino ou o decapitam com uma faca de talho). Amigos e inimigos conhecem os mesmos trajectos, sofrem destinos semelhantes. Não há nada que deva durar mais, melhor e para toda a eternidade do que esta figura libertária construída sobre um princípio anticlerical e ateu.
Enfim, cínico, dandy e libertino, o libertário mostra-se, também, romântico, pois sabe que se comprometeu num combate de Titãs no qual tudo irá perder, excepto a honra. O desfecho não oferece a mínima dúvida: nenhum sacrifício individual bastará para inflectir o curso da História de modo definitivo e duradouro. Nada pode inverter a natureza trágica do real e a permanência das lutas violentas pelo poder. Pelo menos, com a elegância a ajudar, o libertário pode dar o seu último suspiro com a satisfação de uma tarefa cumprida até ao fim, apesar de todas as dificuldades.
Onde o revolucionário imaginava o fim da sua tarefa coincidindo com o fim da história, o libertário, convertido às necessidades do devir revolucionário do indivíduo, aceita a eternidade da sua obra e sabe da impossibilidade da História vir um dia a acabar. Nada de pacificação futura, de sociedade realizada na harmonia, de ideal da razão encarnado nos amanhãs radiosos, mas sim o eterno retorno da violência, da luta pelo exercício de uma soberania paga à custa da sujeição do outro. A vontade hedonista, em política, supõe o desejo exacerbado de uma libertação de si, mesmo do registo da agonia.
O romântico age, solitário, para alcançar o sublime, o seu ideal, evitando qualquer negação ou objectivação de outrem. Pois numa vontade de júbilo generalizada, numa economia global dos desejos e dos prazeres, e apesar do desespero, é preciso gozar e fazer gozar. Por não ser kantiano, o libertário não conta com a improvável universalização da máxima hedonista. Em compensação, no terreno do enxameamento, da capilaridade da proximidade, cada um pode esperar um reencantamento do mundo na sua esfera exclusiva, esperando o entrelaçamento dessas esferas num jogo de combinações múltiplas.
A guerra permanecerá e, com ela, o teatro de sombra e de luz, a estratégia e a táctica, a força e a potência, o mistério e a implacabilidade do que se repete: a natureza e a substância dessa energia guerreira instalada nos interstícios abertos pelos indivíduos que desdobram e desenrolam os seus destinos. O romantismo reside neste saber trágico e desesperado: nada de substancial se modificará; a única esperança, solipsista, jaz na possibilidade de uma escultura de si mesmo. Uma política hedonista desejosa de uma intersubjectividade, no mais neutro dos poderes de sujeição e no mais absoluto dos prazeres de jubilação, engendra uma verticalidade na estruturação de si mesmo, segundo o registo da moral pura.
Onde o mundo guerreiro e as violências sociais vivem de solenidade, de gravidade, de segurança, de comunidade, de brutalidade, de cientismo, de sociologismo e de contrato, o libertário propõe o ludismo, a liberdade, o indivíduo, o romantismo, o trágico e a estética generalizada. Contra o soberano que deseja o grupo, o número e a quantidade, ele realiza a sua própria soberania e autoriza uma palavra susceptível de dizer «eu» e trata de possibilitar o mesmo exercício para cada um. Neste projecto de escultura política de si próprio, a euforia, tão cara ao espírito de Marcel Duchamp, torna-se uma bomba psicológica e portadora de entusiasmo. Daí a intercessão e o devir da obra na acção.


Michel Onfray, in A Política do Rebelde – Tratado de Resistência e de Insubmissão, trad. Carlos Oliveira, Instituto Piaget, 1999, pp. 198-201. (1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) (9) (10)

FLEURETTE AFRICAINE



A escrita é um exercício burguês, exige tempo, disponibilidade, cabeça. Falta-nos o tempo, enche-se-nos a cabeça dos ecos ainda tão vivos do cansaço, e nem uma palavra nos salta dos dedos. Resta-nos pousar a cabeça sobre o dorso do silêncio, fechar os olhos, cheirar uma flor africana.

VIA LÁCTEA




Segundo dados da Organização Mundial
de Saúde praticam-se diariamente

Cem milhões de cópulas em todo
o mundo das quais resultam

mais ou menos trezentos mil
litros de esperma isto sem

contar com o produto das actividades
solitárias e das poluções nocturnas


Jorge Sousa Braga, do livro A Ferida Aberta, in O Poeta Nu [poesia reunida], Assírio & Alvim, Junho de 2007, p. 235.

Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

A SOBREVIVÊNCIA DOS OPULENTOS


VITALIDADE


Um corvo pousou no meu ombro esquerdo e debicou a parte direita do meu cérebro. Há muito que a paisagem não é outra. Eu bem queria ser um índio na América do Norte, montado nos cavalos dos filmes, a levantar poeira nos vales do Grand Canyon, ateando sinais de fumo ao meu amor. Eu bem queria ser um esquimó, aquecer os pés entre as pernas da amada, enrolados os dois nas peles de caça grossa. Mas criei raízes atrás do balcão, sou um corpo pesado a afundar-se num pântano de trocos, embrulhos, descontos, promoções, ofertas. Três dias, talvez menos, para me vingar de guitarra em riste, partir as cordas, distorcer as unhas. Às vezes dá-me ganas de levantar a caixa à altura do tecto e espetá-la contra as montras, como Jesus arrastando pelo chão o maná dos vendilhões. O país está todo fodido e fere-me as têmporas, sinto uma veia a inchar no alto da cabeça, sinto que a qualquer momento pode rebentar, é como se fosse um balão que alguém larga no ar, um balão despedindo-se do céu às curvas e contracurvas, num movimento aleatório, movido apenas pela fuga do oxigénio, um balão quase a rebentar de perdido, assobiando curvas e contracurvas, contra as paredes, contra o teto, até estatelar-se na alcatifa onde agora pousas um ramo de girassóis, uma balada. O trabalho, dizia Vian, rebaixa o homem à categoria de máquina. Isto não é para ti. Tu és a parte boa do mundo quando amansas as veias que se me enchem na cabeça levantando o crânio à altura das nuvens, tu és uma pequena tempestade na sala onde dormem os demónios do trabalho, tu és um anjo que me segura por cordas como um manipulador de marionetas. Isto não é para ti. Tu és um círculo de fogo que me protege da escravatura. Querem pôr a desgraça a trabalhar 60 horas por semana, querem pô-la ao serviço dos comensais enquanto o país se afunda num pântano de trocos, embrulhos, promoções, descontos, cartões, talões de oferta. Querem tudo isso a troco de nada, supondo talvez que a troco do que quer que seja nós venhamos a prescindir da vida, da nossa vida, a vida que eles já levam pela trela suja, enferrujada, imunda com que há muito nos reprimiram. Não hei-de morrer, meu amor, não hei-de morrer sem espetar o punhal do meu ódio no crânio de um desses suspirantes. Sabes, eles descansam sobre o nosso cansaço. Não sabem que enquanto aconchegam o cachaço às penas da almofada crescem vértebras por dentro dos tecidos. Um destes dias a almofada vinga-se. Desespero pela força rebentada dos afogados, desespero por essa hora em que vindos da insuportabilidade do mundo os punhos rebentem em jarros de sangue que afogarão os vampiros no seu próprio alimento. Já vejo os braços a crescer para fora dos tecidos, um destes dias as mãos esticam a boca ao rasgão, um destes dias uma catedral inteira desmorona-se sobre as fuças de um desses mahatmas do economicismo. Pode ser que o salvador seja a tua sombra ao longe, pode ser que sejas tu essa ideia que ainda me permite dar corda à vitalidade e andar por aqui aos trambolhões, pode ser que sejas tu a ideia inalcançável que me afaga as costas enquanto respiro fundo para disfarçar a dor, pode ser que do outro lado do vazio onde me encontro neste preciso momento tu ainda respires o segundo que eu respiro a toda a hora. Eu estou a 60 horas da loucura, doem-me as vértebras todas, uma de cada vez, a cabeça caiu-me aos pés, os pés afundam-se no pântano, criam raízes, eu estou carente duma guitarra punk, scientists tell us that the cuases of these strong men’s pré mature death is self-pollution, comprinhas de Natal, meu amor, comprinhas, um horário a correr atrás do prejuízo, um objectivo a lavar-se no estrume da sua luminosa magnificência, uma atracção que alicia como a merda o escaravelho, olha tu para a minha felicidade, olha para a minha alagria, não vez como me comprazo em cativeiro, os primórdios da vida determinados pelo registo de ponto, tu lá longe, eu aqui com insectos na cabeça, nos ouvidos, zunindo dentro do crânio a melodia do que ficou por dizer, eu aqui a tentar respirar duas de 24 horas possíveis, com um corvo pousado no meu ombro esquerdo a debicar-me o lado direito do cérebro, eu estou com uma vontade danada de pôr os nervos na frigideira e fazer deles o óleo onde hei-de fritar o vómito que me causa saber, ver, constatar, este país a afundar-se num pântano de trocos, embrulhos, descontos, promoções, ofertas. Não há nenhuma altivez neste alvorecer. Apenas uma bateria, uma guitarra, um baixo, uma voz que me descansa de um ruído silencioso, criminoso, torturante, que é o da caixa a abrir sempre que mais um troco fica registado.

O LEITOR DIRIA A ÚLTIMA CEIA


Desacredito das grandes coisas da vida
o amor deus a mesa posta algum
grito se a mesa vazia dia sobre dia
e até a morte a morte
coisa nobre com que o corpo não perde aposta
se a mesa vazia dia sobre dia
e noite cada noite a mesa vazia
a morte coisa nobre não é mais morte
andam a fazer da morte amparo da vida
e eu poeta que desacredito ora das grandes coisas da vida
e o amor onde o deixei?
se a mesa vazia e ninguém vem.


Hugo Milhanas Machado (n. 12 de Dezembro de 1984), in Clave do Mundo, Sombra do Amor, Novembro de 2007, p.91.

Domingo, 20 de Dezembro de 2009

TREMOR

A Terra tremeu. Baltazar pensou que Branca tinha encontrado um amor com o qual se rebolava no rés-do-chão, fazendo tremer com seus peitos ameloados e suas nádegas-melancia os pilares da Terra. O pombo Benjamim mostrou alguma agitação, assim como agitado ficou o coração de Baltazar. Mas a causa da agitação era outra. O pombo não suportava a sinfonia de roncos e gorjeios, o chilreio e a chinfrineira de galinhas a cacarejar, de patos a grasnar, de leões a rugir, de bezerros a mugir, de burros a zurrar, de cães a ladrar, de doninhas a chiar, de macacos a guinchar, de cabras a berrar, de borregos a balir, de gatos a miar, de grilos a cantar, de hienas a uivar, de pintos a piar, de moscas a zoar e mosquitos a zumbir, de papagaios a palrar, muitos, tantos, papagaios a palrar que se faziam ouvir estrondosamente na torre erguida no centro centralíssimo da rotunda recentemente inaugurada. Vinte e quatro parcas horas passadas sobre o evento, e já a população se insurgia contra o ruído insuportável que dali surgia para logo chocar contra as paredes das casas, contra os ouvidos dos passeantes, contra o corpo dos seres anónimos, contra a alma, contra o nervo, de todos os indivíduos. Nada a fazer, o artista não permitia que retocassem a sua obra-prima, nem para dali tirarem um periquito que fosse, sob pena de processar tudo e todos, reivindicando incalculáveis e pesadíssimas indemnizações por danos irreversíveis naquele fulcral exemplo da criatividade humana. O pombo Benjamim não andava nada satisfeito com a nova banda sonora da cidade. Era um pombo que apreciava uma leitura concentrada do mundo, uma leitura crítica e afinada da realidade. Todo aquele ruído poluía-lhe o espírito, desconcertando-o e desconcentrando-o irremediavelmente. Entretanto, o coração de Baltazar não parara de palpitar pela vizinha do rés-do-chão. Nunca ninguém fora tão disponível e prestável para com Baltazar, o que o deixara numa amargura de não se ter em si à qual é costume associarmos estados de assolapada paixão. Tudo lhe parecia perfeito: ele, Baltazar, de mão dada com Bianca ou Branca ou lá o que era, e seu pombo Benjamim fazendo-lhes sombra, num passeio romântico pelas 70 x 7 rotundas sem cruzamento que havia na cidade. Escreveu-lhe um poema: da tua fruta farei a salada / com que alimentarei a fome / que me come. Rasgou o poema.

N'O Indesmentível.

Sábado, 19 de Dezembro de 2009

POETA FAZENDEIRO



Manoel de Barros nasceu em Cuiabá a 19 de Dezembro de 1916. Filho de um capataz influente, tinha apenas um ano quando o pai fundou uma fazenda no Pantanal. Cresceu a brincar na terra, entre gado e plantações, no contacto com as coisas desimportantes que lhe marcaram a poesia. Estudou no colégio interno de Campo Grande e, posteriormente, no Colégio São José dos Irmãos Maristas, no Rio de Janeiro. Dez anos de internato suportados no convívio com a obra do Padre António Vieira. Ao abandonar o colégio, encontrou-se com as palavras de Rimbaud, leu Marx, conheceu alguns engajados, aderiu à Juventude Comunista. O primeiro livro, escrito aos 19 anos, ficou por publicar. Conta-se que procurado pela polícia, depois de ter grafitado um Viva o comunismo numa estátua da cidade, foi livrado da prisão por ter a dona da pensão onde então morava advertido os polícias de que o jovem rebelde era bom rapaz e até tinha escrito um livro: Nossa Senhora de Minha Escuridão. O polícia apreendeu os poemas e deixou o poeta em liberdade. Afasta-se do partido depois de ouvir Luiz Carlos Prestes apoiar o ditador Getúlio Vargas à saída de 10 anos de cativeiro. Termina o curso de Direito em 1949. Regressou ao Pantanal, andou pela Bolívia, Peru, Nova York, onde estudou cinema e pintura. Volta para o Brasil com a insígnia de advogado, conhece Stella e, passados três meses, estão casados. Do casório resultaram três filhos. O primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, tinha sido publicado em 1937. Da primeira edição fizeram-se apenas 20 exemplares artesanais. Avesso a caciques e modas poéticas, permaneceu praticamente anónimo durante vários anos. Em 1960 recebeu o Prémio Orlando Dantas, atribuído pela Academia Brasileira de Letras ao livro Compêndio para uso dos pássaros. Posteriormente, foram-lhe atribuídos muitos outros prémios e a sua poesia é hoje reconhecida como uma das mais originais da literatura contemporânea brasileira. Em minha modesta opinião: Manoel de Barros é um dos poetas mais singulares da língua portuguesa. Em Junho de 2007, as Quasi Edições reuniram-lhe os poemas no volume Compêndio para Uso dos Pássaros – Poesia Reunida 1937-2004:

A DISFUNÇÃO

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de
a menos
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1 ─ Aceitação da inércia para dar movimento às
palavras.
2 ─ Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 ─ Percepção de contigüidades anômalas entre
verbos e substantivos.
4 ─ Gostar de fazer casamentos incestuosos entre
palavras.
5 ─ Amor por seres desimportantes tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 ─ Mania de dar formato de canto às asperezas de
uma pedra.
7 ─ Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais
importância aos passarinhos do que aos senadores.