domingo, 31 de janeiro de 2010

ENTARDECER

Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!

Recolhe funda a tarde em sonho e mágoa.
Surdina fluida: anda o silêncio a orar –
E há crepúsculos de asas e, na água,
O céu é mármore extático a cismar!


E nas faces marmóreas dos rochedos
Esboçam-se perfis,
- Cintilações,

Penumbra de segredos!

Ó painéis de nuvens sobre a terra,
Ogivas delirantes
Na água refractando…
Encheis de sombra o mar de espumas rasas,
Iniciando
A hora pânica das asas!


E, à meia luz da tarde,
Na areia requeimada,
São vultos sonolentos
As proas dos navios…


Ó tristeza dos balões
Iluminando,
Na água prateada,
Os pegos e baixios…


Dormentes constelações
Que, em fundos lacustres
E musgosos,
Pondes reverberações
Em nossos olhos ansiosos.


Ó tardes de aquático esplendor,
Descendo em meu olhar!


Num sonho de regresso,
Numa ânsia de voltar,
Em mim todo me esqueço
E fico-me a cismar.


A tarde é toda um sonho moribundo.
É já olor da cor que amorteceu.
O céu vive no mar: sono profundo.
A asa do rumor no ar adormeceu!




Luís de Montalvor é o pseudónimo do poeta, ensaísta e editor Luís Filipe de Saldanha da Gama da Silva Ramos. Nasceu a 31 de Janeiro de 1891, em S. Vicente, Cabo Verde, mas veio para Portugal com apenas dois meses de vida. Residiu no Brasil entre 1912 e 1915, regressando a Lisboa com a ideia de fundar uma revista modernista. Fundou a Orpheu (1915), a Centauro (1916) e, anos mais tarde, a editorial Ática (1942), um órgão fundamental na divulgação sistemática das obras completas de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Enquanto poeta, foi, certamente, um dos nomes maiores do modernismo português, assim como um interessante prossecutor da poesia da Decadência. Devemos-lhe também a divulgação dos inéditos de Camilo Pessanha que viriam a ser reunidos no volume intitulado Clepsidra. A poesia de Luís de Montalvor ficou dispersa por várias publicações, entre as quais se destacam as revistas supracitadas e as colaborações com a Presença, Exílio, Athena, Contemporânea, Sudoeste, Cadernos de Poesia e Seara Nova. Só postumamente os seus versos foram coligidos num único volume. «Não nos ilude Luís de Montalvor na expressão essencial dos seus versos: vive num mundo seu, como todos nós; mas vive com vida num mundo seu, ao passo que a maioria, em verso ou prosa, morre o universo que involuntariamente cria» (Fernando Pessoa). Faleceu a 2 de Março de 1947, afogado no rio Tejo, num acidente de viação que vitimou, igualmente, a sua mulher e o filho único de ambos. Acidente? Suicídio? «Façamos com a dor, sem um queixume, / as guirlandas formosas desta vida!»

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

THE HOST OF SERAPHIM


Jorge Aguiar Oliveira
Insónia em Segunda Mão
Edição do Autor
Janeiro de 2010


Prefácio: The Host of Seraphim - Argumento baseado num livro de poemas de Jorge Aguiar Oliveira

NEGÓCIO

O pai foi um comerciante de sucesso. Todos os anos, pelo Natal, oferecia um cabaz aos fiscais. O filho herdou do pai o negócio, mas não a mesma sabedoria. Deixou de oferecer o cabaz aos fiscais e levou o negócio à falência.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

REVENDO BLACKMAIL


Este post não é sobre escutas. Nem sei se é sobre um filme de Hitchcock chamado Blackmail (1929), concebido inicialmente para ser filmado num registo mudo. A versão sonora terá sido uma opção posterior, algo que fica evidente nos minutos iniciais. Blackmail começa com uma detenção cujo significado é meramente introdutório. Os detectives da New Scotland Yard são representados a partir de gestos teatrais que falam pelas personagens. Os planos do rosto dispensam palavras, intensificam expressões que dialogam entre si sem que nos seja necessário escutar os diálogos induzidos pelos lábios em movimento. O som surge após este primeiro momento. Escutam-se passos, o estrado de um antigo carro da polícia, uma buzina, algumas vozes. No entanto, o jogo de silêncios percorre o filme como um jogo de sombras. Há mensagens cifradas, códigos imperceptíveis, é-nos dado ouvir o riso provocado por segredos que nunca serão desvendados. Os recados silenciosos, os segredos e as insinuações dão corpo ao suspense. O silêncio alimenta-o, é a acção por detrás da intenção, ou seja, é o não audível, já como decisão, que sustenta a intenção com que se concretizará este ou aquele gesto. Para quem desconheça a história, aqui fica um resumo:
1. Alice é vítima de uma tentativa de violação, conseguindo escapar depois de assassinar o violador, de nome Crew, com uma faca;
2. Alice namora com um detective da Scotland Yard que, encarregado de investigar o caso, encontra uma luva da namorada no local do crime;
3. Frank, o detective, tenta encobrir a namorada, acabando vítima de chantagem por parte de um indivíduo que não só tinha visto Alice com Crew antes do crime, como penetrara no local e encontrara a outra luva que provava ter sido Alice a assassina;
4. O chantagista, homem com cadastro, acaba por falecer numa perseguição da Scotland Yard, depois de ter sido apontado por uma vizinha de Crew como possível autor do crime.
O que Alfred Hitchcock filma nesta história é a fragilidade daquilo que tomamos por verdadeiro. Há sempre uma sombra vigilante disposta a aproveitar-se do mal dos outros, máxima relevante num contexto moral. Neste filme, a questão essencial é epistemológica. Os “jogos de sombra sonoros” que matizam a fita são o elemento intensificador do suspense, mas também revelam uma especial atenção a certos pormenores com que apuramos a verdade dos factos. Repare-se na importância do registo áudio como prova. Costuma-se dizer que «nem tudo aquilo que parece, é». Também se diz que aquilo que por aí se vai ouvindo não corresponde necessariamente à verdade. Não acredites em tudo o que ouves. Mas a verdade é que a confissão, não garantindo a verdade, pelo menos oferece-nos uma verdade possível. Ademais, nenhuma escuta logra ouvir o que nos vai no coração. Hitchcock distorce as falas, entrega-nos a sussurros imperceptíveis. Numa cena magistral, toda a sua genialidade vem à superfície no rosto de Alice. Esta encontra-se a tomar o pequeno-almoço com a família e olha para a faca do pão, induzindo no espectador uma relação traumática entre aquela faca e a faca com que fora cometido o crime da noite passada. Não satisfeito, Hitchcock coloca na mesma sala uma vizinha bisbilhoteira que não se cansa de falar do crime. Não percebemos bem o que ela diz, porque o realizador distorce-lhe a voz, mantendo apenas clara a pronúncia de uma palavra que se repete ad nauseam: justamente a palavra faca, faca, faca, faca, faca. A perturbação no rosto de Alice é evidente. O eco é interrompido abruptamente quando Alice larga a faca no chão. Algo se passa com a pobre rapariga. A consciência moral começa a tomar-lhe conta do corpo, das emoções, dos medos, dos anseios. A verdade, que só ela e o namorado ficarão a saber, a verdade que nos é mostrada enquanto espectadores, é também a prova da farsa que subsidia o apuramento dessa mesma verdade. Ora, num diálogo entre Frank e Alice é mantida uma conversa sobre o cinema:
─ Ainda não viste o filme «Impressões Digitais». Aposto que falharam em todos os pormenores.
─ Não sei porquê. Até contrataram um criminoso para realizador.
O cinema, meus caros, assim como qualquer outra arte, é a impressão digital da realidade. E o realizador, o artista, um criminoso que distorce essa mesma realidade em função do que pretenda mostrar-nos. Isto é, em função do que pretenda manter oculto, silencioso, como um segredo irrevelável.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

AS POETISAS SÃO COMO AS CEREJAS

Judith Teixeira levou-me à uruguaia Delmira Agustini (1886-1914). Delmira casou com Enrique Reyes a 14 de Agosto de 1913, deixando-o mais ou menos um mês após o casamento. Divorciaram-se a 15 de Junho de 1914. Passado um mês, Enrique assassinou-a com dois tiros na cabeça. Depois suicidou-se.

O DIAMANTE
Hoje, numa grosseira mão instintiva, disforme, vi o mais belo diamante que talvez possa atear o Milagre… Parecia vivo e doloroso como um espírito desolado… Vi dimanar da sua luz uma sombra tão triste, que chorei por ele e por todos os belos diamantes extraviados em mãos disformes…


Versão minha.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

PARA QUE TUDO FIQUE NA MESMA


«Alguém se recorda deste nome: Judith Teixeira? Não será fácil, sobretudo aqueles que, embora interessados pela nossa poesia, se satisfazem apenas consultando compêndios da especialidade que lhes orientam as leituras: as histórias, os ensaios, as antologias» (António Manuel Couto Viana, 1974). Passados tantos anos, a interrogação continua a fazer sentido e a desmemória prevalece. Judith Teixeira é um desses casos que nos levam a sublinhar a mesquinhez de um país e a desconfiar da putativa autonomia dos mais novos, por neles continuarmos a observar os mesmos vícios de uma cultura subserviente a cânones instalados e amortalhados por academias que não gostam de sujar as mãos na terra. Nasceu a poeta, segundo consta, a 25 de Janeiro de 1880 na cidade de Viseu. Não se sabe muito das suas origens, mas informa o assento de baptismo que a sua mãe se chamava Maria do Carmo. Perfilhada por um tal de Francisco dos Reis Ramos, terá estado casada com um empregado comercial. O casamento foi dissolvido em 1913, tendo Judith sido acusada de adultério. Voltou a casar um ano depois, com um advogado. Apesar de se ter estreado em livro já com 42 anos cumpridos, terá começado a escrever em tenra idade aquela que foi considerada por Couto Viana a única mulher modernista portuguesa. Seja como for, publicou algumas narrativas, sob pseudónimo, em 1918 e 1919, no Jornal da Tarde, e colaborou com a revista Contemporânea no ano de 1922. No ano seguinte, publicou a primeira colectânea de poemas, intitulada Decadência, causando forte e irremediável polémica: «Trago nos nervos a morte! / Sou uma sombra em recorte / de tristeza e de ruína… // Uivou dentro em mim a dôr... / Só lhe perco o som e a côr / em orgias e morfina!». A Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa insurge-se contra esta e outras obras. Sodoma Divinizada, de Raul Leal, Canções, de António Botto, e Decadência, de Judith Teixeira, são retirados das livrarias e queimados publicamente junto ao Governo Civil. O medievalismo da época não contrasta muito com o moralismo acéfalo da actualidade, mas o silêncio que se abateu sobre Judith não pode deixar de causar embaraço. Fernando Pessoa indigna-se contra as acções moralistas dos estudantes. É conhecida a sua defesa das Canções de António Botto. No entanto, cala-se acerca de Decadência. Só Aquilino Ribeiro (e poucos mais) se manifesta(m) a favor do talento da autora que, no mesmo ano, fez publicar Castelo de Sombras, um «outro livro de versos, muito serenos, muito espirituais e que não devem ofender a moralidade literária da polícia...» De nada lhe valeu a cautela. A ignominiosa poesia de Judith estava marcada pelo ferro em brasa da boa moral. Em 1925, dirigiu três números da revista Europa. No ano seguinte, apareceu o seu último livro de poemas, Nua – Poemas de Bizâncio, e a conferência intitulada De Mim, onde a autora procurava defender-se do enxovalho e da ridicularização a que fora sujeita. A instauração da ditadura sentenciou a quase morte da poeta. Voltará a publicar apenas um volume de contos, Satânia, onde eram anunciados livros que nunca viram a luz do dia, cujos manuscritos permanecem desconhecidos. Pouco se sabe sobre os seus últimos anos de vida. Colaborou com a revista Terras de Portugal, terá andado fora do país, morreu viúva, sem filhos, completamente só, a 17 de Maio de 1959, em Lisboa: «Choro?! Oh, sim, perdidamente! / Mas sabes tu, por que este pranto / Assim amargo e soluçado vem? / É que na hora da partida / Eu nunca pude sem chorar / Dizer adeus a ninguém!» Voltou a não caber nas antologias. (A visitar, sobre Judith Teixeira, este e este lugares).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

«UM DOS MAIORES POETAS DO DESEJO»


Ela diz-me que aprecia o entusiasmo com que falo da obra alheia. Respondo-lhe que sou como Picabia: porque me é impossível compreender o que se passa entre o frio e o quente, julgo necessário vomitar os mornos. Ela desconhece. Prometo-lhe, então, o dia seguinte. Francis Picabia nasceu em Paris a 22 de Janeiro de 1879. Breton chamou-lhe «detractor, que assim se quis, de todas as convenções morais e estéticas». Este enfant terrible veio ao mundo pela mão de pai cubano e mãe francesa, num berço aristocrato-burguês que começou a revelar-se algo desconfortável depois de Marie Cécile Davanne, a mãe, ter sido devorada pela tuberculose. Tinha o artista sete anos, para logo de seguida perder igualmente a avó materna. O avô era fotógrafo, entusiasmou o neto para a coloração de fotografias, mas este inclinava-se mais para as «fantasias exteriores e espirituosas» que habitam «pessoas às quais ninguém “rói a corda”». A Ecole des Arts Décoratifs foi, neste contexto, uma opção previsível. Em 1899, estreia-se como “artista” no Salon des Artistes Français, embora tenha vindo a preferir o Salon d’Automne e o Salon des Indépendants para começar a impressionar o “espírito parisiense”, isto é, aquele que «possui o segredo de fazer da chicória chicória, dos espinafres espinafres, e da merda caca». Estas palavras, oriundas da revista 391, fundada e dirigida por Picabia entre 1917 e 1924, são ilustrativas do que se seguiu aos primeiros anos de afirmação “reputativa”. 1909 é o ano do casamento com Gabrielle Buffet. Novas músicas embalam o coração do artista. Rupturas estéticas, do impressionismo ao abstracto, da aceitação ao repúdio, banido por galerias, público e críticos, passeando-se pelo fauvismo, futurismo, cubismo, modernismo e todos os demais ismos que serão posteriormente e sistematicamente triturados pela liberdade dadaísta. A amizade com Duchamp foi, pois claro, fundamental. Assim como o encontro com Apollinaire. A Primeira Grande Guerra rebenta, Picabia zarpa para Cuba, passa por Nova Iorque, desenha máquinas, pinta-as, mostra-as, ao mesmo tempo que a neurastenia e a depressão o perseguem. Mas ele foge. Barcelona, Caraíbas, Nova Iorque serão os refúgios da guerra exterior e interior. É em Barcelona que começa a escrever poesia, publicando aí a sua primeira colecção sob o título Cinquante-deux-miroirs (1917). Também é nesta altura que surge a revista 391:

Braque acaba de comprar um Citroën para continuar a fazer arte. Ultimamente entrou em casa com a mudança de velocidades dentro das calças.
Derain acaba de comprar um Citroën para levar a passeio Louis Vauxcelles e Jacques Blanche.
Picasso acaba de comprar um Citroën que sobe maravilhosamente às árvores. Diz que a viatura lhe urina na mão.
Matisse tem realmente um Citroën.
Metzinger comprou uma capota Citroën.
Juan Gris comprou um assento Citroën.
Archipenko comprou um limão Citroën.
Francis Picabia tem um Citroën de socorro.
Citroën comprou um quadro cubista e o cubismo é todo ele um quadro Citroën.

Tradução portuguesa de Mário Cesariny. Do Citroën não sabemos, mas Gabrielle Buffet foi trocada por Germaine Everling no regresso a Paris. Tratamentos na Suiça afastam-no da pintura, mas aproximam-no da poesia. Contacta com Tristan Tzara, separa-se da primeira mulher e dos quatro filhos, parte para a aventura dadaísta na companhia de Germaine. Com Tzara e Breton, a festa Dada desdobra-se em revistas, publicações de ordem diversa, happenings, livros. Picabia publica Jesus-Christ Rastaquouère em 1921. Depois é o que se sabe: conflitos internos, inveja, egos hiperbólicos, desmembraram o grupo. Picabia prossegue sozinho, compõe colagens, polemiza com panfletos apontando espingardas contra o surrealismo, instala-se na Côte d’Azur levando uma vida que dará azo a todo o tipo de especulações, apaixona-se por Olga Mohler, uma jovem contratada para tomar conta de Lorenzo, filho de Picaia com Germaine Everling. Tornam-se famosas as soirées do casino organizadas por Picabia, a quantidade infindável de veículos que adquire, o dinheiro que esbanja durante os anos passados entre o Château de Mai, construído perto de Cannes, e Paris. Picabia é a estrela dos clubes nocturnos, das galas, da vida mundana. Vive a três, com o coração dividido entre Germaine e Olga. As relações com Gabrielle Buffet, Germaine Everling e Olga Mohler acabam por pautar-lhe os períodos artísticos. A Segunda Grande Guerra apanha-o já na companhia de uma só mulher: Olga Mohler. Continua a trabalhar, regressando às fases figurativas dos primeiros anos. Distancia-se dos movimentos vanguardistas, assume posições apolíticas, abandona a ostentação e o luxo, pinta de um modo cada vez mais realista. Sofre a primeira hemorragia cerebral. Regressa com Olga a Paris, ao mesmo tempo que regressa também às letras. Publica Thalassa dans le desert (1945). Em 1949 é organizada uma retrospectiva da sua obra, são instantes de celebração efémera: assaltam-lhe a casa no momento da estreia e deixam-no sem cheta. Os últimos anos não serão especialmente felizes. A arteriosclerose rouba-lhe a fonte de sobrevivência, a pintura. Morre a 30 de Novembro de 1953.

A CRIANÇA

Gastou-se o Outono
pela criança
de quem se gostou.
Como um abutre
sobre uma carcaça,
diminui a família
e já desaparece
como borboleta.


Francis Picabia, in Antologia do Humor Negro, org. Andre Breton, trad. Jorge Silva Melo, Edições Afrodite, Abril de 1973, p. 306

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A CICATRIZ DO AR

A aventura de Jorge Fallorca (n. 1949) na selva das letras portuguesas pauta-se por nunca ter o aventureiro andado em busca da esmeralda perdida. Lançou dois livros na década de 1970: Imitação da Morte dos Outros (&etc., 1976) e A Luva In Love (Assírio & Alvim, 1977). Depois, quando nada o profetizava, resolveu desaparecer. Em entrevista cedida a António Cabrita, agora recordada, à laia de errata, no final deste A Cicatriz do Ar (edição de autor, Novembro de 2009), as razões do sumiço são explicadas pela consequência: «Felizmente proporcionei-me tempo suficiente para me cansar de mim, e creio ter corrigido o atrevimento». Sucede que a mossa estava criada. Os mais desatentos desconhecerão o texto de guerrilha que Luiz Pacheco dedicou ao segundo livro de Fallorca, apontando «jogos de palavras, brinquedos de garotos viciados, passatempos patetas», continuando, naquele estilo exercitado que alguns lhe reconhecerão, com o diagnóstico de um “livrito” que «não passa de um arroto, mal-humorado como tu próprio em pessoa», para culminar nesta sentença: «Foleirices, fallorquices, fumarada idiota para os nossos narizes» (Diário Popular, 15 de Setembro de 1977).

Luiz Pacheco era «contraditoriamente insurrecto e conservador» (Torcato Sepúlveda), escolhia bem os alvos e reagia à desconstrução como outros, noutras épocas, reagiram aos libertinos que ele próprio idolatrava. Estávamos nos 70s portugueses, distantes no tempo mas próximos, em termos de convulsão social, dos 50s norte-americanos. Não admira que por cá tenha aparecido um conjunto de autores a escrever ao som do eco beatnik. Alguns dos mais relevantes terão sido Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Jorge Fallorca. Em 2001, este resolveu remontar os livros iniciais, reorganizando (quase) tudo no volume Fruta da Época (frenesi). De resto, não me recordo de um autor relevante dessa fornalha que não tenha, posteriormente, revisitado os textos inaugurais. Suponho que isso se deva ao facto de haver, nestes autores, uma indissociável correlação de forças entre a escrita e a vida. Ou seja, estes são autores que escrevem em relação com o tempo habitado, não buscam nas palavras o saguão da intemporalidade, manifestam antes um completo desprezo pela cultura pretensamente universalista que as academias procuram impor como sendo de todos e para todos, não fosse ela para cada um conforme as especificidades de cada qual.

Acontece que, por vezes, a escrita torna partilháveis as singularidades de uma vida concreta, provocando encontros, gerando simpatias (ou antipatias), alimentando vítimas de uma fome insaciável. Há um poema do livro Longe do Mundo (frenesi, Maio de 2004) que toca, precisamente, na ferida: «Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita ─ como qualquer acto criador ─ antropófaga até à vileza» (p. 16). Os corpos que servem de alimento à escrita são as vidas que nela se põem, agora desconstruídas pelo simulacro da palavra ou, se preferirem, reconstruídas pela misteriosa e inexplicável existência do texto. A Cicatriz do Ar volta a lembrá-lo no seu Bloco-Notas introdutório. Nessa parte do livro, a vida literária é não só a daquele que escreve como também a daquele que lê. O escritor desdobra-se no papel de leitor, cita as suas referências, evoca o “prazer da leitura”, os textos que o acompanharam pelos lugares trazidos à página: as casas de Monte Alto e Carnaxide, Huelva, Lisboa, Tânger, o Sul. A geografia do corpo é a geografia da escrita, a qual se revelará, na parte que oferece título ao volume, transfronteiriça, sem lugar que não seja o do corpo solitariamente entregue aos seus exercícios de ir vivendo «com o horizonte esticado pela crueza dos panos da viagem adiada e silenciosa/ à tona da vida, lastrada pelo remorso e a saudade» (p. 76).

Os apontamentos biográficos indicam que as décadas de 1980 e 1990 foram, para Fallorca, décadas de dispersão por folhetos breves, colaborações avulsas com suplementos da imprensa escrita, trabalhos radiofónicos, participações em algumas antologias. A dispersão encontrou termo em 1999, com a publicação de Água Tatuada (&etc). Seguiu-se a tal revisitação da obra inicial, duas narrativas de viagem para a Teorema, Entre Chipiona e Tarifa (2002) e Al-Khaïma (2004), a colectânea Longe do Mundo. A Cicatriz do Ar é, pois, pelo que foi dito e não só, um livro que oferece continuidade à “vagabundagem” literária. As partes que agora se reúnem e se relacionam mostram-nos um autor despreocupadamente entregue à escrita do seu mundo. A palavra tranquilidade que se repete em alguns dos textos coligidos induziria em erro não fosse a clareza do desabafo: «Decorridos cinquenta anos, aprendi a não dramatizar e a não dar mais importância ao que me acontece do que o simples facto de ter acontecido. Repugna-me, fatiga-me a lufa-lufa da necessidade de criação; sufoca-me a excitação da espera, frequentemente frustrante» (p. 21). Entre esta passagem e a passagem de Longe do Mundo supracitada, o leitor não carecerá de mais explicações: o que neste, como noutros livros de Fallorca, se sustenta é o gozo da deambulação, o prazer da errância e o culto de uma certa vagabundagem (intelectual) que ousa embriagar-se com a língua em que se exprime ao mesmo tempo que se deixa embriagar pela vida que a expressa.

Escrito para o Rascunho.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

GUARDA-ROUPA


Leitor atento levantou a questão do investimento automóvel na minha última contribuição para a imaginação de Van Zeller. Esclareço que não se trata de investimento algum. Como venho dizendo, heranças e tradições familiares permitem-me alguns luxos. Ora, tal como a “aparelhagem” SONY, também o Ibiza foi conquistado por bom comportamento. Era tradição na família presentear a Licenciatura com carrito de estilo ligeiro. Tradição que, está bem de ver, terá de ser quebrada junto das próximas gerações. Pois bem, não tendo eu sequer carta de condução quando dei por finada a exploração académica, fui pressionado pela família a inscrever-me numa escola de condução, de modo a poder-me ser ofertado o bólide a que tinha direito. Ainda tentei fazer-me à massa em troca das quatro rodas, tentativa malograda pela evidente constatação de que mais rapidamente me faria à estrada com dinheiro no bolso do que com carro para sustentar. Assim me prenderam à terra os meus queridos e prestimosos pais. Feitas as contas, encho o depósito, no mínimo, duas vezes por mês, o que me rouba mais 120€ (raciocino pelos mínimos) aos 337€ que me restavam. Ora, ficam-me 217€ por mês para a rambóia. Repare-se que excluo das contas várias despesas concernentes à circulação, das portagens que pago diariamente aos seguros, revisões, inspecções, outros que tais. A modos que fiquemo-nos pelos 217€. Tenho outra vantagem sobre a maioria dos demais. Não gasto um tostão em roupa. Esta terceira necessidade do homem (as outras são alimentação e casa) está-me garantida pelo negócio familiar do pronto-a-vestir. Dou-me inclusive à opulência de possuir um guarda-roupa pejado de fatos que nunca visto, gravatas que nunca uso, malhas que nunca teço. Limito-me a comprar sapatos (uma média de um par por ano), para não ter de andar descalço. Recuso-me a dar mais que 50€ por um par de sapatos, o que, dividido por 12, dá uma média de 4,16€ por mês. Sendo assim, já só tenho 212,84€. Talvez venha a investir em acções da CIMPOR. Dir-me-à o leitor amigo se farei bom investimento (siga o link).

CONGESTÃO CEREBRAL


Mestre do horror, pai do policial, poeta maldito, assim aparece muitas vezes recordado o génio de Edgar Allan Poe. Nasceu em Boston, filho de actores itinerantes, a 19 de Janeiro de 1809. O pai terá morrido em 1810, falecendo a mãe no ano seguinte. Deixaram três órfãos. Edgar foi acolhido por John Allan, um comerciante de tabaco, William faleceu novo e a irmã Rosalie acabou por enlouquecer mais tarde. A tragédia de Edgar Allan Poe estava traçada. Ainda criança, denota uma forte inclinação para a poesia. John Allan, o pai adoptivo, leva-o para Inglaterra, onde fez os primeiros estudos. De regresso aos states, dedica-se à poesia satírica, estuda em colégios privados de Richmond, «tem uma paixão platónica pela mãe de um dos seus colegas, Jane Stanard, que vem a morrer tuberculosa em 1824». A morte foi sempre a melhor amiga de Poe. Passeia-se pela Universidade de Virgínia, mas o vício do jogo e as dívidas contraídas acabam por dar-lhe cabo dos planos. A relação com John Allan deteriora-se. Como se não bastasse, a paixão pela jovem Elmira Royster encontra a oposição das respectivas famílias. Pior ainda quando, de visita à amada, Poe descobre-a comprometida com outro indivíduo. Conta-se que terá estado presente na festa onde foi feito o pedido de noivado, apurando com Elmira a existência de cartas de amor interceptadas. Nada havia a fazer. Poe rompe com a sua família adoptiva, parte para Boston, junta-se ao exército e publica o primeiro volume de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827), a expensas próprias. Reaproxima-se de John Allan após a morte de Frances, a mãe adoptiva. Publica Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems (1829). A vida no exército não lhe correrá de feição. Poe tem um comportamento negligente, escreve versos satíricos que têm por alvo os oficiais, provoca a sua expulsão da academia, o que acontece a Janeiro de 1831. Vai viver para Baltimore, amparado pela tia Maria Clemm. Vê um conto seu ser premiado, enceta carreira nos jornais e nas revistas, mas também aprofunda o vício alcoólico. Em 1836 casa com a prima Virginia Clemm. Virginia tinha apenas 13 anos. Morrerá tuberculosa em 1847, depois de ter passado praticamente os últimos cinco anos de vida inválida. Muda-se para Nova Iorque, depois Filadélfia, colabora com a imprensa, publica contos fantásticos e recensões, faz-se valer da “vocação polemista” e, em Julho de 1838, publica a novela The Narrative of Arthur Gordon Pym. Agastado com a doença de Virginia, imerso em dívidas, refugia-se no álcool e nas drogas. Em 1843 vai a «Washington para uma entrevista relativa a um cargo nas alfândegas da administração Tyler, porém embriaga-se e arruína as hipóteses». Nesse mesmo ano inicia um circuito de conferências sobre poesia norte-americana. Almeja fama e sucesso com a publicação do poema The Raven (1845). Com a mulher bastante doente, «corteja literariamente a poetisa Frances Sargent Osgood». A depressão e acessos de loucura perseguem-no. Tenta suicidar-se com láudano. São publicados vários apelos à caridade para com Poe e a sua família. Virginia morre em 1847, Poe adoece gravemente, continua a trabalhar, é publicado em França, suscita o interesse de Baudelaire, mas já pouco havia a fazer pela sua recuperação. Mantém vários romances, dos quais os mais conhecidos terão sido com as poetisas Sarah A. Lewis e Sarah Helen Whitman. Chegou a estar noivo desta última, mas os excessos alcoólicos afogaram as núpcias. Cada vez mais dependente do láudano, quase morre novamente em Novembro de 1848. Em 1849 fica noivo de Elmira Royster Shelton, a namorada de infância agora viúva. Em Setembro desaparece por alguns dias. Perdido algures entre Richmond e Nova Iorque, é encontrado em absoluto estado de delírio numa taberna de Baltimore. Morre no hospital, a 7 de Outubro, vítima de «congestão cerebral»:

[SÓ]

Eu não fui, desde a infância
Como outros eram… não olhei
O que outros viam… não busquei
Na mesma fonte as minhas ânsias…
Não foi do mesmo poço que tirei
Minha amargura… meu coração
Não entoou, em coro, hinos de louvor…
E tudo o que eu amei, amei em solidão…
Então ─ na minha infância ─ no alvor
De minha vida atormentada, fui refém
Do mistério que ainda hoje sobrevém
Do abismo donde brota o mal e o bem…
Da torrente, da nascente…
Da rubra fraga ascendente…
Do Sol que em mim revolveu
No seu fulgor outonal…
Do clarão que ascendeu
Pelo espaço, e em mim rasou…
Do trovão, do temporal…
Da nuvem que se moldou
(Conquanto azul fosse o céu)
Em demónio e me ensombrou.


Edgar Allan Poe, in Obra Poética Completa, trad. Margarida Vale de Gato, Tinta-da-China, Março de 2009, p. 199. Do mesmo poema, publiquei ali uma versão minha em Julho de 2005. Relembro-a agora:




Desde a hora da infância eu não fui
Como outros foram - eu não vi
Como outros viram – não pude tomar
Minhas paixões duma primavera vulgar.
Da mesma nascente eu não traguei
A minha tristeza; eu não despertei
Para o júbilo comum o meu coração;
E tudo o que amei, eu amei em solidão.
Nesse tempo da infância ─ na madrugada
Da vida mais tormentosa ─ foi traçada
Das profundezas do bem e do mal
O mistério que me mantém sem igual:
Da torrente ou da fonte,
Do rubro penhasco do alto monte,
Do sol que gira em meu torno
Num matiz dourado de Outono ─
Do relâmpago no céu
Que tão perto de mim se deu ─
Da tempestade e do trovão,
E da nuvem que adquiriu a feição
(Quando azul era o resto dos Céus)
De um demónio aos olhos meus.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

DOUBT


John Patrick Shanley, realizador de Doubt, foi o argumentista de Alive (1993), um filme de que alguns se recordarão pelas cenas de “canibalismo”. Ironias da sobrevivência. Mais discreto, o filme que opõe Meryl Streep (1949) a Philip Seymour Hoffman (1967), dois actores multifacetados com vários desempenhos de excelência no currículo, volta a incidir sobre a problemática do dilema moral. Agora, já ninguém tem de comer carne humana para sobreviver. Pelo menos, literalmente. Mas no ambiente eclesiástico que suporta a acção, o dilema moral surge intensificado pela não excepcionalidade da situação vivida. Temos um padre progressista e uma freira conservadora em conflito no território – simbólico - de um colégio. Digo simbólico por naquele colégio vislumbrarmos um campo de decisão sobre o futuro, ao passo que as barreiras interpostas entre a directora do colégio e o padre estão directamente relacionadas com o passado de cada um deles. A montagem é inteligente, deixa o espectador numa expectativa nunca desmascarada. John Patrick Shanley, o realizador, joga com insinuações, sugestões, simulacros, induz-nos a pensar isto ou aquilo conforme as “constrições” de cada uma das personagens. Há uma criança problemática cujo problema desconhecemos, não é objectivado, ainda que seja sugerido. Há uma relação de índole desconhecida entre essa criança e o padre, mas várias sugestões são feitas no sentido de ficarmos a pensar que o padre poderia abusar da criança, que a criança – um preto num colégio de brancos – poderia denotar comportamentos homossexuais, que o pai da criança o agrediria por isso mesmo, etc. E depois há a desconfiança da irmã Aloysius, directora do colégio, baseada em boatos, insinuações, uma suspeição debilitada pela incerteza, fundamentada apenas numa fé que se revela demasiado frágil perante a ausência de prova. As homilias do padre vão pontuando a relação de desconfiança estabelecida entre ambos, o plano de insinuações nunca resolvidas que coloca cada um deles num problemático fosso de incertezas, como se cada um, falando com o outro, estivesse apenas a falar para si próprio, nunca sendo absolutamente claro na manifestação dos seus sentimentos e das suas dúvidas. Esta situação, geradora de qualquer tipo de boataria, gera igualmente a bisbilhotice, o desejo de ver para lá do visível. O que há de mais interessante no filme é, precisamente, esta teatralidade dos diálogos, onde o que fica por dizer parece sempre mais determinante para as acções do que aquilo que é dito. Olhamos para aqueles dois como quem lê um texto metafórico, tentando compreender o segundo sentido que se esconde por debaixo do véu dissimulador da verdade, um véu de silêncios ou de palavras, tanto faz, um véu que nos coloca o mais elementar desafio do entendimento: procurar espreitar por debaixo da fé. Jesus falava por metáforas, diz-se. Nas suas metáforas esconder-se-ia a verdade. Por que não falava ele por verdades preferindo exprimir-se através de metáforas será problema a decifrar pelos exegetas interessados no assunto. Talvez porque as metáforas exemplificam a verdade, talvez por não esperar que os crentes sentissem necessidade de bisbilhotar para lá da fé que a metáfora exige. Porque a fé, de algum modo, é já interpretação. Uma interpretação sem intriga, assente apenas no princípio do acolhimento. Faltando essa fé, instaura-se a dúvida. Instaurando-se a dúvida, abala-se a fé. O sentido crítico da fé estará sempre, por isso mesmo, mais em acreditar com dúvidas do que autoconvencer-se sem incertezas. Julgo que é isso que a irmã Aloysius descobre no final.

INSÓNIA

Hoje à noite, no Prós & Contras, debater-se-á a indiferença dos portugueses para com todo o tipo de debates. Hoje à noite, Marcelo Rebelo de Sousa escolherá as melhores fotografias da tragédia no Haiti. Hoje à noite, Martim Cabral e Nuno Rogeiro explicarão aos portugueses para que serve um Hércules C-130. Hoje à noite, António Vitorino elogiará Manuel Alegre. Hoje à noite, José Sócrates distribuirá computadores Magalhães pelas crianças do Haiti. Hoje à noite, Cavaco Silva não comentará. Hoje à noite, Vasco Pulido Valente tentará explicar aos portugueses que Portugal é o Haiti da Europa. Hoje à noite, António Barreto tenderá a concordar com Vasco Pulido Valente, passe embora o exagero da comparação. Afinal, Portugal é só o Burkina Faso da Europa. Hoje à noite, George W. Bush pedirá dinheiro para o Haiti ao mesmo tempo que o furacão Katrina pestanejará no Iraque. Hoje à noite, Fernanda Câncio promoverá o casamento gay no Haiti em prol do robustecimento demográfico e económico desta nação das Caraíbas. Hoje à noite, Angelina Jolie e Madonna darão o exemplo adoptando crianças órfãs do Haiti que deambulam pelas cidades dos EUA. Hoje à noite, Medina Carreira refutará as previsões maias. O mundo já acabou, nós é que andamos distraídos. Hoje à noite, Pedro Santana Lopes andará por aí. Hoje à noite, Pacheco Pereira argumentará contra a comunicação social servindo-se da comunicação social. Hoje à noite, Manuela Ferreira Leite aliviará os joanetes com palmilhas ortopédicas. Hoje à noite, Clara Ferreira Alves citará Michel Houellebecq a propósito do Haiti. Hoje à noite, Daniel Oliveira andará muito indignado. Hoje à noite, Catarina Furtado será nomeada embaixadora dos embaixadores. Hoje à noite, Ricardo Araújo Pereira escreverá umas piadas giras. Hoje à noite, Pedro Mexia também. Hoje à noite, o Papa descalçará os seus sapatos vermelhos, retirará o seu chapéu Saturno e o camauro, despirá a Mozzetta, rezará pelas vítimas da fome, adormecerá a ver filmes do Manoel de Oliveira. Hoje à noite, os ricos adormecerão no aconchego do lar, os pobres dormirão ao relento, povos exóticos e mediaticamente fotogénicos comercializarão restos de comida encontrados em lixeiras. Hoje à noite, à distância, eu estarei a trabalhar até às 23h. Depois, muito provavelmente, serei assolado por mais uma insónia.

sábado, 16 de janeiro de 2010

TRESMALHADO

Fotografia de Jorge Simão.


Duas memórias e uma inconfidência. A primeira é de um homem a esvair-se em suor, em estado de pânico induzido pela presença das câmaras televisivas, numa conversa apresentada por Clara Ferreira Alves, onde também estava o escritor Rui Zink. Vi aquele homem e senti certas afinidades com o tal estado de pânico. Era poeta, salvo erro chamava-se António Cabrita. A segunda é mais certa, não corre o risco da adulteração fantasista da memória, pois está documentada. 17 de Novembro de 2000, café literário em volta do teatro e da poesia de Jaime Rocha, apresentação de António Cabrita. Fui ouvir e ver, mais pelo apresentador que pelo apresentado, confessei, e logo às primeiras me desarmou o tom já não aflito, mas até bastante descontraído, de quem falava para a plateia sem pingo de suor no rosto. Talvez o problema fosse mesmo do cenário televisivo, das lentes que roubam a alma a quem se deixa por elas capturar. Mais estranho ainda, num homem cuja relação com o cinema sempre foi de grande proximidade. Lá iremos. Antes disso, a inconfidência. Há tempos recebi uma longa Carta do Extremo Sul. Meu caro Henrique, assim começam as mais de 20 páginas da missiva. Andei eu em estado de pânico durante meses, pegava nas folhas, começava a lê-las, ficava a meio. Uma lição de poesia, pois claro, tendo por motivo o meu singelo Cinzeiro Azul. Sucede que nunca agradeci, que nunca acusei sequer a recepção da dita, que só muito depois de a ter recebido consegui lê-la do princípio ao fim, que me senti, sinto, sentirei tão grato pelo gesto, que as palavras se me travaram algures e não quiseram responder. O que dizer a alguém que perde mais de 20 páginas com a nossa delirante inutilidade? É que tenho por regra este sentimento muito natural de que a vida se fica pelo estrume, pelo que todo o tempo sobre a terra é de uma preciosidade incomparável, insubstituível, inalienável. Investir mais de 20 páginas de tempo em palavras que me saíram dos dedos não é coisa que se agradeça, é coisa para guardar do lado esquerdo do peito até que este se transforme no estrume «com que a morte mantém / estáveis as características do subsolo». Aqui fica então a inconfidência, no dia em que lembro ter o poeta António Cabrita nascido no Pragal a 16 de Janeiro de 1959. Fez o curso de Cinema do Conservatório Nacional, publicando mais tarde peças/guiões dos quais Duas Luas, Entrededos (INCM, Março de 1984) é exemplo a reter. De resto, a ligação ao cinema foi sempre muito forte. Durante vários anos, António Cabrita foi crítico da sétima arte nas páginas do jornal Expresso (entre 1988 e 2004). Também escreveu aí sobre livros, aí e noutros lugares: JL, O Jornal, DL, etc.. A poesia aparece cedo e em boa companhia. Alberto Pidwell Tavares (vulgo Al Berto) publica-lhe Oblíqua visão de um cristal num gomo de laranja ou perene o sangue que arrebata os anjos vingadores (1979), título do qual nunca mais saberemos nada. Seguem-se outros de poesia, mas também de contos, argumentos para cinema, assim como novas aventuras pelo campo editorial, com a extinta Íman, ou com a direcção da revista Construções Portuárias. Em 1997, recebe o Prémio Cesário Verde pelo magnífico Carta de Ventos e Naufrágios (Teorema, Novembro de 1997). Três anos depois, arruma parte considerável da sua produção poética no volume Arte Negra (Fenda, 2000). Sobre Combate de Flautas (&etc., 2003), escreveu António Guerreiro no Expresso: «Certo é que a poesia de António Cabrita é em tudo contrária a uma nova austeridade que encontramos em muitos poetas recentes. Nela, as metáforas são o próprio órgão do pensamento e, por isso, ficam às vezes submetidas a um exercício rebuscado». Mais recentemente, Bar La Fontaine foi galardoado com o O Prémio Nacional de Poesia Natércia Freire. Emigrado em Moçambique, onde é hoje docente universitário, António Cabrita também não coube na antologia:

Ah, ser de um rebanho
tresmalhado:

e eis meia vida desperdiçada
a enxertar
flores silvestres
no lenho dos românticos —

muito bem providos
os olhos
cerzidos em ouro.


António Cabrita, in Carta de Ventos e Naufrágios, Teorema, Novembro de 1997, p.74.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

CARTAS, MÁXIMAS E SENTENÇAS

Um pequeno livro precioso. É o mínimo que se pode dizer de Cartas, Máximas e Sentenças (Edições Sílabo, 2009), de Epicuro, introduzido, traduzido e anotado por Gabriela Baião, mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica. O volume colige as cartas a Idomeneu, Heródoto, Pítocles e Meneceu, seguidas das denominadas Máximas Capitais e de algumas Sentenças Vaticanas, assim chamadas por terem sido descobertas em 1888 no Códice Vaticano grego 1950, do séc. XIV. Gabriela Baião resolveu ainda juntar aos textos a biografia que Diógenes Laércio dedicou ao filósofo do Jardim. Ainda bem que o fez. A deturpação histórica da escola epicurista, reduzida muitas vezes a um antro de depravação moral, é afastada por Diógenes ao apresentar-nos um Epicuro recto de «inexcedível generosidade para com os outros», ainda que a voz dos caluniadores nunca tenha deixado de ecoar na daqueles que jamais conseguirão entender algumas das mais importantes máximas filosóficas da “primeira das grandes escolas helenísticas”.



Nascido em Samos em 341 a.C., Epicuro fundou a sua escola nos subúrbios de Atenas. Afastado da turbulência citadina, mais próximo da paz campestre, o Jardim admitia mulheres, escravos, prostitutas e ostentava no pórtico a seguinte inscrição: «Visitante, terás aqui uma agradável estadia, pois aqui o bem supremo é o prazer!» Os adversários acusaram-no de promover orgias, foram colocadas a circular “cartas licenciosas” que lhe eram atribuídas, disseram que era irmão de um proxeneta, que auxiliava a mãe nas suas tarefas de curandeira, que plagiou Demócrito, que não era cidadão legítimo, que era obsceno, que «vomitava duas vezes por dia por causa dos excessos», etc.. Na verdade, pouco podemos hoje saber acerca da veracidade destas supostas calúnias. Podemos concentrar-nos nos escritos do réu e tentar compreender o que possa ter havido neles de tão perverso e incitador. Ainda que lhe tenham posto na boca a ideia de que os cínicos eram «inimigos da Grécia», encontramos na escola de Epicuro várias pontes com o cinismo, nomeadamente na defesa da autarquia enquanto princípio fundamental da vida feliz.



Não deixa de ser curiosa, por outro lado, a perspectiva de historiadores como Giovani Reale e Dário Antiseri, para quem «Epicuro é um percursor de Paulo no “espírito missionário”, não no conteúdo da mensagem, já que a fé epicurista é uma fé que se coloca do lado de cá, negadora de toda a transcendência e radicalmente ligada à dimensão do “natural” e do “físico”». Tal perspectiva parece-nos corroborável a partir de uma leitura da Carta a Heródoto, onde toda a doutrina epicurista sobre a Natureza aparece resumida em alguns preceitos de inspiração atomista, nomeadamente uma visão materialista da realidade que compreende a alma como «um corpo formado de partículas subtis, espalhado por todo o agregado» (p. 75). Não negando a existência dos deuses, Epicuro afasta-se das interpretações comuns: «Ímpio não é, por conseguinte, quem destrói os deuses da multidão, mas quem atribui as opiniões da multidão aos deuses» (p. 111). É compreensível que este tipo de pensamento causasse mossa junto daqueles que insistiam em amestrar as multidões com base num pensamento mitológico subjugador da vontade dos homens à vontade dos deuses.



A ética Epicurista resulta, pois, de uma concepção do mundo refutadora de dimensões idealistas e planos fantasmagóricos da realidade. Podemos ir mais longe na deambulação especulativa afirmando que tanto a República ideal platónica como a crendice popular que Epicuro tão bem terá conhecido de acompanhar a sua mãe nas artes mágicas, são os alvos fundamentais da vida festejada no Jardim. O prazer que se coloca no centro da vida feliz, enquanto ausência e denegação da dor, não tem outro sentido senão o de chamar as hordas à realidade, libertando-as dos erros e das falsidades que advêm de opiniões sem confirmação sensível. A morte nada é, seria frívolo perder tempo com ela. «O sábio, ao contrário, não recusa a vida nem teme a não-vida, pois nem a vida lhe pesa nem crê que a não-vida seja um mal» (p. 112). O prazer devolve a alma ao corpo, sustenta o fenómeno da sensação, ao mesmo tempo que resgata o corpo dos grilhões de uma certa ideia de alma (imortal) castradora da vontade. Porque a vida feliz não é concebível sem liberdade, Epicuro advoga não um culto despropositado do desejo — o excesso, mais que libertar, aprisiona —, mas antes a auto-suficiência e a prudência enquanto fiadores da vida justa. «Nenhum prazer é em si mesmo mau» (p. 122). Quem julgar o contrário, dedique-se à dor.

Escrito para o Rascunho.

VÍTIMAS

Houve um terramoto e muitas pessoas ficaram debaixo dos escombros. Estavam vivas, embora fossem já dadas como mortas pelos que, à superfície, davam a notícia do número de vítimas.

O MUNDO

O mundo é o mais desprezado dos mendigos. Antes de acabar, foi dando alguns avisos. Olhem que vou acabar, olhem que vou acabar, repetia de quando em vez. Ninguém lhe deu ouvidos. Quando finalmente acabou, não restava ninguém para lhe dar ouvidos.

CONTRIBUTO PARA A IMAGINAÇÃO DE VAN ZELLER (3)




O senhor Van Zeller que se contenha no precipício. Estarmos soltos de uma casa para pagar não nos coloca no lugar dos privilegiados. Na verdade, deixa-nos apenas um nível acima dos enterrados da nação que, com 450€ mensais, se vêem na obrigação de arranjar fôlego para o pescoço atado à corda dos juros. Temos, como esses, o encargo das despesas inerentes à manutenção do palácio. Dispensamos mordomo, sopeira, nem sequer podemos dar-nos ao luxo de uma mulher-a-dias que tire as grainhas das uvas. Limpa-se o pó quando se pode, areja-se a sala de quando em vez, arruma-se o possível num esforço de poupança que ajuda às entorses. Há que ser solidário para com o emplastro leão. Agora façamos contas: 10€ para o condomínio, uma média de 45€ para o gás, 18€ para os Serviços Municipalizados e 40€ para a EDP perfaz a módica quantia de 113€ fixos que teremos de subtrair aos luxuosos 450€ com que o nosso trabalho é remunerado mensalmente. Sobram-nos 337€ por mês. Uma fortuna. Pois bem, desta incomensurável e burguesa fortuna grande parte vai para a velocidade. O Ibiza de 1999 vai dando para as curvas. 00999 de cilindrada a gasolina, ligeiro em todos os atalhos, mas guloso que se farta. Ao preço a que está o combustível, nem eu consigo imaginar como me vão chegando os tais 337€ por mês. Quanto mais o senhor Van Zeller. Não o censuro, pois, pela falta de imaginação, embora não possa perdoar-lhe o ar abastado com que se atira contra todo e qualquer aumento da minha mísera e prescindível dignidade. Juntemos-lhe o seguro, as revisões, a inspecção, e o bólide leva-nos o grosso da nossa fortuna. É para ele, mais que para outra coisa qualquer, que andamos a trabalhar todos os meses. Um luxo, dir-me-á. Por que não optar pelos transportes públicos? É simples: para não ser despedido por chegar atrasado ao emprego, para poder deixar as crianças a tempo e horas na escola (uma delas, fica a mais de 15Km cá de casa, seria deveras incomodativo fazermos isso a pé todos os dias, ainda que já tenhamos ponderado fazê-lo de bicicleta só para não dar argumentos ao senhor Van Zeller). Confesso: sinto remorsos a pesarem-me na consciência. Talvez devesse prescindir do bólide assim como prescindi da mulher-a-dias. Tenho de reconhecer a minha veia burguesa. Que Deus nosso senhor me perdoe e não me mande para o Inferno por andar a poluir este mundo com os meus excessos e a desperdiçar a vida em luxos destes.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

ÉRIC ROHMER 1920-2010


Conte de printemps, Conte d’hiver, Conte d’été, Conte d’automne. Principalmente Conte d’été. E Triple agent.

APRENDIZ DE VIAJANTE


Fotografia de Luísa Ferreira.





Comecei a ler Al Berto em 1991, tinha 16 anos. Vivia em Rio Maior, uma cidade do antigo farwest onde nem uma livraria havia. Encomendei O Medo através do Círculo de Leitores, tendo vindo a saber mais tarde ser essa «uma péssima porta de entrada na obra de Al Berto, porque sublinha o excesso (textual) da obra, para além de aglutinar, em centenas de páginas, poemas importantes e outros menoríssimos» (Pedro Mexia, Diário de Notícias, 3 de Setembro de 2004). Desconheço boas portas de entrada na obra do que quer que seja, entrei por onde entrei e fui espancado, não me queixando hoje senão das dores que me dá reconhecer nesta pessoa que transporto uma terrível inclinação para a menoridade. À Procura do Vento Num Jardim D’Agosto, primeiro livro de Al Berto coligido nessa edição de O Medo, ofereceu-me uma série de vícios, dos quais guardo, ainda hoje, um preceito moral para a vida que não pretendo eterna: «sei que darei ao meu corpo os prazeres que ele me exigir. vou usá-lo, desgastá-lo até ao limite suportável, para que a morte nada encontre de mim quando vier» (p. 23). Haverá importância ou menoridade nestas asserções? Quem quiser que arrisque. Em 1996, estudava eu Filosofia na Universidade Católica de Lisboa, fui ouvir o Al Berto numa palestra aí organizada, salvo erro, pela malta da Comunicação Social. Já nessa altura me apercebi que havia uns tipos muito interessantes que sabiam distinguir a poesis da mimesis, mas fugiam esquiva e melodramaticamente da vida e suas consequentes pancadas. Talvez receassem os prazeres do corpo, talvez achassem inestética a imagem de Jesus crucificado, talvez dessem demasiados ouvidos ao paternalismo familiar. Sucede que me habituei a andar desde muito cedo, mas agora tinha uma companhia para a solidão: os livros do Al Berto todos autografados. Havia no Jardim D’Agosto, cuja primeira versão fora retirada do mercado, a vida hipotética e modernizada do Jardim d'Epicuro. Não negarei que essa maldição sempre me fascinou, ainda hoje a cultivo nas minhas hortas literárias e da escrita não pretendo outra coisa senão a voz maldita dos transgressores - cada qual à sua maneira - que saibam oferecer pela palavra o dom da liberdade. O resto é fiado. E o meu coração não fia, sobretudo porque distingue muito bem a boa clientela da freguesia caloteira. Al Berto nasceu Alberto (Raposo Pidwell Tavares), a 11 de Janeiro de 1948, no berço de uma família da alta burguesia. O pai estudava medicina em Coimbra, mas fartou-se do curso e mudou-se para Sines, terra da família onde o poeta veio a passar toda a infância e adolescência. Aos 17 anos, foi para Lisboa frequentar a Escola António Arroio. Dois anos depois, em Abril de 1967, zarpa para Bruxelas, onde acabará por viver durante oito anos, deslocando-se esporadicamente por França, Espanha e Itália. Em Bruxelas, fundou o Montfaucon Research Center, «publicou um livro de desenhos, Projets 69; expôs na galeria Fitzroy; animou o centro cultural de Hainaut; escreveu, em francês, Esquisse pour un portrait d’Alain Petit-Pieds et Henriette Rock; viajou ao sabor do imaginário lido em Rimbaud e Genet; dirigiu episodicamente, em Vaux, uma secção infantil de artes plásticas; mandou às urtigas o curso de pintura monumental na École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels…» (Eduardo Pitta, in Metal Fundente, Quasi, 2004). O exílio Belga terminou em 1975. Regressou a Portugal e fixou-se em Sines, na quinta onde havia passado a infância e a adolescência. Abriu uma livraria, fundou um projecto editorial em nome próprio. António Cabrita, outro esquecido, era um dos comparsas: «[livros] ousadíssimos para a época e que eu me esforçava por distribuir, apesar da facilidade com que se incendiavam as pestanas dos livreiros quando deparavam, no miolo, com fotografias de efebos nus» (in A Phala, n.º59, 1997). Joaquim Manuel Magalhães deu eco, falando de «uma das mais interessantes propostas Editoriais fora das editoras desta década» (in Os Dois Crepúsculos, A Regra do Jogo, 1981). A marginalidade paga-se com marginalidade. E tem muito gosto. O projecto editorial em nome próprio finda, mas Al Berto continua a publicar ora na Contexto, ora na Frenesi. Durante este período, foi também animador cultural da autarquia de Sines, tendo, mais tarde, dirigido o Centro Cultural Emmerico Nunes. Mudou-se para Lisboa em 1987, ano da primeira edição de O Medo, "o tijolo", vendo reconhecida a obra com a atribuição do Prémio PEN Clube de Poesia de 1988. Ao contrário do que se julga, O Medo não é uma reunião convencional da obra publicada. A esses livros se junta um conjunto de textos inéditos, «uma espécie de diário» (Manuel de Freitas, Me, Myself and I, Assírio & Alvim, Junho de 2005), publicados em alternância com as obras vindas a lume anteriormente. 1987 foi também o ano de Sião, antologia co-organizada com Rui Baião e Paulo da Costa Domingos. Em 1988, Al Berto publicou Lunário, uma incursão pelos domínios da narrativa: «…Sabes, Nému… acho que seria sedutor se o fim do corpo se processasse doutro modo, não pelo apodrecimento, mas sim pelo regresso ao que ficou registado nos textos e nas fotografias e nas pinturas; conforme recuássemos, a escrita e as imagens desapareceriam… / …Atravessaríamos assim a nossa própria memória e apagar-nos-íamos no início dela» (Lunário, p. 121). Com o tempo, a obra de Al Berto tem vindo a afirmar-se como uma das principais influências de toda uma geração de poetas que encontraram na sua poesia ecos de uma errância que reanima o mito do poeta maldito, sendo que muito mais relevante do que o mito é a verdade da palavra enquanto encenação da vida. Nesse sentido, não deixa de ser sintomático que Manuel de Freitas se tenha estreado em livro com um ensaio dedicado à obra de Al Berto. Em A Noite dos Espelhos (Frenesi, 1998) a obra de Al Berto aparece devidamente lida e enquadrada, já sem as amarras mitológicas que tantas vezes afundam a poesia na construção da imagem do autor registada pela(s) história(s). Os anos de 1990 foram de consagração literária. Publicou O Anjo Mudo, uma recolha de textos dispersos por revistas, catálogos de exposições, entre outros. Voltei a cruzar-me com o poeta ao som de Gace Jones e no espectáculo Os Filhos de Rimbaud, realizado no Coliseu dos Recreios. Diagnosticado o cancro linfático, houve ainda tempo para ir arrumando a casa com entrevistas, alguns debates e leituras de poesia. Al Berto faleceu a 13 de Junho de 1997, alguns meses depois de ter sido publicado o seu último livro de poemas:


notas para o diário


deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.

sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso das cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precariedade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário ─ o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-se as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas… e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida ─ e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.


Al Berto, in Horto de Incêndio, Assírio & Alvim, Março de 1997, pp. 39-40.

domingo, 10 de janeiro de 2010

PRESSA DE VIVER





[para o Zé, que nunca lerá este poema]


Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
— e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI — que ele decerto
interpretou como um partido de 'tugas
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.

Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-lo
— «tá-se?». Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era «pressa de vive!», garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos
às evidências, ao rosto desse
próximo
que só por bíblico acaso amamos
— quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.

Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.

Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
— e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida.





Manuel de Freitas, in [SIC], Assírio & Alvim, pp. 41-42, Outubro de 2002. Nasceu em 1972, no Vale de Santarém. Mudou-se para Lisboa em 1990, onde concluiu uma licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas. Estreou-se em livro com o ensaio A Noite dos Espelhos – Modelos e Desvios Culturais na Poesia de Al Berto (Frenesi, 1998). A primeira recolha de poemas surgiu dois anos depois na Campo das Letras. Todos contentes e eu também (2000) marcou o início de uma fecunda aventura poética. Desde então, Manuel de Freitas publicou inúmeros livros de poesia, tornou-se numa referência para alguns dos poetas portugueses mais jovens, motivou discussão. Com a organização da antologia Poetas Sem Qualidades (2002), abriu as portas da editora Averno, onde tem publicado alguns dos mais significativos volumes de poesia portuguesa dos últimos anos, assim como a emblemática revista Telhados de Vidro, co-dirigida com Inês Dias, cujo primeiro número viu a luz do dia em Novembro de 2003. Em 2006 foi-lhe atribuído o Prémio Literário Ruy Belo da Câmara Municipal de Sintra. Tradutor, crítico literário, poeta, ensaísta, editor, Manuel de Freitas é, sem dúvida, um dos poetas mais representativos da poesia portuguesa contemporânea. Não coube na Antologia.

sábado, 9 de janeiro de 2010

DEVORADOR DE ASPIRINAS



Muitos portugueses olham com desdém a produção poética brasileira. Eu prefiro desdenhar desse desdém. Metam os olhos em João Cabral de Melo Neto. Nasceu a 9 de Janeiro de 1920 na cidade de Recife. Era primo, pelo lado do pai, do poeta Manuel Bandeira, um dos principais impulsionadores do modernismo brasileiro. Futebolista com pergaminhos, trocou os futebóis pelas tertúlias literárias. Conheceu Drummond de Andrade numa viagem ao Rio de Janeiro, participou no Congresso de Poesia do Recife em 1941 com um breve ensaio intitulado Considerações sobre o poeta dormindo. Em 1942 publicou o primeiro livro, intitulado Pedra do Sono. Mudado para o Rio, foi dispensado, por motivos de saúde, da Força Expedicionária Brasileira. Vemo-lo a trabalhar no Departamento de Administração do Serviço Público. Em 1946 iniciou uma viajada carreira diplomática, casou-se com Stella Maria Barbosa de Oliveira e teve o primeiro de cinco filhos. Viveu em Barcelona, cidade onde adquiriu uma tipografia artesanal com a qual publicou livros de poetas brasileiros e espanhóis. Privou aí com o pintor Miró, dedicando-lhe um ensaio estupendo simplesmente intitulado Joan Miró: «Talvez o mal das academias, hoje, não esteja na mutilação que possam representar para a livre expressão da personalidade. Talvez seu maior mal esteja em sua meio ridícula inutilidade». Em 1968, acabou por ser eleito para a Academia Brasileira de Letras. Em Barcelona, conheceu ainda o poeta e artista Joan Brossa. Partiu para Londres em 1950, mas regressou ao Brasil, dois anos depois, acusado de subversão. Só em 1954 será reintegrado na carreira diplomática. Voltou a Barcelona, andou por Marselha, Madrid, Sevilha, Genebra, Berna, Assunção, no Paraguai, onde viveu três anos, Dakar, Equador, Honduras, Porto ─ publicando nessa altura o ensaio Poesia e composição (1982), na Fenda ─, entre muitas outras cidades do mundo. Entretanto, foi vendo a sua obra reconhecida e premiada, o próprio foi alvo de várias condecorações institucionais. Stella faleceu em 1984. O poeta voltou a casar-se em 1986, com a poetisa Marly de Oliveira. Aposentou-se em 1990, atormentado por terríveis dores de cabeça motivadas por uma doença degenerativa incurável. Dizem que há muito tomava de três a dez aspirinas por dia. Anunciou que iria parar de escrever. É-lhe atribuído o Prémio Camões. Marly escreve o discurso de agradecimento. João Cabral de Melo Neto é assaltado por um estado depressivo sem aparente solução. Morreu no dia 9 de Outubro de 1999. Seja sua a última palavra:

Podemos verificar que o conceito de composição de cada artista, da mesma maneira que seu conceito de poema, é determinado pela sua maneira pessoal de trabalhar. Libertando da regra, que lhe parece, e com razão, perfeitamente sem sentido, porque nada parece justificar a regra que lhe propõem as academias, o jovem autor começa a escrever instintivamente, como uma planta cresce. Naturalmente, ele será ou não um homem tolerante consigo mesmo, e esse homem que existe nele vai determinar se o autor será ou não um autor rigoroso, se pensará em termos de poesia ou em termos de arte, se se confiará à sua espontaneidade ou se desconfiará de tudo o que não tenha submetido antes a uma elaboração cuidadosa.
O espectáculo da sociedade aparecerá a esse jovem autor coisa muito confusa e ele não saberá descobrir, nela, a direcção do vento. Por isso, preferirá recorrer ao espectáculo da literatura. A partir da vida literária que se está fazendo no momento, ele fundará sua poesia. O confrade lhe é mais real do que o leitor. Ora, no espectáculo dessa vida literária ele pode encontrar autores justificando todas as suas inclinações pessoais, críticos para teorizar sobre sua preguiça ou sua minúcia obsessiva, grupos de artistas com que identificar-se e a partir de cujo gosto condenar todo o resto. Aí começa a descoberta de sua literatura pessoal. Essa descoberta é curiosa de acompanhar-se. Primeiro, o jovem autor vai procurando-se entre os autores de seu tempo, identificando-se primeiro com uma tendência, depois com um pequeno grupo já de orientação bem definida, depois com o que ele considera o seu autor, até o dia em que possa dar expressão ao que nele é diferente também desse seu autor. É então neste momento, em que depois da volta ao mundo se redescobre, com uma nova consciência, a consciência do que o distingue, do que nele é autêntico, consciência formada à custa da eliminação de tudo o que ele pode localizar em outros, que o jovem autor pensa ter desencavado aquele material especialíssimo, e exclusivo, com que construir a sua literatura.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

CONTRIBUTO PARA A IMAGINAÇÃO DE VAN ZELLER (2)


Não consigo imaginar como será a fachada da mansão Van Zeller. A mim calhou-me o 3.º esq.º do edifício supra identificado. Meia dúzia de metros quadrados constituídos por uma sala de estar equipada com recuperador de calor, uma cozinha onde cabem perfeitamente dois adultos, dois quartos e um escritório transformado em terceiro quarto, para a criança mais nova não ter de dormir com a mais velha às cavalitas, duas casas de banho, sendo que a mais exígua foi transformada em casa das máquinas, com um antigo polibã a servir de suporte à máquina de lavar roupa. Há ainda um sótão, o meu covil, o meu refúgio, também equipado com uma casa de banho onde é possível aliviar a tripa com o pensamento posto na Confederação da Indústria Portuguesa. Tenho a vantagem, relativamente a muitas famílias obrigadas a puxar pela imaginação para sobreviverem com 450€ mensais, de não ter que pagar casa. O paizinho emprestou-me a guita, eu devolvi-lhe as duas primeiras mensalidades e depois tive de me fazer esquecido. Mas vou-lhe dizendo amiudadamente: querido pai, garanto-te que quando ganhar o euromilhões a primeira coisa que farei será pagar-te o empréstimo dos quinzes acrescido de juros de mora e outros constrangimentos. Ando a dizer-lhe isto há quase dez anos. Ainda que me considere um homem bafejado pela sorte (pela sorte e pelo amor, o que pode parecer sorte de barriga cheia a quem tiver dentes de leite), não há meio de me sair o euromilhões. Portanto, imagine o senhor Van Zeller que se os meus 450€ mensais são chapa gasta todos os meses sem sequer ter renda de casa para pagar, como não será ter uma renda ou um crédito a engordar de dia para dia. Diz o povo e com razão: são muitas bocas a comer e o mar não dá sardinha. Imagine, senhor Van Zeller, imagine se conseguir.

POEMA DA MATERNIDADE

Pode lá ser! Não quero, não consinto!
Tudo em mim se revolta: a carne, o instinto,
A minha mocidade, o meu amor,
A minha vida em flor!

É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
Se o meu corpo consente,
Covardemente,
A minh'alma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
— «Acabou-se! Acabou-se! Agora renuncia:
Começa a tua noite: acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
Perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher! Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor: agora és só raiz.» —
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
Não quero dar vida a quem me traz a morte!
O meu destino há-de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro...

Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro — canto!
Filho que Deus me deu! Porquê, Senhor,
Há só uma palavra: Amor, Amor, Amor?!
Dai-me outra voz que nunca tenha dito
Coisas más, coisas vis... e que saiba a infinito...
Dai-me outro coração, mais puro, mais profundo,
Que o meu já se quebrou de encontro ao mundo...
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
Que não tenha presente nem passado...
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
A vida e a morte... o bem e o mal... e já pecaram...

Filho, por que seria? Ao vires para mim,
Mudaste num jardim
Os espinhos da minha carne triste...
E como conseguiste
Dar uma cor de sol às horas mais sombrias?

Meu menino, dorme, dorme,
E deixa-me cantar
Para afastar
A vida, um papão enorme...
Meu menino, dorme, dorme...

Vamos agora brincar...
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
Já te dei o meu destino,
Posso bem dar-te a Lua.
Toma um navio, um cavalo,
Toma agora o mar sem fundo...
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres, dou-te o mundo!
Mas por que não vens brincar?
Por que preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
Do seu olhar?
Uma vida inquieta e obscura
Anda a queimar-lhe a frescura ...
Ainda hoje, meu filho, não sorriste
E o teu olhar é triste...
Cheiras a noite, a luto, a azebre...

Senhor! O meu filho tem febre!
O seu hálito queima, o seu olhar escalda...
Ele que tinha um olhar de estrela ou de esmeralda
E um perfume de flor,
Agora tem na boca um amargo sabor
E cheira a noite, a luto, a azebre...

Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos olhos toda a luz!
Livrai-me da blasfémia... Deus! Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
Por que há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei-de pôr, de rastros,
Por que estarão tão altos os astros?
Senhor, eu sou culpada… Eu sei o que é o pecado…
Mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado...
Para mim, não há mal que não aceite,
Mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me leite...
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas...
Às vezes, tinha as pálpebras descidas
E punha-se a chorar no meu regaço
Com saudades, talvez, do céu, do espaço...
O meu filho tem febre!
Por que andam a cantar pelos caminhos?
Por que há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
O meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida! Vida! Vida!

Louvado seja Deus! A morte foi-se embora!
Já não tens febre agora!
Louvado seja Deus! O meu menino vive,
Este menino, o meu, que só eu tive!

E pude blasfemar!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino canta e eu posso já chorar!
O meu menino vive e toda a vida canta,
Toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!


Fernanda de Castro, de Trinta e Nove Poemas (1941), in Líricas Portuguesas – 2.ª série, org. Cabral do Nascimento, Portugália Editora, 3.ª edição, Setembro de 1967 pp. 243-246. Casada desde 1922 com António Ferro, o da revista Orpheu, nasceu em Lisboa, a 8 de Dezembro de 1900. Era filha de um oficial da marinha que enviuvou tinha a jovem poeta apenas 12 primaveras cumpridas. Estudou em Portimão e na Figueira da Foz, onde concluiu a quarta classe. O pai parte para a Guiné em 1913. Fernanda de Castro seguirá viagem na companhia da mãe, de saúde já bastante debilitada, e o irmão. A mãe acabará por falecer na Guiné, regressando Fernanda a Portugal para terminar os estudos liceais em Lisboa. Estreia-se nas lides literárias muito cedo, com o livro de poemas Antemanhã (1919). A partir de 1920, começa a frequentar os salões literários de Lisboa. Ao longo da vida, granjeará popularidade como declamadora, poetisa, romancista, dramaturga, novelista, autora de livros infantis, de guiões cinematográficos, conferencista. Um ano depois de estar casada, nasce-lhe o primeiro de dois filhos. António Quadros, de seu nome, revelar-se-á um dos mais destacados ensaístas portugueses. Conviveu com alguns modernistas brasileiros, colaborou com várias publicações, foi a única mulher no núcleo de fundadores da SECTP (actual SPA). A proximidade com o antigo regime, permitiu-lhe também criar e desenvolver a Associação Nacional dos Parques Infantis. Traduziu peças de teatro, Rilke, Katherine Mansfield, entre outros. Em 1969 foi-lhe atribuído o Prémio Nacional de Poesia, mas já anteriormente, em 1945, fora a primeira mulher a obter o prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa, pelo romance Maria da Lua. Escritores como David Mourão-Ferreira, José Carlos Ary dos Santos, Natércia Freire, entre muitos outros, elogiaram a sua obra. Morreu no dia 19 de Dezembro de 1994, acamada e quase cega, dez dias depois de completar noventa e quatro anos de idade. Escreveu praticamente até ao fim da vida. Para uma biografia mais detalhada, sugere-se a leitura destas páginas. Não coube na Antologia.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

CONTRIBUTO PARA A IMAGINAÇÃO DE VAN ZELLER (1)


Com este post, dou início a uma série que pretende ser um contributo, ainda que singelo, para a imaginação do presidente da CIP, senhor Francisco Van Zeller. Ele não consegue imaginar-se a viver com 450€ por mês, mas eu mostro-lhe como se vive com o ordenado mínimo nacional neste país. A ideia, obviamente, não é corroborar a oposição ao aumento do Salário Mínimo, mas tão-somente deixar bem claro que é possível viver com imaginação num país governado por gente sem imaginação alguma. Já suficientemente fodido, eu só não quero que os Van Zeller deste mundo me fodam ainda mais. Não é pois por acaso que escolho para primeiro exemplo o sistema hi-fi cá de casa, garantia de uma réstia de sanidade mental que a toda a hora ameaça ruir. Conquistei-o com o 9.º ano de escolaridade. Sempre foi tradição familiar oferecer música aos filhos que demonstrassem bom comportamento escolar. Eu cumpri e fui aprovado. Tive aquilo a que as minhas irmãs tiveram direito, embora numa versão mais moderna que incorporava, para lá do prato de vinil e do leitor de cassetes, um original leitor de CDs. Sou o mais novo de três irmãos. Fiquei a ganhar. A mais velha só teve direito a vinil, a do meio ainda apanhou um leitor de cassetes. Eu fui o único agraciado pelo digital, já lá vão mais de 20 anos. Portanto, há mais de 20 anos a trazer-me música aos ouvidos, este magnífico aparelho da marca SONY tem sido o garante de muitas alegrias insultadas recorrentemente por aqueles que julgam ser aceitável um mísero ordenado mínimo nacional de 450€ mensais. Em posts subsequentes poderá o senhor Van Zeller verificar que esta conquista não é de todo desprezível, pois o pouco que tenho devo-o às boas tradições familiares que me outorgaram, por herança ou mérito próprio, um certo conforto burguês. Se tivesse dinheiro, investia numa coisa mais modernaça com leitor mp3, som surround não sei das quantas e todas essas merdas que me escapam por não me sobrar tempo para pensar nelas. Tenho de trabalhar para pagar a conta da luz e o preço dos CDs está pela hora da morte. (0)

ELEGIA LENTA


É um homem tépido
escrevendo a horas certas cartas
telegramas cansados palavras
no muro alto palavras desoladas
─ Abriram as rosas ─ disseram-lhe ─
as rosas decotadas do mês.
─ Alegra-te. Todavia
o homem entristece
cava no sangue
reescreve com uma caligrafia
cuneiforme enigmática
poemas de antigas civilizações
Condenaram este homem
mataram este homem
o tráfego leva-o nos braços
as mulheres amam-no muito pouco ou nada
os bêbedos afirmam ─ é nosso
e toda a gente pergunta ─ quem é?




António Barahona da Fonseca, do livro Capelas imperfeitas (1965), in Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, org. M. Alberta Menéres e E. M. de Melo e Castro, Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa, 1971, 3.ª edição, pp. 639-640. Um percurso singular, uma personalidade controversa, um espírito perturbador. Nasceu em Lisboa a 7 de Janeiro de 1939. Oriundo de uma família nobre com ligações à monarquia, teve educação religiosa no liceu. Saiu de casa aos 18 anos. Foi anarquista, comunista, estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, onde conheceu aquela que viria a ser a sua primeira mulher, a poeta Luiza Neto Jorge, durante uma conferência sobre García Lorca. Tinham ambos 20 anos quando se casaram. «Líamos as coisas um do outro. O que é interessante é que depois de nos termos separado – ela voltou a casar, entretanto – depois de passada aquela fase mais difícil, eu era uma visita quotidiana de casa dela. Não havia quase dia nenhum em que eu não a visitasse». Os primeiros livros surgem em edição de autor, patrocinados pela sua avó, na década de 1950. Foram posteriormente renegados. Por essa altura fazia parte do grupo surrealista que se reunia no Café Gelo. A amizade com Herberto Helder levou-o ao contacto com António Aragão, acabando por colaborar nos primeiros números de Poesia Experimental. Da embriaguez surrealista às experiências concretas, de tudo um pouco foi experimentando o poeta que um dia escreveu: «Bebia-se muito bagaço, cafés uma vez por outra, / o sangue podia beber-se à vontade: / bastava cortar as veias às mulheres que se aproximavam». O primeiro livro da bibliografia oficial data de 1961. Intitula-se Insónias e Estátuas. Mais tarde, manteve estreita amizade com o poeta Ruy Cinatti. Após a separação de Luiza Neto Jorge, apaixona-se por Eunice Muñoz. Estamos na década de 1970. Barahona da Fonseca acompanha Eunice numa tournée por África. Casam-se por lá, em Lourenço Marques, após um primeiro e intenso contacto do poeta com o islamismo. Em 1975, já convertido ao Islão, adopta o nome de Muhammed Rashid. Vem igualmente desta época a paixão pelo hinduísmo e pelo sânscrito. Subsidiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, viajou pela Índia, entre 1981 e 1983, onde estudou sânscrito e aprofundou o conhecimento da cultura hindu. O resultado foi o trabalho de uma vida: a transcrição do Poema do Senhor – Bhagavad-Guitá (Relógio D’Água, 1996), acompanhada de introdução, notas e um glossário preciosíssimo. Depois de Eunice Muñoz, conhecem-se-lhe relações de maior proximidade afectiva com Maria Altina Martins, com quem viveu e viajou na Índia, e Maria del Pilar Andalúz y Calderón. Entre tudo isto, a polémica e as tomadas de posição controversas ocupam um lugar de destaque. Dos panfletos de cariz teológico contra a IVG aos elogios a Salazar, há todo um leque de temas abordados de um modo pouco convencional. Ainda que recentemente o poeta tenha declarado um mau entendimento das suas declarações, a verdade é que para a história ficará isto: «a obra Alicerces dos Telhados de Cristal colocou-o ao lado de quem atacava Salman Rushdie pela escrita de Versos Satânicos». Não admira, pois, que lhe tenha sido recusado o lugar de adido cultural em Goa. Menos compreensível será que não tenha cabido na Antologia.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

UM TRONCO DADO À COSTA

Sentei-me na esplanada do oceano à espera que um poema desse à costa. Preparei-me para longa espera com um livrinho de João Cabral de Melo Neto, a reprodução de uma conferência pronunciada em 1952. O livrinho foi publicado 30 anos depois, em Portugal, pela Fenda. Salvo erro, nessa altura o poeta brasileiro era cônsul na cidade do Porto. Poesia e Composição – A Inspiração e o Trabalho de Arte, assim se intitula o texto. Enquanto o poema não dava à costa, fui lendo vagarosamente a prosa de João Cabral. Ele contrapõe dois tipos de poetas, aquele que deixa o poema vir e aquele que se impõe ao poema. O primeiro aceita a inspiração, o segundo transpira; o primeiro produz poemas que são ecos imediatos da experiência, o segundo parte pedra; o primeiro faz do poema um depoimento subjectivo, insurge-se contra a profissionalização da poesia, o segundo violenta-se, amputa-se, trabalha o corte e o recorte da experiência. João Cabral adverte-nos para a impossibilidade das generalizações, concluindo com o reconhecimento de épocas em que «inspiração e trabalho artístico não se opunham», a espontaneidade não prescindia do domínio da lei, para, conhecendo-a, subvertê-la no seu íntimo, buscando uma originalidade que não advinha de inspirações momentâneas mas de um trabalho que inclui a inspiração. Não gosto de comparações com o passado. Geralmente, denotam uma ignorância grosseira do que foram os tempos antigos ou uma perspectiva facciosa acerca dos tempos modernos. Edgar Allan Poe, no ensaio intitulado A Filosofia da Composição, distancia-se de uma suposta maioria de escritores que afirmam compor a partir «de uma espécie de subtil frenesim, ou intuição extática». Para este autor, a originalidade não resultava tanto do impulso e da intuição como de uma trabalhosa procura. Parece-me evidente que este sentido do trabalho poético foi-se perdendo com os tempos. Daí que as palavras proferidas por João Cabral de Melo Neto, em 1952, ainda pareçam válidas nos dias de hoje: «O poeta se isola da rua para se fechar em si mesmo ou se refugiar num pequeno clube de confrades. Como ele busca, ao escrever, o mais exclusivo de si mesmo, ele se defende do homem e da rua dos homens, pois ele sabe que na linguagem comum e na vida em comum essa pequena mitologia privada se dissipará. O autor de hoje, e se poeta muito mais, fala sozinho de si mesmo, de suas coisas secretas, sem saber para quem escreve. Sem saber o que escreve vai cair na sensibilidade de alguém com os mesmos segredos, capaz de percebê-los. Aliás, sabendo que poucos serão capazes de entender perfeitamente sua linguagem secreta, ele conta também com aqueles que serão capazes de mal-entendê-la. Isto é, com o leitor activo, capaz de deduzir uma mensagem arbitrária do código que não pode decifrar». Li estas palavras bem no centro de uma paisagem fria:






Enquanto esperava que o poema chegasse, com a objectividade inspiradora de sempre, João Cabral foi-se perdendo na memória como um eco. Ele era como os pingos de maresia escorrendo na objectiva da máquina fotográfica. Os dias estão cada vez mais obscuros. Não se vislumbra grande coisa para lá da névoa. Somente a luz do farol guiando as ondas que empurram para o naufrágio pequenos troncos de madeira. Como eles, os poemas. Poemas depoimento, poemas testemunho, poemas confessionais, expressionistas, memorialistas, elegíacos, odes, canções, sonetos, baladas, poemas irónicos, satíricos, quotidianos, humorísticos, épicos, anedóticos, prosaicos, herméticos, claros como a morbidez das águas, metafóricos, cirúrgicos, clínicos, poemas invertidos, irracionalistas, desesperados. Os adeptos da autenticidade e da sinceridade serão sempre os primeiros a concordar com a ideia do poeta fingidor, pois neles nada há de mais sincero e autêntico do que fingir que se finge. Já eu, aqui à espera que o poema chegue e adepto de pouco mais que a minha insanidade, procuro apenas não escrever com medo, procuro não escrever a evitar a comparação, porque há algo que nos liga a todos indelevelmente. Não necessariamente um eco, talvez o movimento natural da respiração. Mas olho para fora de mim e vejo a Quitéria, também ela à espera de algo. Talvez à espera do seu poema. Talvez um novo amor, lançado ao mar em dia de tempestade. Estes troncos dados à costa são barcos de areia afundados na superfície da morte. Bem daqueles que flutuam no horizonte e ninguém sabe vivos senão por percebê-los à distância de uma luz que sinaliza a sua presença. Podemos pois todos ficar à espera que o poema se dê, podemos partir à procura do poema. Ser encontrado pelo poema ou encontrá-lo é hoje pouco mais que indiferente. Poucos, muito poucos, o lerão. Talvez eu sentado à beira do oceano, talvez tu, já morto, naufragando como um tronco dado à costa.

MEMÓRIA DO PRESENTE

25.
Pelo cão!
Hoje aconteceu-me o facto mais importante
de toda a vida geográfica do meu corpo:
cerceei a minha dionisíaca barba até à novidade,
sendo apenas magnânimo com o indefeso bigode.
Dizem os da casa que me encontro irreconhecível:
sofri sem dúvida um verdadeiro e higiénico avatar,
sou um outro homem renascido inopinadamente,
um outro travo biológico de esperança isenta
...a recém descoberta de uma insólita leviandade!

Se não fossem os pêlos implantados no rosto,
o que seria de mim sem tão benéfico auxílio?
Não poderia fugir à monotonia do quotidiano,
nem tão-pouco efigiar mais ou menos exemplarmente
as mais esquipáticas figuras ou faces fictícias:
personagens ambíguas do sonho real que vivo,
justificações sãs da minha pirética estesia.

Hoje sou a pintura suave e verde de Modigliani,
trago o bigode vincado na aridez do meu fácies,
duas rugas côncavas a estiolar a harmonia da cor,
uns lábios belfos e vermelhos fesceninos de dor,
uns olhos garços tauxiados na placidez do rosto.
No coração sobressai o amarelo obeso de van Gogh,
o sexo é um magento osso daliano em convulsões,
as pernas são devaneios matizados de Kandinsky,
os braços dois cones azuis aplainados de Picasso.

Sou agora a pintura universal e humana,
o meu corpo a tela em constante viagem,
o pintor é o sibilino tempo da estiagem,
o último quadro o estertor rouco da agonia;
um féretro pesado de difíceis recordações,
uma cova da última emoção, uma plangente alegria.


Silva Carvalho, in Memória do Presente, Brasília Editora, Porto, 1977, p. 41. Pobre desgraçado. Nasceu a 8 de Fevereiro de 1948 em Vila do Conde. Frequentou a Universidade de Coimbra antes de se exilar em Paris, em 1969. Regressou a Portugal em 1975, licenciando-se em Filologia Românica. Foi professor do ensino secundário, Leitor na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara, E.U.A. (1985-89), na Universidade de Goa, Índia (1990-91) e na Universidade de Massachusetts, Dartmouth, E.U.A. (1997-2001). Leccionou na Escola Secundária de Santa Maria, em Sintra, até 2008. Publicou na Black Sun, na Fenda, entre outras editoras ditas de circulação restrita. Não coube na Antologia.

PENHORE OS SEUS BENS, E VIVA NO REAL


Francisco Van Zeller terminou a sua liderança da Confederação Industrial Portuguesa (CIP), iniciada em 2002, e deu uma das suas poucas entrevistas ao último Diário Económico do ano de 2009 (31 de Dez/2009), ano em que manifestou a sua oposição ao aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN). O que não o impede de fazer a afirmação extraordinária que recebeu destaque de primeira página. Se FVZ se refere à incapacidade de viver com esse valor por mês, não será por falta de imaginação, mas sim por falta de capacidade de observação da arraia miúda à sua volta. Presumo que não se confronte com a pobreza de quem trabalha nas suas deslocações de Mercedes ou BMW entre a sua vivenda ou condomínio fechado e os escritórios da CIP. Presumo que a sua afirmação não se refere à incapacidade de imaginar-se a manter o mesmo nível de vida auferindo o SMN. Só a roupa que traz vestida deve rondar esse valor. Porque recusa o aumento do SMN? (a resposta está aqui)